Elira Sunblade: A Ascensão da Deusa do Sol
1 CAPITULO I: A ÚLTIMA DE NÓS
Prelúdio: A Cidade Caminhante
Diz-se entre os mais velhos que, se você andar por tempo demais pelas florestas de Valenwood, começa a ouvir os galhos sussurrando segredos que nem os deuses ousam repetir. Lá, o vento não sopra, ele canta. E sob a canção das folhas, escondida do mundo dos homens, ergue-se Falinesti, a Cidade Caminhante.
Construída sobre o dorso de uma colossal árvore Graht-Oak, Falinesti não é apenas um lar é uma entidade viva. Suas raízes dançam sob a terra, e seus galhos se entrelaçam como dedos de anciões contadores de histórias. No coração da floresta, ela se move em silêncio a cada estação, levando consigo casas, pontes suspensas, jardins encantados e segredos antigos demais para serem lembrados pelos mortais.
As passarelas da cidade, feitas de cipós encantados, se entrelaçam entre os troncos como serpentes obedientes. As casas são como ninhos esculpidos em flores e madeira viva, respirando junto com a árvore que lhes dá abrigo. E no centro, uma luz dourada pulsa de dentro de um santuário antigo, dizem que é o coração da própria floresta, protegido pelos elfos há gerações.
Mas nem mesmo a magia de Falinesti é suficiente para conter a ameaça do mundo exterior. Ao leste de Skyrim, onde o gelo beija as fronteiras da floresta, a tensão entre os povos cresce como erva daninha. Os elfos da floresta são vistos como selvagens, traidores ou, na melhor das hipóteses, seres que não deveriam existir. O preconceito, inflamado pelos conflitos antigos entre nórdicos e elfos, transforma a floresta em refúgio... e prisão
Mas Falinesti não é apenas abrigo, é um templo.Ali se encontra o principal centro de culto à Deusa Solar, divindade venerada por todos os elfos da floresta. Desde tempos imemoriais, os elfos prestam reverência à luz dourada da deusa, que representa a vida, a verdade, o renascimento e a proteção contra as trevas que rastejam por entre as raízes do mundo. Toda criança, ao nascer, é apresentada ao santuário solar. Toda manhã, as preces ecoam como cantos de pássaros dourados entre os galhos da cidade viva.
Elira Sunblade nasceu sob essa luz. E desde o primeiro choro, o brilho do sol parecia mais quente ao seu redor.
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Falinesti, manhã de orvalho
O sol ainda engatinhava entre as copas vivas de Falinesti quando Elira já estava de pé, espada de madeira na mão, golpeando uma árvore como se ali estivesse o próprio mal encarnado.
— Você não vai escapar, criatura das sombras! Eu sou a luz da Deusa Solar! — gritou, girando a espada e derrubando um galho seco com força de gente grande.
— Elira! — veio a voz cortante, como uma flecha bem lançada.
Ela congelou. Deu tempo só de esconder a espada atrás do corpo antes da figura alta e imponente do pai aparecer entre as folhas.
— Treinando sozinha de novo?
— Não é sozinho se a Deusa tá me vendo, né? — respondeu, com um sorrisinho torto, o rosto já suado e a franja grudada na testa.
Telian estreitou os olhos. Caminhou até a filha, pegou a espada de madeira da mão dela com calma… e quebrou no joelho.
— O que eu já disse sobre disciplina?
— Que ela é chata? — retrucou Elira, cruzando os braços.
Telian não respondeu de imediato. Ao invés disso, tirou das costas um arco simples, mas bem-feito, e uma aljava pequena com algumas flechas.
— Chegou a hora de você aprender de verdade. Chega de brincadeira com pau de madeira. Aqui está sua arma.
Elira franziu o nariz.
— Um arco?
— Somos elfos, Elira. Guerreiros da floresta. Silenciosos, precisos. O arco é nossa herança. Ela pegou o arco com hesitação, como quem recebe um presente errado no aniversário.
— Mas eu sou boa com espada… muito melhor.
— E você vai ser medíocre com ela se não aprender o que precisa primeiro — retrucou Telian, seco. — Agora, mira naquele tronco ali. Vai.
Elira se posicionou. Puxou a corda. Mirou… mais ou menos. Soltou. A flecha saiu girando, torta, e caiu dez metros antes do alvo.
— Droga!
— Cotovelo mais alto. Respiração contida. De novo.
Ela tentou outra vez. Errou de novo. A frustração queimava como se tivesse flecha virando pra dentro. O pai apenas apertava os olhos, cada vez mais calado.
Na terceira tentativa, a flecha saiu pra trás.
— Argh! — Elira jogou o arco no chão. — Eu odeio isso!
— Você odeia porque não se esforça o bastante! — rugiu Telian. — Guerreiros não se guiam pelo que querem. Se guiam pelo que precisam fazer!
— E quem decide isso? Você? A floresta? E se eu for diferente, pai? E se eu não quiser ser como todo mundo?
O silêncio que veio depois foi tão denso quanto a névoa da manhã. Telian pegou o arco do chão e se afastou.
— Se quiser brincar de guerreira, faça isso longe da minha vista.
Elira ficou parada, com os punhos cerrados. Os olhos não choravam — queimavam.
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Mais tarde, na cozinha aquecida pelo fogo de lenha e cheiro de chá de folhas doces, Mariel mexia um pequeno caldeirão. Elira chegou, desanimada e com os braços arranhados.
— O arco não gosta de mim — soltou.
— Hmm... então hoje é quarta-feira — respondeu Mariel, rindo de leve.
Elira se sentou e olhou para o chão.
— Ele não me escuta, mãe. Ele só quer que eu seja o que ele quer.
Mariel largou a colher de madeira, ajoelhou-se ao lado da filha e segurou suas mãos.
— Seu pai... tem medo. Medo de que, se você sair do caminho que conhece, você se perca.
— Mas eu já tô fora do caminho — murmurou Elira. — Eu sou grande demais, forte demais… e sinto... coisas diferentes.
— Você é uma fagulha em brasa, minha filha. Só precisa aprender onde queimar sem se apagar.
Elira sorriu pela primeira vez no dia.
— Um dia ele vai ver. Um dia eu vou ser mais que boa com espada. Eu vou ser... lendária.
Mariel acariciou seus cabelos, orgulhosa.
— E eu estarei aqui pra ver cada passo. Inclusive os fora do caminho.
Lá fora, o céu se abria em dourado, e os pássaros cantavam como se soubessem de algo.
Elira olhou pra cima, fechou os olhos e sentiu o calor.
E naquele instante, ninguém percebeu nem ela mesma, mas uma fina partícula de luz brilhou em sua pele, quase imperceptível. Como se o Sol a tivesse tocado… só por um segundo.
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