A loja de Mariel sempre teve um ar acolhedor, quase mágico. As prateleiras entalhadas em madeira guardavam frascos coloridos com líquidos que variavam do âmbar profundo ao azul reluzente. O aroma de ervas secas e flores recém-colhidas pairava no ar, misturado ao cheiro leve de tinta de pergaminho fresco. Pequenos feixes de luz solar atravessavam as janelas estreitas, criando desenhos dourados no chão de pedra gasta. Era um lugar modesto, mas cheio de vida e história.

Naquele fim de tarde, a porta se abriu com um rangido sutil, e Aelith adentrou com sua filha mais nova, Ellin, aninhada nos braços. A menina dormia, o rostinho pálido apoiado no ombro da mãe. Sunwen, a filha mais velha, andava colada à saia de Aelith, os olhos arregalados, como se tudo na loja fosse novo e na verdade, era mesmo. Os frascos brilhantes, as estantes altas e o caldeirão no fundo da loja, que borbulhava com uma poção dourada, tudo chamava sua atenção e, ao mesmo tempo, a deixava encolhida.

Elira estava atrás do balcão, fingindo arrumar os frascos, mas na verdade observava a menina tímida com curiosidade. “Sempre esconde o rosto... parece um gatinho assustado”, pensou. A diferença entre elas era evidente. Elira, mesmo nova, tinha presença. Já Sunwen era quase como uma sombra, delicada, silenciosa, e sempre meio escondida.

— Aelith! — exclamou Mariel, saindo de trás da cortina que dava para o fundo da loja, com as mãos manchadas de pó lilás e um sorriso genuíno. — Entre, entre... como ela está hoje?

Aelith ajeitou Ellin nos braços, olhando para a amiga com os olhos cansados, porém agradecidos.

— Dormiu no caminho... mas teve febre a noite toda. Está cada vez mais difícil, Mariel. A poção ajuda, claro que ajuda, mas ela não segura mais como antes...

Mariel se aproximou, tocando de leve a testa da criança com a ponta dos dedos.

— A febre está mais forte mesmo... — murmurou, preocupada. — Eu usei um ingrediente novo na última leva, talvez consiga melhorar a fórmula. Mas...

— Eu não tenho mais como pagar o valor cheio, Mariel — disse Aelith, com um nó na garganta. — Eu... eu andei vendendo algumas coisas da casa. Sunwen até colheu flores pra vender na praça. Eu sei que você já faz um preço mais baixo, mas...

Mariel a interrompeu, abraçando-a com força.

— Ei... você é minha amiga há anos. Eu nunca deixaria Ellin sem a poção. Você vai levar hoje, sim, e depois a gente vê como resolve. Não precisa vender mais nada, ouviu? — disse, com os olhos marejados. — Eu só não consigo dar de graça porque os ingredientes vêm de longe, e... o preço aumentou demais. Mas vou dar um jeito, Aelith. Pela Deusa, eu vou.

Sunwen, encolhida num canto da loja, escutava tudo em silêncio, segurando uma flor que havia colhido. Elira olhou pra ela de novo. Dessa vez, a menina levantou os olhos por um breve instante —e seus olhares se cruzaram. Elira piscou. Sunwen se assustou e desviou o olhar, corando.

“Ela é engraçada... parece um esquilo”, pensou Elira, lutando contra a vontade de rir.

Mariel preparou a poção rapidamente, entregando o frasco com delicadeza. Aelith, agradecida, partiu com as filhas. Elira as viu pela janela, e seu olhar ficou preso naquela menina esquisita e silenciosa. Tinha alguma coisa ali que cutucava sua curiosidade.



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Na manhã seguinte, Elira estava na floresta, brandindo sua espada de madeira como se enfrentasse um exército imaginário. Seus cabelos presos em uma trança saltavam a cada movimento, e o suor brilhava em sua testa.

— YAH! — gritou, girando e golpeando um tronco caído. — Você nunca vai me pegar, Rei Sombrio!

Mais adiante, entre arbustos, Sunwen colhia flores com cuidado. Ela falava baixinho com um esquilo que a observava de uma pedra.

— Não tenha medo... eu só quero as flores. Você pode ficar com as sementes se quiser — sussurrou, estendendo a mão.

Um estalo de madeira fez a menina virar, assustada. Elira a viu.


— Ei! Você é a menina da loja! A que parece uma flor assustada!


Sunwen arregalou os olhos e se escondeu atrás de um arbusto.

— Ei, espera! Eu não vou te machucar! — Elira correu até ela, mas parou a uma distância respeitosa. — Eu vi você outro dia. Você colhe flores?

Silêncio. Depois, um aceno tímido.

— Eu sou Elira. Minha mãe é a Mariel. E você é...

— Sunwen — ela respondeu baixinho, como se estivesse contando um segredo ao vento.

— Sunwen... bonito nome. Parece nome de fada.

Sunwen corou. Elira sorriu.

— Quer ver minha espada? Não é de verdade ainda, mas um dia vai ser. Eu vou ser guerreira. A melhor da cidade!

Sunwen olhou a espada, depois para Elira, depois para as flores em sua cesta.

— Você quer... uma flor? — perguntou, estendendo uma azul-clara com hesitação.

Elira pegou como se fosse um tesouro.

— É a mais bonita que eu já vi. Obrigada, Sunwen das Fadas.

— Eu... eu não queria atrapalhar. — A voz dela era quase um sussurro.

— Não tá atrapalhando, ué. Só achei estranho. Você sempre tá se escondendo por aí. Parece um espírito da floresta.

— Eu só... eu venho colher flores. Pra vender. Lá no centro.

Elira apoiou a espada no ombro, encarando a menina por alguns segundos. Ela era miúda, delicada como as flores no cesto, com os olhos grandes e assustados de um bichinho selvagem. Mas havia algo firme ali também. Algo que aguentava firme mesmo com medo.

— Cê colhe essas flores todo dia?

Sunwen assentiu.

— Pra ajudar minha mãe a comprar uma poção... pra minha irmã.

Elira franziu o cenho, inclinando a cabeça.

— A poção... aquela azulada, que brilha? Vi sua mãe comprando ela. Minha mãe disse que é cara. — A elfa deu uma pausa, pensativa. — O que que sua irmã tem?

O silêncio que se seguiu não foi por falta de resposta, mas por peso. Sunwen olhou pro chão. A mão dela apertou a alça do cesto com força.

— Ela... ela não respira direito. Às vezes, parece que o ar não entra. Fica com os lábios roxos. E quando ela dorme, minha mãe tem que ficar acordada, vigiando. Ela quase morreu quando nasceu. Disseram que não ia durar. Mas ela tá viva. E é por causa da poção.

Elira se calou, o sorriso debochado sumindo. Ela olhou o chão por um momento, depois devolveu os olhos pra Sam.

— E você ajuda assim... vendendo flor?

— É o que eu posso fazer — respondeu a menina, firme, apesar da voz baixa.

Houve outro momento de silêncio, mas dessa vez era confortável, carregado de algo novo entre as duas. Elira deu um suspiro e jogou a espada de madeira no chão com um baque seco.

— Tá. Me ensina a colher essas flores direito. Aí depois eu te ensino a lutar.

Sunwen piscou, surpresa.

— Você quer... ajudar?

— Não. Eu só tô interessada nas flores. São... bonitinhas. — Elira disse, desviando o olhar, meio emburrada. — E talvez, só talvez, você pareça menos esquisita quando aprender a dar uns golpes decentes.

Sunwen sorriu. Pequeno no começo, mas cresceu até virar um sorriso de verdade daqueles que aparecem pouco, mas quando vêm, fazem o mundo parecer um lugar bom.

— Tá bom, Elira. Mas só se você não pisar nas margaridas. Elas são sensíveis.

— Ah, ótimo. Agora além de arqueira, eu viro jardineira.

E as duas seguiram floresta adentro, uma com o cesto e a outra com a espada, como se aquele fosse o primeiro dia de uma longa e poderosa jornada. Porque era mesmo.


O sol já estava se pondo, e os passarinhos faziam algazarra nos galhos enquanto Elira e Sunwen colhiam as últimas flores do dia. A cesta já tava até transbordando, toda colorida, como se tivessem juntado primavera à força ali dentro.

Sunwen já ria mais fácil, gesticulava enquanto falava e até arriscava umas piadinhas meio bobas, meio fofas. Elira, por outro lado, tava estranhamente de bom humor, coisa rara.

— Tá vendo? Cê não é tão esquisita assim quando para de parecer um fantasma assustado — provocou Elira, dando um peteleco numa flor do cesto.

— E você não é tão metida quando não tá tentando parecer a heroína de uma história brega — rebateu Sunwen com um sorriso torto.

— Heroína não, guerreira lendária. Tem diferença.

— Ah, claro. Desculpa, senhora espada solar.

Elira soltou uma gargalhada e jogou a espada de madeira pro chão com um baque leve.

— Bora. Agora que cê já me ensinou a não matar margaridas, é minha vez de ensinar a você como não morrer segurando uma espada.

— Isso foi uma ameaça?

— Não.....talvez!!

Sunwen olhou a espada de madeira com a hesitação de quem encara uma cobra. Pegou o cabo como se fosse de vidro. Elira ergueu a dela, com um sorriso empolgado.

— Tá, primeira coisa: postura. Abre mais essas pernas aí. Isso, mais. Cê parece uma cegonha manca.

— Eu não sei fazer isso, Elira...

— Claro que sabe. Só precisa pensar menos. Me imita.

A primeira tentativa foi desastrosa. Sunwen girou o pulso errado, tropeçou no próprio pé e quase bateu com a cara no chão. Elira tentou segurar a risada,tentou mesmo mas falhou miseravelmente.


— Ok, ponto positivo: você fez um inimigo rachar de rir. Ponto negativo: você morreu no primeiro segundo da luta.

— Isso é difícil! — resmungou Sunwen, bufando.

— Ninguém nasce sabendo, florzinha. Cê só precisa pegar o jeito.

Treinaram por mais um tempo, entre risadas, reclamações e algumas tentativas decentes da Sunwen. Até que, num momento mais animado, Elira decidiu brincar.

— Beleza. Agora você vai me atacar. Vai! Me dá o seu pior golpe!

Sunwen avançou com a espada de madeira, desengonçada, como se estivesse empunhando um peixe. Elira desviou rindo, girou e rebateu com um golpe leve no ombro da amiga.

— De novo!

Mais uma tentativa. Elira desviou de novo, e dessa vez bateu de brincadeira na cintura dela.

— Você é péssima nisso! Tá parecendo minha avó bêbada num casamento.

Sunwen avançou com mais coragem, e Elira, empolgada, revidou com um golpe que… passou um pouco do ponto.


THACK!


A espada de madeira acertou o braço de Sunwen com força demais. O som seco fez a floresta silenciar por um segundo. Sunwen cambaleou, soltou a espada, e levou a mão ao braço com um gemido abafado.

— Ai...

— Ah, merda! — Elira largou a espada e correu até ela. — Sunwen! Eu... eu não queria! Foi sem querer, juro! Eu só tava brincando, você tá bem? Me perdoa , por favor!

Sunwen fez que sim com a cabeça, apertando os lábios, claramente tentando não chorar.

— Foi só um susto... eu tô bem.

— Seu braço tá todo vermelho! Eu sou uma idiota. Merda, merda, merda...

— Ei. — A voz de Sunwen saiu baixa, mas firme. — Não foi tão forte assim. Espera.

Com a mão livre, ela enfiou os dedos no bolso da saia e tirou uma folhinha verde, achatada. Desfez com cuidado entre os dedos, esfregou sobre o machucado, e depois assoprou devagar.

Elira ficou de boca aberta, agachada ao lado.

— Cê é uma curandeira e não me falou?

— Não sou. Mas minha mãe me ensinou algumas coisas. Eu gosto de plantas. Elas não gritam quando você erra.

— Tá brincando comigo?

— Um pouco — respondeu Sunwen, e finalmente deu um sorriso.

Elira riu aliviada, ainda de olhos arregalados.

— Sunwen... você é cheia de surpresas.

Sunwen deu um sorrisinho discreto, mas antes que qualquer outra palavra pudesse nascer ali, uma voz firme e grave cortou o ar:


— ELIRA.


Elira congelou. O sangue gelou nas veias. Ela reconheceria aquele tom em qualquer floresta do mundo.


Telion.


Ele saiu da trilha como uma tempestade contida, os olhos como lâminas, varrendo a cena. Viu a espada de madeira no chão. Viu Sunwen sentada. Viu o machucado. Entendeu.

— O que aconteceu aqui?

Elira se levantou devagar, tentando manter a compostura.

— Foi um acidente, pai. Eu tava só...

— Você machucou ela.

— Eu não quis! A gente tava brincando!

Telion respirou fundo. Quando falou, a voz era firme como uma parede.

— Eu já te disse que essa coisa de espadas não é brincadeira, Elira.

— Foi leve! Eu não fiz de propósito!

— Você não sabe medir sua força. E isso, um dia, vai custar caro. Pra você... ou pra alguém como a Sunwen.

Elira franziu a testa, se inflando como um gato acuado.

— Alguém como a Sunwen? O que isso quer dizer?

— Quero dizer... que ela é uma menina gentil. E não uma guerreira de treino. Ela não devia ter saído daqui ferida.

Sunwen se encolheu, quieta, olhando pro chão. Não ousava interromper.

Elira, por outro lado, não recuou.

— E eu não sou uma criança frágil! Eu tô tentando aprender! Eu tô tentando fazer algo que preste!

— E feriu alguém no processo.

— Foi um erro! Eu tô aprendendo! Como você queria que eu aprendesse se não posso errar nunca?

Telion permaneceu em silencio por um momento. Seu olhar é mais frio e autoritário do que nunca.

— O que eu quero... é que você entenda a responsabilidade do que carrega nas mãos. Uma espada, Elira... nunca é só madeira. Nem quando parece.

Elira engoliu em seco. Sua raiva era uma brasa incandescente que se misturava com culpa e frustração.

— Um dia, pai... eu vou te provar que eu consigo.

Telion não respondeu. Apenas fez um gesto com a cabeça, indicando que era hora de ir.

Elira lançou um olhar para Sunwen pedindo desculpas, talvez, ou agradecendo pela paciência, ou só... por estar ali.

Sunwen assentiu, ainda sentada, com a erva nas mãos.

E Elira se afastou com o pai. Mas dentro dela, uma certeza crescia como chama que recusa apagar

Ela não ia ser definida pelos erros.

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