Elira Sunblade: A Ascensão da Deusa do Sol

3 CAPÍTULO III: A ORAÇÃO PARA A DEUSA DO SOL


CAPÍTULO III: A ORAÇÃO PARA A DEUSA DO SOL

A porta da frente bateu com força, fazendo a casa inteira estremecer. Telian entrou com o cenho franzido, as botas marcando o chão como se quisessem furar as tábuas. Atrás dele, Elira caminhava cabisbaixa, segurando a espada de madeira como se fosse um crime.

Mariel apareceu no corredor, preocupada.

— Telian? O que foi isso?

Ele soltou um suspiro fundo, mas foi direto ao ponto:

— A filha do Vareth... ela tá com o braço ferido. Culpa de Elira com essa espada idiota.

Elira murchou ainda mais, apertando o cabo da arma improvisada.

— Eu... eu não queria machuca-la. A gente tava só brincando... ela disse que queria treinar também, e...

— Brincando? Com uma espada? Isso lá é brincadeira de menina da sua idade?— a voz dele ficou ríspida, amarga. — você fica por aí, brandindo essa espada no ar como se fosse um daqueles.... Um daqueles nórdicos....

Mariel tentou intervir:

— Telian, calma. Você sabe que Elira só...

— Não, Mariel. Chega. — Ele virou-se para a filha, apontando para a espada. — Isso não é brinquedo. E não é futuro para uma elfa. Você devia estar aprendendo magia, se conectando com as raízes da floresta, com a luz da Deusa... mas não. Tá aí, com essa madeira tosca, sonhando em cortar coisas.

Elira sentiu os olhos arderem, mas não chorou. Apertou os lábios e encarou o chão.

Telian bufou e completou:

— Amanhã vocês duas vão ao templo. O sacerdote da Deusa do Sol vai falar com as crianças. Talvez ouvindo da boca dele, você entenda alguma coisa. Porque de mim... parece que não escuta mais nada.

Ele saiu da sala com passos duros, deixando um silêncio denso no ar.


Mais tarde, já no breu da noite, Mariel entrou no quarto de Elira sem fazer barulho. A menina estava deitada de lado, ainda vestida, com a espada de madeira largada no chão.

— Ei... — sussurrou a mãe, sentando na beirada da cama. — Posso?

Elira não respondeu, mas também não mandou embora. Mariel ficou ali um tempo, passando a mão devagar nos cabelos da filha.

— Seu pai... às vezes ele fala mais com o medo do que com o coração. Ele vê você crescendo tão diferente do que ele imaginava... e tem medo de não conseguir te guiar mais.

Elira finalmente falou, num fio de voz:

— Mas eu só queria brincar com ela. Eu não bati com força... eu juro.

— Eu sei, meu amor. Às vezes, até uma flor corta se for pega errado. E você... você tá crescendo com espinhos. Mas também com luz. Só precisa aprender quando usar um, e quando usar o outro.

Mariel fez uma pausa suave, e então sorriu com ternura:

— Era a filha do Vareth e de Aelith, né? Como que era mesmo o nome dela... Ah, Sunwen..., certo?

Elira hesitou. Corou até a ponta das orelhas, e respondeu com a voz meio engasgada:

— É...

— E? — Mariel provocou com um tom leve. — Você conseguiu fazer amizade com ela, então?

Elira se remexeu no colchão, puxando a coberta até o queixo, como se quisesse se esconder no próprio corpo.

— Acho que sim... — respondeu, tímida, os olhos brilhando no escuro. — Ela é... legal. Quis brincar comigo. Mesmo depois... mesmo depois do ferimento — ela sorriu.

Mariel sorriu também, com o coração quentinho.

— Fico feliz. Uma amizade doce... é dessas que a gente guarda pra vida inteira.

Elira virou-se devagar, encarando a mãe no escuro.

— Você acha que eu sou errada?

— Eu acho que você é intensa. E tem medo de errar. Mas eu te conheço, Elira. Eu vejo a luz aí dentro. A mesma luz que um dia vai brilhar pra Deusa.

Mariel beijou a testa da filha e levantou-se, apagando a lamparina antes de sair.

— Amanhã, escuta o que o sacerdote vai dizer. Talvez você descubra mais sobre si mesma do que imagina.

E a noite voltou a envolver tudo em silêncio. Mas agora, um silêncio menos pesado. Um silêncio esperando por algo, talvez um sussurro divino, talvez só o próximo passo.


---


Na manhã seguinte:


O templo da Deusa do Sol se erguia no centro de Falinesti como uma joia dourada cravada no coração da cidade. Suas torres finas cortavam o céu entre as copas das árvores, refletindo a luz do dia em mosaicos de ouro e âmbar. As paredes eram entalhadas com runas élficas tão antigas quanto o tempo, brilhando levemente com a magia que ainda pulsava nelas. O ar ali era mais leve, como se os próprios ventos sussurrasse orações esquecidas.


Elira subia os degraus de pedra polida ao lado de Mariel, o vestido limpo, mas os pensamentos um caos. Crianças e jovens da cidade também estavam ali, todos guiados por pais, professores e sacerdotes em túnicas claras. A cerimônia era um ritual de passagem, um chamado da luz para aqueles que cresciam na sombra da dúvida.

No centro do templo, sob um grande vitral que filtrava a luz em tons de laranja e dourado, erguia-se uma estátua magnífica da Deusa do Sol. Ela tinha braços abertos, rosto sereno e olhos feitos de cristal âmbar que pareciam observar cada alma ali com doçura e firmeza.

E aos pés da estátua, havia algo ainda mais impressionante: um pedestal de pedra branca com inscrições antigas... e sobre ele, uma espada...


Não era uma espada comum.


A lâmina parecia forjada da própria luz do sol dourado, suave e viva. O cabo tinha símbolos solares, e uma aura quente pulsava ao redor dela, como se respirasse. Nenhuma proteção mágica visível a cercava, mas era claro: ninguém ousaria tocá-la. Era a Sunblade. A relíquia que, segundo as lendas, só seria empunhada pela escolhida da profecia.

Elira sentiu o corpo inteiro arrepiar. O coração disparou como se quisesse gritar dentro do peito. Pela primeira vez, ela não se sentiu errada. Só... fora de lugar. Como uma peça que ainda não encontrou o encaixe.

O som dos sinos solares ecoava suavemente, enquanto fiéis se agrupavam ao redor. Crianças, mães, jovens e velhos. Entre eles, Mariel, ao lado de sua filha Elira, que observava tudo com uma postura imponente e um olhar inquieto. Aelith, próxima, segurava Ellin, a caçulinha febril, enquanto Sunwen se aproximava em silêncio, desviando dos olhares, mas se posicionando discretamente ao lado de Elira.

A tensão entre as duas era invisível para os outros, mas palpável entre elas.

No altar, o sacerdote Daerion caminhava com suas vestes douradas, erguidas pela brisa quente que parecia dançar ao redor da lâmina sagrada. Ele ergueu a mão, exigindo silêncio com um gesto dramático.

— Abençoados sejam os que caminham sob a luz da Deusa Solar. Ela, a fonte da vida, a chama eterna que afasta as trevas da noite. Hoje, como todos os anos, celebramos o pacto da luz e reverenciamos a espada sagrada que aguarda A Escolhida. —

Uma pausa dramática. Daerion caminha em volta da Sunblade e continua:

— A lâmina solar foi selada aqui, neste templo, pela vontade divina. Nenhuma mão impura a de toca-la. E somente aquela cujo espírito arde com a chama da Deusa será digna de empunha-la.—

Algumas crianças cochicham. Ele sorri com condescendência

— Ah, a curiosidade dos jovens... Mas saibam, pequenos, que há mais do que lendas. Houve, outrora, duas deusas. A deusa da noite, mãe do engano, da morte e das sombras, tentou destruir a criação. Mas nossa deusa solar a derrotou, lançando sua irmã nas profundezas da escuridão eterna. —

Sunwen olha pra Elira, desconfiada. Elira franze o cenho.

Daerion continua: — A primeira profecia foi dita por uma anciã misteriosa, há séculos. Uma mulher... ninguém sabe seu nome. Apenas que a luz falou por sua boca. Disse que, um dia, nasceria uma guerreira cuja alma queimaria com a luz do próprio sol. Ela surgiria das cinzas de um tempo corrompido... E guiaria o mundo contra o retorno da noite. —

Daerion se aproxima do público

— Por isso, seguimos os rituais. As oferendas de fogo, as meditações ao nascer do sol, o jejum nas noites sem lua. Cada gesto nosso é um lembrete de que a luz exige disciplina, pureza... e ordem. —

Ele olha de soslaio para Elira, com visível desprezo.

Mariel observa Daerion com um olhar desconfiado. Ao seu lado, Aelith está ajoelhada, segurando Ellin contra o peito. A menininha respira com dificuldade, pele pálida e suada.

Aelith fecha os olhos e faz a sua prece para a Deusa com toda a sua fé.

— Deusa do Sol, cure minha pequena. Leve essa febre, essa fraqueza. Traga a luz para dentro dela... —

Mariel se aproxima suavemente

— Ela vai melhorar, Aelith. Eu preparei outra infusão. Se não funcionar, procuramos outra raiz, outro caminho. Enquanto houver calor no peito, há esperança. —

Aelith com os olhos marejados já prestes a chorar desaba.

— Você sempre diz isso... Mas eu vejo a luz se apagando nela. —

Sunwen ouve, mas finge não esta prestando atenção. Elira observa a amiga com um semblante preocupado.

Ela se aproxima mais de Sunwen e toca em seu ombro.

— Ela vai ficar bem. — Sunwen ainda com os olhos grudados no chão responde com uma voz suave.

— Não sei se acredito nisso. Mas.. quero acreditar. Quando você fala, parece mais fácil. —

Elira cora um pouco quando escuta a fala da amiga

— Não tenho muita fé. Mas tenho raiva suficiente pra mover montanhas se for preciso. —

Sunwen ri de leve, quase imperceptivelmente

— Isso parece com você. —


Os fiéis se dispersam um pouco, murmurando preces ou apenas aproveitando a beleza do local. Daerion ainda está perto da Sunblade, como se estivesse de guarda pessoal da lâmina. Elira observa o brilho da espada por uns segundos, antes de franzir a testa e se aproximar com a mãe, que já começa a dar aquele sinal clássico de “por favor, filha, não arruma encrenca aqui”.

Elira se aproxima mais com seu sorrisinho torto

— Sacerdote Daerion, né? Eu queria tirar uma dúvida. —

Daerion se volta para a garota erguendo uma sobrancelha com visível tédio.

— A dúvida é o primeiro passo para o desvio, menina. Mas diga. Talvez eu ilumine sua ignorância com a chama do saber. —

Mariel sussurra entre os dentes, forçando um sorriso:

— Elira, por favor, seja gentil.—

Elira ignorando completamente os avisos de sua mãe continua:

— Então... a profecia diz que uma guerreira vai empunhar a espada, né? Que a alma dela vai arder como o sol. Me diz, como exatamente vocês medem isso? É com termômetro solar ou com arrogância?—

Daerion olha com um olhar frio para a menina e responde:

— Você acha isso engraçado, garota?—

Sunwen que estava encostada na parede, quase engasga de tanto segurar o riso.

Daerion continua:

— A chama da Deusa não se mede com escárnio. Ela se revela aos puros, aos devotos, àqueles que servem com obediência e fé. —

Elira retruca cruzando os braços:

— Então quer dizer que se eu acordar às cinco da manhã, jejuar e ajoelhar até o joelho rachar, talvez eu seja digna? Só falta pedir pra lamber a espada pra provar fé. —

Mariel já extremamente constrangida da seu último aviso para a filha:

— Filha! Por favor! Ele é o sacerdote mais importante da região...—

Daerion retruca a resposta da garota com veneno na voz:

— Você tem a língua afiada de quem nunca provou da verdadeira luz. A chama da Deusa pode queimar os arrogantes. —

Elira rebate sem pestanejar.

— Então espero que ela esteja pronta, porque arrogância é o que mais tem nesse templo. —

Sunwen observando tudo de braços cruzados, fala baixinho só pra si mesma:

— Ela é insuportável... eu adoro isso. —

Daerion da meia-volta, e sai resmungando:

— A juventude está perdida... A luz da Deusa que me dê paciência.—

Sua mãe se vira para a garota e com voz materna firme diz:

— Elira... um dia você ainda me mata de vergonha. —

Elira responde com um sorrisinho maroto:

— Duvido. Eu sou a filha mais calma da cidade. —

Mariel dá um suspiro cansado e se volta para sua filha:

“Elira… minha filha… por que você não chega mais perto do altar? Talvez as respostas que você está buscando a própria Deusa irá te responder

Elira olha para o chão, braços cruzados:

— Porque eu sou diferente, mãe. Eu sei disso. Eu não sou como os outros. Nunca fui, e se.... E se ela não gostar de mim? —

Mariel se aproxima dela e segura suas pequenas mãos na suas.

— E você acha que a Deusa quer cópias? Que ela escolheria os mais obedientes e cegos? A Deusa vê o coração, Elira. Ela sempre viu o seu. —

A garota hesita por um momento:

— Mesmo com… tudo que eu carrego? —

— Principalmente por isso. Vai. Fala com Ela. Não com o templo, não com as pessoas. Com Ela. —

Mariel a deixa sozinha. Elira encara a Sunblade por um instante, mas não se aproxima. Em vez disso, caminha até o altar menor, um círculo de pedra com símbolos solares entalhados. Ela se ajoelha e fecha os olhos.

“ Eu não sei o que eu sou pra você…

Se é que sou algo.

Mas você é tudo pra minha mãe.

E… eu respeito isso.

Eu…

Eu nunca falei com você antes.

Acho que tenho medo.

Ou raiva.

Ou os dois.

Meu pai.

ele não consegue entender que sou diferente, não gosto de arcos , magia, ou poções. Eu quero ser uma guerreira, quero ser a luz que brilha para o mundo” A luz do altar começa a pulsar sutilmente

“Se você estiver ouvindo… só me mostra que eu não tô sozinha.

É só isso que eu quero."

A luz ao redor de Elira desaparece. Tudo fica branco, e depois dourado, como se estivesse dentro do próprio sol. Silhuetas giram lentamente, como sombras em meio a fogo. Uma mulher aparece de costas, não dá pra ver o rosto. Ela segura uma espada envolta em chamas douradas. Vozes ecoam, antigas, e uma frase surge entre elas:

— Elira a filha do fulgor o mundo ainda conhecerá sua lâmina, lembre-se minha filha:

"Aquela que carrega o fogo antigo não caminha sozinha…”


A imagem desaparece como fumaça ao vento.


Elira abre os olhos. Está ajoelhada ainda, mãos suando. Ninguém notou. A mãe conversa com Aelith. Sunwen joga pedrinhas em uma ranhura da parede, distraída. Daerion está em outro canto, fingindo ser importante.

Elira se levanta devagar. Não diz nada. Apenas respira fundo… e sorri. Um sorriso sutil. Meio nervoso. Meio encantado.

Ela tinha sido ouvida.....



Elira sai devagar da frente da estátua, os olhos ainda meio perdidos. Ela finge normalidade, mas a tensão em seu maxilar e o punho cerrado traem o que sente. Caminha até uma das colunas douradas e apoia-se ali por um instante, como se buscasse ar. Sunwen, que observava de longe, segue atrás com passos leves.

— Você está suando como se tivesse enfrentado um sabre flamejante.

Ou foi só emoção demais pra uma rebelde do mato? —

Elira ainda meio trêmula, responde sem olhar nos olhas de Sunwen

— Foi... estranho.

Não foi só emoção. Eu vi algo, Sunwen. —

— Viu como? Tipo… teve uma visão?—

Elira assente com a cabeça, agora olhando nos olhos dela.

— Eu falei com a Deusa. Ou... ela falou comigo. Eu não sei. Tudo ficou branco e dourado e...

Havia uma voz, mas era minha e não era.

Ela disse que o mundo ia mudar.

E que o sol queimaria os véus das mentiras. —

Sunwen arregalou os olhos, depois solta o ar lentamente

— Bom... isso é definitivamente melhor que ouvir o sacerdote Daerion dizer que a gente vai virar cinza se não ajoelhar direito.

O que mais ela disse? —

— Ela me chamou de Filha do Fulgor.

Disse que a luz precisa de uma lâmina. —

Depois da confissão Elira olha para os próprios dedos, como se temesse que Sunwen a achasse louca ou algo do tipo.

Sunwen abre um sorriso sutil e acolhedor Ela pega a mão de Elira nas suas e pergunta

— E você acha que ela tava errada? —

Elira não responde e seus olhos param nas mãos entrelaçadas

Sunwen continua

— Você sempre quis mudar o mundo...

Talvez agora o mundo é que esteja pedindo pra ser mudado por você. —



-----