Elira Sunblade: A Ascensão da Deusa do Sol
4 CAPÍTULO IV: A GUARDA DA ALVORADA
CAPÍTULO IV: A GUARDA DA ALVORADA
O silêncio da floresta era estranho naquela manhã. Pesado, espesso, como se o próprio ar estivesse de luto antes da hora. O musgo cobria as pedras como uma pele viva, e os galhos das árvores pareciam dobrar-se sutilmente, atentos a cada passo.
Telion avançava com leveza, os pés mal tocando o chão. Ao lado dele, Vareth sempre dois passos à frente, como era de costume. Os dois estavam há dias seguindo rastros de um acampamento nórdico que se aproximava demais dos limites de Falinesti. Mas naquela manhã... tinha algo errado. Os sons estavam errados. Não havia pássaros. Nem o vento.
A névoa havia descido de forma abrupta, cobrindo tudo numa brancura suja e opaca. Telion esticava os olhos, tentando achar as sombras familiares dos troncos, mas tudo parecia borrado, como se o mundo estivesse sendo apagado ao redor.
Eles se separaram por instinto. Não muito. Apenas alguns metros. Telion manteve o arco em mãos, dedos tensos, já com a flecha engatilhada, sentindo o fio da tensão subir pela espinha.
Vareth foi o primeiro a ver movimento. Um vulto adiante, uma silhueta larga, passos pesados. E foi então que tudo desandou.
Vareth, como sempre impulsivo, se adiantou. Um erro. Pequeno. Mas letal.
Telion quis chamá-lo, mas a floresta engoliu sua voz. Ele tentou se mover, mas seu corpo parecia preso na lentidão dos sonhos, como se o tempo tivesse parado ao redor dele.
A figura nórdica surgiu da névoa como um monstro esculpido em pedra e raiva. Alto, armado com uma espada manchada de ferrugem e sangue antigo. Telion ergueu o arco. Tarde demais.
A lâmina desceu sobre Vareth com brutalidade. Um som úmido, seco e final. O elfo arqueiro caiu de joelhos, depois de lado, os olhos arregalados num espanto sem fim. O sangue escorria pelo musgo, tingindo de vermelho o verde antigo da floresta. A névoa parecia beber aquilo com prazer.
Telion correu, mas seus pés afundaram em um chão que não existia. Tudo se dissolvia: o corpo do amigo, a floresta, o tempo. E antes que pudesse tocar o corpo de Vareth, antes que pudesse dizer qualquer coisa.....o sonho o expulsou.
Ele acordou com um grito preso entre os dentes:
"VARETH!"
O quarto escuro da noite estava quieto. Mas o peito dele, não.
O quarto permanecia em silêncio, exceto pelo leve crepitar da lenha quase extinta na lareira. A sombra trêmula nas paredes dançava como se ouvisse a dor de Telion, que ainda estava sentado, os ombros encurvados, o rosto entre as mãos. O suor escorria em gotas frias por suas têmporas. Mariel, já desperta, se aproximou sem dizer nada. Apenas o envolveu num abraço firme e silencioso.
— Você chamou por ele... Vareth, não foi? — ela perguntou com a voz aveludada, já sabendo a resposta.
Telion assentiu devagar, como se esse simples gesto pesasse mais que um arco cheio de flechas.
— Eu vejo tudo de novo. Aquele acampamento maldito... Vareth indo na frente, como sempre. E eu... eu hesitei. Eu vi a lâmina vindo e hesitei.
— Telion...
— Mariel, eu...eu falhei com ele. E desde então, toda vez que fecho os olhos, vejo o sangue, vejo os olhos dele me olhando, como se dissesse: “Agora é com você.” E foi. Só que eu nunca aceitei.
Ela passou a mão pelos cabelos dele, devagar.
— Você voltou. Isso é o que importa. Você voltou para mim. Voltou para Elira.
Ele riu, um riso triste, mais perto de soluço do que de alívio.
— Elira... nossa filha é feita de raio. Ela quer lutar, quer empunhar uma espada como se fosse o próprio chamado da alma dela. E isso me mata por dentro, Mariel. Porque eu vejo nela o brilho que eu vi naquele dia... no aço que atravessou meu amigo. Eu não quero perdê-la.
— Ela é fogo, sim. Não nega o sangue. Mas esse fogo pode ser luz também, Telion. Ela só precisa de um guia... e de amor.
Ele olhou pra esposa, os olhos marejados, e pela primeira vez naquela noite, uma pequena chama de ternura brilhou.
— Amanhã ela faz quinze invernos.
Mariel sorriu, dessa vez com mais calor.
— Quase uma mulher feita.
— Eu preparei uma surpresa para ela. — disse ele, baixinho. — já tem alguns dias que estou pensando se realmente é uma boa ideia, mas..... Eu devo isso a ela.
Mariel sorri, um sorriso acolhedor
— seja o que for com certeza ela vai adorar...
Telion a puxou para junto de si, abraçando-a com mais força, como se naquele gesto tentasse proteger não só Mariel, mas também o futuro de Elira, mesmo que esse futuro fosse feito de espadas, guerras... e de uma luz que ele ainda não sabia se era salvação ou condenação.
O sol mal tinha vencido a neblina da manhã quando o cheiro suave de pão assado e ervas doces invadiu o quarto de Elira. A brisa fresca dançava pela janela entreaberta, fazendo balançar levemente a cortina fina como se a própria manhã estivesse lhe desejando parabéns.
Ainda enroscada nos cobertores, Elira se remexe devagar, a mente oscilando entre o sono e a memória dos sonhos vagos da noite anterior. Quando finalmente abriu os olhos, os raios dourados da alvorada tingiam seu rosto com calor gentil. O mundo parecia... diferente. Mais claro. Mais pesado.
Era seu décimo quinto inverno.
A porta rangeu baixinho, e Mariel entrou com um sorriso nos lábios e uma bandeja nas mãos: frutas frescas, pão com mel, uma pequena flor cor-de-rosa no canto do prato.
— Feliz aniversário, minha luz. — disse com a voz carregada de ternura.
Elira se sentou na cama, ainda com os cabelos negros emaranhados da noite. Era uma elfa de presença marcante, alta, os ombros largos, os braços já moldados por treinos secretos com pedaços de madeira e espadas velhas. O rosto, delicado e forte ao mesmo tempo, era salpicado por sardas douradas, como se o sol tivesse lhe beijado a pele quando bebê. Os olhos violetas intensos, profundos como um crepúsculo mágico, carregavam a firmeza de quem já sabia quem era, mesmo quando o mundo ainda insistia em dizer que não.
Seus longos cabelos negros estavam presos numa única trança grossa que caía sobre o ombro, com uma franja rebelde sempre insistindo em esconder parte do olhar um detalhe que ela já aceitava como parte de si. Elira era linda. Uma beleza que não tentava ser nada, apenas era. E isso incomodava alguns, encantava outros... e intimidava muitos.
— Obrigada, mamãe — murmurou com um sorriso tímido, abraçando Mariel com força. — Você sempre sabe como fazer tudo parecer certo.
Mariel a abraçou de volta e sussurrou:
— Porque você é o que há de mais certo nesse mundo, minha menina.
Logo depois, a voz de Telion veio do corredor, seca e firme como sempre:
— Elira, vista-se. Quero que esteja em casa antes do pôr do sol. Tenho algo pra lhe mostrar.— Ele parou por um momento e olhou novamente para filha e para esposa que estavam ali paradas olhando para ele. Ele continuou com um tom mais suave — inclusive, feliz aniversário minha filha.....
Mariel olhou para a filha e ergueu uma sobrancelha, como quem diz “ele tentou, vai”. Elira apenas assentiu, curiosa e um tanto surpresa com o tom menos ríspido do pai.
Ela vestiu-se rapidamente: calças de tecido leve ajustadas na cintura, botas já um pouco gastas de tanto explorar o bosque, uma camisa escura de mangas arregaçadas e o colete que ela mesma costurou meses atrás. A espada de treino, já velha conhecida, pendia da cintura um hábito que ela não abandonava nem nos aniversários.
Mal tinha amarrado o último cadarço quando uma batida leve soou na porta da frente.
Elira já sabia quem era antes mesmo de abrir.
Quando abriu, deu de cara com Sunwen. Ela era como uma manhã dourada. Os cabelos ondulados desciam até a cintura em cascatas douradas, soltos, balançando com o vento. Os olhos, de um âmbar profundo, pareciam carregar dentro deles a luz das fogueiras de acampamentos e os mistérios das constelações. Ela vestia um manto simples, esverdeado, com costuras bordadas à mão por Mariel já que Sun agora trabalhava na loja com ela, cuidando das plantas e das poções com dedos delicados e alma gentil.
Ao ver Elira, Sun sorriu largo, os olhos se apertando nas laterais de tão sinceros.
— Minha aniversariante favorita. — disse, antes de puxá-la num abraço apertado, cheio de calor, e algo mais… algo que sempre fazia o coração de Elira bater num ritmo diferente.
O rosto de Sun ficou colado ao dela, o aroma doce de lavanda e mel envolvendo tudo. As mãos pequenas se apertaram nas costas de Elira, e ela não queria soltar. Nunca queria, na verdade.
— Trouxe isso. — disse Sun, afastando-se só o suficiente para pegar uma flor miúda, azulada, com as pétalas levemente brilhantes. — É da estufa. Desabrochou hoje de manhã. Só floresce nesse dia. Mariel disse que combinava com você… e eu concordei.
Elira pegou a flor com cuidado, mas o olhar se demorou no rosto de Sunwen. Ela era linda de um jeito sereno, mas havia algo por baixo daquela serenidade — um vulcão adormecido. Talvez fosse o jeito que seus dedos tremiam ao tocar os dela, ou o modo como seus olhos brilhavam um segundo a mais quando olhavam direto nos seus.
— Obrigada, Sun. — disse Elira, quase sussurrando. — Você é... sempre tão gentil.
— Não sou gentil com todo mundo. — respondeu a elfa dourada, rindo baixinho, e desviando o olhar por um instante. — Só com você.
Elira engoliu seco, a flor apertada entre os dedos. O peito parecia pequeno demais pra segurar tudo que sentia ali, naquela porta, com aquele abraço, aquele cheiro, aquele brilho.
— Meu pai quer que eu volte antes do pôr do sol. — murmurou, tentando se distrair.
— Ahn… então vamos fazer valer o dia. — disse Sun, segurando a mão dela com naturalidade, entrelaçando os dedos. — Tenho uma surpresa pra você.
— Se for mais bonita que essa flor, eu tô em perigo. — respondeu Elira, com um sorriso torto.
Sunwen riu, puxando-a pela mão, e as duas saíram para o mundo, onde as árvores sussurrava bênçãos antigas e o vento parecia empurrá-las pra frente, como se já soubesse que o futuro seria esculpido a partir daquele dia.
O sol já estava alto quando Elira e Sunwen atravessaram o portão leste de Falinesti, a cidade viva, enraizada nas copas das árvores colossais. Os caminhos de madeira entrelaçada rangiam sob seus passos, mas era um som suave, quase musical. O perfume de folhas novas, flores raras e especiarias pairava no ar, e a cidade parecia sorrir pra elas.
Elas passaram por um mercado improvisado entre galhos e plataformas. Jovens elfos discutiam animados perto da praça central, onde havia um mural com letras douradas: “Inscrições abertas – Teste da Guarda da Alvorada”.
— Olha só… — murmurou Elira, se aproximando, os olhos presos no brasão da guarda: um sol nascente cercado por folhas de carvalho. — Eles só escolhem três por ano.
— Todo mundo anda falando disso. Até os aprendizes da estufa. Você vai tentar?
Elira hesitou.
— Meu pai quer que eu tente mas ele insiste nessa coisa de arco. Disse que já tá na hora. Mas você me conhece, sou um desastre com arcos, se ele ao menos me deixasse tentar com uma espada de verdade.... —
Sunwen ri da constatação de Elira .
— Você está certa, é um desastre com arcos mesma Mas quem sabe se você conversar com ele, talvez ele mude de ideia.—
Elira olhou incrédula para amiga — será que a gente realmente tá falando da mesma pessoa? Acorda sun... estamos falando do meu pai aqui, ele nunca muda de ideia.
Sunwen da de ombros e continua.
— Quem sabe.... As pessoas mudam..
Elira a observa, as palavras ficam jogadas sobre o ar.
Sunwen sorriu e a puxou por uma viela escondida entre as raízes grossas de uma árvore sagrada. Caminharam até chegarem a um pequeno jardim escondido, suspenso entre galhos entrelaçados. Havia flores douradas que pareciam brilhar com a luz do sol, e ao centro, um pequeno lago com a água de uma cor quase cristalina.
— Descobri esse lugar sozinha... — disse Sun, se sentando. — Mas sempre soube que era pra dividir com você.
Elira olhou para a paisagem avassaladora que estava adiante, o coração martelando no peito.
— Eu sabia que tinha ouvido o som da água vindo daqui, dias atrás — disse Sunwen, já tirando a bolsa dos ombros. — Nunca tinha explorado esse lado.
Elira observou em silêncio. A beleza do lugar era quase sufocante. Aquele tipo de cenário que parece tirado de um sonho bom, ou de uma lembrança que ainda não aconteceu.
— Acha que dá pra nadar? — perguntou Sunwen, já desamarrando as botas.
Elira engasgou.
— Você quer… entrar?
— Está quente. E eu tô curiosa pra saber se a água é gelada.
Elira tentou parecer casual, mas os olhos fugiam sozinhos pro jeito como Sunwen movia os dedos, puxava a túnica devagar. Tirava os cintos. Soltava o cabelo.
— Você não precisa entrar se não quiser — disse Sunwen, já pisando na borda do lago. — Só achei que seria divertido. Mas posso entrar sozinha....
Elira odiava como Sunwen falava com leveza. Como se cada palavra não fosse uma faca disfarçada de flor.
— Eu não disse que não ia entrar — respondeu, seca, já desamarrando suas próprias roupas. — Só achei que era uma armadilha.
Sunwen já dentro do lago a observava com um sorrisinho vitorioso no rosto. Ela mergulhou primeiro. O som da água quebrando o silêncio era quase sagrado. Ela emergiu sorrindo, os cabelos colados ao rosto, os olhos brilhando de alegria.
— Vem logo, Elira. Antes que eu pense que você tem medo de água.
Elira entrou devagar, sentindo a temperatura perfeita ao redor das pernas. Quando mergulhou de vez, um alívio percorreu o corpo. Mas não durou muito. Porque quando emergiu, Sunwen estava perto demais.
— A água é boa, né? — sussurrou a elfa, flutuando devagar.
— É. — respondeu Elira, quase num sussurro também.
Silêncio.
Os olhos de Sunwen passearam pelo rosto dela, devagar. Mas logo desviaram. Fingiu se afastar, mas não muito. Só o bastante pra criar um espaço que doía.
— Você parece tensa...o que foi? Não gostou do lugar?
Elira sentiu o estômago revirar.
— Não é isso..... Só estou com calor. O lugar é maravilhoso, Sun.—
Elira ficou quieta e desviava o olhar. Toda vez. Era um exercício: olhar o tronco da árvore. Olhar a superfície do lago. Olhar o céu. Mas cada desvio era seguido por um relance teimoso. Um olhar rápido que caía nos ombros de Sunwen, escorregava pelas costas nuas, pelas pernas semi-submersas… e então ela corava como se tivesse sido pega roubando um beijo com os olhos.
Sunwen, claro, notava tudo.
— Você tá me evitando? — perguntou Sunwen, parando bem em frente a ela, com os olhos semicerrados e aquele meio sorriso que ela só usava quando queria provocar.
— Não tô… evitando. — respondeu Elira, olhando firmemente para… o nada. Pro mato atrás da amiga. — Eu só… é difícil pensar perto de você.
— Hm. Então talvez seja a hora de parar de pensar — disse Sunwen, a voz mais baixa, os olhos fixos nos de Elira.
Elira sentiu o mundo congelar. Seu corpo ficou tenso, sem saber se nadava pra trás ou ficava ali, petrificada.
Sunwen se aproximou mais devagar, como quem teme quebrar um feitiço.
— Você sente também? — sussurrou.
Elira engoliu seco.
— Sinto o quê?
— Isso. — Sunwen parou tão perto que Elira podia contar os cílios dela. — Essa coisa que fica entre nós. Queima, mas não machuca. Só… pede pra acontecer.
Elira hesitou. Uma batida de coração. Duas. Três.
— Eu não sei o que fazer com isso — confessou, a voz pequena, rouca.
Sunwen ergueu a mão e encostou suavemente no rosto dela. Foi como se tivesse tocado um campo de força. Elira fechou os olhos, inspirou como se fosse o último ar puro do mundo. Quando os abriu, encontrou o olhar firme, doce, seguro de Sunwen.
— Então deixa eu te mostrar — disse ela.
E a beijou.
Sem pressa. Sem dúvida. Um beijo que não era pedido, era dado. Um presente silencioso, embrulhado em ternura e desejo. Os lábios tocaram com reverência, depois mais fundo, como se reconhecessem. Elira correspondeu com os músculos ainda trêmulos, mas o coração inteiro.
O mundo parou. A floresta sumiu. Só existiam elas. O calor da água, o arrepio na pele, o som distante de um pássaro esquecendo de cantar por um segundo.
Quando se afastaram, Sunwen encostou a testa na dela, e sussurrou com um sorrisinho:
— Feliz agora?
Elira respirou fundo, os olhos ainda fechados, um sorriso tímido escapando do controle.
— Acho que esse foi o melhor presente que alguém já me deu.
Sunwen riu baixinho, antes de mergulhar de novo, deixando Elira sozinha, suspensa na água, no ar e no sentimento.
As duas voltaram pra margem do lago devagar, como se o tempo ali tivesse outro ritmo. As roupas molhadas colavam na pele, mas os risos aqueciam por dentro. Elira se sentia leve como se tivesse tirado uma armadura de aço não só do corpo, mas também da alma.
Sunwen se deitou sobre a grama úmida, a respiração ainda acelerada, o olhar no céu entre galhos e folhas douradas.
— A gente devia vir aqui mais vezes — disse, meio sorrindo, meio suspirando.
Elira ajeitou os cabelos ainda pingando e deitou ao lado, os dedos roçando os dela.
— Devia ser proibido um lugar assim existir e a gente não morar nele.
— Talvez um dia…
Mas o silêncio que seguiu não era mais de contemplação. Era pesado. Como se as nuvens soubessem que aquele momento não podia durar.
Elira quebrou o silêncio, a voz baixa, quase pedindo desculpas por estragar a paz.
— E a Ellin? Ela… como ela está?
Sunwen respirou fundo. O rosto dela endureceu um pouco, como se engolisse uma pedra.
— Está.... Como sempre.
Elira virou o corpo de lado para encarar a amiga.
— O que aconteceu?
Sunwen mordeu o lábio inferior antes de responder, os olhos vidrados em algum ponto do céu.
— Ontem à noite ela teve outra daquelas crises. Febre. Delírio. Mamãe sempre fica acordada, vigiando. Ela tenta esconder, mas… eu vejo. O cansaço, a tristeza e a raiva também. Não da Ellin, claro, mas… da vida. De tudo. Todos os dias ela vai até o templo da Deusa do Sol clamar pela vida de Ellin, mas.... Nada muda.
Elira ficou em silêncio, ouvindo.
— É como se todo mundo já tivesse desistido, sabe? Como se ela fosse só uma flor que vai murchar. Mas ela é minha irmã. E eu… eu não sei o que fazer. Não sei como ajudar. Só fico lá, assistindo.
— Você faz mais do que imagina — disse Elira, a mão apertando a dela com firmeza.
— Faço nada, Elira. As vezes eu fico acordada até tarde estudando os livros que sua mãe me deu sobre alquimia para ver se tem algo, ou alguma coisa que eu possa fazer mas... eu não sei....minha irmã pode morrer a qualquer momento. E minha mãe carrega o mundo sozinha. Eu me sinto tão… tão inútil. Errada.
Elira puxou Sunwen pra perto, abraçando como se quisesse protegê-la do próprio coração.
— Você não é inútil. Você está tentando. E isso é louvável Sun, tenho orgulho de você por isso, você é forte como eu jamais seria nessa situação.
Sunwen fechou os olhos, as lágrimas escorrendo sem força, como se tivessem cansadas de lutar.
— Às vezes eu queria sumir. Sabe? Só sumir. Ir embora. E depois me odeio por pensar nisso.
— Você tá cansada, Sun… Só isso. Não é errado sentir.
Elas ficaram abraçadas em silêncio por alguns minutos, até que o som distante de um sino cortou o ar. Era a hora avançando, lembrando as duas de que aquele mundo mágico entre galhos e beijos tinha hora pra acabar.
Elira se levantou, terminando de se vestir devagar.
— Eu… preciso ir. Meu pai já deve está me esperando, você sabe como ele é....
Sunwen também se ergueu, limpando o rosto com as costas da mão.
— E eu tenho que voltar também. Mamãe vai precisar de mim. Ellin… pode ter uma noite difícil de novo.
— Quer que eu vá com você?
— Não, não hoje. Mas… obrigada por perguntar.
Elira hesitou por um segundo antes de beijar o topo da cabeça de Sunwen, com ternura.
— Te vejo amanhã?
— Sempre.
As duas se separaram com olhares longos, promessas mudas e um nó apertado no peito.
Ao chegar em casa, Elira mal empurrou a porta e já ouviu a voz do pai.
— Até que enfim. Tava achando que tinha se perdido pela cidade.
Ele estava na sala, de pé. O rosto sério, mas não zangado. Parecia… contido.
— Vem. Quero te mostrar uma coisa
Elira respirou fundo, o coração ainda dançando nos ecos do lago, mas agora se preparando pra outro tipo de desafio.
Ela se aproximou devagar, sentindo que o dia ainda guardava surpresas e que talvez, nem todas fossem boas.
Elira caminha ao lado do pai pelas ruas de pedra. Não diz nada, mas o cenho franzido mostra que ela está desconfiada. Telion caminha firme, como sempre, a mão sobre o punho do arco pendurado nas costas.
— Você vai me dar uma lição de disciplina militar ou cê vai me prender por “excesso de personalidade”? —
Telion não responde. Apenas empurra a pesada porta da forja. O cheiro de ferro quente e carvão invade os sentidos de Elira.
O ferreiro, um velho Elfo de barbas queimadas, apenas assente ao ver Telion entrar. Ele aponta para a bancada com os lingotes de aço já separados.
Telion com um semblante sério, diz curto e direto:
— Vai aprender a fazer a sua.—
Elira para em frente a bancada observando os lingotes à sua frente
— Minha... espada? —
Telion apenas retira o manto de viagem, pendura o arco na parede e pega um par de luvas de couro grossas.
— Pegue isso. Vai sujar até os dentes. — ele entrega um avental a ela sem olhar nos olhos
— Você disse que quer lutar, então lute com algo que você fez com as próprias mãos. —
Telion se aproxima da bigorna, com a praticidade de quem já fez isso antes. Ele acende a fornalha, joga carvão, regula o fole com movimentos firmes e seguros. O fogo cresce, rugindo como um dragão em fúria.
— pegue os lingotes de aço, você vai esquenta-los até ficar amarelos. Se passar disso, estraga. Se tirar antes, não molda. —
Elira obedece. Coloca o lingote nas tenazes e o mergulha nas brasas. O calor é quase insuportável. Seu rosto fica coberto de fuligem, mas ela sorri, animada.
— Pensei que fosse mais glamouroso... —
— A guerra também não é. —
O tempo passa. Elira martela o aço incandescente sob a supervisão rígida do pai. Ele corrige sua postura, segura no pulso dela com firmeza quando ela erra o ângulo.
— Golpes firmes garota. Sem hesitar. A espada não respeita mão frouxa. —
Elira estreita os olhos e acerta com mais força. O som do aço ecoa. Faíscas dançam no ar como vaga-lumes de fogo.
Eles mergulham a lâmina incandescente em água fria o vapor sobe como um grito. Depois, o esmeril. Telion a ensina a afiar, a equilibrar, a dar formato. Por fim, a guarda é montada e o punho é revestido com couro escuro.
O som da forja morre aos poucos. A lâmina repousa sobre a pedra fria. Brilha com o reflexo do fogo que ainda dança na brasa. Elira a encara como se olhasse para si mesma.
Elira toca o punho com cuidado
— Ela é linda... —
Telion observa a filha ele cruza os braços e em um tom firme fala:
— Ela é sua. E vai lembrar você do que teve que fazer pra chegar até aqui. —
Elira vira pra ele, os olhos cheios de perguntas que nunca teve coragem de fazer. Mas, Telion... ele a encara diferente agora. Não há sorriso, mas há uma pausa. Um silêncio que pesa.
— Quando você nasceu, eu jurei pra mim mesmo que ia te manter longe disso tudo. Das armas. Das guerras. Mas... você cresceu. E enquanto eu tentava te afastar do mundo, você já tava era lutando contra ele. —
Ele respira fundo e continua
— Eu errei em não ver antes. Você não é só minha filha, Elira. Você é fogo. E o mundo vai queimar se tentar apagar isso. —
Elira não sabia o que dizer ou o que pensar, ela nunca imaginaria que um dia escutaria palavras como essas vindo de seu pai.
— Pai...eu... —
Telian leva uma mão ao seu ombro a cortando.
— Escuta. Amanhã... vou falar com o comandante da Guarda da Alvorada. Se quiser entrar, vai entrar com meu nome ao seu lado. Não pelo meu prestígio. Mas porque eu sei que você tem mais honra do que muito homem lá dentro. E se eu só souber te ensinar arco e disciplina... que assim seja. Mas te ensino. Todo dia. Até não conseguir mais. —
Elira sente o coração quase sair pela boca. O tempo parece parar. O calor da forja agora é calor no peito. A lâmina na mão pesa como uma promessa cumprida. Ela se aproxima dele, emocionada.
— Não... Quero dizer. Eu quero fazer os testes como qualquer outro. Eu agradeço sua ajuda pai, e aceito o seu treinamento. Mas quero mostrar que sou digna de entrar por mérito próprio e não por indicações..—
Seu pai a olha em silêncio, ele sorri para ela, em seus olhos ela consegue ver o orgulho estampado, ele estava orgulhoso dela. Elira desvia o olhos para a espada e diz:
— É o melhor dia da minha vida... —
— Então lembre dele. Porque daqui em diante... só vai ficar mais difícil. —
Ele se vira pra apagar o fogo da forja.
Eles caminham juntos para casa. O coração de Elira pulsa em seu peito, ela nem acreditava no que acabara de acontecer. Mas uma coisa ela sabia, que a Deusa do Sol de alguma forma estava ouvindo suas preces.....
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