Abri os olhos, demorei para me acostumar com a luz. Olhei para um lado e encontrei um homem enorme me observando, olhei para o outro e os olhos preocupados do meu pai bem menor do que o outro homem, senti o ar queimar meus pulmões, levantei bruscamente.

– Onde eu estou? — perguntei respirando ofegante.

Olhei o homem enorme, porque o Batman estava ali ao meu lado? Por que meu pai estava frequentando o mesmo espaço daquele homem, olhei meu pai.

– Não sei como agradecer – meu pai falou se levantando – Por salvar minha menina.

– Não fui eu – ele falou com sua voz sombria – Eu apenas ajudei o menino – ele apontou com a cabeça para alguém dormindo numa poltrona.

– Virgil? — eu o analisei e olhei os dois homens – Ele que me... — Batman confirmou. — Quanto tempo fiquei apagada? — olhei meu pai.

– Quatro horas – ele falou cansado – A Doutora disse que você estava meio problemática hoje – eu analisei Batman e me lembrei da Doutora, ele pareceu entender o que eu lembrava, apenas acenou negativamente para mim, engoli meus pensamentos. — E depois eu estava recebendo uma ligação do hospital falando que você deu entrada. A Mindy está lá fora, peço para ela entrar? — confirmei.

Meu pai se retirou, Batman continuou me olhando.

– Você está mesmo bem? — ele perguntou com a voz sombria.

– A Doutora estava me vendo da janela, ela parecia estar assistindo o que acontecia comigo, o que está acontecendo? — ele suspirou e veio até mim, ia dizer algo quando meu pai retornou, Batman continuou em silêncio.

Mindy me abraçou preocupada, ela realmente tinha mudado, não parecia ser a menina ranzinza que eu tinha encontrado uns anos antes, ela realmente estava preocupada o que era algo muito novo para mim, mas era bom saber que minha melhor amiga ainda tem emoções. Ela começou a falar algo e então parou, encarou meu pai e o Batman e depois o corpo do Virgil que continuava sem se mexer.

– Vou acompanhar o Batman para a saída — meu pai falou — Você deve ter muita coisa a resolver.

– Obrigada – falei olhando

Batman confirmou, os observamos se retirar, ela me olhou e eu respirei aliviada, olhamos o Virgil.

– Por que eu liguei primeiro para ele? — olhei minha amiga.

– É estranho – ele abriu os olhos e se espreguiçou — Quando eu cheguei seu celular estava longe do seu corpo.

– Deve ter caído quando ela desmaiou – Mindy tentou explicar.

– Ai é que ta – ele falou e bocejou – Ele ainda estava fazendo ligações para pessoas diferentes – ele me entregou o celular – E nenhuma delas fazia sentido algum, sabe – ele deu de ombros – Espero que você fique bem – ele se levantou e me olhou uma última vez – Se cuida, Agnes. — confirmei, ele saiu, olhei Mindy ela tinha observado tudo em silêncio.

Um sorrisinho surgiu no rosto dela que me fez corar.

– O que foi isso? — ela se sentou aos meus pés.

– Adoraria poder te responder. Mindy. — ela me olhou – Algo está errado comigo.

– Nada está errado, você passou mal como de costume, isso prova que você está bem, eu só não entendo porque ligou para o Virgil e não para mim ou até para o seu pai.

– Meu celular realmente não estava comigo, lembro de mandar uma mensagem, mas meu celular não estava comigo, eu tinha deixado cair e como... Como eu mandei uma mensagem? — eu a olhava, ela pensava, mas parecia tão confusa quanto eu. Meu pai voltou acompanhado do médico que pediu para se retirarem, fiquei ali sendo examinada, até que ele me deu alta.

Coloquei a roupa que eu usava quando saí do consultório, Mindy e meu pai estavam em pé parecendo me esperar, entramos no carro, meu pai entregou Mindy na casa dela e eu fui para minha casa.

Fui para o meu quarto me deitar um pouco, minha cabeça tinha parado de doer. Olhei os posteres na minha parede, encarei o do Batman, observei a feição fria, era uma pintura, mas retratava bem o olhar do Homem Morcego, olhei o Superman, ele realmente era firme daquela forma o que contrastava muito com a sua versão humana simples, era até engraçado.

Observei que meu quarto ainda tinha manchas do ataque de fumaça, levantei para buscar por algumas coisas, minha televisão ligou sozinha, eu dei um pulo de susto, tentei desligá-la, mas nada funcionou, o canal mudou, noticia dos heróis, Super Choque e Gear voavam detendo alguns meta-humanos, o canal mudou novamente, Kick-Ass junto da Hit-Girl socava alguns ladrões, mudou, Superman acertava um robô em cheio arrancando sua cabeça, os X-Men em ação explodindo algumas coisas, mas mantendo o controle.

Tudo começou a mudar rápido demais, muito mais rápido o cheiro de queimado e um puff indicaram que a televisão pifou. Olhei em volta buscando quem poderia ter feito aquilo, mas aparentemente apenas eu estava ali, olhei a janela e em volta, realmente estava sozinha. Fui para a sala, eu queria fazer alguma coisa e minha televisão não tinha mais jeito. Minha madrasta assistia a novela, me sentei junto dela que ficou me encarando, tentei acompanhar a história que eu nunca parei para acompanhar. A mulher parecia realmente gostar daquilo, Era chato e uma história muito fraca.

Busquei pelo controle, ela não largava das mãos, que saco, olhei a TV, o canal mudou, a mulher voltou para a novela, mudou novamente e novamente e ela começou a brigar com a televisão, até que travou em um canal de noticias. Ela gritava pelo meu pai, ele veio até nós, reiniciou o receptor, mas novamente ficava mudando de canal loucamente, até que ele resolveu ligar para a empresa, falaram que estava tudo okay com a linha, os canais voltaram a mudar. Minha madrasta largou o controle assustada e deu um pulo, meu pai assistia aquilo, parou em um canal. Batman estava nele, fazia tempo que eu não via nada com ele, mas não durou muito, ele subiu na moto e sumiu, o canal mudou e de repente era uma câmera de segurança que o seguia, eu queria saber para onde ele ia.

A campainha de casa tocou, a televisão mudou, uma câmera que eu reconhecia o ângulo, era a câmera de um vizinho. Dois policiais estavam de fora de casa, lembrei da ligação que meu pai tinha feito brigando comigo e perguntando o que eu tinha feito para que dois policiais tivessem ido até lá. A primeira coisa que me passou agora pela cabeça foi a bicicleta que aluguei e não devolvi, mas eu tinha uma mensagem da locadora dizendo que já tinham resgatado o meio de locomoção.

Eu estava tensa, minha madrasta me encarava com ódio como se eu fosse manchar sua família, os policiais entraram, eles me olharam assustados e eu fiquei os encarando.

– Agnes? — confirmei. Prendi a respiração reconhecendo aqueles dois.

Eu não pensei duas vezes, apenas acelerei escada acima, eles vieram atrás, eu ouvia os gritos da minha madrasta e do meu pai. Eu ouvia as lâmpadas estourando a nossa televisão ficando louca até pifar. Tranquei a porta do meu quarto, não os prenderia por muito tempo. Peguei meu celular, olhei meu computador, pensei em pegá-lo. Não tive tempo, me pendurei na janela e comecei a escalar para o telhado, a porta foi arrombada, os dois supostos policiais invadiram, olhei em volta, eu não tinha para onde correr.

Olhei em volta, eu podia ver algumas TVs ligadas e computadores, além de carros com som alto. De repente tudo começou a ficar louco, eu finalmente entendi que era eu, as pessoas gritaram assustadas, o meu tio começou a gritar dentro da casa, meu irmãozinho acordou com a babá-eletrônica enlouquecendo, meu pai gritava por mim ou para mim, eu não conseguia entender, olhei meu celular, ele acionou algo, algo que eu não entendi o que era. Apenas começou a apitar, eu o levantei, ele ficou quente, os dois seres a minha frente me encaravam, apontei o celular para eles e saiu algo que os atingiu os derrubando.

Eu passei correndo entrei em casa pelo sótão, eu estava assustada, desci pela escadinha. Meu pai me segurou como se eu fosse uma fugitiva, eu estava ensopada com minhas próprias lágrimas de medo e de suor. Eu não pensei muito e apenas tentei me livrar, bati meu pai com força contra a parede, ele me soltou grunhindo, minha madrasta ficou em choque nos assistindo, meu tio tentou me segurar, eu ouvia os dois supostos policiais descendo.

– Me solta, eu preciso sair daqui – falei chorando, ele me prendeu com mais força.

– Eu não sei o que você fez de errado, mas não vou te deixar se tornar uma fugitiva.

– Desculpa – eu falei e ele me olhou sem entender.

Usei o raio do celular que eu não fazia ideia de como tinha ido parar ali, ele se afastou se queimando, minha madrasta se colocou a minha frente, a empurrei de lado, ela se caiu e eu senti um aperto no coração, eu não queria machucar nenhum deles, mas não tive escolha, ou será que tive?

Corri desesperada pela rua e entrei num ônibus, minha cabeça tentava entender o que tinha acontecido, eu não fazia ideia do que estava rolando, mas eu tinha certeza que os dois policiais não eram policiais, eram os dois fugitivos do incidente no centro.

Desci em um ponto e dali eu não tinha muita certeza de para onde seguir, um endereço apitou no meu celular, comecei a seguir o que o GPS dizia. Parei de fora de uma enorme mansão. Uma pequena campainha, a toquei tentando entender o que era.

– Pois não?

– Ahm... — olhei a placa que indicava o dono do local, meu coração acelerou – Sou Agnes e... — quem atendeu desligou.

O portão se abriu e eu segui para dentro, a distância até a residência era longa. Bati na porta e um mordomo idoso abriu.

– Senhorita – permitiu que eu entrasse – Senhor Wayne ainda não retornou, gostaria de uma água ou qualquer coisa?

– Não, obrigada – falei tensa.

– Sinta-se a vontade.

Ele me largou no meio da sala. Respirei fundo e comecei a andar pelo lugar. Fui entrando em algumas portas, fechando outras, eu realmente me aventurava por aquele lugar. Até que encontrei uma passagem, fui entrando de curiosa, não pude conter o sorriso quando encontrei o lugar, olhei para os computadores que acionaram com o meu olhar, olhei a enorme tela que foi acionada, isso me assustou.

– Agnes? — olhei para quem saia das sombras.

– Bruce – falei, ele parecia não entender – Desculpa ter vindo assim e...

– Aconteceu alguma coisa? — ele pareceu preocupado, algo que nunca esperei ver no rosto do Batman.

– Eu... — fechei os olhos, os computadores desligaram, tornei a abrir e todos ligaram, aquilo me assustava, ele me olhou e para as máquinas — Eu não sei o que está acontecendo. Eu machuquei meu pai, meu tio e até minha madrasta, feri aqueles dois procurados, mas eu não queria ter feito nada daquilo, eu só queria ficar livre, eu só queria... Eu queria poder proteger as pessoas, mas eu não consigo, não consigo proteger ninguém, Bruce – eu voltei a chorar desesperada – Eu só machuco as pessoas – eu o olhei – Isso faz de mim uma vilã?

– Não diga besteira – ele me abraçou e apertou bem minha cabeça como que tentando evitar meus pensamentos ruins — Você acabou de descobrir seus poderes, não foi por mal.

– Poderes? — eu o olhei assustada – Do que você está falando? — as telas de computador começaram a mudar loucamente, ele as olhou e sorriu.

– Você é tecnopata, Agnes – eu não entendi o que aquilo queria dizer — Você controla a tecnologia a seu favor.

– E isso significa quase matar meu tio?

– Isso significa que você é mutante – eu o analisei e me afastei — Você tem poderes, assim como os meninos do X-Men ou até como o Superman. Quer dizer que você pode fazer o bem com o que tem.

– Bruce, acho que você não me ouviu, eu quase matei meu tio.

– E você acha que os X-Men já dominavam os poderes deles quando os descobriram? Agnes, — ele apoiou a mão na minha cabeça — minha filha – aquilo fez um frio percorrer minha espinha — você o feriu por acidente, você acha que eu consigo proteger todos quando estou em ação? Não, mas não posso ficar pensando nisso. Eu tenho que mantê-los seguros ou pelo menos vivos. Você vai entender isso com o tempo.

– Me faz um favor? — ele confirmou — Não me chame de filha, nunca mais – ele me olhou surpreso, mas confirmou.

– Eu te levo para casa – ele pegou minha mão e ia me puxar, travei minhas pernas.

– Não, não, não — eu balançava a cabeça atônita — Eu não posso voltar, não por agora. — franzi o cenho – Mas estou preocupada.

– Vem, vou pedir algo para comermos e você me conta mais de como foi isso.

Contei para ele que estava preocupada com minha madrasta, ele fez um telefonema e logo conseguiu informações sobre ela, disse que ela tinha ido a um hospital e estava tudo bem e os informantes avisaram que ela estava brava e xingava alguém que logo deduzi que ela me xingava, perguntei pelo meu pai, Bruce me olhou, eu não o olhava, mas sentia seu olhar sobre mim, os informantes disseram que ele estava bem, um pouco mal-humorado, mas bem. Perguntei do meu tio. Ele estava internado, parecia estar fora de perigo, respirei aliviada. Bruce agradeceu as informações e desligou.

– Não vou voltar tão cedo – falei tensa – Posso ficar aqui? — o olhei, ele confirmou – Prometo não te trazer problemas.

– Não se preocupe – ele se levantou – Mais tarde vou sair para patrulhar – ele avisou – Se precisar de algo fale com o Alfred. — confirmei, ele sumiu escada acima.

Alfred me entregou uma xícara com chá, o olhei e perguntei se não teriam chocolate quente, ele pareceu se assustar, pedi para que me levasse a cozinha, as cozinheiras e um dos cozinheiros me olharam e depois para o mordomo, ele parecia assustado com o que eu fazia. Peguei uma jarra, leite e procurei por chocolate em pó, encontrei o de confeitar, perguntei se não tinham outro, disseram que o outro não era bom, não importei, peguei e preparei.

– Sempre bem forte e quente – falei despejando na xícara, fiquei chateada por ali não ter uma caneca – Isso aqui é uma bebida de verdade – falei olhando Alfred que quase sorriu, mas duvidei que conseguiria sorrir.