– Você consegue parar de sonhar com ele, pelo amor de... Desisto! — Mindy jogou as mãos para o alto – Vou falar com o Richie, já faz duas semanas que você não cala a boca sobre ele, isso é um saco, Ag.

– Desculpa, é que eu nunca imaginei que alguém pudesse gostar tanto das mesmas coisas que eu.

– Falando na praga – ela apontou com as sobrancelhas, me virei e me deparei com o loiro. Ele sorriu – Richie! — falei alegre, Mindy imitou com uma voz desgostosa.

– Você vai estar muito ocupada hoje? — ele perguntou sendo direto, neguei.

– Pera lá, Agnes! Você tem a consulta hoje a tarde – Mindy falou, dei de ombros — Sério, não sei qual foi a lavagem cerebral que você usou na minha amiga, mas eu juro que vou roubar a fórmula — Richie riu enquanto Mindy se afastava raivosa.

– Não vai te atrapalhar? — ele perguntou preocupado.

– Não, minha consulta foi remarcada para amanhã. — dei de ombros.

– A do Virgil também — ele pensou alto e analisou algo que eu não fazia ideia do que era, quando voltou a si sorriu para mim – Se importa de me encontrar hoje. — neguei – Que tal as três em frente ao posto abandonado.

– Fechado.

Ele sorriu alegre.

Cheguei em casa apenas para almoçar, peguei meu material de programação, arrumei o meu cabelo o que fez minha madrasta rir e logo cantarolar que tinha um novo rapaz na pista, palavras dela, não minhas. Peguei meu remédio, tomei um antes de sair para ter certeza de que não precisaria de carregar muitos. Sentei na guia e esperei até Richie se aproximar, ele estava acompanhado de Virgil que pareceu não gostar muito de me ver.

– Não se preocupe, não vou revelar sua toca secreta a ninguém — falei piscando para Virgil.

– Relaxa – Richie falou entrando a frente de nós.

Quando entrei achei o lugar absurdamente escuro, as luzes se acenderam, busquei por um interruptor, mas não encontrei nada. Várias partes de robôs se espalhavam pelo lugar, era como um cemitério de coisas velhas. Richie parou de frente para um braço enorme, observei a máquina.

– Encontrei isso aqui, mas não consegui um programa compatível. — ele ajeitou os óculos — Pensei que você poderia me ajudar com isso.

– Claro – joguei minha mochila cheia de livros no chão — Me mostre o que já fez e se ele está funcionando a estimulos – ele olhou Virgil que revirou os olhos e se aproximou do enorme braço segurando uma ferramenta que não consegui ver o que era.

Os dedos moveram, olhei Virgil que jogou a ferramenta num canto e esperou os movimentos do amigo, observei a tela de Richie, um programa registrava as cargas elétricas que passavam pelos dedos para que eles pudessem se mover. Tomei o teclado da mão de Richie e comecei a digitar, meus dedos acelerados. Eu não conseguia acreditar que depois de tanto tempo eu ainda conseguia programar tão rapidamente. Quando finalmente acabei encontrei os dois dormindo num sofá velho e todo rasgado no canto do lugar abandonado. Virgil dormia apoiado no braço enquanto umas das pernas de Richie estava sobre a sua.

Resolvi que deveria testar a máquina, me aproximei de Richie e com comandos pelo meu programinha enviei sinais aos dedos que cutucaram de leve a bochecha de Richie. Novamente e ele não acordou, uma vez mais forte e na tentativa seguinte ele soltou um grito que fez Virgil saltar e as luzes apagarem enquanto eu ria dos dois. A energia aos poucos foi se normalizando. Richie me olhou curioso então lhe apresentei a mão de um robô funcionando.

– Eu te disse que ela é boa – Richie mostrou para Virgil que sem querer admitiu que eu sabia o que estava fazendo.

– Eu preciso ir – falei olhando a hora – Meu pai vai me matar quando eu chegar. — falei cansada – Boa diversão para vocês, garotos.

Acenei para eles e saí correndo, eu teria de pegar um ônibus, estava sem animo de ir para casa, olhei o remédio na minha bolsa toda manchada por causa das canetas que estouraram. Eu não estava com dor de cabeça, peguei meu celular e mandei uma mensagem para Mindy.

"O que você fez?" Ela mandou com várias interrogações.

"Programei" foi minha simples resposta e agora analisando sempre que eu programava minha mente ficava bem limpa e quando eu buscava pelos heróis minha cabeça parecia nem existir. Era estranho que eu nunca tivesse percebido isso. Olhei a tela do celular e pude ver um reflexo, olhei pela janela do ônibus, Superman voava com seu uniforme azul e a droga da cueca vermelha por cima da roupa. "Aconteceu algo?"

"Sim! Uma explosão no centro, te vejo mais tarde"

"Me vê na ação, essa é a hora de eu entrar em ação"

"Agnes, é muito perigoso, você não pode ir... Estou falando besteira, você vai mesmo que eu diga que você vai morrer"

"Que bom que sabe"

Dei o sinal, desci correndo e fui observando o homem azul voador, eu corria seguindo o caminho dele, era no centro, correndo eu demoraria muito. Os postos de aluguel de bicicleta, aluguei uma e acelerei pedalando, mandei uma mensagem para a família dizendo estar ocupada e tive de aguentar uma de "Espero que conquiste seu boy novamente" da minha madrasta, bloqueei a tela.

Pedalei desviando dos pedestres, dos carros parados no transito, os semáforos quebrados indicavam que eu me aproximava do local, os carros abandonados indicavam a proximidade com maior precisão.

– Afastem! Afastem! — um policial empurrava nós curiosos suicidas. — Menina, ei, menina!

Eu já tinha me afastado dele e estava no meio da destruição, no alto eu via o Homem de Aço, via no chão o Kick-Ass e Hit Girl, eles analisavam um computador ao lado de outro herói, um herói que por estar ali me causou um tremendo arrepio, ele sabe quem sou e eu sei quem ele é, meu coração contraiu.

– O que faz aqui? — eu dei um pulo assustada, olhei, o loirinho estava ali sobre os patins.

– Você! — falei animada – Que susto.

– É perigoso – ele falou franzindo o cenho por detrás do visor. — É melhor se juntar aos outros.

– Gear! — olhei para o alto, Super Choque, ele ficou me encarando – Estamos precisando de você.

Ele voou para junto dos outros, olhei o tal Gear, ele analisava o amigo.

– É melhor...

– Nem tente, Gear – Hit-Girl se aproximou – Ela não vai te ouvir, eu já tentei.

Ele suspirou e concordou com ela, foi com os outros.

– Qual o problema? — perguntei a ela.

– Dois fugitivos. — ela falou me levando até o computador, Dave me encarou e sorriu ou pareceu sorrir – Batman! — ele nos olhou, ele ficou me encarando e eu não fazia diferente, desviei o olhar – Mostre a ela.

– No que ela pode nos ajudar? — Super Choque pousou ao nosso lado — Já humilhou o Gear uma vez e agora? — ele olhou Gear que parecia bem curioso.

– Você reconhece esses lugares ou essas pessoas? — olhei de baixo para o Batman, ele me olhava e aquilo me assustava.

– Fácil! — olhei o computador – Se eu criar isso aqui – digitei umas linhas de programação — Associar com as pessoas que vocês buscam que estão listadas na polícia e haquear algumas câmeras de segurança.

– Não haqueamos – Gear falou.

– Vocês não, eu sim. — pisquei para ele – E em especifico haquear isso aqui – olhei o Batman, seus olhos aumentaram discretamente atrás da máscara.

– Como você...

– Eu era depressiva – falei dando de ombros — Você tem a melhor arma de ataque, mas parece ter medo de usar, eu o usei quatro vezes – ele me observava – Uma para você, outra para o grandão de aço lá em cima – Batman olhou para cima – E outras duas que prefiro não citar – respirei cansada, algo invadiu minha mente, eu cambaleei.

– Você está bem? — olhei Dave que tinha me segurado, confirmei – Hit-Girl leve-a para casa.

– Você está me dando ordens? — Mindy cruzou os braços — Qual o seu problema?

Olhei a tela do computador, lembrei de outra cena da noite. Forcei os lábios, e olhei o computador, Batman analisava tudo o que eu tinha feito.

– O que eles fizeram aqui? — perguntei para Dave.

– Roubaram um banco e explodiram alguns vários carros na hora do rush – Dave explicava – E mataram muita gente – ele falou e olhou os outros — Não os conhecemos.

– São meta-humanos – Super Choque falou analisando – Lembro deles na noite do acidente – ele me olhou – Normalmente não são muito inteligentes, devemos estar deixando algo passar.

– Ou talvez sejam apenas soldadinhos – Hit-Girl falou e me olhou – Aquela noite... — confirmei. Olhei o Batman, ele me analisava. — Vem, vou te levar para casa.

– Não, eles vão precisar de você, eu posso ir sozinha.

Me afastei sentindo o olhar deles sobre mim. Passei pelos policiais que ficaram me encarando e outros que viram que conversei com os heróis ficaram a minha volta, eu fui cercada por repórteres, por que repórteres sempre lotam esses lugares, levantei o olhar e percebi uma câmera que quase mergulhava na roda que tinha se formado a minha volta. Tentei passar e não consegui, uma enxurrada de perguntas me eram lançadas, levantei novamente e encarei a câmera.

– Vem – algumas pessoas se abaixaram e outras se afastaram, uma mão esticada para mim.

– Vão precisar de você lá — falei e tentei olhar o grupo de heróis que eu tinha deixado para trás.

– Não se preocupe – aceitei a carona. — Se equilibrou – confirmei e apertei a cintura dele com medo, eu estava um pouco tonta, mas eu não queria ir na frente, eu tenho medo de altura se eu for na frente novamente vou ter um ataque.

Ele já sabia o caminho para minha casa, ele ficou flutuando de fora da minha janela conforme eu entrava.

– É bom você trancar sua janela – ele falou.

– Ou o quê? Um Super Choque pode invadir meu quarto? — ele deu de ombros, eu ri.

– Você não parece ser apenas uma menininha – eu não entendi o que ele falou – Sabe, com o robô e agora, como você? — dei de ombros. Ele olhou dentro do meu quarto, prendi a janela e abri as persianas. Ele me olhou enquanto eu me afastava. — Você mais misteriosa do que alguém que usa máscaras — ele falou entrando.

– Não vão precisar de você? — eu o olhei abrindo meu armário e pegando uma blusa, eu estava tremendo de frio – Ficar me dando caronas assim fará com que as pessoas pensem coisas e...

– Agnes! — ele pulou sobre mim, uma explosão no meu quarto, eu me encolhi no meio do abraço dele.

A fumaça estava intensa, virei o corpo do Super Choque, ele estava meio tonto, olhei em volta, duas pessoas entravam pela janela. Peguei uma bengala que guardei do meu último cosplay num evento que fui, me preparei, as pessoas avançaram e eu não fiz diferente, as acertei com a bengala. Super Choque soltou uma corrente para a fumaça, as pessoas cairam desacordadas. Ele se levantou, eu tossia. Eletrocutou os corpos e os levou para fora flutuando, eu fui com ele.

– Tem certeza de que ficará bem? — ele perguntou me deixando no telhado enquanto a fumaça continuava saindo do meu quarto, eu tossia um pouco.

– Tenho. — falei e fiquei de pé — Quem são eles?

– Soldados – ele falou e olhou os corpos — Você fez um bom trabalho – ele sorriu, sorri de volta. — Se cuida.

– Você também.

Meu celular tocou assim que ele se afastou carregando os corpos.

– Alô?

– Agnes! Eu vi o Super Choque saindo do seu quarto e...

– Estou bem. — falei e olhei minha janela – A passagem ainda está aberta? — minha madrasta confirmou — Já vou falar com você.

Tirei quatro telhas e passei par ao sótão. Abri a portinha que dava para o corredor, desci e a encontrei me esperando, o irmão ao lado dela com um olhar admirado. Eles olharam para a porta do meu quarto, um pouco de fumaça vazava.

– Eu posso explicar – falei tentando me defender, mas na verdade eu não podia – Eu... — tentei pensar em uma desculpa – Eu fui atacada, e o Super Choque veio e me ajudou, não foi nada de mais.

– Por que você ta com uma bengala na mão? — o meu tio postiço perguntou apontando.

– Eu reagi. — dei de ombros — Não é fácil me pegar – sorri e apoiei na parede.

– Ag! — minha madrasta veio até mim, apaguei no corredor.

– Conseguimos pegar os caras – Mindy falou durante um telefonema, eu ia para a consulta – Aquilo que você fez deixou o Batman bem preocupado, ele reforçou a segurança dos sistemas dele, achou impossível alguém como você conseguir invadir.

– Mindy, posso te ligar depois? — ela confirmou.

Sentei nos banquinhos, comecei um joguinho no celular, minha cabeça estava doendo e eu tinha esquecido o remédio, a porta do consultório se abriu. Virgil saiu, ele me olhou e pareceu sorrir, um sorriso bonito que me prendeu por alguns segundos.

– Você está bem? — ele perguntou.

– Estou, por quê?

Ele me analisou e se desconcertou.

– Eu vi você na televisão ontem com aqueles heróis, você parece estar ajudando bastante.

Dei de ombros e a Doutora chamou, pedi licença para ele e entrei.

A Doutora me olhava com uma curiosidade que há muito eu não via em seu olhar. Ela sorria alegre e começou com as perguntas. Como eu conheci os heróis, o que eu tinha feito para ajudá-los, achei estranho e a última pergunta eu não respondi, disse apenas que conhecia as pessoas que procuravam – uma enorme mentira, eu não conheço muita gente – respondi outras perguntas feitas por ela, mas ela tinha um curiosidade anormal e isso foi estranho.

– E o Batman? — eu a olhei sem entender – Qual a sua relação com ele?

– Eu usei o computador dele, só isso. — falei voltando a fitar o teto – Essa é minha relação com ele – eu ri e senti outra pontada. Ela suspirou decepcionada.

A consulta acabou com a Doutora falando que eu estava evoluindo bastante e que interagir com heróis parecia estar me fazendo bem.

Será que eu estar com eles não colocava minha família em perigo? Eu não tinha parado para pensar nisso. Se até o Virgil e a Doutora estavam sabendo que eu tinha ajudado os heróis duas vezes, então talvez vilões também estivessem sabendo. Peguei meu celular ia ligar para o meu pai quando recebi uma ligação dele.

– O que você fez? — ele gritou, me encolhi nos ombros – Dois policiais estão na porta de casa fazendo várias perguntas.

– Eu não... Pai... — ele brigava, minha cabeça doía – Pai... — estava latejando. Senti enjoo, larguei o celular e dobrei sobre meu corpo, algo invadia minha mente, eu segurava algumas lágrimas.

Uma pontada atingiu minha espinha, olhei para cima buscando ar, observei a Doutora na janela, ela me olhava de cima e não fazia nada, minha visão embaçou. Senti minhas pernas amolecerem, consegui digitar algo para alguém, eu não fazia ideia de para quem.