Eletric Heart
4 Capítulo 4
Sentei no ônibus o que era muito bom e raro quando eu ia a universidade. Minhas mãos não paravam de batucar o espiral do caderno no ritmo de uma música que eu não lembrava de onde eu conhecia, minha mente viajava quando o motorista freou bruscamente, eu quase capotei para o banco da frente, as pessoas que estavam em pé caíram umas sobre as outras, as que estavam sentadas xingavam e algumas ajudavam vendo se alguém tinha se ferido.
– Essas pragas de heróis! — um homem praguejou muito irritado.
– Se não fosse por eles eu não estaria atrasado. — outro reclamou.
Eu tentava ver o que acontecia do lado de fora. Dois no ar e um pelo chão, forcei a visão, eu conhecia aqueles uniformes, dei um sinal desesperada para que o motorista abrisse. Desci saltando e tendo de desviar de algumas pessoas curiosas que tinham largado seus carros e corriam na direção do perigo, não diferente de mim que já estava com meu celular a postos para fotos. Dei zoom e tirei muitas fotos do tal novo herói, depois do amigo de patins dele que estava no chão e dava voltas em torno do enorme monstro que depois de uma melhor observação vi ser um robô.
Eu estava animada, sempre ficava muito animada quando encontrava novos heróis. Um cutucão nas minhas costas olhei para quem o fazia, Mindy usava seu uniforme.
– Espionando as novas presas?
– Yep! — falei animada o que a fez rir – O Dave não vai vir? Pensei que finalmente os veria lutando lado a lado.
– Ele é pior do que mulher para se arrumar – ela reclamou cansada e riu em seguida – Bom, vou para a ação, espero que não se importe de assistir uma verdadeira profissional. — acenei para ela que pulava os carros e desviava das pessoas como se fosse algo bem simples de fazer.
Raios eram lançados contra o robô que parava de funcionar e segundos depois voltava a onda de destruição, observei o loirinho ao chão ele tentava reprogramar o robô, era uma cena divertida de se acompanhar e seria ainda mais divertido se eu pudesse ajudá-lo, fazia muito tempo que eu não programava nada.
Eu estava distraída com a câmera focado no menino dos choques que sequer percebi quando todos gritaram e se desviaram de algo que foi jogado contra nós, apenas reparei algo se aproximando quando já fui atingida e rolei junto do corpo que me foi lançado. Minha cabeça doeu e latejou mais do que o normal. Uma enorme capa vermelha veio até nós.
– Está tudo bem? — a voz do Superman me causou um arrepio.
– Está — falei me levantando tonta, o olhei, ele era lindo.
– Ag! — olhei Hit-Girl, percebi seus músculos ficarem relaxados ao ver que eu estava bem. No chão o loirinho voltava a programar.
– Vou derrubar aquela coisa de vez.
– Não! Superman, eu consigo, eu falei que posso desarmá-lo! — o loirinho falou agora parecendo preocupado.
– Já te dei tempo demais, não posso permitir que mais pessoas se firam.
O homem alçoou voo.
– Eu não posso permitir que destrua uma máquina tão bela quanto essa, mas quem escuta o nerd – o loirinho reclamava no chão.
– Posso te ajudar? — perguntei me aproximando dele e vendo a programação, ele me olhou, pareceu se assustar o que me fez rir – Aqui! — falei apontando par ao erro da programação, ele me olhou torto – Pode confiar.
– Por que eu deveria? Quero dizer – ele tossiu — É melhor se afastar isso pode ser muito perigoso.
– Aqui me dá isso – tomei o controle da mão dele, corrigi a programação, o robô parou e quando voltou eu o controlava, Superman tentou acertar um soco que eu desviei, depois fiz o robô se sentar, todos olharam na nossa direção. O loirinho ria feliz por ter salvo a máquina — Prontinho – falei sorrindo e entregando a ele aquela bela obra da tecnologia.
– Obrigado! — ele controlou o robô, os dois voadores vieram até nós, mais minha amiga exausta que tinha mantido os civis afastados da área de perigo, ela dizia que se os Grandes lutavam outros como ela tinham de saber seu lugar, ela dizia que as vezes aproveitava para dar belos socos, mas quando o adversário era um robô gigante não tinha muito o que fazer.
– Quem é você, menina? — Superman perguntou.
– Uma viciada em programação. — falei e olhei o chão procurando pelo meu celular.
– Procurando isso? — o menino negro me entregou o celular terminando de assistir o péssimo vídeo que eu tinha feito dele – Por que não compra uma câmera melhor?
– Porque meu pai não liga para isso – dei de ombros – Ele diz que eu não estou mais na fase de heróis, que heróis são para crianças.
– Pois diga ao seu pai que para heróis não há idade – Superman falou depois levantou voo, eu encarei Hit-Girl que me olhou de volta sem entender.
– Você estava indo a algum lugar? — o menino do disco me perguntou.
– A universidade – olhei a hora – Mas já não dá mais tempo. — falei decepcionada.
– Desculpa te fazer perder a hora – o loiro falou e olhou o companheiro – Podemos dar uma carona para as duas. — eu e Hit-Girl trocamos olhares curiosos e aceitamos.
– Segura firme – o menino negro falou enquanto eu subia em seu disco, ele me ajudou a equilibrar, olhou por cima do ombro – Pronta? — neguei, ele riu e acelerou ou deu a partida, sei lá o que ele fez com aquele disco, apenas o moveu, eu me agarrei a sua cintura o máximo que eu podia, isso o fez rir e me fez ficar vermelha, olhei para o lado encontrei Mindy e o loirinho juntos, ele a segurava pelos braços, enquanto ela olhava em volta e me fuzilava enquanto eu voava no conforto e ela parecia mais estar fazendo acorbácias nas barras.
– Qual o seu nome? — perguntei, o herói me olhou pelo ombro.
– Super Choque – ele falou desviando de alguns pássaros.
– Super Choque – eu repeti, ele acelerou, o apertei ainda mais – Bom nome. — pude ouvi-lo agradecer, mas não tive muita certeza de ter sido sua voz ou se não fora o vento zunindo em meu ouvido.
O loirinho colocou Mindy no chão, ela deu uma corridinha até parar. Super Choque me ajudou a descer do disco, agradecemos as caronas, os vimos sumirem pelo céu.
– Depois disso, você me deve um jantar – Mindy falou.
– Super Choque... — repeti, ela ficou me encarando – Vou descobrir quem você realmente é — ela riu, eu a olhei – Como você se controla ao lado de um homem como aquele?
– Super Choque? — ela me olhou de canto.
– Não, claro que não. Superman – ela riu – Eu sei a verdadeira identidade dele, mas nunca cheguei tão perto assim, caramba que homem. — ela riu – Como é o Batman?
– Não é melhor pode ter certeza, prefiro o Ciclope – ela deu de ombros – Bem mais bonito.
– Você tem sorte de conviver com esses caras.
Assim que entrei na sala pude ouvir os gritos curiosos de todos, provavelmente eu tinha aparecido na TV como a menina atingida pelo nerd programador, mas com toda a certeza não mostraram que eu fui quem encontrei o erro da programação, não que eu me importe, mas teria sido legal esfregar na cara do meu pai que o meu hobby de infância me ajudava com toda a força agora e eu ajudara a salvar o dia, mas se eu sequer mencionasse isso começaríamos a discutir, então apenas responde as perguntas dele e falei para minha madrasta que o Superman era o cara mais gato que eu já tinha visto o que foi suficiente para eu ouvir do meu pai "Você não conhece muitos caras".
Qual seria meu uniforme se eu fosse uma heroina? Analisei os uniformes femininos que existiam e estavam na moda, com toda certeza o da Hit-Girl era o único que me agradava visualmente. Sentei com minhas pernas na cama, liguei meu notebook e comecei a olhar as recentes noticias sobre heróis, nada muito surpreendente, apenas que novos heróis surgiam preenchendo as lacunas dos que se aposentavam ou sumiam ou, como eu suspeitava da maioria, morriam, mas ninguém queria admitir.
Minha cabeça latejou, peguei um remédio e o engoli com uma ajudinha do suco de laranja que estava a horas na minha mesinha.
Comecei a fazer um trabalho para a aula de literatura do dia seguinte e comecei a pensar nos problemas que eu teria com a apresentação, eu gosto de falar em público, na verdade adora, quando eu era mais nova fui a representante da classe várias vezes, eu falava pelo turma toda e no nono ano eu até fiz o discurso da turma, mas agora tudo parecia distante demais, falar em público me remetia ao acidente quando apenas eu estava viva chorando para os policiais e para os Grandes, certeza que eles me acham uma grande babaca ou me achariam caso pudessem se lembrar de mim.
– Vai ter uma aula extra de programação — Mindy falou durante o intervalo — Você foi tão bem durante a programação do robô aquele dia que pensei que gostaria de assistir uma aula, por isso te inscrevi.
– Obrigada por sequer ouvir minha opinião. — falei mexendo no canudo do meu suco, a olhei – Acho que será bom.
Ela confirmou.
Mandei uma mensagem para o pessoal de casa informando que demoraria mais na escola devido a uma aula extra. Minha cabeça doia muito durante as trocas de aula e eu já tinha tomado dois comprimidos, mais um e eu suspeitava que eu teria uma overdose. Joguei meus cadernos na mesa ao canto da sala, a luz do projetor não me atingiria diretamente e talvez não piorasse minha dor, mas só talvez. Eu estava de cabeça baixa enquanto a aula não começava, livros foram jogados na mesa ao lado da minha, apenas virei o rosto e vi o loirinho, o tal Richie se sentando e me cumprimentando com um sorriso.
– Sua amiga brava não está aqui, está? — neguei. — Posso ficar? — confirmei. — Não pensei te encontrar aqui – ele realmente quer conversar? Agora? Hoje? Aqui? Por favor, não. — Não sabia que gostava de programação.
– Costumava ser um hobby – falei percebendo que não teria jeito. Ele sorriu – Minha mãe gostava muito de me incentivar – dei de ombros – Eu gostava de agradá-la, acabei pegando o jeito.
O professor entrou, a sala mergulhou em um silêncio constrangedor. Richie e eu faziamos as atividades tão rápido que eramos os únicos a quebrar o silêncio da sala. Conversavamos sobre programação, construção de robôs, ele dizia que adorava construir, mas odiava programar, eu dizia que se precisasse de ajuda poderia me chamar que eu adoraria, ele agradecia várias e várias vezes. Quando a aula finalmente acabou percebi que eu não tinha aprendido nada novo a não ser as conversas com Richie.
– Virgil deve estar jogando, quer vir? — ele me convidou indo para a quadra.
Lembrei que Mindy adorava assistir as competições então talvez eu pudesse me encontrar com ela por lá.
Richie abriu espaço entre as pessoas e começou a gritar incentivando o amigo, eu odiava aquele barulho, aos poucos fui me afastando até que percebi ter subido tanto na arquibancada que eu conseguia ver tudo e todos dali e o barulho não era tão incomodo. Escorei as costas na parede e assisti ao jogo, eu não estava entendendo se era um time de fora ou se era da escola, eu apenas entendia que o time do Virgil ganhava e ele era muito engraçado quando fazia as cestas. Minha cabeça deu uma pontada bem forte, fechei os olhos, outra pontada, senti meu estômago embrulhar. Me levantei, com a mochila de qualquer jeito no ombro desci da arquibancada correndo.
– Agnes! — ouvi Richie gritar, eu não olhei para trás, bati uma porta do banheiro e senti tudo o que eu tinha comido do dia voar para a privada.
Eu estava sem ar e tonta, perfeito desmaiar sozinha no banheiro quando a escola está quase fechando. Sentei no chão, alguém entrou no banheiro, vozes estranhas que pareciam estar brigando. Tudo muito perfeito, agora só falta me dizer que uma briga de verdade vai começar e...
– Droga! — eu olhei por debaixo da porta, duas meninas brigavam, mas eram menina diferentes, uma tinha os dentes como os de um tubarão e a outra transformava os braços em algo gigantesco e musculoso. Se me pegassem ali eu estaria ferrada.
Elas destruiam o banheiro, eu me encolhi bem no canto e torci para que não destruissem onde eu estava, o que era pedir demais. Senti os restos dos box passando pero de mim e quase me cortando, as duas me encararam encolhida no vaso sanitário e soltaram grunhidos que eu não consegui entender o significado, apenas aproveitei que grunhiam e saí correndo.
Eu corria desesperada pelos corredores, consegui sair para a quadra coberta, me escondi atrás da arquibancada, meu celular vibrava. Mindy me ligava desesperada, atendi e fiquei em silêncio, ela perguntava aonde eu estava que meu pai já tinha ligado para mil lugares atrás de mim. Achei que não tinha passado tanto tempo no banheiro, olhei rapidamente a tela do celular já era quase sete da noite, meu pai vai me matar quando eu chegar.
Ouvi as meninas enquanto na quadra, escalei a arquibancada por baixo e me pendurei bem no alto, torci para que meus braços ainda fossem fortes como nos meus velhos tempos de atleta. Fiquei ali, as duas entraram ali debaixo, comecei a me afastar pendurada na estrutura, as duas grunhiam uma para a outra, consegui sair de debaixo da arquibancada, retomei o folego e quando eu ia correr para sair dali as duas me viram, estavam do outro lado, mas corriam rápido, rápido demais para eu descer. Olhei em volta e comecei a escalar uma das colunas que era formada por vários canos metálicos. Subi na estrutura da quadra.
– Socorro! — gritei inutilmente. — Socorro! — repeti e comecei a sentir o pânico tomar conta de mim, obrigada mãe por me incentivar na computação e na ginástica, mas nunca na luta.
Comecei a pensar em me jogar dali, eu tinha duas saídas, me jogar ou ser pega pelas duas, e me jogar parecia melhor do que me deixar ser pega por aqueles dois monstros.
– Pula! — eu ouvi e pulei.
Fechei meus olhos esperando o impacto com o chão, mas algo me pegou no ar abri meus olhos com medo.
– Olá, novamente! — abracei o pescoço do Super Choque.
Eu estava muito assustada.
Ele pousou, desceu do disco e me sentou no primeiro degrau da arquibancada, eu inspirava com força quando algo mais atingiu minha mente com uma nova pancada, fechei os olhos com força e busquei algo para apertar, o que resultou nas minhas canetas se quebrando e estourando dentro da minha mochila.
– Você está bem? — ele se agachou a minha frente, abri meus olhos aos poucos e me deparei com dois enormes olhos negros e bonitos me encarnado preocupados.
– Es... Estou – eu me levantei e senti tontura – Onde elas estão?
– Apagaram – ele saiu da minha frente e apontou para os dois corpos caídos no meio da quadra – Canos de metal, mais raios não resultam em boa coisa – ele falou sorrindo e soltando raios pela mão, eu tentei sorrir, mas uma nova onda de nausea me atingiu.
– Obrigada. — ele sorriu.
– Você não parece bem, vem – ele subiu no disco e esticou a mão para me ajudar a subir – eu te levo para casa.
– Estou bem – eu dei um passo e minhas pernas amoleceram – Vou aceitar – ele sorriu.
– Isso está virando rotina – eu o olhei – Te dar carona, vou começar cobrar tarifa – eu ri.
Me posicionei atrás dele e segurei sua cintura, mas eu não me sentia firme.
– Pode vir na frente se quiser – ele falou percebendo que eu não me sentia segura – Mas prometa que vai se comportar.
Confirmei.
Fiquei a frente dele, Super Choque me segurou e lentamente levantou voo com o disto bem carregado, diferente da nossa última viagem ele foi bem lentamente, eu podia ouvir o barulho do trânsito abaixo de nós e podia até ouvir o som da barriga dele roncando o que me fez rir. Apontei na direção da minha casa, ele fez uma curva e me segurou firme, me perguntei quantas meninas ele já tinha dado carona e quantas já tinha segurado dessa forma, revirei os olhos com minha própria idiotice.
– Aqui – apontei para a janela. Ele ficou ali flutuando, abri a janela com cuidado e entrei no quarto — Você deve estar com fome, entre. — ele me analisou – Vou preparar algo para comermos.
Indiquei minha cama para ele se sentar, ele diminuiu o tamanho do disco o colocou dentro do casaco e percebi o quão barulhenta eram as botas dele. Super Choque se sentou na minha cama e ficou analisando meu quarto. Preparei dois sanduíches bem rápidos para nós e corri para meu quarto, ele olhava os posteres de herói, agora com dois novos, um dele e outro do seu companheiro loirinho.
– Como você sabe a identidade deles? — ele olhou os do Flash e do Batman.
– É um hobby.
– Assim como programar? — ele pegou o sanduíche e se sentou comigo.
Dei de ombros. Devoramos os sanduiches mergulhados em um silêncio profundo. Ele se levantou, agradeceu e foi até a janela, carregou o disco e desejou boa-noite desligando as luzes do meu quarto, fiquei o observando se afastar, olhei a hora, quase duas da manhã, pelo menos eu teria pouco tempo para ficar me distraindo.
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