Elena
5 Precalculus
Notas iniciais
Já havia se passado quase uma semana desde a nossa chegada. Justine, Alice e principalmente minha mãe não se importavam mais tanto com minha presença quanto nos primeiros dias. Percebi ─ da pior maneira possível ─ que eu era a única sobrando ali.
Acordei com olheiras e o cabelo tão despenteado que mal sabia que tinha fios independentes ali. Minhas unhas, minha pele ressecada e o sorriso amarelado diziam que a mudança havia me feito uma preguiçosa descuidada.
Que ótimo. Eu havia percebido isso na exata manhã do meu primeiro dia de aula.
Levantei-me com certa resistência. Não havia nenhuma roupa decente no meu guarda-roupas ou sequer uma calça jeans que dissesse: fiz compras nos últimos dez meses. Eu já havia me acostumado com minhas blusas desbotadas e calças manchadas e feridas pelo tempo, mas não as outras pessoas. Estas pensavam ─ e eu tinha certeza disso ─ que eu provavelmente vinha de alguma periferia.
Não me importei muito de início. Pedi um jeans emprestado de Alice e joguei qualquer suéter de cor única por cima, já que o dia havia amanhecido bem mais frio que de costume.
Justine apressou o café e acompanhei seu ritmo, vendo que ela precisava sair para trabalhar e a casa precisava permanecer trancada ─ provavelmente porque temia um ataque de guaxinins nos cômodos da casa, visto que morávamos no primeiro andar.
Prendi meu cabelo num rabo de cavalo bem alto e penteei somente as pontas, temendo não ter tempo suficiente para mais nada.
Era hora de sair da bolha de Alice. Minhas aulas já haviam começado e eu sequer comparecera ao primeiro e segundo dia, sequer me pronunciara a respeito do colégio. Eu sabia o quão duro minha mãe estava trabalhando e não queria parecer acomodada com todo o luxo ao que fora apresentada.
O ônibus estava à espera. Era cedo, e eu senti que meus dedos estavam a ponto de congelar ─ ainda que estivesse com luvas de camurça. Entrei, olhei ao meu redor e percebi, para minha sorte, que eu era a primeira a ser pega. Sentei-me no fundo, desejando não ter que falar com ninguém. Abri a bolsa que havia levado e vi que o estojo ficara para trás. Um caderno, três canetas jogadas no bolso de fora da mochila, os livros de literatura ─ a única matéria que realmente precisava aprender se não quisesse reprovar em todas as outras ─ e o meu celular.
Temi mil e uma coisas ao mesmo tempo. Ter esquecido algo essencial, estar levando coisas a mais que o necessário, ter trocado algum material por outro; e todas elas, é claro, incluíam-me passando a vergonha do ano em frente ao colégio inteiro.
Morrison era muito maior por dentro do que eu imaginava ─ e muito mais cheio também, diga-se de passagem. Quase não soube para onde correr. Além das informações básicas adquiridas nas séries adolescentes estadunidenses, eu não sabia absolutamente nada sobre o colégio. Onde ficava a minha sala, como eu poderia chegar até ela, quais eram os horárias de entrada e saída; tive vontade de ligar para Alice e pedir socorro imediatamente.
Respirei fundo, apoiando-me num dos armários do corredor. Vi que, logo ao meu lado, havia uma enorme tabela de horários para as turmas do primeiro e segundo ano.
8:00 — 8:48 -> Precalculus
─ A classe sênior de matemática? ─ assustei-me com uma voz feminina ao meu lado. A garota que parecia ter um ou dois anos a menos que eu se agasalhava num enorme cachecol vermelho e tinha um sotaque austríaco que eu já havia escutado antes.
─ Desculpe ─ respondi, feliz por estar falando com alguém que, assim como eu, era novo por ali ─ Eu acabei de chegar aqui.
O sinal soou como uma sirene, e corri os olhos pela tabela novamente, esperando que aquele pedaço enorme de papel pudesse me dizer alguma coisa sobre a localização das salas.
Acompanhei a multidão que andava a passos rápidos e largos, deduzindo que ao menos quando chegasse às portas eu teria alguma informação. Quando viramos, no entanto, vi que eu corria diretamente às classes avançadas, aquelas que aplicavam matérias exclusivamente para alunos que se destacavam em tais. Bufei, tentando escapar dali o mais rápido possível. Eu chegaria atrasada se não encontrasse a maldita sala de cálculo nos próximos minutos.
Uma luz se acendeu em mim quando vi que a garota que havia antes me consultado abria uma porta no final do corredor. Acompanhei-a rapidamente, vendo que uma escritura ao lado da porta de madeira dizia Precalculus (senior). Agradeci aos céus, segurando-a aberta e entrando logo em seguida.
Meu coração palpitava tanto que parecia querer sair pela boca, e tentei ─ desesperadamente ─ não fazer contato visual com ninguém que estivesse próximo de mim. Só parei de andar quando percebi estar nas últimas carteiras da classe. Sentei-me numa das cadeiras de madeira que restavam, vendo que eu era a última a entrar e que já havia perdido quase cinco minutos de aula.
Mantive minha bolsa em meu colo, despejei o caderno e as canetas sobre a mesa e joguei a mochila à minha frente, ao chão. O professor de cálculo ─ que devo dizer, tinha uma carranca que definitivamente merecia um prêmio ─ acompanhava cada ato meu, encarando-me com um olhar que dizia que eu havia começado muito bem.
Engoli em seco. Eu havia me sentado na penúltima fileira, o que me dava o privilégio de estar bem longe do olhar esmagador do professor.
─ Pontual ─ ele sorriu, gesticulando para a turma e olhando diretamente para mim ─ You should trade-off, senhorita...?
A turma rapidamente se virou para olhar para mim, esperando por minha resposta. Congelei. Não sabia o que ele havia dito, não sabia o que responder, não conseguia dizer nada além de murmúrios.
─ Desculpe ─ falei em baixo tom, a voz falha e rouca ─ Meu nome é Elena.
Respirei um segundo antes que a explosão de gargalhadas viesse aos meus ouvidos. O professor agora andava de um lado para outro, parecendo não acreditar no que havia escutado, e exibindo ─ é claro ─ um sorriso de orelha à orelha.
Fiquei sem reação. Deixei que rissem, olhassem para mim e balançassem a cabeça e murmurassem expressões incrédulas.
─ Merda, merda, merda. ─ sussurrei, desejando correr dali de imediato.
─ Você definitivamente deveria trade-off, Elena. Significa trocar uma qualidade por outra. Talvez deixar de ser tão boca-suja e tentar se comunicar com alguém antes de se perder pelo prédio e atrasar nossa aula.
Olhei para trás, espantada. Sorrindo, um garoto de madeixas escuras brincava com um lápis e olhava para mim com a sobrancelha arqueada; Deus do céu. Ele falava português.
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