Elena
6 Hello, m'lady!
Notas iniciais
Encarei seus olhos escuros e a expressão sarcástica com ódio profundo, pensando ─ por fim ─, por quanto tempo seria torturada pelas gargalhadas da classe. Aos poucos, a paciência do mentor à nossa frente se dissipava e a lousa era preenchida por exercícios de trigonometria; a aula continuou como havia começado.
─ Seu sotaque me diz muito ─ respondi no mesmo tom irônico ao que fora submetida, olhando para trás corriqueiramente.
A resposta que eu dera ao professor, descobri logo, fora tão antiquada quanto fina. Sem perceber, respondi ao insulto como se nem o tivesse recebido. Minha pacata compreensão do inglês me fora ─ afinal ─ muito útil.
O garoto arqueou novamente as sobrancelhas, curioso para que eu prosseguisse. Calei-me, virando a carteira para frente. A lousa já era preenchida pelo novo conteúdo de cálculo, e abri meu caderno na primeira matéria para começar a escrever, ignorando qualquer resposta do garoto atrás de mim.
─ Ainda que, é claro, você esteja ligeiramente em vantagem, já que sabe o meu nome ─ completei.
─ Mesmo? E o que meu sotaque te diz? ─ sua voz era rouca e carregava sempre um tom de ironia.
Ouvi pela primeira vez a desenvoltura do inglês que ele pronunciava. Limpo, claro e centenas de vezes melhor que o de qualquer outra pessoa que eu já havia conhecido. Duvidei, ainda que por um milésimo de segundo, que ele fosse realmente brasileiro.
Ele pigarreou, esperando qualquer outra resposta minha.
─ Que você aprendeu o inglês, mas não o português ─ disse eu por fim ─ E que precisa de aulas tanto quanto eu, só não na mesma língua.
─ É claro ─ ele riu, jogando a cabeça para trás.
Não tive, felizmente, qualquer outra conversa constrangedora com o professor de matemática ou com o engraçadinho que se sentava na carteira de trás. A tabela de horários da semana me dizia que teríamos ainda outras seis aulas até o fim do dia, almoço e quarenta minutos extras de robótica ─ optativo, imaginei.
Anotei no final da página os exercícios passados pelo professor, alguns cálculos básicos de revisão. De início, temi ver qualquer outra coisa que já não conhecesse da matéria, mas lembrei-me logo de que pegaria rapidamente qualquer que fosse a mudança, uma vez que matemática era ─ de longe ─ o que ainda me mantinha no colégio.
Já se passavam das nove quando o sino estridente anunciou o fim daquela aula. Levantamo-nos todos e segui rapidamente os passos da classe, que nos levou para o laboratório de biologia. Apesar dos inúmeros equipamentos que nos foram postos a disposição, deduzi que aquela seria apenas uma introdução ao conteúdo. O painel estirado na parede detrás da instrutora nos dizia o mesmo, já que víamos em tópicos conceitos básicos do que veríamos ao decorrer do ano.
O laboratório era rodeado de enormes prateleiras que disponibilizavam todo o tipo de material e apostila para química, física e ciências biológicas, enquanto na parte central mesas com cadeiras individuais preenchiam o espaço que sobrava do local. Tínhamos ─ por sorte ─ o clima frio do outono de Atlanta.
Sentei-me ─ como de costume ─ nas últimas carteiras da vasta classe, tentando ainda uma vista não tão limitada do painel. Joguei meu caderno de qualquer maneira sobre a mesa e, com uma caneta destacada, comecei a nova matéria do caderno com BIOLOGIA e pequenos corações ao redor da página.
Amarrei meu cabelo num coque alto, prendendo-o com um nó frouxo. Ao meu lado, três outras garotas papeavam e se vestiam com jalecos de tamanho único, que carregavam o símbolo e as iniciais do colégio numa das mangas. Tinham em mãos também luvas descartáveis e uma pequena pilha de livros.
─ Por favor, não me diga que você é de exatas ─ levantei o olhar e, desapontada, vi quem havia se sentado à minha frente. Ele me entregou um par de luvas e puxou para si meu caderno aberto, apontando para os enfeites em volta da escritura.
─ Perdão? ─ revirei os olhos com impaciência, tentando ajustar a borracha às minhas mãos ─ Tem um destes por aí? ─ e apontei para o jaleco que as garotas usavam.
─ Não mais. E eu me chamo Benjamin ─ ele jogou o lápis para cima e o apanhou no ar, descontraindo-se de toda a situação ─ Caso você ainda pense que estou em ligeira vantagem.
Gargalhei em alto som, atraindo o olhar de algumas das mesas próximas da nossa. Por sorte, estávamos longe da atenção da instrutora e a aula sequer havia tomado início, uma vez que o resto da turma ainda tentava se organizar nas mesas de grupos.
Tomei o caderno de volta, puxando-o para perto de mim.
─ Certo ─ balancei a cabeça em resposta, levando a caneta à boca ─ Você tem alguma ideia de por onde devemos começar?
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