Elena
1 Despedidas são dolorosas
Notas iniciais
Eu queria poder voltar no tempo. Deus, como eu gostaria. Há três anos — para ser mais exata, quando por resultado de uma traição impensada tive que sofrer as consequências da separação de meus pais. Sinto que, ainda que eu fosse tão pequena, poderia ter feito alguma coisa. Qualquer coisa.
Mas não havia nada que pudesse ser feito para mudar o agora. Eu estava saindo de casa — da minha casa — e não sabia quando poderia voltar. Meus amigos, família, todos aqueles com que me envolvi e relacionei de algum modo agora ficariam para trás. Estaria deixando (principalmente) meu pai — e ah, se a escolha fosse minha, jamais estaria entrando naquele avião ao lado de minha mãe.
Eu voltaria, é claro, mas levaria tempo. O visto que fora feito em meu nome para o estado da Georgia garantia permanência de quatro anos estudando no Colégio Secundário de Morrison, em Atlanta.
Não me esforcei em esconder que limpava as lágrimas que caíam sobre minha face com as palmas das mãos, desejando que minha mãe visse que tamanho era o meu sofrimento diante daquela viagem; que ela visse que o egoísmo dela era tanto que não me dera sequer o poder de escolher meu próprio destino.
Não; não era justo.
Ela me olhou de esguelha, e vi que não estava minimamente feliz com a situação e muito menos com minha teimosia em querer permanecer.
— Elena... — ela pôs as mãos em meu ombro.
— Não ouse — desviei-me de seu abraço — Você sabe que... — solucei.
Sentei-me num dos bancos da sala de embarque, apoiando os cotovelos nas coxas.
— Sabe que é a última coisa que quero no momento para mim... — levei as mãos ao rosto — Você, mais do que ninguém, sabe o que estarei deixando...
— Elena — ela me interrompeu — Nós não voltaremos em quatro anos. Podemos vir nas férias, se quiser. Nenhum dos seus amigos vai fugir até setembro, você mesma me disse.
Revirei os olhos; ela estava mesmo me dizendo aquilo?
— Não sou idiota, mãe. Não me trate como uma, por favor — ela arqueou as sobrancelhas, surpresa com minha resposta.
Não houve mais discussão. A última chamada para nosso voo foi feita, e partimos a passos largos e pesados para a pista. Meu coração palpitava a cada segundo que me aproximava do avião, e já não sentia mais o calor em meus dedos.
Ao meu lado, vi a expressão decepcionada de minha mãe. Ela sabia (assim como eu) que não teríamos dinheiro suficiente até setembro para uma viagem de volta ao Brasil em férias, ao menos não até o ano seguinte. Gelei-me ao ver a fila de pessoas subindo as escadas que davam para o interior da aeronave; os passos que me levariam para o último lugar onde gostaria de estar no mundo inteiro, os passos que mudariam para sempre o rumo que levaria a minha vida.
Estremeci por completo. Senti-me sufocada, incapaz de correr ou fugir para sabe-se-lá onde. Vi passar como um filme tudo o que já havia feito e visto naqueles míseros dezesseis anos de existência. Lembrei-me de cada abraço, sorriso ou lágrima minha nos últimos dias antes de estar finalmente ali.
Levei a mão ao peito, sentindo novamente uma enorme falta de ar que parecia querer levar de mim cada estilhaço de felicidade que ainda me restava. Eu sabia o que era aquilo. Era saudades o que eu sentia.
Respirei fundo antes de pisar no avião; seguindo os passos de minha mãe, cheguei até os últimos assentos do aeroplano. Sentei-me — felizmente — ao lado da janela, acomodei minhas costas ao almofadado e coloquei os fones de ouvido do MP3 que havia levado.
Colei meu corpo ao vidro da janela, querendo que me mesclasse àquela paisagem e sumisse para sempre dali. Não havia mais volta.
O avião decolou, e meus batimentos foram à mil; despedi-me — pela última vez, de tudo aquilo que estava abandonando.
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