Elena
2 Adeus, Brasil!
Notas iniciais
Não fazia ideia do quão ruim era estar presa num avião por tanto tempo.
Quando chegamos a Brasília, a espera pelo voo que nos levaria diretamente à Atlanta foi tão agonizante que quase pedi que ficássemos por ali mesmo. O atraso de quase três horas surtiu um efeito que não imaginava que surtiria tão rapidamente em mim, e quando entramos novamente na aeronave não demorei a cair no sono.
Ao meu lado, ouvi o bate-papo descontraído de minha mãe com uma senhora que estava sentada conosco, e que parecia tagarelar sobre qualquer coisa e a qualquer custo; o nervosismo — pensei —, a colocara em tal situação.
Não houve turbulência. Não levantamos hora alguma; também não me senti desconfortável o suficiente para querer ir ao banheiro de minuto em minuto. Num todo, fizemos uma viagem tranquila e no entanto, extremamente longa e cansativa.
Quase levantei as mãos ao céu quando chegou a nós a alerta do piloto que estaríamos pousando em pouquíssimo tempo. Como católica temente, vi as preces de minha mãe e a maneira como segurou em minha mão para agradecer por nossa chegada. Não a joguei de lado, esperando que terminasse a oração rapidamente.
Antes que me abraçasse, recuei. Se ainda não tivesse percebido minha indignação, que ficasse claro o mais rápido possível. Ela juntou as duas mãos num gesto de desculpas e revirou os olhos para mim, sussurrando pedidos de paciência e tolerância.
Ignorei-a. Não precisava de mais discussões desnecessárias, uma vez que já estava fora do território nacional e impossibilitada de mudar alguma coisa. Levei a mão ao bolso e guardei os fones de ouvido e o MP3, vendo que nos aproximávamos cada vez mais da pista.
Ainda que de longe, vi a chegada das outras aeronaves e imaginei quantas daquelas pessoas também não estariam passando pelo mesmo que eu, ou ao menos por algo minimamente parecido. Suspirei, simulando de certa maneira que aquele não era o fim do mundo, e desejando mentalmente poder segurar as lágrimas que ameaçavam cair.
Não; eu já havia me lamentado demais por tudo aquilo.
Segui os passos de minha mãe e da senhora sentada ao nosso lado pelo corredor que nos levava à saída, despedindo-me da idosa com um sorriso amarelado. Ela parecia aliviada, e levava consigo um terço de madeira enrolado no punho.
Segurei-me nos braços de minha mãe enquanto descia, temendo cair sobre os outros. Quase não acreditei quando pisei pela primeira vez naquele chão áspero e acinzentado, que tanto levava e trazia; histórias, sonhos, vidas. Senti-me feliz por finalmente poder respirar o ar puro, e não o sufoco do espaço no qual havia passado as últimas horas de meu dia.
Como havíamos partido pela noite, chegamos ainda durante o dia, o que nos possibilitava de organizar os quartos e pertences do apartamento onde iríamos ficar; por sorte, ainda conseguiríamos adiantar muita coisa antes da chegada da noite.
Com calma, entramos no aeroporto e procuramos pelas malas que tínhamos marcado com uma fita alaranjada ─ o que não levou mais do que cinco ou seis minutos, no máximo. Não tínhamos ninguém para nos ajudar com a bagagem, e me lamentei pelo peso de roupas que tive de carregar até o táxi pelo final do dia.
A princípio, tive receio de falar com qualquer um que estivesse em minha volta quando saímos do aeroporto; ainda que tivesse feito um ótimo curso preparatório meses antes no Brasil, meu inglês não era fluente e o sotaque cheio dos americanos que tagarelavam ao meu redor me amedrontou.
Como seria no colégio, afinal? Gelei dos pés à cabeça ao imaginar os micos que passaria não entendendo o que falavam comigo.
─ Haynes Manor ─ ouvi a voz de minha mãe ao meu lado, interrompendo meus pensamentos ─ É para lá que vamos.
Vi o arregalar de olhos do taxista ao escutar a resposta de minha mãe, e impressionei-me com tamanho espanto.
─ Por que a surpresa? ─ perguntei, temendo errar na pronúncia das palavras ─ Algo de errado com o lugar?
─ Nada ─ ele sorriu ironicamente, balançando a cabeça negativamente ─ Nada de errado.
Passamos pelo centro, que a propósito não tinha nada de muito diferente de qualquer outra metrópole que havia visitado no Brasil. Além de gigantescos e inúmeros prédios e arranha-céus, a multidão de pessoas andando para um lado e para outro e o clima ameno me lembrava muito a capital de São Paulo.
O taxista nos avisou que chegaríamos em pouco tempo ao bairro, e confesso ter esboçado uma reação de decepção; estava aproveitando apreciar os trechos da cidade fervilhante, que transbordava movimento.
Quando chegamos à Haynes Manor e adentramos a linha imaginária que marcava o noroeste da cidade ─ um gramado extremamente verde e bem-cortado, árvores para todo o lado que olhava e uma infinidade de casa-dos-meus-sonhos, entendi finalmente a surpresa do homem que nos levava até ali.
O lugar se parecia facilmente com o paraíso que eu havia materializado em minha mente a vida toda.
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