Elemento: Vida
2 Minha história
Notas iniciais
As datas podem não parecer semelhantes e o tempo cronológico não parecer verossímil no decorrer deste e de próximos capítulos, mas não esqueçam que o mundo é dividido na dimensão dos humanos e na dos elementares. O comentário sobre as reais guerras serve apenas como base.
21933 depois da Criação
Uma guerra assolava o mundo dos elementares. O manto que protegia a realidade estava desprotegido. Facções criminosas de usuários tentavam romper o que trazia paz ao mundo há quase um milênio. De um lado, grupos revoltados com o fato de estarem escondidos dos humanos tentavam usar suas habilidades para quebrar o manto. Do outro, aqueles que queriam permanecer numa zona de conforto. Os grupos rebeldes não atacavam somente o manto, mas também santuários, cidades e pequenos povoados. Causavam incêndios em escolas de treinamento elementar e desastres em passagens interurbanas. O mundo era um perigoso lugar para se viver.
Um conflito em especial que estava sendo causado na praça central de uma das maiores cidades do mundo, Daur, gerava uma preocupação descomunal em relação à força rebelde. Naquele dia as autoridades procuravam reforço de jovens estudantes da natureza para lutar precocemente. Nos subúrbios havia um pânico incomum. As casas tradicionais estavam sendo evacuadas por motivos de segurança pública.
Numa daquelas casas o patriarca da família, um general da terra das forças elementares federais, levou a família a uma imensa vala pública que havia sido feita para refúgio em massa. Mas ele não podia ficar com sua família, afinal, fazia parte do exército. Sua esposa e o filho recém-nascido foram deixados pelo general no abrigo. Nenhum dos dois possuía habilidades elementares, mas a mulher era de uma família de bruxos. Depois de se despedir, com lágrimas e um abraço demorado, partiu, deixando sua família e os outros cidadãos, que chegavam aos montes.
A vala se abria em vários túneis que ligavam a cidade a cidades vizinhas. O grupo, liderado pelos elementares mais experientes, seguiu por um túnel largo, o principal, que levava à cidade de Nairin, o aglomerado mais próximo a Daur.
Para a surpresa e desespero do grupo, alguns elementares das forças rebeldes haviam os seguido por cima da terra. As forças então abriram um buraco que os colocou bem na frente do grupo que fugia. Um confronto foi inevitável. Mais uma tragédia: Todos no túnel haviam morrido. A noticia foi reportada por soldados, que chegaram ao local algumas horas depois.
O general, que havia deixado mulher e filho na vala, ao saber da noticia, sofreu, mas teve de encarar o fato. No entanto, o peso da responsabilidade pela morte deles o fez sair do centro da cidade e ir procurá-los. Quando chegou ao local, tentou reconhecer os corpos das vítimas. Nenhum daqueles era da sua família. Talvez sua esposa tivesse conseguido fugir, mas não tinha certeza.
Alguns dias depois do ocorrido as noticias não eram das melhores. Em todo o mundo as mortes já chegavam a mais de cinquenta milhões. Só na cidade as perdas humanas e materiais eram incontáveis. Não havia um lugar reconhecível. Tudo estava coberto por destroços e cinzas que sobraram do confronto entre militares e rebeldes. O manto, por sorte, não fora rompido, mas o mundo elementar enfrentava uma de suas maiores perdas.
No mundo humano, na mesma época, a Guerra Fria tornava-se mais presente no cotidiano, a Guerra das Malvinas surgia, massacres de refugiados ocorriam no Líbano.
O planeta, como um todo, não estava num de seus melhores momentos.
21939
Seis anos após os eventos da chamada Guerra do Manto, eu, Nereu, e minha mãe estávamos levando uma vida razoavelmente tranqüila, longe de Daur. Ela, com seus traumas pela frustrante experiência do pós-guerra e eu, tímido, repreendido por seus medos, começava a mostrar sinais de domínio elementar.
Água, o mais belo elemento pra mim. A fonte de pureza, relaxamento e tranqüilidade mais comum a mim. Eu fora agraciado para ser um usuário da água.
O que me surpreendia era que minha mãe, sendo de uma família de bruxos e meu pai, um usuário da terra, tiveram um elementar da água. À época não me preocupava, mas eu descobriria a razão, depois.
21949
Com dezesseis anos terminei o treinamento básico e comecei o intermediário. Para todos era algo inconcebível, já que o normal era entrarem no intermediário aos vinte anos. Mesmo sendo jovem demais, minha habilidade com o uso da água era comparável aos alunos mais experientes.
Num dia após a aula, como de praxe, voltei a minha casa, cumprimentei minha mãe e fui jantar. Mas ela havia preparado um breve discurso assim que me sentei.
–Nereu, você merece saber.
–O quê? – Achei que ela iria brigar ou algo parecido –
–Você não é filho de um general. Nem mesmo de um elementar.
Minha primeira reação foi soltar o talher e olhá-la diretamente.
–Como não, mãe?
–Seu pai é um anjo.
–Um o quê? – Eu riria se não fosse desesperador –
–Anjo. Criaturas concebidas na aurora dos tempos. Seres cuja essência pode ser comparada à dos espíritos. No seu caso, um anjo da água.
–Anjos? Como eu nunca ouvi falar deles?
–Anjos não são criaturas visíveis a elementares. Só a bruxos e a humanos, se não houvesse o manto.
–Então a senhora me diz que meu pai é algo que eu não posso provar a existência?
–Você não pode, mas eu posso. No dia em que eu engravidei, seu pai teve relações comigo. Não por acaso, mas por obra do anjo, que me visitara no inicio do dia e me avisara sobre um herdeiro. Eu concordei em receber sua intervenção divina e ser fecundada por ele. Em troca, a criança seria um fruto notável de sua criação. E, pelo fato de eu ter sangue bruxo, suas habilidades seriam inestimáveis.
–O que está me dizendo, mãe? Depois de pouco saber do meu nascimento, agora vem me falar que eu não sou quem pensava ser?
–Não é bem isso, meu filho. A questão é que o anjo da água voltará na virada do milênio para te transformar no próximo espírito da água.
–ESPÍRITO DA ÁGUA? – Me alterei, pois achava que minha mãe só podia estar delirando. Sua expressão, no entanto, era de seriedade. –
–Isso é o suficiente por hoje.
–Não! A senhora não pode ter mentido assim pra mim e achar que estátudo resolvido. Por que não me contou antes?
–Você não estaria preparado. Por ser jovem, poderia interpretar erroneamente e prejudicar seu desempenho.
–Que história absurda, mãe!
Aquela discussão durou muito tempo. No fim, descobri que um perigoso destino me aguardava. Talvez algo não esclarecido pudesse surgir, mas o que me importava mesmo era saber se eu encontraria sabedoria suficiente pra enfrentar a responsabilidade.
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