20/03/21951



Ainda moro com minha mãe, mas nos mudamos para New Samhain, uma megalópole famosa pela expressividade de suas ruas. A obscuridade e a alegria são contrastes presentes nas ruas mais centrais e, como qualquer cidade grande, sofre com a violência. Mas é aí que eu entro. Agora tenho 18 anos, estudo numa instituição para aprimoramento de técnicas e treinamento acadêmico e, recentemente, uma agência de segurança internacional chamada ESA — Elementary Security Agency ou Agência de Segurança Elementar me contratou para ser um empregado. A agência tem somente empregados elementares para tratar de segurança internacional.



Hoje, dia 18 de janeiro, recebi uma mensagem da sede da ESA para a minha primeira missão. Tive de deixar minha mãe ao próprio zelo, que, por acaso, não é confiável.



New Samhain pode ser melancólica e perigosa, mas eu ainda prefiro morar em uma cidade grande. Em lugares assim é fácil manter a discrição. A roupa que escolhi – uma camisa branca por baixo de uma jaqueta negra azulada, uma calça jeans preta e tênis brancos – reflete isso.



Depois de pronto, sai pela porta da sala, levantei meus braços à altura dos ombros e comecei a modelar meu transporte do primeiro dia de trabalho. Com um pouco de esforço, surgiu a idéia de criar um pequeno carro de gelo, mas por achar meio absurdo, fiquei com o usual. Girei os braços em direções opostas e em sentidos diferentes cada um. No ar, pequenas gotículas de água se juntaram. Em pouco tempo, havia uma bola d’água voando em minha frente. Movimentei suavemente minha mão direita e a bola de água foi se achatando enquanto voava até formar uma superfície espaçosa. Depois de formada a “prancha”, congelei a água e subi. Até o resto do caminho, eu controlei minha prancha pelos céus.



A casa em que moramos fica em um bairro próximo ao centro de New Samhain, ou seja, chego à sede da ESA na cidade em cerca de 10 minutos, pois mesmo com a facilidade de locomover-se utilizando o próprio elemento, há um caos devido à grande quantidade de usuários se locomovendo também com seus elementos.



Depois de subir na prancha de gelo, movimentei meu braço direito para frente e logo esta ganhou altura e velocidade. A prancha deixava um rastro de ar frio e minúsculos cristais de gelo por onde ia. Ao meu lado usuários viajavam em quadriportes (transportes mistos que andavam em túneis e estradas, flutuavam e voavam), usavam suas habilidades, corriam... Havia inúmeros modos de se locomover na cidade. Bom, confesso que “surfar” em cima do gelo pela cidade não é o que eu chamo de manter a discrição, mas era um dia especial.



Depois de dez minutos eu já podia enxergar o escritório da ESA, uma torre de cerca de oitenta andares, com a parte exterior completamente coberta por vidros, exceto o heliporto. No topo do prédio havia três painéis nas formas das letras que formam a sigla. Os painéis se acendiam pela noite, mostrando vídeos dos mais renomados heróis em momentos de triunfo. Eu imaginava se conseguiria ter um vídeo com uma ação heroica minha. Talvez, depois de contá-los sobre a minha história, eu ganhasse essa honraria.



Quando cheguei perto do prédio, movimentei meu braço para baixo e a prancha me fez voar baixo. Parei um pouco acima da calçada e pulei de uns míseros dez centímetros. O gelo se desfez quando eu voltei minha cabeça ao esplendor da estrutura.



Quando entrei, o esplendor da altura do prédio pareceu pouco comparado ao requinte e ao luxo da parte interna.



A uns cinco metros da porta havia uma parede com uma enorme TV 4k. A resolução era imbatível e mostrava cenas de batalhas épicas, além de informações úteis, como o tempo e as estatísticas sobre presos, mortes e assuntos do mundo inteiro. A sala tinha uma tonalidade amarelo-cítrico. A parede separava os dois arcos trabalhados em ouro, que se misturava à sala de cor marrom-dourada. O arco direito levava à recepção. Nela havia uma mesa longa de madeira de ipê, com as pontas cobertas por ouro. Cinco lustres flutuavam por sobre a mesa. Eram lustres com formatos de dragões. Os atendentes trajavam ternos pretos lisos de quatros botões, que combinavam com as telas ultrafinas dos computadores de última geração da sala. Quadros de pintores famosos estavam espalhados simetricamente pela sala. Na frente da mesa, poltronas pretas dividiam espaço com os pilares com imagens em alto-relevo e cerâmica na parte mais inferior. No fundo, quatro portas douradas para os elevadores. A escadaria estava no meio das portas. Havia uma saída de emergência no fundo à direita.



O arco da esquerda levava à parte subterrânea do prédio, que ainda era bloqueada a mim.



Na recepção me informaram o andar e me entregaram uma carta. Era o décimo. Subi pelo elevador, que tinha a parte interna coberta por espelhos escuros. Talvez vidraças fossem o vício do presidente da agência. A porta do elevador, quando abriu, me mostrou uma infinidade de portas pretas e uma janela em cada extremidade do corredor. Abri a carta, pois talvez houvesse alguma informação sobre a sala exata. Nela havia escrito: “Primeira entrada dos ventos do poente; Décima conta do opaco a refratar; Agora a face meridional do ‘leme’; Se volta à porta que em brumas mergulhar.”



Pensei que seria uma brincadeira, mas não havia mais nada escrito nela, então resolvi tentar adivinhar a localização.



– Bom, ventos do poente deve se referir à parte oeste do corredor. — Fui para o lado esquerdo do corredor, já que o prédio estava alinhado corretamente com os pontos cardeais. – Décima conta do opaco a refratar. – Li em voz alta – Talvez seja o vidro, mas contas? – Percebi depois de me esforçar que deveria ser os espaços entre um vidro e outro. – Ótimo. Agora é só contar dez vidros e chegar ao fim, já que face meridional do leme deve ser sobre ir para o sul do prédio. – Cheguei ao fim, mas não havia a fumaça especificada pelas brumas.



– Idiota! Não leve esta carta tão a sério! Isto nem é mesmo oficial.



Quem me falou foi um senhor bem vestido que saiu de uma sala bem na minha frente. Era a décima porta da décima entrada da parte sudoeste do prédio. Na sala, que era pequena e completamente branca, havia um garoto de cabelo roxo arrepiado, com uma camisa de banda sentado numa cadeira com os braços em cima de uma mesa de escritório. Talvez estivesse sendo atendido pelo senhor.



–O que disse, moç...?
–Cale-se e entre! Esta é a sala em que você deve estar.



–Mas como o senhor sa..?



–Eu só sei, idiota. Além disso, aquele que está sentado é o seu colega de equipe. Não vai querer irritá-lo logo de cara, não é?



–Não.



–Então entre, idiota!



Como fiquei apavorado com as ordens dele, tratei de entrar e me sentar. Ele fechou a porta rapidamente, sentou-se de frente para nós dois e começou:



–Primeiro: Nereu, usuário da água, este é Shade, usuário de eletricidade. Shade, este é Nereu. Vocês agora são uma equipe.



–Como assim? Nossos elementos não têm nada a ver um com o outro. – Eu interferi-



– Não se apresse, idiota! Não terminei de mostrar a equipe.



O senhor, que não havia revelado o nome ainda, pegou um controle que estava numa gaveta da mesa, virou a cadeira e apertou um botão. A parede do fundo da sala se moveu para a esquerda enquanto eu ficava apavorado com a cena. Havia uma parede falsa que cobria um salão luxuoso e cheio de requinte, com móveis de madeira nobre, poltronas de couro, um aquário enorme, lustres e uma cozinha moderna. Era algo tão fantástico quanto a recepção. Além disso, mais quatro jovens estavam na sala.



–Antes que me esqueça, meu nome é Dosho. Serei o “guia” de vocês durante a estadia na ESA. Esses na sala são o resto da sua equipe. Giselle, usuária da gravidade, Lúcio e Lys, gêmeos usuários da luz e Mike, usuário da tecnologia, conheçam Nereu, usuário da água e Shade, usuário da eletricidade.



Todos nos cumprimentamos e em pouco tempo estávamos à vontade uns com os outros. O primeiro momento era de aproximação entre a futura equipe. Dosho, depois de alguns minutos voltou a chamar nossa atenção.



–Garotos, vocês tiveram tempo para se conhecer, mas o mundo não tem tempo para esperá-los. Se quiserem seguir caminho logo, vamos começar o dever. Agora tudo começa para vocês.



Ele nos levou até a mesa da sala branca, fechou o salão e mostrou uma tela digital escondida pela parte de cima da mesa. A tela nos mostrou o local. Nossa primeira missão seria...