Elementium - Volume 1 - A Ascensão
30 Caminhada em Gelo Fino
Notas iniciais
Nós vamos resolver isso.
Vai ficar tudo bem.
Nós vamos resolver tudo.
Ninguém vai morrer.
Nós vamos...
Você quer parar com isso? Ta me deixando louca.
Desculpa.
Não se preocupe, você vai ficar bem.
Você não tem certeza.
Verdade, não tenho, mas pensar assim é melhor do que esperar sempre pelo pior.
Talvez tenha razão.
Eu sempre tenho.
Convencida.
Não seja tão amarga. A propósito, quando essa montanha russa vai parar?
Eu não sei.
Desde que entramos no túnel atrás da grande cachoeira estamos envoltos em escuridão. O barulho da água ficou para trás a bastante tempo, portanto acredito que estamos mais longe de Wirdgewt do que eu imagino.
Segundo informações que consegui com Lili, o caminho que estamos seguindo era usado a muito tempo atrás, quando a cidade ainda não era uma das oito principais, antes do Grande Fênix fundar Wirdgewt como é hoje. Os mineradores, em sua maioria lutuns, utilizavam esses caminhos para transportar equipamentos da Terra para o nosso planeta afim de melhorar e evoluir nossas cidades.
Levando em consideração que tudo que eu vi em Wirdgewt até hoje é vagamente semelhante as cidades mais modernas da Terra, acredito que as coisas extraídas de lá foram apenas ideias de como começar esse mundo.
Sei que no começo eram apenas os oito escolhidos e mais algumas pessoas que foram recrutadas por eles para ajudá-los. Esse lugar provavelmente era deserto assim como quase o planeta inteiro. Eles devem ter ficado perdidos sem saber como exatamente preparar tudo para os novos elementistas, fora o fato de terem que aprender a controlar seus poderes sozinhos.
Quando a população foi crescendo, eles resolveram criar as oito sedes principais. Wirdgewt foi a penúltima a ser fundada, ficando atrás apenas de Kallisthiel, a cidade do Grande Shark. Quando os meydrans foram erguidos e a cidade se desenvolveu o bastante para conseguir fornecer uma vida confortável para a população, as minas foram fechadas.
Os túneis foram abandonados e esquecidos de forma que você não vai ouvir sobre eles em uma aula de história, porém, alguns profissionais tem o dever de saber sobre todas as entradas e saídas do nosso planeta, oficiais ou não. Munique é uma deles.
Eu não sei exatamente o que ela faz, mas sei que é importante e um cargo renomado. Lembro-me de Lilian revirar os olhos três vezes enquanto me explicava o quanto Matthew se orgulhava da filha mais velha. Ela também me disse que, na primeira oportunidade de sair de Wirdgewt, Munique se foi. Ela mora em Blackmornan, cidade do ancestral do shadows, queria ter levado Lira com ela, mas a mais nova se recusou a deixar sua cidade natal.
As duas não necessariamente brigaram por isso, pois Munique entende o desejo de Lira de permanecer em Wirdgewt e se tornar uma guerreira dos fênix, mas a mais velha quer afastar sua irmã o máximo que pode do pai idiota delas. Nesse ponto eu posso entender completamente o porque.
Pelo que Lili disse, nem sempre ele desprezou sua filha caçula, isso começou quando ela manifestou o desejo de se juntar ao exercito, emprego que ele encara apenas como uma atividade recreativa para pessoas sem potencial. Com a rejeição de Lira pelo cargo na política, ele passou a tratá-la da forma como eu acompanhei nos últimos dias.
Lílian ficou quieta a alguns minutos (ou horas, não sei dizer ao certo, perdi a noção de tempo pouco depois de deixarmos a entrada do túnel). Quieta demais eu diria. Todos estão. Enquanto ela estava falando e me atualizando sobre várias coisas eu não me sentia tão tensa e angustiada, por um momento os sentimentos ruins que me rondam sumiram e me senti como no dia em que os conheci. Apenas eu, a novata, recebendo várias instruções sobre tudo e mesmo assim ficando perdida com cada frase nova.
Cada caçamba consegue comportar três pessoas e é consideravelmente confortável. Austin não pronunciou uma palavra desde que sentou ao meu lado, mas sei que ele prestou atenção durante toda a conversa. O balanço incessante do nosso “veículo” faz com que meus joelhos batam nos dele e é assustador o fato de que consigo sentir como ele está frio. O uniforme furtivo (como Marian o chama) que fomos equipados é feito de um tecido quente, mas assim como antes, nada que nós colocamos ajuda a afastar os calafrios.
Líli acha, e ela só me confidenciou isso quando me viu me encolhendo no meu canto da caçamba, que o problema não é a temperatura do lugar ao nosso redor. Ela acredita que a “doença”, ou seja lá o que for, faz com que as vítimas não consigam mais manter sua temperatura corporal estável, portanto, não importa a grossura ou a quantidade de roupas que colocamos, de nada adianta se não conseguimos produzir nosso próprio calor.
Com essa brilhante conclusão, consigo entender porque a “roupa” melhora minha situação. O agasalho fornece calor extra e meu corpo está utilizando tudo que ele pode para se manter ao menos um pouco aquecido. Sou extremamente grata pela minha parte fênix ser não consumidora assim, porque se dependesse apenas da minha parte shark eu já teria me tornado um cubinho de gelo.
Ele deve estar mal.
Eu sei, mas não consigo pensar em uma maneira de ajudar. Além disso, ele está meio hostil ali naquele canto.
Ele pode estar apenas sofrendo em silêncio.
Observo o garoto encostado, ou melhor, jogado no canto da caçamba. Não consigo vê-lo por completo, apenas uma vaga silhueta, mas talvez ela esteja certa, a julgar pela forma como seus braços tremem. Cutuco-o com meu pé e ele se sobressalta. Os olhos brilhantes me encontram e a curiosidade para saber qual Moribos lhe pertence me invade. Os olhos parecem duas lâmpadas pequenas na escuridão me dando a certeza de que está me vendo nitidamente.
Tento me comunicar da melhor maneira possível no escuro, não tendo certeza se ele entende o que quero dizer. De qualquer forma, se entende ou não, estende uma mão depositando-a sobre meu joelho e sorri levemente, voltando a e encostar a cabeça do canto de antes. Ele não recolhe a mãe. Se é de propósito ou sem querer, não sei, mas pouco me importa já que a sensação de conforto é interessante, mesmo com o frio intenso da sua mão.
Por que não está me afetando?
Como assim?
Não estou perdendo calor. Por que?
O uniforme.
Certo.
Tenho plena consciência dos olhos de Lílian grudados em nó dois, mas estou muito concentrada na situação para deixar o constrangimento da sua opinião perfurar a bolha que foi criada ao nosso redor. Gosto desse Austin, o garoto que se importa com quem está ao seu lado e com o que está acontecendo a sua volta. O Austin frio e calculista é desagradável.
Mesmo eu tentando manter o momento reconfortante, nada posso fazer para impedir que o solavanco forte da caçamba me puxe pra a realidade. O ar frio me atinge de supetão sem dar chances de me preparar para reencontrar o gelo.
Austin recua contra a parede da caçamba e tenho vontade de me aproximar e tentar aquecê-lo de alguma forma, mas me contenho a apenas deixo ele se encolher novamente. O céu acima de nós está escuro, como em dias de tempestade. A neve rodopia ao nosso redor graciosamente, pequenas agulhas geladas de encontro ao meu rosto. O vento gélido ainda é cortante, exatamente do jeito que eu me lembro.
Desembarco da caçamba com o auxilio do ar, que mesmo instável, ainda é o único poder que me arrisco a utilizar com confiança. Os demais “convidados” para a missão suicida já se encontram agrupados com Munique, essa que vestiu sua máscara de soldado e está impassível observando tudo ao seu redor.
Estamos em uma floresta. Uma floresta no meio do Alasca. Se o sol brilhasse aqui e o lugar não estivesse uma bagunça total devido a tempestade, aposto que a floresta seria bonita.
Certifico-me que Lílian e Austin estão por perto e sigo a passos hesitantes até o pequeno grupo. Marian, que estava nos esperando junto a sua caçamba, nos acompanha séria e preocupada. Acredito que a essa altura todos já notaram a palidez doentia de Austin e, assim como eu, temem que ele desmaie a qualquer momento.
Quando finalmente alcançamos o pequeno circulo de pessoas percebo o nervosismo crescente no semblante de todos, mas bem no fundo dessa camada densa de preocupação consigo encontrar um pouco de excitação também, afinal de contas nenhum deles nunca entrou em um combate real e tenho quase certeza que eles compartilham da vontade de testar o que aprenderam.
— Estão todos bem? – Munique avalia as expressões de concordância minuciosamente, consigo sentir seu desconforto por estar responsável por tantos adolescentes ao mesmo tempo – Que bom. Como eu tinha explicado para alguns de vocês antes, os uniformes que estão usando são as linhas novas, feitas exclusivamente para missões em temperaturas extremas, por isso os sharks não precisam se preocupar com a proteção, eles fazem um papel semelhante aos fênix, doando calor a vocês.
Lílian e Max parecem aliviados, mas não consigo descobrir o que Austin pensa sobre isso, já que ele continua inexpressível como se estivesse com a mente muito longe daqui. O que não será nem um pouco interessante se realmente tivermos que entrar em uma luta sangrenta.
— Pelo mapa que me mandaram a base fica naquela direção o que nos dá a vantagem de conseguirmos nos aproximar pelo meio da floresta. – Ela aponta para o meio das árvores a nossa frente e parece se perder em pensamentos logo em seguida.
Talvez ela finalmente tenha percebido o enorme erro que está cometendo.
Você não está ajudando sabia?
Só estou apontando os fatos. Não posso te ajudar se precisar de mim.
Vai ficar tudo bem.
— Olha, eu não vou mentir para vocês. Milena você já esteve aqui muitas vezes, sabe o quanto esse lugar é perigoso, mas acho que todos devem estar cientes do que nos aguarda mais a frente. – ela suspira e encara a irmã rapidamente antes de voltar a falar – Lugares com temperaturas extremas são conhecidos por serem os hábitat de seres mais primitivos do nosso mundo, por isso corremos o risco de não termos que nos preocupar apenas com os monstros, mas também com animais violentos da região.
Ela não está falando de ursos, não é?
Não se iluda.
— A principal regra de missões em campo é nunca se separar de ninguém do seu grupo. Como somos muitos para ficar andando por ai juntos torcendo para não sermos vistos é melhor nos dividir. – Ela passa os olhos por nós, contando rapidamente e provavelmente também avaliando as chances de sobrevivência de cada um – Tem uma torre de vigia na entrada da base, eu pretendo ir lá para ver quais foram as anotações dos últimos dias para tentar ter uma ideia de quantos invasores estamos falando. Lira, Lílian e o menino frigid vêm comigo.
— Meu nome é James. – Munique o encara séria e James tanta disfarçar o constrangimento — Desculpe.
— Milena, onde está o mapa?
A shadow se adianta até uma caçamba com o celular na mão. Por um momento tenho a impressão que ela vai tentar mostrar o mapa a todos na sua pequena tela, mas ela entrega o aparelho para Rachel. A lamp, que se encontrava encostada em uma das caçambas, projeta as mão para a frente e a expansão de seus poderes me deixa estupefata.
O círculo de pessoas se abre enquanto a linda projeção amarelo ouro se torna cada vez maior, até que se possa ver todos os detalhes do mapa que fotografei mais cedo. A imagem é tão bonita e detalhada que poderia ser facilmente confundida com uma maquete real do mapa.
Sem me conter passo a mão pela extremidade próxima a mim. Meus dedos são envoltos pela névoa dourada desfazendo momentaneamente o desenho, o calor reconfortante ao redor de todo minha mão.
— Quando vocês vão parar de me surpreender?
— Se não for assim não tem graça. – Lili sorri, se divertindo com minha expressão abismada.
Rachel, distante de nós, se concentra e tornar a imagem estável antes de virá-la na vertical, como se fosse um quadro prestes a ser colocado na parede. A projeção se mantém inalterada quando ela se afasta e observa seu trabalho satisfeita.
– Obrigada Rachel. – Munique se aproxima do mapa e aponta para uma construção bem no centro do desenho – Essa é a base, como podem ver, ela é circular, sendo assim é melhor dois grupos entrarem a mesmo tempo, em direções opostas para evitarem de serem encurralados por ambos os lados se o lugar estiver tão infestado quanto imaginamos.
Observo o prédio ao qual ela se refere, de fato ele se assemelha a um enorme círculo. No centro está uma torre que acredito ser responsável por toda a tecnologia da base. Existem duas portas sinalizadas e uma torre de vigia na frente de cada uma. Outros pontos do mapa demarcam mais lugares que devem ter sido a localização das demais torres que foram tomadas pelos monstros.
– Além do primeiro andar existe um subterrâneo que tem entrada apenas pelo meio da base, na torre de sinal. – Munique aponta para o centro, onde existe um pequeno X azul – Uma equipe deve ir por aqui e se certificar que aquele andar esteja livre, ou vamos ser atacados por baixo sem termos tempo de revidar.
– Nós podemos ir. – Valeri se pronuncia, indicando James e Rachel – Temos um pouco mais de treinamento.
– Concordo. Levem Maurice e o Lutun com vocês. As outras duas equipes precisam ser equilibradas. – ela nos avalia mais uma vez antes de decidir como nos separar – Dois do segundo ano em cada equipe, os outros podem se dividir como quiserem.
Várias vozes cortam o silêncio ao mesmo tempo, como se tudo o que esperassem fosse a permissão para falar. Em segundos estão todos discutindo calorosamente, mas levando em conta que estamos no meio de uma floresta sem a proteção dos muros do colégio, possivelmente habitada por dezenas de seres brutalmente sanguinários e com a presença de apenas uma pessoa devidamente treinada, não é a escolha mais sensata.
Munique parece se enfurecer com todo barulho que dezoito vozes adolescentes podem provocar e tenho certeza que ele se arrepende imediatamente de ter nos dado escolha.
– Já chega! – o brilho intenso ao seu redor não deixa dúvida sobre sua raiva – Vocês acham que estão na porcaria de uma excursão? Não tem ninguém aqui pra socorrer vocês caso sejam atacados, me entenderam? Então parem de agir como crianças e ajam como os soldados que foram instruídos a ser ou vão morrer antes de se darem conta do que atacou vocês.
O silêncio se instala mais uma vez. Denso e ensurdecedor. É interessante como, em determinadas situações, o silêncio fala tão alto quanto um grito de desespero.
– Ridins e Jen, vocês vão pela esquerda junto com aqueles dois e o filho do Brandon. – Ela aponta para Austin e Milena, quando Ridins está prestes a reclamar ela interrompe – Eu não tenho tempo nem paciência pra ficar resolvendo intriguinhas idiotas de adolescentes, vocês vão trabalhar juntos gostem ou não. O outro grupo vai pela direita, alguma dúvida?
Com a negação unânime, Rachel recolhe sua brilhante projeção e nos agrupamos como fomos designados. Austin se afasta de nós a contra gosto acompanhado de Jack – que descobri ser o tal “filho do Brandon” – que nos lança um olhar preocupado.
Devo admitir que não fiquei com um grupo ruim, sendo ele composto por Blake, Max, Mari, Bryan e eu. A situação me lembra de episódios no colégio, quando eu ainda vivia como uma humana normal, onde o meu maior problema com grupos eram os trabalhos escolares. É engraçado como a divisão de um grupo é tão semelhante e ao mesmo tempo completamente diferente dos dois mundos. Aqui, um grupo ruim pode significar sua morte ao invés de uma nota baixa.
Munique nos guia cuidadosamente pela mata, observando todos os lados e todos os movimentos entre as árvores. Em um determinado momento tenho certeza de um vulto muito veloz a minha esquerda, mas antes que meus olhos possam se focar no lugar, ele desaparece. Mesmo não conseguindo enxergar completamente, sei que estamos sendo seguidos. Acredito que todos saibam, seja pelo modo como Munique começou a andar mais rápido e com menos cuidado onde pisa ou pela constante sensação de olhos grudados em nós.
Alguns minutos após ter visto o vulto, sinto o familiar calafrio provocado pelo meu sexto sentido recém-descoberto. Aguço meus ouvidos e escuto nitidamente os galhos se quebrando a nossa volta. É como se a floresta estivesse cercada por lobos, que nos vigiam ainda ocultos na escuridão, mas que a qualquer momento irão nos atacar.
Não sei se é pelo medo, a insegurança ou os “sentidos de caçador”, como ela os chama, mas identifico exatamente o momento em que nos aproximamos da base. Ainda não posso vê-la por entre as árvores, mas o vento é diferente aqui. Mais gélido e mais cortante, como se ele mesmo fosse um aviso para qualquer um que se aproxime do lugar. FIQUEM LONGE. Quase posso ouvi-lo dizendo isso e nos empurrando na direção contraria que insistimos em ir.
Munique nos para a poucos passos da saída da floresta e observa a escuridão ao nosso redor, seus olhos brilhando momentaneamente. A expressão de total desgosto em seu rosto ao constatar de fato que não estamos sozinhos aqui desde, provavelmente, o momento em que pisamos nesse lugar, só contribui para o nervosismo se agitar mais ainda dentro de mim.
– Sei que estão assustados, mas agora não tem muito que possamos fazer, temos que seguir com o plano. – desvia o olhar para a base rapidamente e suspira – Meu grupo vai primeiro, eles não devem ter deixado guarda na torre, não é do feitio deles se expor, por isso vou me certificar que a porta está livre para as demais equipes.
Observo a torre a qual ela se refere, uma construção alta de tijolos negros. A parte superior tem quatro janelas dando vista para todo o território ao redor da base e está quase completamente tomada pelas nuvens densas de tempestade.
– Quando eu der o sinal, a equipe central invade e avisa se os corredores laterais podem ser acessados. Antes de vocês invadirem palas laterais se certifiquem se a equipe do subsolo não precisa de ajuda, entenderam? – assentimos, expressões medrosas e nervosas, Munique continua sem se abalar – Eu vou permanecer na torre e tentar avaliar qual o perigo de ataque pela outra porta, vamos tentar manter vocês seguros lá dentro, ou pelo menos evitar que alguma coisa entre.
Seus olhos varrem as árvores mais uma vez o que me da a sensação que ela sabe exatamente o que está escondido ali, mas está negando a si própria ou não que nos assustar mais ainda. Eu particularmente espero que seja a segunda opção, porque se a única pessoa entre nós que já tem anos de treinamento e sabe lidar com essas situações está com medo de encarar o que quer que esteja nos seguindo, estaremos todos mortos antes de pensarmos em invadir a base.
– Já demoramos demais aqui. – ela faz sinal para sua pequena equipe e eles se preparam para correr – Fiquem juntos, nem que isso signifique ficar presos em algum lugar. Seus trajes são equipados com rádios de comunicação, nesse bolso preso no sinto. Chamem ajuda se estiverem encurralados, mas não contem com ela, somos poucos demais para resgate, apenas avisem qual a situação de vocês. Tenham cuidado, nos vemos em breve.
Com isso ela corre na direção da torre acompanhada pelos outros três. Nós ficamos para trás, entre as árvores, ainda sendo observados por olhos hostis, sem saber exatamente o que fazer.
– Ela não disse qual era o sinal. – Luide reclama se jogando no chão pra se encostar em uma árvore – A terra está com raiva. Teve muito luta aqui, ela está agitada.
– Que ótimo! Se ela não nos confundir com os inimigos já estamos no lucro. – Bryan se escora em uma árvore e fecha os olhos por um momento – O ar também não está muito contente. Tem fumaça perto daqui.
Seus olhos seguem na direção que acredito ser de onde vêm os sinais que ele está recebendo, mas está muito longe para que possamos ver. Minutos se passam desde que o grupo invadiu a torre e ainda não enviaram nenhum sinal. Ridins encara a construção fixamente parecendo nervoso assim como Max. Depois de um tempo em pé, começo a me sentir levemente fraca e acabo por me sentar em um tronco caído.
– Temos que sair daqui. – Jack resmunga próximo a mim, os olhos brilhando vermelhos no escuro, assim como Luide e Bryan, ele parece estar recebendo péssimos sinais das sombras – Não quero ver pessoalmente os desenhos do livro de história.
Marian tenta acalmá-lo, mas é complicado acalmar alguém quando você mesma está entrando em pânico. Quando Michael está prestes a liderar um ataque impulsivo a torre para saber o que aconteceu, todo o céu é iluminado por uma grande bola de fogo que paira sobre a torre.
– Acho que é o nosso sinal. – Valeri se adianta acompanhada pelo resto de sua equipe e nos lança um pequeno sorriso nervoso antes de seguir seu caminho até a base.
Ativem a camuflagem, tem olhos ao redor da base.
A voz de Munique ecoa pelos rádios de comunicação antes que o grupo se afaste muito das árvores e logo em seguida os trajes estão se misturando a paisagem. Meus olhos tentam diferencia-los, mas consigo identifica-os por muito tempo.
– Ativa aqui. – Mari aperta um botão no meu pulso me assustando, a cor e aspecto do traje começam a mudar – Você está bem?
– Mais ou menos. – ela concorda se sentando ao meu lado com os olhos perdidos em algum lugar onde o grupo sumiu, novamente a culpa me atinge – Me desculpe por tudo que aconteceu, eu realmente não sabia o que fazer.
– Tudo bem, não foi totalmente sua culpa, não sei o que eu teria feito no seu lugar. – ela suspira cansada e estende a mão – Amigas?
Concordo apertando sua mão e retribuindo o sorriso gentil que ela exibe. Não posso mais perder ninguém e vou fazer o possível para manter as pessoas com as quais eu me importo, chega de ficar colocando nossa amizade em prova o tempo todo.
– Vamos.
O grito me arrasta de volta a realidade e sem pensar duas vezes estou correndo com os outros. Valeri está nos esperando na porta com uma expressão desgostosa, os olhos violetas atentos a qualquer movimento, a espada em mãos.
– Vocês estão bem? – Jack se aproxima nervosamente avaliando-a da cabeça aos pés.
– Sim, estamos ótimos. – ela revira os olhos com uma careta de nojo – aparentemente eles transformaram a central de tecnologia na cozinha deles. Aquilo está uma nojeira.
– Com cozinha você quer dizer...?
– Isso mesmo. É horrível. – a repulsa estampada no rosto de quase todos me faz questionar se quero descobrir o que tem abaixo dos nossos pés – Não está tomado, não tem nem sinal deles, não ouvimos nenhum barulho. Acho que é seguro seguir pelos corredores, vamos continuar vasculhando o subsolo para ver se deixamos passar alguma coisa.
– Quais as chances de terem ido embora? – Bryan pergunta esperançoso, Valeri estudo o corredor central pelo qual passou e nega várias vezes com a cabeça antes de responder.
– O “lanche” ainda está fresco, estavam aqui a pouco tempo. – ela torce o nariz ao falar sobre a comida e a expressão muda para algo mais sofrido – Vocês podem encontrar mais sinais pelos corredores, não prestem atenção, não vão querer fazer isso, apenas ignorem e façam o que vieram fazer.
Assinto junto aos demais, mesmo sem entender de quais sinais ela está falando. Sem dizer mais nenhuma palavra, a shadow desaparece na escuridão do corredor central. Ficamos parados um tempo com a desculpa de estudar o espaço a nossa volta, mas a verdade é todos estão nervosos demais e assustados demais para continuar. Talvez se tivéssemos ficado no colégio seria melhor, íamos ter uma morte menos dolorosa provavelmente.
– É isso galera, vamos lá, finjam que é mais um treinamento, talvez seja mais fácil. – Milena fala tentando encorajar o grupo, mas percebo que está tentando convencer ela mesma de que não é tão ruim quanto parece.
Não me lembro do momento em que comecei a andar, mas tenho a certeza de Marian na minha frente e Max ao meu lado. Blake vai a frente de todos com um lanterna iluminando o caminho. Preferia que estivéssemos no escuro.
Mas você odeia escuro. Aposto que está pensando isso, mas acredite em mim, é melhor ficar no escuro e andar as cegas do que testemunhar nas paredes no chão o que sobrou da tentativa de resistência dos soldados da base. O chão abaixo de mim é escorregadio e nas poucas vezes que Blake ilumina nessa direção meus olhas captam uma gosma vermelha que me recuso e pensar em sua origem. Mesmo eu não precisando pensar.
O cheiro de podridão me deixa enjoada e já tive que desviar os olhos umas cinco vezes para não ver uma versão original do conteúdo de anatomia. Valeri tinha razão, esse lugar está uma nojeira. Eles não tiveram cuidado nenhum de esconder toda a bagunça que fizeram.
Depois de duas salas vazias, nos aproximamos do sexto cadáver e não consigo resistir ao embrulho no estômago e acabo por me livrar de todo o meu café da manhã. Eles não comentam e agradeço-lhes por isso, acho que até eles concordam que o ocorrido está de acordo com a ocasião. Meu estômago se acalma, mas a fraqueza se apresenta, evito procurar apoio nas paredes, não quero carregar nada que não seja meu por acidente.
Sinto as mãos de Mari nas minhas costas e limpo as lágrimas rapidamente e me recomponho da melhor maneira possível, não posso me dar ao luxo de desmaiar e deixá-los na mão, não podem cuidar de mim e lutar ao mesmo tempo.
O próximo a reagir é Bryan. Quando o chão se terna consideravelmente mais pegajoso do que antes e o cheiro ainda pior, ele se eleva e permanece rente ao teto por um tempo. Ele não vomita, mas não está muito longe disso.
– O que estamos fazendo aqui? – ele parece transtornado quando volta ao chão – Não encontramos nada além de pessoas mortas e abandonadas como se não fosse nada.
– Dresch... – Blake tenta argumentar, mas Bryan se afasta bruscamente.
– Como Martin deixou isso acontecer? Como ele pode abandoná-los assim? – ele permanece de costas, encarando o vazio, mas pelo tremor em sua voz sei que está com raiva e algo semelhante a pesar – Eles não fizeram a passagem. Vão ficar ai pra sempre, esquecidos.
Sabe do que ele está falando?
Quando um elementista morre ele é reivindicado pela Terra.
E eu vou querer saber por que eles ainda estão aqui?
Porque foram mortos e abandonados sem terem o reconhecimento de filhos da Terra.
Mais tarde você me explica isso melhor.
– Bryan, eu também estou odiando isso, O.K.? Mas a gente veio aqui por um motivo, temos que continuar procurando. – a voz de Mari é fria e calculista, a expressão impassível – Passa essa lanterna Adreotti, você está cansado demais para se concentrar em nos detalhes.
Blake não resiste e apenas da a liderança para a garota. Bryan fica calado, mas nos segue sem questionar novamente o motivo. Não posso culpá-lo pelo ataque de raiva, esse lugar é uma droga.
– E eu pensando que o cheiro não podia ficar pior, santo Zeth. – Max se aproxima da porta entreaberta e observa com cuidado em busca de algum movimento, quando ele faz sinal de limpo e Mari se adianta com a lanterna.
Nem nas minhas divagações mais doidas eu poderia ter imaginado que iríamos encontrar ali. A sala é pouco iluminada, por uma luz avermelhada fraca, mas com o brilho da lanterna, a visão fica tão bagunçada que é difícil assimilar o que estamos vendo.
– Encontramos uma sala, acho que o que estávamos procurando, mas está tudo escuro, não conseguimos ver direito. – Blake anuncia pelo rádio e aguardamos alguns segundos apenas com o som de interferência antes que a voz de Rachel responda.
Nós podemos ligar a luz de emergência daqui. Só não tínhamos certeza se vocês iriam querer isso.
Blake respira fundo e olha em volta, ele parece tão chateado que por um momento tenho certeza que ele vai pedir para manterem as luzes apagadas. A final o que os olhos não veem o coração não sente e meus olhos já viram de mais hoje para eu julgá-lo se tomar essa decisão.
– Ligue.
A voz do Aire é cortante e ao mesmo tempo triste, ele não fica no corredor para ver o resto da carnificina, atravessa a porta antes que as luzes se acendam. Eu deveria tê-lo seguido.
Pare de olhar. Faça o que tem que fazer.
Engulo a vontade de chorar e entro na sala o mais rápido que consigo, mas sei que não vou conseguir tirar a imagem da cabeça nunca mais.
A sala é mais ampla do que parecia no escuro, mas ainda não consigo entender tudo que aconteceu dentro dela. Sei que pessoas morreram aqui, consigo sentir o cheiro e as marcas de sangue na parede não mentem, mas não sei se foi antes ou depois de o lugar virar uma espécie de dormitório de monstros.
– Cuidado, eles estão vivos. – Os olhos brilhantes de Bryan são assustadores e bonitos ao mesmo tempo, grandes olhos verdes esmeralda.
– Que merda está acontecendo aqui? Eles estão tirando um cochilo depois da matança? – Mari se exalta e começo a perceber os sinais de estresse nela.
– Não estão dormindo. – Max se aproxima cuidadosamente do cento da sala até um objeto semelhante a uma mesa, cheia de fios conectados e, aparentemente, é a origem da luminosidade vermelha – Eu acho que encontramos nosso receptor de frequência.
Ele aponta para uma caixa de vidro acoplada a mesa, dentro dela existem correntes de energia passando, de várias cores, de diferentes velocidades e intensidades.
– Isso provavelmente é o que está desviando o pode de vocês e distribuindo.
– Distribuindo para o que exatamente? – No momento que termino a pergunta volto a me sentir enjoada, pois já sei a resposta.
Max não responde com palavras, apenas inclina a cabeça para as camas, se é que posso chamar aquilo de cama, ao seu lado. Se você está confuso, eu vou tentar te explicar. Ao redor da sala estão empilhados vários compartimentos lacrados com coisas dormindo dentro. Cada compartimento tem um cabo ligando-o a mesa central onde, aparentemente, nosso poder está sendo captado e distribuído entre as coisas.
— Cara, eu vou vomitar. – Blake olha para as próprias mãos e depois volta a encarar os habitantes da sala – Você só pode estar de brincadeira. Eu estou alimentando essas coisas? Que nojo!
— Vocês e metade da equipe do Ethan. – Max olha para a mesa indignado – Por isso eles não mataram todos, precisavam de alguns soldados vivos para poderem drenar eles.
— Como paramos esse... troço? – Mari aponta para os compartimentos com raiva.
— Eu não sei. Parece funcionar com uma máquina, então acho que temos que tentar desligar. – o shark observa a sala até que seus olhos parecem encontrar o que procura atrás de nós – Aqui! Isso deve ser o computador que controla.
— Não dá pra gente só puxar a tomada dessa coisa?
— Não sei se vai ser tão fácil assim Blake. Se isso funciona como um programa, desligá-lo só vai encerrar as atividades, mas não vai restaurar a frequência de vocês. – ele para de digitar e nos encara confuso – Como monstros fizeram isso?
— Eu realmente não me importo nesse momento Max, só... Resolve isso. – Blake parece aflito e nervoso, o que é ruim, levando em consideração que todos estamos perdendo o controle da situação.
Você nunca teve o controle da situação. Pode parar.
Que seja. Está pior agora.
Observo o shark digitar freneticamente, tentando achar uma solução enquanto o cercamos tentando entender o que ele está fazendo. Sei um pouco de computação para saber que ele está procurando a programação da máquina para tentar pará-la, mas não está tento sucesso. A frustração só aumenta com o passar do tempo e percebo o momento exato que Max se rende ao desespero.
— Eu não sei como esse treco funciona. – seus olhos encaram a tela do computador com raiva e medo – não consigo parar a máquina.
— Você tentou Max, não se martirize O.K? – tento confortá-lo enquanto me recosto na parede esquecendo completamente os motivos que me fizeram hesitar antes, minhas pernas estão muito pesadas para me manter em pé sozinhas.
O que me deixa com mais raiva disso tudo é que agora eu consigo ver para onde está indo toda a minha força. Essa caixinha demoníaca na minha frente é a responsável por essa merda toda que está acontecendo com a gente. Pela fraqueza, pelas dores, pelo frio, pelo medo, por tudo. Eu só queria destruir essa coisa para que ela parasse de ser esse pequeno parasita, essa doença que mata lentamente.
— Max! – exclamo quando a ideia me atinge bruscamente, tento entender direito no que estou pensando, mas é algo que pode funcionar.
— O que? Você está bem? – Mari se adianta junto com ele, ambos preocupados.
— Relaxa, eu to bem. – me livro dos braços dos dois e aponto para a máquina – E se deixássemos ela doente?
Eles me olham confusos e por um momento tenho certeza que estou falando abobrinha. Repasso os pontos que juntei na minha mente para ver se realmente fazem sentido.
Você não faz sentido Thais.
Licença! Eu preciso pensar aqui.
Não se force muito.
Quieta.
— Thais, eu não tenho certeza se você está mesmo bem. – Mari se aproxima novamente hesitante e reviro os olhos apontando mais uma vez para a máquina.
— Eu estou ótima. Max, você tentou desligar o programa, mas e se você só o destruísse com outra coisa. – observo seus olhos serem tomados pela compreensão – Você não vai só desligá-lo, ele vai...
— Deixar de existir. – ele completa já voltando ao computador – Brilhante!
Tento me levantar para ajudá-lo, mas automaticamente a tontura me domina, me obrigando a voltar para meu lugar no chão. Tento focar minha visão e disfarçar, pegando o resto de dignidade que me resta.
— Você pode ficar sentada ai Windchest, eu me viro aqui. – Max sorri rapidamente na minha direção e volta ao trabalho.
— Alguém vai me explicar o que está acontecendo ou eu vou ter que adivinhar?
— É muito simples Blake, nós...
Nós estamos com problemas aqui! Tem monstros no corredor!
— Droga! – Blake se empertiga pronto para responder ao rádio, mas mais um aviso chega para piorar a situação.
A porta emperrou, não conseguimos sair! Acho que tem alguma coisa bloqueando a porta.
Segundos depois a voz ofegante de Lílian domina o comunicador.
Está um caos aqui fora, estão vindo de todos os lados! Munique está bloqueando a porta para não entrarem.
— Me explica depois Max, seja lá o que você vai fazer, faça logo. Não posso lutar nesse estado. – Blake me encara do outro lado enquanto fala, respiro fundo e tento parecer melhor do que eu estou, mas está difícil – Nenhum de nós pode.
— Max acha que consegue resolver o problema. – Marian comunica pelo rádio logo sendo respondida por Milena.
E o que ele está esperando?
— Já estou terminando, mas não sei o que vai acontecer quando...
Apenas faça Max!
— Ele vai fazer. – Blake responde vendo o shark assentir e voltar a encarar o rádio preocupado – Onde vocês estão?
Não conseguimos passar nem da metade do nosso corredor e fomos recepcionados por um bando de Rapkons. Acabamos com eles, mas três Mitons nos encurralaram em uma sala. Estamos presos.
— Não vai demorar para termos problemas também. – Bryan anuncia da porta da sala – Tem sons vindos dos dois lados.
— Terminei. – Max olha para a máquina fixamente – É só esperar o estrago.
— O que você fez? – Mari pergunta esperando alguma mudança vinda do objeto.
— Eu coloquei um vírus nela. – Max exibe um sorriso assustador quando as luzes começam a entrar em colapso.
Não sei exatamente o momento que acontece, só sei que em um segundo estou olhando a caixinha perdendo sua luminosidade conforme as correntes de poder se desconectam dela, adorando o quanto é engraçado derrubar todo o esquema dos monstros com um vírus de computador e no segundo seguinte, meu mundo se torna escuridão.
Sinto minha cabeça ir de encontro ao chão e consigo escutar vozes chamando meu nome, mas por um momento, por um curto, mas reconfortante momento toda a dor e agonia que senti nos últimos dias somem. Eu me sinto leve e apenas deixo a escuridão me envolver.
Você precisa voltar!
Eu estou bem aqui.
Não existe aqui, você ainda está lá. Ainda está em um lugar perigoso prestes a ser atacada. Você precisa voltar.
Eu sei.
Volte Thais!
Deixe-me em paz!
Volte agora!
Para de gritar!
Thais!
— Thais! – mãos me sacodem, meus olhos se abrem abruptamente e tenho a sensação de déjà-vu – Santo Bush! Pensei que tinha morrido.
Aos poucos as imagens voltam ao seu lugar. Estou deitada no chão, Mari é quem está me chacoalhando. Pisco algumas vezes e tento recobrar o equilíbrio, mas o calor é intenso agora e a fumaça confunde meus sentidos.
— O que acon... Isso é fumaça? – me sobressalto e levanto mesmo sem equilíbrio, Mari me afasta da claridade e do calor, me conduzindo para o corredor novamente. Mais cheiro de morte, mais cadáveres. Quase peço para voltar a fumaça.
— Você desmaiou. Todos vocês na verdade. – ela olha em volta nervosa – Eles atacaram pelos dois lados.
O que? Quanto tempo eu dormi?
Não sei dizer.
— Você e Blake apagaram, tivemos que fechar a porta porque eram muitos, mas do nada alguma bateram em retirada. – ela suspira confusa – Não entendemos direito o que aconteceu, mas ai o Blake acordou e você não, nós não sabíamos o que tinha de errado. Tentamos falar com o outro grupo, os Mitons de lá também se mandaram, mas foram atacados por mais Rapkons.
“A Milena e o Austin ainda estavam apagados, então o Blake e o Bryan foram ajudar eles, você ainda não tinha acordado e eu não sabia o que fazer”.
Ela fala freneticamente e percebo que o estresse de toda a situação a tomou por completo. Ela respira de forma rasa e lágrimas ocupam seus olhos, mas ela não deixa nenhuma cair.
— Eu não sei como o Jack está, eu não sei como a Lili está, então, por favor, não resolva desmaiar na minha frente de novo. – sei que ela não está brava de verdade, mas concordo como se ela estivesse brigando comigo – Max terminou o serviço, ele destruiu aquela coisa toda.
Olho na direção da porta, em parte para tentar ignorar os três corpos no meu campo de visão e em parte para assimilar tudo o que aconteceu. Agora percebo os arranhões na porta e a as marcas da tentativa de arrombamento, mas não consigo entender de onde vem a fumaça. A claridade e o calor emanam da sala e por um momento tenho a impressão que meu corpo está atraindo o calor para si. Recuo alguns passos ao me lembrar dos problemas que já tive por causa do desequilíbrio dos meus poderes, mesmo não tendo certeza que isso seria um problema. Prefiro não arriscar.
— Deu certo? – pergunto mesmo tento receio da resposta.
— Me diga você. Como se sente?
Olho minhas mãos que parecem normais, mas elas também pareciam normais quando eu estava doente. Respiro fundo e tento concentrar o poder shark na mão direita. Quase choro quando a luminosidade azul segue o caminho das minhas veias e se apresenta forte e pulsante na ponta dos meus dedos.
— Finalmente. – Mari retribui o sorriso, mas, antes que possa falar algo, Ridins sai de dentro da sala acompanhado de Max – O que você está fazendo aqui?
— Limpando a bagunça Windchest. – antes que ele feche a porta consigo ver chamas dentro da sala o que responde a questão sobre o calor e a fumaça – Eles vão queimar antes de terem a chance de matar um de nós. Desgraçados.
Pela primeira vez desde que o conheci, o ódio em seu rosto não me faz detestá-lo, porque de alguma forma, uma coisa em mim passou a odiar tudo em relação a essas criaturas no momento em que vi o primeiro soldado desfigurado e abandonado no corredor.
— Valeri precisa de ajuda. – Jack aparece correndo em nossa direção, aparentemente cansado e coberto de arranhões. O sangue eu não tenho certeza se é dele – Munique perdeu o controle da porta, eles vão entrar.
Mari o encontra maravilhada, mas provavelmente não quer fazer uma cena, até porque ela entende que não é o momento. De qualquer forma, ele direciona a ela um olhar tão cheio de significados que me deixa até constrangida de estar observando.
— Aqueles malditos! Esperaram até que todos estivessem aqui dentro para cercar a base.
O fênix corre na direção da entrada e o seguimos de perto. Dessa vez a claridade deixa evidente toda a matança que aconteceu dentro do prédio, mas tento ignorar e focar no que é preciso fazer agora. É bom poder correr sem me cansar mais do que eu deveria, é reconfortante sentir água e fogo em equilíbrio perfeito aqui dentro, ambos prontos para entrarem em ação. Enquanto corremos, todo o prédio treme como se estivesse prestes a desabar.
Se vocês conseguirem sair agora, saiam!
— O que está acontecendo Munique? – Ridins pergunta quando somos sacudidos novamente, um som ensurdecedor invade o prédio, algo como um rugido ou um grito.
Nos encaramos atônitos, o silêncio em todos os lugares, nem um ruído se quer pode ser escutado no corredor. O som do lado de fora não existe mais, ficamos imóveis escutando a estática do rádio até o momento em que a voz pesarosa de Munique é emitida pelo aparelho.
Temos um Jabahacha aqui.
É o que?
Sabe, você realmente precisa começar a prestar atenção nas aulas.
Eu sei, eu sei. Vou tentar melhorar O.K? Mas agora se você puder me explicar.
Não sei nada útil sobre eles.
Obrigada pela ajuda.
Disponha.
— Precisamos sair daqui.
Sem uma palavra de questionamento seguimos atrás do fênix aos tropeços até o início do corredor. O lugar está ainda mais bagunçado do que quando entramos, agora a poeira toma conta do ar tornando a ação de respirar mais difícil do que deveria ser. Meus olhos ardem com a poluição e o cheiro repugnante de seja lá que está apodrecendo no subsolo começa a subir para a superfície. Nos juntamos ao grupo de Valeri sem questionar sobre seus ferimentos ou comentar sobre o cheiro repulsivo que emana deles.
As luzes piscam acima de nós enquanto tentamos miseravelmente abrir a porta que, graças a Munique, está emperrada. Em algum momento os outros nos encontram e se juntam ao esforço, aparentemente inútil, de empurrar as pesadas portas de metal. Meus olhos encontram Austin e, através de toda a poeira e os piques constantes da luz, consigo perceber que está ferido. No entanto, antes que a larga faixa de sangue que escorre na lateral de seu rosto possa me preocupar, ele olha para mim e sorri.
Olha só essa cara de louco. Estava até com saudade.
O sorriso não é o que estou acostumada a ver nos últimos dias, do Austin doente e ansioso. É um sorriso confiante, aquele que sempre tomava conta do rosto dele quando estava disposto a me provocar ou invocar com algum por simples prazer de ver a pessoa irritada. É o sorriso de quem está pronto para o que vier.
Mesmo ele me passando certa segurança, não consigo ter a certeza de que está pronto para o que vai acontecer em seguida. Eu não me sinto pronto e lembrar que a situação dele era mais debilitada que a minha quando entramos nesse prédio, aumenta a agitação no meu estômago.
Você está passando mal de olhar pra ele?
Você pode ficar quieta, por favor?
Que foi?
No momento em que retribuo com um pequeno sorriso nervoso a porta é atingida do lado de fora. O impacto consideravelmente forte lança todos que estavam mais próximos alguns metros para trás. Nos segundos que se passam após o ataque, observamos estupefatos as duas fendas de quase dois metros de altura abertas no metal.
O próximo ataque não demora a acontecer e quando ele chega a ex-porta não resiste nem dois segundos antes de seu arrancada de seu lugar original e arremessada para o gelo violentamente pelo animal. Sim, eu disse animal.
Que merda é essa?
Acredito que seja o tal Jabahacha.
Claro, como eu não pensei nisso. Obrigada.
Você perguntou.
Mesmo que eu quisesse descrevê-lo para você (o que eu não quero, porque iria tornar real a coisa que eu estou vendo), eu não poderia dar uma explicação que chegaria realmente perto de como é a criatura.
Os pequenos olhos de cereja ficam visíveis quando ele se inclina para frente, o enorme focinho rente ao chão, de cada lado as protuberâncias (se é que posso chamá-las assim), responsáveis por todo o estrago na entrada do prédio, se apresentam ameaçadoras.
Enquanto continuamos estáticos, como se até a respiração pudesse desencadear mais um ataque violento do animal, ele parece de irritar com a falta de visibilidade levando em conta que sua cabeça é deveras maior que a abertura que ele fez. Sem contar todo o espaço ocupado pelas...
Aquilo são presas?
Acho que pode chamar assim.
Certo.
As presas, anteriormente denominadas protuberâncias, enormes semelhantes a um... Machado? Sim, acho que isso chega perto. Elas ocupam quase todo o espaço da entrada, obrigando muitos a se encolherem contra as paredes para se manter longe da parte, aparentemente, mais letal da criatura.
Em algum momento entre a minha reflexão sobre as presas do senhor destruidor de portas e as investidas incessantes dele com o objetivo de provavelmente nos devorar, uma grande... Bola de neve?
Mas o que?
— Ai o Pumba do mal, que tal esfriar a cabeça? — grita uma voz raivosa, vinda das costas da criatura.
No instante em que outra bola, maior do que a primeira, atinge a lateral no animal ele se afasta com um som gutural sendo atirado para o lado. A próxima investida do atacante nos tira da paralisia momentânea.
A passos lentos e hesitantes, atravessamos o buraco da porta encontrando um cenário de guerra do lado de fora. Há sangue, gelo e pedaços de árvores cobrindo o chão, por todos os lados é possível ver criaturas correndo, algumas quadrúpedes, outras com formas mais humanoides e, por uma fração de segundo, tenho a impressão de vê-lo em meio o caos, mas quando tento ver melhor algo toma minha frente, me derrubando bruscamente de costas no gelo.
O animal investe contra meu rosto e meu primeiro reflexo é me proteger com os braços. Triste decisão. As presas afiadas fincam na pele por baixo do traje rasgando o material. Lágrimas invadem meus olhos automaticamente e tenho certeza que grito pelo menos uma vez, porém antes que eu possa pensar no estrago que boca nojenta da criatura faz no meu braço direito, meus instintos tomam conta. Não tenho certeza se meu cérebro acompanha tudo que acontece, mas me lembro claramente de me impulsionar para frente ficando o mais ereta possível no mesmo momento em que meu braço (saudável) estendido empunha a espada.
Eu nunca tinha cortado um osso. Nem mesmo cozinhando, o que não acontecia muitas vezes, só nos dias em que minha mãe estava decidida de que parte da obrigação dela era me ensinar a pelo menos não morrer de fome. De qualquer forma, quando escuto o som da lâmina afiada de MISTERIO atravessando o pescoço no animal, separando-o do resto do corpo, eu não sinto remorso.
Largo a espada, agora tingida de um tom escuro de vermelho, no gelo e afasto a repulsiva cabeça da criatura para o mais longe possível. A dor pungente me faz cerrar os dentes e torna impossível a missão de afastar as lágrimas. Com a mão esquerda trêmula devido a adrenalina, lavo a ferida rapidamente, ignorando a vontade incontrolável de correr para bem longe. Olho ao redor para não correr o risco de ser pega de surpresa novamente, mas com toda a agitação não tinha percebido que a luta se distanciou um pouco de mim.
Respire fundo, você vai ficar bem.
Inspiro fortemente o ar gélido até meus pulmões estarem tão expandidos que chegam a doer. Fecho os olhos por alguns segundos, confiando cem por cento no sexto sentido de Hatter...
Oi?
Sem tempo pra isso agora.
É sério que você vai decidir isso assim e nem vamos falar sobre?
Vamos falar sobre, depois. Só estou decidindo para o caso de eu morrer.
Eu te odeio.
Mesmo com a dor subindo por todo o braço, não posso impedir o pequeno sorriso. Eu já devia ter feito isso a muito tempo, mas, mesmo querendo que fosse em um momento melhor, não posso correr o risco de morrer sem ao menos ter lhe dado um nome.
Muito obrigada pela consideração. Eu odiei.
Estou muito ocupada agora para me importar.
Ridícula.
Quando volto a abrir os olhos encontro Austin me encarando a poucos metros dali, ele parece preocupado e se eu estivesse no seu lugar, observando-o tirar um cochilo no meio de uma guerra, eu também estaria. Não é hora para isso Thais, você pode lamentar depois.Repito isso para mim mesma três vezes e faço um pequeno sinal de que estou bem para ele, mas não acho que ele realmente acredita em mim. Eu também não acreditaria.
Mais uma vez me forço a engolir o choro e ignorar a dor, apanho a espada do chão e me coloco de pé. Observo o corpo da criatura estirado no chão a poucos passos de mim, engulo em seco ao perceber o nível de violência que eu posso atingir sem nem me dar conta. Ao menos vai ser útil agora.
Quando entro de cabeça na luta, manejando a espada da melhor forma que consigo, acertando qualquer uma das criaturas que se atreva a chegar perto de mim, uma parte minha se sente mais viva do que nunca e outra ainda reluta em aceitar toda a violência com que brando a lâmina, cortando e rasgando tudo ao meu redor.
Em um dado momento, depois de ser atingida várias vezes por garras, sou obrigada a parar para respirar, mesmo sabendo do risco alto de morrer. Avalio rapidamente o estrago, mas não tenho tempo de compreender a real dimensão dos cortes espalhados pelo meu corpo, pois no segundo em que levanto os olhos meu rosto é atingido fortemente por um dos animais.
Mais uma vez deixo os instintos voltarem ao controle e revido o mais furiosamente que consigo. Os momentos que se seguem são apenas borrões, seja pelo cansaço ou pelos machucados, minha visão já não foca com a mesma velocidade de antes e tenho quase certeza que tenho uma hemorragia interna, levando em consideração o gosto férrico que venho sentindo à alguns minutos.
Não sei ao certo quando nos damos conta que mesmo com os ataques fervorosos de todos, as criaturas continuam chegando em grande número. Não precisa ser um grande estrategista para saber que vamos ser derrotados em breve. James H., que parece ter chegado a essa mesma conclusão do alto de seu posto na torre, onde administra ataques violentos contra os bandos que saem da floresta, resolve agir de forma mais agressiva.
Me certificando de que a criatura abaixo de mim está morta, observo-o pular do alto da torre e atingir o chão furiosamente. Onde suas mãos atingem a superfície, enormes estacas de gelo se projetam para cima, formando algo como um iceberg gigante. Por um segundo não consigo entender a utilidade daquilo, mas minhas suposições são interrompidas antes de começarem quando todo o iceberg começa a se partir e de dentro dele surge um enorme animal rugindo.Os pelos tão brancos quando o ambiente ao redor e as presas expostas ameaçadoramente.
James acompanha o urso até o grupo de monstros mais perto e ao lado dele dizima todos em questão de segundos, mas não tenho certeza de o animal, que tem no mínimo nove metros, precisa da ajuda do dono. De qualquer forma, o frigid parece animado em montá-lo durante um ataque ou ajudá-lo no chão arremessando estacas afiadas de gelo.
Enquanto acompanho-o com os olhos um arrepio na base das costas me avisa da criatura prestes a me acertar. Ataco-a sem nem calcular o ponto em que a espada atinge, mas isso não importa quando derrubo mais um monstro sem morrer.
— É errado atacar pelas costas, seu covarde. — rosno enquanto retiro a espada do peito do monstro.
Ao me levantar para investir contra o próximo atrevido, meus olhos localizam um uniforme preto se destacando no meio das criaturas cinzentas. Sem me conter corro em direção ao homem. Passo rapidamente pelos alunos dedicados em suas próprias batalhas e me surpreendo ao encontrar a enorme criatura que nos atacou antes estirada no chão. Com o novo ângulo de visão entendo o apelido "Pumba". É um enorme javali, mas suas presas, ao contrário dos javalis comuns, são extremamente parecidas com lâminas de machado.
Corro por uma larga faixa de neve, atingindo as criaturas que se aproximam sem desviar os olhos do soldado que anda calmamente em direção ao leste da base. Quando minhas pernas começam a ficar pesadas demais para manter a mesma velocidade e meus pulmões ardem em protesto, tento levantar vôo, mais hesitante do que eu imaginei que estaria. O medo de todo o plano não ter dado certo está muito mais forte do que eu tentei me convencer.
Meus pés já deixaram o chão a vários segundos quando percebo que estou voando perfeitamente. O meu perfeitamente pelo menos. Com a nova onda de entusiasmo, me impulsiono para a direção em que vi o homem desaparecer por trás das paredes laterais da base. Porém, quando meus pés tocam o chão e consigo tem plena visão dos acontecimentos, meu cérebro demora para entender tudo o que está acontecendo.
Tente ir por partes, isso normalmente facilita.
O que aconteceu aqui?
Eu sei lá. Ainda não dominei a arte de ver mais que os seus olhos quando estou dentro da sua mente.
Sem raciocinar perfeitamente corro até a garota encostada na parede. Ela está pálida e com aparência doentia. Ela não estava doente. Ela nunca esteve doente. Ela estava bem. Porque ela está respirando desse jeito?
Thais, não vai adiantar você entrar em pânico.
Ela está sangrando.
Eu estou vendo.
Ela vai morrer?
Eu não sei.
Ela vai morrer sim. Eu não sei o que fazer.
Se você entrar em pânico, vai mesmo.
Você não está ajudando.
Me aproximo, mesmo querendo ignorar isso, fingir que ela está bem e voltar a matar as criaturas estranhas. Me ajoelho ao seu lado e tento ignorar todo o sangue em seu abdômem. Quando isso aconteceu? Mesmo buscando o mais fundo possível na minha mente, não consigo encontrar o último momento em que a vi.
— Líli... — minha voz falha e não tenho certeza se consigo dizer mais alguma coisa sem que as lágrimas voltem a ocupar o lugar do qual saíram a pouco tempo.
— Você está bem? Seu braço...
— Está de brincadeira com a minha cara? Eu estou ótima. Você... — engulo em seco quando meus olhos encontram o sangue novamente, suas mãos estão sobre a ferida, os olhos verdes mais opacos, mas não encontro medo neles — O que aconteceu?
— Você precisa ajudá-lo. — ela respira fundo e me olha irritada quando tento interromper. Eu estou em pânico aqui criatura — Austin, ele...
Respiro fundo mais uma vez, um novo tipo de preocupação tomando conta de mim. Tem sangue. Muito sangue. Uma pessoa pode sangrar tanto assim?
— O que ele fez? — pergunto porque ela me encara com tanta insistência que tenho medo que se não prestar atenção no que diz, ela vai apenas parar de falar e ai sim eu vou ter um colapso.
— O cara com roupa preta. — engole com dificuldade e aponta com uma mão trêmula para a esquerda — Eles foram por ali.
— Ele fez isso com você? — tento guardar a nova informação em um canto da minha mente, para não me submeter a vontade da parte de mim que quer voar naquela direção imediatamente. Ela também precisa de ajuda.
— Sim, mas eu estou bem. — ela parece ainda mais irritada quando olho-a de forma irônica — Você precisa ajudar ou ele vai morrer lá.
— E se eu for lá agora, você vai morrer aqui. — ela tenta retrucar mais uma vez, mas não dou importância e puxo o rádio de comunicação tentando ligá-lo — Alguém que tenha conhecimentos médicos pode vir até o lado leste? É uma emergência.
Quando solto o botão para esperar a resposta, meus dedos tremem tanto que não consigo continuar segurando o aparelho. No meio de todo o pânico de ver Lili morrendo lentamente na minha frente, me esqueci do corte profundo que ganhei de presente de um monstro humanoide na perna direita. Forço a dor permanecer no buraco mais fundo e escuro que consigo e apenas movimento o corpo para me apoiar na perna esquerda.
Qual nível de emergência Windchest? Todos aqui estão em situação de emergência!
— Ela vai morrer. — respondo encarando os olhos verdes cansados fixamente — Logo, se ninguém vier até aqui.
Ela suspira e tenho certeza de avistar uma pequena lágrima descer pelo seu rosto, mas não me deixa prestar atenção nisso e desvia rapidamente o rosto contorcido de dor para o lado de onde vem os sons altos da batalha que continua a todo vapor.
— Droga! — ela exclama assustada antes mesmo de pousar pesadamente ao lado de Lili — Vamos cuidar disso O.K? Você vai ficar bem.
Suas mãos trabalham rapidamente em busca de objetos no traje, os olhos assustados muito diferentes dos que conheci no dia anterior. Se antes ela parecia extremamente profissional e madura, agora se assemelha a uma criança desesperada.
Observo a shark resistir fortemente as ondas de dor durante os poucos segundos em que ela me deixa permanecer ao seu lado. Quando Munique está concentrada em lidar com toda aquela bagunça, sinto a mão de Lili segurar a minha mais apertado do que eu imaginei que ela pudesse, dada a situação. Não preciso de muito tempo para perceber o que ela quer dizer, nem um manual para entender o significado do quase imperceptível sinal que ela faz com a cabeça na direção da fênix.
"Eu estou bem, agora vaza daqui e não deixe ela te seguir".
Tento sorrir para encorajá-la, mas tenho certeza que falho. Ela só assente e volta a se concentrar em sobreviver enquanto Munique tentar consertar o estrago.
Eu não preciso fazer muito esforço para impedir que a Argonel mais velha me acompanhe, não é como se ela estivesse realmente prestando atenção no que estou fazendo. Nem mesmo deve desconfiar que o ferimento tenha sido causado por algo diferente das criaturas no campo de batalha.
Antes que eu possa desistir de sair dali, alço vôo sendo dominada pela preocupação com um certo shark que desde sempre ocupa mais espaço do que deveria na minha mente. Meus olhos procuram pelos dois furiosamente enquanto vôo o mais rápido que consigo, mas até mesmo com a minha visão embaçada não preciso de tanto esforço para localizar o uniforme preto pouco a frente, próximo a um lago congelado.
As árvores ao redor de certa forma funcionam como uma camuflagem para ambos e os sons retumbantes da batalha sangrenta a uma curta distância daqui, não ajuda ninguém a descobrir que um dos integrantes do grupo suicida está isolado do resto e provavelmente em sério risco de morte. Tudo bem que o resto das pessoas também estão em sérios riscos de morte, mas você me entendeu.
Antes de pousar para tentar fazer alguma coisa, avalio a cena para ter certeza de que não estou errada sobre a situação. Eu sei que esse não é exatamente o melhor momento para eu rever a minha confiança em Austin, mas não posso deixar de hesitar, já que fui surpreendida antes em circunstâncias bem parecidas. É por essa razão que não contenho o sorriso quando ele investe violentamente contra o soldado com o claro objetivo de matar o maldito.
Não me lembro o exato momento em que decidi pousar com os dois pés na cara daquele idiota, só me lembro de ver Austin ser atirado para trás e no segundo seguinte minha espada está a centímetros da cabeça do homem. No entanto, ele é consideravelmente melhor em batalha do que o exército de criaturas, o que se torna bem evidente quando, antes que meu ataque possa se concretizar, ele já está me atirando a metros de distância.
Meu corpo atinge o chão pesadamente e sinto o ar ser expulso dos meus pulmões de forma dolorosa. Me abrigo a levantar e voltar a atacar, mas todas as vezes que estou perto de atingi-lo, ele simplesmente me afasta. Ao contrário do que faz com o garoto, quando Austin ataca ele tem o prazer de se defender e revidar, com golpes cada vez mais violentos.
Quando em fim me dou conta que ele não da a mínima para a minha presença e que sua única diversão é destruir o shark (que a essa altura nem está em condições de revidar decentemente), uma raiva surpreendente surge dentro de mim.
Observo Austin cair novamente sobre os joelhos ao ser arremessado mais uma vez contra uma árvore. Ele respira ofegante, sangue escorre da sua boca e o corte na testa está muito pior do que antes. Encaro o gelo abaixo de mim e percebo que estou sobre o lago. Engulo em seco e me levanto ignorando todos os protestos dos meus membros. Sei que não estou em condições melhores que as dele, sei que estou muito cansada para tentar qualquer coisa muito elaborada, mas eu vou tentar mesmo assim, porque, diferente de Austin, eu não tenho a atenção do inimigo. Vou fazê-lo se arrepender disso.
Enquanto o homem anda a passos lentos na direção do garoto, tenho tempo para respirar fundo e me concentrar em toda a água sob meus pés. Sei que é mais fundo do que parece e também sei que o gelo que cobre toda a sua extensão é muito fino para resistir mais. Isso torna um pouco mais fácil a tarefa de convocar todos esses metros cúbicos na direção do soldado e implorar para que me respondam.
Só sei que o plano (mais desorganizado que fiz na vida, diga-se de passagem) funcionou quando meu corpo está imerso na água, a metros da superfície e um corpo se debatendo desesperadamente próximo a mim me da a melhor sensação que já senti: satisfação.
Mesmo observando ele lutar por ar enquanto meus pulmões apenas se deliciam com a nova experiência, não consigo sentir remorso ou pena. As únicas coisas que vagam em minha mente é todo o desespero, desgraça e dor que ele causou. Meu pai sempre disse que os homens não devem fazer justiça com as próprias mãos quando não são designados à isso. Vou ter que pedir desculpas se voltar a vê-lo um dia.
De alguma forma a espada voltou para minhas mãos e por uma fração de segundo penso em matá-lo com ela, mas não acho que a água precisa de ajuda. Reparo que ele, mesmo que insista, não consegue sair do lugar, é como se o lago estivesse segurando-o.
Solte.
O que?
Não é o lago. É você.
Eu não estou fazendo nada.
Você convocou o lago para ter servir, a água não vai deixá-lo partir se você não permitir.
Não sei se devo fazer isso.
Você não é uma assassina Thais.
Você não sabe disso.
Se tem alguém que sabe disso, sou eu.
Ele merece.
Sim, merece. Mas não deve ser você a sujar as mãos. Solte.
Mesmo com uma grande parte de mim implorando para apenas ver todo seu ar ir embora, me concentro em recuar a raiva e libero a água do meu controle. Assim que meu domínio desaparece ele está livre e nadando rapidamente para cima, tento acompanhá-lo, mas meu corpo está confortável demais imerso na água. Os machucados não doem. Minha cabeça está mais leve e mais do que nunca, eu só quero fechar os olhos e dormir.
Não sei quanto tempo permaneço assim, só sei que tenho a nítida percepção de algo grande passar ao meu lado e subir rápido para a superfície, mas não tenho muita disposição nem vontade de descobrir o que está acontecendo, apenas deixo que as águas do lago me embalem e levem todas as preocupações embora. Estou quase totalmente adormecida quando grandes mãos me agarram e me puxam para fora do lago. Sinto o ar gelado de encontro ao meu rosto e por um segundo é como se eu estivesse na varanda de casa, em uma manhã de inverso observando o brilho pálido do sol chegando nas camadas de geada da grama do jardim.
Quando volto a consciência não está mais gelado como antes, não tem mais água, nem soldado e nem luz. Está escuro, meu corpo chacoalha constantemente, estou coberta por um tecido quente e encostada em algo macio. Tento focar a visão em algo específico, mas não tem muita coisa para eu ver no escuro.
— É melhor não se mexer muito, seu braço ainda está sangrando um pouco. — Austin fala quando tento me levantar, só então percebo que está ao meu lado.
Assinto mesmo não entendendo direito como todo o cenário de batalha se tornou mais uma viagem de caçamba. Após alguns segundos de avaliação, noto que minha cabeça está confortavelmente (mais do que gosto de admitir) acomodada em seu ombro, o braço atrás do meu pescoço agora transmite calor, bem diferente da viagem de ida. Isso de certa forma me conforta, não só porque é extremamente agradável, mas também porque me passa a certeza de que ele está bem. Bem em relação à todos os problemas que tivemos antes, mas a lembrança de seu corpo inclinado na neve e sangue saindo de sua boca está bem vivida na minha mente.
— Você está bem? — ele ri fracamente quando questiono, volto a fechar os olhos e aproveitar a sensação, depois posso simplesmente falar que estava sem condições de perceber o que está acontecendo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Você quase morreu, de novo, e está me perguntando se estou bem? Você precisa ser menos altruísta Windchest. — posso sentir minha testa se enrugar espontâneamente com o sobrenome, é estranho quando ele pronuncia.
— Não seja tão dramático, eu sei exatamente a dimensão dos meus machucados O.K? A dor é bem proporcional.
E não estou mentindo, agora que toda a adrenalina foi embora, agora que posso respirar sem correr o risco de morrer, meu corpo está cobrando o preço de ter resistido até agora. A dor é tão intensa que não consigo identificar de qual lugar está vindo, também não tenho certeza se a hemorragia interna parou, mas não vou pensar nisso agora.
— Você precisa de ajuda, quero ver qual esculpa vamos inventar para Jane. — ele ri mais uma vez e não posso deixar de acompanhá-lo — Acha que se eu disser que nós acabamos nos empolgando demais e passamos do limites durante um duelo, ela acredita?
— Com certeza, ela vai cuidar da gente e depois vai nos dar uma surra por mentirmos.
— Tem razão. — sorrio mais gostando da sensação do seu peito se contraindo com a risada, é reconfortante finalmente vê-lo normal de novo — Eu estou bem.
Como sei perfeitamente que ele não vai prolongar o assunto sobre como tomou uma surra no gelo, não insisto em saber da real gravidade dos seus ferimentos, vou ter tempo pra isso quando chegarmos em casa.
Casa. É engraçado como a definição mudou de forma tão natural. Minha mãe costumava dizer que casa é o lugar onde nos sentimos seguros, o lugar onde sabemos que podemos voltar em qualquer situação de crise porque vamos nos sentir melhor. É onde queremos estar quando as coisas estão confusas ou assustadoras. Já concordava com ela antes de tudo isso ser comprovado agora.
— Lílian?
— Está mais à frente em uma caçamba com Munique, está bem melhor do que antes. — não consigo conter os suspiro de alívio, por um momento tive certeza que ela ia morrer — Ela vai ficar bem.
Me agarro a essa esperança. Sei que Líli é forte, mas também não posso ignorar todo o sangue que vi. Pela primeira vez desde que acordei me arrependo de não ter matado aquele miserável.
— Obrigado. — a voz é hesitante e desconfortável, mas, mesmo sabendo exatamente do que ele está falando, não posso perder a oportunidade de me aproveitar da situação.
— Pelo que? — ele suspira cansado, mas sei que está sorrindo levemente, não evito retribuir.
— Por favor. — se eu não tivesse certeza que iria vomitar se tentasse, eu teria gargalhado.
Em vez de continuar a curtir com a sua cara, apenas me aconchego mais, aproveitando o seu calor e a sensação de paz que não sentia à vários dias.
Eu to vendo você se aproveitar da situação.
Não sei do que você está falando, estou com muito sono e machucada para ser responsabilizada pelas minhas ações.
Claro.
Mesmo com o sono me rondando e tendo certeza de que irei perder a consciência em breve, me mantenho acordada por mais alguns minutos, porque sei que preciso fazer algo antes de me permitir descansar e preciso estar bem acordada para que ele não pense que são apenas palavras de uma pessoa bêbada de sono. Me inclino o máximo que consigo até conseguir ver seu rosto, pelo menos o que é possível ver no escuro, para ter certeza que ele está escutando e prestando atenção.
— Eu sei que você o conhece.
Ele respira fundo e sei que vamos começar outra discussão calorosa se eu permitir, mas não importa mais o que ele diga, tudo o que vi naquela luta serviu muito bem para esclarecer as coisas, existe algo pessoal ali. Tão pessoal que quando tentei me intrometer ele nem ao menos se importou com a minha existência. Tão pessoal que o fez cometer o erro de não prestar atenção em todos os ataques que podia receber.
Não pense que eu me iludo ao ponto de pensar que o peguei de surpresa por causa das minhas habilidades recém descobertas. Sei muito bem que só tive a chance de surpreendê-lo porque ele estava ocupado demais resolvendo um problema pessoal.
— Thais...
— E também sei que não quer falar sobre isso. — seus olhos estão fixos em mim, assustados e tristes, apenas sorrio levemente — E está tudo bem. Eu ainda vou estar aqui quando quiser.
Mais tarde eu vou me preocupar com o significado disso tudo. Mais tarde eu vou provavelmente me arrepender de ter gostado tanto da sensação agradável que é dormir encostada nele, principalmente porque Marian observa tudo isso com um sorriso provocador no rosto. Mas isso é problema para mais tarde, por agora eu só adormeço confortável e aceito ingressar na inconsciência.
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