Elementium - Volume 1 - A Ascensão
31 Meu curandeiro é um peixe míope
Notas iniciais
— Ela vai ficar bem? — a voz invade os meus ouvidos na escuridão, quebrando o silêncio.
— Vai sim — a pessoa parece cansada, mas ao mesmo tempo aliviada. — Os ferimentos dela já tinham começado a cicatrizar, mas não posso realizar o tratamento intenso por causa do outro Pnévma.
O outro o que?
Espírito.
Certo. Eu conheço essas vozes, mas porque estou ouvindo dessa maneira?
Acho que está na água, pelo menos é o que parece.
Certo.
— Ela ficou bastante tempo no lago, não afetou o lado Fênix? — a preocupação é palpável e o tom de voz é definitivamente de um homem.
— O Fotiá é um dos mais resistentes, é um dominador, demora para ser subjugado — a voz é mais velha e a forma como fala transmite tranquilidade. — Eu notei um certo desequilíbrio no elo que une as duas partes, tanto nela, quanto em você. Tem algo para me contar?
— O gelo… — ele responde com certa hesitação, como se pensasse nas próximas palavras. A risada nervosa também não deixa seu desconforto ser mascarado — Passamos muito tempo no gelo, com certeza foi isso.
— E o que vocês estavam fazendo no gelo? — o tom maternal se perdeu completamente e a raiva começa a transparecer.
— Precisávamos refrescar a cabeça sabe, dia difícil — outra risada nervosa.
— Talvez eu deva te colocar naquele tanque ao lado, pode te ajudar a refrescar sua honestidade — a ameaça, por mais infundada que seja, parece real.
— Definitivamente contra minhas recomendações médicas — definitivamente Austin! Apesar da voz trêmula, ele solta uma risada brincalhona antes de perguntar com uma seriedade incomum — Posso ir visitar?
— Sim, mas não tente falar com ela, repouso é essencial. — Jane responde mais uma vez, cansada, e os passos indicam que estão se afastando de mim.
Aos poucos consigo sentir o leve fluir da água ao meu redor, me embalando e me convidando a voltar para a inconsciência. Não sei exatamente que tipo de tratamento é esse, mas confio na sabedoria de Jane e sei que provavelmente ela só irá me liberar quando estiver completamente recuperada. É um fato que não sinto dor ou o cansaço de antes, o que é prova suficiente dos cuidados médicos que devo ter recebido até agora.
Austin parece estar bem disposto, já que não foi confinado a uma inércia como a que estou, o que, sinceramente, provoca uma onda de satisfação. Não sei exatamente como os acontecimentos recentes têm interferido em nossa amizade, mas consigo definir que, por hora, estou contente com seja lá o que representamos agora.
Não sei exatamente quando fui jogada novamente ao mundo dos sonhos, mas quando volto a recobrar os sentidos, minha visão é provocada por uma luminosidade fraca a qual constato estar vindo de pequenas bolhas de iluminação da ala dos Sharks, na enfermaria. Elas flutuam ao redor do ambiente como água-vivas, emitindo um lindo brilho azul.
Ao me movimentar percebo que estou completamente imersa na água, como tinha concluído antes. Parece ser um tanque, ou algo do tipo e a sala onde estou, apesar de possuir o mesmo design da que visitei dias atrás, trata-se de outro recinto, algo como uma sala de internação.
Mais a frente no meu campo de visão, encontro uma figura adormecida sobre uma das cadeiras de tratamento, a mesma reclinada ao máximo. Ele está coberto com uma manta azul que emite a mesma luminosidade das bolhas flutuantes. Parece tranquilo e totalmente relaxado, descansando em sono profundo.
Está aí?
Sempre.
Esse incômodo…
Seus ferimentos não precisam mais de remediação.
Isso deveria ser bom, não?
Sim, mas você continua na imersão. Essa água provavelmente é medicinal, não pode ficar aqui muito tempo.
Por causa do meu lado Fênix?
Correto.
Como faço para sair daqui?
Precisa chamar ajuda. Pode acordar ele.
Não, ele precisa descansar.
Olho ao redor em busca de algo que possa me ajudar. Não é possível que uma sala de tratamento fique isolada de comunicação. Demoro alguns instantes para notar um pequeno peixe nadando preguiçosamente próximo ao meu ouvido direito.
Um comunicador.
É um peixe, Hatter.
OK! Sobre isso, nós temos muito o que conversar, quem você pensa que é para simplesmente definir como EU vou me chamar pelo resto da minha vida sem nem ao menos me consultar antes? Isso é falta de consideração, de educação, de decência, de… de…
Já terminou? Você está fazendo muita tempestade em copo d’ água. Pais escolhem o nome dos filhos sem o consentimento deles o tempo todo, sabia?
Você não é minha mãe! Não chega nem perto disso.
Certo, isso seria realmente estranho. Então, vamos usar a palavra tutora, não gosto de ser chamada de dona ou algo assim.
Eu não sou seu bichinho de estimação! E tutor é só outro nome que vocês humanos dão para os donos.
Não exatamente, existem muitos tipos de tutor. Para com esse drama todo. Primeiro o problema era você não ter um nome, agora o problema é você ter um. Eu realmente não te entendo.
Você não me consultou sobre! Esse é o problema. Você foi… grosseira.
Uau! Cansei de argumentar com você. Se não gostou do nome pode escolher outro.
As coisas não funcionam assim, eu não posso simplesmente escolher outro agora, você já associou esse nome a mim, não é mais uma escolha minha.
Do que você está falando sua doida? Eu vou aceitar se você quiser ser chamada de outra forma.
Mas eu não…
Eu não te entendo.
Problema é seu!
Você pode ou não me ajudar a sair daqui? Esse formigamento é desconcertante.
Se vira!
Vocês não deveriam discutir tanto.
Caro leitor, devo dizer que não sei exatamente como expressar em palavras a forma como me joguei contra a parede do tanque, mas posso dizer que foi semelhante a um gato com medo de banho. Se você nunca deu banho em um gato, sugiro que busque mais informações sobre para entender esse contexto, pois estou um pouco ocupada tentando compreender como esse pequeno e zoiudo peixe pode ter voz de locutor de rádio e estar falando dentro da minha cabeça.
Que merda é essa?
Modos, senhorita!
Eu vivo dizendo isso pra ela.
Olá, Baem! Está se recuperando adequadamente?
Você pode me chamar de Hatter e sim, estamos nos recuperando, inclusive gostaríamos que nos ajudasse a sair da imersão, está nos deixando desconfortáveis.
Claro! Irei chamar a Dra. Zigherimediatamente.
Sem mais uma palavra, o peixinho segue por um duto que aparentemente leva para outra sala. Tenho orgulho de dizer que não fiz nenhum som constrangedor, apenas mantive os olhos esbugalhados, em solidariedade a pequena criatura, é claro.
Você só me faz passar vergonha.
Desculpe, senhorita educação, mas não estou acostumada com peixes telepatas.
Ele não é telepata, apenas se comunica pela água e você é praticamente um pudim de água.
Obrigada pela parte que me toca. De qualquer maneira, não estava preparada para isso.
Ele é um dos ajudantes da ala dos Sharks, provavelmente estava responsável por acompanhar sua evolução.
Como você sabe dessas coisas se eu não sei?
Nós não passamos toda a nossa vida juntas, quando nascemos somos seres individuais, ainda que ligados por uma conexão mental. Durante esse tempo eu fui cuidada por outras criaturas e orientada sobre o nosso mundo.
Espera um pouco aí! Isso você nunca me contou, disse que morava na minha cabeça e que fazia parte de mim, além disso, já deixou muito claro que não pode viver fora daí se eu não te invocar. Que história é essa agora?
Tudo o que te falei é verdade. A alma dos elementistas é dividida desde o momento do nascimento, uma parte é a descendente dos humanos, essa que você conhece bem, a que abriga seus poderes e posteriormente, em uma certa idade, recebe o restante da sua alma. A segunda parte, mais precisamente a parte espiritual, mais conectada ao elemento em si e menos a parte mortal, é desprendida e mantida em segurança até que seus poderes estejam em equilíbrio para que o corpo possa comportar toda a sua alma sem ser destruído no processo.
Então, basicamente, nós nascemos com o tamanho errado?
Como assim?
Nossos corpos não têm o tamanho correto para que toda a nossa alma caiba dentro dele, a gente precisa crescer.
Não se trata de tamanho, mas sim de força. A alma completa de um elementista emana muito poder e pode destruir a mente se a pessoa não estiver em equilíbrio mental e físico. Sendo assim, com o avanço da idade, vocês adquirem a capacidade de aguentar essa energia e é a partir daí que também se iniciam as manipulações dos elementos. Vocês deixam de ser receptáculos e passam a ser dominadores.
Interessante tudo isso viu, mas preciso admitir que é bem fora da casinha.
Onde está aquele comunicador? Você está começando a ficar lesada.
Isso não é verdade!
Você sabe que é.
Certo, pode ser um pouco verdade. Faz algum tempo que o ambiente não está mais nítido e as cores estão se embaralhando. Passei a distinguir mais o som da água e de alguma forma é como se houvesse uma praia inteira dentro dos meus ouvidos.
É o seu sangue.
Certo. Sangue.
Lá vem ele.
Com certa dificuldade consigo identificar as pequenas nadadeiras se movimentando na minha direção, o corpo alaranjado finalmente se destacando entre a confusão azulada. Ele se aproxima e consigo ouvir os murmurios de sua voz, mas não compreendo o que diz. Observando-o de perto noto um pequeno objeto ao redor dos olhos esbugalhados. Seria isso um óculos? Peixes também sofrem de miopia? Ou seria astigmatismo o problema do meu pequeno enfermeiro?
Não sei muito bem o que está acontecendo ao redor, mas consigo notar a diferença de luz ao meu redor, tudo se torna mais claro e tenho certeza de que estou sendo movida para o alto. As imagens se embaralham e demoram para focalizar. Sinto mãos no meu rosto e uma luz forte contra os olhos.
Tente respirar. Seus pulmões ainda estão cheios de água.
Sigo a orientação e tusso algumas vezes. Os sons aos poucos vão sendo novamente apresentados aos meus ouvidos, mas a visão permanece em baralhada. Não estou mais no tanque, mas sim em uma maca. Sinto minhas roupas encharcadas e o cabelo grudado no rosto, confirmando que não existe mais água ao meu redor.
— Respire devagar, seu espírito precisa entrar em equilíbrio — Jane passa uma das mãos carinhosamente pelas minhas costas e me cobre com uma manta azul luminescente.
Todos os sentidos vão retornando aos poucos, consigo sentir o tecido macio da maca abaixo de mim, o ar ao meu redor é fresco e a manta está transmitindo calor para o meu corpo, apenas o bastante para diminuir os tremeliques.
— Onde…Onde eu… — tento externalizar meus pensamentos, mas a garganta doi e as palavras saem trêmulas.
— Você está na enfermaria do colégio. Não se preocupe, está em casa — ela fala com a voz baixa e maternal. — Apenas respire um pouco, já irá se sentir melhor.
Ela não mente. Em poucos minutos os tremeliques se encerram e a névoa na minha mente se dissipa. Consigo abrir os olhos e me acostumar com a nova luminosidade. Percebo que estou em uma espécie de plataforma, sobre o duto de água que me abrigou momentos antes. A entrada dele está ao lado da maca, provavelmente por onde fui retirada. De dentro do duto percebo o pequeno peixinho me encarando irritado. Será que ele está se sentindo traído por não estar mais sob os seus cuidados?
Acho que não. Deve ser porque você tentou tirar os óculos dele ou por cutucar os olhos.
Eu não fiz isso!
Fez sim! Você é um perigo, me lembre de nunca te deixar ficar bêbada.
Eu tenho certeza de que não é por isso. Eu estava fora de mim e, afinal de contas, que tipo de peixe usa óculos?
Ele é um peixe-telescópio, não tem uma visão muito boa. Pode ir parando com o bullying.
Desculpe, não foi minha intenção. Ele pode me ouvir?
Não mais, você precisa estar na mesma água que ele.
Certo, depois dou um jeito de me desculpar.
Direciono ao pequeno enfermeiro um sorriso arrependido, mas o mesmo não parece dar a mínima para o meu pedido de desculpas, apenas vira as costas e nada o mais rápido possível para fora do meu campo de visão.
— Me desculpe por ofender o seu peixe — falo o mais sinceramente possível tentando ver a reação de Jane, mas, devido ao fato de estar de costas para mim, só consigo ouvir sua risada.
— Em primeiro lugar, ele não é meu peixe, é um dos curandeiros. O nome dele é Jineun Hae, mas prefere ser chamado apenas de Hae— ela mexe em um computador enquanto fala e tento a todo custo identificar do que se tratam as informações na tela. — Em segundo lugar, você devia pedir desculpas a ele e não a mim.
— E como eu faço isso? — a voz sai mais firme a cada palavra que pronuncio e não consigo me impedir de me mover pelo menos um pouco para afastar o sentimento de atrofia dos músculos.
— Mais tarde você terá oportunidade de falar com ele — ela afirma se levantando da cadeira e apertando um botão no painel do computador. Começamos a nos mover para baixo. — Você já está bem melhor, pode ficar na sala de observação, mais algumas vitaminas, uma boa refeição e algumas horas de sono serão o bastante para se recuperar completamente.
— Posso tirar essa coberta? — o calor irradiando da manta está me deixando desconfortável e não consigo deixar de temer entrar novamente no estado de frenesi.
— Espere a estação parar, eu separei uma nova muda de roupas para você, pode tirar essas roupas molhadas e tomar um banho.
Aguardo ansiosamente a plataforma parar e ao levantar percebo que estamos na sala que conseguia ver de dentro do duto de água. Austin ainda está adormecido no canto da sala e a luz aqui continua amena, provavelmente para não acordá-lo.
Apanho meu conjunto de roupas hospitalares e me direciono ao banheiro indicado por Jane. O pequeno cômodo é composto por azulejos brancos incrustados com conchas marinhas. O sentimento é o mesmo de estar em um banheiro de uma casa na praia.
Ao contrário do que eu esperava, a água quente em contato com os ferimentos não causa dor, mas sim um formigamento gostoso, como quando se toma sol em uma manhã gelada. Analiso os locais que lembro estarem machucados e de fato as feridas se fecharam quase completamente, deixando para trás apenas pequenos hematomas e arranhões.
Observando meu abdômen marcado por manchas escuras me lembrando da batalha no lago congelado e também da conversa que tive com Austin durante o percurso de volta para casa. Sinto minhas bochechas ficarem quentes ao lembrar daqueles curtos momentos. Com certeza deve ser efeito da água quente.
Vai conversar com ele sobre isso?
Sobre o que?
Entendi. Vai fazer a linha desentendida.
Não sei do que você está falando.
A escolha é sua. Só não se arrependa mais tarde de não agir de acordo com as suas vontades.
Você está muito intrometida hoje.
Só não quero que sofra. A propósito, feliz aniversário.
O que?
Vocês chegaram aqui de madrugada, hoje é seis de outubro, seu aniversário.
Meu aniversário. Dezesseis anos. Um ano desde que toda essa loucura de poderes começou. Quanta coisa mudou em um ano. Será que meus pais vão comprar um bolo essa noite? Será que vão se sentar no meu quarto e mais uma vez sofrer pela minha ausência? Será que eu poderia estar com eles se o acidente não tivesse acontecido?
Bem, é tarde demais para pensar em como as coisas seriam se eu fosse uma pessoa normal. Eu não sou. Espero que eles esqueçam o dia de hoje, que vivam como se fosse apenas mais uma data sem importância. Quero que parem de sofrer por minha causa.
Sem mais aguentar o silêncio ensurdecedor do banheiro, paro de gastar a água dos outros e me arrumo o mais depressa possível. Preciso me distrair com alguma coisa e o Shark na sala ao lado sabe muito bem como auxiliar nesses casos.
Achei que você queria deixar ele descansar.
Ele já descansou bastante.
Não preciso me preocupar em acordar Austin porque quando adentro a sala de internação ele está sentado recebendo alguns cuidados de Jane. A manta que antes o cobria por completo agora está amarrotada em seu colo. Está usando um conjunto hospitalar igual ao meu, calça e camiseta azul, os braços descobertos possuem alguns curativos e os olhos astutos acompanham cada movimento que faço desde o momento em que coloco os pés no mesmo ambiente que ele.
Mais uma vez minhas bochechas esquentam e desvio o olhar, me concentrando em descartar minhas roupas esfarrapadas e me aconchegar em uma das cadeiras.
— Vejo que o banho te fez bem — Jane me direciona um pequeno sorriso enquanto retira uma agulha do braço de Austin. — Está se sentindo melhor? Muita dor?
— Minhas costas ainda doem um pouco, mas nem se compara a dor de antes. Obrigada, Jane — respondo com o mesmo sorriso, ainda evitando o olhar penetrante do garoto.
— Não há de que. É sempre um prazer cuidar de vocês. No entanto… — o sorriso anterior desaparece e seus olhos transmitem apenas irritação. Esse era o momento que eu estava esperando desde que as lembranças dos ocorridos do dia anterior voltaram. — O que vocês tinham na cabeça? Ultrapassaram todos os limites imagináveis e inimagináveis. Vocês podiam ter morrido! Ainda podem ser expulsos! O que diríamos à família de vocês?!
— Não temos família, Jane… — antes mesmo de ele terminar a frase já está sendo fuzilado por dois pares de olhos furiosos. — O que? Você sabe que é verdade. Olha, Jane, eu sei que nós fomos imprudentes, ok? Estou ouvindo isso de você desde que chegamos aqui, mas era necessário.
— Você fica repetindo isso, mas não me diz o que realmente aconteceu. Acho que talvez nem teriam me contado onde estiveram se Lílian não precisasse de cuidados específicos. Estou errado? — ela semicerra os olhos e a voz está cada vez mais irritadiça.
— Se não quer que eu minta, não faça esse tipo de pergunta — Austin responde prontamente e a médica se inclina na cadeira como se fosse lhe dar uns bons tapas. — Jane! Jane, calma! É contra as suas recomendações médicas eu passar por agressões agora.
— Moleque abusado! — mais uma vez ela investe contra ele, mas não termina a agressão e suspira cansada. — Vocês precisam tomar cuidado crianças, não podem chegar aqui no estado que chegaram e agirem como se fosse normal. Além dos machucados também existe esse inexplicável desequilíbrio nos poderes de vocês. Mais uma coisa que não irão explicar, certo?
— Jane, nós te amamos e confiamos em você… — olho para Austin antes de terminar o raciocínio, não sei exatamente quais informações ele passou para ela, portanto, opto por apenas apaziguar seu coração — Mas existem coisas que não podemos te contar, para o seu próprio bem. Muito obrigada por cuidar de nós e tenha certeza que não achamos tudo o que aconteceu normal. Não vai se repetir.
Ela suspira mais uma vez e tenho certeza de ver lágrimas em seus olhos antes de se afastar. Austin faz um pequeno sinal de concordância e indica que conversaremos sobre isso mais tarde. Jane se acomoda ao lado da minha cadeira com uma nova bandeja de medicamentos se concentrando em fazer curativos nos machucados que ainda estão abertos nos meus braços e rosto.
— Como está a Lili? — faço a pergunta que está na minha mente desde que a garota foi citada na conversa. As memórias do sangue e das lágrimas da garota passam vividamente pelos meus olhos.
— Ela vai se recuperar, está progredindo rápido, mas como o ferimento foi mais grave do que os de vocês, vai precisar ficar mais um dia internada — ela passa carinhosamente o cicatrizante sobre os machucados e a sensação dos curativos macios é reconfortante.
— Isso quer dizer que já podemos sair daqui? — Austin pergunta se endireitando na cadeira, durante o movimento não consegue disfarçar a careta de dor e desiste de mudar de posição.
— Vamos conversar sobre isso pela manhã, senhor Clarck. Pedi aos sentinelas que trouxessem o jantar para vocês, tratem de comer tudo e depois descansem — ela responde ainda com tom taciturno, junta seus equipamentos e volta a depositá-los em uma mesa do outro lado da sala. — Quando amanhecer vamos conversar sobre a alta de vocês e como vamos esclarecer tudo isso com o diretor.
— Não podemos só fingir que nada aconteceu?
— Sinto lhe dizer que isso não será possível… — a voz irrompe do corredor chamando nossa atenção — Senhor Clarck.
Ele demora a aparecer, ainda envolto pelas sombras, mas, quando consigo ver seu rosto, encontro apenas preocupação. Martin caminha silenciosamente até onde estamos, observando atentamente todos os curativos. Não posso deixar de me sentir envergonhada, sentimento que o garoto ao meu lado parece compartilhar.
— Como eles estão, Jane? — ele questiona sem tirar os olhos de cima de nós, nem mesmo quando a médica responde.
— Devem estar recuperados pela manhã — Jane responde cruzando os braços e nos lançando outro olhar cansado. — Vou precisar manter mais dois em observação, solicitei a internação do senhor Barkley e da senhorita Gareth, os dois provavelmente vão precisar de mais tempo de recuperação, assim como a senhorita Scolter.
— Certo, visitei a ala dos fênix agora pouco e estavam todos bem, vou para as demais em seguida. — Martin observa o relógio de pulso e suspira mais uma vez antes de se dirigir a nós — Maxwell esteve na minha sala em companhia de Monique Argonel e os dois já reportaram tudo o que aconteceu.
— Diretor…
— Austin, deixe-me terminar, por favor — ele levanta a mão para interromper o shark e mexe nos cabelos com expressão abatida. — Devo desculpas a vocês pela falta de transparência e cuidado, mas vamos ter mais tempo para conversar sobre isso depois. Por hora, estou contente que estejam bem.
— Max está bem? — questiono tanto por curiosidade quanto por vontade de mudar de assunto, não sei como interpretar o véu de tristeza que cobre o rosto do homem.
— Sim, teve alguns ferimentos que já estão curados. Após a reunião ele preferiu permanecer no quarto de Lilian — a resposta vem de prontidão e posso jurar que consigo ver um pequeno sorriso brotando nos lábios do diretor. — Provavelmente virá ver vocês mais tarde.
— Ou mais cedo… — não consigo conter o olhar de irritação direcionado a Austin, o qual apenas sorri fracamente.
— Precisamente, Austin, mais cedo. — Martin sorri e olha novamente o relógio antes de voltar a seriedade habitual — Vocês estão dispensados das aulas de amanhã, portanto aproveitem esse tempo para descansar. Vamos ter uma reunião depois de amanhã para conversarmos sobre o ocorrido e definirmos o que fazer com as consequências. Boa noite.
Com essa simpática despedida, ele caminha calmamente pelo corredor por onde entrou enquanto eu e Austin engolimos em seco pensando sobre as tais consequências.
A sala mergulha no silêncio por alguns minutos, os únicos sons audíveis são dos suaves balanços das água-vivas flutuantes. Algum tempo depois, Jane se despede de nós, pois precisa verificar outros pacientes. O jantar não demora a chegar depois de sua saída e preciso contar a você que nosso garçom é nada mais nada menos que um leão-marinho. Sim, um leão-marinho, você não leu errado. Durante todo o tempo em que ele separa nossos pratos, como muita agilidade diga-se de passagem, eu tento não encará-lo para evitar ofendê-lo, mas é algo praticamente impossível.
Você já extrapolou seu limite de ofender criaturas marinhas hoje.
É um leão-marinho garçom, você tem noção disso?
Sim, Thais, e ele é um ser muito educado, para de ser grosseira.
Ok, desculpe.
Assim que nosso amigo peludo se afasta, Austin e eu nos concentramos em nos empanturrar com a comida deliciosa enquanto permanecemos em um silêncio confortável.
— Valeri está muito ferida? — sou a primeira a interromper a paz com uma dúvida que estava corroendo a minha mente.
— Um pouco, não sei exatamente o que aconteceu, mas ela estava com um corte bem feio na perna quando chegamos — ele responde com a boca cheia de linguiça.
— E o outro de quem Jane estava falando, Ber… Bardey? Ou algo assim?
— Bartey… — ele levanta a mão pedindo tempo, engole a comida e toma um gole do suco antes de continuar. — Desculpe, é Barkley. Ela estava falando do Maurice, pelo que sei um Netper tentou escalpelar ele.
— Um o que? — aparentemente voltamos aos velhos tempos onde o ponto de interrogação faz parte da minha maquiagem diária.
— Netper, é uma criatura de mata fechada, adora uma machadinha — ele responde com ar descontraído enquanto se prepara para acabar com a sobremesa.
Terminamos nosso jantar e logo nosso leão-marinho favorito retorna para retirar as louças sujas. Uma vez sozinhos, um silêncio desconfortável se instala. Sem ter exatamente o que fazer, as memórias desconcertantes da viagem de caçamba voltam e agradeço pelas águas vivas terem diminuído ainda mais a iluminação, tudo o que eu não preciso agora é dar explicações sobre sentimentos que eu não entendo.
— Feliz aniversário…
— Como você soube? — franzo as sobrancelhas e o encaro com desconfiança. Não me lembro de ter contato a ninguém o dia do meu aniversário.
— Naquele dia, na sua casa, vi algumas fotos do seu aniversário de quinze anos, tinha a data lá — ele responde se contorcendo na cadeira/cama até estar de frente comigo. — Sei que é um péssimo momento, mas não deixa de ser seu aniversário.
— Se não for pedir muito, eu gostaria que ninguém soubesse, não quero comemorações, não me sinto preparada — mantenho meus olhos nos dele e tenho certeza de ver um pouco de tristeza ali antes dele concordar com um pequeno aceno.
— Como está o seu braço? — ele estende a mão e segura meu braço para poder avaliar mais de perto. Por um pequeno momento, seus olhos refletem no escuro.
Provavelmente um felino.
Me sobressalto no escuro, esquecendo que a voz está na minha cabeça, ele se afasta entendendo como um sinal ruim a aproximação. Não posso negar que o gesto também estava me deixando um pouco envergonhada.
Para de ser falsa.
Você vai cuidar da sua vida.
É a minha vida também.
Não é não, não se meta.
— Desculpe — ele se empertiga na cadeira como se para se manter mais afastado de mim.
— O meu braço está bem e não se preocupe, eu ainda me assusto quando ela fala comigo as vezes — aponto para minha cabeça para deixar claro a quem me refiro.
— Ah! — ele parece ainda mais envergonhado e me sinto na obrigação de mudar de assunto.
— Sobre a conversa que tivemos no caminho de volta…
— Thais…
— Espera, deixa eu terminar — é a minha vez de segurar seu braço e fazê-lo me ouvir. — Eu quis dizer aquilo, ok? Eu vou estar aqui quando quiser conversar, mas saiba que não vou ficar fazendo vista grossa se ele tentar te machucar de novo.
Não consigo ver no escuro, mas posso apostar que o movimento rápido de olhar para baixo tem algo a ver com o estranho fenômeno de dar cor às bochechas que estava me atacando mais cedo. Espero até que ele se recomponha para não correr o risco de ir longe demais.
Minha garota!
Silêncio!
— A propósito, belo truque com a água, foi realmente surpreendente.
— Obrigada, nem eu estava esperando conseguir aquele estrago — é a minha vez de desviar os olhos envergonhada. Permanecemos algum tempo em silêncio e quando volto a falar já nem sei mais se ele está acordado — O que aconteceu depois que eu dormi?
— Desmaiou, você quer dizer, certo? — a resposta demora alguns segundos, mas quando vem está carregada de amargura — Você desmaiou por ter perdido muito sangue. Quando desembarcamos, alguns amigos da Monique estavam nos esperando, viemos às pressas para a enfermaria. Monique queria ir para o hospital, mas levando em consideração o tempo que levaríamos para explicar o que aconteceu e o fato de que lá seria obrigatória a abertura de um inquérito policial, decidimos que o colégio era nossa melhor opção.
Não respondo porque não sei ao certo o que dizer. Eu sabia que estava perdendo muito sangue, mas não esperava que fosse desmaiar assim do nada. De qualquer forma, isso explica porque não me lembro de absolutamente nada antes do tanque de água.
— Precisamos fazer uma promessa de não repetir isso tão cedo — ele continua algum tempo depois, parecendo consternado — estou cansado de hospitais.
— Idem.
O silêncio volta a se instalar e não sei exatamente quanto tempo se passa até perceber a presença do leão-marinho novamente. Ele estende as mantas azuis sobre nós e reduz a iluminação a quase zero, se retirando em seguida.
— Austin? — pergunto baixinho esperando seu resmungo de concordância antes de continuar — É um leão-marinho, certo? Eu não estou louca.
— Sim, o Loop. Por que? — ele pergunta genuinamente confuso e não consigo deixar de pensar que ainda deve estar sob o efeito de remédios.
— Como assim por que? É um leão-marinho, Austin… — tento racionalizar uma maneira de explicar o inexplicável — Sendo um enfermeiro!
— Um cuidador — ele corrige como se fizesse mais sentido. Ao perceber que continuo encarando indignada, ele suspira e continua — Os animais costumam ser ajudantes noturnos na enfermaria, as outras alas também tem os seus. Os dos sharks, como já era esperado, são animais marinhos.
— Certo, como aquele peixe no aquário — aponto para o duto de água e quase posso jurar que consigo ver o pequeno curandeiro me julgando através do vidro.
— Hae, sim, um dos peixes-curandeiros.
— Certo, Hae — concordo ainda com os olhos onde acho ter notado o movimento do curandeiro — preciso pedir desculpas para ele.
— O que você fez? — ele pergunta sorrindo e me encarando com os olhos semicerrados.
— Tentei tirar os óculos dele enquanto estava drogada por causa dos medicamentos.
— Que falta de educação, senhorita — ele solta uma gargalhada e o som contagia o ambiente.
— Eu estava fora de mim, ok? — me defendo ainda aproveitando o som e retribuindo com um sorriso. Como é bom não estarmos mais morrendo. — Jane garantiu que vou poder me desculpar depois.
— O turno dele acaba às sete horas, melho… ser… — um grande bocejo atrapalha seu raciocínio e me lembro que ainda é de madrugada — melhor ser antes disso, ele não lida bem com ofensas.
— Claro. Vamos dormir, antes que Jane venha brigar com a gente mais uma vez.
Me aconchego novamente na cadeira/cama, me enrolando na menta e me permitindo ingressar no reino dos sonhos. Quando estou prestes a perder a consciência, ele sussurra perto de onde estou e preciso confessar que finjo já estar dormindo.
— Senti falta dos seus sorrisos verdadeiros.
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