Notas iniciais
Olá Pessoas... Como vocês devem ter percebido, eu não postei no natal (como tinha dito em um dos comentários) e isso não aconteceu porque eu não gostei do que eu tinha escrito, parecia muito jogado. Eu não queria simplesmente escrever por cima, então, eu apaguei tudo e refiz. Particularmente, eu gosto desse capítulo, espero que vocês gostem também. Eu ainda não revisei, porque eu to com bastante sono pra fazer isso agora, então perdoem-me pelos erros. Aproveitem.

– Certo, deixa eu ver se entendi. – Lilian respira fundo e encara a shadow séria – A base militar construída no Alasca pela equipe do Ethan foi atacada a três dias e não da resposta desde então?

– Isso. – Milena concorda, agora aconchegada novamente embaixo da manta.

– Como vocês não tem resposta acreditam que ela foi tomada por monstros? – Milena assente e antes de continuar Lili franze a testa em uma expressão confusa – Mas você não sabe onde fica a base?

– Só integrantes da equipe sabem onde fica. – ela responde como se fosse óbvio.

– Você faz parte da equipe. – Mari aponta impaciente.

– Não, eu participo em algumas missões, sou uma integrante temporária.

– Tá, mas por que você acha que destruir a base vai resolver as coisas? – Valeri encara a amiga insegura, avaliando cada movimento da shadow como se ela fosse desaparecer caso piscasse.

– Bem, como eu disse antes, não temos certeza ao que exatamente o mapa nos ligou, apenas que é forte e consome bastante energia.

Observo seu olhar se perder em um ponto na parede, um brilho de compreensão passa pelas íris escuras sendo acompanhada por uma expressão de horror. Quando percebe que a atenção de todos na sala ainda está sobre ela, disfarça tentando suavizar a careta, mas sei que ela chegou a uma conclusão nada boa.

– No entanto, não importa o que seja, está na base, os dados de energia registrados nos últimos dias provam isso. Seja lá o que esteja acontecendo conosco, a resposta está lá. – ela suspira profundamente se mexendo inquieta no sofá – Nós temos que descobrir o que é e destruir aquele lugar, antes do anoitecer de amanhã de preferência.

– Por quê? – Bryan se pronuncia pela primeira vez, encarando a amiga de forma penetrante.

Milena se cala e devolve com um olhar nervoso. Toda a atenção sobre ela, olhares curiosos e questionadores. Ela e Blake parecem ter uma conversa silenciosa, como se decidissem entre revelar ou não algo aparentemente de grande importância.

Então ela também não nos contou tudo.

É o que parece.

Não estou com um pressentimento bom.

Eu também não.

– Vai haver um ataque, amanhã à noite. – a informação não parece ser suficiente para ninguém, pois todos continuam encarando-a com expectativa – Ethan vai liderar uma equipe de bombardeio até a base.

– Espera aí. – o garoto elétrick se empertiga no sofá, movimentando as mãos de forma eufórica – Você quer que a gente viaje até o Alasca, corra o risco de morrer para destruir uma base que já será destruída de qualquer forma a noite por uma equipe oficial? Por que faríamos isso?

– Porque eles vão apenas destruir, eles não vão tentar descobrir o que está acontecendo nem nada do tipo, eles vão lá apenas para explodir tudo. – Milena devolve com a voz irritada, porém o garoto não recua.

– E que diferença faz? Você acabou de dizer que vamos destruir, é o mesmo plano só que nós temos quase cem por cento de chance de morrer. – ele retruca fugaz.

– O que você está escondendo Milena? – a frase deixa minha boca sem que eu perceba, era para ser apenas um pensamento, mas já que saiu em palavras a encaro a espera de respostas.

Seus olhos escuros se fixam em mim, intimidantes, mas estou tão cansada de mentiras e de saber tudo pela metade que sustento seu olhar. Assim como todos os presentes, se vou ir até aquele maldito lugar novamente, quero saber tudo o que está em jogo.

Ela parece perceber que não vou arredar o pé até ter a informação que quero, portanto suspira cansada e volta a se levantar ocupando o centro da sala, as mãos mais uma vez nos bolsos.

– Falei com Horácio Nolan, hoje de manhã. Ele é o médico encarregado de cuidar das vítimas do ataque e também da liberação de suprimentos aos afetados. – seus pés se mexem nervosamente, ela espia o nosso lado pelo canto dos olhos – Ele acredita que não seja uma falha de conexão, mas sim que estamos em uma frequência diferente.

Essa não.

Não gosto quando usa essa frase. O que foi?

É mais complicado do que eu imaginei.

Estou pronta para iniciar uma conversa com minha amiga sem nome quando um movimento brusco no sofá a minha frente me sobressalta. Max está mais aflito do que antes, os olhos assustados.

– Eles não podem bombardear sem quebrar a linha de frequência nova. – ele afirma aturdido, mas Milena é a única que parece compreender seu pensamento.

– O que quer dizer? – Rachel indaga ao irmão mais novo receosa.

– Cada um de nós vibra em uma frequência específica igual aos nossos poderes, se algo abalar essa via de comunicação pode prejudicar nossa ligação com eles. – seus olhos se movem rapidamente como se vários pensamentos circulassem por sua mente ao mesmo tempo – Se a frequência dos poderes não for restaurada antes que a nova seja quebrada, eles não vão ter como recuperar a conexão.

– Exatamente. – Milena concorda eufórica, seus olhos escuros focados no shark – Temos que impedir.

O choque toma toda a sala, mas não posso dizer que a compreensão é geral. Talvez seja coisa da minha cabeça, mas quase posso escutar a sinapses dando curto entre si, pelo menos a minha cabeça se encontra nessa situação.

Não que eu não tenha uma vaga ideia do que eles estão falando, eu realmente estou entendendo mais sobre essa nova anatomia e toda a coisa dos poderes, mas nada muito concreto para que tudo se conecte e a explicação se torne clara. Mesmo sem toda a informação que muito provavelmente Max ficaria maravilhado em me fornecer se eu permitisse, consigo entender que a situação não está ao nosso favor e muito menos é otimista se continuarmos parados aqui.

Milena espera pacientemente até que as palavras penetrem em cada pessoa presente, seus olhos muito além do nosso delimitado espaço da sala de estar, posso supor que seja a muitos quilômetros daqui, em um lugar gelado e escuro.

Há poucos minutos, durante toda a explicação, sob todo o clima dramático da discussão, meu corpo pareceu ter se esquecido do frio que o consumiu durante o dia todo, porém agora que toda aquela pequena chama acesa pela adrenalina está se esvaindo,os calafrios e frio constante voltam a se alastrar pelas minhas veias.

Abraço meus joelhos próximos a mim na milésima tentativa de me aquecer, mais uma vez sendo dominada pela frustração ao não encontrar o calor familiar que se tornou ausente sem que eu percebesse.

Apoio o queixo nos joelhos e só então percebo os olhos de Lilian me avaliando do outro lado da sala. Levando em conta a expressão determinada e quase calculista que ela exibe, posso concluir que ela parece ter encontrado as respostas que procurava. No entanto, existe algo a mais no verde, agora muito opaco, de seus olhos, algo como angústia.

Pela primeira vez nos últimos três dias eu não desvio olhar, ao contrario, devolvo com igual seriedade, afinal não temos mais o que esconder agora, não é mesmo? O que me impede de exibir a verdade nua e crua? A resposta é nada, portanto, exponho tudo o que venho guardando no fundo da minha mente durante todo o tempo em que o pânico me consumiu. Claro que tenho noção de que provavelmente ela não pode ler quase nada do que tento passar através do meu olhar, afinal acho que nem eu seria capaz de entender toda a bagunça que está aqui dentro.

Observo enquanto ela respira fundo, sua expressão séria se quebrando um pouco dando espaço a uma mais preocupada. A julgar pela forma que suas costas estão rígidas e as mãos se apertando mais que o necessário enquanto repousam em seu colo, posso afirmar que pelos menos um pouco do recado ela entendeu.

Sei que talvez fosse melhor eu não deixar todos os sentimentos de ansiedade, medo e pura loucura saírem ao mesmo tempo. Sei que talvez eu devesse me importar com o que isso pode causar as pessoas próximas que provavelmente se importam o bastante para serem atingidas por todo esse problema, mas a verdade é que por apenas um momento me permito ser egoísta e simplesmente me livrar de todo o peso que venho carregando. Eu estaria mentindo se dissesse que a sensação não é ótima.

Sentir minhas costas vários quilos mais leve, ou pela primeira vez minha cabeça do tamanho que ela é e não ter a impressão de que ela vai explodir em poucos minutos. Só o sentimento de não me sentir como uma bomba atômica a cada segundo é tão gratificante que, apenas por esse momento, eu me dou ao luxo de não me importar com nada.

Estou consciente o bastante para saber que o choque ainda corre a sala, posso perceber que todos ainda lutam para entender o problema como um todo ou talvez estejam tentando pintar ele como algo um pouco menor do que realmente é. Alguns provavelmente estão apenas pensando no plano, mas o choque ainda é unânime.

– Isso é uma droga.

Quando o som de sua voz rasga o silêncio de forma bruta, acompanhada de alguma coisa muito parecida com raiva, quase não consigo reconhecê-lo. Ainda navegando nos confins da minha mente, demoro para me dar conta que todos já se voltaram para o garoto, normalmente pacifico, mas que no momento apresenta um dos olhares mais fulminantes que eu já vi.

– Luide, eu sei que nós devíamos...

– Ter contado antes? Sim, vocês deviam. – sua voz ainda afiada corta Milena antes que ela encontre o resto das palavras – Mas isso não vem ao caso agora, eu não sei muito sobre toda essa coisa de conexão ou a frequência, mas eu sei que esse plano é uma droga, ele está cheio de falhas. Vocês estão tomando uma atitude impulsiva sem pensar que isso pode piorar tudo.

– Então o que você sugere? – Blake encara o garoto, mais sério do que eu pensei que ele pudesse ser.

– Vamos pensar direito nesse plano e elaborá-lo de uma forma que possamos executá-lo sem morrermos no processo, porque se isso se baseia em impedir que pessoas morram de que vai adiantar se sairmos daqui para morrermos lá? – suas mãos se movimentam rapidamente, os olhos verdes fixos em Milena que não desvia o olhar, mas também não parece ter planos de interrompê-lo – Vocês querem que todos saiamos daqui para ir até o Alasca, mas como vamos fazer isso sem sermos vistos e como vamos chegar a um lugar que não sabemos onde fica?

– Eu posso tirá-los daqui. – Munique devolve furiosa todos os olhares de surpresa direcionados a ela – Não me olhem assim, eu odeio esse plano, mas eu não vou deixar minha irmã morrer.

– Certo. – um pequeno sorriso contido perambula pelo rosto de Milena antes que ela retome a expressão séria – Eu sei como descobrir a localização.

– Você vai compartilhar ou esconder tudo e a gente só vai descobrir quando as coisas derem errado? – Milena encara o garoto elétrick raivosamente recebendo apenas um olhar de deboche em troca.

– Sei de alguém da equipe que pode me ajudar com isso. – percebo o quase imperceptível movimento de seus olhos em direção a Blake – Mas eu vou precisar da ajuda de alguém, para o caso de precisar ser algo mais furtivo.

– Com isso você quer dizer roubar a informação. – Max aponta com um sorriso sarcástico – Nada ilegal seu plano.

– São vidas em jogo Max, não me importo se vou ter que quebrar algumas leis para impedir uma tragédia.

– Está bem, não é hora para isso. – Luide interrompe a calorosa troca de olhares entra os dois, voltando a atrair a atenção dos presentes – Vamos supor que a gente consiga chegar ao Alasca sem sermos vistos e que consigamos invadir a base sem sermos mortos, o que vamos fazer lá?

– O que temos certeza que vai acontecer é que teremos que lutar, isso é óbvio, aquele lugar deve estar cheio de monstros, o que nos leva ao ponto principal: Nós não somos treinados o bastante para combatermos monstros de nível 6, isso é totalmente insano.

Por um momento Milena parece impactada pelas palavras (muito sensatas na minha opinião) da garota fênix, seus olhos se perdem em algum lugar na parede por alguns segundos. Movimentos chamam minha atenção a direita do nosso sofá. Lira sai da posição estática de antes e se inclina levemente, a luminosidade ao seu redor diminuindo. Ridins parece querer protestar sobre sua movimentação, mas ela o interrompe antes que comece a falar.

– Eu estou bem, não se preocupe. – ela direciona-lhe um pequeno sorriso antes de voltar seu olhar para o outro lada da sala – Jen, eu não quero que vocês se arrisquem nisso, eu nem queria que vocês estivessem aqui se envolvendo em toda essa bagunça, vocês não precisam...

– Sem essa Lil. – o garoto se empertiga no sofá e estuda o rosto da garota com olhos gentis – Isso não é sua culpa, nós três estamos aqui porque nos preocupamos, não importa se vai ser perigoso, posso não gostar do plano, mas eu vou ajudar. Jen?

– Tirou as palavras da minha boca. – Jen sorri ternamente para Lira e não posso deixar de perceber um olhar satisfeito em Munique.

– Que bom que aceitam participar, porque vamos precisar da sua ajuda Maurice. – Milena chama a atenção do elétrick.

– Com o que exatamente?

– Donald. – ela responde seriamente e Maurice respira fundo revirando os olhos.

– Certo, eu distraio aquele idiota, mas não vai durar por muito tempo.

– Eu acredito no seu charme. – Michael zomba recebendo um olhar mortal em resposta.

– Bem, voltando ao assusto combate, tenho uma ideia que talvez possa ajudar a nos camuflar, pelo menos um pouco.

– Não sei se gosto dessa ideia James. – sua voz é baixa, mas consigo registrar um vestígio de medo.

– Me desculpa Rach, mas é o melhor que temos agora. – James parece realmente solidarizado pelo temor da Lamp.

O olhar ligeiramente nervoso de Rachel e a expressão preocupada de Max me fazem ter uma vaga ideia da tal solução para o problema. Realmente se eu fosse uma lamp – levando em consideração as minhas experiências com as façanhas dos shadows – não iria querer participar disso e muito menos me sentiria confortável com a situação.

– Talvez não seja a única opção, mas eu preciso checar uma coisa antes de afirmar que vai dar certo. – Munique acalma um pouco o clima tenso e parece ser o bastante para que Milena tome sua compostura novamente.

– De qualquer forma, vamos dar um jeito, eu vou simplesmente levar vocês sem nenhuma garantia de volta. – ela respira fundo como se procurasse as palavras certas – É arriscado, mas eu tenho noção do que eu estou fazendo.

– Muito bem, então nós vamos para o Alasca. – James H. junta as mãos em frente ao corpo e respira fundo enquanto acena repetidas vezes com a cabeça – É, o Alasca, já falei que eu gosto do frio? Porque assim, se alguém tiver algum problema com ele eu posso ajudar a entender a beleza da coisa.

E assim ele quebra quase por completo a seriedade da situação, arrancando risadas e algumas reviradas de olhos.

– Quando nós iríamos? – Austin se manifesta depois de determinado tempo atraindo a atenção de uma Milena ainda sorridente.

– Amanhã de manhã, antes do almoço, os que não estiverem ocupados com partes do plano vão as aulas para não levantar suspeitas, o que me lembra – Milena olha diretamente para mim e mesmo confusa sustento seu olhar, algo muito parecido com suplica está brilhando ali – Você pode me ajudar com a parte da localização?

É o que?

O que foi? Ela quer nossa ajuda.

Eu sei, ouvi essa parte, mas por que?

Agora você quer respostas que eu não tenho.

Não faz sentido nenhum.

– Milena, não sei se é uma boa ideia. – Blake olha rapidamente para mim antes de continuar com sua contestação, Milena em momento algum olha para ele, como se estivesse evitando-o de propósito o que me deixa mais confusa ainda – Ela não tem treinamento furtivo e não sei se é jogo levá-la para dentro de uma base militar nas atuais condições.

“Nas atuais condições”? Ele nos chamou de inválidas ou foi só impressão?

Para de ser tão ranzinza, ele de está certo de qualquer forma.

– Mas ela é desconhecida o bastante pela equipe para que possamos entrar sem chamar atenção, você seria facilmente reconhecido e estragaria o plano. – seus olhos continuam em mim, o brilho ainda lá.

– Não espero que peça a minha ajuda, mas talvez da Valeri. – Blake tenta a todo custo esconder a careta, mas ela não passa despercebida por Rachel, que solta uma pequena risada disfarçando-a com uma tosse repentina e extremamente falsa.

– Olha, eu realmente queria ajudar com isso, mas não vou ser exatamente “ajuda” se entrar na base Blake, isso não é uma boa ideia. – Valeri intervém levemente nervosa e Blake suspira diante a afirmação.

– Thais é uma ótima escolha. – ela respira fundo provavelmente registrando Blake se jogando no sofá emburrado – O que me diz?

– Tudo bem. – só noto que as palavras deixaram minha boca depois que a shadow já está sorrindo satisfeita.

Austin se vira em minha direção, mas é impedido de argumentar qualquer coisa por Lilian, que se inclina rapidamente no sofá e o faz antes dele.

– Você tem certeza disso? – os olhos verdes preocupados se focam em mim, ignorando totalmente Milena em seu campo de visão.

– Sim, claro. – pigarreio tentando me concentrar por completo na conversa, dirijo um sorriso nervoso a Milena que ainda está me encarando – Mas vou precisar que você me diga o que eu tenho que fazer.

– Não se preocupe, vai dar certo.

– Tudo bem, mas se vamos mesmo fazer isso, se vamos incluir eles nesse problema. – indico nervosamente o outro lado, Milena a Austin parecem saber o que vou dizer antes que eu faça e me encaram descontentes, mas no momento não me importo o bastante com a discrição para parar – Temos que contar tudo. Eles tem o direito de saber no que estão se metendo, não vou levar ninguém pra aquele lugar comigo sem que saibam sobre ele.

O que você está fazendo?

Jogando cartas.

Você não sabe jogar cartas.

Sempre existe uma hora para aprender.

– Ele? – Marian nos encara confusa, mas não parece ser o bastante para interromper a pequena discussão interna do nosso lado da sala.

Nunca pensei que fosse participar de uma discussão de olhares, mas é o que está acontecendo nesse momento, de alguma forma eu consigo entender o que Milena quer me dizer com seu olhar mortal e também consigo pegar o sentimento de raiva que Austin me manda.

De qualquer forma eu não me arrependo de ter trazido o assunto para a discussão, não existem chances de eu meter um monte de gente em uma bagunça enorme na qual eu mesma me meti sem que eles saibam de tudo. Receber informações pela metade é ruim o suficiente quando você não corre riscos de vida, agora, omitir essas informações por capricho não me parece nada atraente.

Então, sim eu posso estar metendo os pés pelas mãos? Posso, mas vou estar parando de mentir. Milena pode estar me vendo morrer de várias formas diferentes em sua mente? Sem dúvida, mas eu não vou ajudá-la a enganar pessoas – possivelmente matá-las – por falta de coragem de contar a história toda.

Mais uma vez eu simplesmente me permito ser egoísta, eu fui perseguida por esse idiota durante dias. Ele está na minha cabeça desde o hospital, me causando medo e raiva. Então acho que não vai matar ninguém saber um pouquinho sobre ele.

– Thais...

– Não me venha com essa, você me cobrou honestidade alguns dias atrás, ou se esqueceu disso? – corto-a devolvendo seu olhar raivoso com um sorriso de escárnio – De jeito nenhum eu vou meter eles nisso sem que saibam toda a verdade, ela não é nada bonita, mas é a realidade. Pode parar com essa hipocrisia, vocês dois se resolvam como contar toda essa merda ou eu vou contar eu mesma.

– Ela tem razão Milena. – Blake atrai sua atenção recebendo o mesmo tratamento que eu alguns segundos atrás – Se eles vão arriscar a vida, tem que saber quem são os adversários. É hora de contar a verdade.

– Isso é assunto confidencial. – ela retruca com raiva, as voz firme e as mãos em punho.

– Sério? É tão confidencial que três estudantes sem interação alguma com equipes oficiais sabem sobre ele. – sei que posso estar exagerando, mas algo em mim não me deixa parar agora, o simples fato de toda a verdade estar sendo dita é mais satisfatório do que eu me imaginei – Ele entrou aqui no horário de aula, invadiu o dormitório, já esteve no hospital, atacou alunos em uma excursão, o que mais você precisa para entender que ele entra onde ele quiser e faz o que bem entender? Eu não vou esconder isso.

– Espera ai. – o semblante sério está novamente tomando conta do rosto de Max – Do que vocês estão falando?

– Eu estou falando do cara que invadiu a diretoria, invadiu o meu quarto e deixou uma maldita mensagem na minha mesa, perseguiu um garotinho do hospital até aqui, invadiu o hospital e nos atacou no...

– Thais chega! – A voz de Austin me interrompe, seus olhos me encaram com raiva, mas ao invés de me fazer parar acaba me deixando ainda mais irritada.

– O que foi? Agora você não quer falar sobre isso? Parecia muito importante quando fomos até ele e você quase morreu. – respondo sem nem hesitar, a história mal contada do seu encontro com o soldado voltando com força total e entorpecendo meu bom senso.

– Então foi isso que aconteceu no sábado? – Jack me pergunta calmamente, mas seu olhar está revolto como uma tempestade, assinto em resposta.

– Que sábado? – Lilian indaga ríspida.

Ah, cara! Ela vai te pegar no pulo.

Bem, aquela mentira não tinha muito futuro mesmo.

Pelo menos ela vai parar de fantasiar coisas absurdas.

Como assim?

Nada.

A sala mergulha no silêncio, Milena e Austin ainda me encarando e eu devolvendo seus olhares da maneira mais irritada que consigo. Estou ciente da atenção dos outros sobre nós, curiosos, magoados e com raiva.

Como chegamos a esse ponto?

Qual ponto?

Onde tem mais mentiras do que verdades envolvidas.

Não sei te dizer.

Milena respira fundo, fechando os olhos e massageando a testa como se estivesse com dor de cabeça. Ela pensa por vários minutos antes de voltar a me encarar, agora seu olhar é cansado e preocupado. Provavelmente é a primeira vez que deixa sua máscara de lado desde que começou essa reunião.

– Está bem, vamos contar tudo então, mas você se responsabiliza se eles surtarem. – assinto, esticando minhas pernas ao perceber que meus músculos “dormiram”, ela suspira mais uma vez antes de começar a falar – Há alguns meses atrás uma equipe que estava trabalhando na Sibéria foi atacada e praticamente dizimada. No começo desconfiamos que pudesse ser uma nova tropa de monstros se agrupando, mas era muito rápido, não deixava vestígios e sumia sobre todos os radares.

“Martin mandou uma expedição para o local com o objetivo de encontrar alguma pista, mas tudo o que acharam foi uma cabana destruída, como se alguém quisesse destruir provas. Isso foi antes do Ethan achar um Miton no Alasca, a coisa piorou bastante depois disso.”

Seus ombros se tornam tensos enquanto fala, os olhos perdidos no carpete, melancólicos. Enquanto suas palavras nos bombardeiam com informações, cada um decidiu um jeito diferente de escutar, seja perdido em pensamentos ou acompanhando cada movimento da shadow. O clima de seriedade voltou com força total sendo quase palpável na sala.

– Antes do ataque a equipe, nós fomos surpreendidos em uma missão por um sujeito interessante. – seu olhar muda de melancólico para raiva agora, suas mãos em punhos – Ele usava um traje totalmente negro, semelhante aos dos shadows, mas as suas armas e a máscara não eram nada parecidas com as dos nossos soldados.

“Isso claro, sem mencionar seu estilo de luta que se resumia em simplesmente matar. Ele nunca estudava os adversários, só matava. Ele não tinha um padrão de luta e carregava no ombro um símbolo bem diferente de qualquer um dos nossos.”

– E quem seria esse cara? — a voz de Max é baixa e até mesmo estranha, como se ele temesse falar mais alto.

– Essa é uma ótima pergunta Max. – um sorriso estranho toma o rosto de Milena, ela não encara ninguém em especial, mas seus olhos queimam de raiva – Ele está sendo chamado de sombra por muitos soldados, porque não é visto chegando e é como se ele sempre estivesse ali, ele sabe de tudo, esquemas de batalha, bases, excursões. Não tem como esconder nada dele.

– Pode ser um soldado. – Bryan parece perceber que falou em voz alta apenas quando todos da sala o encaram , ele pigarreia e termina seu raciocínio – Faz sentido, o cara sabe de tudo e você disse que apenas integrantes da equipe sabem onde fica a base. Pode ser alguém infiltrado.

– Nós pensamos nisso, mas não faz sentido. – Bryan direciona-lhe um olhar confuso e Milena volta a encarar o chão com raiva – Fizemos um teste quando começamos a desconfiar de traição. Eu fui até o Saara e os integrantes da equipe foram mandados um a um para lá, nenhum deles passou despercebido por mim.

– O que quer dizer com isso? – Maurice indaga hesitante, não posso dizer que não compartilho a confusão estampada em seu rosto.

– Eu quero dizer que eu nunca o vi chegando. – Munique solta um som extremamente aborrecido de seu canto ao lado do sofá, aparentemente sendo a única que entendeu por completo – Rox nunca conseguiu rastreá-lo, ele consegue passar por mim facilmente.

– Isso deveria ser possível? – Lira pergunta com as sobrancelhas unidas em descrença e algo começa a se juntar em minha mente.

– Não. – Milena respira profundamente antes de negar várias vezes com a cabeça – Nada deveria me pegar de surpresa.

Mas uma vez o silêncio se alastra, tomando conta de toda sala. Juntando todas as (poucas) informações que tenho consigo entender parcialmente o que ela quer dizer. A pouco tempo conheci seu amiguinho peludo e me lembro de Austin me dizer algo sobre Milena ser absurdamente instintiva, agora sei que isso está diretamente ligado ao outro ser, portanto percebo o porque do olhar de confusão e raiva que ela exibe durante seu relato.

Isso seria parecido com seu sexto sentido?

Sim, mas não prevejo as coisas antes que elas cheguem, posso apenas perceber perigo, coisas ruins quando uma situação já está acontecendo. É mais como um instinto de auto-preservação do que premonição.

Entendi.

– Mas você previu uma vez. – Milena me encara surpresa, mas espero as lembranças me tomarem por completo antes de afirmar algo – Na excursão, você sabia que algo estava chegando, era isso que significava aquela sua conversa com a Luiza, certo?

– Sim e não. – ela parece considerar rapidamente meu argumento, mas nega mais uma vez com um aceno suspirando chateada – O que eu e Luiza vimos chegando foi o ataque dos monstros, não ele.

– Como você tem certeza? – as palavras me escapam e não sei por que não quero descartar essa hipótese, talvez porque de certa forma torna as coisas menos assustadoras.

– Você o viu no hospital, não viu? – ela pergunta olhando diretamente para mim, assinto lentamente já reconhecendo seu ponto – Eu nem percebi que tinha alguém lá, eu não... Eu não percebi nada.

Seus olhos voltam para o tapete, ela parece completamente impotente agora e quase me arrependo de ter mencionado essa hipótese, é óbvio que ela já deveria ter pensado nisso. Blake se ajeita no sofá e puxa levemente sua mão, dirigindo-lhe um olhar solidário.

– Não é sua culpa Milena.

– Você não entende Blake, esse era o meu trabalho, eu participo de missões não porque eu sou bem treinada, mas porque eu posso prever alguns acontecimentos e identificar a presença de qualquer coisa, isso evita que pessoas morram, e agora eu... – ela engole em seco, transtornada, sua máscara deixada de lado – Ele entrou no colégio, eu estava a poucos corredores de distância e não o vi chegando, eu nunca o vejo chegando e isso é ridículo porque ninguém pode se esconder do radar de um Canis.

– A menos que esteja morto.

Não consigo evitar a confusão que toma totalmente minha mente. Encaro-o com as sobrancelhas franzidas, mas ele não devolve meu olhar, está focado no chão, os olhos vidrados, os ombros tensos. Como o esperado todos reagem como eu, esperando um resposta concreta que complete sua frase fora de contexto.

– Certo, obrigado pela informação Austin. – Blake debocha, mas Milena faz um aceno com a mão, franzindo as sobrancelhas e encarando Austin fixamente, seus olhos quase se tornando negros, me dando a impressão que não é só ela que está presente na conversa.

– O que você quer dizer? – Austin levanta o olhar rapidamente, parecendo se dar conta de suas palavras, algo na forma como ele se perde nas palavras me leva novamente ao momento depois do nosso encontro com o soldado, me lembrando de sensação que tive que ele estava mentindo.

– Foi... Ah, foi só um... Um argumento. – ele se embaralha com a explicação, Milena respira fundo, sua expressão se tornando raivosa novamente, os olhos ainda fixos no shark.

– Um argumento muito específico. – Max se inclina, também encarando Austin, avaliando-o milimetricamente – O que quis dizer Austin?

– Qual é? Como o Blake disse, isso é óbvio, eu só disse o óbvio. – ele não olho para ninguém enquanto fala, mas a expressão nervosa está de novo em seu rosto como quando eu perguntei sobre a identidade do homem que nos atacou.

Eu disse que ele estava mentindo.

Você não disse nada, pode parar de se meter.

Ele sabe de alguma coisa.

Isso eu já percebi.

– Não, você disse uma coisa bem interessante. – a voz da shadow é afiada e ela ainda não desviou os olhos dele – Minhas habilidades, assim como as de todos os elementistas, vêm da pedra Métis, funciona como uma base de dados, sabendo que tudo que existe é reconhecido por essa base de dados, algo que morreu não é mais reconhecido como algo existente, portanto passaria despercebido pelo radar de um Canis.

– Exatamente, foi isso que eu quis dizer. – Austin confirma rapidamente como se não fosse grande coisa – Foi só um argumento.

– Mas não é algo que se leva em consideração a menos que você tenha alguma pista que te leve a pensar nisso. – Milena dá um passo à frente, os olhos agora animalescos, eu não me surpreenderia se ela rosnasse para ele – O que você sabe Clarck?

– Nada que você não saiba Milena. – ele responde firme, porém evita os olhos dela, provavelmente ciente que se a encarar será impossível mentir.

– O que aconteceu no sábado? – levanto os olhos para sustentar o olhar de Marian, ela ainda parece magoada e com raiva o que de certa forma me instiga a contar a verdade.

– Nós fomos até lá e encontramos esse cara, ele atacou o Austin e usou seu Moribus contra mim. – explico rapidamente deixando de fora a parte em que Austin conversou com o assassino enquanto eu tinha uma discussão com a minha consciência que depois descobri não que não a minha consciência – Era um dragão.

Acompanho pelo canto dos olhos a expressão irritada de Lira. Com toda a certeza ela está se lembrando do dia em que o foi acusada injustamente de um ataque contra Milena e julgada em um tribunal mais injusto ainda.

– Como ainda está viva? – Munique me dirige o olhar pela primeira vez e não posso deixar de me sentir um pouco desconfortável pela atenção – Não quero ofender, mas você não tem muito treinamento e não são muitas pessoas que saem ilesas ao enfrentar um Shaublaster.

– Ela não saiu ilesa. – Jack responde quando não encontro as palavras para explicar algo que ainda não entendo por completo – Precisou usar o Moribus sem invocá-la o que causou um certo problema que já resolvemos.

– Então você já a conhece? – Lilian questiona com um brilho de entusiasmo no olhar.

– Não exatamente, eu estava meio ocupada com uma dor de cabeça, então não consegui vê-la.

– Que pena. – o entusiasmo se vai dando espaço para um que de decepção.

– Então, além de vários monstros sanguinários, também podemos dar de cara com um maluco morto? – James H. pergunta, se jogando no sofá quando não recebe nenhuma resposta – É, parece divertido.

– Bem, se estão todos de acordo com o plano, podemos ir dormir. – Ridins se levanta trazendo Lira com ele, a luminosidade voltou para o vermelho mais profundo indicando que Lira deve estar bem aquecida.

– Só revisando, Milena e Thais cuidam de descobrir a localização da base. Quem vai pegar os equipamentos enquanto Maurice distrai Donald? – Jen levanta a mão em resposta a Luide – Certo, Munique vai cuidar do transporte e resto vai para a aula. Onde nos encontramos?

– Na Torrente. – Munique responde descruzando os braços e indo até Lira que ainda está em pé – Posso falar com você antes de ir dormir?

– Claro – Lira começa a se afastar de Michael que hesita em deixá-la ir.

– Espera. – ele retira algo do bolso, um objeto semelhante a um celular – Deixe no bolso, eu carreguei hoje de manhã, vai te manter aquecida durante a noite.

Lira sorri assentindo, beija a bochecha dele e começa a seguir a irmã para fora da sala. Ambas são interrompidas por Milena que fala alto o bastante para chamar a atenção das duas.

– Nos vemos às onze horas na Torrente. – elas assentem em concordância e estão seguindo seu caminho quando a shadow completa – Tem câmeras nos corredores e fiquem longe das portas de entrada, não é seguro.

Não pareço ser a única que não sabe exatamente o que ela quer dizer com “não é seguro”, mas a isso somado a todas as informações da reunião parecem ser o bastante para tornar as pessoas mais cuidadosas.

– Vamos, são quase três da manhã, ainda temos que dormir antes da “operação suicídio”. – Maurice diz seguindo para as escadas atrás de Ridins.

Não demoro a mover meus pés para o dormitório, o aconchego do quarto mais uma vez muito tentador. Não posso deixar de notar que enquanto faço meu caminho minhas costas parecem mais leves do que mais cedo. Mesmo com a eminente ameaça de morte pairando sobre todos nós me sinto mais confortável agora sabendo que tudo está em panos limpos.

Estamos fazendo alguma coisa afinal, não estamos mais parados no mesmo lugar apenas observando as coisas darem errado. Temos um plano.

O plano é uma droga.

Mas é um plano.

Muito semelhante a uma tentativa de suicídio, mas é um plano.

Já é mais do que tínhamos há horas atrás.

Verdade, há horas atrás vocês estavam morrendo lentamente agora vão morrer mais rápido.

Da pra parar com isso.

Só estou dizendo a verdade.

Eu sei que no fundo você está feliz.

Eu nunca disse isso.

Não precisa dizer sua ranzinza.

Entro no quarto e fecho a porta rapidamente antes que alguém possa me impedir ou começar com questionários que não quero responder agora. Lembro-me do cansaço que estava sentindo momentos antes de descer para a reunião, no entanto, agora estou mais acordada do que já estive essa semana. A adrenalina da conversa ainda correndo pelo meu corpo me impede de relaxar. Tento dormir, mas depois de vários minutos sem sucesso desisto e me sento em frente a janela.

O céu noturno eras mais calmo que o chuvoso que esteve presente a tarde toda. As estrelas contrastando com a lua no azul profundo. O relógio está marcando quatro horas quando enfim percebo que não vou dormir esta noite. A brisa suave, que outrora foram ventos raivosos, balançado as folhas das árvores me incentiva a abrir a janela e sentir o ar da noite.

Agarro rapidamente um casaco e saio pela janela, voando para o topo do prédio do governo. Acho até interessante como a noite não está tão gelada como o resto do dia, me surpreendendo como parece atraente me sentar em meio a escuridão, a praça a vários metros abaixo de minha iluminada pelo pálido brilho da lua. De alguma forma me sinto mais confortável aqui, menos exposta, sem todos os olhares de expectativa ou mágoa.

Sento-me sobre o parapeito, as pernas se movendo contra a brisa noturna, seguro firmemente o casaco a minha volta ainda com o fantasma do frio insuportável que senti o dia todo.

Pela primeira vez desde que essa bomba explodiu em cima de mim, me permito pensar nas coisas, no que me levou até aqui. Me pergunto se algo em tudo isso tem a ver com destino, porque simplesmente não faz sentido na minha cabeça eu ter sobrevivido a droga de um acidente que deveria ser fatal e agora estar morrendo por causa de um esquema absurdo envolvendo uma raça de criaturas que nem sabia que existiam.

Não me parece certo que tudo isso tenho acontecido simplesmente para que eu meses depois. Algo nisso tem que ter um propósito, se eu vou morrer então que pelo menos valha a pena, se for para esse plano dar errado e no fim de tudo não conseguirmos restaurar a freqüência certa, então que isso sirva de lição para alguém. Para Martin, por exemplo, que deveria prestar mais atenção no que está acontecendo ao seu redor e não simplesmente explodir tudo para encobrir a verdade e não causar pânico.

Ele devia parar de esconder as coisas, as pessoas devem saber pelo que lutam e não receberem informações manipuladas para agir da forma que ele quer. Isso só o torna como qualquer outro líder ganancioso, que apenas pensa em seu próprio bem estar. Ele devia ser melhor que isso.

Talvez isso sirva de lição para mim mesma, que tenho que parar de tentar encarar o mundo quando não consigo encarar nem meus próprios problemas internos. Talvez assim eu aprenda que não devo mexer em coisas estranhas que eu encontro porque talvez aquilo não seja da minha conta. Bem, a lição não vai me servir muito já que eu vou estar morte se chegarmos a esse ponto.

Não sei quanto tempo passo encarando o céu e o mesmo tempo o nada, quando de repente estou ciente de uma presença atrás de mim, seja quem for, está apenas ali, parado. Não sinto o mesmo medo que venho sentindo nos últimos tempos, apenas uma leve inquietação na boca do estômago. Junto as mãos em frente ao corpo respirando profundamente, aguço os ouvidos para pegar qualquer barulho que me indique algum movimento ou algo que mostre quem é, mas não preciso me esforçar muito já que ele me dá a resposta segundos depois.

– Ficar aqui em cima é meio perigoso sabe. – quase posso vê-lo colocar as mãos nos bolsos e exibir um sorriso de lado – São oitenta metros de queda livre.

– Há um tempo, alguém me disse que aqui é um ótimo lugar para se ver o nascer do sol. – respondo voltando a respirar normalmente, a inquietação, no entanto, permanece e a reconheço como dúvida.

– Vejo que te passaram informações corretas. – ele solta uma leve risada antes de se sentar ao meu lado.

– O que faz aqui? – não desvio os olhos do horizonte quase implorando que os raios amarelados surjam.

– Estava na varanda e acabei vendo uma sombra muito familiar vindo até aqui. – ele responde ainda no tom de brincadeira, mas a ideia quase concreta de que ele está mentindo não me permite segui-lo nisso.

– Certo, mas por que você está aqui? – não vejo sua reação a pergunta, mas o suspiro cansado parece o bastante para me dizer que ele já esperava isso.

– Pelo mesmo motivo de eu ter invadido seu quarto mais cedo. – algo borbulha dentro de mim ao ouvir suas palavras, sinto a irritação chegando mais uma vez.

– Eu não sou mais a única que sabe dos problemas Austin, você poderia simplesmente ter ido ao quarto do Max ou do Jack. – minha voz sai mais dura do que imaginei que seria, mas já estou me cansando disso – Por que você está aqui?

– Por que me sinto confortável dividindo esses momentos com você. – sua voz é baixa e quase não escuto as palavras, mas ele completa rapidamente quando o observo pelos cantos dos olhos – E tenho quase certeza que eles já estão dormindo.

Obrigo meus olhos a desviarem novamente para o céu ignorando completamente o sentimento estranho que começa a tomar conta das minhas entranhas.

Eu gosto dele.

Você o odeia.

Eu nunca disse isso.

Você fala mal dele sempre que pode.

Certo, estou gostando um pouco mais dele agora.

Bipolar.

– Acho engraçado que você se sente confortável em ficar perto quando não quer ficar sozinho, mas isso não te impede de mentir descaradamente. – tento controlar a raiva na voz para que ele não tenha muita noção do quanto isso me incomoda, mas falho miseravelmente.

– Eu não menti. – seus olhos estão fixos em mim, mas quando sustento seu olhar ele encara a praça abaixo de nós.

Respiro fundo tentando inutilmente afastar o sentimento de decepção que está se alastrando aos poucos. Por que diabos eu me importo tanto com essa merda? Quer dizer, não é a primeira vez que ele pisa na bola, então eu não deveria estar tão incomodada com isso, certo?

Errado.

Você não está ajudando.

Só estou tentando te fazer entender, mas você não me escuta.

Você tem uma chance.

Essa é a primeira vez que ele mente pra você.

Ele mentiu no sábado.

Mas sobre o mesmo assunto. Você não está brava por causa da reunião, você ainda não superou o sábado.

Qual a diferença entre as duas vezes? Ele mentiu do mesmo jeito, e eu estou brava sim por causa da reunião.

A diferença é que na reunião ele teria que contar para todos, já no sábado ele teve a oportunidade de contar apenas pra você, mas escolheu mentir.

Eu te odeio.

Você sabe que eu estou certa.

Eu te odeio ainda mais por isso.

No momento em que as palavras começam a fazer efeito, causando o impacto que eu tinha evitado ao não pensar muito sobre isso, a inquietação se torna mais aguda e algo mais intenso se agita aqui dentro. Não consigo explicar o sentimento que torna tão incomoda a ideia de ficar próxima dele.

Sentimento esse que me faz levantar, esquecendo todos os motivos que me fizeram sair do quarto e aqueles que me fizeram continuar a conversa mesmo sabendo das altas chances de eu acabar me aborrecendo ainda mais. Meus pés estão quase deixando o parapeito quando ele segura minha mão me mantendo no chão.

Engulo em seco tentando afogar as sensações incomodas que estão ajudando a piorar o meu humor. Mantenho meus olhos focados no céu noturno e estou prestes a soltar minha mão quando ele decide começar a falar.

– Eu não menti quando disse que não conheço ele. – não consigo conter o sorriso de escárnio que toma meus lábios – Estou falando sério, eu não sei quem ele é.

– Então por que você parece tão incomodado em falar sobre isso? Por que sempre que você diz que não conhece ele parece ser mentira? – indago rispidamente encarando-o da forma mais inexpressiva que consigo.

– Porque é impossível ele ser quem é.

Ao contrário do que eu esperava, ele sustenta meu olhar, as íris castanhas tomadas por tristeza e angústia. Ele solta minha mão e suspira abaixando a cabeça. Analiso-o tentando encontrar sentido em sua frase, mas não consigo chegar a nenhuma resposta concreta.

– O que quer dizer? – pergunto sentando-me ao seu lado novamente, a irritação sendo transformada em confusão.

– Você me perguntou quem ele é, eu não menti quando disse que não sei, eu não menti porque é impossível ele ser a pessoa que eu conheço. – ele suspira cansado, as mãos se movimentando nervosamente – Simplesmente... Não é possível.

– Mas...

– Você está certa, eu vi o rosto dele, falei com ele, mas eu não sei quem é. – a forma como ele me encara suplicante me cala, deixando as palavras fiquem presas em minha garganta – Me incomoda porque envolve coisas muito importantes pra mim, mas eu não sei quem ele é.

Minha consciência pesa no segundo em que registro as lágrimas contidas em seus olhos, ele desvia o olhar assim que percebe, afastando-as com a mão disfarçadamente.

Não pergunte mais.

Eu não vou. Mas, eu não entendo...

Não é da nossa conta, já sabemos o que queríamos, ele não mentiu.

O silêncio se estabelece após ele fungar fracamente. Não me atrevo a fazer sequer uma palavra, durante toda a conversa percebi que ele escolheu muito bem as palavras para explicar sem me dar reais pistas do verdadeiro motivo das lágrimas em seus olhos, portanto posso concluir que ele não queira me contar.

Após alguns (muitos) minutos de tensão desconfortável, o silêncio se torna aconchegante e, como no dia em que ele me obrigou a brincar de Paraquedismo sem paraquedas, apenas nos sentamos e observamos o horizonte. Aos poucos sua expressão suaviza, trazendo de volta um pouco do Austin descontraído.

Permanecemos assim até que os primeiros raios solares podem der vistos despontando no azul agora mais claro. A manhã traz com ela toda a adrenalina da noite passada. Tento organizar os pensamentos para que não entre em pânico, não que esteja obtendo muito sucesso, mas vale a pena tentar.

Quando percebo a luz tomando conta da praça me dou conta do tempo que ficamos aqui. Alcanço meu celular me surpreendendo ao encontrar o número seis no relógio digital. Suspiro profundamente tentando me preparar psicologicamente para voltar ao quarto.

– Que hora você vai encontrar a Milena? – Austin pergunta percebendo minha inquietação.

– Não sei, ela não disse. – respondo também percebendo que não onde encontrar ela.

– Bem, você vai tomar café antes, porque de jeito nenhum você vai ajudar nessa coisa sem comer depois de ter passado a noite em claro. – não evito o pequeno sorriso que se forma em meu rosto, ele retribui se levantando – Vamos, temos que trocar de roupa.

Levantamos vôo ao mesmo tempo seguindo em direção a minha janela, o quarto ainda está escuro já que a luz do sol ainda não alcançou altura o bastante para atingir esta parte do prédio. Pouso na varanda, olho para trás antes de entrar percebendo que Austin ainda está pairando ali, só agora consigo notar a pequena falta de equilíbrio em como ele se mantém no ar, isso basta para me arrastar para a reunião de ontem e o tamanho da coisa que estamos prestes a fazer.

– Então, até daqui a pouco. – assinto, mas antes de seguir seu caminho ele me encara hesitante – Só, me promete que vai tomar cuidado.

– Vou fazer o possível. – sorrio minimamente e ele voa em direção ao que imagino ser sua janela.

Já dentro do quarto, com a janela fechada, o escuro envolvendo todo o ambiente, não consigo conter a onde de náusea ao pensar no que está para acontecer. Concentro-me em coisas simples como tomar (outro) banho para me aquecer mais um pouco, coloco o uniforme mesmo sabendo que vou ter que trocar antes de... Antes de tudo, mas considerando que preciso tomar café, preciso fingir que estou apenas indo para mais um dia de aula e não para uma missão suicida.

Certifico-me de demorar bastante tempo com essas atividades tentando fazer com que o tempo passe. Em algum momento entre a quarta ou quinta vez que estou montando um cubo mágico, recebo uma mensagem de Milena me pedindo para encontrá-la as oito no ginásio C, agradeço mentalmente por já saber onde fica.

Quando considero um horário aceitável para descer, disfarço a cara de sono e pânico seguindo pelos corredores do dormitório. Como o esperado não tem muitas pessoas fora dos quartos ainda, por consigo passar livremente e alcançar a escada em segundos.

Assim que adentro a sala de estar avisto Austin jogado sobre um dos sofás. Ele se levanta e vem até mim sem dizer uma palavra, o uniforme devidamente alinhado como no dia anterior, o que me leva a crer que ele também não conseguiu se livrar do frio por completo.

Enquanto andamos até a cantina em passos mais lentos do que eu quero admitir, me concentro em brincar com um fiozinho solto na manga do meu suéter. Tento me apegar a detalhes que estavam me incomodando há algum tempo atrás, coisas banais como, por exemplo, o aperto da gravata ou a limitação de movimentos que o blazer causa, mas nada parece muito relevante agora.

A cantina ainda está silenciosa com os poucos alunos tomando seus lugares lentamente. Ao contrário do dia anterior, hoje as portas de vidro dão vista para um dia ensolarado e quase parece uma ofensa que o dia seja tão bonito com tudo o que está pairando sobre nós.

Nos acomodamos na mesa de sempre, fingindo que está tudo bem e agindo normalmente. Em algum momento consigo registrar pelo quanto dos olhos Lira e Ridins adentrando o local, mas estou mais interessada em acompanhar os ponteiros do relógio que se arrastam preguiçosamente.

Aos poucos a cantina enche o que me deixa por um lado feliz porque quando mais rápido o tempo passar, mais rápido eu posso deixar essa farsa de dia feliz, por outro lado isso aumenta a ansiedade e o pânico de saber que assim que começarmos a colocar o plano em prática, isso vai ser real.

Quando nossa mesa fica cheia, cada um em seus lugares de costume, eles não tentam aliviar o clima como na noite passada, talvez porque agora, sabendo de tudo, eles entendam que não da pra aliviar nada, ou então porque eles também se sintam tensos demais para tentar.

De fato eu esperei bastante pelo momento em que o sinal tocaria, mas quando isso acontece, a náusea me atinge mais uma vez. Engulo em seco enquanto levanto da mesa deixando minha bandeja no descarte. Dirijo um pequeno sorriso (ciente de que provavelmente não parece um sorriso) antes de desviar pelas portas laterais indo direto para o gramado.

Me afasto um pouco do prédio me certificando que ninguém está prestando atenção em mim e levanto vôo me mantendo o tempo todo próxima do prédio a fim de receber certa camuflagem. A inquietação volta ao meu estômago quando noto a forma peculiar como o vento empurra corpo insistentemente para o chão, me obrigando a focar mais no controle sobre ele. Eu não senti isso mais cedo ou talvez não tenha percebido, de qualquer forma, me assusta.

Quando avisto o ginásio não preciso entrar para encontrar Milena, ela está deitada no telhado, sobre a viúva negra. Quase me pergunto o que ela está fazendo exposta ao sol, mas acredito que o fraco brilho da manhã não seja de todo ruim para ela se permitir aproveitar sobre o telhado.

Pouso ao seu lado, ela desvia os olhos rapidamente para mim depois estendo a mão. Automaticamente percebo o problema, ela não está deitada aproveitando o sol, agora perto vejo a palidez extrema, as olheiras e sua mão treme incontrolavelmente. Agarro sua mão firmemente e sustento-a no ar, lavando-nos para o chão, para as sombras.

Ela respira ofegante e se senta pesadamente na grama. Aguardo enquanto ela se recupera, a cor voltando aos poucos e a respiração normaliza após alguns minutos.

– Obrigada. – ela respira fundo mais uma vez antes de ficar em pé.

– Tem certeza que consegue fazer isso? – ela caminha próxima ao prédio em direção a parte de trás, sego-a perto o suficiente para segurá-la caso volte a ter uma crise.

– A essa altura eu tenho que conseguir Thais.

Mesmo sabendo que ela está certa não consigo deixar de lado a ideia de ela não está em condições da seguir em frente com o plano e a penas observar ela se matar não está nos meus planos.

A parte de trás do ginásio e tomada por uma floresta densa, Milena segue rapidamente para dentro dela e volta a voar, sigo-a tentando ignorar o desequilíbrio que percebi a poucos minutos. Não sei exatamente por quanto tempo voamos próximas as copas das árvores, mas quando aterrissamos me depara com um grande descampado.

– Muito bem, o plano é o seguinte, aquela é a base onde a equipe do Ethan fica. – Ela aponta para uma construção gigantesca no centro do descampado – Os mapas e planos de ataque estão no escritório principal da equipe, tem o número quarenta e seis na porta com o sobrenome Johnson embaixo.

“Eu vou te camuflar para você entrar na sala enquanto eu distraio o oficial de plantão, você precisa tirar uma foto do mapa que está em cima da mesa, verifique se tem o código MSMA4 na lateral, entendeu?”

– Como você vai me camuflar? – ela movimenta as mãos exibindo a névoa escura entre os dedos – Milena, você acabou de ter uma crise lá atrás, não tem poder pra fazer isso.

– Não se preocupe, eu não vou desmaiar antes de sairmos.

– Muito tranqüilizador.

– Thais nós não temos tempo pra isso, O.K? – ela respira fundo observando o movimento ao redor do prédio – Se não fizermos isso, nós morremos, então eu vou correr o risco. A questão é você vai ajudar ou não?

– Eu vou, mas se você tiver um treco o plano vai por água abaixo, porque eu não sei voltar para o colégio daqui. – olho ao redor rapidamente – Eu nem sei onde a gente ta.

– Não se preocupe com isso, vamos.

Andamos rapidamente ao redor do prédio, Milena evita os guardas com maestria o que me faz acreditar que ela já tinha estudado o terreno antes de lançar a ideia de fazer isso. Adentramos por uma porta lateral, aparentemente o armário de limpeza. Ela espia pela porta antes de sair e assim que coloco meu pé para fora sinto as sombras me envolverem.

É estranho como as coisas funcionam dentro do mundo das sombras, tudo ao redor perde a cor variando apenas em tons de cinza e preto. Sigo a passos hesitantes atrás dela esperando que a qualquer momento ela desmaie e todos percebam que estamos quebrando uma lei.

O corredor em que estamos é cheio de portas, cada uma com um número e um nome. Ele é extenso e pintado com as cores das sombras parece macabro.

Durante a caminhada passamos por três oficiais, todos encarando Milena com uma sobrancelha arqueada, mas a presença dela não deve ser tão esquisita ao ponto de lhe perguntarem o que ele está fazendo dentro de um complexo oficial. Quando nos aproximamos de uma porta escura, ela olha rapidamente por sobre o ombro antes de bater levemente. Bem, talvez não seja tão leva, mas os sons também são um pouco abafados aqui.

Minha atenção é desviada para um soldado que passa muito perto de mim, me obrigando a quase me jogar na parede para sair de seu caminho, por isso perco o momento em que uma pessoa abre a porta, mas quando volto meus olhos para o sujeito com quem Milena está falando quase solto um palavrão. O tal oficial de plantão não ninguém mais, ninguém menos que Micael Moore.

Por um segundo esquece que ele não pode me ver e entro em pânico com a possibilidade de ele me reconhecer. Esse pequeno desespero interno quase é o bastante para me fazer perder o sinal que Milena me da, indicando a porta atrás do rapaz.

Ela voltar a conversar com ele enquanto me esgueiro para dentro da sala desviando lentamente do braço que está estendido do espaço entre os caixilhos. Respiro fundo quando entro andando rapidamente para a mesa, novamente seguro um palavrão ao não encontrar o código que Milena havia passado. O pânico volta enquanto olho ao redor em busca do mapa certo, encontrando-o sobre uma mesa de computador no canto ao lado da porta.

Silenciosamente retiro o celular do bolso segurando-o firmemente entre os dedos trêmulos, tento firmar a mão e focar a foto o mais rápido que consigo, ciente que Milena não pode utilizar seus poderes por muito tempo. Enquanto estou travando minha luta com a tremedeira consigo ouvir a conversa dos dois.

Eu estava pensando sobre o que me disse e acho que vale a pena tentar. – a voz abafada de Milena parece um pouco nervosa – Não posso te garantir que vai dar certo, mas estou disposta a tentar.

Consigo enfim focar a imagem e tiro a foto. Satisfeita levo o celular ao bolso novamente, mas antes de guardá-lo avisto mais um mapa, semelhante ao anterior, mas este está com bombas sinalizadas em vários lugares.

Ela não vai aguentar por muito tempo.

Eu sei, mas isso também é importante.

Então tira logo a foto.

Ergo novamente o aparelho voltando a batalha para focalizar, tiro a foto no momento em que a voz de Micael chega aos meus ouvidos.

Fico feliz de ter resolvido me dar uma chance. – assim como ela, ele parece nervoso, mas há um que de animação em sua voz – Eu realmente quero fazer isso funcionar Lena.

Não consigo disfarçar a surpresa estampada em meu rosto, quase agradeço por os dois não poderem me ver agora. Claro, eu não sei muito sobre a vida de Milena, mas esse tempo todo vendo-a tão próxima a Blake e o comportamento dos amigos deles em volta dos dois sempre me deu a ideia de que existia algo ali, pelo visto me enganei.

Pare de bisbilhotar e faça o que você tem que fazer.

Deixando a surpresa de lado, guardo o celular e sai da sala, passando por Moore com cuidado. Milena percebe minha presença e se despede dele meio desajeitada. No pouco tempo que a conheço, nunca a vi desajeitada, é particularmente cômico, principalmente porque ele também age dessa forma antes de voltar para a sala.

Voltamos para a sala de limpeza, mas antes que eu possa alcançar a porta de saída ela se solta pesadamente ao lado de um armário. Respira fundo e sem encolhe no escuro. Minha primeira reação é levar a mão até o interruptor para poder ver se ela está bem, mas ela me interrompe.

– Não, o escuro é melhor. – a voz ainda está firme o que indica que ela não está tão mal – Só preciso recuperar o fôlego.

Assinto me sentando ao lado da porta de saída, afastando momentaneamente a impressão de que se permanecermos aqui muito tempo, vamos ser pegas. Ela respira fundo várias vezes e espero que se recupere antes de perguntar. Sei que provavelmente eu não devia, mas a situação cômica de antes não vai sair da minha mente tão cedo.

– Então... – com a visão acostumada com o escuro consigo ver que seus olhos se voltam para mim – Micael Moore?

– Ah, cara! – ela parece levemente surpresa e desconcertada, prendo a risada na garganta – Não era pra você ter escutado.

– Também não era meu plano, mas o mapa estava ao lado da porta no fim da contas, não pude fazer muita coisa. – ela suspira e deixa uma risada baixa escapar.

– Não é nada demais... Pelo menos ainda não. – assinto enquanto ela se espreguiça em seu canto parecendo recupera – Nem vai ser se resolvermos isso.

– Vai dar certo. – ela concorda sem entusiasmo e encosta a cabeça na parede – Eu não sei se é de muita ajuda, mas também tirei foto do mapa com os locais que eles vão bombardear.

Sua cabeça se move tão rápido que quase não registro quando ela se levanta. De repente uma nova onde de animação está em seu rosto, sigo seu exemplo ficando de pé sem entender realmente o motivo da euforia.

– Isso é ótimo, agora podemos ter um ideia de como impedir se o plano A não der certo.

– Então temos um plano B? – pergunto confusa vendo seu sorriso aumentar.

– Agora podemos pensar em um plano B. – ela anda rapidamente para a porta observando o movimento do lado de fora – Vamos.

O caminho de volta é calmo, mas não menos angustiante. Em um dado momento Milena não consegue se manter no ar e temos que terminar o trajeto andando visto que seu eu teleportasse para dentro dos arredores do colégio Martin poderia desconfiar.

Chegamos ao ginásio e carrego-a para dentro. Acabo de descobrir que Milena é integrante do time feminino dos aranhas , sendo assim ela tem passe livre para dentro do centro de treinamento. Assim que chegamos às arquibancadas ela desse até a grama e se deita sobre o aracnídeo no meio do campo.

Sento-me próxima a grama mas algo em pisar no campo negro me deixa desconfortável, então permaneço com meus pés onde posso vê-los. Após minutos de silêncio sinto o vibrar do celular no bolso informando a chegada de mensagens.

Você está bem?” – A.

“Sim, estou no ginásio do shadows, Milena está descansando.” – T.

“Vocês conseguiram?” – A

“Sim.” – T.

“Ótimo. A aula está uma droga, você não está perdendo nada.” – A.

“Não confio em você quando o assunto é aula Clarck, você não gosta de nenhuma.” – T.

“Eu gosto de combate.” – A.

Reviro os olhos, olhando rapidamente para Milena que agora está vindo em minha direção séria. Ela não parece estar prestando atenção em nada específico, a tensão de volta em seus ombros.

– Você pode me mostrar o mapa? – ela indaga se jogando no banco abaixo de mim.

Preciso ir, até daqui a pouco.” – T.

“Se cuida.” – A.

Entrego o celular com a foto já selecionada. Ela estuda a imagem por vários minutos, desconfio até que se passou uma hora até que finalmente desvia os olhos suspirando cansada, devolve o celular e volta a se deitar. O silêncio se instala por mais um tempo até que uma dúvida antiga me pega.

– Milena? – quase confirmo a ideia de ela estar dormindo, mas o “hum?” abafado indica que ela pelo menos um pouco acordada – O que é a Torrente?

– Uma cachoeira que fica entre o Meydran dos sharks e do frigds, ela tem um córrego bem extenso que foi apelidado de Torrente. – ela explica sem tirar o braço dos olhos, sem dúvida ela parece bem melhor envolta pelas sombras, quase como se só nesse momento estivesse em casa o que provavelmente é verdade.

– Por que Munique quer que nos encontremos lá?

– Eu tenho uma vaga ideia do que ela pretende e já aviso que é melhor você gostar de um pouco de adrenalina. – ela deixa os braços caírem ao lado do corpo se esticando sobre o banco.

Tento não prender muito minha mente na vaga informação, para não ter uma crise de ansiedade agora, mas não consigo esquecer por completo. Enquanto esperamos as horas passarem me concentro nos joguinhos de celular, na maior parte do tempo um de piano que eu costumava jogar quando estava na Terra.

Quando o momento de seguir viagem finalmente chega, sinto meu estômago embrulhar, a náusea voltando com força máxima. Ao sairmos do ginásio imagino que vamos até o prédio dormitório trocar de roupa, mas Milena segue outra direção. Pousamos ao lado de uma casinha, muito longe do prédio da cantina para que eu possa me localizar, mas sei que ainda estamos nos terrenos do colégio. As vozes nos alcançam antes mesmo de abrirmos a porta.

Então ele ficou quase uma hora falando de como ele escolheu o novo penteado do cabelo e sinceramente aquela coisa não chega nem perto de ser bonito. – demoro alguns segundos para reconhecer a voz de Maurice, ele parece transtornado – Eu nunca mais faço isso.

– Não seja tão dramático Maurice, você ficou com a parte fácil. – Milena adentra a cabana sorrindo divertida na direção do garoto.

– Você me paga Gauthier.

Ela ri alto acompanhada de Jen que só agora percebo no canto do cômodo. Varro o lugar notando duas portas em extremidades opostas, o lugar cheira a pó e mofo, as paredes têm marcas de infiltração de água e o teto é escuro. Meus olhos voltam para os dois, eles não estão vestidos com o uniforme, mas sim com trajes de combate iguais aos dos soldados oficiais, porém completamente negros, sem identificação ou símbolo, como se fossem próprios para camuflagem.

– Eles estão funcionando? – Milena indica uma pilha de trajes sobre uma mesa.

– Perfeitamente. – Jen responde ajeitando seu colete – Os outros já vão chegar, é melhor se trocarem.

Apanho um conjunto da pilha e sigo para uma das portas. O novo cômodo é bem menor que o anterior, mas os sinais de descuido estão por toda a parte, porém, esse cheira a podridão. Troco a roupa o mais rápido que consigo para que possa sair do local malcheiroso. Teria sido melhor se eu tivesse escolhido a outra porta? Provavelmente não.

O novo traje é mais confortável do que aparente, se ajustando rapidamente ao meu corpo, obviamente sendo composto pelo mesmo tecido do traje escolar. Junto minhas roupas em um montinho e volto para a sala principal. Milena aponta um saco preto ao lado da mesa e entendo que as roupas devem ser deixadas ali.

Em pouco tempo ouvimos vozes se aproximando. Lilian e Marian são as primeiras a aparecerem pala porta recebendo cada uma um par do equipamento. Ambas me direcionam um olhar rápido antes de sumirem por entre as portas. Lilian volta em tempo recorde e quase sinto inveja de sua destreza em usar essas coisas. Após guardar as roupas no saco vem em minha direção. Antes que eu posso dizer qualquer coisa ela me interrompe.

– Não vou te cobrar nada, só... – ela perde as palavras e me puxa para um abraço apertado.

Como não sei o que dizer nem se há algo a se dizer, devolvo o abraço tentando conter as lágrimas que se aglomeram em meus olhos. Toda a exaustão de esconder a verdade me atingindo de uma vez só. Em segundos novos braços se juntam ao nosso redor e permito que toda a angústia seja varrida para fora de mim, pelo menos por agora. O abraço é mais reconfortante do que eu imaginava.

– Depois que essa loucura toda passar, depois que resolvermos isso, vamos conversar. Agora... – Marian começa assim que nos afastamos – Só estou feliz que vocês estão vivos.

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– Me desculpem, eu não... Eu só... – tento encontrar as palavras enquanto limpo as lágrimas.

– Esquece isso por enquanto, vamos deixar tudo pra depois. – Lili afirma apertando meu ombro levemente – Vamos apenas nos concentrar nisso.

Enquanto a cabana vai se tornando pequena co a chegada das pessoas, permanecemos em um canto próximo da porta. Max, Austin e Jack se juntam a nós pouco tempo depois, ainda com expressões sérias e tensas.

Quando finalmente todos estão devidamente vestidos com os trajes, saímos da casa em direção a floresta que cerca a lateral da construção. Nos dividimos em três grupos seguindo direções diferente para chamar menos atenção. Como eu não faço ideia do caminho que estamos fazendo apenas segui os passos dos outros.

Quando nos distanciamos consideravelmente dos arredores do colégio, vários metros após o muro que delimita o terreno, alçamos vôo, pairando próximos a copa das árvores. Durante a viagem consigo perceber a queda brusca de temperatura, me encolho instintivamente, mas não sinto o frio se espalhando pelo meu corpo como vem acontecendo. Algo me diz que isso tem a ver com o traje de combate.

Perco a noção de tempo, mas sei que demora quase uma hora para que comecemos a pousar. Dessa vez não saímos da floresta apenas entramos em uma parte mais aberta. O barulho de água se chocando contra pedras atrai minha atenção e contemplo uma enorme cachoeira. Assim como Milena disse, o córrego se estende muito a frente do que consigo ver. O cheiro e o clima me fazem recordar de momentos bons que agora parecem muito distantes, quase como se tivessem sido apenas sonhos.

Quando o resto do grupo se junta a nós esperamos por Munique que demora a aparecer, mas eu não esperava que fosse de trás da cachoeira. Ela, já trajando um uniforme de combate completo, acena para nós indicando uma escada improvisada de pedras. Seguimos até ela, devo dizer que considerando minha facilidade em causar desastres, não me sinto muito confiante em me apoiar em um local que provavelmente é escorregadio, mas não temos tempo então apenas sigo atrás de Lilian pronta para agarrar qualquer coisa no caso de perder o equilíbrio.

– O que exatamente estamos fazendo aqui? – Jen indaga quando estamos todos agrupados ao lado da queda d’ água.

– Vamos usar um caminho antigo que não é mais monitorado. – ela anda em direção a cascata sumindo por entre as rochas – É a nossa rota de fuga.

Milena é a primeira a desaparecer atrás da mais velha com todo o grupo em seus calcanhares. Atravesso a parede sem deixar de me assustar – como na primeira vez em que experimentei a sensação – e momento em que meus olhos se adaptam na baixa iluminação – vinda de uma lâmpada acima de nossas cabeças – entendo perfeitamente o que Milena quis dizer com adrenalina.

– Já andaram de trem? – Munique exibe um sorriso divertido – Ou melhor, caçamba?

Notas finais
Pessoas... É o que eu tenho pra hoje, podem expressar suas opiniões nos comentários, eu gosto de lê-los :). Não sei quando volto, mas juro que vou tentar não demorar uma eternidade. Beijos, até o próximo.