Elementium - Volume 1 - A Ascensão

10 Algumas Feridas Nunca se Curam


Notas iniciais
Como eu prometi, aqui está o capítulo no último dia do mês. Boa leitura galera.

Após toda a dramaticidade da conclusão brilhante e assustadora de Max, não mantemos de fato uma conversa. Não me lembro de pronunciar mais que três palavras durante os longos quarenta minutos em que permanecemos no quarto.

O fato é que a possível verdade está pesando tanto dentro do cômodo que precisamos de muito mais entusiasmo para conseguir quebrar a tensão sólida que paira no ar. De qualquer forma, não temos esse entusiasmo, portanto, o assunto que parecíamos ter antes cai por terra e o silêncio constrangedor não demora a tomar conta do quarto de hospital de Max.

Quando enfim Lílian parece perceber que ninguém além dela tem mais palavras a dizer, se dá por vencida e nos acompanha nas despedidas.

Durante todo o caminho de volta para o colégio começo a sentir o cansaço que venho ignorando desde o episódio na piscina. Minhas costas parecem estar vários quilos mais pesadas e posso me arriscar a dizer que parte da exaustão pertence ao meu psicológico.

O lado de dentro do prédio principal e também do prédio dormitório está tão silencioso quanto os jardins, o que revela muito sobre o humor dos habitantes nesse dia pra lá de esquisito. Alguns poucos pais ainda estão com os filhos na sala de estar, mas até mesmo eles se encontram silenciosos agora.

Os corredores do dormitório feminino estão desertos e não me demoro a entrar no quarto na esperança que esse pequeno ambiente aconchegante me faça sentir melhor. Infelizmente sou terminantemente decepcionada. O quarto nada pode me oferecer além da constatação de que estou muito longe de casa e que não vou voltar.

Demoro alguns minutos para me dar conta que a raiva que repentinamente voltou a tomar minha mente é na verdade direcionada aos acontecimentos de hoje. Pela primeira vez não estou com raiva por estar nesse mundo, mas sim por alguém estar bagunçando ele.

Meus pensamentos rodam repetidas vezes em torno de tudo o que aconteceu nos jardins e ficam mais tempo ainda nas novas informações que recebi hoje. Em algum momento entre esses temas eu adormeço sem me dar conta.

Na manhã seguinte, quando a insistente luz do sol atravessa as cortinas e me obriga a voltar para o mundo real, não posso deixar de me surpreender ao notar que dormi a noite inteira sem coberta e exatamente na mesma posição.

Ainda estranhando o fato do meu já conhecido sono conturbado não ter dado as caras, me alongo esperando que meus músculos estejam retraídos por terem permanecido na mesma posição por muito tempo. No entanto estão tão relaxados como se tivessem acabado de receber uma massagem.

Encaro o quarto escuro e procuro sinais de que isso na verdade se trata de um sonho mais uma vez e que estou prestes a acordar neste mesmo quarto, mas em uma situação diferente. Quando minutos se passam e provam que estou muito mais acordada do que eu imaginava, desisto de tentar entender todas as mudanças bruscas que vem acontecendo comigo desde que cheguei a este lugar.

Convecida de que tudo isso são apenas detalhes que estou prestando atenção agora porque as mudanças mais críticas parecem ter alterado tudo o que se tratavam de verdades absolutas no meu dia-a-dia, me arrasto até o closet ciente de que em poucos minutos devo comparecer a primeira aula do dia.

Já confortável dentro de uma calça jeans, camiseta e um suéter azul escuro muito agradável, diga-se de passagem, termino de calçar os tênis e me ponho a prender o cabelo. Com uma última olhada no espelho acabo notando uma coisa escura no pescoço, parcialmente encoberta pela gola do suéter.

Me aproximo no espelho e afasto o tecido para tentar analisar melhor. Primeiramente pensei ser um machucado remanescente de ontem que passou despercebido, mas duas coisas tiram isso de questão. Primeiro, segundo Max, eu me curo e segundo, isso não se parece em nada com um hematoma.

Logo acima da gola do suéter, do lado direito do pescoço a pele está tingida de preto, mas não como uma coisa disforme. Linhas perfeitas se encontram formando um desenho. Um círculo com ondas serpenteantes no interior. O símbolo dos Sharks.

De onde veio isso?

Não sei. Mas não estava aí ontem.

Eu estou sonhando?

Definitivamente não.

Encaro o desenho por vários minutos. Tento tirar a marca esfregando, mas tudo o que consigo é deixar a pele irritada.

Quando estou mais do que certa de que não fiz nenhuma tatuagem e que se alguém fez isso enquanto eu dormia vai receber um visitinha nada amigável, batidas fracas na porta chamam minha atenção.

— Que cara é essa? — é a primeira coisa que ela diz quando abro a porta.

Os olhos azuis de Marian me analisam com curiosidade e não posso deixar de imaginar a careta que devo estar fazendo para atrair tanta atenção assim. Ela está vestindo calça jeans como eu, mas as dela são obviamente pretas, assim como todo o resto do uniforme. As únicas coisas brancas são os símbolos bordados em sua camiseta. O cabelo castanho escuro está preso em um coque mal feito e a maquiagem realça seus olhos na pele incrivelmente branca.

— Nada, só estou confusa com essa coisa que apareceu no meu pescoço — puxo a gola do suéter e indico a marca que por algum motivo parece queimar agora.

Talvez porque você ficou tentando arrancar daí com as unhas.

Certo.

A shadow apenas ri ao ver minha expressão confusa. Me limito a encará-la inexpressiva. Afinal o que é tão engraçado?

— Relaxa, é uma das coisas que aparecem conforme o tempo — ela responde e se aproxima observando mais de perto o símbolo. — Demorou menos que eu. Precisei de uma semana para enxergar com "clareza".

— Pode explicar, por favor?

— Você percebeu alguma mudança desde que chegou? Na aparência das coisas, eu quero dizer — ela questiona e me encara com expectativa, mas tudo o que faço e franzir a testa ainda mais confusa. Ela olha ao redor como se procurasse alguma coisa até que finalmente se volta para mim com uma expressão hesitante. — Cores. Você notou alguma mudança nas cores dos lugares que visitou no seu primeiro dia? Eles estão diferentes agora?

Os corredores.

Sim. Também pensei nisso.

Eu sei.

Imediatamente as mudanças que notei nos corredores e até mesmo as cortinas da cantina tomam minha mente e consigo entender o que ela quer dizer.

— Estão mais coloridos.

— Isso! — Ela sorri satisfeita e tento retribuir, mas falho miseravelmente em formar um sorriso. — Quanto mais tempo ficamos aqui mais nos "familiarizamos". Em outras palavras, nossa visão deixa de ser humana, que é extremamente limitada, e começamos a ver esse mundo por completo.

— Certo — estreito os olhos quando ela sorri ainda mais. Ainda está se divertindo com a confusão estampada na minha cara, provavelmente. — Voltando a tatuagem, eu não me lembro de ter feito ela.

— Você não lembra porque não fez — ela explica como se fosse óbvio e suspira quando estreito ainda mais os olhos. — Você recebe ela na Cerimônia de Escolha. Está carregando ela desde aquele dia, mas só consegue ver agora.

— Por que agora eu tenho visão biônica?

— Se quiser chamar assim — ela revira os olhos mais uma vez rindo. — Todos nós temos.

Marian puxa o colarinho da camiseta para o lado revelando linhas negras. A marca em seu pescoço forma uma estranha massa escura. Pequenas sombras, presas em um círculo perfeito. O símbolo dos Shadows.

— As marcas são grafadas em nós quando escolhemos nosso elemento — ela continua, ajeitando novamente a roupa. — Você não percebeu porque não sentiu nada, mas ela está ai desde o dia oito.

Dia oito de setembro, o dia do acidente, o dia em que “morri”, meu primeiro dia em Wirdgewt e o último dia em que vi meus pais. Automaticamente sinto uma onda de angústia me atingir, hoje faz três dias que estou aqui, ainda consigo me lembrar perfeitamente dos rostos deles naquela manhã, das panquecas da minha mãe e do simples tchau que dei a eles, seu eu soubesse que isso aconteceria jamais teria saído de casa. Sem minha permissão, lágrimas começam a surgir em meus olhos e sem poder segurar todas vou em direção ao banheiro.

Marian fica parada por alguns segundos confusa, mas então me segue encostando a porta atrás de si.

—--- O que houve? ---- perguntou com a testa franzida.

—--- Nada. ---- finalmente consigo secar as lágrimas, mas meus olhos estão levemente vermelhos, em pouco tempo começarão a arder, as vezes odeio ter olhos claros.

—--- Foi algo que eu disse? Se for, não foi intencional, desculpe.

Respiro fundo enquanto meus olhos perdem o vermelho e estranho quando não sinto a queimação que geralmente tenho após chorar.

—--- Não é nada, só estou me acostumando a estar aqui, está tudo bem. ---- respondo saindo do banheiro.

Ela me analisa mais um pouco e parece acreditar na minha resposta.

—--- Muito bem, então, nós temos que tomar café, as coisas provavelmente estarão um pouco agitadas hoje.

Sigo-a para fora do quarto. Enquanto andamos pelo corredor, penso em algo e automaticamente a pergunta me vem a cabeça.

—--- Mari? ---- chamo-a.

—--- Sim.

—--- Posso fazer uma pergunta?

—--- Você já fez, mas prossiga. ---- responde ainda andando.

—--- É algo sobre as nacionalidades dos Elementistas. Eu pensei e acho que nem todos aqui falam a mesma língua, certo?

—--- Naturalmente. ---- responde.

—--- Então como pude entender todos que falaram comigo e como vocês podem me entender? ---- perguntei.

—--- Isso é um pouco complicado e nem eu entendo direito, mas posso tentar te explicar. ---- fala e eu apenas assinto ---- O.K., pelo que eu entendi nós falamos todas as línguas, por isso não temos dificuldades em nos entender. Eu, por exemplo, nasci nos Estados Unidos e você no Brasil, mas conseguimos entender uma a outra. ---- explicou.

Bem, agora eu estou mais confusa ainda e ela percebe isso.

—--- Eu disse que não sabia explicar, mas assim, nós estamos conversando, mas eu estou falando inglês e você português, porém, pra nós é como se estivéssemos falando só uma língua. Entendeu mais ou menos? ---- perguntou fazendo uma careta.

—--- Acho que sim, mas como eu consegui ouvir você falar inglês lá atrás? ---- perguntei me lembrando da cena da porta.

—--- Essa é a parte confusa, parece que se quisermos, conseguimos falar em nossa língua, quer dizer, falar sem que os outros entendam. ---- responde ---- a esquece, só aceita assim como eu e pronto, não sei explicar isso.

Sorrio com a careta que ela fez ao dizer que não sabia explicar e voltamos a andar. Quando descemos as escadas, Jack está encostado no corrimão da escada dos meninos e sorri ao ver Mari que vai em sua direção.

Com certeza você já deve ter servido de vela para algum amigo seu e também deve saber que não é nada legal. Perante essa cena, eu me limitei e olhar para frente e esperá-los, já que não sabia como chegar ao refeitório. Eu preciso urgentemente de um mapa.

Depois de alguns minutos eles percebem que eu ainda estou ali.

—--- Ah... Bom dia Thais. ---- diz Jack sem graça ---- desculpe.

Aceno com a cabeça como se não tivesse problema. Eles vão na frente de mãos dadas e eu sigo-os, mas dessa vez determinada a decorar o caminho. Uma para a esquerda, depois pra direita e duas para a esquerda. Acho que é isso, espero não ter me perdido.

Quando chegamos no refeitório, eu fico feliz em ouvir vozes novamente, o silencio do dia anterior passou, ou pelo menos parte dele. Os alunos estão conversando como sempre, mas mesmo tendo sorrisos nos rostos, seus olhos transparecem preocupação.

Vou até a fila do café e ao contrario do dia anterior, hoje eu sei o que me espera nos treinos. Sento-me na mesma mesa e me surpreendo ao ver Max ao lado de Lili, comendo cereal.

—--- Você não devia estar no hospital, Evans? ---- pergunta Jack ao sentar.

Max levanta o olhar e o encara sério. Eu não sei qual é a dos sobrenomes aqui, mas parece que todos levam muito a sério quando são chamados por esses, ou pode ser coisa da minha cabeça. Ele leva a colher mais uma vez a boca antes de responder.

—--- Fui liberado hoje pela manhã, eu estou bem, só não poderei participar das aulas de combate por uma semana.

Jack assente e volta sua atenção para a comida. Começo comer minhas bolachas e ao olhar para o lado, percebo que Austin não está na mesa. Olho para as outras mesas e depois para o relógio na parede.

—--- Que horas as aulas começam mesmo? ---- pergunto a eles.

Lili desvia seus olhos da caixinha de suco que tentava abrir e responde:

—--- As oito ---- e volta a tentar abrir o suco, sem sucesso ---- Ah, eu desisto!

Ela larga a caixinha e cruza os braços frustrada. Max ri de sua reação e apanha o suco.

—--- Deixa que eu abro. ---- diz ainda rindo.

Mari observa os dois e sorri, depois olha para mim.

—--- Por que quer saber quando a aula começa? Esqueceu de algo? ---- pergunta.

—--- Não, é que o Austin não está aqui e já são sete e cinquenta. ---- respondo.

Ela olha para o relógio com as sobrancelhas arqueadas e depois para a porta. Jack também parece perceber só agora a falta do amigo e pega um celular. Ele digita algo e observa a tela por um tempo, depois o guarda no bolso.

—--- Ele não responde e eu não o vi no dormitório. ---- fala com a testa franzida e depois olha para Max e Lili ---- vocês viram ele?

—--- Quem? ---- pergunta Max.

—--- O Austin. ---- responde Mari rolando os olhos.

—--- Não vejo ele desde ontem. ---- responde Max.

—--- Eu também. ---- diz Lili preocupada.

Ficamos em silencio por um tempo. Eu os observo ainda tomando meu café, eles parecem preocupados, acho que ele não costuma se atrasar.

—--- Tudo bem, nós vamos pra aula e se ele não aparecer até o almoço, vamos atrás dele. ---- disse Jack.

Todos concordamos e terminamos de comer rápido já que faltavam apenas cinco minutos para as oito. Corri pelos corredores procurando meu armário e acabei esbarrando em uma garota.

—--- Desculpe. Tudo bem? ---- perguntei.

—--- Sim. Mas pra que tanta pressa? ---- pergunta sorrindo.

Ela é ruiva como eu, mas seus cabelos são lisos, tem olhos castanhos dourados, pele bronzeada e está vestida de vermelho. Fênix.

—--- Estou procurando meu armário. ---- respondo.

—--- Ah, sim, você é a aluna nova. ---- falou ---- qual o número?

—--- 358. ---- respondi mostrando a chave.

—--- O meu é o 352, vem eu te levo. ---- disse ---- aproposito, prazer sou Lira Argonel.

—--- Thais Windchest. ---- falei retribuindo o sorriso.

Adamos rápido pelos corredores e não deu tempo de prestar atenção, mas eu ainda ia decorar aquele caminho. Peguei os matérias de Pugnalogia e corri para a sala com o sinal já batendo. Sentei-me no fundo ao lado de um garoto Lutun.

Pugnalogia é a matéria de combate teórico e para ser sincera, é um sinônimo de chatice. O professor, Sr. Steward, falava sobre as melhores formas de se posicionar no campo de batalha e qual era a ligação entre nosso bem estar mental e o bem estar físico.

O garoto ao meu lado, que descobri se chamar Jake, arremessava bolinhas de terra em uma menina, também lutun, mais a frente quando o professor estava de costas. A garota o olhava brava e destruía suas bolinhas.

Depois de algum tempo ele se cansou de atormenta-la e praticamente ditou na cadeira. Marian anotava coisas em seu caderno enquanto Jack dormia com a cabeça sobre a carteira.

Comecei a pintar as bordas de uma folha de meu caderno quando um homem adentra a sala.

—--- Com licença professor, eu gostaria de lembrar os alunos de uma coisa. ---- o professor parou o que estava fazendo e assentiu.

O homem foi até o meio da sala e observou os alunos, depois falou:

—--- Eu vim até aqui porque estamos tendo constantes problemas com presença nas aulas e ao passar pela porta eu percebi o causador disso. Eu acho que vocês se esqueceram de como estamos registrando as presenças esse ano e quero lembra-los de que vocês tem que assinar a lista de presença que fica ao lado da porta, se não nós não saberemos quem compareceu a aula para prestar atenção no professor e aprender, NÃO É MESMO SENHOR GARETH! ---- ele falou a última frase quase gritando.

Mesmo com as palavras do homem, Jack nem se mexeu e acabou recebendo um beliscão de Marian que olhava para o senhor, ao sentir o beliscão, Jack se encostou na parede segurando o braço e olhando assustado para a namorada que ainda fitava o mais velho. Quando finalmente percebeu a presença do visitante ficou mais branco que o normal e engoliu em seco.

—--- Algo a dizer? ---- perguntou o homem.

Jack ainda o olhava assustado e percebi que Marian segurava uma de suas mãos em seu colo e tentava acalma-lo. Quando ele saiu do estado de choque respondeu.

—--- N-não senhor.

—--- É claro que não tem. ---- falou o homem o olhando com raiva, Jack se encolheu na cadeira e Mari falou algo em seu ouvido, mas não pareceu acalmá-lo ---- como eu ia dizendo antes de notar esse desrespeito inaceitável, eu quero que todos prestem atenção em suas ações e comecem a assinar a presença ou terão problemas futuros.

Ele dirigiu mais um olhar furioso para Jack e saiu da sala. O professor retomou a aula, mas muitos dos alunos olhavam de relance para Jack e cochichavam entre eles. Marian ainda tentava acalma-lo, mas não parecia estar obtendo nenhum sucesso.

Depois de alguns minutos o sinal bateu informando o final na primeira aula, mas infelizmente nós teríamos duas aulas de Pugnalogia. Voltei a atenção para meu caderno. Passados alguns minutos, a sala ficou estranhamente quieta.

—--- Bom dia, junte-se a nós senhor Clarck. ---- falou o professor.

Ao ouvir o sobrenome de Austin olhei para a porta e lá estava ele, mas um pouco diferente do normal. Seu rosto tinha vários cortes e um de seus olhos estava levemente roxo, as mãos também estavam machucadas. Ele se dirigiu a um lugar ao lado da parede sentando-se sozinho. Jack e Mari também o olhavam assustados, mas ele não falou com nenhum de nós, apenas abriu o caderno e ficou olhando para o chão a aula toda.

Na terceira aula, História, enquanto professor escrevia no quadro ouvimos os alto-falantes:

“Senhor Austin Lee Clarck, por favor compareça a diretoria.”

Novamente, todos os olhares se voltaram para Austin que pediu permissão ao professor e saiu da sala mancando.

As duas ultimas aulas eram de Necrologia e mudei de lugar me sentando em frente a Jack e Mari.

—--- O que acham que aconteceu? ---- perguntei a eles.

Os dois se entreolharam preocupados.

—--- Não sabemos, mas da ultima vez que isso aconteceu, não era coisa boa. ---- respondeu Mari.

Espera “... da ultima vez...”, então isso já tinha acontecido antes, mas como ele tinha conseguido todos aqueles machucados e por que?

Mari ainda segurava a mão de Jack fortemente e ele parecia distante. Ele fitava o caderno e batia o lápis na carteira, Mari o olhava preocupada e por mais que eu tentasse, não conseguia parar de pensar no episodio da primeira aula.

—--- Quem era aquele homem que veio aqui? ---- perguntei finalmente.

Jack levantou os olhos por alguns segundos, mas voltou a olhar o caderno sem dizer nada. Marian olhou para ele e depois para mim.

—--- Um dos representantes políticos de Wirdgewt. ---- respondeu, em seguida recebendo um olhar de Jack.

Ela o encarou novamente, mas ele desviou os olhos para o teto e suspirou levando uma mão ao rosto.

—--- Ei, não fica assim. ---- disse Mari colocando uma das mãos em seu ombro e apertando mais a mão dele com a outra ---- Você sabe que ele adora fazer isso e te ver com medo o fará feliz, então pare.

—--- Eu não estou com medo! ---- falou ele.

—--- Está sim, e não tem motivo pra isso, mostre que a opinião dele não te afeta. ---- insistiu Mari.

Ele tirou a mão do rosto e a encarou sério e ela fez o mesmo. Eu os observava sem entender nada. Eles ficaram se olhando por alguns segundos até que Jack deu um sorriso de lado e disse:

—--- Tudo bem, eu vou tentar. Você é incrível sabia?

Ela sorriu com as palavras dele e o abraçou, depois voltaram a olhar para frente como se nada tivesse acontecido e resolvi fazer o mesmo.

As duas aulas passaram rápido e não tivemos que fazer muita coisa a não ser anotar o que a professora dizia.

Quando o sinal finalmente bateu, todos saíram o mais rápido possível e foram em direção ao refeitório. Encontramos Max e Lili no caminho e eles queriam saber sobre Austin, pois como todo mundo, tinham escutado ele sendo chamado na diretoria.

Seguimos até o refeitório, nos servimos e sentamos em “nossa” mesa. Estávamos comendo tranquilamente até que Austin passa pelas portas e vai se servir. Nós e muitos outros o seguiam com o olhar enquanto ele pegava a comida. Ao terminar veio em nossa direção e se sentou ao meu lado fazendo uma careta de dor.

—--- Cara você está bem? Está parecendo que foi atropelado por um caminhão. ---- disse Jack com a testa franzida.

—--- Eu estou bem. ---- respondeu, mas era obvio que não estava nada bem.

Ao levantar o braço para pegar o garfo na parte de cima da bandeja, fechou os olhos e o puxou novamente segurando o ombro com dor aparente. Peguei o garfo e levei até sua mão. Ao sentir o metal, abriu os olhos e olhou para mim com uma expressão engraçada.

—--- Obrigado. ---- falou baixo com a voz trêmula.

—--- Você não está bem, o que houve? ---- perguntei.

Ele me encarou por um tempo, mas voltou a se concentrar na comida sem me responder.

Max analisava o refeitório a procura de alguém e quando não encontrou encarou Austin.

—--- Foi o Ridins não é? ---- perguntou sério.

Austin não disse nada e ele tomou isso como uma confirmação, respirou fundo e cruzou os braços.

—--- O que foi que você fez dessa vez? Já não bastou o ano passado? Você sabe muito bem o que acontece se você arrancar um fio de cabelo daquele idiota. Austin, será que você não podia pelo menos uma vez na vida pensar nas consequências, fala sério, eu... nós estamos cansados de resolver situações como essa pra você. Será que dá pra parar de arrumar encrenca por qualquer encontrão ou um olhar feio? Quantas vezes você vai ter que se ferrar pra aprender? ...

Max continuou falando sobre como ele era irresponsável e varias outras coisas, Lili tentava faze-lo parar porque, assim como eu, ela tinha percebido a expressão de Austin. Ele parecia irritado e talvez magoado, mas apenas ouvia o sermão de Max.

—--- ... E agora fica aí olhando para o prato e não tem nem a capacidade de admitir o que fez. Será que...

—--- Será que o que Max? O que você quer que eu faça? Que eu suma daqui pra você não ter mais que lidar com os meus problemas? Quer saber? Eu nunca pedi pra você resolver nada pra mim, ao contrário, eu sempre deixei vocês longe das minhas encrencas, então não venha me dizer que eu sou culpado por você se intrometer em tudo. Se está tão preocupado assim com o seu “amiguinho”, vá se certificar que ele está bem, pode ir, ele está na diretoria agora contando a incrível historia onde eu o agredi sem motivo algum. ---- Austin falou alto fazendo todos no refeitório pararem de falar e o olharem assustados, Max ficou calado enquanto ele falava e parecia assustado também ---- Na verdade, se a minha presença aqui é tão perturbadora pra você, não se preocupe eu me retiro senhor certinho.

Com isso ele foi embora do refeitório deixando um Max espantado para trás.

—--- Você não devia ter dito nada Max, sabe muito bem como o Michael é, provavelmente nem foi culpa do Austin. ---- diz Mari.

—--- Eu vou falar com ele. ---- fala Jack.

Como se fosse uma deixa, ouvimos mais uma vez o alto-falante:

“ Senhor Jackson Gareth, por favor compareça a diretoria.”

Jack encarou o aparelho na parede e ficou pálido, ele começou a respirar muito rápido como se estivesse com falta de ar ou coisa parecida, Mari percebeu e se levantou também segurando sua mão e virando-o para ela.

—--- Ei, olha pra mim. ---- ela diz, ele olha para ela e seus olhos estão assustados ---- se lembra do que eu falei, para com isso, você só foi chamado na diretoria.

—--- Vo... você sabe... o porque. ---- ele diz ofegante.

—--- Você não tem certeza disso. ---- ela fala séria ---- agora chega disso, para, controla sua respiração, olha pra mim, se concentra na minha voz. Isso, controle.

Ele fez o que ela disse e foi se acalmando, mas estava um pouco ofegante ainda.

—--- Vamos, eu vou com você, vai ficar tudo bem. ---- diz Mari.

—--- Mas... mas e o Austin? ---- pergunta ele.

Mari olha para nós esperando que alguém fale algo e eu tomo minha decisão.

—--- Eu vou.

—--- Você vai se perder, não sabe andar por ai muito bem ainda. ---- fala ela.

—--- Não vou me perder. ---- insisti.

—--- Tudo bem, mas você tem meia hora para encontra-lo e fazer ele ir para a aula, O.K.? ---- pergunta Marian.

Assinto, ela e Jack saem e eu começo a procurar. Não sei quanto tempo fiquei andando pelos corredores, talvez uns dez ou quinze minutos, até ouvir o barulho de algo sendo atirado contra a parede. Vou na direção do som e encontro Austin sentado no chão em um espaço entre os bancos do corredor. Ele tinha jogado um vazo contra a parede oposta.

—--- Ei, o que esse pobre vazo fez pra você? ---- perguntei me aproximando.

Ele levanta o rosto ao ouvir minha voz e me encara por um tempo, confuso.

—--- O que está fazendo aqui? Deveria estar almoçando. ---- finalmente falou.

Eu percebo dor em sua voz, o observo e depois me sento na sua frente.

—--- Você também deveria, mas eu estou aqui porque eu só quero entender o que aconteceu. ---- respondi.

—--- Você ouviu o que o Max disse, o que tem para entender? ---- perguntou olhando para o chão.

—--- Eu não sei o que aconteceu, mas tenho certeza que não foi uma simples briga e muito menos da forma que Max falou, até porque se fosse você que tivesse batido no cara, não estaria tão machucado. ----respondi calma.

—--- Bela observação. ---- ele diz e depois suspira ---- você está certa, não foi uma simples briga. Eu nunca quis brigar, hoje de manhã eu vi a equipe do Ethan aqui e os segui para ver o que eles estavam planejando para restaurar as barreiras, mas do nada o Michael apareceu e começou a dizer o mesmo discurso de sempre. Olha, você não sabe dessa parte do "discurso" e se não se importa eu não quero falar sobre isso agora.

Eu assinto, não vou dizer que não fiquei curiosa, mas se ele não quer falar sobre isso não vou força-lo.

—---- Digamos que minha família é meio que ligada a família dele por causa de um acontecimento do passado e ele não sabe a hora de parar. ---- ele fala.

—--- E então você bateu nele. ---- completei, mas acho que eu errei porque a cara dele não foi muito boa.

—--- Obrigado por “confiar em mim”. ---- disse carrancudo.

—--- Ei, me desculpe o.k. , continue. ---- falei.

Ele me olhou decidindo se continuava ou não, então se rendeu e continuou:

—--- Não, eu não bati nele, eu deixei ele me bater, na verdade me atacar já que ele usou poder.

Eu o encarei esperando que ele dissesse que estava brincando, mas ele não fez isso. Ao perceber meu olhar ele desviou o dele, parecia envergonhado, mas eu não entendia o motivo, tudo bem, ele apanhou, e dai, isso era sério, Michael usou poder nele.

—--- Espera, como assim ele usou poder? Você está bem? ---- perguntei e então percebi o que tinha falado ---- esquece, é claro que você não está bem, mas por que deixou ele fazer isso?

—--- Por que eu não posso tocar nele. Se eu fizer qualquer coisa para machucá-lo posso ser suspenso ou até mesmo expulso. ---- respondeu de cabeça baixa ---- E talvez ele tenha direito. Algumas feridas nunca se curam.