Elementium - Volume 1 - A Ascensão
11 Pactuando com o Inimigo
Notas iniciais
Nós ficamos mais um tempo lá. Eu não perguntei mais nada porque não sabia até onde ele queria me contar, só sabia que ele estava com mais dor do que deixava transparecer, isso era perceptível todas as vezes que ele se mexia e reprimia uma careta.
—--- Não precisa fingir que não está com dor na minha frente. ---- digo depois de uns minutos.
Ele levanta o olhar até encontrar o meu e relaxa os ombros, porém ao fazer isso expõe toda a sua dor. Não sei como ajuda-lo e isso me incomoda, não posso simplesmente ficar aqui olhando enquanto ele sofre, tenho que fazer algo.
Então me lembro de quando eu era mais nova e cai de uma árvore e desloquei o braço, minha mãe não estava em casa e meu pai se desesperou quando me viu esticada na grama. Ele, assim como eu, não sabia o que fazer, então me pegou no colo e me deu um abraço forte, pode parecer bobagem, mas de alguma forma o conforto do abraço pareceu diminuir a dor.
Mesmo com essa lembrança, eu me senti insegura sobre abraçar Austin, ele poderia muito bem rejeitar e me empurrar para longe, mas eu não aguentava mais olhar para seu rosto agoniado e em um movimento rápido segurei seus ombros, ele abriu os olhos assustado, mas eu simplesmente o abracei.
Ele não reagiu de imediato, talvez por causa do susto, mas depois de alguns segundos retribuiu afundando seu rosto na curva do meu pescoço. Sua respiração estava quente e seu corpo tremia como se estivesse com hipotermia.
Não sei por quanto tempo ficamos assim até que eu percebi que seus ombros relaxaram, mas dessa vez ele não parecia estar com tanta dor, então me afastei devagar, mas ele não perecia querer terminar o abraço e quando eu ia dizer algo fomos interrompidos pelo sinal que ecoou pelos corredores.
Nos afastamos em um sobressalto e bato minhas costas em um dos bancos do corredor soltando um gemido de dor.
—--- Você está bem? ---- ele pergunta vindo até mim.
Assinto mesmo sentindo a pancada latejar um pouco em minhas costas. Ele me segura e me levanta, mas continua segurando meus ombros.
—--- Obrigado.
Encaro seu rosto e ele sorri, depois me da outro abraço me soltando logo em seguida.
—--- É melhor irmos, ou vamos chegar atrasados na aula.
Segui Austin pelos corredores, ele parecia melhor e os hematomas em seu rosto pareciam estar sumindo. Eu quase tinha decorado o corredor do meu armário então não demorei um século para chegar nele. Austin ficou esperando no corredor da sala de necrologia porque ainda estava evitando andar muito.
Peguei meus materiais e quando ia fechar o armário alguém fez isso por mim e me empurrou contra ele segurando minha camiseta. Levantei meus olhos e encarei a pessoa a minha frente, pálida, olhos negros, cabelo liso e preto. Patrícia Slater.
Soltei os materiais e tirei suas mãos aproveitando para afundar um pouco minhas unhas em sua pele. Ela me olhou com ódio e apontou o dedo pro meu rosto.
—--- Escuta aqui novata, o que você pensa que estava fazendo abraçando o meu Au?
Eu sei que isso não é algo muito sensato de se fazer quando tem uma doida falando com você, mas um sorriso tomou conta do meu rosto e eu segurei a risada presa em minha garganta. Os olhos dela emanavam raiva e isso só me dava vontade de rir mais. Eu não sei porque a situação me parecia tão engraçada.
—--- Como é? ---- foi a única coisa que consegui dizer para não dar uma gargalhada.
—--- Você ouviu, Austin Lee Clark é meu, então se aproxime dele mais uma vez e vai pagar. ---- falou ela.
Não sei porque, talvez eu tenha algum problema, mas a ameaça saiu como se fosse uma piada e eu gargalhei. Em meio ao riso senti mãos agarrarem meus ombros e me empurrarem de volta contra os armários e dessa vez as minhas costas bateram no cadeado enviando dor pela minha espinha.
Suas mãos então seguraram meu pescoço e eu tentava tirar elas com as minhas, meus pés ganharam vida e atingi a lateral de seu corpo, ela soltou um gemido e afrouxou o aperto facilitando para que eu tirasse suas mãos, peguei um de seus braços e coloquei-o em suas costas levando-a até o outro lado do corredor contra os outros armários.
—--- Não toque em mim. ---- falei com raiva.
—--- Acha que algumas técnicas de luta podem vencer alguém que treina desde os 7 anos, esta enganada. ---- respondeu.
Em alguns segundos, e eu não sei como aconteceu, ela conseguiu pegar um dos meus braços e me puxar contra os armários ao seu lado me fazendo bater a cabeça, com isso ela conseguiu libertar seu braço, me deu uma rasteira e com uma mão forçou meu corpo contra o chão, o impacto lançou ondas de dor pelo meu corpo.
—--- Fique longe dele Windchestezinha de merda. ---- disse agora com as mãos mais uma vez em meu pescoço.
Eu tentava tirar suas mãos e puxava o ar desesperadamente. Seus rosto transparecia divertimento. Em algum momento quando meus pulmões já ardiam, senti suas mãos soltarem meu pescoço e braços me puxarem para cima segurando minha cintura para que eu não caísse novamente.
—--- Você ficou maluca? ---- perguntou uma voz grossa que me parecia familiar ---- o que estava pensando?
—--- Ela não ia morrer, qual é, no máximo iria para a enfermaria. ---- respondeu a voz de Patrícia a minha direita. ---- e aproposito você me machucou seu idiota.
—--- Você não sabe a hora de parar Patrícia. ---- respondeu a outra voz que ainda não lembro de quem é ---- o Martin vai saber disso, você tem que aprender qual é o seu lugar.
—--- Faça o que quiser Adreotti, alguém tem que ensinar aos novatos o seu lugar. ---- falou Patrícia ---- até logo Windchest.
Ouvi passos ecoarem pelo corredor e depois o silencio tomar conta. Quem me segurava bufou e perguntou:
—--- Ei, você está bem?
Minha respiração estava um pouco mais regulada, mas meu corpo ainda doía. Olhei para o garoto que me segurava e o reconheci quase que na mesma hora. Blake, o cara que tinha levado Mari para a enfermaria.
—--- Estou. ---- respondi.
—--- Consegue ficar em pé sozinha? ---- perguntou e eu assenti ---- Por que estavam brigando?
Ele tirou seus braços da minha cintura e eu me encostei nos armários para terminar de recuperar o fôlego. Levantei meus olhos e os dele me analisavam. Pensei no porque eu continuei a briga, talvez porque odeio que alguém me de ordens.
—--- Você é amiga do Clark. ---- concluiu ele.
—--- Talvez, porque isso importa? ---- perguntei.
—--- A Patrícia acha que o Austin “é dela” desde que o conheceu ano passado e faz isso com todas que considera uma ameaça. ---- respondeu ele e sorriu ---- talvez você seja uma ameaça pra ela.
—--- Hum. ---- foi tudo que eu “disse”.
Ao me afastar dos armários, sinto a onda dor passar pelas minhas costas novamente e agora percebo algo quente escorrer pela lateral do meu rosto. Levo a mão até onde bati no armário e meus dedos ficam úmidos. Sangue.
—--- Onde bateu a cabeça? ---- pergunta Blake vindo em minha direção.
—--- Em um dos armários. ---- respondo.
—--- Você precisa de água. ---- fala ele analisando o corte e depois minha cara de ponto de interrogação e da um sorriso ---- a água acelera o processo de cura dos Sharks.
—--- Ah.
E da uma risada e olha para os lados como se estivesse procurando alguma coisa.
—--- Vamos, eu te levo para a enfermaria, a sua aula já começou e é melhor esperar a próxima do que levar uma bronca. E nós temos que ir logo, não sei como nenhum monitor não achou vocês antes. ---- disse ele começando a andar.
—--- Você não deveria estar na aula? ---- perguntei seguindo-o.
—--- Não, estou em aula vaga, meus professores estão em reunião, o que explica o porque da Patrícia também estar livre agora. ---- respondeu seguindo os corredores com cuidado.
—--- Ela está na sua sala?
—--- Não, ela está na sala do Max e da Lilian, na NW14, eu sou da NT12. ---- respondeu.
E aqui estamos mais uma vez em um momento que eu não entendi nada de nada. Ele estava falando das turmas, mas eu realmente não entendia essas divisões, NW e NT, sem sentido total.
—--- Como as salas são divididas, quer dizer, qual o significado das letras? ---- perguntei.
—--- Bom, nós somos divididos entre nascidos e estrangeiros. NW significa nascido em Wirdgewt e NT, nascido na Terra. Os números é por causa de quantas turmas existem, agora tem dez turmas de NW e NT no primeiro ano, você está na sala da Milena, a NT 8. Da NW1 à NW10 são salas do primeiro ano, assim com da NT1 à NT10. ---- explicou ele.
Continuamos andando pelos corredores e acabei reconhecendo o caminho que levava as portas da frente, o corredor da cantina e o da sala de estar. O fato de eu reconhecer esses caminhos me deixa feliz porque significa que eu estou me acostumando com o lugar. Quando chegamos nas grandes portas de madeira que estavam abertas, pude ver vários alunos espalhados pelo jardim estudando, conversando e até dormindo.
Enquanto andava, me lembrei de uma dúvida que tinha desde que Max havia me dito que eu teria de começar todo o fundamental de novo.
—--- Blake, as salas tem divisão por idade? ---- perguntei atraindo sua atenção.
—--- Sim, as NW do primeiro ano nem sempre está composta por adolescentes. Os poderes se desenvolvem mais rápido em quem nasce aqui, podendo aparecer desde quatro até quinze anos. É muito raro que se desenvolva depois disso e não são muitos que desenvolvem com quatro e quinze, entre sete e dez anos é mais comum. O Max e a Lilian, por exemplo, desenvolveram os poderes com quinze, por isso começaram somente ano passado. ---- respondeu enquanto caminhava até o prédio da enfermaria ---- se eu não me engano eles estavam na sala NW9, por ser umas das ultimas salas de primeiro ano, tinha só adolescentes enquanto os menores ficavam nas primeiras.
—--- Então em cada sala só tem pessoas da mesma idade? ---- perguntei.
—--- Sim. Geralmente as NTs tem alunos de dezesseis e dezessete anos, apesar de ser raro pode acontecer de um elementista estrangeiro desenvolver os poderes depois dos quinze e, nesse caso, vai ficar na sala dos quinze. Ao contrário das NWs, as NTs não tem salas de alunos com menos de dez anos de idade. Os mais novos são de doze ou treze anos, é muito raro de dez ou onze, praticamente impossível, a menos que ele seja filho de um elementista com um humano, nesse caso, seus poderes tem um maior contato com o nosso mundo e podem se desenvolver mais cedo. ----respondeu.
—--- Não sabia que elementistas podiam ter casos com humanos. ---- falei.
—--- Não é o mais recomendado e é muito raro de acontecer, mas o elementista pode escolher viver no nosso mundo e no mundo mortal, assim ele fica visível o que dificulta o seu trabalho e também se torna metade mortal, perdendo sua invulnerabilidade, ficando exposto a doenças. O último registro foi de um elementista em 1986, depois desse ninguém mais escolheu viver assim. ---- falou ele.
Enquanto andávamos o corte em minha testa começou a arder e minhas constas doíam mais agora e minha cabeça também começou a latejar.
O prédio da enfermaria era grande e branco como o hospital, porém a cruz era acompanhada do símbolo do colégio. Por dentro, como o esperado, era branco com oito elevadores com os símbolos de cada elemento na porta. Blake caminhou calmamente em direção ao que continha o símbolo dos Sharks e eu o segui.
O elevador era feito de metal e a temperatura baixa fez meu corpo estremecer, passei os braços ao meu redor em uma tentativa de me aquecer, sem sucesso. Blake me analisava encostado na parede oposta.
—--- Está com frio? ---- perguntou e eu apenas assenti ---- não vai demorar, a ala dos Sharks é no quarto andar.
Poucos segundos depois as portas se abriram revelando um cumprido corredor cheio de outros corredores, todos com tapetes azuis, vários aquários e quadros de praias. Cada corredor tinha varias salas e Blake me levou até o final deum deles onde tinha uma grande área cheia de cadeiras e mesas cheias de curativos, potes com água, agulhas etc.
—--- Senhor Adreotti, acho que está na ala errada, não acha? ---- perguntou uma mulher atrás de nós.
Ela era baixinha, tinha cabelos negros amarrados em um coque apertado, olhos verdes profundos, pele bronzeada, usava um jaleco azul claro, luvas de látex e tinha um sorriso bondoso no rosto.
—--- Olá Jane, na verdade não estou aqui pra mim, a Thais é nova e não sabia como chegar aqui, então eu a trouxe. ---- respondeu Blake dando um abraço na mulher que retribuiu sorrindo.
—--- Claro que você trouxe-a, mais um pouco e vou te contratar como enfermeiro.---- Jane disse.
—--- Infelizmente não tenho tempo Jane e você já tem muitos enfermeiros. ---- falou Blake.
Jane sorriu e bagunçou os cabelos já bagunçados de Blake, depois voltou sua atenção para mim ainda sorrindo.
—--- Muito bem, qual o seu nome querida? ---- perguntou.
—--- Thais Windchest. ---- respondi.
Seus olhos pareceram brilhar ao ouvir meu sobrenome como se reencontrasse alguém que a muito tivesse perdido. Ela veio em minha direção e analisou meu rosto com um sorriso que daria para ver até de costas.
—--- Santo Zeth, como não notei a semelhança antes. ---- ela disse e ao notar minha expressão perguntou ---- Você é filha de Alequen Windchest e Lia Renning não é?
—--- Sim. Você conhece os meus pais? ---- perguntei.
—--- Conheci, eu estudei com eles, Lia era praticamente minha irmã, nós trabalhávamos juntas no hospital. ---- respondeu com um sorriso ainda maior se isso for possível ---- Você é a copia quase perfeita da sua mãe quando ela tinha sua idade, se não fosse pelos olhos verdes, seria idêntica a ela.
Sorri com essa frase, muitos me diziam aquilo e conhecer alguém que estudou com meus pais, que foi praticamente irmã da minha mãe e que a conheceu de uma forma que eu nunca vou ser capaz de conhecer, me fez sorrir e acendeu a chama da saudade que eu tinha deles fazendo meus olhos encherem de água como tinha acontecido mais cedo, mas dessa vez não permiti que as lágrimas caíssem.
—--- Me desculpe, deve ser difícil para você falar sobre isso. ---- falou Jane ao percebeu a água em meus olhos ---- Venha querida, como posso te ajudar?
—--- Bom, eu tropecei e bati a cabeça em um dos armários do corredor. ---- respondi apontando para o corte.
Blake me encarou quando terminei de falar e eu sabia o porque, eu havia mentido sobre o que tinha acontecido, mas achei melhor assim, me pouparia de perguntas, eu conseguia tropeçar no meus próprios pés – o que era praticamente normal pra mim – então não seria nada de novo, apenas um machucado.
Jane me levou até uma cadeira, analisou o corte e me olhou desconfiada, só então percebi que eu estava exageradamente reta por causa da dor em minha espinha. Ela levou uma das mãos até minhas costas, quando tocou no local onde eu tinha batido no cadeado reprimi uma careta, ele semicerrou os olhos e puxou a mão encarando os dedos que estavam tingidos de vermelho. Eu não percebi que a pancada tinha aberto um corte.
—--- Tem certeza que caiu no corredor Thais? ---- ela me perguntou com os olhos fixos nos meus.
Quando eu ia responder Blake falou.
—--- Ela brigou com a Patrícia, e você já sabe porque Jane, mas não se preocupe eu vou falar com o Martin hoje mesmo, já passou da hora dele saber.
Encarei-o com uma expressão brava que ele fez questão de ignorar. Jane me olhou preocupada e depois suspirou cansada.
—--- Essa menina não sabe até quais limites pode ir e isso vai acabar destruindo-a. ---- falou ela ---- Me diga exatamente o que aconteceu Thais, preciso saber os locais exatos que foram lesionados.
Contei a ela o que aconteceu com um resumo rápido, mas mostrando os lugares onde me lembrava de ter batido. Ela me escutou com atenção e quando terminei foi até uma mesa, pegou um pote com água e uma seringa.
—--- Não sei se já te explicaram isso, mas o processo de cura de um elementista pode ser acelerado com o uso correto de seu elemento de origem. Aqui nós utilizamos a seringa para introduzir o elemento diretamente na corrente sanguínea, no seu caso eu vou injetar água, pois o corpo de um Sharke contem três vezes mais água que um ser humano normal. ---- explicou ela.
—--- Ah... Jane, acho que não é uma boa ideia utilizar esse método com ela. ---- falou Blake.
—--- Por que? ---- perguntou ela com a testa franzida.
—--- Porque ela não é somente Shark, a corrente sanguínea dela também tem células de Fênix e se injetar mais água vai entrar em desequilíbrio. ---- respondeu Blake.
—--- Nesse caso, você tem razão, desculpe querida, eu não sabia que tinha os dois elementos. Infelizmente não posso fazer muito, apenas te dar uma vitamina que vai fortalecer ambos os lados fazendo com que eles ajam mais rápido. ---- disse Jane.
Eu assenti porque não sabia o que dizer, eu não tinha um conhecimento sobre medicina elementista, então me resta confiar nos dois. Jane foi até uma salinha no canto da área de cadeiras e eu fiquei sentada enquanto Blake me encarava.
—--- O que foi? ---- perguntei.
Ele pareceu acordar, era como se no pequeno espaço de tempo em que Jane foi até a salinha, ele tivesse saído dali momentaneamente e só agora voltado.
—--- O que? ---- perguntou confuso.
—--- Por que está parado ai como se estivesse em outro mundo?
Ele sorriu com a pergunta e se sentou em uma cadeira a minha frente.
—--- Só estava pensando. ---- respondeu ---- posso perguntar uma coisa?
—--- Pode.
—--- Você falou com a Milena hoje? ---- perguntou ele.
—--- Não, só ontem por que? ---- perguntei.
—--- Só quero saber como ela estava quando falou com ela, como ela agiu?
—--- Bom, ela parecia irritada com alguma coisa e estava sentada sozinha no fundo e eu acho que não ajudei muito piorando o humor dela. ---- respondi lembrando de quando encontrei Milena na sala.
Ele pareceu nervoso com a minha resposta, mas logo seu rosto foi tomado por uma expressão triste, ele soltou um suspiro e encarou o chão. Eu estranhei suas perguntas, elas pereciam ser importantes para ele, eu nem ao menos sabia que ele conhecia a Milena, mas vendo por esse lado, o que eu realmente sei nesse mundo, nada, absolutamente nada, o que me deixa perdida como se eu não pertencesse a esse lugar e o pior é que eu quero pertencer. Em pouco tempo eles me fizeram querer viver aqui, fazer parte da grande família deles.
—--- Foi você que a deixou irritada, não foi? ---- perguntei depois de uns minutos.
Ele assentiu ainda encarando o chão. Minha mente começou a procurar imagens dele junto com a Milena ou qualquer menção que ela tenha feito sobre ele, mas eu não falei e nem vi ela tantas vezes assim para ter tais lembranças.
—--- O que você fez?---- indaguei.
—--- Na verdade, eu não sei. Só sei que ela está brava e eu queria perguntar o porque, mas ela nem olha na minha cara. ---- respondeu.
Quando eu ia falar algo, Jane saiu da salinha com um copo na mão e veio em minha direção em oferecendo o copo. Dentro dele tinha um líquido azul claro e ao beber um calafrio percorreu meu corpo, o liquido era gelado e por um segundo meu cérebro congelou, mas logo depois me senti bem como se todo o meu corpo tivesse sido revigorado.
—--- Melhor? ---- perguntou Jane e eu assenti ---- Que bom. Agora você pode voltar para o colégio, devem faltar uns dez minutos para o inicio da próxima aula. Quando o efeito da vitamina passar os machucados estarão quase cicatrizados completamente e vai te dar bastante sono, você vai ter que dormir uma hora a mais que o normal, portanto quatro horas, nada a menos que isso.
Assenti novamente mesmo sem entender direito o assunto sobre as horas. Ela abraçou mais uma vez Blake e disse algo que não consegui ouvir, então fez um curativo na minha testa e nas minhas costas, me abraçou e nos mandou ir imediatamente para o colégio.
O caminho foi silencioso, Blake me acompanhou até meu armário e parou no dele logo depois. Enquanto ele fechava o armário o sinal tocou e ele começou a me acompanhar até a sala de toxicologia que era perto do refeitório, por isso eu não tive muita dificuldade em decorar o caminho.
—--- Você não precisa me acompanhar até lá, eu não vou ser atacada no corredor. ---- falei e ele me olhou com a sobrancelhas arqueadas ---- O.K., não vou ser atacada de novo, é sério, você tem que ir pra aula.
—--- Minha sala é caminho e eu não me importo em te acompanhar até lá, eu sempre acompanho a Milena ou acompanhava pelo menos. ---- novamente ele voltou a assumir a expressão triste, mas resolvi não perguntar nada.
Seguimos para a sala conversando. Descobri que ele era italiano, filho de um italiano com uma inglesa, ele ficou órfão com quatro anos quando os seus pais morreram em um acidente de carro a caminho dos Estados Unidos. Quando estávamos próximos da sala avistei Mari, Jack e Austin encostados na parede em frente a porta. Milena e Bryan também estavam lá conversando com eles, mas ela ficou séria e entrou na sala ao ver Blake e Bryan logo a seguiu. Austin franziu a testa e veio em minha direção mancando um pouco.
—--- Por que esta pactuando com o inimigo? ---- perguntou ele.
Eu fiz uma cara confusa, pois não entendi ao que ele se referia, diferente de Blake que deu uma gargalhada e bateu no ombro de Austin que fez uma careta.
—--- Sem ressentimentos cara. ---- falou Blake e antes de seguir o corredor me abraçou e disse ---- tchau Wind, cuidado com os corredores.
—--- O.K. ---- respondi sorrindo e então percebi do que ele me chamou ---- Ei, Wind?
Ele sorriu, deu de ombros e voltou a andar. Austin me olhava com a testa franzida e parecia curioso.
—--- O que aconteceu com você? Eu fiquei te esperando, mas a professora chegou e me fez entrar. ---- perguntou ele.
—--- Depois eu explico, temos aula agora e que papo foi aquele de “lado inimigo”? ---- perguntei.
—--- Temos jogo amanhã, Tubarões contra Aranhas, o Blake é capitão dos Aranhas, se tornando nosso rival e inimigo. ---- respondeu ele.
—--- Hum. Ele é legal. ---- falei fazendo-o arquear as sobrancelhas.
—--- Virou amiga dele agora? ---- perguntou nervoso.
—--- Talvez, acho que sim, qual o problema? ---- perguntei estranhando sua reação.
—--- Nenhum. ---- respondeu sério ---- vamos, como você disse, temos aula.
Ele seguiu até a porta e ficou esperando eu segui-lo. Ainda meio confusa fui até ele e entramos depois de assinar a chamada, nos sentamos no fundo e logo a adorável Sra. Filks chegou.
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