Notas iniciais
"Por que o mundo é tão desolador com eles? Será que é tão errado assim amar e querer estar perto da pessoa que ama? É justo que um sentimento como aquele acabar assim, como em uma tragédia grega?"

Thaís não consegue acreditar. Não pode acreditar que Alexandre lhe traiu. Ele pareceu tão sincero... E agora? Será que ele sabe que Renato não é seu primo, mas, sim, seu namorado? Será que viria atrás de seu amor?

O corpo dela está sobrecarregado com tantas emoções. Manipular o Ar lhe custou muita energia e tudo o que seu cérebro pede é um momento de inconsciência para esquecer tudo e todos. Ela não pode resistir a isso, a esse desejo ardente de que tudo fosse mentira.

Renato pega o corpo desmaiado de Thaís e a leva para o sofá. São quase sete horas da noite, mas nenhum dos dois havia comido nada. Ele corre até a cozinha novamente e pega um copo de água gelada. Já a conhece muito bem para saber qual a primeira coisa que ela pedirá depois que acordar. Volta à sala e se ajoelha ao seu lado.

Thaís ainda está inconsciente. É tão boa a sensação do nada, do silêncio, do vazio. Sem guerra, sem androides, sem a convocação... A sua família de volta, Renato ao seu lado, Alexandre sem jamais ter entrado em sua vida. Como queria ficar assim para sempre...!

Mas ela não pode. Depois do que lhe parece uma eternidade, seu cérebro começa a trabalhar novamente. As sensações confusas voltam em pequenas colheradas e Thaís sente as dores muito devagar, como para saber a textura e quão profundas elas são. Está quase chorando agora, seu coração está apertado com a traição. E o pior de tudo, não sabe por que se sente traída, se jamais teve coisa alguma com o tenente.

Thaís abre os olhos devagar e tenta focalizar tudo ao seu redor. Vira a cabeça um pouco para a esquerda e encontra seu namorado parado a sua frente, virado para o lado, com a cabeça abaixada, sem olhar para ela. Parece estar pensando em algo, preocupado, ou talvez muito triste.

Ela se sente culpada. Aquilo tudo é culpa sua. Não devia ter ido passear na praça com o tenente. Não devia mostrado daquele jeito a sua fúria contra o governo. Mas também! Como poderia adivinhar que Alexandre estava em missão? Uma missão para encontrá-la e destruí-la...

Renato levanta a cabeça para olhá-la. Seus olhos estão marejados e só então ele percebe que Thaís havia despertado. Ela está assustada com o que vê. Seu namorado está despedaçado, triste, desolado. Como ela pode ser tão cruel com ele?

Ele caminha até ela e se senta ao seu lado. Acaricia os seus cabelos e a abraça, as lágrimas escorrendo por sua face. Tenta ser forte, dar algum conforto para ela, mas ver a mulher que ama partir, talvez para a morte, não é fácil. Renato não quer permitir que ela vá. Por que o mundo é tão desolador com eles? Será que é tão errado assim amar e querer estar perto da pessoa que ama? É justo que um sentimento como aquele acabar assim, como em uma tragédia grega?

Thaís acaricia as costas dele. Aquele é o homem que ela quer em sua vida, o homem que ela confia para todo o sempre, que sabe que trocaria a própria vida pela dela. Ela não aguenta vê-lo triste assim, mas não sabe o que fazer para consolá-lo.

– Desculpa, desculpa... – ela implora.

– Não. Estou sendo egoísta, eu sei. Não posso pensar somente em mim. Perdoe-me, Thai... Eu disse que te deixaria partir, mas não disse que gostaria disso.

– Eu sei – ela sussurra. – Você é maravilhoso, Renato. Você é inteligente, bonito, bondoso, carinhoso... E é por isso e por outras coisas que eu amo você. Um dia... Se eu não voltar...

– Não diga isso. Você vai voltar. Você me prometeu. Eu sei que você vai voltar. Você é forte, corajosa, uma ótima guerreira. Você vai voltar, por nós dois. E eu vou esperar por você, sempre.

– Renato, me escute... Não posso prever o futuro, nem você. Já lhe disse, não faça planos. Talvez não exista o nós, talvez seja só você, e se eu não voltar, eu quero que encontre alguém que te ame, que te faça feliz. Você merece tudo o que o mundo tem de melhor, meu amor.

– O que o mundo tem de melhor está sendo roubado de mim por uma guerra. Não posso viver sem você. Meu mundo acabaria sem seu sorriso, seu olhar, sua voz. Nada mais teria importância. Porque a única coisa que importa e sempre importará é você.

– Ah, Renato! – soluça ela. – Por que isso é tão difícil? Eu te amo tanto...! Você é a única coisa que importa para mim agora. E é por isso que eu quero que você seja feliz.

Ele a beija docemente, como se tivesse medo de perdê-la. Thaís se entrega com carinho, as lágrimas escorrendo por sua face. Irá deixá-lo em breve e isso quebra o seu coração. Não é justo que um amor tão grande acabe assim, no meio de uma guerra.

O casal fica abraçado na sala, em silêncio. Agora já são sete e meia da noite. O tempo passou rápido, mas a dor de ambos fez parecer que se passaram horas e mais horas. Por fim, Renato a beija na testa e se levanta para preparar algo para comerem. Thaís o observa ir e se levanta também a fim de tomar um banho. Sobe as escadas, entra no quarto e se tranca no banheiro.

Vinte minutos se passam. Renato está encostado na bancada da cozinha, pensando em Thaís. Ele precisa ser ágil agora, treiná-la, mostrá-la tudo em apenas um dia, e no dia seguinte... No dia seguinte ao treinamento, ela partirá.

Ele tenta passar segurança a ela, mas nem o próprio se sente seguro. Alguma coisa aconteceu enquanto ele esteve fora, ele só não pode dizer o que seria. E mesmo que perguntasse a Thaís, tem certeza que ela jamais diria. Para não preocupá-lo, é o que imagina. Renato joga o talher que segurava na mesa e se dirige para a sala.

Thaís desce poucos minutos depois. Veste um short jeans simples e uma regata azul claro. Sabe que imprudente ficar assim, expondo o braço, a marca da convocação. Mas agora, provavelmente, já sabem quem ela é, e estão vindo buscá-la. Ela não quer se esconder. Se for preciso lutar, então lutará de cabeça erguida e com ferocidade. Ela só entra numa batalha com um único objetivo: vencer.

Renato volta-se e a vê chegando. Assusta-se com a roupa que Thaís está vestindo, mas não comenta sobre isso. Ele percebe que ela está tentando ser corajosa, mostrar quem ela realmente é. E isso inclui mostrar a própria marca.

– Você está melhor? – pergunta ele, quando ela se aproxima.

– Um pouco. Manipular o Ar consumiu grande parte da minha energia – responde.

– Vamos comer algo para você repor suas energias, então. E aí conversaremos sobre isso, ok?

– Ok.

Ele oferece a mão para Thaís e o casal vai para a cozinha. Sentam-se e começam a comer.

– Isso está delicioso! – exclama ela.

Ele sorri e responde:

– Obrigado. Acho que passar as tardes vendo minha mãe cozinhar ajudou em alguma coisa.

– Quem devia estar fazendo isso sou eu. Estou te dando muito trabalho, não é?

Ele revira os olhos e diz em tom de brincadeira:

– Você sempre me dá trabalho, Thaís.

Ambos riem e ficam em silêncio durante um momento. Thaís pensa nos outros Elementares, se já haviam recebido o segundo chamado, se eles teriam alguém como seu namorado para orientá-los. Com certeza não. Ela tivera sorte, sempre soube disso. Renato pensa em Thaís, e mais nada.

– Renato, me explica de novo. O que é esse segundo chamado?

– É um pouco diferente, porque não é a base que a convoca para a guerra, mas sim seu próprio corpo. Como um relógio biológico. Você já deve ter percebido que, para manipular os Elementos, algo no DNA dos Elementares deve ser diferente.

– Tipo uma mutação?

– Mais ou menos isso. Veja, os humanos normais, não Elementares, possuem apenas 23 pares de cromossomos, o DNA. Há alguns que possuem modificações, mutações, em algum par, e aí surgiam algumas doenças. É claro que, hoje, isso não existe mais, já que existe o mapeamento e alteração dos genes.

– Então, minha habilidade vem de uma mutação em um gene.

– Não. Eu disse que os humanos normais possuem essas mutações.

– Ah, obrigada por me chamar de anormal.

– Não, não foi isso. – Ele sorri. – O que eu quero dizer é que os Elementares possuem 24 pares. O último par é o que dá origem a seu poder e é necessário ter os dois alelos com a característica do Elemento.

– Opa, opa, opa. Mas os descendentes não recebem um alelo do pai e um alelo da mãe? Se for assim, eu não deveria ter o poder. Minha mãe não é uma Elementar.

– Sim, mas seu pai é. O que nos leva a crer que essa habilidade é única. E que esse par provavelmente não se divide para gerar descendentes.

– E isso pode acontecer?

– Não, mas como eu disse, não em pessoas normais. O governo já tentou mapear o DNA de um Elementar, mas eles simplesmente não conseguiram achar o gene. É algo minúsculo, Thai. É milhões de vezes menor que os outros pares.

– Então, é como se eu fosse uma Elementar por causa de um nada, por causa apenas de um pontinho minúsculo no meu DNA.

– Exatamente.

– Uau...! Mas e por que eu não podia controlar o Ar antes?

– Bem, seu pai me explicou alguma coisa... O gene determinante da habilidade permanece inativo, como se estivesse dormindo. Quando a marca aparece em seu braço, é como se eles estivessem acordando e avisando a você da presença deles em seu corpo. Isso significa que, se não fosse por essa guerra, talvez você não tivesse sido convocada e seus genes não seriam ativados.

Thaís pensa um pouco nessa hipótese e lembra de uma coisa que faz sua mente dá um estalo.

– Renato, se os outros convocados realmente morreram, todos eles... Meu pai não devia estar vivo. E, pensando bem, meu pai não tem a marca.

– Certo. Seu pai apenas possuía o gene inativo.

– Por que possuía?

– Porque agora ele está em você.

– Mas se você disse que todos eles morreram... Todos os que foram convocados... Por que meu pai está vivo?

– Seu pai não foi convocado para a guerra, Thai. Antigamente, há quase 200 anos, existiam dez escolhidos de cada Elemento. Nem sempre era o filho mais velho que herdava a herança genética, mas na maioria das vezes. O que aconteceu é que, quando os convocados daquela época chegavam aos 25 anos, por exemplo, eles se casavam e geravam filhos para passar a herança.

– Sinceramente, agora me parece mais uma maldição.

– Bem, mas foi assim que eles sobreviveram e geraram descendentes. De uns cinquenta anos para cá, porém, alguns convocados morreram antes de transmitir o gene. Os últimos que sobraram no elemento Ar, então, foram seu pai e o amigo dele, Julio.

– E mataram Julio... – Thaís está boquiaberta. – Eu nunca havia entendido por que ele havia morrido.

– O governo o matou. E ele não teve tempo de gerar filhos. E então a última herança ficou...

– Com meu pai. E agora está comigo.

– Sim. Você está absorvendo muito melhor do que eu imaginei.

– A diferença é essa. Eu não estou absorvendo bem. Só não consigo reagir. – Ela balança a cabeça para afastar os pensamentos. – Ok. E como acontece o segundo chamado?

– No segundo chamado, o seu corpo está despertando para o perigo, como um radar. Ele o avisa a hora de partir, porque muitos Elementares, às vezes, partiam tarde demais.

– Isso significa que fui descoberta realmente.

– Sim, e em breve eles estarão aqui.

Thaís se levanta da mesa, pega seu prato e o leva até a pia. Vira-se para Renato novamente e diz:

– Quando eles chegarem, eu estarei pronta para destruí-los.

Ele se levanta também e vai até ela, abraçando-a.

– Nossa, e onde fica aquela decisão de não matar? – pergunta.

– Não irei matá-los. Mas posso mudar de ideia algum dia.

Renato sorri e diz:

– Eu te conheço muito bem para ter certeza que você ia dizer isso.

– Sou muito previsível? – ela pergunta, com um sorriso no rosto.

– Não. Apenas conheço você, e tenho orgulho disso.

Ele a beija, e o casal fica abraçado durante um tempo, até que Thaís decide falar:

– Eu vou sentir a sua falta. A cada minuto, cada segundo, cada hora. Eu estarei pensando em você.

– Eu pensava, penso e pensarei em você sempre.

Thaís esconde o próprio rosto no peito de Renato. Está cansada, com um pouco de dor de cabeça, e se apoia em seu namorado para não cair e dormir ali mesmo. Ele acaricia as suas costas e a abraça mais forte. Ela retribui o abraço e fecha os olhos, tentando descansar sem sucumbir ao sono.

– É melhor irmos para cama. Você está exausta.

– Não estou, não... – ela tenta protestar.

– Sem discussões. Você está caindo de cansaço. Precisa dormir um pouco. E eu não vou embora.

– É bom saber que você está aqui comigo.

– Não posso estar em nenhum outro lugar, quando o meu coração está somente onde você estiver.

Ela assente e o beija no pescoço. Com um movimento ágil, Renato passa o braço por baixo das pernas dela, levantando-a e a carrega até o quarto. Thaís encosta a cabeça no ombro dele, fecha os olhos e, em poucos segundos, está dormindo. Ele a coloca na cama, ajeita-lhe sob as cobertas e lhe dá um beijo no rosto, sussurrando:

– Volto logo. Eu te amo.

Renato não demora a voltar. Dez minutos depois, está no quarto novamente. Traz consigo um pequeno medalhão, em formato de círculo. Coloca-o cuidadosamente em cima de uma pequena cômoda e deita-se ao lado de sua namorada, adormecendo logo em seguida.

Notas finais
Ooi, convocados! Sentiram saudades?! Sei que não! Enfim, tenho alguns avisos: '1) Há algumas semanas, passei por um grande trauma, e minha vida está muito bagunçada. Por isso, talvez eu me afaste um pouco do Nyah!. Sendo assim, os capítulos de Elementar serão programados! 2) Pelo motivo acima, talvez eu demore de responder aos comentários... Mas tentarei responder a todos! 3) Obrigada, de coração, por todo carinho! Espero voltar em breve! Ah, o que acharam do capítulo? Conseguiram entender? rs' Beijos da Luna.