Elementar
12 Perdida
Notas iniciais
Thaís sonha que está em um beco. Está tudo escuro e não há nenhum som de passos. A temperatura do ambiente está morna, como em uma doce noite de verão. Ela se vira procurando alguém, mas se vê sozinha. Caminha um pouco. Não há claridade alguma, nenhuma janela ou porta.
Olha adiante e toma um susto. Há vários metros, percebe uma cidade. Pensa em correr, mas sabe que não vai adiantar. Ninguém pode vê-la, ouvi-la ou qualquer coisa que denuncie sua presença naquele lugar.
De repente ela escuta um ruído. Vira o corpo rapidamente para o local e se depara com uma espécie de acampamento muito bem escondido e, na verdade, invisível. Olha mais atentamente e nota uma pessoa ali. Primeiro pensa que não é nada, que é apenas uma ilusão. Chega mais perto e pode ver o rosto.
É uma garota. Olhos castanhos escuros, cabelos longos, ondulados e escuros, o rosto gentil, a pele morena clarinha, com estatura mediana. Aquela fisionomia não é estranha para Thaís e ela tenta pensar onde já a viu antes.
Vamos lá, diz a si mesma. As lembranças vêm aos poucos. Estava escuro quando a viu. Fazia frio. Estava úmido. Então lembra-se da tempestade, do barco e da Elementar da Água.
É isso!, grita sua consciência.
Então a Elementar se levanta. Apesar do seu rosto gentil, ela está com uma expressão dura e determinada. Caminha até Thaís, olha em seus olhos e diz:
– Apresse-se. Não temos muito tempo.
Então a menina vira as costas e sai correndo.
– Espere! – Thaís tenta gritar, mas o sonho se desfaz e somente o rosto da segunda Elementar fica gravado na mente dela.
Thaís acorda suando. Ainda é cedo, o céu ainda está escuro, mas ela perdeu completamente o sono. Agora se sente recuperada, com mais energia e com muita adrenalina no corpo. Renato tinha razão, ela estava mesmo exausta. Senta-se na cama e põe a cabeça sobre os joelhos para tentar pensar.
É a segunda vez que sonha com a Elementar da água. Aquilo não deve ser normal. É como se pudesse senti-la dentro de si, como se existisse uma conexão com a outra garota. Mas e por que não pode sentir também os Elementares da Terra e do Fogo? É claro que isso não faz sentido nenhum.
Por outro lado..., ela pensa. Ela pode senti-los. Lembra das dores que teve quando viu na TV um programa mostrando um grupo de homens destruindo florestas inteiras, tudo em nome do dito “progresso”. Thaís sentiu uma raiva descomunal. Pensando melhor agora, acha que provavelmente foi assim que o Elementar da Terra se sentiu.
E também teve uma vez em que ela soube de uma explosão gigantesca de uma usina atômica que destruiu um estado inteiro. Thaís sentiu-se descontrolada, irritada, com muita raiva também. E depois ficou desesperada. Ali possivelmente ela havia sentido o Elementar do Fogo.
Thaís não consegue entender os sonhos que tem. Olha para o lado e vê seu namorado dormindo profundamente. Acaricia-o e volta a focar em seus próprios pensamentos.
Talvez ela tenha que encontrar a Elementar da Água primeiro. Thaís consegue senti-la muito mais fortemente que qualquer outra conexão. Se pelo menos a base pudesse lhe mandar um sinal...
De repente, uma luz brilha fracamente em seu travesseiro. Thaís se vira lentamente e vê um pequeno envelope prateado. Assusta-se e olha para todos os lados, checando se não há ninguém em seu quarto. Seu cérebro está trabalhando freneticamente. Será que é da base?, pergunta-se. Ela pega o envelope e, ao seu toque, ele se dissolve demoradamente, revelando um pequeno papel. A jovem foca seu olhar para lê-lo, mas sua mente demora um pouco para processar as palavras que estão escritas ali:
Primeira missão:
Sul – Água
Thaís vira o pequeno papel várias vezes. O que aquilo quer dizer? Sul? Água? Tenta pensar. Água provavelmente quer dizer que ela encontrará a Elementar da água primeiro. Ok. Isso ela podia deduzir sozinha, com os próprios sonhos. Mas sul? Pode ser o sul da Holanda, da Europa, da África ou até o Pólo Sul! Como ela poderá se guiar por esse caminho?
A jovem desiste de entender a mensagem, pensa em colocar o papel num canto, mas se decide a guardá-lo embaixo do travesseiro. Talvez quando Renato acordasse, ele pudesse ajudá-la. Agora ela tem mais uma coisa em que pensar, e isso não é nada bom.
Olha para a grande janela do seu quarto. O ambiente está escuro ainda, mas os primeiros raios de sol começam a despontar lá fora. Ela levanta da cama e caminha até o parapeito do vidro para ver o espetáculo. Suspira e novamente algumas lágrimas tentam irromper por seus olhos.
Thaís olha para a própria mão. Está fazendo um gesto involuntário, arranhando o vidro como se estivesse presa e precisasse fugir dali. Analisa o movimento e para. Sente-se como um animal em cativeiro, presa e observada por qualquer lado. Não pode fugir, se esconder ou nem ao menos se proteger. A única forma de defesa é o ataque.
Renato se movimenta na cama e Thaís se volta para vê-lo, mas ele ainda dorme profundamente. Ela abaixa o rosto e torna a olhar o nascer do sol. É tão lindo... E lhe parece tão artificial. Se é tão bonito agora, pensa e completa em voz alta:
– Imagina quando não existia tanta coisa para torná-lo tão falso... – Suspira.
De repente o braço dela começa a arder e Thaís tira a mão do vidro bruscamente. Não entende o que está acontecendo. Começa a se contorcer de dor, mas tenta fazer silêncio para não acordar seu namorado. Sua visão fica turva e ela caminha cambaleante para o banheiro. A porta se fecha atrás dela, trancando-se automaticamente. A jovem só tem tempo de se ajoelhar no chão antes de sucumbir à dor.
– Não demore! Agora! Eles estão atrás de mim! Não demore! Precisamos de ajuda! Você tem um prazo de cinco dias! Não demore!
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