Ele não está tão Afim de você
6 Capítulo 6
Notas iniciais
– Vamos lá flor da Sibéria, já chega de dormir. – Hyoga pestanejou quando os raios de sol caíram em cheio sobre o seu rosto quando Shaka afastou as cortinas.
O garoto grunhiu e enterrou o rosto ainda mais nos travesseiros.
– Ei você não tem permissão para dormir mais! Já é quase meio dia! – Shaka puxou os lençóis expondo o corpo alvo e bem feito do adolescente – levanta daí!
– Argh! Shaka você é pior que a maa – Hyoga se arrastou na cama até sentar, sua cabeça estava pesada e ainda sentia muita sede – Estou co...
– O QUE FOI ISSO NO SEU ROSTO? – Shaka estava próximo à janela e em segundos estava com um joelho na cama e o rosto do irmão entre os dedos longos – Hyoga você entrou numa briga?
– Foi mais ou menos. – Hyoga revirou os olhos e desvencilhou o rosto dos dedos de Shaka, mas o indiano o segurou pelo queixo novamente analisando o machucado – Eu acabei discutindo com alguém na boate ontem.
– E ele te bateu?! Onde Kamus estava? – Shaka disse irritado – Aliás, com que você veio? Não foi com Kamus ou ele teria me acordado.
– Eu voltei com o Ikky. – Hyoga saiu da cama e se dirigiu para o banheiro – Se quer realmente saber o Kamus sumiu com o Milo ontem! Já falou com ele hoje?
– Ele não atende o celular. – Shaka piscou os longos cílios, no rosto uma expressão de surpresa divertida – Não me diga que o Milo finalmente... Ei moleque não mude de assunto com o Kamus eu me resolvo depois, ele vai ganhar um senhor sermão por deixar você sozinho numa boate com o pervertido mestre e o pervertido aprendiz, Kannon e Ikky. – Shaka foi para o banheiro onde Hyoga já tomava banho – Agora comece a falar que historia é essa de “discutir” com alguém numa boate e esse malar roxo Hyoga.
– Eu não sei como o Saga aguenta você! – resmungou o adolescente embaixo do chuveiro – Tanta coisa melhor para saber e você aí histérico por um soquinho! Não tá nenhum pouco curioso para saber se o Milo finalmente quebrou a resistência do mestre do gelo? – Hyoga piscou malicioso – Onde será que o Kamus se meteu? Você já foi a casa dele?
– Não, sai cedo para o restaurante e vim direto para cá agora acordar você. Tirei a tarde livre do restaurante para levar você até a universidade ver aqueles cursos sobre artes que lhe falei, vai ser muito bom para ocupar seu tempo ocioso.
– A gente passa lá depois, agora eu quero ver o Kamus. – ele desligou o chuveiro e pegou a toalha – O Milo disse que ia mostrar a tatuagem e você nem acredita onde ele fez! Se não foi ontem à noite, o Milo nunca mais vai conseguir conquistar o Kamus.
– Meu deus o Milo é louco! – e Shaka e Hyoga gargalharam.
Milo era sim completamente louco por certo ruivo. Ruivo este que acabava de acordar meio atordoado em sua própria cama sentindo um peso não familiar sobre a cintura e quando se mexeu o aperto ficou ainda mais forte, a perna musculosa e bronzeada se mexeu entre as suas. Uma rápida imagem de uma coluna grega envolta em heras lhe chegou à mente e se a coluna grega tivesse sensações, seriam parecidas com as que Kamus experimentava agora com aquele corpo bronzeado emaranhado em si. Pestanejou e então as imagens da noite passada chegaram com força e ele deixou-se tombar novamente na cama coberto de vergonha e certo desespero.
Foram para a sua casa claro, Milo explicando alegremente que poderiam ficar à vontade e assim conversar, para acertar de uma vez toda aquela tensão sobre eles. Kamus tentou explicar aquele grego impossível que nada havia para conversarem, que ele não precisava ver tatuagem nenhuma e que Milo o deixasse voltar para buscar o irmão porque não era uma boa ideia deixa-lo com Kannon e Ikky.
– Kamuy você tem que deixar o garoto se divertir. Lembre-se que ele passou seis anos longe de vocês viajando por aí jogado no mundo ele sabe muito bem se defender! – respondeu Milo servindo a ele uma taça de vinho que Kamus estranhou ele ter achado. Não havia muitas bebidas alcoólicas na sua casa, já que a Ahalya e ele não bebiam (Kamus na presença dela nunca ingeria álcool) – Para relaxar ruivo.
A nota de sedução não passou despercebida pelo francês, impelido pela curiosidade ou mesmo por um extinto desconhecido, se deixou levar pelo outro, querendo saber até onde Milo iria com aquilo.
Ou estava se testando para saber até onde ele conseguiria controlar-se. Kamus só não contava com o fato de que para Milo, aquela noite era tudo ou nada e que ele confiava plenamente no seu poder de sedução para finalmente conquistar o ruivo. Pobre, Kamus estava perdido!
Ou não.
Fechou os olhos e mais imagens da noite vieram, não conseguiu controlar o arrepio de excitação que lhe correu o corpo ao lembrar-se de Milo nu segurando a taça de vinho próximo aos lábios e o quanto aquela imagem lhe tirou toda a razão. “O escorpião” murmurou lambendo os lábios secos e o desejo se acendeu novamente, como foi ao fitar a tatuagem de escorpião na virilha de Milo e o sorriso safado e estonteante que emoldurava os lábios carnudos no rosto delineado. Kamus se remexeu na cama novamente e então aquele olhar azul celeste insolente se fixou nele.
– Bom dia ruivo – a voz ainda mais rouca pelo sono era tentadora, mas Kamus lutava para não sucumbir outra vez. O sorriso que a acompanhava era uma perdição, Kamus se perguntava como alguém podia ser tão sexy ao acordar.
Não podia sucumbir outra vez... Não podia... Não mesmo?
– Mi...
– Você é tão cheiroso Kamus! – Milo enterrou o rosto na curva do pescoço alvo, aspirando o cheiro natural de Kamus com vigor, adorava o cheiro dele desde quando eram crianças – Sua pele tão macia...
As mãos de Milo começaram a passear pelo corpo do outro involuntariamente, como se tivessem vontade própria e Kamus gemeu ao sentir novamente aqueles toques firmes e ainda sim suaves na sua pele, Kamus fechou os olhos. Anos de resistência no limbo pelo simples toque de Milo, o sabor dos lábios carnudos misturados ao vinho lhe entorpeceram e o francês não conseguiu resistir.
– Sabe o quanto eu esperei por essa noite? – sussurrou Milo na orelha do outro – Eu a imaginei de tantas formas e ainda sim... Foi a melhor noite da minha vida!
– E já não era sem tempo!
Milo e Kamus se espantaram e viraram ao mesmo tempo na direção da voz aveludada e melodiosa que invadiu o aposento, havia um tom divertido no sotaque indiano, agora mais acentuado por ter estado entre os seus novamente.
– Maa – Kamus gemeu baixinho o pronome indiano e primeiro ficou ainda mais pálido até que um rubor tão forte quanto os cabelos lhe cobriu as bochechas. Milo ainda permanecia abraçado ao francês e mesmo que tivesse embaraçado, não desejava que um buraco no chão abrisse e o sugasse como o outro desejava ardentemente.
– MAA! – outras vozes e agora Kamus queria mesmo morrer.
– Vamos descer meninos e deixar que Kamuy e Milo se recomponham para se juntar a nós à mesa. – Ahalya sorriu para o filho adotivo e seu amigo, fechando a porta novamente.
– Sua mãe chegou. – Milo disse sorridente.
– Eu quero morrer. – Kamus enterrou o rosto nos travesseiros.
***
– Ele não quer descer!
Milo falou quando chegou à cozinha, perfumado e vestido, depois do banho relaxante que tomou. Shaka e Hyoga sentavam no lado esquerdo da mesa, Ahalya estava na ponta da mesma soprando o chay quente. Ela indicou a cadeira no lado esquerdo para Milo e se levantou. Ahalya ainda era uma bela mulher e vestida com seus saris multicoloridos parecia tão bela quanto uma deusa indiana com aquela expressão plácida. Enquanto Milo se sentava ela deixou o chay na mesa e se levantou.
– Eu vou falar com ele.
– Ahalya – Milo disse com os olhos na mesa, estava verdadeiramente embaraçado. Kamus teve uma das suas crises características, não disse nada, não se moveu, não o olhou e Milo sabia que o ruivo estava um turbilhão, mas que não teria um ataque ou xingaria alguém. Ele só ficaria lá, sozinho e trancado naquele quarto, talvez para sempre! – Eu sinto muito.
– Não se preocupe querido. – ela afagou os ombros do rapaz cabisbaixo e se foi da cozinha. Milo apoiou os cotovelos na mesa e suspirou chateado.
– Ai Milo não fica assim! – Hyoga disse condoído com a tristeza do outro – A maa vai conversar com ele, Kamuy só está se culpando. – ele revirou os olhos – Vai dar tudo certo você vai ver.
– Até porque agora você vai ter que dar um jeito de tudo se resolver senhor Milo porque se não eu acabo com você se magoar o meu irmão. – Shaka apontou para Milo com a faca de cortar o pão, o rosto de anjo sério – Acabou a galinhagem ouviu? Daqui para frente só o Kamuy.
– Isso Mi, agora você é um homem sério.
– Nossa! Vocês parecem a santa inquisição! – Milo reclamou, mas começou a se servir, mais animado.
***
Ahalya ao entrar no quarto do filho o encontrou sentado no sofá junto à janela, as pernas encolhidas junto ao peito os braços alvos em volta delas e o olhar distante na expressão impassível que lhe era característica. Mas a mulher sabia o que se passava na mente e no coração do jovem, ela o conhecia desde menino, o amara e cuidara com um amor sem limites mesmo que aquele ser não tenha saído de seu ventre. Fora tão difícil conquistar aquele garoto sério e comedido, mas conseguira como ninguém.
Tocou nos fios rubros e ficou ao lado dele em silencio, fitando a paisagem lá fora. Queria primeiro que Kamus sentisse sua presença como acolhedora, não como julgadora de suas ações. Ele não precisava de repreensões naquele primeiro momento, precisava de carinho.
– Não vai adiantar você ficar se martirizando agora. – ela começou e Kamus desviou seus olhos da janela para encarar os castanhos da mãe. – Até porque não há nada de errado aqui.
– Meu pai não...
– Kamus, seu pai não está aqui e pouco importa o que ele lhe dirá. – ela voltou a pegar uma mecha dos cabelos rubros do filho – Veja quem você se tornou, sem ligar para a opinião do seu pai. Meu filho entenda, se ele o amar de verdade, vai aceita-lo tal como é. Por lorde Ganesha Henry seria um monstro se não o amasse e não tivesse orgulho de você Kamus!
– Ele... Vai me odiar, ele queria que... – a voz por um fio, mesmo tentando controlar-se seus olhos lacrimejaram e Kamus escondeu o rosto entre os joelhos. – Que eu fosse normal.
– Kamus! – o tom elevado da mãe o fez levantar os olhos lacrimosos para ela e Ahalya viu com pesar a dor do seu filho. Sentou-se no braço da poltrona trazendo o jovem ruivo para si, apertando-o forte contra o peito e ele se deixou aconchegar naquele colo seguro e protetor – Nunca mais diga isso! Nunca mais diga que você não é normal, por Buda o que o Henry fez com você! – pegou o rosto do filho entre as mãos – Escute, nunca permita que ninguém, até seu pai, diga que você é anormal, um criminoso ou qualquer outra coisa dessas apenas porque você ama um homem! Kamus meu filho, o que importa é o sentimento entre duas pessoas, sejam elas homens ou mulheres... O que importa é o sentimento! Por que deve ser errado, pecaminoso algo tão puro e belo quanto o amor? Ele não se limita a gênero, cor, classe social Kamus... – Ahalya respirou fundo – Sei o quanto deseja ser um filho perfeito para Henry e dar orgulho ao seu pai... Mas isso não deve ser a custa da sua felicidade! Sua mãe jamais ia querer isso...
– Maa... – as lagrimas finalmente rolaram no rosto de Kamus porque ele sabia que falar sobre sua verdadeira mãe era doloroso para Ahalya porque lembrava a indiana que ele não nascera do seu próprio ventre. A única nodoa no amor deles era essa, que não eram de fato mãe e filho embora o amor existente entre ambos fosse de mãe e filho.
– Um dia Henry irá perceber o erro terrível que está cometendo. – ela acariciou o rosto do rapaz – Só rezo para que ele abra os olhos a tempo... Porém, eu não permitirei que jogue sua felicidade fora por conta da intolerância de Henry!
– Acha que Milo é a minha felicidade? – um riso divertido se confundiu com o choro do francês e Ahalya riu também – Aquele grego nasceu para me enlouquecer!
– Você o enlouqueceu primeiro querido! Veja tudo que ele fez durante esse tempo para chamar-lhe a atenção? Milo é louco por você, só você que não acredita Kamus.
– Louco eu tenho certeza que é. – e Kamus riu mais abertamente, aliviando o coração da indiana.
– Venha, vamos descer e vamos nos reunir como uma família deve fazer. – Kamus se ergueu e Ahalya voltou a abraça-lo – Senti tanta falta dos meus meninos! E agora que estão finalmente juntos, os três...
O rapaz percebeu que o semblante da mãe ficou triste e adivinhou o porquê.
– Ele cresceu.
– Sim, cresceu longe de nós e mesmo aparentando esse rapaz inteligente e ativo como ele foi quando criança, que marcas deixaram esse tempo largado no mundo, vivendo com aquele monstro no meu menino? – a mulher falou amarga – Eu nunca vou perdoar Henry por isso Kamus! Nunca! Vai contra o que eu acredito contra o que a minha religião prega, mas a magoa e dor que eu vejo nos olhos de Hyoga vai sempre me lembrar do ato mais vil que Henry fez na vida. Ele acabou com a infância do seu irmão e isso eu jamais vou perdoar.
Kamus passou o braço sobre os ombros da mãe adotiva e a apertou junto a si, passando conforto, se sentia assim também, mesmo esperando a aprovação do pai para tudo, ainda guardava mágoa pela tristeza que via nos olhos do irmão mais novo quando o observava sozinho. Para todos, Hyoga parecia tão esfuziante como na infância, mas às vezes quando ele achava que ninguém estava olhando Kamus percebia a tristeza amarga no semblante do irmão e sabia que era por conta do tempo em que passou longe. Kamus e Ahalya sabiam do que o pai de Natássia era capaz, Ahalya foi amiga da jovem russa na adolescência por muito tempo até que ela se casou com Henry e teve Kamus, Ahalya já tinha o pequeno Shaka e seu marido inglês. E então Natássia morreu quando Hyoga nasceu e a indiana cuidou do bebe, ajudando o viúvo, ela já havia perdido John para a guerrilha armada da ASFARC na selva colombiana. E assim ambos foram unidos pela tragédia e amizade que Ahalya nutria por Natássia e a promessa da indiana de cuidar dos filhos da amiga.
– Nós vamos ajuda-lo a superar, ele está aqui conosco agora maa. – o ruivo disse com carinho – Vamos conseguir.
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