Notas iniciais
E finalmente a conversa com Radamanthys Gente se vocês quiserem me sigam no twitter @lannymissmuse ou no Facebook Lanny Missmuse. Podem cobrar as atualizações, me xingar elogiar hauahuahauahua

– Eu ia dar a ele no seu aniversário de quinze anos, fora o meu primeiro desenho dele e o mais perfeito. Eu consegui transmitir seu rosto numa exposição inteira e mesmo assim, tenho certeza que nenhum daqueles quadros aclamados o retrata tão bem quanto este aqui.

Radamanthys olhava o quadro enorme sob a lareira do seu escritório enquanto falava a sua pequena plateia ansiosa que também não conseguia tirar os olhos do quadro. Era Hyoga sim, o menino de olhar triste e perdido que se balançava displicentemente no balanço branco com os pés em sapatinhos pretos que mal tocavam o chão. Ahalya tinha lágrimas nos olhos, Kamus segurava a mão da mãe entre as suas os olhos ainda no quadro. Saga passou o braço sobre os ombros do marido para confortá-lo.

– Por um tempo me culpei por esse sentimento, principalmente quando eu o percebia tão criança! Ele tinha apenas treze anos quando nos conhecemos e desde então nutria por ele um sentimento de adoração e amor que me era tão confuso! Mais tarde eu analisei tudo e descobri que o que me impelia a cuidar e amar aquela criança era o fato de que ela precisava daquilo. De amor e carinho, coisas que aqueles grandes olhos de céu buscavam o tempo todo nas pessoas. – ele deixou a xícara na mesa de centro e se voltou para as pessoas às suas costas – Eu era muito jovem, sensível, vinha de uma família amorosa e como filho único sempre senti a necessidade de ter alguém, um irmão para partilhar minha vida e Hyoga se mostrou tão receptivo ao meu afeto que achei finalmente ter encontrado o que procurava... De fato por um tempo foi assim. Ele estava em Londres, passaria uma boa temporada lá já que os negócios de Vladimir, meu pai e ele eram muito amigos de forma que Hyoga sempre estava em casa quando Vladimir tinha que se ausentar e era nesses momentos que aproveitávamos para pintar, estudar, conhecer os museus e artistas. Encantava-me a energia dele, embora ela se desvanecesse na presença do avô.

– Você chegou a conviver com Vladimir? – perguntou Kamus – Além das convenções sociais normais?

– Você quer saber se eu sei quem era de verdade Vladimir Sokolov? – Radamanthys riu amargo – Tive a oportunidade e por deus queria poder ter matado aquele homem com as minhas próprias mãos.

Kamus e Shaka trocaram olhares, a amargura e raiva no tom do inglês eram nítidas, sentimentos que eles também tinham. Vladimir Sokolov sempre fora o monstro no armário para os herdeiros do clã russo, desde o nascimento de Kamus. Natássia era filha única e o pai a controlava com mãos de ferro até que a jovem fugiu e conheceu Ahalya, ainda adolescente, porem com o casamento com Henry a jovem voltou a conviver com o pai que tinha o jovem francês como protegido. Mas Henry não sabia nem a metade das atrocidades que Vladimir fazia com a filha ou se sabia se calava, nunca ficou esclarecido isso nem para Ahalya. Depois que a indiana se casou com o francês, Sokolov era uma presença constante na vida deles por conta dos netos e por isso ela ficou aliviada quando Henry fora transferido para a Grécia, achando que eles ficariam livres de Vladimir.

– Minha mãe insistira para que Vladimir fizesse um jantar para comemorar o aniversário do Hyoga, mas ele foi irredutível – Radamanthys continuou – Eu não via Hyoga há dias e isso estava começando a me deixar inquieto. Meu pai veio naquela semana sobre uma estranha conversa a respeito da minha amizade com ele e eu fiquei tão indignado que brigamos e passei dois dias sem falar com ele. Vladimir havia insinuado algo sobre mim e Hyoga e meu pai veio perguntar-me, mal sabendo meu ingênuo pai que Sokolov nada mais estava preocupado com o que Hyoga pudesse ter me contado. Se Hyoga tivesse me contato tudo antes, eu faria de tudo para colocar aquele monstro na cadeia! Meu pai me ajudaria, nós conseguiríamos – o inglês suspirou cansado – Mas ele nada dizia e mesmo que eu desconfiasse da sua enorme tristeza, das marcas que as vezes podia vislumbrar em sua pele, Hyoga nunca me contou nada até aquele dia.

– O dia do aniversário dele? – Shaka sussurrou, antevendo que fosse o que fosse que Radamanthys contaria seria muito doloroso.

– Quando liguei para saber de Hyoga, Vladimir apenas disse que ele estava doente e que nós não poderíamos falar com ele – Ahalya disse com voz tremula – Eu nunca soube o que realmente aconteceu, mas sentia que havia algo muito errado. Briguei com Henry aquela noite, mas ele não me deixou voar para Londres e quando eu consegui Hyoga já havia sumido.

– Eu recebi um telefonema no meio da tarde de Hyoga, mas estava no hospital e não pude atender. Á noite resolvi passar na cobertura que ele estava morando com Vladimir e eu não estava preparado para ver o que vi.

*** Flashback

Não havia ninguém na cobertura, nem os criados e foi Hyoga quem me recebeu. Ele andava com dificuldade e havia mais equimoses no seu rosto bonito e nos braços. Não quis abrir a porta, mas eu forcei e acabei entrando ele se jogou nos meus braços e chorou, parecia tão envergonhado e furioso que por um momento eu não fiz nada além de deixar que ele chorasse em meus braços.

– My dear o que houve? – pedi aflito segurando-o com cuidado para que eu não o machucasse mais do que já estava – Pelo amor de deus Hyoga me fala!

– Foi o Vladimir Rada. – ele confessou num sussurro – É sempre ele.

– Eu vou levar você para o hospital agora – eu segurei seu rosto machucado – Não adianta, eu vou! Você precisa... Meu deus Hyoga!

O abracei forte outra vez e apenas de roupão como ele estava eu o levei dali, fomos direto para o hospital em que eu trabalhava e com alguma facilidade fiz com que ele fosse logo atendido. Chamei meu pai e a policia, fiz um grande tumulto e quando Vladimir chegou foi como se eu não tivesse feito nada! O Hyoga ficou em observação aquela noite e o diagnostico dele foi de alto agressão, diagnostico psicológico: Esquizofrênico. E ninguém falou uma vírgula sobre isso, só eu até que meu pai me bateu e pediu que eu me calasse e foi nesse dia que rompemos definitivamente, meu pai e eu.

Eu nunca acreditei naquele diagnostico, era uma mentira tão grande quanto à inocência de Vladimir. Mas ele era um homem importante, um exemplo de decência e civilidade que estava acima de qualquer suspeita. Era apenas um bom homem que cuidava de um neto problemático e segurava aquele fardo enorme com honra.

*** Flashback

– Hyoga me contou que Vladimir o estuprava há anos, desde quando moravam na Rússia – Radamanthys continuou a voz monótona e sem vida e seu olhar perdido no fogo da lareira – E como se isso já não fosse o suficiente ele me contou sobre as humilhações, sobre a culpa que Vladimir lhe incutia sempre que o espancava e abusava... Por que Hyoga despertava aquele demônio perverso nele, dizia, sempre que o olhava com aqueles olhos azuis e enfeitiçados. Hyoga tem algumas coisas gravadas, ele gostava de ouvir a própria voz e ver a sua própria perversão. Não sei o que ele fez com as gravações, provavelmente queimou junto com os quadros que ele fez na época. Vocês souberam que ele tentou se matar queimando a cobertura em que ele e Vladimir moravam?

– Por lorde Ganesha! – Ahalya fechou os olhos e Kamus apressou-se em ampara-la, Shaka e Saga correram em se aproximar, Radamanthys se levantou também, mas a indiana se recuperou e abriu os olhos. O inglês serviu-lhe um copo com água.

– Nem você sabia disso Kamus? – Radamanthys arqueou a sobrancelha – Eu imaginei que pelo menos Henry fosse contar a vocês! Ele apareceu no hospital, inclusive me ameaçou se eu não contasse onde Hyoga estava. Mas ele tinha me pedido, eu jurei ajuda-lo e faria novamente quantas vezes fosse – se virou para Shaka, pousando seus olhos dourados no louro – E depois que eu soube o que Henry fez a você, passei a me culpar menos por não ter dito a ninguém onde Hyoga estava.

– Por que não disse a nós? Deveria ter dito pelo menos ao Kamus se não quisesse dizer a mim. – acusou o indiano – Ele era nosso irmão e nós merecíamos saber.

– Então porque não foram por si mesmos saber? – questionou o inglês irônico – O tempo em que passei em Londres, eu só ouvia Hyoga se queixar que sentia falta dos irmãos e que nunca mais tinha ouvido falar deles. Mesmo que Vladimir o mantivesse prisioneiro como o mantinha, vocês deveriam ter insistido ido atrás dele! Lutado contra Henry e Vladimir e impedido que Hyoga vivesse tudo que viveu.

As acusações de Radamanthys ecoaram pela sala encontrando seus alvos mudos de culpa. Shaka estava com raiva, por ter de receber aquelas acusações do homem que detestava e ainda sim não poder rechaça-las, porque eram verdade. Ele fora covarde, mesmo que sentisse que devia, Shaka se absteve de enfrentar o pai e quando isso aconteceu era tarde demais para o irmão mais novo. Quanto a Kamus, ele nunca teria coragem de enfrentar o pai e secretamente acreditava que ia conseguir dissuadir Henry a trazer o irmão de volta. De todos, Ahalya era que sentia ainda mais essas acusações porque jurara proteger os filhos de Natássia, sua melhor amiga e acabara fracassando.

– Não estou aqui para julgá-los – retomou o inglês agora mais calmo – Sei que tiveram seus motivos e vocês não sabiam de muita coisa... O fato é que agora, embora ele tenha decidido esquecer tudo e tentar viver sua vida, os traumas acabaram afetando-o. O Amamiya é um bom exemplo disso de como Hyoga tem problemas em aceitar sentimentos bons com relação a si mesmo.

– Não que sejam bons os sentimentos que o Amamiya nutre pelo meu irmão. – Shaka resmungou e Kamus assentiu. O episódio na universidade essa manhã ainda não havia sido resolvido e ele esperava esclarecê-lo assim que chegasse em casa. Teria uma boa conversa com Ikky Amamiya antes de decidir se aprovaria a aproximação dele de Hyoga.

– Essa superproteção não vai ajudar. – Radamanthys riu de lado – Sabe eu resolvi seguir com a psicologia e esquecer meus dias de pintor famoso graças ao Hyoga. Eu decidi que queria ajuda-lo a viver melhor, a superar os traumas e por isso o incentivei a voltar para a família depois que Vladimir morreu e quando fui convidado para integrar o corpo docente da Universidade de Athenas não pensei duas vezes, embora tenha imaginado que demoraria a encontrar meu anjo – ele sorriu, agora seu semblante era cheio de amor – Eu o encontrei pintando no estúdio e foi como no passado. Ele tem um talento extraordinário, consegue capitar a essência das coisas e é um dom raro num artista. Ele deve ser incentivado, deve usar esse talento para expor seus medos e anseios, como uma forma de lidar com os traumas.

– Ele pintou um mural lindo em casa esses dias – Ahalya comentou – Eu vivo falando que ele precisa de alguém para direcioná-lo... Senhor Wyvern me diga como podemos ajudar o meu filho! O Senhor...

– Por favor, não me chame de senhor. – Radamanthys sorriu sem jeito – Apenas Radamanthys.

– Radamanthys. – Kamus interveio – Acha que pode ajudar Hyoga? Que a pintura é o caminho para ele se abrir? Como acha que ele pode superar todos aqueles horrores – Kamus baixou o olhar – Nós mesmos ainda não conseguimos superar o que ouvimos.

– Agora que ele esta com a família e um ambiente seguro e confiável, ele pode começar a se relacionar de verdade, sem culpa ou medo. – Radamanthys explicou – Ele só precisa confiar agora, saber que é amado verdadeiramente e que não é apenas um objeto. Eu acredito que o rapaz, Ikky não é? – Ahalya e Kamus assentiram – Acredito que Ikky possa ser a brecha que precisamos para que ele se liberte. O quadro que o vi pintando era Ikky, era um quadro muito perturbador e ainda sim esplendido.

– Eu vi o quadro. – Saga que ate então se encontrava calado se manifestou – Está no quarto de Ikky, achei que fosse coisa do Shun, mas ele disse que havia sido Hyoga que havia pintado na aula de artes. É... Desconcertante!

– Mas ainda sim um belo quadro. – Radamanthys se ergueu e parou em frente a lareira, olhando novamente o quadro que fizera de Hyoga – Ele nutre algo muito forte por esse rapaz, ele me falou muito dele e quando o vi pintando o quadro e depois a reação do rapaz ao ver o quadro, creio que é reciproco mesmo que ambos relutem em aceitar.

– Relutavam porque depois de encontrar Ikky Amamiya saindo da minha casa essa manhã, duvido muito que eles ficaram jogando videogame a noite inteira.

Com esse comentário de Ahalya não teve como se manter sério, até Radamanthys esboçou um sorriso, mesmo que no fundo se sentisse incomodado com o fato de que outra pessoa tivesse o coração do seu anjo.