Ele e Ela
1 Ela Voltou.
I — Ela Voltou.
Um abajur estava aceso em algum lugar, e essa seria a única luz que ele permitiria ali dentro.
As janelas estavam trancadas. As cortinas cerradas. A luz expulsa para o lado de fora.
Talvez se tratasse de uma cozinha, ou um quarto, ou um banheiro. O certo era que ele estava largado de qualquer jeito no chão, com as pernas esticadas para o alto, e metade de um cigarro pendia entre os dedos. Havia uma garrafa de sabe-se lá o quê ao lado de sua cabeça, no chão, mas estava vazia. O cheiro acre se misturava com a fumaça do cigarro e o odor de suor. Maldição, como estava quente!
Ele olhava a porta há algum tempo, obstinadamente. Às vezes adormecia enquanto o fazia; às vezes esquecia-se do motivo; às vezes olhava o relógio antiquado de ponteiros na parede e se lembrava de que já havia desistido do tempo, também. Quando foi a última vez em que a viu aberta? Possivelmente na semana passada. Ou há um ano. Ou talvez dez.
O vidro das janelas bem trancadas vibrava com o som de alguma coisa. Ah, claro! A chuva. Estava chovendo agora. Talvez por isso o som odioso do trânsito estivesse abafado e ele pudesse pensar com clareza.
Seus pensamentos pairavam junto à fumaça do cigarro e iam passar por debaixo do vão da porta. A maldita porta que continuava fechada!
Ele atirou a bituca do cigarro longe.
Não havia nada de honroso naquilo. Esperar tão pateticamente que a porta se abra de chofre, que o vento traga o cheiro da rua e da chuva (o odor da vida) e com ele traga a figura poderosa dela outra vez. Que com ela venha a luz, o som, os aromas dos quais não dispunha ali, naquela cozinha, quarto ou banheiro, onde quer que estivesse largado.
É tão patético esperar por algo que já aconteceu.
Ela parou no batente da porta e olhou o corpo magro despejado no chão.
Ele se ergueu de mau jeito, interiormente ansioso com as mil sensações que puramente emanavam dela.
Eles sorriram cúmplices.
— Você voltou.
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