Ele Me Visita Quando Durmo
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“Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar.”
(Tom Jobim – Pela luz dos olhos teus)
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Nove de outubro de 2010, Sábado.
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Olá Diário!
Essa noite alguém dormiu comigo, tenho certeza, e isso me é tão estranho porque só sentia isso quando Steve estava presente. Desta vez eu não sei onde ele está, mas alguém passou a noite comigo porque eu acordei com essa sensação. Talvez seja apenas obra da minha mente.
A minha manhã foi comum aos dos últimos dias, mal eu conseguia tomar café e estive o tempo todo avoada pensando no garoto que gosto e que sumiu sem ao menos se despedir. Eu não cheguei a odiá-lo por isso, pelo contrário, parece até que esse sentimento aumentou. E isso é ruim. Durante o turno matutino ajudei Florence com as tarefas de casa, fazendo uma faxina geral e o ambiente chegou a brilhar de tanta esfregação. Quando terminamos, tomei um banho e coloquei uma roupa bem casual, partindo para a praça.
Chegar naquele lugar tão incrível – em minha opinião – me trouxe uma paz. A brisa era suave, o cheiro de flores que estavam brotando pairava no ar criando um aroma magnetizante, os raios do Sol batendo de leve em nossos corpos em uma temperatura aguentável. Ai estava à maravilha da primavera, tanto detalhe romântico e marcante, pena que Steve sumiu antes da estação se iniciar.
Sentei-me no mesmo banco que vi Steve pela primeira vez e fechei meus olhos quando a brisa jogou meus cabelos para trás. Naquele momento meus pensamentos voaram junto com o vento suave, lembranças de um passado não tão distante, um passado maluco e que mudara minha vida. Lembranças de um belo rapaz alto, de pele clara e cabelo mais escuro que o céu noturno caminhando a passos seguros e pacíficos, com seu sobretudo negro e seus cabelos acompanhando o ritmo de seu caminhar. Aqueles belos olhos estreitos e cinza voltando-se para mim e encontrando com os meus que são azuis. Seus lábios esculpidos abrindo-se para um sorriso tão lindo e de repente ele vira seu rosto para algumas pessoas que se aproximavam.
Este foi o rumo de meus pensamentos que foram interrompidos por uma voz masculina que soou ao meu lado. Quando abri os olhos vi o rapaz loiro com um sorriso estampado em seu rosto e forcei um sorriso. Ele sentou-se ao meu lado e começou a perguntar como esta sendo minha manhã. Respondi que bem e começamos a conversar coisas sem sentidos. Sabe o que era mais estranho? Tudo o que Pietro falava era o que eu sentia: O cheiro maravilhoso das flores, a brisa que nos leva a lembrança passadas, o elo passado, a tristeza no coração. Ele seria algum tipo de adivinha? Às vezes parecia que ele lia meus pensamentos ou que me conhecia bem o suficiente.
Não gostei quando ele entrou no assunto: Steve. Isso me deixava pior e juro que naquele momento me arrependi por ter contado sobre ele, atitude não pensada e desesperada, porque eu estava triste e desconsolada. “E aquele rapaz? Conseguiu esquecer?” Essas foram, mais ou menos, suas palavras quando iniciou o assunto e apenas sacudi a cabeça negando. Ele falava e falava, cada palavra doía tanto que eu queria correr e chorar. “Esqueça esse rapaz. Ele te abandou sem dizer um adeus, isso significa que não lhe gosta realmente. Talvez esteja vivendo bem sem recordar de ti e brincando com mais outra garota linda como você. Enquanto a senhorita, Hellen, está aqui, com o coração ferido por alguém que não te merece.”, definitivamente ele não deveria ter dito aquilo e acabei discordando dessas palavras, o repreendendo e defendendo Steve. “Mas o que esse rapaz tem de especial que te deixa assim?” Foram suas palavras finais e com elas me calei. Ele é simpático, sorridente, divertido, misterioso, uma sombra que dormia comigo, lindo, carinhoso. É claro que não respondi para Pietro, isso foi o que se passou em minha mente, até porque se eu falasse ele iria saber que Steve é “diferente”, já que não é um humano comum. A verdade é que nem sei se humano ele é.
Após isso ficamos calados. Eu me senti bastante triste e me vi em pensamentos doloridos, será que Steve me abandonou para ficar com outra? Uma garota de vida e aparência mais interessante que a minha... Não! Respondeu meu coração, Steve não é assim e você, Hellen, sabe muito bem disso! Malditas voz da razão e do sentimento, brigam para estarem corretas e quem acaba sofrendo sou eu. Fiz questão de me despedir de Pietro e voltar para casa. Ainda não era horário de almoço e aproveitei para ajudar Florence no preparo da refeição.
O almoço foi legal, acredite. Florence contou muitas coisas malucas e histórias de sua vida. Confesso que achei fascinante quando ela disse que tinha uma paixão oculta por um garoto na sua adolescência. Que ele era lindo e divertido, parecia um daqueles príncipes encantados que vemos na Disney – foi assim que ela o descreveu -, mas nunca teve coragem o suficiente para confessar seus sentimentos.
Após a primeira refeição do dia – almoço – fiquei um tempo em meu quarto te olhando e pensando em desabafar sobre o que Pietro conversou comigo. Mas decidi passar na biblioteca e te levar, lá me sinto mais inspirada e tranquila, assim como no parque apesar de serem ambientes diferentes.
A biblioteca hoje está vazia e nesse momento me encontro nela. Este maravilhoso cheiro de folhas me traz um prazer diferencial, juntamente com a mesa redonda de madeira do qual você, meu Diário, está acima. Eu gosto daqui e se pudesse até mesmo dormiria junto com esses livros, os meus sonhos seriam mais interessantes, pelo menos é assim que acredito.
Diário, estou pasma. Sei que mudei o rumo da conversa, mas você não vai acreditar no que estou vendo. Aquela pele clara e aquele cabelo tão negro... É Steve! Depois falo mais contigo, preciso ir até ele! Deseje-me sorte, pois meu coração está às mil.
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