Ele Me Visita Quando Durmo
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Notas iniciais
“E amigo é isso: aquele que a presença conforta sem precisar de muito gesto ou dramatização” (Martha Medeiros)
Quatro de setembro de 2010, Sábado.
Querido Diário,
É fim de tarde e estou na praça. Como falei uma vez que senti uma vontade enorme de trazê-lo, resolvi transformar esse desejo em realidade e aqui estamos. Em breve chegará o pôr-do-sol e a visão será linda e é uma pena que você não tenha olhos para ver essa maravilha.
Meu dia hoje foi legal. A verdade é que considero ruins meus dias, mas sábado sempre é uma exceção porque vou à biblioteca e visito a praça, ás vezes tomo sorvete e – raramente — vou ao cinema – sozinha. Eu gosto de estar só, é bom para refletir sobre tudo e colocar minha cabeça em ordem.
Pela manhã passei na biblioteca e peguei um livro, resolvi não ler lá, mas dedicar esse tempo precioso em minha própria casa. O livro se chama Os Miseráveis de Victor Hugo, eu já li ele várias vezes, mas senti uma vontade de lê-lo novamente. Eu gosto.
Passei um bom tempo da minha tarde focada na leitura, cheguei até mesmo a almoçar nas pressas para concluir logo de tão focada que estava. Foi bom viajar para um mundo paralelo, se bem que tão ruim quanto o meu. Às vezes me pergunto se minha vida um dia será diferente. Se irei ter uma bela família, vivendo ao lado de um homem que me ama e que amaria também, com um emprego fixo e uma casa bem linda e arrumada. Filhos esbeltos de olhos como os meus, azuis, correndo pela casa e gritando “Mamãe, mamãe! O papai chegou!”. A verdade é que não acredito que viverei momentos assim, mas eu desejo no fundo de meu coração.
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Cuidado com aquilo que desejas!
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Diário, aconteceu algo e não estranhe essa frase esquisita que por sinal está em uma caligrafia diferente a minha. Sei que isso é estranho, mas irei explicar o acontecido.
Eu estava na praça, sentada em um banco e escrevendo, então Steve apareceu como se surgisse das sombras e tampou meus olhos naquela brincadeira curiosa de descobrir o dono das mãos. Como eu não tenho amigos além dele, falei seu nome e ele tirou, liberando minha visão para sua bela face alva de olhos misteriosos. Ao te ver, diário, em meu colo, ficou um bom tempo olhando com uma expressão de curiosidade que me deixou tensa. Acredito que estava lendo. Quero dizer, tenho certeza que lia e quando percebi tentei fechá-lo, mas ele foi rápido e tomou de minha mão você e a caneta, escrevendo essa frase. Não entendi a palavra “cuidado”, não que eu não saiba o significado, mas porque teria cuidado com meus desejos? Eles são maravilhosos e nenhuma malícia há neles.
Questionei-o sobre isto e sua resposta me deixou bastante pensativa “Porque eles podem transformar-se em realidade.”, mas era isso que eu desejava e lhe falei. Steve apenas deu de ombros abrindo um sorriso e olhando para os lados. Naquele momento foquei toda a minha atenção em seu rosto, tão meigo e misterioso, tão belo. E quando observei seus lábios que eram desenhados e charmosos aquele desejo maluco voltou a mim, tocando no interior de meu peito e acelerando meu coração. Eu queria beijá-lo e quando ele me encarou senti minhas bochechas corarem. Ele me olhava dentro dos olhos e até mesmo soltou um sorriso de lado. Era como se lesse minha mente, como se eu soubesse que lhe desejo, como se escutasse as batidas de meu coração. E ele me beijou. Não daqueles beijos de cinema completamente apaixonado e louco, onde salivas se misturam e línguas se tocam, foi apenas um selinho. Um selinho que criou borboletas em meu estômago.
Confesso que isso me deixou um tanto sem graça, mas alegrou meu fim de dia. E não só o beijo, mas observar o pôr-do-sol ao seu lado, sentindo seu braço rodear meu corpo e encostando minha cabeça em seu ombro. Foi lindo, foi sensacional, mas não foi nada disso que você poderia estar pensando. Não estou vivendo um romance com Steve e muito menos estou apaixonada. Só sinto fascinação pelo seu jeito diferente.
Falando em seu jeito diferente, eu ainda sei pouco sobre ele, quase nada. Só sei que ele consegue sumir do nada, que é bonito e é esquisito. Eu quero conhece-lo mais, quero saber onde mora, o que mais gosta de fazer e o que mais odeia. Quero ter uma amizade verdadeira. Acho que na próxima vez que nos encontrarmos irei perguntá-lo.
Até outro dia, só não sinta saudades!
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