A noite havia chegado mais rápido que o normal. Pelas ruas do reino de Orion um silencio se fazia presente e o que se ouvia eram apenas o uivo do vento e o canto continuo dos grilos que se escondiam pelos bosques. Estava fresco e a lua brilhava forte no céu bem negro tomado de estrelas. Ninguém caminhava por lugar algum, com exceção é claro dos guardas que andavam lentamente e bem atentos á qualquer atitude suspeita

Uma porta rangeu e se abriu devagar. O som prolongado vindo da dobradiça velha e enferrujada se espalhou por aquela rua e o que se ouviu depois foi a mesma porta se fechar em um baque tímido.

Kairou permanecia parado frente á sua casa olhando para os dois lados á toda hora na esperança de não encontrar nenhum guarda que poderia lhe ver e com isso fazer várias perguntas.

—Ei! Kairou! Eu estou Aqui!

O garoto ouviu um chamado contido e agonizante vindo da esquina mais próxima. Lá, parado, estava alguém escondido pelas sombras da noite. Novamente a figura o chamou com o mesmo cochicho de antes.

—Vamos logo! A princesa já deve estar chegando ao lugar! Temos que nos apressar ou iremos ser vistos.

Kairou perambulou pela rua aos saltos tomando cuidado para não fazer nenhum ruído alto. Chegou á esquina em poucos momentos e se deparou com um Eldrwin tenso e alerta para perceber e possível de longe uma folha que caísse no chão.

—E então? Tem certeza de que podemos ir pelo lugar que Anya nos mostrou no mapa? — Cochichou Kairou ainda olhando para os lados.

—Temos que arriscar! É o único meio de sabermos. Vamos — Disse Eldrwin começando á seguir sorrateiro pelas calçadas sendo seguido por Kairou que caminhava nas pontas do pés.

—E quando chegarmos lá. Eldrwin, o que nós faremos?

—Vamos torcer para que não haja nenhum guarda por perto.

O destino de Eldrwin e Kairou era o túnel secreto no qual a princesa havia entrado logo após ao segundo ataque que haviam sofrido. Deveriam seguir até próximos do templo de pergaminhos e seguiriam para a mesma rua na qual entraram naquela noite.

—Será que conseguiremos chegar á tempo? Olhe para cima! — Kairou se dirigiu á Eldrwin que parou a caminhada e á seguir olhou para a lua.

—Céus! Estamos quase nos atrasando! — Faltavam poucos instantes para que a lua chegasse exatamente ao centro do céu, Horário no qual os dois combinaram com a princesa para se encontrarem no local.

—Kairou! Temos que correr. Não temos outra alternativa.

Eldrwin acelerou o passo juntamente com o amigo logo atrás. Seguiam por uma rua sem curvas e bem longa. Ninguém cruzava com eles. Mal pareciam acreditar na sorte que estavam tendo. Quando chegavam á alguma esquina, paravam e olhavam para todos os lados para terem certeza plena de que tudo ainda estava ocorrendo de acordo com o plano.

—Vamos! — Avançava Eldrwin agora avistando as torres de templo de pergaminhos ficando mais perto.

Quando chegava próximo de mais uma esquina, Eldrwin ouviu cascos de cavalos tocando o chão. O som ia ficando mais alto á cada momento. O coração de Eldrwin acelerou num susto e ele parou de caminhar.

—Espere! Guardas! — Disse cochichando para Kairou que logo após perguntou em desespero.

—O que faremos?! O que faremos?!

—Vamos voltar! Corra!

O som dos cascos iam se aproximando com mais velocidade á cada segundo. Eldrwin e Kairou corriam desesperados seguindo o caminho oposto á toda velocidade. Não havia sequer um beco para que pudessem entrar em nenhum dos dois lados da rua. O barulho dos cascos chegando perto. Eldrwin tinha a certeza que na metade de um minuto os cavalos dobrariam a esquina e os guardas o veriam juntamente com Kairou. Não haveria escapatória. O suor começando á escorrer pelos rostos. Nenhuma alternativa para escolher. Até que Eldrwin teve uma ideia ao olhar mais á frente.

—Já tive uma ideia! Veja! — Disse indicando o que acabara de ver para Kairou que corria loucamente seguindo-o.

—Não temos opções vamos!

Dois cavalos altos de pelo marrom cruzaram a esquina trotando e sendo conduzidos por guardas que olhavam para todos os lados. Eles passaram frente á todas as casas e iam seguindo em frente pela rua completamente deserta. Momentos depois passaram frente á um monte barris que se encontravam frente á uma casa velha e continuaram seguindo até dobrarem outra esquina mais distante.

Momentos depois, cabeças emergiram na parte superior de dois dos barris. Eldrwin e Kairou foram se levantando e iam saindo bem devagar até estarem totalmente fora do esconderijo.

— Á partir de hoje... — Dizia Kairou ofegante tentando recuperar o fôlego — Levo um barril para onde for!

—Vamos! Temos que continuar andando — Insistia Eldrwin seguindo andando lentamente.

Finalmente chegaram frente ao Templo de pergaminhos, mas havia um grande desafio. O entorno do templo era protegido durante todo o dia e durante toda a noite por vários guardas e a rua na qual precisavam seguir ficava justamente voltada para a entrada principal. Mas os dois haviam bolado um plano antes de se arriscarem.

—Muito bem Kairou é com você! — Dizia Eldrwin enquanto ia se escondendo atrás de uma grande árvore e via Kairou cruzar a rua e se dirigir para o jardim que se estendia ao redor de cada uma das torres.

O garoto seguia sorrateiro e olhando para os dois lados da rua. Até que chegou próximo há um arbusto e se abaixou. Ficou ali parado por alguns segundos e fechou os olhos ao levantar uma das mãos que começou á se envolta por uma fumaça branca.

Da palma da mão de Kairou, um fogo vívido brilhou e ia formando uma pequena esfera. Ele fazia um grande esforço para mante-la acesa e logo após a chama tomar forma, ele á atirou para cima fazendo-a cair em um outro arbusto que se encontrava agrupado junto com muitos outros ao redor da torre principal.

As chamas começaram á se espalhar para os outros arbustos e para a grama verde no chão. Uma nuvem de fumaça começou a subir e os guardas ao perceberem o fogo, correram desesperados na direção dos arbustos chamuscados na tentativa de apaga-los e mal perceberam que Eldrwin e Kairou passaram frente á porta principal do templo e seguiram rua acima, virando em um beco próximo.

—Realmente! Criar forma com o fogo é algo muito difícil! Mas isso foi bastante divertido! — Dizia Kairou gargalhando baixinho.

—Conseguimos! Chegamos finalmente.

Os dois haviam chegado ao fim do beco escuro e deserto. Se abaixaram e se puseram á socar o chão na tentativa de achar a pedra móvel que dava acesso ao túnel subterrâneo.

— Mas onde está? Onde está? — Reclamava Eldrwin sem obter sucesso.

—Tem que está por aqui em algum lugar! — Protestou Kairou em seguida.

Até que um som foi ouvido pelos dois. Logo á frente no chão uma pedra se moveu e foi para o lado. Uma voz feminina foi ouvida á baixo do solo.

—Será que devo jogá-los para dentro? Entrem logo! — Disse Anya raivosa enquanto Eldrwin e Kairou se dirigiam para a passagem.

—Por que demoraram tanto assim?!

—Imprevistos! Quase fomos vistos — Dizia Eldrwin ainda aos cochichos enquanto entrava para o túnel seguido por Kairou que após isto, colocou a pedra em seu lugar.

—E agora para onde iremos? — Perguntou Eldrwin enquanto sua voz ecoava pelas paredes rochosas e úmidas de dentro do túnel.

—Venham! — Disse a princesa elevando as sais brilhosas para iluminar o caminho completamente negro á frente.

—Anya! Estes túneis, Eles estão por todo o reino? — Perguntou Eldrwin.

—Apenas por algumas partes. Eles foram construídos á bastante tempo. Serviam de rota de fuga para as famílias reais no caso de ataques. Mas foram esquecidos.

Os três andaram por bastante tempo em silencio, virando em curvas, subindo e descendo tendo diante deles somente a luz purpura das sais de Anya, A luz branca da espada de Eldrwin e a luz do fogo que vinha da espada de Kairou.

Uma corrente de ar fria cruzou o túnel escuro e o uivo assustador do vento se espalhava para todos os lados.

—Estamos chegando! — Dizia Anya animada.

Eles chegaram em uma subida bem ingrime e um pouco escorregadia. Á frente tudo estava escuro como se o túnel não tivesse fim. Caminharam mais um pouco até suas cabeças encostarem no teto pedregoso.

—Temos que empurrar! — Declarou Anya após colocar as sais na cintura e tocar a rocha acima

Eldrwin e Kairou embainharam suas espadas e ambas se apagaram.

—Muito bem todos juntos! VAMOS! — Gritou Eldrwin forçando o teto para cima juntamente com Kairou e Anya que soltavam gritos de esforço

A rocha começou a se mover revelando uma abertura. Um vento forte e gélido seguiu adentro junto com o cheiro de grama úmida

—Estamos quase conseguindo! — Gritou novamente Anya até que a rocha acima virou-se e caiu fazendo um barulho abafado.

Os três saíram de dentro do buraco escuro e claustrofóbico e após erguerem os corpos olharam para frente.

Admiraram uma planície negra e gramada que seguia até os olhos podiam ver. No horizonte eles viam o desenho do cume das várias montanhas que se erguiam como gigantescas ondas. Logo atrás deles a alta muralha se encrostava com a encosta de uma montanha e a lua brilhava forte pelo céu que agora parecia ainda mais estrelado. Estava tudo silencioso, tudo quieto. Apenas a escuridão envolta e a luz suave da lua que iluminava o rosto surpreso dos três.

—Não acredito! Isso é loucura — Exclamou Kairou.

—Nós somos loucos! Bastante loucos para fazer isto! — Também disse Anya

—Conseguimos! Nós... Nós conseguimos sair do reino! — Disse Eldrwin eufórico