Notas iniciais
Espero que curtam o segundo capítulo!

Dennis nunca me decepcionava. Pouco tempo depois daquela ligação, já estávamos no meu carro em busca de algum lugar badalado para passar o resto da noite. Coloquei um cigarro entre os dentes, enquanto dirigia, e me virei para encará-lo:

— E aí, alguma ideia de onde quer ir?

Ele parecia indeciso sobre a nossa noitada. Estávamos quase na casa dos 30. Eu com 29 e ele, o mais novo, com 27. Éramos dois jornalistas investigativos e escrevíamos para a coluna policial do mais renomado jornal da área, o "The Investigation". Embora fôssemos os dois jornalistas mais bem sucedidos do jornal, não éramos famosos e ninguém nos reconhecia por aí, a não ser que fosse um super fã da nossa coluna de investigação policial. Coisa rara de acontecer.

— Conheço um lugar bacana. Fica perto do bairro onde minha irmã mora, a gente pode ir lá. Vou colocar o endereço no GPS, espera aí.

Apenas sinalizei que concordava com um breve aceno de cabeça. Dennis parecia animado, embora de forma contida. O pai dele havia acabado de morrer e perder um ente querido é sempre doloroso. Como se estivesse lendo meus pensamentos, ele tocou de novo no assunto:

— Jonas, você acha que sou um péssimo filho por estar indo para uma balada depois de tudo o que aconteceu?

Sim. Quer dizer, não sei. Tentei ser o mais ponderado possível na minha resposta.

— Não é fácil passar pelo o que você passou, Dennis. Eu te entendo. Você passou noites em claro naquele hospital e talvez um pouco de diversão é tudo o que você precisa agora.

Ele sorriu de lado, e passamos alguns minutos em silêncio apenas ouvindo a voz estridente e feminina do GPS nos guiando até onde deveríamos ir. Ao chegar, saímos do carro rapidamente e um rapaz exageradamente alto veio em nossa direção.

— Olha lá, hein. Cuidado com o carro do meu amigo. Ele ainda tá pagando esse treco.

Ele riu ao me ver entregar as chaves do carro para o manobrista que se aproximava. Coloquei meu casaco de couro e entrei no local, esbarrando em meia dúzia de pessoas até chegar no bar.

— Preciso de uma bebida. Aliás, duas. O que você tem de bom aí?

A barista me olhou com cara de poucos amigos, como se estivesse mentalmente dizendo "não enche o saco e pede logo a droga da sua bebida", mas ao invés disso apenas respondeu:

— Temos de tudo, senhor. Whisky, vodka, tequila. É só escolher.

A garota de no máximo uns 20 anos nem sequer olhou na minha cara. Parecia entediada com tudo ao seu redor: as pessoas bêbadas e desengonçadas, os caras ao meu lado que tentavam cantá-la a cada 20 segundos, o cheiro de suor e de perversão. Pedi uma vodka e ela apenas se virou para me trazer um copo, sem qualquer sinal de entusiasmo.

— Caralho, que bunda.

Um bêbado grisalho qualquer a viu se virando e tentou apalpá-la. Por sorte, ela era rápida com os movimentos e o maluco acabou acariciando o ar. Olhei para trás e Dennis parecia eletrizante, dançando com uma morena de vestido vermelho e curto. Olhando aquela cena, coloquei minhas mãos no bolso traseiro da calça em busca do meu celular. Em vão. Eu havia o deixado no carro.

Saí de todo aquele agito e fui em direção ao meu carro. Eu tinha esquecido de responder uma mensagem urgente do meu chefe. Eu sabia que aquela hora e aquele lugar não eram os mais apropriados para tal, mas o que eu podia fazer? A procrastinação me perseguia. Peguei o celular, com uma certa pressa, e chequei se havia alguma nova mensagem. Nada. Olhei ao meu redor e não havia ninguém por perto. Ninguém além de uma mulher encostada na parede da lateral da boate, fumando distraidamente. Quando nossos olhares se cruzaram, senti que ela estava desconfortável por estar sendo observada.

— O que tá fazendo parado aí?

Jogou o que restava do cigarro no chão e pisou em cima, de forma tão estranhamente agressiva que juro que pude sentir a dor daquela bituca de cigarro em ser brutalmente estraçalhada naquele chão de concreto.

— Nada. Só vim pegar meu celular no carro.

Respondi e ela se aproximou devagar. Ao chegar mais perto, pude perceber que seus olhos eram verdes e as pupilas pareciam estar dilatadas.

— Ah. Tudo bem. Tem muita gente esquisita por aqui e não gosto de caras estranhos me comendo com os olhos.

Ela deu uma risada forçada ao falar a última parte da frase, "comendo com os olhos". A entonação confiante que usava ao falar deixava claro que ela sabia que era o tipo de mulher que chamava a atenção de qualquer um.

— Pra falar a verdade, você estava encostada em um lugar bem escuro. Como poderia te comer com os olhos se nem estava te enxergando bem?

As sobrancelhas loiras dela se ergueram como em um gesto de desdém. "Com quem esse maldito acha que está falando?" certamente era o que ela estava pensando.

— Tem razão.

A voz dela parecia firme, mas não muito sensata. Aos poucos, foi se virando e se afastando. Não sei o porquê, mas dei alguns passos até ela e perguntei:

— O que está fazendo aqui sozinha? Não acha que é perigoso?

Ela respondeu sem se virar, continuou andando até um carro preto conversível.

— Quem disse que estou sozinha?

Depois de entrar no carro, que parecia custar mais caro que todos os carros do estacionamentos juntos, pegou outro maço de cigarros no porta-luvas e se virou para mim.

— Quer um?

Recusei com a cabeça e ela sorriu com os olhos. Tragou o cigarro da forma mais sensual que alguém poderia o fazer e por alguns segundos me senti hipnotizado.

— Você não parece ser o tipo de cara que frequenta lugares como esse. Digo, você não parece ser o tipo que sai à noite para farrear.

Enquanto ela me analisava com os olhos, pensei na possibilidade dela estar certa. Como uma desconhecida, em um estacionamento de uma balada, poderia saber mais de mim do que eu mesmo?

— Que tipo de cara você acha que eu sou? O tipo que fica em casa, sentado na poltrona velha vendo documentários chatos pra cacete?

Os olhos verdes e anestesiantes dela se fecharam por pelo menos dez segundos. Ela parecia estar refletindo sobre algo, mas logo os abriu novamente e apenas disse:

— Não.

Senti algo vibrando no meu bolso. Era o meu celular. O Dennis estava me ligando, preocupado. Achou que eu tinha indo embora sem ele, então disse que eu estava do lado de fora da boate e logo ele apareceu, visivelmente alcoolizado.

— Cara, essa balada é incrível. Peguei o número de duas morenas gatas pra caralho.

Ao notar que eu estava parado no meio da garagem sozinho, ele arregalou os olhos e disse:

— O que você tá fazendo aqui, cara?

Ela havia ido embora. Olhei para a rua deserta e depois para o Dennis, bêbado e tropeçando, e falei que eu havia saído do local para buscar meu celular. Ao olhar para o chão onde o carro da mulher estava estacionado, reparei que havia um pedaço de papel. Era um número. Não de telefone, mas o CEP do endereço de algum lugar.

Notas finais
Deixem sugestões, se quiserem. Até o próximo capítulo!