Ela

5 (04) — Terceira Lei de Newton


Notas iniciais
"Na natureza, quando dois corpos se interagem, surge entre ambos uma força atrativa ou repulsiva, surgindo assim um par de forças, uma para cada corpo, mas com a mesma intensidade para ambos, pois a força surge devido aos dois" - Meu professor de Física Princípio da Ação e Reação.

— E aí, como foi?

Ele abriu um sorriso no canto dos lábios, quase uma provocação, predatório. Seu rosto se transformou, adotando uma expressão de puro deleite. Os ombros relaxaram, como se finalmente o peso do mundo os tivessem libertado. Seus olhos brilharam, iluminados por um fogo perigoso.

Como foi? Por onde poderia começar?

Imagens da noite anterior inundaram sua visão, e ele as recebeu de braços abertos.

Ela, em todo seu esplendor, foi a primeira coisa que viu quando entrou na festa. Um furacão de um metro e meio, todo sorrisos indiscretos, risadas sinceras e palavras afiadas. Com aquele vestido preto de matar, era mais perigosa que uma bomba atômica, e, seus olhos, um milhão de vezes mais letais. Curiosos, desafiadores, enigmáticos; atraíam as presas indefesas para a armadilha que era aquela garota. Enquanto dançava maravilhosamente mal, sem se importar com o que poderiam pensar, era o Sol de seu próprio sistema. Talvez fosse aquela indiferença descarada o principal fator atrativo, você simplesmente queria fazê-la se importar, queria ser o objeto de sua atenção. E que atenção disputada. Pelo menos outros cinco pares de olhos a seguiam de longe. E por algum motivo indecifrável, ela o escolhera. Chegou sem avisar, jogando conversa fora como se fossem velhos amigos, ignorando o barman medindo-a de cima a baixo. Ela ria de suas piadas, e ele, que nunca se considerou engraçado, sentiu-se o próprio Chris Rock. Ela pulou cordialidades e puxou-o para um canto onde pudessem conversar e, para surpresa de ambos, foi isso que fizeram por quase duas horas. Falaram de política, de guerra, de paz, de morte, de sonhos, de segredos, de esperanças e de medos, porque existem poucas coisas mais libertadoras que dividir suas angústias com desconhecidos. E a cada palavra que saía daquela boca maravilhosa, a cada tirada inteligente, a cada discurso apaixonado sobre aleatoriedades, uma parte dele se perdia. Ele podia sentir cada parte de seu ser se esvaindo e se prendendo a ela. Os dois estavam em seu próprio mundo, alheios do caos que os cercava. Parecia um sonho. Hoje, ainda atordoado de felicidade, ele sabia que não poderia existir melhor plano de fundo que aquele: cheiro de cigarro barato, música alta, jovens bêbados e uma brisa suave vindo da varanda da cobertura. Ele não queria quebrar o feitiço, e estava ocupado demais ansiando e desejando para percebê-la também ansiando, desejando. Quando ela o beijou, o universo inteiro desapareceu. Fora, sem sombra de dúvidas, o melhor beijo de sua vida. Seus lábios pertenciam uns aos outros, seus corpos se encaixavam perfeitamente. Aquilo que começou de maneira delicada logo se tornou urgente. As mãos dele corriam pelo corpo miúdo dela, desesperadas, demorando-se um pouco mais em cada curva perfeita. Ele puxou-a para si, prensou-a na parede segurou-a com firmeza. Ela mordeu seu lábio inferior, arranhou suas costas, puxou-o para si e segurou-o com firmeza. Os dois ficaram naquela dança por sabe-se lá quanto tempo e, no fim da noite, estavam ofegantes, elétricos, radiantes. Hoje, ele pensava naquele furacão de um metro e meio, em seu riso fácil, em suas palavras afiadas, em seus corpos pressionados e na conversa que tiveram pelo celular madrugada afora; pensava em como adormeceram quase ao mesmo tempo, cada um em sua cama, sonhando estar ao lado do outro. Hoje ele pensava em como fora obra do destino estar naquela festa, naquela noite.

Como foi?

— Sensacional.

Notas finais
Sim, isso foi um parágrafo gigante. Sim, isso foi de propósito. Sim, eu sei que isso foge da norma culta e blablabla. Sim, eu considero isso uma licença poética. Não, eu não tenho essa bola toda pra escrever com licença poética. Não, eu não me importo.