Ela

6 (05) — Autorretrato


Gostaria de poder afirmar com certeza absoluta que estou vivendo da maneira como gostaria, que estou completamente satisfeita com a realidade, que tudo faz sentido e que as coisas deveriam permanecer como estão. Gostaria de acordar todas as manhãs com a energia renovada, a mente tranquila e as ideias no lugar, com vontade de levantar e sair de casa. Gostaria de me deitar à noite com a sensação de dever cumprido. Mais que tudo, gostaria de ser uma pessoa conformada.

Ao invés disso, nasci assim, meio quebrada, meio bagunçada. Uma adição desnecessária de prefixos mudou minha configuração padrão e me tornou inconformada. Não consigo me satisfazer com pouco, o que não seria um empecilho tão inutilmente grande se eu, de fato, segurasse as rédeas da minha vida. Tenho apenas dezessete anos, sou uma criança, uma ninguém e, ao mesmo tempo, uma de muitos. Tenho apenas dezessete anos e não tenho o poder de mudar aquilo que me inconforma. Estou condenada à passividade.

Olhos sem brilho, ombros caídos, olheiras profundas e dedos calejados e marcados. Dores nas juntas tão arrebatadoras quanto as de um idoso, tiques nervosos de ansiedade muitas vezes subestimados, unhas manchadas de grafite e roídas até a carne. Mente cansada, sem conseguir seguir em frente, e o sentimento de inutilidade. Sou moldada por uma instituição, reparada para encaixar na forma perfeita, desencorajada a seguir meus sonhos e desmerecida por números que medem meu valor no mercado educacional. Porque é nisso que os colégios se transformaram, máquinas de dinheiro, pequenas indústrias. Treinada como um animal para pintar círculos em um questionário, e para gabaritar um exame à prova de acertos. É esperado que eu falhe e, mesmo assim, sou burra se o fizer. Tenho apenas dezessete anos, e sou só outra estudante, um camaleão nesse mar de uniformes azul-marinho.

Quando entrar no mercado de trabalho, receberei até 30% menos que meus colegas, porque nasci com o órgão genital errado. O fato de que poderia ser mais competente será insignificante, sou do sexo frágil. Não posso andar na rua à noite — e durante o dia, para ser honesta — sem temer pelo meu corpo, ou pior, pela minha vida. Aliás, sou um objeto de desejo, uma mercadoria, uma distração, não sou um ser humano. Minhas roupas definem meu caráter e, por isso, preciso me cobrir, mesmo no verão. Preciso derreter por completo, dignidade, opiniões, essência. Não seja vulgar, comporte-se como uma mocinha. Se escolho algo muito revelador, sou puta; se escolho algo que não mostra meu "potencial", sou santa, entediante, e vou morrer sozinha. Nunca sei se os homens se aproximam de mim porque querem me conhecer, ou porque me querem. Tenho apenas dezessete anos, mas já estou fadada ao segundo lugar, sou apenas outra mulher.

Quero passar as noites acordadas, no sereno, dançando sob a luz do luar, com a música no volume máximo, fazendo o chão tremer. Quero, mesmo que apenas por algumas horas, escapar da realidade, sentir minha alma deixar o mundo terreno, transbordar. Chame-me de romântica, sei que sou uma mistura da segunda e terceira gerações: uma revoltada buscando escapismo nas letras. Corpos colados, na mesma sintonia, carícias trocadas escondidas na escuridão, respirações ofegantes. A batida energética que nos impulsiona, a urgência por trás de cada movimento. Quero absurdos, quero extremos, pois a vida é curta demais para meias experiências. Estou aqui pelas inteiras. Quero exageros, o oito e o oitenta, tudo, e não nada.Nossos textos são confusos, misturados, embaraçados? Sim, sim e sim. Nos perguntam porque temos tanta pressa, porque somos inconsequentes, como se não soubessem, como se não tivessem passado por isso. Estamos condenados a dias sem fim de trabalhos semi-escravo. Tenho apenas dezessete anos, e sou uma dentre muitos jovens que tentam aproveitar enquanto podem, que tentam viver ao invés de sobreviver.

Ossos, estômago, rins, veias, artérias, coração e cérebro. Sou reações químicas, impulsos elétricos e movimentos mecânicos. Para surpresa de muitos, esses são os elementos comuns a todos os Homo sapiens, sem excessão. Sou caucasiana graças à genética, mulher graças ao acaso — e um cromossomo -, heterossexual graças à configuração individual da minha biologia, e da classe média graças ao trabalho árduo e sorte de meus antecessores. Nada disso me faz superior, nada disso foi minha escolha. Entretanto sou privilegiada, nasci na minoria dominante. Não acho justo, muito menos concordo com este privilégio; a meu ver somos todos iguais e devíamos ter as mesmas chances. Não compreendo preconceitos baseados em acasos, disputas religiosas e guerras. Pobreza, fome e falta de moradia em um planeta tão rico. Estupros e crimes sexuais em uma sociedade dita civilizada. Há muito que não compreendo, mas, principalmente, não vejo sentido na aversão entre seres da mesma espécie. Tenho apenas dezessete anos, e sou uma humana defendendo a humanidade em um mundo onde humanos parecem tê-la esquecido.

Tenho apenas dezessete anos. Já passei pela puberdade e comecei a amadurecer. Estou no começo da uma longa trajetória, mas já caminhei mais que muita gente.

Sou indignada

estudante

mulher

jovem

humana.

Só sou. Por que não podemos todos apenas ser?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.