Ela
4 (03) — Sou de confusas
Ele é de exatas. Vê o mundo através de números, triângulos retângulos aqui e ali, senos e cossenos. Analisa a distribuição de caixas de correio na rua e sua frio quando percebe a ausência de um padrão. Mede ângulos de sorrisos, danças e carícias, tudo é meticulosamente calculado, planejado. Se o perguntarem por quê a laranja caiu no chão, ele começará a explicar sobre gravidade, força peso, resistência do ar. Eureka! Afinal, para tudo há uma explicação racional, um teorema, vetor resultante. Para ele, as coisas têm começo, meio e fim, um caminho em linha reta, óbvio. Números, reações químicas, diagramas, gráficos e planilhas, nós somos contabilizáveis. Um beijo, um abraço, um carinho, o coração acelerado: impulsos elétricos e hormônios. Simples, direto.
Ele é de exatas e vê o mundo a seu modo, ama a seu modo e seu futuro é claro, vai fazer engenharia. Ajudar no constante processo de transformação da vida, porque nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.
Ela é de humanas. Para ela o mundo é cores, formas, pessoas e histórias. É o que podemos e não podemos ver, o ontem, o hoje e o amanhã. Aquele prédio é o resultado de sonhos, ideias, desejos, de horas sem sono, dedos sujos de grafite e centenas de rascunhos rejeitados. A catedral é um livro aberto, as guerras são organismos vivos e tudo tem uma explicação. Só que o caminho não é reto, é cheio de curvas, desvios, voltas e becos sem saída, e cada resposta encontrada gera milhares de novas perguntas. Toda ação, de fato, gera uma reação, mas esta não é simples o suficiente para ser espremida em algarismos e mapas de forças. São sentimentos, bagagens, pontos de vista e vivências. Por que a laranja caiu no chão? Porque alguém a derrubou enquanto fugia, ou talvez porque a sacola que a carregava arrebentou. São múltiplas possibilidades, são múltiplas interpretações.
Ela é de humanas e ama com todas as forças, sente como se usasse entorpecentes, mergulha de cabeça. Ela é complexada, perdida e encontrada, entende e não entende, tenta explicar. Briga, quebra tudo e chora, porque se importa. Ela é de humanas e seu futuro é um pouco mais amplo, pois tudo é fascinante; antropologia, literatura, história, arquitetura, direito, artes e filosofia. Ela quer deixar a sua marca.
Eu sou de confusas. Não sei o que gosto e o que não gosto, depende do dia, do clima, do humor. Nada é direto, mas caminhos demais me deixam estressada, pois não suporto rodeios desnecessários. Encontro nos livros a calma que nenhuma química poderia proporcionar, e nas fórmulas matemáticas o conforto para a ansiedade que a filosofia parece causar. A curiosidade me empurra na direção da História, a vontade de entender o mundo, na da Biologia, e o desejo de construir algo concreto, na das Engenharias. Gosto de tudo e não gosto de nada, quero ser feliz. Não sei minha área, mas sei o que quero.
Quero ser independente, me sentir útil, fazer algo que importa. Quero ganhar dinheiro e quero doá-lo, quero mudar o mundo. Quero meu espaço e quero atenção, quero amar e ser amada. Quero me sentir necessária, mas não quero ser sua razão de viver. Somos mutualistas, parceiros, iguais.
Sou de confusas. Comecei falando sobre faculdades e emendei com amor. Sou assim, meio bagunçada.
Sou de confusas. Meio exatas, meio humanas, meio biológicas.
Se somarmos três meios, o resultado não será um inteiro, porque, já disse, não sou de exatas, sou de confusas.
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