Ela

3 (02) — Limites


Notas iniciais
Música citada seria "W.D.Y.W.F.M?" de The Neighbourhood.

"O que você quer de mim?"

É uma ótima pergunta, caro vocalista do The Neighbourhood. O que você quer de mim?

Estou com meus fones de ouvido, e isso significa que não, não quero falar sobre o que aconteceu entre nós na última festa. Sobre nossos corpos tão próximos e as palavras gentis sussurradas longe de nossos amigos, sobre sua declaração. Não me dou bem com sentimentos e eles também não vão com a minha cara; convivemos pacificamente em ignorância mútua. Definitivamente uma decisão pouco inteligente, mas, novamente, não ligo.

Então não adianta me olhar desse jeito, parecendo um cachorrinho sem dono. Você já chegou perto demais de destruir minhas defesas e ultrapassar minhas barreiras e isso me deixa apavorada. Como ousa? Estou aqui, quietinha, na minha, vivendo meus dias contente com a depressão e a letargia, cômoda com minhas crises existenciais. E chegas querendo mudar tudo, acabar com meu equilíbrio doentio. Não, me recuso.

Por isso, estou te ignorando, enquanto finjo não estar. Preciso estudar, tenho muitos trabalhos, tarefas... Desculpas. Ambos sabemos que lição de casa não é minha prioridade, não consta no meu vocabulário. Só não quero admitir que você teve a audácia de desafiar nossa amizade e colar seus lábios nos meus, e que eu, por alguns minutos, senti o peso do mundo deixando meus ombros. Não, prefiro continuar te ignorando.

Por favor, não venha até mim, não agora. Vou aumentar o volume da música e arranjar outra desculpa para "esquecer" de te responder.

Onde foram parar os dias em que eu escrevia durante a aula e você apenas observava? Sim, eu sei que você me olhava trabalhar, e, sinceramente, tudo bem. Nunca me interrompeu, e é isso que importa. Respeitava meus limites. Por que mudar, de repente? Estávamos tão bem.

Não que você beije mal ou seja todo desengonçado, muito pelo contrário, mas eu não estava preparada. Odeio surpresas, não saber o que fazer. E agora não consigo te olhar nos olhos sem pensar na tua mão correndo pela curvas das minhas costas, e a minha passeando pelos teus cabelos. Isso é uma puta injustiça.

Sou incapaz de lidar com essas coisas, e você vai se machucar, e me culpar, me chamar de manipuladora, dizer que te usei e joguei fora, insensível. A maioria destas palavras é, de fato, verdadeira, mas você também é dono de parte da culpa. Me conhece, sabe que sou quebrada, com algumas peças faltando no motor principal. Deveria ter imaginado que não lidaria bem com essa situação.

"Estou apaixonado", você disse, e eu travei.

Travei porque não sentia o mesmo, porque, talvez, nunca sentiria, porque não conseguia me imaginar um dia falando de amor. Porque você merece coisa melhor, e porque eu sou egoísta demais para te deixar partir, e medrosa demais para te deixar entrar.

Tudo tem limites, e é melhor a gente traçar os nossos.

Você se perderia tentando me entender, e acabaria com tudo, de qualquer jeito. É melhor quebrar um coração do que ter o seu esmagado, e é assim que me garanto.