Ekusas
9 Sasuke
Notas iniciais
Um dos meus passatempos favoritos, depois do esgrima, são exercícios de lógica matemática em níveis mais desafiadores. Não gostar de dormir e não ter uma rotina de descanso nada próximo de níveis sadios muito me ajudava a pernoitar me divertindo com desafios complexos.
Porém, nem o nível mais extremo de Sudoku bagunçou tanto – em um curto espaço de tempo – minha cabeça como Sakura conseguiu em míseras horas, sem o menor esforço.
Primeiro sou forçado a ler seu desabafo sobre como homens são frustrantes, e logo em seguida descubro que ela tem uma pessoa em sua vida chamada John e que supostamente é o cara perfeito.
Esta mulher é um enigma, e estou sentado diante dela, explicando os detalhes já acertados de nossa viagem.
Não sei o que ela tem de errado, ou talvez se eu tenho algo de errado, afinal, ela me olha de forma tão aleatória que me leva a crer que apenas seu corpo está aqui presente, a mente vagando por qualquer universo fictício ou pensando em seu amor platônico.
Aliás, como é possível que seja tão apaixonada por Naruto e tenha alguém chamado John? Ela é mais safada do que eu poderia imaginar.
— Você entendeu tudo?
— Eu vou ter que falar em público? — ela faz uma careta. Estou prestes a perder a paciência, na minha cabeça é óbvio demais que sim, expliquei e repeti duas vezes que ela faria uma palestra a uma dúzia de diretores e investidores.
— Sim. Mais alguma dúvida?
— Você sabe se no hotel em que ficaremos são permitidos animais de estimação?
A encaro por um momento, em silêncio. Estou olhando em seus olhos e tentando descobrir se está falando sério.
Para meu azar, sim, está.
— Não sei, Sakura. Não é bem uma das minhas prioridades.
— Tudo bem, certo. —ela sorri e afasta a cadeira — Entendi. Será que você poderia procurar saber com o hotel se eles aceitam ou não animais domésticos? É muito importante.
Apoio o queixo a minha mão esquerda e a fito sem palavras. Ela está em pé, parecendo realmente apreensiva por uma resposta positiva.
— Não.
— Tudo bem, tudo certo. — seu riso é trêmulo à medida em que se afasta—Mas eu entendi todo o processo, pode ficar tranquilo. Quatro dias em um hotel, tour pela matriz do senhor Yahiko, reunião com os investidores... Vou estar pronta.
— Que bom. Quando nós vamos? — pergunto, para que ela me diga a resposta e eu confirme se estava me ouvindo ou divagando sobre outro assunto.
Ela para, olhando para todos os lugares possíveis na sala, exceto em meus olhos.
— Vamos em vinte dias.
Receber uma resposta certa pela primeira vez muito me alivia e me permito sorrir. Sakura parecia tensa, embora eu não entenda o motivo, afinal, tentei ser legal o tempo inteiro, então soa como uma tentativa de acalmá-la.
Aliás, eu fui legal até dizer “não”.
— Isso mesmo. Você ouviu tudo, bom trabalho.
Ela sorri timidamente e coloca a franja atrás da orelha. A franja rosa.
Francamente, não sei como contratei uma mulher com aquela tonalidade de cabelos. Ela não fez a entrevista de emprego comigo, foi minha assistente Shizune que a ligou, pedindo que viesse. Quando vi a pessoa de cabeça rosa sentada em meu hall, imaginei que fosse alguma adolescente revoltada representando algum movimento social em busca de uma conversa comigo, certamente para falar sobre direitos trabalhistas, ou a rotina de meus empregados e como sou um “burguês mau que os explora impiedosamente”. Já passei por isso antes, desde então não recebo pessoas fora de minha agenda ou que tenham marcado com muita antecedência e passado por análise.
Para meu azar, eu estava enganado.
Shizune deve ter sido muito impetuosa ao escrever o nome Sakura Haruno dentre a lista dos melhores selecionados. Lembro-me de, enquanto segurava o currículo mais prosaico que já vi em mãos, perguntá-la “você tem certeza?”.
E agora estou diante dela, que ironicamente é candidata a promoção.
Céus, o que estou fazendo?
— Senhor Uchiha, eu queria aproveitar a chance e agradecer pela oportunidade. Eu sei o quanto deve ser difícil depositar confiança em mim — que bom que sabe — mas vou dar meu melhor. Não vou desapontá-lo!
Ela parece tão confiante e promissora que me soa cômico. Ultimamente tenho pensado mais constantemente sobre ela do que antes, e sempre tive uma impressão de insegurança e esquisitice quando lembrava da maneira com a qual se impunha durante todo o tempo.
— A antecipação está me matando.
Sakura arregala os olhos verdes e todo seu momento de autoconfiança e determinação evapora com a minha resposta. Se há algo que ela tem de bonito, definitivamente são os olhos, e apesar do cabelo, ela tem uma aparência natural.
Não é nada próximo do tipo de mulheres que estive antes, talvez meus gostos tenham mudado depois dos 30, mas definitivamente não posso negar que ela é atraente apesar do comportamento desinteressado sobre tudo. Desleixo testa minha paciência.
Estamos enfrentando um momento de silêncio sepulcral. Se eu não falar alguma coisa, ela certamente não tomará a atitude, então alivio a situação: — Muito bem, Sakura, você pode ir embora.
Ela faz uma referência e solta o ar pela boca sonoramente ao virar as costas; provavelmente expelindo a tensão que sentia, e não sei se gosto de deixá-la tensa. Naruto jura que as pessoas ao meu redor têm forte tendência a se sentir desta forma mesmo quando me esforço para ser agradável, mas é um fato tão cotidiano que já estou acostumado, embora tenha me causado dificuldades em relacionamentos sociais durante a adolescência.
Sakura atravessa a moldura da porta e prende os cabelos curtos enquanto caminha, posso vê-la facilmente pela porta de vidro, porém, inesperadamente, ela desliza e cai de encontro ao chão.
Foi uma queda engraçada e giro minha cadeira – para que não me veja –, ficando de frente para a paisagem urbana que não me impede, em nenhum segundo, de rir. Estou tampando minha boca com a mão e mesmo assim sinto mais ânsia de rir quando minha memória repete a cena continuadamente.
Droga, preciso me controlar.
Tenho um forte autocontrole a situações genuinamente cômicas, desde cedo, meu pai tem me aconselhado a lembrar da dor de um chute no saco a cada vez que uma situação engraçada aconteça e eu precise, a todo custo, me manter sério.
Com a expressão fechada, afasto a cadeira estofada e recolho alguns formulários importantes que lerei mais tarde dentro de uma bolsa transversal.
Tenho receio de que não conseguirei segurar o riso quando olhar para ela, mas preciso me manter concentrado a dor de um chute no saco para conseguir tal proeza. Este truque já funcionou em momentos piores, por exemplo, em uma das primeiras palestras que ministrei a um público seleto, um homem de sessenta e poucos anos de idade estava ajustando a altura de sua cadeira para parecer mais alto e acabou a quebrando. Ele gritou, caiu no chão e a xícara de café quente que estava bebendo caiu em sua roupa social, o que ocasionou mais gritos escandalosos.
Todos riram, menos eu. Eu fiquei sério todo o maldito tempo. Não poderia ser tão difícil agora.
Giro a chave na porta, trancando meu escritório. Sakura está apoiada a parede, segurando um sapato em mãos. Ela me olha em desespero, mas tosse, fingindo que está no controle da situação e eu passo adiante em direção ao elevador.
Consegui.
Como havíamos ultrapassado o horário de saída, éramos as últimas pessoas naquele andar e em poucos minutos a iluminação seria cortada totalmente. Ambos os elevadores estão parados, um no estacionamento subterrâneo, o outro no quinto andar.
Enquanto aguardo, Sakura caminha em minha direção, está mancando porque apenas um de seus pés está envolto por um salto que me parece semelhante a um instrumento de tortura da Idade Média. Há uma careta em seu rosto e ela está suando quando observa os visores dos elevadores e percebe que eu já havia chamado um deles.
No momento estou pensando se seria inapropriado ou insensível da minha parte não dizer alguma coisa, mas não quero me envolver, por mais que eu duvide de sua capacidade de me amolar com situações desnecessárias.
Infelizmente não posso fingir que não vi o salto quebrado em sua mão direita.
— Tudo bem? — pergunto.
— Tudo. — ela faz um breve gesto de mão. Logo em seguida apoia o antebraço à parede e esconde o rosto ali.
Não preciso me envolver. Ela já disse que “tudo estava bem”.
— Aconteceu alguma coisa?
— Sim, eu quase comi o chão há pouco. Meu sapato “made in China” já era.
— Hum. Machucou alguma coisa?
— Meu traseiro está doendo. — seu rosto se contorce em uma careta.
Depois disso ela congela e encara os botões do elevador atônita. Provavelmente acha que a palavra “traseiro” é uma barbárie a se dizer ao lado do chefe. Sua expressão se fecha e ela endireita a postura, ficando séria com custo – seu traseiro deveria estar realmente dolorido – enquanto aguarda o elevador.
As portas se abrem e nós dois entramos. Pressiono o botão correspondente ao térreo e percebo que estou inquieto.
Droga, eu deveria ter continuado na sala fazendo qualquer coisa inútil. Ela teria ido à frente e este momento constrangedor, no qual eu me sinto forçado a oferecer ajuda, não aconteceria.
— Hum, como voltará para casa? — eu pergunto, sem fazer contato visual mesmo pelo espelho ao nosso redor.
Ela parece pensar na possibilidade apenas por que a mencionei.
— Geralmente eu uso o metrô, mas hoje chamarei um táxi.
— Posso dar uma carona, se quiser. — comento, temeroso de que vá aceitar. Foi uma pergunta educada.
— Não! — ela exagera no volume da resposta, como se a simples possibilidade fosse absurda — Chamarei um táxi. Mesmo assim, obrigada.
Que alívio.
A possibilidade de colocar caixas de som com música ambiente me parece mais aceitável agora. Qualquer coisa seria melhor do que o silêncio constrangedor que se seguiu. Tudo bem, aparentemente eu sou o único desconfortável, afinal, ela parece mais preocupada em desfrutar da suposta dor no traseiro do que demonstrar nervosismo por minha presença.
Quando chegamos ao saguão eu disparo adiante. Alcanço Jiraiya, o segurança pervertido que corta a energia do prédio e sai ao mesmo tempo que eu todos os dias. Somos sempre os últimos a sair, exceto naquela noite, e percebo que ele está agradavelmente surpreso pela minha companhia e me olha com uma expressão suja.
Certo, ele tem um ponto desta vez. Sakura e eu ficamos algum tempo a mais sozinhos na cobertura, saímos do elevador juntos e ela estava andando de um jeito estranho. O que ele, com uma mente já fértil, poderia pensar além do que parecia óbvio?
— O senhor estava instigado hoje. — ele comenta e pisca, me acertando com o cotovelo — Deixou a mulher assada.
Eu penso em explicar superficialmente o que aconteceu, mas por se tratar dele, a possibilidade é imediatamente descartada. Passo a mão pelo rosto e o entrego um molho de chaves.
Jiraiya era de confiança total. Trabalhara com meu pai antes e o legado foi passado a mim. Se fosse para escolher, eu demitiria Naruto ao invés dele.
— Obrigado por esperar. — agradeço, e Sakura passa por nós retribuindo o aceno dele — Até amanhã.
Ela ultrapassa as portas e faço o mesmo em seguida.
Como ainda não fui assaltado até hoje, deixo o carro estacionado no meio fio. Naruto caçoa dizendo que faço isso para exibir meu carro, mas é a mais pura e genuína preguiça de entrar no estacionamento todos os dias. Eu saio sempre apressado e com coisas para resolver.
Abro a porta do passageiro, jogando a bolsa sobre o banco e dou a volta até o lado do motorista. Entro no carro e não faço qualquer movimento, observando-a de longe, na calçada, inquieta e constantemente mudando o peso do corpo sobre os pés, com o celular em mãos, míope, certamente em busca de um táxi.
Droga. Aquela era uma cidade grande, a não ser que ela conseguisse um motorista que estivesse na área, esperaria no mínimo vinte minutos naquela calçada, em um bairro empresarial que se torna mais esquisito depois das sete horas, sozinha, com saltos na mão e o traseiro doendo.
— Puta merda. — eu praguejo, ao descer do carro outra vez e caminhar em direção a ela.
— Algum problema? — ela pergunta, retraindo as sobrancelhas.
— Onde você mora?
— Meguro. Por quê?
— O táxi, conseguiu?
A sequência de perguntas entre nós me intriga.
Eu realmente poderia apenas ir embora.
— Sim, ele está vindo.
— Onde ele está?
— Shibuya.
A mais de vinte e cinco quilômetros de onde estamos. Se eu não a conhecesse, diria que fez de propósito, mas apesar de demonstrar curiosidade, parecia realmente responder as perguntas no automático, sem saber o que eu pretendia.
— Eu realmente posso te dar uma carona.
— É muito gentil da sua parte, mas não. O táxi vai chegar.
—Sim, daqui a uns vinte minutos. A movimentação no bairro diminui bastante entre este espaço de tempo.
Meu argumento não a convence, mas parece atormentá-la um pouco.
— Tudo certo. Vou esperar mesmo assim.
Expiro, tentado a aceitar sua negativa.
Talvez eu tenha desenvolvido empatia por ela. Apesar de não sermos nada próximos na ‘vida real’, ela havia me contado detalhes particulares de sua vida, e mesmo que o mais inteligente fosse agir como se nada houvesse, me senti um pouco mais íntimo.
— Sakura, vamos. Você só ficou até tarde porque eu queria conversar, então indiretamente quebrou o seu salto por minha causa e eu gostaria de ajudar. Vamos lá. — crio aquela teia de acontecimentos subitamente. Espero convencê-la, não vou implorar. Se me negar mais uma vez, vou embora — Não vai ser um incômodo.
— Claro que será, e outra, você é o meu chefe e...
— Tecnicamente não estamos na empresa e, surpreendentemente, eu sou um ser humano com sentimentos fora dela. Será um incômodo se disser não outra vez.
Ela olha para os lados, como se estivesse em conflito. Talvez eu tenha a atingido com o papo sentimental. Se pensasse que estou tentando ser gentil, ótimo.
— Ah, tudo bem. — ela devolve, visivelmente insatisfeita — Nossa... desculpe o incômodo.
Ao retornar, não abro a porta do carro para ela. Eu já havia ultrapassado os pontos e fiz coisas que não faria normalmente. Estou zangado por ter pedido uma segunda vez e quando entro no carro outra vez, espero com impaciência que desmarque a ‘corrida’ com o táxi.
Ela entra no carro, sorrindo sutilmente.
— Uau, não entendo nada de carros, mas isto aqui parece um paraíso. — ela observa o painel, o volante, o teto; investiga com os olhos tudo ao seu alcance — Desculpa perguntar, mas por que usa outras marcas e não um de seus carros?
— Acho que não sou narcisista o suficiente para isso. — dou de ombros, é o único motivo que vale a pena ser dito em voz alta.
No fundo, é como alguém que curte suas próprias publicações em uma rede social, ao meu ponto de vista. É óbvio que tenho carros próprios em casa, óbvio que minha família usa de nossos carros, mas quando precisei escolher um para usar mais regularmente, não consegui maximizar meu ego o suficiente a ponto de usar um carro de minha própria companhia – embora eu use em momentos de lazer ou simplesmente quando sinto vontade.
Meu pai diz que pode causar uma má impressão e ser fonte de comentários como “os carros dele são tão ruins que ele mesmo dirige um Volvo”, mas não acho que eu precise me manter preso a minhas criações quando posso dar algum crédito a outras pessoas.
Além disso, outros empresários do meio têm um de meus carros em suas garagens. É uma decisão maravilhosamente mútua.
— Mas poderia ser. — ela trava o cinto de segurança — Digo, tem todos os meios para isso.
Não posso discordar. — Tem razão.
À medida em que dirijo, ela se mantém distraída com a imagem através da janela. Deveria estar tão acostumada ao trajeto do metrô que o inédito caminho por túneis e avenidas lotadas tomou toda a sua atenção.
Nós paramos em um semáforo de doze segundos, algumas pessoas atravessam pela faixa e tamborilo os dedos sobre o volante. Ela parece hipnotizada com algo que não posso compreender, mas está olhando para mim enquanto mantenho minha atenção presa à rua.
— Você é uma pessoa boa. — ela profere, e tento não demonstrar confusão em meu olhar quando a fito rapidamente — Acho que não estou sendo enfática o suficiente, é uma pessoa muito boa quando poderia ser um completo canalha. O admiro muito, senhor Uchiha.
O tempo acaba e volto a acelerar. Não sei o que devo dizer, eu sou um demônio se comparado à minha mãe, que alcança níveis surreais de bondade. Todos sempre disseram que sou tranquilo e estável como ela, e talvez Sakura tenha cometido o erro de confundir aquilo com bondade. São coisas bem diferentes.
— Obrigado, eu acho.
Ela aquiesce, satisfeita e volta a observar o cenário pela janela.
Penso em adjetivos que poderia retribuir a ela e não consigo pensar em nada além de: bonita, iludida, azarada, desatenta, desastrada, moderadamente insociável e dona de uma língua – ou talvez dedos, já que ela digitava em nossas conversas virtuais – ligeiramente ácida.
Quero dizer, eu senti a pressão quando ela disse que tenho “pensamentos estúpidos”.
— Só estou falando isso porque todos fazem “um monstro” de você e tem olhos intimidadores, mas na verdade tem um bom coração.
— Não entendi, eu tenho olhos intimidadores?
Aparentemente não só os olhos. Ela encolheu os ombros e hesitou um pouco, mas logo me olhou outra vez e confirmou.
— Sim. Acho que faz parte do pacote “chefe, dono, CEO”.
Franzo o cenho, mantendo a atenção focada a mudança total de atmosfera na troca de bairros. Meguro realmente era um subúrbio, não dos piores, mas longe dos melhores, sem dúvidas.
— Provavelmente está certa, Sakura. — digo, olhando para a paisagem lá fora.
Casas menores, prédios de baixa estatura, vielas cheias de restaurantes e bares populares. Pessoas de todas as idades, crianças em bicicletas, camelôs, cores. Isso definitivamente era algo que as partes mais ricas não tinham, cor. Com exceção a grandes centros comerciais e turísticos, claro.
— Sendo assim, eu não deveria me abrir muito com você, ou vou estragar minha pose.
Ainda não sei o porquê de aquilo ter saído da minha boca.
Eu não falei sério, mas ela pareceu ter entendido desta forma. Fechou a cara e pigarreou, desviando o olhar.
Droga.
Eu realmente sou um desastre com piadas ou descontrações. Mesmo quando estou brincando, pareço sério. Preciso parar de sequer tentar.
— Você pode seguir dois quarteirões adiante e entrar na pracinha. Lá vai ter uma grande placa escrito “Ichiraku Ramén”, pode parar lá. — ela me instruiu, muito cordialmente.
Não respondo. Apenas sigo seus comandos com estranha agilidade para um forasteiro no bairro.
Paro na frente do tal Ichiraku Rámen e algumas pessoas que transitam ao redor da praça param para observar. Meu carro chama a atenção deles, eu previ que fosse acontecer, mas ao menos são discretos.
— Obrigada, de verdade, pela carona. — ela agradece, com um sorriso mínimo.
— Sem problemas, tenha uma boa noite.
Ela sai do carro e acena, do lado de fora. Espero que faça seu caminho ao redor, até que ela para e se agacha, no meio da calçada. Sequer pareceu ter percebido que não fui a lugar nenhum.
— Não acredito! — exclama — John Constantine, o que está fazendo do lado de fora? Ai meu deus! — ela agarra um gato cinza e sua postura fica ereta. Com ele ainda nos braços, vira-se em direção ao restaurante.
Um homem rechonchudo sai do estabelecimento e vem ao seu encontro.
—Teuchi! John saiu outra vez! Cacete, um desses dias chegarei e encontrarei este gato morto na rua. Por que ele não pode ficar em casa?
Ele sorri, os olhos conseguem tornar-se ainda mais estreitos.
— Quando o vi circulando pelo meio fio, o reconheci. Eu o levei para dentro do restaurante, mas ele saiu para a calçada. Estava apenas passeando. — o homem explicou.
— John Constantine, pelos céus. Precisa ficar em casa! — ela ergueu o gato na altura de seu rosto, falando com ele como se o bichano pudesse a entender.
Ela realmente chamou o gato de John?
Caralho. John é o nome do gato.
Não sei explicar ao certo como estou me sentindo. Piso no acelerador e sigo meu caminho para fora daquele bairro.
“John é o amor da minha vida. Nunca me decepcionou, e o melhor de tudo: ele é um gato!”
Nem eu pude acompanhar seu pensamento completamente literal.
John é um gato. Um animal. Um gato de estimação.
Ela chama o gato de John Constantine. Puta que pariu!
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