Ekusas
10 Sakura
Notas iniciais
Naquela mesma noite, recebi uma ligação da minha mãe. Ela entrava em contato uma ou duas vezes por mês e conversávamos um pouco sobre o momento em nossas vidas. Não havia muito assunto, às vezes passávamos longos segundos em silêncio até que eu fizesse um comentário para aliviar as coisas.
A principal influência que tive a desistir dos meus sonhos foi minha mãe. Ela ainda não está satisfeita com meu emprego atual, mas jura que é melhor do que uma carreira não-sólida na escrita.
Não a contei que sou candidata a uma promoção, apesar de saber que – em uma possibilidade remota –, caso eu seja promovida, ela reclamará por não ter recebido os detalhes com antecedência.
Eu já tive, antes, um desejo ardente de prover orgulho a minha mãe o máximo possível. Por isso não enviei minha obra original a uma editora, por isso desisti do meu sonho e entrei em uma faculdade que não queria e estou trabalhando com algo que não tenho paixão.
Sim, eu poderia ter falhado, mas seria melhor que experimentar do sentimento duvidoso que me atormenta todos os dias. As duas palavrinhas que me assombram todas as noites antes de dormir não estariam lá.
“E se...”
Agora estou sentada ao lado de Karin em uma ampla sala de reuniões. Ouço Sasuke falar sobre as linhas de bomba de gás no início dos anos oitenta e como estão relacionadas à oferta e demanda. Uma nova aula semanal de Economia que eu certamente deveria valorizar mais.
Ao invés disso, estou escrevendo em um papel a rotina diária de John.
— É muito importante. — sussurro, coçando a bochecha com a ponta da caneta — Precisa cuidar do meu gato melhor do que a si mesma. Eu vou saber se ele não estiver em boas condições.
— É mesmo? — ela devolve, jocosa — Como? Você vai cheirar ele?
— Sim. Vou analisar o comportamento também. Conheço meu gato.
Mascando uma goma, ela planta os cotovelos sobre a mesa, observando com atenção a lista de coisas que estou escrevendo. — Você o mima demais. — comenta, com a testa enrugada — Ele deve ser bem gordo e insuportável de conviver.
— John está em forma. — esclareço — Tem os pelos mais brilhantes que o seu cabelo.
Com a lista pronta, puxo os óculos de leitura e prendo-os a gola de minha camisa.
Passo as mãos pelo cabelo, endireitando-me em meu assento. Agora que concluí, posso fingir que estou prestando atenção na palestra. Ou não.
Naruto cortou o cabelo, tenho certeza que sim.
Uso a folha da lista que acabei de concluir para me abanar, enquanto olho fixamente em sua direção. Ele está em pé atrás de Sasuke, tampando a boca com sua linda mão grande e bronzeada enquanto conversa paralelamente com Sai; a expressão de paisagem em seu rosto e a forma como o assunto parece ser divertido para ele soam agradáveis para mim também.
Sai também está vermelho. Não sei o que estão conversando, mas é algo cômico.
Eu daria John, meus dois braços e pernas para saber o teor do assunto.
Enquanto isso, Sasuke continua fazendo seu monólogo. Quem diz que o hebraico é uma língua morta/extinta, certamente nunca assistiu a uma palestra dele. Só hoje, o vi usar palavras fantásticas como idiossincrasia, pecúlio, prolegômenos; fora outras que não consegui memorizar.
O melhor de tudo é que ele sabe o significado de todas e realmente encontra formas de aplicar estes monstros em seus discursos. Não é à toa que Shikamaru o venera tanto.
Só de pensar que este homem me deu uma carona ontem e tolerou meu discurso cheio de empatia – causado pelo mais puro nervosismo – e esteve no subúrbio em que eu morava com seu carro vistoso, sinto minha frequência cardíaca acelerar e o ritmo com o qual me abano se intensifica.
Céus, por sorte ele não viu o momento em que caí. Digo isso pois, ainda com a bunda no chão, olhei para trás e percebi que sua cadeira estava virada em direção a janela, ou seja, ele não viu. Continuo tendo um mínimo de dignidade, ufa.
Como se fosse capaz de ler pensamentos, nossos olhares colidem justo agora.
Meu estômago imerge e penso sobre autocontrole. Preciso mostrar que estou no controle das coisas e meus lábios formam um pequeno, tímido sorriso. Não estou esperando que ele corresponda, mas é melhor que veja aquela expressão em meu rosto, pois eu o fitaria de forma assustada se estivesse transmitindo meus reais sentimentos.
Realmente achei que ele estava apenas checando minha presença, assim como fazia com os outros. Doce ilusão. Seu olhar escuro permanece, penetrante; adornado pelos cílios longos e sobrancelhas escuras, que estavam contraídas.
Sinto os músculos das minhas bochechas relaxarem, afinal, é impossível continuar sorrindo quando ele poderia sugar minha alma com os olhos.
É estranho quando o palestrante subitamente para de falar, por isso, todos na mesa fitam em conjunto com ele o seu objeto de atenção, que sou eu. Oh, merda. O que eu fiz de errado?
Exceto conversar paralelamente a palestra inteira.
— Então... — ele quebra o silêncio — Você entendeu tudo, Sakura?
Não entendi. Não prestei atenção em nada, e ele sabia disso.
Por que não perguntar a Shikamaru? Ele decorara até mesmo quantos segundos foram gastos entre as palavras.
Sasuke continua me encarando, a expressão cai para uma ligeira carranca. Seus cabelos e olhos negros pareciam fazer a pele brilhar. As sobrancelhas retas reforçavam sua presença ameaçadora.
Ele é realmente, definitivamente desconcertante.
— Sim. Entendi. — comprimo os lábios — Foi a melhor até hoje.
— É mesmo? —meu estômago dá um nó, e movo a cabeça positivamente com confiança. Ele desvia o olhar — Então meu trabalho está terminado hoje. Tenham um bom dia. — sua inflexão é educada, e ele dá as costas, caminhando em direção a seus dois amigos.
Só então volto a respirar.
Karin suprime uma risada ao me acompanhar até o lado de fora. Ela sempre disse que sou um imã para situações constrangedoras, e provavelmente enlouqueceria se soubesse do que aconteceu ontem. Por isso resolvi a poupar, ou melhor, me poupar.
Infelizmente ela não teve o mesmo tato momentos depois.
— Só que eu pensei duas vezes sobre isso, porque quando homem tenta inovar, sempre acaba mal. Você lembra-se do Juugo? Então, um mês antes do incidente com a... xícara acontecer, eu sugeri que fizéssemos um role play de Velho Oeste. Você acha que o Suigetsu vai me surpreender negativamente se eu pedir agora?
Juugo, o cara que levou uma “caneca de vaquinha” para o quarto dos dois e, lamentavelmente, levou muito a sério a metáfora atemporal de esperma e leite. Lembro-me de precisar rir e passar alguns minutos trancada no banheiro do campus depois de ouvir aquela história.
Nunca consegui vê-lo da mesma forma depois disso.
— Eu acho que acabaram de assumir o compromisso, não é possível que você esteja cansada dele ao ponto de já querer oferecer alternativas de inovação. Espere ao menos que completem um ano juntos, ou até mais tempo. — digo, reiniciando o computador.
— É, você tem razão. — ela folheia as páginas de uma revista recém-comprada. A coisa mais curiosa sobre Karin é que, por mais movimentada que sua vida seja, – principalmente em comparação a minha – ela tem uma necessidade ardente de poder dissertar sobre a vida de pessoas famosas. Ela arrasta sua cadeira com rodinhas em minha direção, jogando a revista aberta sobre minha mesa — É essa, — aponta — a ex-noiva de Sasuke Uchiha. — sussurra, arregalando os olhos sob as lentes dos óculos — Ino Yamanaka.
Não tive tempo, ou mesmo uma chance de expressar o quanto eu gostaria que ela não me mostrasse aquela manchete. Sem sombra de dúvidas estou diante da mulher mais bonita que já vi, e não é brincadeira. Ela tinha um rosto de boneca, emoldurado pelos cabelos, muito loiros, longos e brilhantes. Olhos tão azuis que eu poderia jurar estar olhando para o céu de uma tarde de verão. Era tão magra que eu poderia passar uma fita de um metro de comprimento ao seu redor oito vezes e ainda dar um laço, mas estava belíssima em vários tipos diferentes de vestidos, em premiações distintas.
Se fôssemos colocadas lado-a-lado, provavelmente ninguém diria que, na verdade, ela é cinco anos mais velha que eu.
— Uau. — é tudo que consigo dizer — Por que não estão mais juntos?
Karin olha para os lados e tapa a visão de sua boca.
— Ele a traiu. — sussurra, erguendo as sobrancelhas.
Volto minha atenção ao computador, tentando não me sentir deprimida.
Penso sobre Sasuke e Naruto; são amigos próximos, frequentam os mesmos ambientes, consequentemente têm a mesma preferência em relação a mulheres.
Suspiro, quando a polaridade de nossas posições tanto sociais quanto profissionais é atirada à queima roupa em mim. Pertencíamos a mundos muito diferentes, e eu realmente não sei o que estava pensando quando achei que um vestido novo e mais maquiagem seria o suficiente para conquistá-lo.
Naruto estava habituado àquilo, a mulheres como a ex de Sasuke.
E como se não fosse o suficiente, ele ainda a traiu. Ela era perfeita e foi traída.
Karin parece perceber a questão que inunda meus pensamentos e puxa a revista para si, fechando-a enquanto se afasta de volta. — Mundo injusto... tudo bem? — ela arrisca.
— Sim, tudo bem. — minto. Resolvo fazer o que faço todos os dias, giro o monitor em minha direção e apoio o queixo a palma da mão. Conferir se tenho notificações novas ou mesmo uma nova atualização para ler é o que faço automaticamente.
Em um piscar de olhos estou fazendo meu login e comemorando ao notar que minha fanfic predileta está atualizada.
É um bom momento para tranquilizar minha própria mente. O glamour de Ino Yamanaka me colocou no chão. Não me tranquiliza que até mesmo mulheres como ela podem ser vítimas de traição, do contrário, perco cada vez mais minhas esperanças, e ler geralmente se torna minha válvula de escape. Algo que sempre gostei de fazer e uma das poucas coisas que minha mãe não puxou para longe de mim.
Ainda não pude conversar com Ekusas depois do meu desabafo – o qual estou arrependida. Eu sabia que eventualmente me odiaria por ter contado aquelas coisas a um homem desconhecido, mas seu discurso sobre o quão confortante era, às vezes, conversar com estranhos me convenceu. Além do mais, ele não me conhecia, não sabia nada além do meu nome. Não é como se ele fosse escrever no mural do meu Facebook tudo que sabia sobre minha vida pessoal.
Ele não representava um perigo, e eu realmente precisava de novos amigos.
Principalmente, um amigo que não me julgaria mesmo com as piores barbáries. Ele me passou esta impressão, de que é natural cometer erros ou passar por situações vergonhosas, e eu nunca havia pensado desta forma antes; para mim, cada erro era imperdoável, e arranjando uma solução tão rápida para o problema que julguei ser um dos piores da minha vida – relacionamentos conjugais, mais necessariamente a falta deles – fez com que eu me sentisse à vontade para conversar com ele. Aliás, eu queria conversar com ele. Era divertido.
Além disso, eu genuinamente preciso de uma visão masculina – totalmente imparcial e aberta – em minha vida. Certo, por tratar-se de uma amizade virtual, eu não poderia saber necessariamente se ele era um homem, mas posso me contentar com o fato de que ele fala como um. E quem sabe algum dia podemos conversar via Skype.
Este pensamento me leva a meditar sobre a aparência dele. Parece algo fútil a se pensar, mas será que ele realmente condizia com o perfil preconceituoso que montei dele? As chances eram grandes.
Minha atenção se desvia da discussão turbulenta que estou acompanhando no capítulo em direção ao chat. Como na maioria das vezes, estou invisível, mas sinto vontade de ficar online e é o que faço. Meus olhos perscrutam a lista de pessoas ativas no momento e me sinto amuada ao constatar que o nome Ekusas00 não está lá.
Estou me sentindo desapontada quando volto a ler. Nos dias anteriores eu o encontrava, vez ou outra, online pela manhã.
Infelizmente não terei um companheiro hoje, então, logo após concluir a leitura do capítulo, faço um comentário e volto a trabalhar. Sim, estou trabalhando durante o tempo restante até o almoço.
Não existe coisa pior do que o trabalho.
Olhando para o relógio, percebo que faltam apenas seis minutos para o meio dia e eu ainda estou na décima cópia. Preciso imprimir vinte delas. Quando eu queria gastar algum tempo a mais ouvindo as conversas das moças do almoxarifado, a máquina funcionava muito rapidamente. Agora, que desejo sair dali correndo de volta ao departamento e pegar minha bolsa para ir almoçar, ela trabalha lentamente.
Maldito momento em que Karin decidiu estar ocupada demais com clientes ao telefone e não pôde cuidar das próprias cópias. Eu, muito gentilmente, me ofereci ao trabalho, mas agora estou arrependida.
Enfio um grampo na vigésima cópia e saio correndo em direção ao departamento. Já passa do meio dia e quando se trata do horário do almoço, não gosto de me atrasar.
Karin e eu não pagamos para receber o crachá do restaurante da empresa. Enquanto todos os outros funcionários se reúnem lá para comer, nós chegamos à conclusão de que já passamos tempo o suficiente naquele prédio todos os dias, e durante aquela sagrada uma hora, gostamos de sair e respirar um pouco de ar livre para depois escolhermos nós mesmas para onde iremos.
Vez ou outra comíamos apressadamente para gastar a outra metade do tempo admirando vitrines de lojas, mas hoje desfrutamos de nossa preguiça e comemos lentamente em uma ampla churrascaria.
Ela continua com a mania de acertar-me com o cotovelo a cada homem minimamente bonito que transite pelo local, cochichamos entre nós uma nota de zero a dez e discutimos os atributos ou defeitos físicos de cada um deles.
Costumava ser mais engraçado quando ela estava solteira. Anotava seu número em meia dúzia de guardanapos e me obrigava a esperar, do lado de fora, para que conversasse com alguns deles durante cinco minutos. Se não fossem comprometidos, gays, tivessem uma estatura menor que a dela ou uma voz fina, ela não os permitia a honra de ter um guardanapo com seus contatos. Algum tempo depois, um ou dois deles realmente ligava ou mandava uma mensagem de texto.
Hoje foi um dos poucos dias em que comemos em total silêncio. Eu ainda estava com o humor ruim, e a cada vez que me lembrava da forma como os cabelos de Ino Yamanaka eram brilhosos e seus olhos reluziam, eu me sentia pior.
Olho ao meu redor e não consigo imaginar um homem como Naruto em um ambiente como este. Isso também me deixa mal. Em datas especiais, como o dia dos namorados por exemplo, eu o presentearia com algo que pudesse pagar, nada substancioso.
Eu jamais poderia ser a namorada que trocaria presentes à altura com ele ou o daria coleções de relógios importados, e no fundo, eu sei que é o tipo de parceira que ele merece. Aliás, se é que procura compromisso.
Ele não me parece do tipo que se envolve sentimentalmente com alguém, e assim que cheguei à empresa, tive a mesma impressão do senhor Uchiha até que visse a aliança em sua mão e ouvisse por meio de fofocas que ele era noivo.
Pois bem, seu noivado havia chegado ao fim e não ouvi nenhum boato sobre Naruto ter namoradas, desde então. E francamente, ele só não tinha um relacionamento sério pois não o queria.
Eu deveria desistir dele e firmar meus pés ao chão outra vez.
Demorou, mas a realidade me atingiu com força total. Eu não esperarei mais por milagres que o farão tornar-se subitamente interessado a mim.
Entretanto, ele seria sempre bonito demais para sua própria segurança, e não esperar mais que olhe para mim com outros olhos não me impedia de admirar de longe, como sempre fiz.
A diferença é que não espero mais nada dele. É melhor assim.
De volta ao departamento, me dou por exausta às duas. Ainda é cedo e terei longas horas pela frente, porém, não dormi o suficiente ontem.
— Ainda precisamos nos reunir com o senhor Uchiha para expor a ele as ideias que tivemos para sua nova campanha. Ele deu algum anúncio de quando ouvirá nossas opiniões?
— Não. — Shikamaru responde — Estou ansioso para mostrá-lo meu novo esboço, mas ele parece mais focado em fechar acordo com o senhor Yahiko. Aliás, estarei viajando dentro de alguns dias para conseguir uma promoção.
Quanta prepotência. Ele fala com tanta presunção que sinto ânsia de vômito. Continuo digitando meus dados, fingindo que não estou prestando atenção.
— Oh, isso é maravilhoso!
— Concordo. Em breve serei promovido a executivo de Marketing.
Atrevido!
Desvio a atenção até ele e nossos olhares colidem. O maldito estava olhando para mim durante todo o tempo, testando minha reação e aguardando o momento em que eu pararia de bancar o “João-sem-braço” e o encararia de vez.
Ele ri, desfazendo o contato visual e se espreguiça em sua cadeira.
Em seguida, ouço-o explicar a Chouji Akimichi que viajará com Naruto e que mal pode esperar para conhecer Sapporo em grande estilo.
O bastardo não está satisfeito em roubar meu parceiro de viagem, ainda precisa se gabar disso. Estou digitando com mais força quando ouço que Naruto foi muito gentil com ele e disse que teriam uma ótima viagem de negócios. Deveria ser eu.
Ao invés disso, irei para Osaka com Sasuke Uchiha, que sem dúvidas será muito exigente e me deixará nervosa por sua presença imperiosa.
Eu poderia me imaginar tranquilamente sofrendo de crise nervosa em público, ou algo pior, como esquecer os planos de acordo e desfrutar de um momento embaraçoso em que todos me olham com feições interrogativas.
— E aí, Sakura, o que acha de não quebrar o teclado? — Karin soa descontraída, mas sei que está impaciente pelo barulho que minhas mãos estão fazendo — Sabe que todas estas peças são caríssimas e que provavelmente descontariam do seu salário.
Gemo, frustrada pelo rumo que meus pensamentos tomaram. Estou com inveja da desenvoltura e jeito natural para as palavras de Shikamaru. Sei que ele fará um ótimo trabalho, está me subestimando e tem todos os motivos para tal.
Preciso cumprir minha promessa a Sasuke e surpreender!
Quando chegar a minha casa, revisarei algumas vídeo-aulas de postura, linguagem corporal e habilidade em discursos. Não posso fazer feio, afinal, representarei a empresa e sei que Karin e Sai torcerão genuinamente por mim.
Olho para os lados, constatando que ninguém está me bisbilhotando e abro o Word. Preciso escrever ou continuarei encarando Shikamaru, e consequentemente dando-o o que quer de bandeja. Está tentando bagunçar meu psicológico, e conseguindo.
Concentro-me em Francis e subitamente estou mais calma, apesar de que preciso repensar todo meu enredo, achar uma maneira de burlar tudo que eu tinha em mente e refazer os planos para o futuro, tudo isso graças ao comentário estúpido do sujeito Ekusas.
Não posso escrever algo cujo rumo ainda é incerto para mim!
Estou prestes a gritar um sonoro “socorro”. Afasto a cadeira e caminho até a cafeteira. Preciso beber alguma coisa quente.
Aproveito para espiar através da porta e vejo Naruto em frente ao elevador. Sei que ele tem amigos próximos no departamento de Logística, e por isso, passa uma parte de seu tempo lá arranjando conversa.
É o que está fazendo agora.
Sempre foi óbvio para mim que ele não trabalha tanto quanto Sasuke. Não desmereço sua rotina puxada como vice-presidente, mas o senhor Uchiha raramente sai de sua sala, o que me leva a supor que está sempre ocupado, seja recebendo ligações estrangeiras ou tomando decisões complexas. É o que faz na maioria do tempo.
Também não eram incomuns visitas de seu pai. A empresa entrava em choque, pessoas corriam para todos os lados carregando vasos decorativos e pilhas de papeis descartáveis. Fugaku Uchiha era uma espécie de lenda, e se toda a conversa do anjo que supostamente soprou o rosto de Sasuke tornando-o sério para sempre não for verídica, é um fator genético, afinal, seu pai vive de cara fechada e parece ser um homem insensível.
Lembro-me da primeira visita que presenciei, com míseras três semanas de trabalho. Ele parou ao lado da minha mesa com as mãos juntas nas costas, observando meu cabelo sem a menor vontade de parecer minimamente discreto.
Eu tenho medo dele. Karin, que já dividiu mesas de reuniões familiares com ele – graças a seu laço sanguíneo com Naruto – afirma que estou exagerando.
Retorno até minha mesa, sem perder a chance de fiscalizar Shikamaru, que está me olhando com uma expressão enojada no rosto. O fito com pouco caso, inexorável. Preciso mostrar que ele não me atinge, apesar de me sentir insegura com toda a sua pose de pavão intelectual.
No momento estou procurando novas fanfics para ler. Uso como desculpa o “tempinho do café” para ler algo enquanto o saboreio, e é exatamente o que faço.
Uma janela de notificação se sobressai no canto inferior direito, me avisando que Ekusas00 acaba de ficar online e algo dentro de mim estala.
Finalmente!
Resolvo esperar um pouco, afinal, enquanto a chance de me “fazer de difícil” existir, eu a tomarei; porém, ele não puxa assunto nos próximos cinco minutos, e apesar de zangada por isso, decido tomar a atitude.
“Olá.”
Já estou me sentindo idiota o bastante por ter, eu mesma, puxado conversa, mas finjo que nada aconteceu e volto a pesquisar dentre os favoritos de minhas amigas em busca de algo interessante para ler.
O bastardo não me responde durante os próximos onze minutos, e já estou prestes a subir pelas paredes. Se ele está online, é porque supostamente pode conversar, do contrário manter-se-ia ocupado ou invisível.
Será que minha vida ridícula o repeliu?
Mordo a ponta do polegar, agora completamente arrependida de ter aberto meu coração tão intensamente para um desconhecido, mas ficar ressentida é o único sentimento ao meu alcance agora.
Atrapalhando meu momento de tortura pessoal, ele surge.
“Oi, Sakura. Como passou o dia?”
O alívio que estou sentindo agora não pode ser transmitido por palavras.
“Até que bem”
“Vou perguntar outra vez. Não estou convencido.” Apoio o rosto ao punho fechado, tomando um profundo gole enquanto espero que digite. “Quão ruim foi o seu dia em uma escala de zero a dez?”
“Doze” Respondo, desgostosa. “Ah, estou viva, sabe? Tenho um emprego parcialmente estável, bons vizinhos, uma boa amiga e tive um almoço delicioso hoje. Pode soar como ingratidão, mas não estou feliz.”
“Por que me soaria ingrata? Eu não sei sobre sua vida.”
“Sabe mais do que o bastante, isso é certo. Minha vida romântica desastrosa é apenas o começo. Minha mãe me ligou ontem e não tínhamos clima, ou mesmo um assunto que não fosse o quão infeliz fui por não ter ido visitá-los no último feriado, mas eu não estava com vontade de percorrer cento e cinquenta quilômetros. Eu tinha algum dinheiro e um telefone, pedi comida chinesa e assisti cinco filmes seguidos. Foi satisfatório.”
“Me parece o programa perfeito.”
“Você é caseiro?”
“Mais do que eu gostaria de ser, mas não acho que haja algo de errado com isso, e você?”
Eu sorri quando li sua pergunta. Ele era tão suave e de fácil conversa.
“Eu também não.” E então percebi que estava sendo grossa. “E você, como foi seu dia até agora?”
“Horrível.” Ele foi incisivo. “O que quer dizer com eu sei mais do que o bastante? Não me diga que está arrependida de ter me mostrado o quanto alguns homens por aí não dão importância ao que merece e são, hum, por mais que me doa dizer isso, imbecis?”
“Uau. Realmente acabou de dizer isso dos seus companheiros?”
“Caralho, não me junte a eles. Eu diria a uma mulher que tenho filhos, se eu tivesse, e sem sombra de dúvidas, não há um sentimento melhor para mim do que saber que minha parceira teve um orgasmo.”
“Você é real?”
“Eu acho que estou triste agora.”
Minhas sobrancelhas se juntam, e penso se eu disse algo de errado.
“Como assim?” Se fosse uma pergunta feita em voz alta, eu certamente gaguejaria.
“Estou triste por você considerar tão surreal que eu aja como todos os caras deveriam agir. Sabe, soa tão obrigatório para mim que me deixa para baixo que considere isso uma grande coisa.” Acho que eu adoro este cara. Eu poderia chorar agora mesmo por aquele pequeno fiapo de esperança que o destino colocou em minhas mãos, ou melhor, em minha lista de amigos. “Não generalize os homens. É a maior tolice que pode fazer.”
“Uau, você está inspirado hoje.”
“Eu tive um dia tão ruim que, talvez, talvez eu esteja com vontade de conversar”
Não sei o que eu deveria esperar daquela declaração.
Eu perguntei como havia sido seu dia, e tive como resposta um simples e sucinto ‘horrível’, por isso imagino que não esteja com vontade de falar sobre si mesmo.
Mas disse que talvez estivesse com vontade de conversar, então não sei se foi uma deixa para que eu perguntasse coisas sobre ele.
“O que fez durante o dia?”
“Li.” Ele responde depois de alguns minutos de espera, “Não coisas boas como livros, e sim ruins como coisas relacionadas a trabalho. Falei com umas pessoas chatas e fugi de outras”
“Entendo.”
“E você?”
“Participei de uma reunião, a qual deveria ter prestado mais atenção, admirei a beleza dos meus chefes, saí para almoçar em uma churrascaria, entrei em contato com mais uma lista de potenciais clientes. E, por fim, fiquei deprimida depois de ver uma atriz famosa em uma revista. Ou seja, nada fora do habitual.”
“Você provavelmente deveria, sim, prestar mais atenção em reuniões.”
“Eu sei”
“De que atriz está falando?”
“Ino Yamanaka”
Esfrego as mãos, inclinando a cabeça para trás enquanto sorvo da bebida amarga. Não recebi uma resposta ou mesmo um sinal de que estava digitando. “Provavelmente já ouviu falar sobre ela”
“Sim” Responde, taciturno. Comprimo os lábios, pensando se devo aguardar por uma resposta ou se havia margem suficiente para outra pergunta. “Por que se sentiria deprimida depois de vê-la?” Ele me pega de surpresa com um novo questionamento.
Eu tinha motivos de sobra para me sentir desta forma.
“Ela é linda”
“Sim. Não acho que isso justifique, ou você realmente está deprimida por isso?”
“Dá para acreditar que até mesmo uma mulher como ela foi traída?”
“Hum”
O ritmo rápido que estabelecemos some repentinamente. Ele não fez nenhuma outra pergunta, e eu, apesar de ter buscado outros assuntos, não consigo dizer mais nada.
Não diminui minha frustração, afinal, ele parecia empolgado e sempre fazia afirmações que dessem margem a alguma coisa, ou mesmo outras perguntas.
Não naquele caso. Imagino que simplesmente não tenha interesse por famosos, afinal, quase uma hora depois, pergunta algo aleatório sobre minha infância e conversamos bastante em seguida.
Como sempre, eu falo mais. Ele apenas direciona as perguntas e eu não tenho um problema em respondê-las. Qualquer coisa é melhor do que o trabalho, e não é como se não fosse divertido.
Conversar com ele sempre tem sido.
₰
Depois de muitos esforços, (pedimos a Sai que lembrasse ao senhor Uchiha de nosso interesse em agendar uma reunião, e levou dias – exatamente quatro – até que o convencêssemos) finalmente alcançamos o nosso objetivo.
Sasuke retirou uma hora de sua atribulada agenda para nos receber, e nós do departamento ficamos eufóricos.
Novamente, tudo aconteceu rápido demais (em minha opinião), por isso eu fiquei responsável por preparar e tirar cópias das pautas, ou seja, não serei a oradora da reunião de balanço. O papel foi dado a Karin, e fiquei feliz por poder sentar e assistir durante algum tempo como ela conduziria um momento tão importante. Talvez eu possa aprender algo com ela.
No momento, todos os membros do departamento de Marketing que expuseram suas ideias sobre a nova campanha estão sentados à mesa. Como aquele tipo de reunião acontecia pelo menos uma vez por mês, já estávamos acostumados a chegar sempre antes do chefe – não que ele esteja atrasado, nós nos adiantamos.
É um momento de tensão, especialmente para Karin, por isso, agarrada a pasta de impressões, não saio de seu lado. Ela está praticando algum tipo de respiração tântrica que experimentou no yoga, e de acordo com ela, tem efeitos de conexão mental e espiritual que lhe seriam úteis ao lidar com Sasuke.
Já me vejo pesquisando como realizar tal respiração. Também precisarei em um futuro próximo.
— Sakura! — Karin explode, abanando o próprio rosto com as mãos — Cacete, você está mais nervosa do que eu e seu... seu — ela se perde em meio as palavras — seus tiques estão me dando coceira!
— Tiques? — meu rosto de contrai em uma expressão duvidosa. Eu estava com tiques nervosos?
Minhas pernas já se balançavam sozinhas, eu tinha o costume de coçar o pescoço e mexer na cabeça quando aflita sobre algo. Olho para minhas mãos e percebo que meu dedo indicador está entrelaçado a uma mecha de cabelo, que forma um cacho suave no momento em que a solto.
Eu realmente estou demonstrando mais nervosismo que ela. Ao invés de ajudar, estou atrapalhando.
— Desculpa. — minha voz sai baixa como um miado e encolho os ombros.
— Que calor! — ela olha ao seu redor com impaciência — Baixem a temperatura do ar-condicionado, seus doentes! — grita, atraindo a atenção de todos.
Dos dois um, ou está maluca ou sofre de hipertermia.
A sala é grande, envidraçada e com três ar-condicionados, todos eles ligados em temperaturas menores de 20ºC. Além disso, estamos enfrentando um outono com temperaturas mais altas do que os anteriores.
Decido sair de perto, afinal, pode ser meu calor corporal a esquentando excessivamente mesmo que estivéssemos a quase um metro de distância, ou melhor: eu realmente não sei o que está havendo com ela e decido me afastar.
A mesa é grande. Duas cadeiras em ambas as extremidades e sete em cada lado, ou seja, no fim temos dezesseis assentos já tomados.
Como eu realmente falei sério sobre o quão intimidador Sasuke Uchiha poderia ser, apenas uma das cadeiras ao seu lado – esquerdo – estava ocupada surpreendentemente por Shikamaru Nara, que conversa descontraidamente com seu amigo Chouji.
Olho para o fim da mesa, e o único lugar vazio é a outra ponta e uma cadeira entre duas pessoas que não conheço. Bem, eu jamais ocuparia o assento da ponta, então olho para a outra cadeira vazia e penso que não seria um incômodo sentar perto de Matsuri, a moça gente boa que entrou há cinco meses e molha a plantinha que cultivo, às vezes.
É realmente difícil lembrar disso quando estou tão ocupada, e ela faz por gentileza.
Mas se Shikamaru foi ousado o bastante para sentar ao lado do chefe, eu também posso ser. Dou passos decididos até a cadeira sobrando e a puxo para trás; ele, que está conversando descontraidamente com Shino Aburame e Chouji Akimichi me olha com ar de deboche, mas estou decidida a reclamar aquele lugar para mim e me acomodo lá, deixando a pasta com a pauta sobre o tampão de vidro temperado.
Cruzo os dedos sobre a mesa e o reservo um olhar cínico. Ele revira os olhos, voltando a conversar.
— Aqui está a sua pauta, senhor Nara. — arrasto os papeis em sua direção só para interromper a conversa, esticando mais dois outros para seus amigos.
— Obrigado. — ele cospe, peremptoriamente.
Resolvo distribuir as pautas sentada. Chamo a atenção de Kabuto Yakushi, sentado ao meu lado, e aviso-o que vou passar as pautas. Ele se dispõe a repassar todas e, pouco a pouco, todos na mesa estão conscientes de que devem esperar as suas e repassar as restantes.
A porta se abre e meu coração dá um salto. Sasuke passa pela entrada, empinando o queixo em um cumprimento enquanto passava os olhos pelo ambiente. Alguns fios de meu cabelo se movem quando ele passa por trás de mim até acomodar-se, na cadeira da ponta.
Ele parece muito cordial quando desvia seus olhos de Shikamaru, que o cumprimenta como se fosse um Rei, até mim. Passa algum tempo me observando e tudo que consigo fazer é cumprimentá-lo com um sutil aceno, sem olhar em seus olhos. Ainda estou me martirizando pelo evento de dias atrás enquanto ele parece ter esquecido que aquilo, algum dia, aconteceu.
Foi apenas uma carona, digo a mim mesma.
— Boa tarde, senhor Uchiha. Obrigada por aceitar o convite. — Karin também o cumprimenta com uma breve mesura — Vamos começar. Estamos aqui para discutir a campanha idealizada do novo UCX Extreme em dois modelos, convencional e sedã. Nós estivemos construindo uma base de...
— Hum, vocês prepararam uma pauta? — ele a interrompe, e seus olhos escuros a observam interrogativamente.
Oh, merda. As pautas estão comigo.
Ouço minha própria pulsação bombear em meus ouvidos.
— Sim, nós fizemos. Sakura, você...
Limpo a garganta, totalmente constrangida. — Perdão. — o entrego uma cópia e ele franze os lábios rapidamente, observando as páginas de forma superficial antes de retornar à folha principal.
— Vamos retomar em um segundo, senhor Uchiha. Houve um problema com o equipamento de vídeo. — sei que Karin está se contorcendo internamente por aquela falha. Ela corre até a outra extremidade da sala e, junto com dois caras, começa a corrigir o erro.
Um momento tenso se segue. Sasuke apoia um dos cotovelos à mesa e seu rosto está relaxado sobre a mão direita; o dedo indicador contra o lábio inferior.
Suspiro, mudando para a página seis, onde percebi que o esboço criado por Shikamaru estava. Não tenho o menor interesse, mas meus olhos se prendem ali. As letras parecem se embaralhar, tornando-se palavras tortas e em línguas diferentes.
Deus, preciso relaxar.
Jogo a franja para atrás das orelhas e meu olhar se ergue diretamente até Sasuke, que está me olhando.
— Tudo bem? — ele questiona casualmente, como se fôssemos amigos pessoais e aquela fosse uma pergunta muito comum.
Mas claro, eu sei o contexto ali subtendido. Como deixei claro além do limite que estava com dores abaixo das costas, supus que ele provavelmente queria saber como estava meu traseiro e só teve chance de fazê-lo quatro dias depois.
Que belo dia aquele.
— Sim. — minha cabeça se move positivamente, e ele desvia o olhar, satisfeito, mas minha boca explode um desnecessário: — E o se-senhor?
Quando Sasuke me olha novamente, tenho a impressão vaga de que está contendo um riso. Impossível. Ele nunca ri. Provavelmente foi uma miragem.
— Tudo bem, Sakura. — expiro pela boca. Meu peito está em combustão — Será que pode passar no meu escritório ao fim da reunião? Recebi uma ligação interessante.
Aquela simples frase foi o suficiente para prender minha total curiosidade.
Passo os cinquenta minutos seguintes pensando sobre o teor daquela ligação e qual o seu envolvimento comigo. Oh, não. Será que minha mãe ligou para ele? Impossível.
Não ouvi uma só palavra do que Karin disse e tampouco ouvi a explicação de Shikamaru sobre seu esboço. Permaneci alheia à reunião, e quando dei por mim novamente, havia uma boneca torta e pobremente desenhada em minha pauta.
Eu desenhei aquilo?
Minha mente, literalmente, pareceu ter se desligado. Estive alheia a tudo, não disse uma só palavra durante toda a reunião e por sorte ninguém pediu minha opinião a respeito de algo. Assumi publicamente que não tinha interesse em falar absolutamente nada, e fui respeitada.
Minhas pernas estavam oscilando quando fiquei de pé outra vez.
Percebi que Karin estava recolhendo as pautas, e durante sua ocupação, recebia congratulações de nossos colegas pela performance. Eu, que decidi deixar o piloto automático assumir o controle de meu corpo durante cinquenta minutos, não pude aprender nada com ela, como tanto quis.
Que azar. Ao menos posso pedir umas dicas depois.
Quando estou prestes a afundar em minha cadeira outra vez, lembro-me de que Sasuke tem algo a falar comigo e saio em disparada com destino a sua sala.
Shizune me intercepta antes que eu possa bater e vem de encontro a mim, com uma prancheta em mãos.
— Sakura Haruno, olá. — ela me cumprimenta sorridente — O senhor Uchiha recebeu uma ligação de seu pai, ele irá recebê-la em breve. — aponta para um estofado em formato de L no canto da sala e caminho até lá, suspirando.
A pauta com o desenho infeliz ainda está em minhas mãos.
O ambiente ao meu redor já é conhecido, mas observo as arestas das paredes mesmo assim, fazendo uma contagem rápida de doze arestas e vinte e seis vértices na ampla sala.
Shizune está de pé, chamando minha atenção com gestos. — Pode entrar, ele irá recebê-la.
Meus passos são curtos, porém decisivos. O chão era liso e depois do baque memorável, eu jamais andarei rapidamente sobre aquela porcelana outra vez. Jamais.
Bato meu punho contra a porta e vejo Sasuke, através do vidro, permitir minha entrada com um sutil gesto de cabeça.
Sou arrebatada pelo frio de sua sala ao entrar, e caminho até a cadeira de couro branco posicionada paralelamente à sua. As duas vezes em que estive ali fora quando o céu já estava escuro, então não percebi o quão branco e clínico aquele ambiente era.
As espadas, dentre as quais só posso reconhecer um sabre, me chamam a atenção.
— Então... — eu desvio meu olhar até ele, que afunda graciosamente em sua cadeira e cruza as grandes mãos — Nós já conversamos sobre a viagem e eu a comuniquei que aconteceria em vinte dias. Esqueci de avisá-la que é recomendável que tenha vestimentas mais formais para as reuniões.
— Sim, estou ciente disso.
Não me chamou até sua sala para falar de roupas formais. Olho-o ansiosamente, e ele me fita com atenção, molhando os lábios finos enquanto, suponho, escolhia as palavras. Aquilo me pareceu uma eternidade.
Remexo-me sobre minha cadeira estofada, observando como aquela blusa preta de linho cai bem nele e a forma com a qual seus cabelos parcialmente longos estão penteados.
Estive tão focada em Naruto por todo este tempo que a existência de Sasuke como um homem másculo e atrativo só foi jogada contra mim na noite em que caí e dividi seu carro imenso com ele. O formato de seu rosto era sutilmente quadrado, suas costeletas estão bem aparadas, os olhos não eram usualmente expressivos e o tamanho de seus cabelos o fazia parecer mais velho do que realmente era, apesar de ter o rosto de um jovem adulto.
— Então, eu recebi uma ligação do senhor Yahiko e ele participará de um congresso internacional na semana em que estávamos inicialmente agendados.
Meu coração acelera, e meu rosto se contorce. Não pode ser o que eu imagino que é.
Não vou saber lidar com isso.
— Hum, e isso quer dizer que? — pergunto, temerosa.
— Bem... — ele também parece desconfortável pela mudança de planos — Vamos adiantar a viagem. Adiantar muito.
Expiro com pesar, franzindo os lábios com decepção latente.
— Para quando, exatamente?
— Semana que vem.
Oh, merda.
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