Ekusas
11 Sasuke
Notas iniciais
Sakura travou momentos após minha revelação.
Eu achei que seria melhor ficar calado. Ela tinha todo o direito de experimentar um momento de pânico e surtar o quanto quisesse – esta última parte, eu agradeceria se acontecesse longe de mim. Não tenho talento em lidar com mulheres emotivas, embora eu tentasse enquanto ainda era noivo. O máximo que eu conseguia fazer era bater em suas costas e dizer “não se preocupe, tudo ficará bem”.
Eu não tinha a mesma intimidade para fazer aquilo com Sakura.
Acho que seu estado pioraria se soubesse que aquela alteração não atingiria Shikamaru. Não há nada que eu possa fazer, são pessoas diferentes e o chefe que ele encontrará não foi convidado para o congresso nacional de Tecnologia e Informação.
Aliás, também recebi um convite durante a manhã. Tive um mau pressentimento ao ler que tínhamos amigos em comum com os líderes da companhia que o estavam promovendo, mas decidi que se houvesse uma mudança de planos, ele entraria em contato. E entrou.
Entretanto, eu tento ser justo. Sem dúvidas levarei em conta que o prazo de Sakura foi resumido e ela, que já é o azarão, sairia prejudicada. Estou preocupado, afinal, meu pai ficaria muito zangado se soubesse que perdi aquela chance, e estou colocando-a nas mãos de uma pessoa cujo potencial eu não acredito inteiramente.
Ela está sem palavras, eu permaneço em silêncio. Sua boca se abre, mas nada é dito. Olho para seus olhos e percebo que estão carregados, brilhando. Ela vai chorar.
— Precisa acreditar em si mesma. Tudo ficará bem. — eu digo.
— Não. — ela encolhe os ombros. Seus olhos estão amuados, presos ao chão e ela esfrega as mãos, com os lábios tremendo — Eu não quero mais participar, eu desisto da vaga, ok? Por favor, encontre outra pessoa.
Eu odeio essa parte. Adular a Sakura pela segunda vez na mesma semana.
Minha cabeça se move em uma negativa impassível, e ela continua me fitando esperançosa, como se sua falta de vontade fosse o bastante para atropelar tudo que venho planejando há semanas.
— Não, Sakura. Você precisa ir.
— Eu não quero ir! Não posso! — sua voz se acresce e ela fica em pé, envolvida pelo estresse. Está emocionalmente instável e aquela seria a deixa perfeita para que eu me afastasse, em qualquer outro momento, com qualquer outra pessoa.
— Sente-se.
Merda, ela me contou sobre sua infância dias antes. Disse que, por sempre sentir medo da mãe, se privou do que deveria ter sido uma fase de descobertas e deixou de fazer coisas que queria.
Apesar de ter tido uma infância mais livre, eu me permiti sentir empatia.
Eu a considerava uma amiga, mesmo que não fosse diretamente, mesmo que ela tivesse medo de mim e se sentisse tensa até com um “bom dia”.
— Me desculpa, eu não posso ir. Vou envergonhar você e vai... vai ser um desastre! Desculpa. — seu rosto perde a cor, tornando-se pálido e abatido.
Ela está se encolhendo como uma criança. Quando afasto a cadeira, passando ao redor da mesa para me agachar ao seu lado, eu sequer posso acreditar no que estou prestes a fazer.
— Sakura, olhe para mim. — ela obedece, visivelmente aborrecida — Você precisa ir. — ela começa a balançar a cabeça negativamente, como se eu estivesse a torturando com palavras — Sakura, se meu pai souber que todos os nossos planos mudaram por sua causa, ele vai querer que eu a demita, — suas sobrancelhas se unem — e eu não quero fazer isso, mas se desistir eu realmente não terei como defendê-la. Consegue entender?
— Não vai dar tempo! Eu não vou conseguir.
— Vai sim, eu confio em você. — este é um dos momentos em que conto uma mentira tão boa a ponto de acreditar nela.
Estou tentando a passar confiança pelo olhar, nossas peles não se tocam em nenhum momento. Eu continuo agachado ao seu lado, e quando me olha, ela cora, parecendo impaciente por estar sendo convencida.
Uma eminente demissão não parecia funcional para mim. Ela não gostava do próprio trabalho, foi muito clara neste ponto.
Se ela houvesse respondido um “não ligo” a minha ameaça de demiti-la, eu realmente não ficaria surpreso.
— Deveria arranjar outra pessoa.
— Não posso, não agora. Eu preciso de você.
— Obrigada pelo estímulo, mas vai se arrepender. — ela colhe o próprio rosto entre as mãos, inquieta.
— Só se você quiser.
Suspiro, decidindo que o momento piegas encontrara seu fim. Me afasto, apoiando o quadril a mesa enquanto cruzo os braços contra o peito. Ela está tão desanimada que penso em fazer o que está pedindo e procurar outra pessoa.
— Eu vou lhe dar seu devido crédito. Considerarei suas dificuldades.
Seu olhar se ergue até encontrar o meu. — Obrigada.
— E então, o que acha?
Ela dá de ombros, mais convencida. Sinto-me como um adulto persuadindo uma criança a ir para o colégio.
Ainda não está segura de si. A observo com atenção, não parece o tipo de mulher que perde tempo com disputas de ego, mas ao mesmo tempo, preciso usar todos os truques que tenho em manga.
— Eu me pergunto como Shikamaru reagiria quando soubesse que desistiu. — franzo os lábios — Você com certeza facilitaria as coisas para ele.
Seus olhos claros estão fixos a um ponto cego e vejo seu punho cerrar sobre a saia que está usando. Um brilho súbito de determinação toma seu rosto e ela limpa a garganta.
— Eu já estava convencida antes. — Sakura cruza os braços — Então, que dia nós vamos?
₰
Em meses, aquela foi a primeira vez que Sakura me surpreendeu positivamente.
Eu não sei o que a corrida pela promoção havia provocado entre os dois, mas a única menção ao quão as coisas seriam mais fáceis para Shikamaru fez com que eu alcançasse três milagres em um intervalo de poucos dias.
Sakura não postou um novo capítulo de sua fanfic naquela semana.
Na quarta-feira seguinte, fiquei até às oito horas para checar seu registro na internet e não houve qualquer sinal do site no qual procrastinava todos os dias.
Desde então, mesmo no fim de semana, ela não esteve online no chat.
Só o que posso pensar diante disso é que, se ela não for mentalmente insana, está se esforçando genuinamente.
Também experimentei um final de semana tedioso. Não consegui me concentrar inteiramente ao treinamento, não com ligações constantes de Yahiko.
Eu decidi ligar e fechar o acordo entre nós dois, afinal, era uma união de negócios importante e eu não podia depender de Sakura, não quando foi lesada em duas semanas e teve apenas alguns dias para se dedicar ao estudo. Apesar do esforço, não posso confiar inteiramente em sua capacidade e acertei os pontos eu mesmo.
Obviamente, ela não precisava saber. Com o acordo já fechado, ela só precisaria explicar tópicos importantes e mostrá-lo a teia econômica que anexei a seu material.
Eu a ajudei, como prometi. Não havia mais um grande acordo a ser fechado em dependência de sua performance, apenas a manutenção da confiança baseada em sua palestra. Ainda preciso que se saia bem e continua havendo muito em jogo, mas nada que comprometesse minha aliança já firmada.
Yahiko tinha grande apreço por meu pai e aprendeu a ter por mim.
O lado bom de ter um assistente é que ela estava no encargo de acertar os detalhes de nossa viagem. Eu poderia cuidar daquilo pessoalmente, mas me dediquei inteiramente ao esgrima no sábado, e pela primeira vez na semana, dormi mais de oito horas contínuas, o que pode ser considerado muito quando se trata de mim.
Estávamos marcados para que eu fosse buscá-la em sua casa na sexta-feira às nove da manhã. Por nossa viagem ter sido antecipada, Naruto assumiria o controle da empresa durante os quatro dias, o que, de certo modo, me aliviou. A antecipação veio a calhar, afinal, Fugaku viria cuidar das coisas se fôssemos ambas as duplas ao mesmo tempo.
Era algo que eu não queria. Meu pai tem uma forma antiquada e quadrada de viver. Ainda na infância, não era incomum que sua assistente viesse me buscar no colégio quando ele estava impossibilitado.
Eu só percebi o quão absurdo era quando comecei a entender melhor o mundo. Confrontei meu pai, e de acordo com ele, era uma das obrigações dela.
As oito e quarenta, chego à pracinha em Meguro. O bairro é mais movimentado pela manhã, e custo a achar uma vaga vazia para estacionar meu carro. Há dezenas de camelôs, crianças correndo em suas bicicletas na rua e a primeira coisa que sinto ao sair do carro é o aroma de cozidos.
Alguns parecem ocupados o suficiente com suas vidas a ponto de seguirem seus caminhos sem me dar atenção, outros reservam tempo para me observar como se eu fosse um membro do blue man group.
Ouço uma voz feminina conhecida soar entre a cacofonia. São dezenas de vendedores gritando, panelas batendo dentro do restaurante Ichiraku, gritos de crianças, carros passando e outras distrações auditivas que poderiam ter me mantido alheio ao meu foco, mas eu a ouvi mesmo assim.
Viro-me em direção a calçada e visualizo uma imagem pouco usual. Sakura está descendo as escadas do andar acima do restaurante. Entre seu ombro direito e a orelha, está um aparelho celular para o qual grita deliberadamente. Em uma das mãos, um gato que segura com o maior cuidado e na outra uma mala de rodinhas.
Ela está praticamente comendo o próprio cabelo devido ao vento forte que sopra as madeixas. Suas pernas me chamam atenção e analiso sua vestimenta, está usando uma saia de cintura alta e blusa de mangas longas. Eu penso em ajudar, mas decido permanecer parado em meu lugar quando a possibilidade de que me entregue o gato para segurar passa por minha mente.
Surpreendo-me quando ela para e parece estar olhando para mim, afinal, posso ver pouca coisa por trás do cabelo que cobre seus olhos desajeitadamente. Sakura balança a cabeça para os lados e sopra os fios em sua boca, finalmente tornando possível que eu veja seu rosto completo. Aceno com a mão esquerda, tentando parecer gentil.
Ela corre a passos mínimos, atrapalhados, em minha direção. Para, soltando a mala para desligar a ligação e guarda o celular no sutiã. Estou decidindo se sorrir seria inadequado ou se o melhor é ficar sério, mas ela parece assustada e isso só me causa mais dúvida.
Leva a mão livre à cintura e me olha surpresa, arfando o cansaço.
Se ela penteou o cabelo antes, o vento reduzira seu trabalho a nada.
— Olá! Bom dia.
— Bom dia. — a cumprimento de volta. Ela sorri e balança a cabeça, observando a movimentação na rua — Você não vai levar o gato...
— Não, de jeito nenhum! Karin virá buscá-lo, aliás, será que podemos esperar um pouco? Ela já está chegando.
— Sim, sem problemas, você tem vinte minutos. Deixe-me ajudá-la... — eu estico a mão para receber a mala. Não está pesada, por isso a ergo em meu caminho até o porta-malas.
— Obrigada. — ela está acariciando a cabeça do gato quando seus lábios se ondulam em um sorriso — Seu carro, nossa, é lindo. Eu sinto como se ele fosse mudar e virar um Autobot a qualquer momento, tipo o Optimus Prime.
Junto as sobrancelhas, fechando a tampa do porta-malas. Tenho certeza que já ouvi aqueles nomes alguma vez, mas não recordo ao certo do que se tratam.
Eu gostaria de poder pesquisar em meu celular sobre o que está falando e não parecer um completo ignorante sobre a cultura pop atual, mas não é possível. Comprimo os lábios, buscando seus documentos no bolso interno do meu blazer.
— Autobot é um filme? — pergunto.
Ela ri adoravelmente, mostrando os dentes bem alinhados. — Autobots são muito legais, eles são tipo uma facção do Cybertron. — não estou entendendo nada, por sorte demonstro estar mais distraído em investigar meu bolso — Do filme Transformers, sabe?
— Já ouvi falar. — foi o maior contato que tive, “ouvir falar”.
— Legal. — ela parece ter percebido que se empolgou além da conta e segura o lábio inferior entre os dentes brevemente.
— Então, aqui estão os seus documentos. Shizune imprimiu nossas passagens com antecedência, nosso voo sairá às dez horas. — seus olhos firmam-se ao papel em sua mão, lia até mesmo as letras miúdas — Eu fiz o check-in pela internet, então quando chegarmos lá poderemos ir diretamente ao portão de embarque.
— Sim. Uau, uma hora e quinze minutos. É realmente possível fazer o check-in pela internet? — ela arregala os olhos.
— É. É possível sim.
— Não sabia disso... — comenta aleatoriamente. Após alguns segundos de silêncio, aponta para a rua e sacode os papeis em sua mão — Karin acabou de chegar.
— Tudo bem, vou esperar no carro.
— Certo! — ela confirma com a cabeça, novamente empolgada — Não tive tempo de apresentá-los. Sasuke Uchiha, John Constantine. John Constantine, Sasuke Uchiha. — ela segura a pata dianteira do gato e acena para mim. Ele, com seus grandes olhos cinza-esverdeados está observando alguma coisa a seu lado direito e não dá a mínima a “apresentação”.
Minha mandíbula se aperta e antes que eu possa pensar sobre como reagir, Sakura sai correndo em direção ao carro estacionado em nossa diagonal. Ela se apoia a janela aberta do lado do motorista e Karin, minha funcionária e prima do Naruto sai do lado do carona e corre ao redor do carro para abraçá-la. Suigetsu, o namorado, também sai para cumprimentá-la e os três conversam. Espero que deixe o gato com ele e volte ao trabalho.
Suspiro, me acomodando em meu assento ao volante. Os três olham em minha direção e tenho certeza que sou o assunto da conversa.
O rádio acende no painel e o nome “Shizune” pisca na pequena tela. Ela avisou anteriormente que ligaria para saber se tudo estava correndo bem.
— Sim?
— Sasuke. Acabei de fazer o depósito em conta que pediu e as reservas no hotel estão confirmadas. O senhor Senju mandou um “olá” e alega estar ansioso para seu retorno, pois está sedento por uma revanche no bilhar. Jiraiya está a cinco minutos do aeroporto para trazer seu carro de volta. Kankuro está sabendo de sua ida a Ozaka à negócios e o convida formalmente a seu leilão de cunho filantrópico, passarei os detalhes via e-mail. Naruto pediu que eu o perguntasse se o cancelamento das reuniões é realmente necessário, pois ele pode substitui-lo em todas, se desejar.
Eu não estou com cabeça para lidar com tanta informação e me sinto aliviado quando ela para de falar. Suspiro, considerando o pedido de Naruto.
— Claro, diga que sim, não estou com vontade de remarcar nada. Diga ao inseto, com minhas palavras, que se não tiver uma pauta com todo o conteúdo que perdi, contarei a MM — diminutivo de “maluca do marketing”, um termo que ele usa comigo quando não quer que outras pessoas saibam que está falando sobre ela — que ele desativou o bate-papo do Facebook para ela.
— O senhor Naruto está ao meu lado e pediu que eu o dissesse “você jamais faria isso”.
Não consigo conter uma risada.
Ele tem razão. Eu jamais iria tão baixo.
— Pois o lembre do acervo de fotos comprometedoras que tenho e de meus contatos jornalistas.
— O senhor Naruto disse que você odeia jornalistas e as fotos não estão nítidas, não é possível ver seu rosto nelas.
— Pois o lembre de algo que deve ter esquecido há muito tempo: eu sou o chefe.
— O senhor Naruto disse que fará uma excelente pauta não resumida e a terá em mãos no momento em que retornar de sua viagem.
— Ótimo.
— O senhor gosta da companhia aérea que escolhi? Os assentos são unidos, como pediu. O gerente disse que seria um prazer tê-lo usufruindo de sua companhia. As suítes são primorosamente mobiliadas, na cobertura, com acesso a serviço de quarto, piscinas, jacuzzis, academias, bibliotecas, saunas...
— Tenho certeza que fez um excelente plano de hospedagem. — a interrompo ao ver Sakura se aproximando em direção ao carro — Nos vemos na quarta-feira.
— Até. Faça uma boa viagem.
Quando se acomoda ao meu lado, o aroma de perfume me golpeia instantaneamente. Estou satisfeito por ela realmente ter se arrumado para a ocasião, não que eu esperasse tão pouco dela a ponto de crer que viria como um maltrapilho, mas Sakura superou algumas de minhas expectativas.
— Desculpe a demora. — ela puxa o cinto de segurança, pondo-o na trava. Percebo que seu batom em tom bronze foi retocado e meu primeiro instinto é pensar que Karin o fez.
— Sem problemas. — provavelmente não repeti esta frase tantas vezes em um mesmo dia como hoje — Podemos ir?
— Sim. — ela parece meio hesitante ao responder.
Aliás, de um momento para outro o que era um fantasma de sorriso sumiu, dando lugar a uma expressão séria e nervosa. Sinto-me péssimo com a simples possibilidade de que seja aerofóbica; como disse, sou péssimo em confortar pessoas, principalmente as instáveis ou acometidas por grande pânico.
Talvez seja essa a minha única fobia.
Durante o caminho até o aeroporto, percebo que se remexe em sua cadeira, esfrega as mãos e coloca o cabelo atrás das orelhas. Ela está nervosa, eu não sei como puxar assunto.
Pela internet as coisas eram muito mais fáceis.
Não chegamos com uma grande folga. Sugeri que fôssemos beber alguma coisa no bar para tentar acalmá-la – apesar de sempre responder que estava tudo bem – e ela aceitou. Estava sentada em um banco tomando suco de uva quando Jiraiya chegou para buscar meu carro.
Decidi encontrá-lo sozinho por via das dúvidas. O olhar perverso que lançou a Sakura e logo depois a mim quando nos viu foi suficiente para crer que a história falsa de que passamos tempo extra transando no escritório estava selada em seu cérebro porco a ferro quente. Eu não queria que Sakura ouvisse uma gracinha de mau gosto porque “coincidentemente viajaríamos juntos mesmo tendo um “caso””.
Nós despachamos a bagagem ao chegar, por isso, ela tinha em mãos o cartão de embarque, um manual que alegou ter imprimido em casa para primeira vez em aviões, o cartão de embarque, o bilhete e-ticket assim como outras coisas importantes e a possibilidade de perdê-los me assustava. Eu pensei repentinas vezes se pedir para carregá-los seria melhor, mas logo em seguida, me conformei com a possibilidade de que entenda de outra forma.
Quando o voo é anunciado, percebo que o queixo de Sakura está tremendo. Eu desviei o olhar e fingi não ter percebido enquanto éramos guiados por um encarregado até um portão de embarque privativo. Ela me perguntou “tem certeza que é por aqui?”, “você não tem medo?”, “ataques terroristas acontecem em voos domésticos?”, “como as pessoas parecem tão calmas?” e acabou com “e se eu vomitar?”.
Se eu já não tivesse viajado de avião outras vezes, teria absorvido seu nervosismo.
Ino também não gostava de aviões, mas mantinha seus temores para si e não era nada transparente. Ela gostava de me demonstrar confiança com o desconhecido, que era corajosa.
Sakura estava pálida e com o queixo tremendo.
A aeromoça que checou nossos cartões de embarque na porta do avião foi gentil o bastante para dizer algumas palavras de conforto e eu fiquei aliviado, pois seu rosto já estava ficando sadiamente corado outra vez.
— Me acompanhem, por favor.
Ela nos leva até a parte da frente do avião, e quando passa pela classe econômica e executiva, Sakura cutuca meu braço e me encara aparvalhada.
— Nós vamos para a cabine do piloto?
— Não. — respondo, voltando minha atenção ao coque de trança na cabeça da aeromoça que nos guia até nossos assentos.
Não sei o motivo; sei que ela descobrirá eventualmente que viajaremos de primeira classe, mas temo que contá-la eu mesmo passará uma imagem boçal e megalomaníaca que não desejo que tenha de mim.
A possibilidade de contá-la que inicialmente usaríamos o jato da minha família está fora de questão também. Eu preferi um voo doméstico pelo mesmo motivo. Não quero que me veja com maus olhos.
A primeira classe estava ocupada unicamente por dois senhores idosos que ocupavam duas cadeiras distantes de nós.
— Puta merda! — ela descobriu. Ouço sua exclamação atrás de mim, mas novamente, ajo como se nada houvesse — Sasuke... senhor Uchiha!
— Pode me chamar de Sasuke.
— Por favor, acomodem-se. — a aeromoça nos aponta para duas poltronas grandes e confortáveis. — Serão apresentados a tripulação. — Aceno, desviando o olhar até Sakura, que está cobrindo uma tosse baixa com a mão.
Resta-me imaginar todo o pandemônio em sua cabeça e o olhar nada discreto em seus olhos faz com que eu sinta vontade de zombar dela, algo que consigo controlar facilmente.
Nós passamos cerca de cinco minutos sendo apresentados a tripulação, e tenho certeza que fui o único a prestar atenção em tudo.
Recebemos toalhas quentes, uma carta de vinhos, o cardápio das refeições do dia e além disso, a única coisa que conseguiu prender sua atenção: brindes de uma grife europeia com miniaturas de perfumes, hidratantes e pequenas esculturas abstratas.
Ela não olha em nenhum momento o cartão de instruções.
As poltronas são tão largas e reclináveis que nós dois estamos próximos da janela, claro, cada um em seu devido lado, com telas em balcões com recipientes carregados de revistas e jornais. Não foi necessária a arbitrária discussão sobre quem pegaria a “janela e o corredor”.
— Onde está o cinto de segurança? — ela pergunta, observando o próprio colo e curvando as costas enquanto o procura sobre o estofado.
— Você provavelmente está sentada sobre eles. São necessários quando o sinal deles se acende, pode ser na decolagem, em caso de turbulência ou aterrissagem. Ou seja, em poucos minutos estará livre deles.
— Que absurdo! Eles querem que eu viaje desprotegida?
— Isso não é um carro, Sakura.
— E você acha que eu não percebi? — seu tom de voz se acresce, e volto minha atenção à tela na qual o logo da companhia aérea se acende — Caralho, desculpa! Desculpa outra vez pelo palavrão, mas, nossa, eu nunca viajei de avião antes, — ela está abanando o rosto com as mãos — sabe? Estou um pouquinho nervosa.
Um pouquinho
— Tudo bem, é a sua primeira vez, é normal. Vamos ficar aqui durante uma hora apenas, se você começar a assistir um filme sequer vai perceber.
— Eu posso assistir um filme agora?
— Esse monitor ao seu lado direito serve para isso. — aponto com o nariz. Ela observa a tela e depois me encara com um sorriso.
— Entendi.
Somos abordados por uma aeromoça que nos orienta a ler o cartão de instruções, oferece champanhe e afivelar o cinto de segurança para o momento da decolagem.
Começo a me preparar para algum surto por parte dela. Estou ciente de que a decolagem é o pior momento para uma pessoa que tem medo de avião. Minha mãe surtou, Ino surtou, e o máximo que consegui fazer foi dizer “fica calma” e pagar uma caixa de trufas para ambas.
Já estou pensando se aquela companhia vende trufas de alta qualidade para acalmar os ânimos de Sakura em uma necessidade.
Talvez não seja necessário, penso antes de desviar o olhar até ela, cujo corpo está rígido, o rosto tenso e os nós dos dedos esbranquiçados.
Resmungo um palavrão para mim mesmo. — Você não vai gostar desta parte. Vamos decolar. Tudo o que precisa é respirar fundo e ficar calma. — se ela soubesse o quanto aquelas palavras de “praxe” já eram muito além do que deveria esperar de mim, certamente agradeceria — A pressão vai se intensificar, oscilações são completamente normais. É até... divertido.
— Eu não estou me divertindo.
Ouch. É o que acontece quando resolvo falar além da conta.
Foi a lição que eu precisava para ficar calado.
Durante a decolagem, percebo que ela fecha os olhos e expira sonoramente. Sinto um aperto quente em meu pulso, é sua mão se fechando fortemente contra minha pele.
A observo, e Sakura permanece de olhos fechados. Provavelmente não reconhece o que está fazendo e só me solta quando ganhamos altitude.
— Meu Deus do céu. — ouço seu clamar abafado pelas mãos. Ela começa a abanar o próprio pescoço e logo em seguida prende o cabelo em um rabo de cavalo — Isso foi... horrível.
— Um dia você acostuma.
— Uau, — ela parece se acalmar aos poucos — espero que não seja necessário. Meu negócio realmente é a terra firme.
— Você nunca fez um cruzeiro?
Ela me fita inexorável. — Não. — responde, levantando os ombros como se fosse algo muito óbvio. Sakura se afasta, inclinando o corpo em direção à pequena janela oval com persianas. Por seus cabelos serem curtos, alguns fios escapam do penteado, cobrindo seu pescoço de uma forma atraente. Eu desvio o olhar até a aeromoça, que está conversando descontraidamente com os senhores e tenho certeza que seremos os próximos — Você já? — ouço sua voz novamente e sinto que está me olhando, mas não faço contato visual de imediato.
— Já.
— Para onde você foi? — ela apoia o cotovelo sobre a superfície de policarbonato que separa nossos assentos e me observa com curiosidade nos olhos.
Eu não pensava sobre aquela viagem há um bom tempo, e não queria lembrar agora. Hoje em dia enfrento o rompimento de forma mais civilizada, mas nem sempre tem sido dessa forma. Fiz coisas que não deveria fazer, como procurar Ino mesmo após ter sido clara que não queria conversar e deixei que arruinasse minha imagem sem prejudicá-la de alguma forma. Ao menos mantive minha posição irredutível quando fui procurado.
— Foi um cruzeiro de seis dias pelo mar Mediterrâneo. — sua expressão facial se acende e temo que vá fazer mais perguntas — Com minha ex.
Ela entende minha deixa e balança a cabeça satisfeita ao tentar murmurar um “entendi” que é interrompido por uma sacudida no avião. Sakura grita.
— O que foi isso? — sinto como se todo o caminho percorrido para mantê-la calma e estável virasse cinzas — Ai meu Deus! Ai meu Deus. Meu Deus do céu...
— Calma.
— Calma?! — ela esbraveja, e seu corpo salta do assento. Sua cabeça levanta com brusquidão e eu sinto vontade de rir, mas ao mesmo tempo começo a ficar tenso e aquilo me impede sem que seja preciso centralizar meus pensamentos a diferentes tipos de dores, especialmente a do chute no saco — Moça, o que é isso, pelo amor de Deus? O avião vai cair? — ela grita desesperadamente em direção a aeromoça, que derrama as duas taças de champanhe que carregava em mãos e precisa se segurar a uma das poltronas para não cair — O avião vai cair. — seus olhos estão tão grandes que eu poderia ser engolido por eles — O avião vai cair. Já era. Já era. Eu e você vamos morrer. Todo mundo aqui... — outro choque violento interrompe seu discurso desnaturado, e ela agarra meu braço outra vez, inarredável — Ou talvez não. Jesus Cristo, imagina se... se nós cairmos em uma ilha como aconteceu em Lost e ficamos lá...
Ao contrário da conversa dos Autobots e Cybertron, Lost era famosa o suficiente para que eu conhecesse. Que conversa fiada.
— Cala a boca. Vai passar. — meu estômago está embrulhando. Não posso, eu sou a única pessoa que não está enchendo o avião de gritos. Não posso me deixar abalar por uma turbulência — Porra!
Suas unhas machucam o meu braço. Ela está descontando todo o nervosismo em mim. Que ótimo.
— Eu só tenho vinte e quatro anos... — ela se lamenta. Sua voz sendo abafada por gritos na classe executiva e econômica — Eu só vivi duas décadas e quatro anos, isso não é nada. Eu queria lançar um livro antes de morrer!
— Você não vai morrer.
Outro ponto positivo de ir na primeira classe é não experimentar do pânico público que provavelmente estava acontecendo nas outras classes. Ver outras pessoas enlouquecerem levaria Sakura ao delírio. Eu não sei se ela tem o coração sadio, sabe-se lá o que merda pode acontecer.
— Vamos. — ela insiste.
— Não vamos.
— Como pode saber que não? Você por acaso é Deus? O Messias?
Eu não sei o que significa isso. — O que é Messias? — eu grito de volta. Aliás, é como estamos “conversando”. Por meio de gritos.
— Não sei! É alguma coisa divina, isso eu tenho certeza! Acho que é o nome...
— Apenas pensa na porra do seu gato. Você gosta dele, não é? — ela me olha, e acena em desespero. O ritmo de sua respiração está tão descontrolado que me contagia. Minha mente trabalha continuadamente em busca do nome do maldito gato — John Constantino.
— Constantine. Ne. Igual ao Hellblazer dos quadrinhos. — ela me corrige — Meu fofinho... ele tem seis anos. Já estou com saudades dele.
Eu não sei o que é Hellblazer. Não sei do que está falando.
Entre dez coisas que ela fala, eu só consigo entender cinco.
— Senhoras e senhores. — uma voz masculina soa pelos alto-falantes — Aqui fala o capitão. Por favor, fiquem calmos. Estamos passando por uma turbulência. — ela resmunga um “não brinca!” — Os avisos para apertar os cintos estão ligados, por favor retornem a seus lugares. Entrarei em contato assim que tivermos mais informações.
— Fica calma. — eu tento uma última vez. Acho que o pronunciamento do Capitão a acalmou de alguma forma — Arranjarei trufas para você, quando acabar.
— Sério? — ela tenta parecer madura e discreta, mas seus olhos estão brilhando.
— Sim.
Betado por: Pan Alban
Fale com o autor