Ekusas
12 Sakura
Notas iniciais
Não quero estar em um avião outra vez em minha vida.
Sasuke me tratou da melhor forma possível, e se eu pudesse avaliar seu comportamento ante meu desespero, diria que seu sangue é frio, afinal, enquanto eu jurava que morreríamos, dos dois um, ou ele ficava calado, ou dizia “não vamos morrer” como se tivesse poderes de clarividência.
E, claro, me comprou uma caixa de trufas. Só que era uma marca gourmet, e a grande porcaria por trás de tudo isso é que foram apenas cinco trufas. Cinco trufas variadas. Cinco. E eles ainda têm a coragem de chamar aquele punhado de “caixa”.
No supermercado passo longe de seções chiques e caras por este motivo. As marcas mais populares me presenteavam com, no mínimo, dez trufas por um valor bem melhor.
Mas como aquele era o maravilhoso mundo dos ricos eu tinha que ser compensada de alguma maneira, e fui. Finalmente descobri o que era um orgasmo – ou algo muito próximo disso – quando mordi aqueles pedacinhos do paraíso.
Sasuke me olhou, parecia esconder uma tensão e apreensão por meu estado emocional. — E então? — ele quis saber, provavelmente ansioso se sua estratégia havia funcionado.
Eu estava tão encantada por aquele chocolate que só consegui levantar o polegar em sua direção, e ele expirou aliviado.
Passei a próxima uma hora pensando em como um homem que aparentava ser tão íntegro e gentil cometera a atrocidade que é trair uma pessoa. E isso ficou cravado em minha mente durante toda a viagem, eu olhava para ele, concentrado em um livro, me parecia tão sereno que eu me sentia profana por questionar, mesmo que a mim mesma, “como ele pôde fazer isso?”
Em situações como essa, as tendências maiores são que eu assuma o lado das mulheres imediatamente, mas eu não conseguia me sentir zangada com ele, porque ele nunca fez algo de ruim para mim quando teve a chance. Do contrário, foi muito tolerante.
Eu não estava me deixando levar pela gentileza da carona quando disse que ele era uma pessoa muito boa. Realmente acredito que é.
Fiquei assustada quando aterrissamos. Li no tutorial que o ideal era correr para a esteira e pegar minha bagagem, mas chegando ao saguão, vi um homem de longe com a minha mala em mãos e quase saí correndo, achando que estava sendo roubada.
“É um motorista da companhia” Sasuke disse.
Preciso dizer que sorri para tentar amenizar as coisas, já que fiquei com a cara no chão e não consegui olhar para ele nos próximos minutos.
Definitivamente, preciso me concentrar para que ele não perca a paciência.
Aquele era um momento fenomenal que eu jamais esqueceria. Fiz minha primeira viagem de avião, – apesar de ter odiado – vou conhecer uma nova cidade de graça – não sei quem está custeando – com o meu chefe que é um Adônis.
Um carro imenso estava nos esperando na frente do aeroporto.
Enquanto vou observando a cidade através da película escura do carro, percebo que aquela viagem realmente não me fez bem, e esqueci todo o material de estudo ao qual me dediquei na última semana.
Começo a roer as unhas dentro do carro e por sorte ele está focado demais em seu livro para me dar atenção.
Meu Deus, eu esqueci tudo. Simplesmente esqueci, tudo está em branco.
Mal posso esperar para chegar ao hotel e dar uma lida nos documentos que trouxe. Quem sabe assim posso retomar o que aprendi.
— Você está com fome? — a voz de Sasuke me sacode do meu estupor.
— Não muito. — respondo, percebendo que ele fechou o livro, pousando-o sobre o próprio colo.
Ele massageia a própria nuca, de olhos fechados, logo abrindo-os outra vez. Eu o observo com toda a atenção do mundo. Seu rosto tem traços finos, porém firmes, marcantes, ele parece mais jovem do que realmente é, tem a face angelical como a de um bebê e ainda assim é, inegavelmente, um homem másculo.
Preciso parar de olhar para ele. Francamente, tem momentos, como agora, em que eu gostaria de ter um chefe velho e barrigudo. Com certeza seria bem mais fácil manter um foco que eu já não tenho.
Ele observa o relógio em seu pulso por um momento. — Eu vou levar você para almoçar, mas queria alugar um carro antes, tem problema se eu fizer isso?
— Não. De forma alguma, sem problemas.
— Ótimo. Esse é um carro que a companhia aérea disponibiliza para os clientes de primeira classe, ele vai nos levar até nosso destino e depois disso irá embora. Preciso de um carro.
Não falo mais nada, e francamente, ele não parece esperar uma resposta. Abre o compartimento e conversa com o motorista, dando localizações de ruas que sequer conheço.
Certamente já esteve aqui antes.
Almoçamos no restaurante do hotel, localizado em uma ala separada, exclusiva. Por o serviço ser caro e os preços do cardápio filtrarem as personalidades que entravam por aquela porta, não hóspedes também poderiam usufruir do serviço. Eu comi vieiras pela primeira vez na vida enquanto ouvia meu chefe passar o itinerário. São quatro dias, nos quais apenas dois estariam destinados a trabalho propriamente dito.
Amanhã, por exemplo, ele me levará para conhecer as instalações de Yahiko e ainda comentou separadamente que eu gostaria da experiência, teríamos o resto do sábado e o domingo livres, porém, a segunda-feira era o dia do ‘tudo ou nada’.
Eu teria muito tempo para relaxar. E, falando em relaxamento, quando Sasuke ficou mais a vontade, ele perguntou se eu queria conhecer a cidade e prometeu que me levaria aos melhores lugares que conhecia amanhã, assim que saíssemos da empresa de Yahiko.
E eu fiquei lívida durante todo o momento que se seguiu. Com sorte consegui pronunciar um “obrigada” duas vezes e não passei tanta vergonha assim.
No hotel, me sinto mínima outra vez. O saguão é imenso, com constante circulação de pessoas indo e voltando de três elevadores. O local é repleto de adornos e obras de arte com aparências caras, das quais eu não me sento digna a, sequer, tocar. Achei muito bonita a fonte, no centro, na qual uma deusa grega a qual não tenho completa certeza da identidade joga água em uma enorme concha.
Resumindo, o lugar pode ser tranquilamente comparado a um minipalácio em uma área nobre da cidade.
No momento, Sasuke está afastado, conversando com uma das funcionárias no balcão que sorri o tempo inteiro. Ela pede um documento, o entrega um papel para que assine, e no segundo seguinte, agradece pela preferência ao passá-lo o que as pessoas conseguem chamar de chaves de quarto.
Na verdade, eu vejo como dois cartões magnéticos do tipo que se usa em colégios.
— Aqui está. — ele me entrega uma das “chaves” — Eu vou estar do seu lado. — me mostra a numeração em seu cartão, e percebo que procede — Pode me chamar a qualquer momento que precise.
— Certo.
Ele enfia as mãos nos bolsos da calça e o momento fica tenso. Apesar da grande quantidade de pessoas ao nosso redor e a infinidade de coisas bonitas naquele saguão que mereciam um comentário, eu não consigo dizer nada, e pelo visto ele também não.
— Então, eu tenho alguns telefonemas para dar, lamento não poder ficar com você por algum tempo a mais. — ele passa a mão entre os cabelos.
— Que isso, sem problemas. — eu balanço as mãos, tentando parecer convincente.
— Foi uma boa viagem, mesmo com... bem, a turbulência. — e a sua paciência inesgotável — Eles têm um excelente serviço de quarto aqui, basta dar um telefonema. — ele me entrega um pequeno panfleto — Aqui estão algumas informações úteis para o serviço de lavagem de roupas, o uso da academia e outros tipos de meios de diversão, caso queira, — enquanto ele fala, eu me sinto decepcionada por todo aquele discurso soar como uma despedida do tipo “é, viemos juntos no avião mas só nos encontraremos quando for realmente necessário, então pode tirar o seu cavalo da chuva, não vamos passar tempo, se vira” — e se precisar de mim, vou estar na suíte ao lado da sua, é só bater.
Você já disse isso, minha mente dispara. Como se eu realmente fosse procurá-lo caso uma barata apareça no chão e eu prove, outra vez, minha infinita aversão a insetos. Acho que eu não bateria sua porta em busca de ajuda mesmo que ocorra um incêndio. Prefiro morrer calada a proporcionar o mínimo de preocupação e, novamente, passar vergonha.
Mas a sua intenção foi legal, Sasuke.
No elevador, ele não disse mais nada. Apenas trocamos uma série de olhares aos quais eu senti o meu estômago imergir e não permiti que durassem. Entretanto, quando um cinquentão animado de cabelos verdes entrou no elevador, vestido de roupas de lycra justas, Sasuke me dedicou um olhar sério, do tipo “Que horrível, você está vendo isso?”.
E eu precisei segurar uma risada.
Ele, com toda a sua invejável neutralidade, permaneceu sério como se estivesse sendo pago para isso.
Assim que entrei em minha suíte, fui arrebatada outra vez pelo que pareceu uma convenção de anjos em um coral divino. Estou emocionada com a beleza daquele lugar, que mais se parece com um apartamento completo e mobiliado. Minha primeira reação é largar a mala e correr até o colchão, me jogar nele mesmo sobre as toalhas limpas que alguém deixou lá para mim. Sou abraçada por uma imensidão branca e macia. Sinto-me rica. Fabulosa.
Tiro os saltos dos pés sem o menor capricho e permito-me um momento de descanso e calmaria. Observar cada pequeno átomo daquele quarto não me parece tão importante quanto me livrar do sutiã e cochilar, mesmo que por cinco minutos.
₰
Acordo às sete horas com a vibração do celular contra minha barriga. Todo o quarto está escuro e não sei onde está o banheiro. Aliás, entrei no quarto e me joguei sobre a cama sem ao menos conhecer as imediações.
— Alô?
— Não acredito que você estava dormindo.
— Eu não queria dormir também, simplesmente aconteceu. — minha voz está rouca quando me sento sobre o leito da cama, esfregando o rosto. Dormi por um bom tempo.
— Se eu fosse solteira e você, estaria azarando os rapazes de Osaka. Aliás, — ela suspira pesadamente — provavelmente está hospedada em um hotel cheio de estrelas, ao invés de estar cheirando, tocando e olhando tudo, está dormindo.
— Se visse quão maravilhoso é este quarto, não reclamaria do tempo que passo aqui. — na realidade também não vi direito, mas ela não precisa saber disso.
— Pode ser a suíte presidencial, não justifica. Vá dar uma volta pelos corredores, conheça o ambiente para me contar o que pessoas ricas estão vestindo no momento.
— Não estou com vontade de sair daqui. — caio sobre o colchão novamente. Sinto que nuvens de algodão abraçam meu corpo inteiro como areia movediça. Que paraíso — Como está o meu gato?
— Espalhando pelos no meu sofá e estranhando tudo. Estou com medo de tocar nele.
— John é um amor, muito bem educado.
— Permita-me fazer uma correção: muito bem mimado. Se você não levantar a bunda da cama agora, não vou dar a ração de salmão e camarão com ricos nutrientes para a pelagem e blá blá blá, vou jogar um pepino perto dele e filmar a reação. — sua voz insuportável rasteja sob minha pele quando ouço aquela crueldade imensurável.
Fecho minha mandíbula até os molares doerem. — Você é o diabo. — consigo dizer — Já estou fora da cama. Não faça isso. — minha mão direita tateia o criado-mudo de mogno até encontrar o pequeno controle do qual recordo ter visto pela manhã. Sei que esses lugares chiques têm controles para iluminação, e se eu estiver certa, qualquer botão que eu aperte fará com que alguma coisa se acenda no cômodo.
Meus dedos mergulham de qualquer jeito no controle e umas luzes aleatórias se acendem. Até a cama tem luzes.
— O Sui vai embora, vou me despedir dele. Ligo para você em cinco minutos.
Penso em desligar o celular ou ativar o modo avião, porém, resolvo colocar música e ao invés disso começo uma investigação detalhada do lugar. São tantos itens que desejo explorar, mas ao mesmo tempo me pergunto se todos os quartos daquele hotel são tão lindos assim.
Era como um apartamento de verdade. Eu tinha uma sala de estar com bar e lavabo, uma lareira enorme; sala de jantar com uma mesa totalmente exagerada acompanhada por 10 cadeiras – sento em quase todas –, televisões enormes, dois banheiros, um kit com xampu e sabonete líquido (dentre outras coisas), hidromassagem, balança, – eu não queria passar por quatro dias pela tentação de olhar para aquela balança e não ter coragem de subir – roupões felpudos e enormes, que abraço, e até mesmo um secador de cabelos. Entro no box, ligo a ducha e molho as mãos. Eu poderia me acostumar a esta vida com uma facilidade assustadora.
Corta-me o coração saber que partirei em poucos dias. Prometo a mim mesma que usarei a banheira ao menos uma vez.
Deixo as roupas no chão e com o kit em mãos, resolvo tomar uma ducha quente durante todo o tempo necessário e não atendo a ligação de Karin, que insiste até que eu saia, enrolada no roupão mais confortável que já tive a oportunidade de estar dentro.
O banho consegue me relaxar completamente.
Atendo a ligação e a deixo no viva-voz enquanto exploro os outros itens do kit, como gel pós barba, toalhas, cremes, toucas e até mesmo agulhas e linhas para costura.
— Estou me sentindo uma rainha. — eu comento, ao telefone — Precisa pedir ao Suigetsu que a traga em um hotel assim. Eles te oferecem até mesmo cremes e agulhas, dá para acreditar?
— Por favor, eu ia pedir exatamente isso. O kit de amenidades de um bom hotel compra a minha vida e a sua juntas, não deixe de trazê-lo, eu quero ver tudo. E então, já deu uma volta?
— Vou vestir alguma coisa, e é exatamente o que farei.
Ainda estou ao telefone quando deixo meu quarto. Olho para os dois lados do corredor, assustadoramente vazio, e faço meu caminho em direção ao elevador.
— Que tipo de piso eles têm ai? Aposto que é porcelana ou algo muito chique e parecido.
— Não sei distinguir, — aproveito que estou sozinha e me agacho, passando os dedos pelo chão — acho que é vinílico.
Ela geme. — Ai, lindo. Adoro.
Estou de pé outra vez, esperando que o elevador. Ela está falando sobre os tipos de pisos que viu em sua estadia em um hotel três estrelas e enquanto isso observo a porta do quarto de Sasuke. Será que ele está lá?
O elevador se abre para me receber e de dentro um casal sai, me desejando boa noite. As portas permanecem abertas enquanto decido qual será o meu destino, afinal, sou uma mera pobretona aventureira se esgueirando pelos corredores em busca de boas memórias.
Arrisco o saguão. Lá várias pessoas circulam, posso ir ao restaurante ou então observarem as pessoas confirmarem suas reservas. Quem sabe até dar uma volta pela calçada.
— E aí, onde está agora?
— Sozinha no elevador. O Sasuke me entregou um folheto hoje e vi que eles têm jacuzzis e saunas aqui, será que se eu pedir para ver eles deixam? Só dar uma olhadinha.
— Tomara que sim. Quero que me descreva tudo.
— Não sei se tenho coragem de pedir...
— Eu queria muito estar aí. Faria até acupuntura se disponibilizassem. O máximo que pode receber, querida, é um “não”. Vá em frente.
Empino o nariz quando o elevador abre outra vez. Karin está ao telefone dizendo “tente andar como a Beyoncé em Crazy in Love” mas não sou insana a ponto de seguir aquele conselho. Caminho normalmente até o restaurante.
Vejo que todos estão jantando e recordo que comi alguma coisa pela última vez às onze horas, é a minha deixa para ir embora ou cairei dura de fome no chão, e não é o tipo de memória que desejo.
Volto a peregrinar pelo ambiente.
— Onde você está agora?
— Cale a boca.
Direciono-me até a entrada do hotel e percebo que uma chuva fina cai lá fora. Dou alguns passos pela calçada, mas mudo de ideia e retorno até o saguão. O que era para ser uma expedição falha miseravelmente, afinal, existem dezenas de lugares para conhecer e eu não sei por onde começar.
Percebo que algumas pessoas saem dos elevadores vestidas de forma atlética em direção a uma ala separada ao lado esquerdo, abaixo de um mezanino, e já que não tenho para onde ir, resolvo segui-los. Posso assisti-los se exercitando, não tenho nada melhor para fazer.
Exceto voltar a estudar para a palestra que definirá como viverei nos próximos meses.
Karin está definhando do outro lado da linha, mas não tenho como entretê-la se nem mesmo eu estou entretida. Sigo aquele grupo até seus destinos, e repentinamente sou recebida em um novo mundo. Eles realmente têm uma academia aqui. A música eletrônica enche meus ouvidos e de repente sou a única ali usando jeans.
A parede de vidro me proporciona uma visão clara das pessoas se exercitando lá dentro, e por um momento sinto vontade de ter uma rotina de exercícios como uma pessoa fisicamente saudável, mas cobrando de minha própria memória, não consigo lembrar a última vez em que corri ou levantei algum peso.
— Que música é essa? — Karin ressurge em meu ouvido e recordo que estou no meio de uma ligação.
Imagino a expressão de retardo mental que esteve em meu rosto enquanto eu divagava sobre meu sedentarismo.
— Não faço ideia. — respondo, sem ao menos pensar.
Eu gosto de comer, mas não sou boa na cozinha e vivo de alimentos de fácil cozimento, como arroz, enlatados e comida de micro-ondas. Minha rotina diária é cheia, não ingiro todos os nutrientes que deveria, corro para pegar o metrô e corro ao sair dele, corro também para perseguir John – quando ele foge e não volta. Claro, ao menos uma vez por mês peço comida de fora, é um prazer do qual não me abstenho.
Preciso marcar uma consulta com um nutricionista assim que arranjar tempo.
A voz de Karin soa em algum lugar de minha cabeça, especulando artistas. Estou mais atenta a uma senhora que corre com disposição invejável em uma esteira, e ao seu lado, um pouco mais afastado, oh...
— Karin — meu chamado interrompe seu monólogo infindável, e ela resmunga um “o quê?” repleto de insatisfação — Karin...
Minha reação física a ele é enervante. Sinto como se meu interior estivesse preso por vê-lo em um momento como aqueles, como um ser humano normal e não o robô que eu tinha certeza que era, e quando tudo se solta, eu reinicio de uma só vez, minhas ondas cerebrais funcionam furiosamente.
— O que é?
— Sasuke está na academia e... — eu gostaria de ter um binóculo — uau.
— Eu estava prestes a perguntar por ele. Criticá-lo como anfitrião, por não acompanhar você ao menos um pouco, mas ele está perdoado. Descreva a visão.
— Não vou descrever nada, ele é gostoso, só isso. Ele está correndo em uma esteira, muito rápido, com fones brancos, a uns, sei lá, cinco metros de mim. Uau.
— Bem, ele é um atleta, é óbvio que ele é gostoso. Você não se sente culpada em objetificar ele assim? Não me sinto bem chamando um homem de gostoso.
— Não sinto culpa de nada. — lembro que estou com a boca aberta e a fecho — Atleta? Soa profissional demais, ele só corre e malha.
— Sasuke pratica esgrima, tonta.
Eu jamais poderia imaginar.
— E ele tem muitos cavalos?
— Como assim?
— Esgrima, cavalos, competições, sabe... meio óbvio.
— Esgrima é luta de espadas, Sakura.
Tudo parece bem mais claro agora. As espadas em seu escritório.
Quantas coisas a mais eu não sabia sobre ele? Provavelmente várias. Ele é reservado, quieto, é difícil esperar de uma pessoa assim que “peque pela língua” e fale muito de si mesma.
Ele parece realmente focado no que está fazendo, está olhando para sua frente, já teria me visto ali, em pé, olhando para ele como se fosse um filé mignon se não estivesse tão concentrado. Parece funcionar em piloto automático.
Que continue assim.
— Vai falar com ele — Karin sugere.
— Não.
— Ora, vamos. Volte até o seu quarto e ponha uns shorts, retorne até a academia e banque a esportista inexperiente que precisa de ajuda com os aparelhos. Sasuke é legal, ele ajudará você se pedir. Quem sabe alguma coisa a mais não acontece, hein?
— Eu nunca faria isso.
— Deveria. Ele está sozinho e até onde sei gosta de mulheres, é bonito, gente boa e rico, só não fiel, afinal, ele precisava ter algum defeito, mas vai dar alguns colares de diamantes a você em datas especiais, se for do tipo esperta, pode fechar os olhos para traições diante disso. Eu fecharia, diamantes são tudo de bom.
— Eu ainda me impressiono com seus discursos.
— Estou brincando, mas... você sabe, é um investimento.
— Quem está objetificando pessoas agora?
— Vou ficar calada.
Francamente, voltar todo o caminho que fiz para trocar de roupas e retornar fingindo ser algo que não sou está fora de cogitação.
Sinto vontade de desligar a chamada, mas temo que ela assuste meu gato, como prometeu. Entretanto, não consigo articular mais nada e aquela ligação em andamento não tem mais sentido.
Oh, merda. Ele me viu. Sasuke está olhando para mim agora e não sei como reagir. Não há como disfarçar que eu estava o secando o tempo inteiro, ele viu tudo, mas desvio o olhar mesmo assim e começo a prestar atenção em outra pessoa.
Olho para ele outra vez e continua me encarando. O choque irrompe através do entorpecimento e percebo o que acabou de acontecer. Ele me flagrou o espionando. — Ai, Hórus, Anúbis... — preciso me concentrar em meus próprios pensamentos. Qual a melhor alternativa que justifique minha presença naquele lugar, e melhor, como posso sair dali com dignidade e ser capaz de olhá-lo nos olhos amanhã.
— Ele ainda está aí?
— Sim, e eu também. Meus pés estão plantados, não quero ficar, mas não consigo sair. — murmuro, desamparada.
— Apenas dê as costas e saia, querida. Não é tão difícil.
Exatamente, tudo que preciso é andar dois metros e dar o fora.
Um breve momento de coragem me acomete e observo meu chefe outra vez. Ele parou de correr. Não posso ir embora. Está corrigindo o posicionamento dos fones em seus ombros e caminhando em direção a uma das saídas.
Ele vem falar comigo. Meu rosto está quente e minhas mãos frias, como isso é possível?
Respiro profundamente, soltando o ar pela boca. Repito a inspiração, colocando a ligação em espera e aproveito para esconder o celular ao cruzar os braços.
Minhas pernas oscilam terrivelmente quando ele para ao meu lado e finjo estar surpresa por sua chegada.
Prometi a mim mesma que não passaria vergonha outra vez, mas acabo de interromper seu treino e estou completamente frustrada.
— Oi, — ele sorri brevemente, mas seu tom de voz é preocupado — alguma coisa aconteceu? — está passando uma toalha preta na testa e pela extensão de seu rosto.
Deus do céu, que presença enorme e intimidadora.
— Nada aconteceu, e com você?
Um palavrão explode em minha cabeça. “E com você?”. Não tem o menor sentido.
Ele contrai as sobrancelhas e uma feição confusa ocupa seu rosto por um momento. — Nada aconteceu comigo. Você está precisando de alguma coisa?
Ar.
— Por favor, não me diga que abandonou o seu exercício por minha causa.
— Eu estava correndo algum tempo a mais do que o estimado.
— O que isso significa?
— Significa que você não atrapalhou coisa alguma. — ele passa os dedos entre os cabelos úmidos, e não consigo resistir a girar os calcanhares e observá-lo de frente — Bem, não respondeu a pergunta, precisa de alguma coisa?
— Não, eu... — engulo — estava com vontade de dar uma volta.
— Ah. — ele molha os lábios e desvia o olhar até o interior da academia, voltando a me perscrutar atenciosamente em seguida — Eu posso levar você a algum lugar, se quiser dar uma volta de verdade.
Por sorte Karin não estava ouvindo aquilo.
Sei que está se oferecendo para ser gentil, e fora todo o resto, é por esse motivo que não posso aceitar. Consigo sorrir genuinamente. — Obrigada.
— Na verdade, desculpe. Pode ter soado grosseira minha ausência, mas fiz ligações durante a tarde e conversei com minha mãe por chamada de vídeo. Eu teria passado tempo com você, mas — ele levantou os ombros largos — não foi possível.
— Não se preocupe, eu dormi a tarde inteira.
Ele dá um sorriso charmoso. — Menos mal.
E o assunto acaba. O momento que odeio, desde os quinze anos.
Acho que estamos flertando.
Sinto necessidade de me distrair com alguma coisa e observo o visor do celular, o tempo decorrido da ligação contando normalmente até que eu a encerre sem repensar.
Procuro sua silhueta novamente e, olhando para cima, nossos olhares se chocam, mas não consigo segurar o contato visual durante muito tempo. Um sorriso incomodado se forma em meu rosto. Não posso demonstrar insegurança, não aqui, estou sob constante avaliação, é uma grande chance profissional; ele pode estar analisando meu comportamento ou expressão corporal e atribuindo notas mentais, preciso me manter rígida e demonstrar autoconfiança.
Pensando nisso, o encaro fixamente, nos olhos. Ignorando o formigamento interno, a vontade absurda de olhar para qualquer outra coisa. Estou agindo com civilidade e é algo que precisa ser mais recorrente, apesar da minha personalidade.
Ele parece notar a mudança, mas não se pronuncia. A feição entretida em sua face demonstra algo que não consigo entender, e me pergunto sobre o que está pensando.
Sasuke está vestido de forma muito semelhante a um jogador de basquete. Talvez eu tenha chegado a esta conclusão por causa da camiseta folgada e comprida, assim como a bermuda. Por um momento, não consigo parar de olhar e, em um instante de completa perversão, imaginar o que está por baixo. Ele tem músculos, nada exagerado, mas tem cabelo suado na nuca e uma parte de seu peito está colada a camisa.
Foco.
— Foi um prazer... — eu travo. O que foi um prazer? Espiá-lo. Eu posso dizer isso? Não. Mas já comecei a frase e preciso concluí-la — Falar com você.
Ele arqueia as sobrancelhas e comprime os lábios. Tenho certeza que está tentando arduamente não rir de mim. — Você sabe... estamos apenas nós dois aqui, a viagem é profissional, mas o ambiente não. Não precisa me tratar tão formalmente o tempo inteiro ou ficar tensa. Eu estou fazendo algo para deixá-la desconfortável?
Imagino como seria a resposta daquela pergunta, caso eu fosse uma pessoa muito sincera. Algo como: sim, senhor. Está parado na minha frente, suado, lindo, mostrando a musculatura.
— Não, você está tendo uma impressão errada.
— É mesmo? — não sei se é uma pergunta retórica ou se a pausa que fez significa que está realmente aguardando uma resposta; opto por permanecer calada — Você me dá motivos para pensar assim.
— Mil desculpas. — dou um passo desesperado em sua direção.
— Por que está pedindo desculpas? Não estou dando uma bronca em você.
— Bem, é o que parece.
Ele coça o lado do pescoço e me olha suspirando, com as mãos na cintura. — É o que parece... — ele repete — Explica muita coisa.
Minha língua está coçando para fazer outro pedido de desculpas, mas me retraio, supondo que talvez aquilo o ofenda. — Não é a minha intenção, de verdade.
— Não é a minha, também.
Suponho que esteja falando sobre seu jeito assustador, e consigo sorrir com ternura, na esperança de passar uma impressão melhor, e não a de que o tratarei como um animal hostil capaz de me atacar a qualquer segundo.
Meu estômago se contorce. Comi pela última vez as onze, quase oito horas atrás. Remexo-me, inquieta. Estou louca para retornar a suíte e escolher a melhor coisa que o serviço de quarto possa me proporcionar, mas nossa conversa só acaba quando ele quiser, ele é o chefe.
O celular vibra em minhas mãos e ignoro a chamada. Sequer preciso checar a tela para saber de quem se trata.
— Você já comeu? — a pergunta foi tão inesperada que eu o encarei em silêncio durante alguns segundos, sem conseguir articular alguma coisa.
Minha cabeça se move primeiro. — Não.
— Vou compensá-la pela viagem tensa e a tarde sozinha. — não há palavras para expressar o que pensei e senti após ouvir aquilo.
— Não precisa me compensar por coisa alguma. Como eu disse, passei a tarde dormindo e você, naturalmente, tem suas obrigações e não pode ficar colado em mim o tempo inteiro. Está tudo bem.
— Sim, eu sei, mas é o primeiro dia e o mínimo que eu poderia ter feito era acompanhá-la. Você provavelmente está nervosa com a segunda-feira e eu posso dar bons conselhos. Já ministrei muitas palestras.
Disso eu não tenho a menor dúvida. Por este motivo os conselhos poderiam ser úteis.
Mas meu impulso ainda é o de dizer não. Não nego, foi um belo discurso sobre a formalidade exagerada, mas mantenho meu ponto de que ele está tentando ser gentil e eu jamais teria pedigree para jantar com ele – apesar de termos almoçado juntos, mas não era a mesma coisa.
Ele era o cara que jantava com uma atriz muito famosa, a loira mais poderosa que já vi na vida. Ele fazia parte do mundo dela, não do meu, e apesar de ser um pensamento completamente exagerado, já que era “só” um jantar, não posso evitar imaginar os momentos em que eu não poderia acompanhar toda sua sofisticação e, novamente, passaria vergonha.
— Não, é muita gentileza sua e eu agradeço de verdade, mas preciso dormir.
Suspiro, com vontade de socar o meu próprio rosto.
Acabei de dizer que dormi a tarde inteira e agora a única desculpa que sai da minha boca é “preciso dormir”. É óbvio que estou mentindo, e ele é esperto demais para cair nesta ladainha.
Eu não esperava que fosse insistir, e ele não o faz. — Tudo bem. Até amanhã.
Sasuke não espera uma resposta, apenas puxa as chaves do carro de seus bolsos e passa por mim em direção ao corredor de saída.
Meus ombros se encolhem e caminho uns dois metros atrás dele. Ele coloca os fones nos ouvidos outra vez e, quando chegamos ao saguão, sai do hotel. Simplesmente sai, mesmo chovendo.
Eu passo algum tempo parada encarando a calçada até perceber que estou inerte e faço meu caminho em direção ao elevador. Que noite.
₰
— Uau, você ultrapassou os limites da burrice hoje. — Karin foi enfática. Até demais.
Deitada na cama, esfrego o rosto pela milésima vez e fito o lustre acima de mim.
Estou convicta de que foi a decisão certa, mas por que me sinto tão inquieta?
Aliás, por que motivo um lado da minha cabeça concorda plenamente com Karin, enquanto outro me conforta, lembrando-me de quem ele é, as coisas que fez, e que manter a distância é o melhor a se fazer.
— Não, eu fiz a coisa certa. — estou tentando convencer mais a mim própria do que a ela, é lamentável chegar a esta conclusão.
— Pensa bem. O cara foi muito gentil com você, isso é um fato. Você está com muito medo da palestra que vai dar na segunda e o melhor palestrante que conhecemos oferece conselhos free, que significa “de graça” em inglês, caso não saiba, e a sua resposta é não. — ela ri com deboche — Quanta superioridade, recusar conselhos do Sasuke. Você deve ser tão boa em falar publicamente que sequer precisa da ajuda dele, uma verdadeira comunicadora social, sabe todas as palavras difíceis do mundo, tem o dom da socialização. Deve saber o que é idiossincrasia.
— Cala a boca. Não é possível que eu seja a única a achar estranho que me convide para jantar quando estamos aqui, sozinhos, com uma pequena possibilidade de que eu seja promovida, ele sabe que estou desesperada e...
— Espere aí, o que está insinuando?
— Não sei! Eu não quero pensar nisso, porque ele me passa a impressão de ser um cara muito bom.
— E ele é uma pessoa boa, apesar do boato da traição. Eu só não entendi o porquê de você... — a voz do outro lado morre por um instante — Ah, não, Sakura, eu não acredito que você me induziu a pensar no que eu estou pensando!
— Acho que sim.
— Ele jamais faria isso, você é louca. — Karin começa a rir deliberadamente, e mais do que nunca, me sinto tola. — Sakura, "teste do sofá" faz parte do século passado, eu nem sei se as pessoas ainda fazem isso hoje em dia. Você é doente. Ele pode ser um bobão por ter traído a noiva, mas isso nunca. Você perdeu um jantar com um semideus por pensar besteira demais.
— Não sei, o mundo é louco, eu tenho o direito de achar estranho.
— Ele tem uma reputação incrível, Sakura. Eu realmente me surpreendi ao descobrir que ele traiu a noiva, sempre o respeitei tanto que foi um choque negativo. Tudo bem, ele tinha sua vida noturna, o que é normal quando se está solteiro, mas assim que começou a namorar, parou completamente.
— Como sabe de tudo isso?
— O meu primo é o melhor amigo dele. — ela suspira ruidosamente, soltando uma risada que me soou deveras deprimida — Enfim, John está deitado aqui no chão e disse que também está desapontado com você.
— Não use o meu gato contra mim. — eu contraponho, enervada.
— Tchau, sua boba.
Certo, talvez eu tenha exagerado por pensar desta forma, e só pela atrocidade que imaginei, ele já merecia um pedido de desculpas.
Continuo surpresa pelo convite repentino, mas não é como se ele houvesse planejado aquilo por horas como um desordenado, eu o peguei de surpresa no meio de seu treinamento e ele tentou ser gentil depois de perceber claramente que me deixa nervosa.
E eu menti para ele descaradamente, no fim.
Eu sou um monstro.
Penso em usar o notebook para escrever um novo capítulo e atualizar minha fanfic atrasada, mas se eu o fizesse, só seria capaz de criar conteúdo deprimente em decorrência do meu humor, e não posso fazer isso. Não é um capítulo dramático.
Eu estou perdida. Concentrei-me tanto em não passar vergonha que acabei conseguindo nada além disso: vergonha.
Saio da cama tão rapidamente que sou atingida por uma súbita tontura, preciso consertar as coisas. Mas não havia o que consertar, ele pode encarar como falsa modéstia ou algo parecido se eu aparecesse lá para pedir desculpas, e teria também a confirmação de que menti. Apesar de nós dois sabermos que menti, eu não quero que se confirme.
Em pânico, olho ao redor pensando em uma desculpa para bater sua porta. Ele disse que eu poderia chamá-lo, se houvesse algum problema, mas o meu problema agora é ele mesmo. Só preciso conversar dois minutos para perceber se ele levou as coisas para o lado pessoal e está zangado comigo.
Minha mente é repentinamente iluminada e corro até o banheiro com rapidez. Retorno às pressas, passo o cartão pela tranca e a porta se abre. Ainda lembro-me da numeração em seu cartão, ele está no I04, a única porta adjacente no corredor.
Com a mão dominante, acerto o punho contra sua porta. Estou mais calma agora, acredito que o motivo tenha sido a conversa esclarecedora que tive com Karin.
Meu corpo dá um salto no momento que ele aparece em minha frente, me olhando com um aspecto neutro e os cabelos molhados, certamente de uma ducha.
— Olá, eu novamente. — só consigo sorrir.
— Oi.
Não me pareceu zangado. Continuo: — Bem, eu recebi um kit com coisas bem úteis e achei isto aqui no meio dos itens. Lembrei que não sou um homem, portanto não tenho pelo facial, mas você sim, por isso estou aqui para te dar este frasquinho de gel pós-barba, pode ser útil. — estico o braço, o oferecendo o frasco na palma da minha mão.
Ele olha para o gel, depois para mim, completamente inefável.
— Eu também recebi.
Minha expressão cai. O tique que tenho no canto dos lábios começa, posso sentir.
Que fiasco! — Oh, sério? — murmuro.
— Sim. — ele continua me olhando — Obrigado. Hum... — Sasuke abre a boca, alternando olhares incertos entre algo no interior de seu apartamento e eu — Será que você pode esperar um momento? Já volto.
Estou tão constrangida que penso, honestamente, em ignorar seu pedido e voltar para o meu quarto, me afundar na cama e não sair de lá outra vez. Mas espero, e ele retorna alguns segundos depois, fazendo com que meus pensamentos desordenados virem pó.
Ele segura a porta com uma mão, e antes que apoie a esquerda à parede, percebo que segura uma espátula e meu estômago imerge, não pela fome, – não totalmente – e sim por chegar a conclusão que arrebatou todos os meus sentidos: ele cozinha.
— Eu posso fazer mais alguma coisa por você? — com a boca aberta, minha cabeça se move em uma negativa não tão convincente — Qual o problema?
— Problema nenhum, eu... eu, você vai querer o gel? — eu mostro o frasco outra vez, como uma última oferta nada tentadora. Sasuke estreita seus olhos escuros em mim, sem nunca observar minha mão.
— Não. — suspirando, ele dá um passo adiante e apoia um dos braços à moldura da porta, cruzando-os sobre o peito — Por que não fala o que quer? De verdade.
Eu engulo, enfiando cabelo atrás da orelha. Não havia mais por que mentir. — Tudo bem, eu só queria ter certeza de que não está zangado com minha atitude antes.
— É, você não estaria aqui se houvesse ido dormir. — faço uma careta; estou tão envergonhada que dói. O observo novamente e noto que está me examinando de alto a baixo. Provavelmente avaliando meu pijama — Não estou zangado, se sente melhor?
— Sim, muito.
— Um momento.
Ele sai outra vez, e fico aqui, em pé, o aguardando novamente. Não havia mais um assunto propriamente dito, eu poderia simplesmente ir embora, eu deveria ir embora, mas ele não retorna nos próximos segundos e permaneço lá, curiosa.
Seria grosseiro se eu enfiasse a cabeça pela fresta da porta e chamasse seu nome? Talvez assim recordasse de que deixou alguém do lado de fora.
Constrangida, empurro a porta e dou um passo adiante. O interior é mobiliado exatamente da mesma forma que o meu, exceto que o aroma no ar é de comida. Estou andando silenciosamente pela sala de estar, e paro ao lado da parede de cobogós, tentando observar através dela.
E, nossa, ele realmente está cozinhando. Descobri duas coisas impactantes sobre ele numa mesma noite e agora eu poderia venerá-lo apenas pela habilidade com o fogão, que eu não tenho.
— Merda. — ele pragueja sozinho e então vira-se, avançando ao redor da parede na qual estou apoiada e, quando coloca os olhos em mim, recua surpreso — Oi.
Meus ombros se encolhem com a frustração de ter sido pega. Eu me enfiei no apartamento dele sem sequer pedir permissão, e enquanto me olha, sua expressão se alivia de tal modo que me pergunto como é possível que não esteja irritado por isso.
Aliás, ele nunca se irrita por nada. Esse homem é real?
— Olá, desculpe entrar, mas você demorou e, sabe, é isso aí. — eu cruzo os braços, agonizando sob minha própria pele.
— Por mais interessante que nossa conversa estivesse, — ele só pode estar de brincadeira comigo — ia ser constrangedor perder uma panela de mexilhões frescos. Me custou algum tempo que não quero desperdiçar.
— Entendo perfeitamente.
— Você cozinha? — Sasuke se afasta outra vez, e o observo através das aberturas dos cobogós, sem coragem suficiente para segui-lo.
Nada vai acontecer, repito para mim mesma, ele não está zangado ou me avaliando.
Meus pés descalços percorrem o piso de vinílico e agora não há mais uma parede entre nós dois. Estamos dividindo o mesmo cômodo, que por sinal, difere do meu. A cozinha dele é um pouco maior, as bancadas são de mármore preto e eu observo outra vez os aparelhos complicados sem entender sua serventia.
Minhas narinas são inundadas pelo aroma de tempero e molho. Meu estômago ronca imediatamente e percebo que preciso retornar com urgência até o meu quarto e pedir que me sirvam alguma coisa.
Qualquer coisa.
— Não, eu não cozinho muito bem. — respondo. Uma mecha de cabelo irritante cai em minha testa e a enfio por trás da orelha — Ao contrário de você. O cheiro está ótimo.
— Não sei fazer muito além disso, aprendi algumas coisas para impressionar minha ex. — ele veste a mão esquerda com uma luva térmica e some de minha visão, por um momento, ao se agachar diante do forno. Quando retorna, eu sinto que posso atacar a travessa em suas mãos sem qualquer piedade. Enchiladas. Uma das piores sacanagens que ele poderia ter feito comigo — Gostou do serviço de quarto?
— Não tive a chance de usar ainda. — dou uma risadinha, e ele complementa com um nocivo “interessante” — Mas tenho certeza que é muito bom, você escolheu o hotel e vindo de você, não espero nada diferente disso.
Ele permanece focado ao que está fazendo sem olhar para mim. — É mesmo? — pergunta casualmente. Não há muito interesse em seu tom de voz.
— Sim.
— Deveria ficar. — o comentário tão repentino me pega desprevenida e prendo a respiração instintivamente.
— Está me convidando?
— Não seria a primeira vez. — seus olhos me alcançam, e ele vira-se de costas apenas o suficiente para me surpreender novamente, tomando um generoso gole de uma lata de cerveja — Isso aqui não é uma avaliação. Não estou testando você. Eu vou testar você, na segunda, mas em nenhum outro momento até lá, então não precisa ter medo de mim...
Minhas opções estão esgotadas. Ele já sabe que não experimentei o serviço de quarto ainda, portanto continuo faminta. Além disso, não é como ele realmente se importasse com minha decisão, eu tenho certeza que não.
Novamente, a base de tudo entre nós é a gentileza, e não me sinto no direito de reclamar disso. Enquanto fosse assim, ótimo.
Eu puxo um dos banquinhos e me acomodo lá, esticando os braços sobre o mármore. — Obrigada pelo convite, precisa de ajuda? — pergunto com servilismo.
— Não, tudo bem.
Acomodo o queixo sobre um dos braços e minha mente flutua novamente.
Como eu nunca notei este homem antes?
Ele sempre esteve lá, exercendo seu papel da maneira mais respeitosa possível, e além disso, eu me mantive tão focada em detectar quando havia um fio a mais nos cabelos de Naruto que não pude dar atenção a ele.
Ele está de costas para mim agora, ouço os ruídos úmidos de algo sendo fatiado e observo a agilidade com a qual suas mãos trabalham. Mesmo com sua inegável atração por roupas folgadas eu posso dizer, sem dúvidas, o quanto é sexy vê-lo cozinhando.
Digo, eu pagaria um pay per view diário de sua rotina, se pudesse. Ele demonstra tanto foco nas coisas que está fazendo, parece tão distraído com aquilo e ao mesmo tempo proporciona uma visão incrível para um forasteiro.
É impossível, também, não compará-lo a Naruto em suas peculiaridades.
Lembro-me como se fosse hoje, em minha primeira semana no trabalho, depois de estar no elevador com Naruto, comentei com Karin que encontrei um louro maravilhoso nos corredores, e a resposta que tive foi “se for o Naruto, há coisas melhores por aí para você, não perca seu tempo”.
Nunca compreendi o motivo, mas agora, em meus devaneios, compreendo perfeitamente. Os dois são muito ricos, muito bonitos, mas apenas um deles é um esnobe. O outro, recebeu uma mentira minha com total consciência e, no momento, está cozinhando para mim.
A verdade realmente nos acerta com mais força do que qualquer outra coisa. Naquele momento, eu não me admiraria se Sasuke me olhasse assustado e dissesse: “uau, tem uma marca de mão vermelha na sua bochecha”. É exatamente assim como me sinto, agredida cruelmente pela realidade.
Naruto me tratou de forma idiota, e a culpa não foi minha.
Tudo bem, eu não posso atribuir toda a magnificência comportamental de Sasuke a outras pessoas; cada um reage a abordagens desconhecidas de formas diferentes. Naruto pode simplesmente não sentir empatia por mim e está em seu total direito.
— Está ouvindo? — Sasuke está parado do outro lado da bancada, olhando em meus olhos atenciosamente. Esfrego os olhos e recomponho minha posição, sorrindo.
— Desculpe, eu estava pensando em coisas.
Ele aperta um dos olhos com minha justificativa. — Você tem alergia a frutos do mar?
— Não sei.
Com os lábios comprimidos, ele passa algum tempo em silêncio. — Então é melhor não arriscar. Espero que não tenha problemas com tempero forte e pimenta caiena.
Suspiro com conformidade. Não sei se tenho problemas com aquilo também. — Não tenho. — minto, e ele se afasta outra vez, satisfeito.
— Sabe... em três dias, quando for dar a sua palestra, caso lide bem com álcool ou beba há algum tempo, eu recomendaria que tomasse uma dose, uma só dose de tequila ou algo que goste para, hum, se soltar um pouco. Eu reparei que você é tímida, isso pode atrapalhar.
Arregalo os olhos. — As pessoas realmente fazem isso?
— Mais do que imagina. Tente não mover as mãos exageradamente também, o ponto de foco é o material que está trazendo, não você mesma. O objetivo é que não reparem em quem está falando, e sim sobre o quê estão falando. Da mesma forma, não precisa se portar como se estivesse vestindo uma camisa de força, precisa encontrar um meio termo, você entende?
Os conselhos que prometeu. É óbvio que estava falando sério antes.
Reparo em suas costas, são largas. Ele não espera uma resposta. — Qual foi a última vez que leu um dicionário?
Engulo em seco enquanto empino o banco no qual estou sentada.
— Bem, se a teoria de reencarnação for verdadeira, eu provavelmente fiz isso em uma vida anterior e o conhecimento que adquiri nela não veio para esta.
— Você deveria fazer isso amanhã.
— Eu vou. — respiro fundo, e ele desliga o fogo, servindo a comida diante de mim, sobre a bancada — Você lê dicionários?
— Eu lia, quando comecei. Acho que tinha uns vinte e três anos. Não tenho mais tempo ou vontade para fazer isso atualmente.
— Não acho que precise... — coço meu próprio pescoço, amotinada.
— Por que não?
— Porque eu não entendo nem metade do que fala quando está fazendo a palestra de economia. Sabe... você parece estar usando um idioma diferente, fala cada paroxítona de arrepiar. Eu olho para a minha amiga e nós duas ficamos voando mesmo, sem entender nada.
Só percebo que passei do ponto quando o ouço rindo, e imediatamente procuro a visão de seu rosto. É um sorriso muito bonito. — Que engraçado, eu me sinto assim quando começa a falar sobre as coisas nerds que você gosta.
Eu o fito, incrédula. Já percebi que tem uma incômoda dificuldade em entender certas coisas e até fez careta quando comecei a falar sobre Autobots.
Não consigo entender se aquilo foi um insulto, talvez eu tenha me empolgado demais.
Ele sorriu, então deve estar tentando descontrair. Vou confiar no meu taco.
Uma risada nervosa escapa da minha garganta e coço a nuca, sem saber para onde olhar.
Eu realmente falo muito. Ansiedade é um defeito terrível, algo que vou carregar comigo até o túmulo.
Durante os próximos minutos, me distraio em observá-lo cozinhar. É uma visão que não terei outra vez, então o ideal é aproveitar bem minha chance. São tantos pensamentos, alguns desnecessários, mas dentre eles algum que me prende a atenção. Ele provavelmente conseguiu aqueles ingredientes quando saiu da academia, e imaginá-lo arrastando um carrinho de compras pelos corredores de um supermercado, como se fosse algo normal em seu cotidiano era surreal.
Alguém provavelmente ganhava um salário para comprar mantimentos para ele.
Os minutos foram passando, o silêncio tornando-se insistente e ficando mais e mais denso, até que ele comenta: — Você provavelmente pensou atrocidades de mim por causa do convite.
Levanto a cabeça para observá-lo, mas ele permanece de costas para mim, ocupado com seus afazeres os quais também não consigo enxergar.
Ele está certo. Jamais posso assumir, mas pensei.
— Na verdade, não. — minto, e ele me observa por cima do ombro.
— Seria compreensível.
— Não pensei. — torço o canto da boca amargamente, incomodada pelo assunto. Preciso pensar em outra coisa — Você nunca fica cansado?
— Não são nem nove horas. — ele deixa uma colher sobre a pia, recolhendo a espátula.
— Eu sei, mas não fiz metade das coisas que fez o dia inteiro, dormi e continuo meio exausta. — levanto os ombros — Sou suspeita para falar, afinal, eu durmo muito, mas...
— Eu não gosto de dormir. — Sasuke se afasta do fogão, apoia o quadril à bancada e cruza os braços. Ele me perscruta, provavelmente tentando captar minha reação, que é transparente. O olhar assustado em meu rosto faz com que ele solte um riso anasalado — É, eu sei que é estranho. Todos precisam dormir, eu também durmo, mas pouco. Realmente pouco. Acho que tenho bastante energia.
Sua última frase me pega desprevenida. — Imagino — comento.
— Sempre há algo para fazer, especialmente na minha vida.
— Isso não é saudável.
— Me diga algo que eu não sei. — ele comenta, com ar de diversão — Você pode levar isso a sério, se quiser. Eu gostaria de ouvir algo sobre você.
— Não sei o que dizer... — meus pés estão se movendo impertinentemente; não consigo permanecer naquela posição. Uma conversa tão simples e que está me tirando do sério.
— Eu sou paciente.
Prendi a respiração durante segundos e só consigo perceber quando ele para de olhar para mim. Uau, eu estou tensa. Ele, esta situação, a comida, o hotel, tudo é bom demais para mim; sequer posso acreditar que estou prestes a dividir algum tempo com ele. O antigo noivo de uma mulher muito famosa, o meu chefe. É surreal.
Não posso cometer gafes, para isso, o ideal é ficar calada e apenas responder as perguntas, caso eu receba alguma.
Mas não posso, eu preciso saber. Eu queria tanto saber.
Ao invés de ir direto ao ponto, talvez eu pudesse questioná-lo qual sua opinião sobre o adultério ou relacionamentos abertos. Isso pode me dar algum espaço para atingir o centro da “ferida”. A maior dúvida que eu poderia ter sobre ele, mas que é pessoal demais.
Ele disse que gostaria de ouvir algo sobre mim, mas não exigiu algo diretamente. Eu também gostaria de ouvir sobre ele, mas tenho um tópico pronto. Minha única dificuldade é conseguir articular minhas dúvidas em voz alta.
Expiro pela boca, enquanto ele se aproxima, servindo dois refratários diante de mim.
Ele se acomoda do outro lado, na minha frente, e francamente, isso é horrível.
Não vou poder esconder minhas reações.
Um punhado de palavrões se repete incansavelmente em minha cabeça, e ao mesmo tempo, chamo por nomes de deuses.
— Você bebe? — sua voz grossa irrompe dentro dos meus pensamentos, e meu lábio inferior treme.
— Sim, sim... — respondo distraidamente.
Repito, não há nada de charmoso na ansiedade. Preciso manter meus nervos sob controle.
O observo, enquanto serve uma dose de vinho tinto em uma taça. Enquanto isso, minhas mãos se enroscam abaixo do balcão, suando frio.
Não há nada de excepcional na forma que está vestido, apenas uma camisa fina de algodão, com mangas compridas e um capuz, juntamente a calças de cordão, ambos em tons escuros. Seu comportamento também é o mais gentil possível, e mesmo assim, não me sinto bem em minha própria pele.
— Você sabe... — ele começa — no avião, em um momento de nervosismo, comentou sobre — seus olhos ficam estreitos — a vontade de lançar um livro, você escreve?
— Eu comentei? — arregalo os olhos. Deus, ele não precisava saber daquilo. Minha mão procura a taça recém-servida com desespero e minha pele esbarra no vidro.
— Opa — ele colhe a taça antes que ela possa cair, e nem um pingo é derramado. Que sorte, eu poderia abraçá-lo ali mesmo por me poupar do constrangimento. Se eu o sujasse com vinho, correria dali e jamais me perdoaria.
— Não, eu não escrevo nada. — ele me fita com um olhar sério e torce o canto do lábio — Não, é só... hum, a sabedoria popular costuma afirmar que só teremos uma vida completa se escrevermos um livro, plantarmos uma árvore e termos um filho, e bem, não é nada demais e eu não estou pensando em levar isso a sério nem nada, foi apenas um comentário fomentado pelo desespero, eu estava certa de que iríamos sofrer um acidente.
— Interessante, nunca ouvi falar. — ele comenta, em um tom distante.
Não estou surpresa, ele é um zero a esquerda quando o assunto são temas “populares”.
O observo novamente, e ele parece pensativo. Seu polegar percorre a extensão de sua taça vazia, os olhos baixos, os lábios entreabertos. Ele parece perdido em pensamentos, e sem querer me deu a brecha que eu precisava.
Ou talvez minha mente esteja fazendo daquilo algo que não é realmente, mas Sasuke acabou de me fazer uma pergunta pessoal, e sinto uma inquietação constante. Não é nada demais, é? Bastaria responder “sim” ou “não”, quem sabe até um “não é da sua conta”, eu levaria na boa. Não insistiria e tentaria aliviar o clima, se ficasse estranho.
Esvazio a taça, enchendo os pulmões de ar em seguida, ganhando coragem.
— Ka — a sílaba sai irracionalmente da minha boca, eu estava pensando em como Karin reagiria quando soubesse que tive a ousadia de perguntá-lo sobre o noivado naquelas circunstâncias. Foi o suficiente para que despertasse de seus pensamentos e me observasse com atenção — Não, não, desculpe, não era isso, eu queria fazer uma... uma pergunta a você. É algo ruim que dizem ao seu respeito, e bom, eu vou encarar normalmente se não quiser responder, digo, eu respeito a sua privacidade e se não quiser, realmente não precisa responder, ok?
Ele aperta o olho esquerdo, confuso. — Sim, vá em frente. Eu não vou responder, se não quiser.
— Você... realmente traiu a sua ex-noiva?
Meu Deus! É uma pergunta pessoal demais, eu exagerei. Algo congelado parece percorrer em minha corrente sanguínea, e tirando bravura de algum lugar, eu o observo em silêncio.
Sasuke me encara de forma indecifrável. Espero que meu coração suporte.
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