Ekusas
13 Sasuke
Notas iniciais
— Não. — antes mesmo que eu possa temer soar prosaico demais, ela já está olhando para mim, parecendo inocente demais. Tenho certeza que não está convencida — Eu sei, é a resposta previsível, mas no meu caso, é verdade.
Ainda em silêncio, ela encolhe os ombros e puxa o cabelo para trás da orelha. — Tudo bem, você já respondeu mais do que o necessário.
Eu teria acreditado se fosse cego, e não conseguisse enxergar a expressão em seu rosto.
— Sabe, foi o oposto. Ela me traiu. — eu a sirvo mais uma dose de vinho tinto — Mas assim é bem mais difícil de acreditar, não é?
— Sim. Desculpe, mas... é, sim.
— Se você assistir qualquer uma das entrevistas dela perceberá pedidos de desculpas aleatórios, em todas elas. Ela pede desculpas a mim, se eu realmente houvesse a traído, você acha que ela faria isso? — enquanto conversamos, Sakura tem uma péssima mania de olhar para qualquer outro lugar, exceto para mim — Quem contou isso a você?
— A Karin, mas — ela se remexe em seu acento, relutante a responder — é o que todo mundo fala de você por aí. Desculpa.
Clássico. Não sei por que ainda esperava das pessoas que trabalham comigo todos os dias um mínimo de respeito. — Vai de encontro aos valores que recebi em casa, a vida inteira. Eu não a traí porque simplesmente não era necessário. — não sei por que estou falando isso, talvez eu sinta tanto desgosto por ser a forma da qual as pessoas me enxergam que esteja louco para me justificar a, pelo menos, uma delas. A única cuja opinião me importava.
— Então vocês eram felizes?
— Sim.
Ela comprime os lábios, girando a taça em suas mãos distraidamente. — Você não tentou uma conciliação?
É engraçado pensar que, segundos antes, ela estava com as bochechas coradas por me perguntar algo mais pessoal e agora, está levando o assunto adiante com mais facilidade.
Lido com o rompimento de forma mais racional hoje do que antes, mesmo assim, não é o tipo de memória a qual eu goste de desperdiçar tempo. Quando tudo aconteceu, permaneci focado ao trabalho e foi o que manteve minha mente sã.
Inclusive, gostaria de estar conversando com Sakura sobre outras coisas.
— Pode não parecer, mas eu sou orgulhoso.
Sakura reage normalmente a minha afirmação, e me fita pensativa. — Não foi orgulhoso comigo.
— Você não merece. — eu desvio o olhar, para que aquela resposta não transforme o momento em algo tenso — E então, vai experimentar a minha comida ou tem algum amor por sua própria vida?
É a primeira vez que consigo arrancar um sorriso dela que não seja de puro nervosismo.
— É claro que eu vou comer. — ela enfia a franja atrás da orelha — E vou comer muito. Só não entendi ainda o que é tudo isso.
— Bem, o primeiro é um preparo simples de mexilhão ao vinho branco e o segundo são enchiladas de frango. Eu aprendi tudo na internet, então não garanto que estejam bons, mas se não estiverem, não precisa dizer.
Ela ri novamente. — Tenho certeza que tudo está ótimo, não se preocupe com isso. — Sakura me fita, pensativa — E então, nós realmente vamos, hum, sair amanhã de manhã? Se você estiver ocupado, realmente não precisa se incomodar com isso nem nada.
Eu a observo enquanto se serve. Percebo que está fazendo um grande esforço para não derrubar algo, e é cômica a forma como seu olhar tenso mantêm-se fixo ao que faz. Com o movimento de seus braços, uma das alças de seu pijama cai e percebo que está sem sutiã.
— Oh, merda. — as palavras saem da minha boca sem que eu possa controlá-las, o que é um evento atípico. Eu ainda estou olhando para ela quando minha expressão cai quase dramaticamente, e sua única reação é continuar mastigando como se nada houvesse.
— Puxa vida, — ela deglute — existe alguma coisa na qual você não seja muito bom? Isso está divino!
Aparentemente, sou péssimo em manter o olhar afastado dos seus peitos.
Eu mal posso ouvir o que fala. Minha vontade é repetir uma sequência interminável de palavrões, outra coisa da qual eu não tinha um hábito.
— Obrigado. — eu respondo sumariamente, enchendo a taça até então vazia.
Sakura continua a comer como se nada estivesse acontecendo, o que me leva a acreditar que realmente estou exagerando. Ao mesmo tempo, meus olhos continuam lá, em esperando um pequeno deslize que não acontece, e em algum lugar, a voz da razão me traz de volta, e eu começo a ler as letras miúdas no rótulo da garrafa.
As mulheres que haviam estado sem sutiã perto de mim o fizeram para chamar minha atenção, era a memória que meu pragmatismo trazia à tona, indiretamente acusando Sakura da mesma forma. Mas, francamente, eu não conseguia pensar aquilo sobre ela. Principalmente por causa do pouco que eu conhecia sobre si, e além disso, não estava me dando bons ângulos para ver qualquer coisa, do contrário, e esta situação estava me tirando do sério.
Não foi de propósito. Não foi. A simples possibilidade de ter sido estava causando um influxo de hormônios em meu cérebro, e eu percebi que a falta de relacionamentos, mesmo os mais casuais, depois do término contraditório era o principal motivo. Eu não tive namoradas ou casos depois de Ino, e só percebi agora que isso está me afetando mais do que eu poderia imaginar. Um impulso indolentemente anestesiado pelo excesso de trabalho.
Quando eu paro de pensar em tantas coisas, percebo que ela está me olhando em silêncio. — Você não vai comer alguma coisa? — eu a fito distraidamente, sem sentir a necessidade de articular uma resposta e durante pelo menos cinco segundos, nos olhamos, calados.
— Não, eu perdi a fome. Você pode ficar à vontade.
Sakura contrai os lábios, suprimindo sua contrariedade e remexe a comida em seu prato. Seria tenso se ela também perdesse a fome de uma hora para a outra, eu não saberia o que dizer. — Desculpe, eu realmente sou intempestiva às vezes. Foi a pergunta que fiz, não é?
— Não. — a resposta veio em um imediato — Não foi, eu realmente não estava tão faminto assim. — ela se remexe sobre as banquetas e meus olhos me traem outra vez. É quando percebo que seus seios estão marcando o pijama cinza.
Não sei quais sinapses foram erroneamente disparadas em meu cérebro, mas pensei comigo mesmo sobre o quão efetivo foi o método usado por ela. Sakura conseguiu transformar um pijama cinza e sem graça de algodão em algo atrativo.
— Não, você está mentindo. Foi a minha pergunta que fez você se lembrar dos momentos com a ex, os sofrimentos e esse tipo de coisa. Você ainda está sofrendo por causa disso e eu fiz uma pergunta pessoal e idiota, desculpe.
O ar sai tediosamente por minha boca. Apesar de justo aquele ser o assunto quando poderíamos falar sobre qualquer outra coisa me irritar, a insistência dela foi uma boa deixa.
— Acredite, eu não estou sofrendo. Mas já que quer insistir neste assunto, eu também posso questionar o motivo de ter perguntado sobre isso?
— Ahm... — os barulhos tilintantes dos dentes do garfo contra o prato me divertem. Ela está começando a ficar nervosa — Eu realmente não gosto que as pessoas pensem algo tão ruim do senhor, e eu não quis pensar também, não sem ter certeza.
— Você se importa com o que as pessoas pensam de mim? — eu devolvo com rapidez, mas ela continua hesitando e levando segundos para responder.
— Sim... não! Quero dizer, não totalmente, eu não quero soar ofensiva, mas sim, me importo com o que pensam de você, não o bastante para permitir que isso seja uma grande coisa, a julgar que você mesmo demonstrou encarar isso com tanta naturalidade, então eu suponho que eu também não deveria. Consegue entender?
— Não, realmente. — meus olhos se estreitam, e percebo que estou sorrindo.
— Meu Deus, que situação fodida! — ela tapa os lábios com uma mão, e começa a rir — Desculpe a indelicadeza. É como diz o ditado: costume de casa vai à praça, e eu falo muitos palavrões no dia-a-dia.
— Sakura, eu disse que podia se sentir à vontade, o que acha de me obedecer?
Posso ver o círculo completo de suas íris quando arregala os olhos, e depois disso, esconde um sorriso ao encolher os ombros.
— É difícil se sentir à vontade com o chefe.
— É, então finja que eu sou um amigo, — tecnicamente eu era — ao menos quando estivermos fora do trabalho. Pensei ter sido claro sobre isso.
— E você foi! Mas não é tão simples...
Esperei que fosse dizer mais alguma coisa, porém, ficou calada e levou um garfo cheio à boca, com os ombros ainda retesados. Permaneço analisando seu comportamento, pensando sobre quantas coisas daria para saber o que se passa dentro de sua cabeça.
Durante o momento seguinte, de um silêncio embaraçoso, ela enche sua taça com mais vinho e, ao beber, parece querer se esconder ali.
— Então, você já foi traída? — pergunto, apreensivo para que desta vez seja sincera. Ela mentiu antes, sobre escrever, e eu realmente não gostei daquilo.
— E quem não foi? — ela levanta os ombros. — Fui sim. Se eu contá-lo sobre minha vida amorosa, se sentirá sortudo pela sua.
— E quem disse que eu não tive uma boa vida amorosa?
Sua expressão facial fica neutra quando analisa meu rosto durante alguns instantes. Ela morde o lábio e enfia a franja atrás da orelha — Realmente, foi uma tolice presumir isso. Desculpe.
Confuso demais para que eu possa me dar o luxo de acompanhar.
— Por quê?
— Você é bonito, rico e muito inteligente. É óbvio que tem uma vida amorosa esplêndida.
Ela trata aquilo de uma forma tão lógica e deprimente que me soa cômico. — Está cometendo um erro terrível. — comento. Nossos olhares se cruzam sob a taça enquanto sorvo um gole de vinho.
— Soou depreciativo ou preconceituoso? Me desculpe por isso.
— Não, você está confundindo amor com erotismo, são duas coisas bem diferentes.
— Não estou entendendo.
— Você justifica minha suposta esplêndida vida amorosa com beleza, dinheiro e inteligência, mas provavelmente ficará surpresa se souber que eu tive apenas dois relacionamentos sérios durante toda a minha vida.
— Isso é... nossa. É quase uma namorada para cada quinze anos da sua vida.
— Eu nunca vi as coisas desta forma, sempre foi — levanto os ombros, fitando a forma como seus braços estavam cruzados sobre o mármore — eu ocupado demais para este tipo de preocupação, e com o tipo de vida que levei desde sempre, estaria mentindo se dissesse que senti, ou sinto falta disso. De, sabe, ter tido muitas namoradas. Eu viajei bastante no início na minha carreira, nenhuma mulher jamais poderia suportar isso. — tentei sorrir para proporcioná-la um momento de descontração. Sakura estava ouvindo a tudo com muita seriedade, quase como se eu a estivesse dando instruções de como desarmar uma bomba.
Sua expressão se acende, e ela está com os lábios apertados, pensativa.
— Você disse que não se arrepende, então — ela coça a própria nuca, como se ali estivesse um ponto de tensão que a incomodasse profundamente — Teve muitos relacionamentos casuais?
Sakura sequer olha nos meus olhos ao soltar o questionamento. Esteve assim, momentos antes, quando perguntou sobre a traição, e em meio a toda a tensão que emanava de si, eu percebi que a conversa estava chegando ao ponto que eu queria que chegasse.
Novamente, eu senti uma vontade torturante de saber sobre os pensamentos que inundavam seu subconsciente. Se ela estava recordando da conversa que tivemos, antes, virtualmente.
Ela puxa o lábio inferior entre os dentes e balança a cabeça em uma negativa. — Não precisa responder se não quiser, eu fui invasiva outra vez, desculpe.
Um riso escapa por meu nariz. — Você pode me perguntar o que quiser.
Seus olhos sorriem, mas ela não diz nada. Parece desconfortável sob sua própria pele.
— Sim, eu tive. Vários. Por quase doze anos.
— E... e como é?
— Como é o que? — minha sobrancelha esquerda se arqueia.
— Como funciona? É, tipo, usando um aplicativo como Badoo ou Tinder? — ela para de falar e me encara com expectativa. Droga, eu sabia que tinha ouvido aqueles nomes em algum lugar, no verão passado, com Naruto. Mas eu não faço a menor ideia do que seja. — Por favor, me diga que você sabe o que é Badoo e Tinder. — ela tampa a boca com uma mão, e eu me remexo sobre a banqueta.
Limpo a garganta e meu queixo cai, ela está rindo enquanto penso sobre o que devo falar. — Sei sim. — ela não parece nada convencida.
— São aplicativos de encontros, sabe, você preenche um perfil e eles te conectam com outras pessoas em comum. Eu particularmente nunca usei, mas Karin jura ter conhecido Suigetsu assim. — seu olho direito se estreita, em uma expressão divertida — Como nunca pode ter ouvido falar nisso? Que tipo de celular você tem?
— Eu já ouvi falar, só não lembrava a utilidade. — insisto — Bem, de qualquer forma, eu nunca usei essas coisas, para ser sincero, eu era sócio de um clube noturno.
Ela leva outro garfo à boca, e quando exclama um “uau”, não sei se está se referindo a comida ou a minha revelação.
— Não me orgulho disso, mas se é o que quer saber, casos foram as coisas que eu mais tive na vida.
— E não é mais sócio?
— Não. — e não senti vontade de voltar, quando tudo acabou.
Seus olhos me avaliam sob os cílios, e ela suspira. — Então você era uma pessoa promíscua?
— Sim.
Não sei o que acontece depois disso. Ela não responde, apenas engole em seco, com os olhos presos a mim o tempo inteiro. Talvez eu tenha falado aquilo de uma forma estranha ou maliciosa, já fui conhecido por isso, mas era um instinto adormecido – ou nem tanto – dentro de mim.
Ficar curioso sobre o que está pensando fora um desejo que se repetiu por muitas vezes durante aquela noite, ou mesmo quando a vi, pelo vidro da academia, falando ao telefone e encolhendo-se como se estivesse a se esconder da polícia. Eu quis saber o que estava falando, o que estava pensando todas as vezes em que a flagrei olhando para lugares muito além dos meus olhos.
— Sabe... — a voz dela soa baixa enquanto começa a brincar com a comida, mas desiste, e fica calada outra vez. Tensa e inquieta como se estivesse caminhando sobre ovos — Era, hum, bom viver assim? Você se divertia ou era meio vazio?
— Se eu me divertia sendo promíscuo? — pergunto, confuso.
— Não! Se você se divertia, sabe, tendo relacionamentos casuais.
— Sim, bastante.
— A ponto de, não sei, tentar outra vez?
Porra! — Depende, isso é um convite? — outro momento inédito no qual eu me arrependo de algo que disse; naquele caso não totalmente, já que minha crença de que ela morreria antes de propor sorrateiramente um caso ao próprio chefe não era o suficiente para catalisar o rumo que a conversa estava tomando, por exemplo, por que infernos ela perguntaria se eu estou disposto a tentar outra vez se não fosse com ela? E, merda, eu tentaria, mas não estou levando tudo isso a sério, e ela deveria fazer o mesmo com minha resposta.
Mas, se ela levasse a sério e respondesse ‘sim’, eu também levaria.
A expressão em sua face desmorona, e o sangue sobe em direção ao seu rosto violentamente, deixando ali um rubor evidente. — Meu Deus! — ela exclama em pânico, e salta da banqueta como se houvesse lava sob seus pés. — Eu não quis soar assim! Eu juro que não! — o desespero em sua voz reverbera pelo apartamento.
Eu castigo a tampa de mármore sob minha pele em um soco, percebendo que estraguei tudo. — Merda.
— Obrigada pelo... pelo jantar, estava muito bom. Até amanhã. — suas mãos tremiam contra a própria testa enquanto ela empurrava a franja para trás. Em seguida, simplesmente saiu correndo, e eu consegui reagir ao acompanhar sua silhueta pelos cobogós.
— Sakura, foi uma brincadeira, eu não quis ser desrespeitoso. — a abordei no momento em que sua mão segurou a maçaneta.
— Você não foi! Desculpe.
— Não precisa ir agora, você não terminou o seu jantar.
— Não, eu preciso ir. Até amanhã, Sasuke. Obrigada.
₰
Eu não consegui pensar em outra coisa desde que ela saiu.
Foi um jeito ruim de acabar algo que havia começado, de certa forma, bem.
Senti como se fosse uma obrigação minha fazê-la sentir-se à vontade comigo, e se sentiu por um tempo, mas estraguei as coisas, como faço sem o mínimo esforço necessário.
Era estranho estar tão íntimo dela virtualmente, e tão distante pessoalmente. Eu poderia tentar mudar isso o quanto quisesse, seja assumindo para mim mesmo que estou interessado nela ou acabar com tudo isso, indo até seu apartamento e pedindo desculpas.
Mas ao invés disso, tentei assistir televisão e senti falta do meu videogame.
Teria sido útil para me ajudar a parar de pensar no acontecimento anterior. Eu estava cansado de imaginar o que Sakura estaria fazendo naquele momento, se lidaria bem com a continuidade da viagem ou se deixaria que aquilo afetasse nosso relacionamento, mesmo o mais profissional.
Quando decidi procurar a capa na qual eu havia envolvido meu notebook pessoal para viagem, eu torci que ela houvesse sentido necessidade de escrever ou ler alguma das estórias que acompanha. Seria o meu jeito de descobrir como deveria agir de hoje em diante.
Se ela estivesse invisível no bate-papo, eu esperava que mudasse de ideia quando o aviso de que estou online surgisse. E por isso, aguardei online durante algum tempo, até que uma janela saltasse no canto inferior esquerdo. Imediatamente abro o chat procurando por seu nome, mas ela não aparece online.
“PRECISO DE UMA OPINIÃO MASCULINA URGENTE”
Eu não sei por que me sinto aliviado. Como se fosse comigo, Sasuke, que ela está falando. Mas não é. Desde o início Ekusas e eu fomos pessoas muito diferentes, e por mais que a possibilidade de contá-la de uma vez por todas quem sou parecesse irresistível agora, quem sabe assim ela pudesse encarar as coisas mais sutilmente e conversar comigo sabendo quem sou, recordo que as chances de que fique zangada por eu saber de coisas íntimas suas possam piorar as coisas, e me contenho.
“Pode falar”
Ela começa a digitar no mesmo segundo. “Cara, eu fiz uma coisa horrível hoje. Você vai rir de mim”
“Tente”
“Nossa conversa sobre sexo casual não saiu da minha cabeça, sabe, eu pensei de verdade e fiz disso a solução dos meus problemas amorosos, mas fiz uma besteira, que foi: perguntar ao meu chefe sobre a vida pessoal dele, dá para acreditar? MEU CHEFE. Eu preciso que você jogue na minha cara o quão idiota eu sou, xingamentos estão liberados, por favor, eu preciso disso agora.”
Por que eu estou com vontade de rir disso?
O nível de bizarrice em conversar com uma pessoa – sem ela saber que está falando comigo – sobre eu mesmo é altíssimo. Na realidade, eu estou com vergonha de mim mesmo por usar de um método sujo para aliviar as coisas para o meu próprio lado como estava prestes a fazer, claro, sem parecer óbvio.
“Uau, por que você fez isso?”
“Eu também não sei. Ele é tão bonito que dói, eu policio até mesmo a maneira como estou respirando perto dele, mas percebi que estava se esforçando tanto em me deixar à vontade consigo que eu fiz a besteira de me sentir confortável e falei demais. E com “me sentir confortável” não quero que você ache que eu realmente me senti, eu gaguejei, eu passei horas olhando para ele entre as perguntas, eu pensei em milhões de coisas impróprias, resumindo, eu fiquei tão encantada que quis criar um personagem em homenagem a ele e mudar tudo. Entende? Tudo!”
“Opa, como assim mudar tudo? Calma.”
“Sei lá. Frank é baseado em um homem real que me inspira apenas fascínio, e como eu cheguei a este ponto com ele, criá-lo a partir de um homem real, eu poderia facilmente adicionar outro cara ao enredo, o que você acha?”
“Nós estamos falando da suposta besteira que fez com seu chefe ou sobre sua estória? Precisa me dar um tempo e explicar isso direito, não estou entendendo nada”
“Porra, você é muito lento.” Ela sequer percebe que era ela, não eu, quem estava misturando as coisas. “Vou explicar do começo. É o seguinte, eu estou concorrendo a uma promoção a executiva de marketing, por isso estou em Osaka com meu chefe e vou dar a palestra da minha vida em pouco mais de dois dias. Foi minha primeira noite em um hotel chique, eu estava com minha amiga ao telefone e ela insistiu que eu fosse explorar o prédio, então eu fiz isso. Perambulei pelo saguão e encontrei uma academia. Meu chefe estava lá, o chefão de verdade, vamos chamá-lo de S. S estava se exercitando, e vou ser bastante franca com você, até porque sabe coisas bem piores sobre mim, mas eu senti tesão só pela visão, sabe, ao nível do outro chefe que me deu um fora, e o engraçado é que eu jamais havia sentido o mesmo antes por S. Ele era como um robô engravatado e boçal para mim, mas em uma noite tudo mudou.”
Eu estava ouvindo sua voz em minha cabeça ao ler aquilo, eu podia imaginá-la facilmente ficando sem ar com a rapidez e desespero com a qual discursava aquilo, e eu não sei, de verdade, como me sentir sobre isso.
“A noite foi hoje. Eu espero que você seja gay para poder compartilhar deste sentimento comigo, mas é tudo que eu gosto em homens concentrado em um cara só. Ele é alto, tem um corpo legal, fica cheiroso até mesmo suado, sabe, o cabelo dele é lindo, o rosto dele é de um bebê e ao mesmo tempo não é (?); ele tem veias nos braços, eu também adoro (não me pergunte, mas eu me sinto atraída por isso). A voz é grossa, uma graça. Ele tem a tranquilidade de um monge budista e é muito educado, muito fofo. Eu menti para ele e mesmo assim ele me tratou bem, dá para entender o tipo de homem que ele é?”
Porra, eu estava me sentindo a amiga confidente. Ela estava me detalhando para mim mesmo, é a coisa mais estranha pela qual passei em toda minha vida. Ao mesmo tempo, me sinto um ser humano horrível por estar, de alguma maneira, gostando de saber que ela me via daquela forma.
Ser elogiado me deixava em agonia. Quando se tratava de uma congratulação por um trabalho que executei bem, era um sincero alívio; quando o assunto eram fatores pessoais, eu preferia
“Sim.”
“E aí me convidou para jantar no apartamento dele. ELE COZINHA, e teve o cuidado de perguntar se sou alérgica a frutos do mar porque fez mexilhões. Então nós conversamos, recebi algumas dicas para a palestra que darei na segunda, ele soltou que gostaria de saber coisas sobre mim, mas a primeira merda que fiz na noite foi: perguntá-lo se ele realmente traiu a noiva.”
Ela sequer espera um “hum” ou “continue”. Já está digitando outra vez.
“Novamente foi um doce e respondeu que não, mas não deu maiores explicações, afinal, já seria demais, eu invadi a privacidade dele duas vezes, porque perguntei outra vez sobre seus relacionamentos e ele me respondeu muito educadamente, por sinal, pelo que pude entender esteve com muitas mulheres antes de ficar noivo. O início da minha ruína foi sentir curiosidade, sabe, eu quis que, de alguma forma, ele me desse um tutorial do que fazer para conseguir um cara que quisesse apenas trepar comigo sem compromisso, (como você sugeriu antes) porque eu considerei muito o assunto e saber que é uma coisa natural me impulsionou a querer também sair do atraso, e então eu perguntei se ele se divertia muito e ele disse que sim. Depois disso, eu quis saber se ele havia se divertido tanto a ponto de embarcar em uma outra aventura daquelas novamente, (foi pura e inocente curiosidade) mas ele entendeu tudo errado e perguntou “isso é um convite?” com o olhar mais sensual que já recebi em toda a minha vida e eu quase tive um derrame. Olha, eu senti minhas pernas derreterem, eu ia cair na frente dele, por isso achei melhor sair correndo para poder cair em casa e não passar vergonha outra vez.”
Eu estou sem palavras.
Eu sei exatamente o que aconteceu, vi pessoalmente todas as suas reações, mas ler o acontecimento nas palavras dela é surreal. Estou me sentindo um idiota impetuoso por ter perguntado aquilo.
“Você está aí?”
“Sim.”
“EU QUIS RESPONDER SIM. SIM, por favor, Sasuke, transe comigo!” Ela estava tão eufórica que sequer deve ter percebido que usou o meu nome ao invés de ‘S’. “Mas seria uma loucura, eu não saberia como reagir, e é o tipo de coisa que precisa ficar na mente porque ele é o meu chefe e eu estou ficando maluca, isso é óbvio, mas agora estou me sentindo um lixo por ter saído daquela forma, ele não merecia que eu me afastasse dele como se tivesse uma doença, o problema realmente não foi esse e eu não vou conseguir pedir desculpas. Não vou conseguir olhar para ele amanhã.”
“Você deveria apenas ficar calma.”
“E isso não é o pior da noite. Realmente não é, eu fiz uma coisa pior.”
Minhas sobrancelhas se retesaram com a afirmação e eu pensei sobre o que diabos ela poderia ter feito de tão ruim que ultrapassasse o constrangimento do mal-entendido.
“EU ESTAVA SEM SUTIÃ. SEM S-U-T-I-Ã!” Ah, claro. “Por isso ele deve ter pensado que eu queria realmente transar, que eu estava me insinuando, é claro que ele pensou isso, eu sou a culpada!”
“Meu Deus, eu sou uma idiota.”
“Você quer saber meu parecer “masculino” sobre a situação agora?” Eu decidi jogar limpo, o que não era completamente limpo quando eu estava prestes a me utilizar de uma ‘segunda identidade’ para facilitar as coisas para mim mesmo.
“Por favor”
“Então, primeiro, você precisa parar de surtar porque ele provavelmente não está fazendo um grande negócio desta situação agora. Dois, você, sim, invadiu a privacidade dele, porém, se ele respondeu as perguntas é porque não tinha problema, então você tem que relaxar.”
“Sabe, minha cabeça se tornou um vórtice insuportável de ideias. E tudo isso porque minha amiga sugeriu que ele está afim de mim. Eu não quero ser a pessoa estúpida que confunde educação com interesses que vão além disso, pois era detestável quando eu estava sendo genuinamente legal com um cara e ele começava a se insinuar, achando que eu queria alguma coisa física quando eu não conseguia parar de pensar sobre o quanto o bigode dele era nojento. Isso era horrível, por isso que eu não precisava que minha amiga houvesse dito isso, eu não precisava que os fantasiosos interesses do meu chefe ficassem martelando em minha cabeça, principalmente quando não são impossíveis o bastante, porque eu realmente acho que ele estava flertando comigo, ou talvez ele seja involuntariamente sexy o tempo todo, em resumo: EU NÃO SEI O QUE FAZER AGORA. Preciso de ajuda.”
“Talvez ele esteja”
Estou me sentindo um merda. Francamente, tenho trinta anos e estou conversando secretamente com uma funcionária sobre relacionamentos. Eu realmente não preciso disso. É constrangedor.
Estou aliviado que minha sugestão tenha a chocado o suficiente para silenciá-la durante um momento. Eu estou interessado?
Se fosse para listar, eu apontaria nela mais defeitos do que qualidades. Sakura é exageradamente tímida, insegura, intempestiva e volátil. Ela não confia em si própria, não tem qualquer sinal de autoestima e deu um nome humano ao próprio gato ao invés de chamá-lo de Floquinho ou qualquer outro nome cheio de glicose constituído por duas sílabas. Ela mente com facilidade, também, e isso me incomoda como o inferno.
Eu tenho todos os motivos necessários para excluir aquela conta e parar de jogar comigo próprio, afinal, até onde aquele relacionamento virtual nos levaria? Cedo ou tarde Sakura necessitaria de mais. Ela iria querer uma foto, um sobrenome, uma conversa por vídeo, voz ou quem sabe até um encontro – a única coisa que posso adiar, considerando que nunca houve interesse por parte dela em troca de endereços ou localizações, mas eventualmente haveria.
A resposta é sim. Eu estou interessado. Eu estive desde o segundo em que li suas estórias e desabafos, desde que seu comportamento e passado não me repeliram a continuar insistindo, curioso por mais. Eu acho que poderia simplesmente instalar um sistema de segurança em sua casa e assistir por horas como ela passava o seu dia, as coisas que gostava de comer, como se vestia, com quem falava e, sobretudo, tentar tirar de tudo isso um motivo para ser como é.
Ela ser realmente bonita não compensava as outras coisas que me incomodavam, mas ao mesmo tempo em que seu nervosismo era um fardo pesado demais, eu vivia indeciso sobre gostar ou não de exercer tanta pressão sobre ela sem ao mesmo tentar, mesmo que me dissessem que eu fazia com todo mundo, ainda era especial e ao mesmo tempo extremamente irritante quando ela sequer conseguia olhar para mim enquanto falava comigo, por exemplo.
E sabendo de todas essas coisas, era difícil ler os vários capítulos adultos que ela escreveu sabendo que vieram da mesma pessoa que mal conseguiu falar sobre sexo casual comigo. Talvez esse fosse um dos motivos pelo qual escritores adotem pseudônimos.
“Eu não acho que ele está interessado em mim e tampouco saberia lidar se, talvez em um mundo fantasioso como Nárnia, ele estivesse.” Por sorte eu sabia o que era Nárnia, não foi preciso pesquisar. “Eu não saberia lidar com isso, mas ao mesmo tempo sentiria vontade de pular nele e cair na cama”
“Eu não entendo você.”
“Nem mesmo eu me entendo. Francamente, eu era maluca por meu vice-presidente, mas eu me acostumei a toda a utopia de ter uma paixão platônica, esse é o meu lar, justificar o fato de estar encalhada na falta de interesse dele, eu estou tão habituada a isso que se ele me correspondesse, minha reação provavelmente seria fugir.”
“Não espero que você compreenda isso, é difícil. Faz muito tempo desde o meu último relacionamento, é como se minha vida houvesse sido rebobinada ao início e eu fosse uma colegial virgem outra vez, claro que é impossível e eu não quero isso de forma alguma, mas por favor, entenda esta parte.”
Sakura realmente era um enigma, e defini-la desta forma, sendo um dos meus passatempos prediletos resolução problemas complexos de lógica por diversão, era irônico.
Ela acabou de se tornar um novo desafio pessoal.
“Eu entendo. E é por isso que deve forçar-se a sair de sua zona de conforto, porque sinceramente, nenhuma outra pessoa pode fazer isso por você.”
“Isso foi profundo.”
“Foi sincero também. Encare como o conselho de um amigo e pense por algumas horas sobre isso. Deixe-me saber de sua decisão também.”
“Você é quase um anjo. Nossa, obrigada por ler tudo isso. Eu vou pensar sobre tudo, eu realmente vou”
“Sim. E quanto a parte do sutiã, ele certamente sequer percebeu”
“Espero sinceramente que não. Eu fiquei verde quando notei.”
“Não se preocupe.”
“Isso é impossível, eu não poderia estar mais constrangida agora.”
“Como você está?”
“Melhor do que você”
“Qualquer pessoa está melhor do que eu.”
Dormi duas horas naquela madrugada. Infelizmente eu pensei sobre a situação até “contrair” o embaraço dela para mim. Eu também estava constrangido, e infelizmente, prometi que iria mostrá-la a cidade hoje.
O problema é que eu não tinha certeza se ela ainda lembrava-se do horário que marcamos durante o almoço, ontem. Às oito horas em ponto. Aliás, eu também não tinha certeza se ela ainda queria sair para algum lugar comigo.
A pequena escritura de aço na porta estampando I02 me deixou incerto. Seria grosseiro se eu retornasse e simplesmente fingir esquecer, mas ela poderia se sentir desconfortável se eu seguisse adiante com meu plano inicial, que era o de bater sua porta e agir como se nada houvesse.
O ar sai por minha boca, estou cansado disso. Não foi nada demais.
Decido bater, e quando abre, posso vê-la apenas por uma pequena fresta. — Olá. Bom dia, Sasuke. — sua voz parece surpreendentemente firme, o que me dá esperanças de que a conversa na noite anterior tenha surtido efeito.
Nós falamos banalidades por horas. Ela me contou sobre Shikamaru e o quanto desejava dar uma lição nele, mas estava certa de que não conseguiria. Falamos sobre o gato dela, a rotina dela, seus livros prediletos e o que estava achando da cidade. Foram poucas às vezes em que dei espaço para que perguntasse algo sobre mim, como sempre.
Desde o início, eu tinha o senso de que nossa amizade virtual era unicamente sobre ela, não sobre mim. E tem sido desta forma desde então. Não me sinto incomodado, e para ser franco, é a minha preferência.
— Bom dia. Você esqueceu?
— Hã?
Esqueceu.
Contraio os lábios, e percebo as feições em seu rosto mudarem drasticamente. — Não, eu não esqueci! Por favor, pode entrar, meu café da manhã doce acabou de chegar, eu me atrapalhei com os telefones, acabei ligando para a lavanderia. — uma risada enervada escapa de sua garganta, e ela não para de falar — Ainda bem que você é do tipo que chega adiantado aos compromissos, nós temos quinze minutos, é tempo o suficiente, eu me visto bem rápido.
— Não precisa se apressar, podemos ir ao horário que quiser. Temos a manhã livre. — ela suspira com alívio e sorri.
— Isso é confortante. Por favor, pode entrar.
Ela recua, me dando espaço para passar. Há um sorriso tímido carimbado em seus lábios e eu penso que fazer o mesmo seria o mais indicado para demonstrar que não estou zangado ou qualquer outra coisa do gênero.
Afinal, eu tenho a “tranquilidade de um monge budista”.
— Eu estava, bem, tomando café da manhã.
Ela cruza os braços e percebo que está respirando pela boca, além disso, seus dedos escovam os cabelos na lateral de sua cabeça de forma inquietante. Ela está nervosa, mas posso reconhecer seu esforço.
Sakura pisa em torno de mim e olha para trás, provavelmente tendo a certeza de que estou em seu encalço e chegamos à cozinha juntos. Ela me olha e gesticula em direção à ilha no centro do cômodo, cercada por quatro banquetas. — Por favor, fique à vontade.
Merda, eu não sei o que está acontecendo, mas tenho motivos para estar desconfiado, julgando que ela está se comportando de forma estranhamente sociável.
Procuro deixar os pensamentos de lado ao me acomodar sobre uma das banquetas. Ela se senta na outra extremidade e sorri outra vez. — Por favor, junte-se a mim. — diz, e eu desvio a atenção do par de sandálias situado no chão da sala de estar em direção a seus olhos.
Ela está vestindo calças de ioga e uma camisa simples, seus cabelos curtos estão úmidos e o rosto parece sutilmente sonolento, entretanto, as bochechas e lábios estão corados, dando-a a aparência saudável de sempre. Percebo que é uma avaliação mútua quando noto que também está me observando.
— Dormiu bem? — pergunto, tentando criar assunto.
— Mais ou menos. — cabisbaixa, cruza os braços sobre o mármore — E você, dormiu?
— Duas horas. — respondo casualmente, mas por algum motivo soa cômico e ela morde um sorriso — O que?
Há um aspecto passivo e intimidado em seus olhos, como se sentisse culpa por algo e estivesse remoendo o assunto. Provavelmente é o que acontecia. — Nada. — Sakura olha em meus olhos outra vez e eu lamento pela atmosfera tranquila de antes estar se dissipando nitidamente. Ela limpa a garganta e usa uma faca para distribuir uma quantidade generosa de doce de leite sobre uma rabanada.
— Sakura, sobre ontem eu queria pedir desculpas por ter entendido errado as coisas que disse...
Ela move a cabeça em uma negativa. — Não, você não entendeu errado.
— Perdão?
— Eu, – ela concentra os lábios para dizer algo, seus olhos verdes em expansão — realmente quero saber se você tentaria outra vez.
O assunto está começando a ficar interessante. Nossos olhares se chocam e ela continua em silêncio, aguardando uma resposta. — Sim.
— Você... — Sakura parece a ponto de implodir quando esfrega o próprio rosto ruborizado — Você estava brincando quando perguntou se era um convite?
— Eu estava brincando se você entendesse como uma brincadeira.
— Eu levei a sério.
— Então foi sério.
Ela não fica confusa por muito tempo, não é tão difícil assim de entender. Aliás, é muito simples.
Apenas a minha superfície está tranquila. Eu não estou nervoso, a palavra certa seria: confuso. Eu sugeri que pensasse sobre os conselhos ontem, e medindo por suas atitudes recentes, ela pensou. Pensou o suficiente a ponto de segui-los.
— Eu não consegui dormir. O que isso significa, Sasuke? — ela larga o talher e a comida sobre o prato, está inteiramente focada na conversa.
— Não sei... O que você gostaria que significasse?
Ela arqueja profundamente. — Eu pensei, e gostaria que significasse exatamente o que pareceu.
Sakura está ultrapassando vários limites. Está dizendo coisas que jamais imaginaria ouvir de sua boca, e por mais que eu tenha estado alheio a relacionamentos nos últimos meses, eu tinha uma trajetória interessante demais com ela para deixar aquilo passar.
— Pareceu que eu queria ter um caso com você?
A palavra “caso” parece agredir seus ouvidos, e ela tenciona visivelmente durante um instante. Eu quis, outra vez, saber o que estava pensando. — Sim.
— Você está bem com isso?
Eu não podia dar um voto de confiança a esta conversa a menos que ela mesma desse, por isso, se me pedisse desculpas ou saísse dali envergonhada, usando de nossos posicionamentos sociais para tratar o tema de discussão como loucura, eu lamentaria, mas também adotaria o pensamento. — Mais do que eu poderia imaginar. — ela diz, e por estar cabisbaixa, não posso dizer ao certo se está de olhos fechados, apesar de parecer que sim. — Me desculpe se isso soar como insanidade, mas...
Ela levanta a cabeça e parece ter finalmente recobrado a consciência. Lamentável. — E, na verdade, é insanidade. Por favor, me perdoe, você é o meu chefe.
Sakura fez tudo que eu não queria que fizesse.
Com os cotovelos sobre a tampa de mármore, ela cruza os dedos e apoia-os sob o queixo enquanto me encara de forma mortificada. Posso ouvir um murmúrio baixo de autocondenação, e seus olhos aparentam estar mais brilhantes quando olho diretamente para eles. Eu não saberia lidar com ela, caso chorasse. — Você teria carta branca para me demitir agora mesmo, se quisesse. Isso foi totalmente inadequado... — funga, passando a mão entre os cabelos. Os fios caem em seus olhos, e eu só consigo suspirar, decepcionado pelo acovardamento.
— Eu não vou demitir você. Não por isso.
— Obrigada. Eu não sei o que estava pensando.
— Eu gostaria de saber.
— O que? — com os olhos esbugalhados, ela questiona em tom de servilismo. Por eu ter “poupado” seu emprego, ela parecia disposta a me dar o mundo se eu assim pedisse.
— O que está pensando. Diga-me o que está pensando, sem mentir.
— Eu... — as íris esverdeadas estão fixas a mim, sua expressão facial e corporal parece me implorar para que eu desista da pergunta — Estou pensando que estes óculos de sol — ela encara o acessório em minhas mãos — vão cair bem em você. Você está... é muito bonito, — corrige-se — mas quando veste blazers e usa seu cabelo de forma mais informal, como agora, parece espetacular.
Merda, não quero ouvir nada disso.
— Preto, cinza, sabe... tons mais fechados e escuros realmente são a sua “cor”.
Estou prestes a perder a paciência. Tudo bem, ela realmente pode estar fazendo uma análise crítica das minhas roupas, mas certamente não é só isso. Sakura não é fútil, ela não começou a falar sobre sexo porque achou que eu tenho predisposição a usar preto, do contrário; eu tenho certeza que pensou a noite inteira sobre a conversa virtual de ontem, e estava apenas expressando em voz alta o que preenchia sua cabeça.
Por um momento, ela quis. Ela quer, só não consegue ser sincera consigo mesma e muito menos comigo.
Posso compreender perfeitamente, nossa relação sempre foi muito simples e profissional. Eu jamais a vi com outros olhos antes, da mesma forma que ela não me viu. Até agora, aparentemente.
Sua expressão torna-se pacífica outra vez, e ela desfruta de poucos segundos de tranquilidade. Isso não é tudo. — E antes? — eu quebro o silêncio.
— Antes?
— O que estava pensando antes? Por que trouxe este assunto à tona? O que você queria, de verdade? — eu a encorajo, inclinando o corpo adiante para estar mais perto.
— Foi você que trouxe o assunto, não eu.
— Por favor, você não é tão tola assim. Não me faça explicar coisas que nós dois entendemos muito bem. — meu tom de voz é duro, firme. Tudo na minha vida era feito da forma mais pragmática possível, portanto, com o máximo de praticidade possível. Eu não quero dar voltas nesse assunto, eu queria que ela fosse direta — O que você quer, Sakura?
— Por que está fazendo isso?
— Porque é a segunda vez que você foge do assunto. Se você quer me falar alguma coisa, apenas fale, talvez eu possa ajudar.
Ela bufa, e me avalia durante instantes que parecem ser uma eternidade. Eu aguardo sério, minha expressão não se altera até o momento em que ela dá de ombros e diz: — Eu quero sair da minha zona de conforto. Digamos que quero ter relações casuais com pessoas.
Ela falou de uma forma engraçada, e eu provavelmente ri sem perceber, porque ela saiu da banqueta e me encarou com aborrecimento.
— Foi engraçado?
— De jeito nenhum. — eu limpo a garganta, pressionando os lábios — Já entendi. E como, exatamente, eu estou relacionado a isso?
— Eu nunca disse que estava! — sua voz se acresce umas oitavas.
— Você tentou falar sobre isso duas vezes, e não conseguiu. Você quer que eu a ajude com isso? Com as “relações casuais”?
— Depende, eu queria... — ela fecha os olhos com força, abrindo-os em seguida — Ajuda.
— Como posso ajudar?
Eu me sinto um monstro por estar achando aquilo tudo sedutoramente engraçado, enquanto para ela, provavelmente era uma provação terrível. Está tão tensa e corada que eu posso jurar que explodiria mais cedo ou mais tarde. Sakura está, literalmente, mortificada.
Como eu poderia ajudar? É bastante óbvio, nós dois sabemos disso. Seus olhos me imploram, viciosos, mas eu quero que diga, e nada sai de sua boca.
Ao mesmo tempo, esperar dela que fale em voz alta o que deseja pode ser considerado maldade. Mesmo eu estou pensando assim, e talvez seja minha preferência agora, porque minha reação pode não agradá-la, e eu não sei outra forma de reagir. Eu preciso de tempo para pensar sobre isso. Sobre manter um caso com uma pessoa como ela, uma funcionária.
Seria interessante, eu nunca fiz isso antes.
— Quer saber? Esqueça tudo isso, eu vou colocar um vestido e assim poderemos sair. — o sorriso que força em seguida é deprimente — Hum... sinta-se à vontade.
Ela para no meio do caminho e me observa em silêncio. Eu juro que aquele olhar soa como um último e desesperado esforço, algo como “não me faça dizer isso, tome uma atitude”. Eu também sei que estou sorrindo um pouco, ela provavelmente entenderá como zombaria, e apesar de não ser apenas isso, não há uma maneira de ela saber.
Eu afasto a banqueta, ficando de costas para ela ao dar dois passos adiante, analisando o espaço ao redor. — Sim. Estarei esperando você aqui.
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