Ekusas
14 Sakura - Parte I
Notas iniciais
— Você deu para trás, é óbvio que ele não ia levar você a sério.
— Realmente não levou, ele estava rindo de mim. — estou tão frustrada, que eu poderia trancar a porta do quarto e permanecer ali para sempre. — Está entendendo o que é essa situação? Eu dei em cima do meu chefe e ele me recusou! Eu não vou mais sair com ele, eu não vou mais olhar para ele e assim que voltarmos pedirei demissão!
Ouvi uma risada leve do outro lado. — Você está exagerando. Ele não recusou você, foi o contrário, na verdade. Sui... espera!
Ouço alguns ruídos, uma briga, e enfim, uma voz grossa me aborda ao telefone.
— Sakura, aqui é o Suigetsu. A culpa é sua. E com isso não estamos diminuindo o vacilo dele, certo? Consegue me entender? Na verdade, são dois lesados, mas você é pior ainda.
— Eu não acredito que ela contou isso a você. Por favor, dê o celular a ela. — meu corpo cai sobre o colchão, o dedo indicador massageando a superfície da minha testa. Karin resmunga um “estou aqui”, ela já sabe o que a espera — Com que juízo você decidiu envolver um homem em um assunto nosso? — meus dentes rangem em torno de cada palavra.
— Eu estou ouvindo isso, Sakura.
— Desculpe, eu não quero deixar uma má impressão de mim, apesar de tecnicamente você saber que eu dei em cima do meu chefe e, Jesus, fui rejeitada outra vez. Duas vezes, no mesmo mês. Karin, eu desisto das pessoas que fazem o negócio de graça, entendeu? — o ar sai da minha boca em uma torrente, estou realmente exausta — Que Deus me ajude, contratarei um garoto de programa.
— Pagar por sexo é realmente degradante. — ouço Suigetsu comentar do outro lado.
— Ninguém pediu a sua opinião. — eu devolvo. Conhecemo-nos há pouco tempo e não tive uma conversa propriamente dita com Suigetsu. Nos vimos quando ele fez um carinho em John e foi para o assento do motorista, fora isso, não conheci o namorado da minha amiga de verdade, mas julgando por seus comentários inescrupulosos, eu não estava perdendo muita coisa.
— Sakura, ele tem razão. Você não pode tomar uma decisão assim. Os alvos que você escolhe são muito difíceis, já parou para pensar assim? Primeiro o Naruto, playboy, o maior “síndrome de barriga de rei” que conheço. Depois você deixa tudo ainda mais complexo se interessando pelo Sasuke, ainda mais rico, ainda mais almofadinha. Sinceramente, o problema é que você atira alto demais.
Infelizmente não posso contestá-la.
— Vício em executivos tem nome? Você é Maria-gravata. — outra vez o impertinente resolve lançar uma piadinha, e como se não fosse o bastante, Karin riu junto a ele — Eu acabei de inventar isso, não sei se existe.
— Amor, cala a boca... Sakura, ainda está ai?
Tudo que consigo articular é um grunhido de aborrecimento. Eles estavam me irritando, eu não precisava ficar de mau humor agora, tudo bem, tenho todo o direito de estar, pois o “recuo” dele foi um fora indireto, e estou cansada disso. Cansada de estar sempre sozinha e não ser o ‘tipo’ de ninguém.
Imediatamente começo a pensar sobre qual é o sentido da vida, por que estamos vivos, para onde iremos e qual a nossa função na terra. Esse é o primeiro sinal de que estou triste, pensamentos aleatórios e filosóficos. Estou recordando de todas as linhas que escrevi sozinha sobre o conceito de cidadania da Grécia antiga em um grupo de quatro pessoas na faculdade. Eles deixavam a responsabilidade comigo porque sabiam que eu faria, eu sempre dava o meu melhor, e eles sempre tiravam boas notas por minha causa. Meu pai costumava dizer que existem dois tipos de pessoas, as que influenciam e as que são influenciadas, as que protagonizam e as que ficam nos bastidores, os pastores e as ovelhas.
Eu sou uma ovelha influenciável dos bastidores – isso não faz o menor sentido.
A pior parte é que preciso engolir todas as minhas insatisfações e me portar como se nada estivesse me atingindo. Quando eu sair deste quarto, precisarei olhar nos olhos dele e aturar toda sua magnificência durante horas com o máximo de civilidade quando, na verdade, estou deprimida e queria afundar o rosto em um travesseiro e na melhor das hipóteses morrer asfixiada.
Por sorte tomar uma ducha foi a primeira coisa que fiz ao acordar, e não vou tomar muito de seu tempo com meus banhos demorados. Eu trouxe exatamente três vestidos, – os únicos que eu tinha – para esta viagem; um deles foi o que usei para celebrar as Bodas de Ouro dos meus avós maternos e não se encaixava de forma alguma a ocasião por ser o que tenho mais próximo da palavra “chique” em meu armário, o outro foi o que comprei com esperanças de ser notada por Naruto – este, eu só não joguei no lixo porque foi caro – e por último, uma das peças de roupa mais simples que tenho, um vestido azul cobalto com saia godê e fita na cintura. Eu não o usei muito por só sair de casa para trabalhar, ou seja, não havia ocasiões e eu não estava disposta a criá-las.
Bem, há uma ocasião agora. Deslizo dentro do vestido, calço sapatilhas e pulverizo algum perfume em mim mesma, para em seguida pentear os cabelos e dar uma mexida em lugares estratégicos como sempre faço até finalmente estar pronta para ir.
Com um suspiro, faço meu caminho até a sala de estar e o encontro sentado sobre o sofá modelado. Uma das pequenas esculturas que ganhei como brinde da primeira classe está em sua mão; eu achei que estivesse realmente distraído com as formas artísticas e sinuosas do objeto, mas ele me nota no momento em que chego. Sasuke devolve a escultura a seu lugar sem precisar observar o que está fazendo, do contrário, seus olhos estão em mim durante todo o tempo, e percebo que me olha de alto a baixo.
Não quero me importar com o que está pensando, então simplesmente me viro, procurando o cartão-chave dentro da minha bolsinha de mão, apertando-o entre meus dedos. Também enfio uma rabanada na boca e exclamo, sem animação: — Podemos ir.
Sasuke não me responde, do contrário, sua mão esquerda faz acrobacias com as chaves do carro enquanto me espera na porta e eu bufo, deprimida pela comida mal aproveitada.
Uma simples caminhada até o elevador se tornou uma provação quando decidi ir à frente, prestes a me arrepender por me sentir cercada por uma muralha humana, que infelizmente tinha longas pernas e podia não apenas me acompanhar, como caminhar logo atrás de mim com tranquilidade enquanto ainda brincava com as chaves. Aliás, se quisesse me passar ele o faria sem dificuldades.
Não vou aguentar isso.
Ele para à minha frente quando paramos à porta do elevador. Sei que está olhando para mim, mas não tenho a coragem de fazer contato visual e fomentar pensamentos desordenados em minha cabeça. Estou conseguindo evitar muito bem questionamentos como: “o que ele acha da minha roupa? Será que gostou? Odiou?” Não, eu não preciso disso, foda-se ele.
Infelizmente o elevador está em um dos estacionamentos, e estou experimentando segundos intermináveis de silêncio. Quando crio coragem para espiá-lo, ele está me fitando com cara de paisagem, enquanto o barulho irritante do metal chocando-se em suas mãos continua abaixo de nós.
Realmente, não vou aguentar isso.
— Algum problema? — o barulho para, e percebo que estou prendendo a respiração sem um motivo aparente.
Não puxe assunto comigo, não quero conversar com você, é a primeira coisa que se passa em minha cabeça.
— Problema nenhum. — respondo, cruzando os braços. Minha cabeça inclina-se sobre a borda de aço na entrada do elevador, e ele coça sutilmente a barba de dois dias em seu rosto.
Sasuke não aguentaria ouvir meus problemas, ou sequer uma parte deles. A porta do elevador se abre e uma mulher passa por nós, acompanhada por duas crianças. Eu torço para que haja ao menos uma pessoa lá dentro, mas não, dou de cara apenas com meu próprio reflexo nos espelhos.
Não sei por que ainda tento contar com a sorte.
Nós mal chegamos, e já estou sentindo meu pescoço doer. Estou olhando para cima há tanto tempo que meus olhos estão doendo por causa da forte luz solar, mas não posso parar de olhar. É o monumento arquitetônico mais bonito que já presenciei em vinte quatro anos de vida – não que eu tenha viajado muito.
Por um momento, esqueço de todo o espaço verde ao nosso redor, ou sobre o quanto aquele parque é simplesmente maravilhoso. Só há o castelo e eu. E eu queria tanto entrar ali.
Não é nada comparado ao que experimentei antes, olhar através da janela do carro durante cinquenta minutos com os lábios tortos pela maneira como meu punho estava fechado abaixo do queixo, e os olhos mortos de quem está passando por um momento de morte cerebral. Talvez tenha sido isso, morte cerebral, eu não me lembro do caminho que percorremos, olhei apenas para o céu e alguns prédios. Se Sasuke falou comigo durante o percurso, – o que acho genuinamente improvável – eu não ouvi.
Sasuke dá um passo adiante e sinto a presença ao meu lado. Ainda estou olhando para cima, tentando espiar os tons de azul no topo das torres, é simplesmente magnífico. Ele não diz nada, do contrário, permite que eu aprecie em paz aquele momento de torpor.
Então percebo que estou com a boca aberta. Olho para Sasuke em busca de reações, mas ele está apenas sério, os olhos baixos miram o celular em sua mão esquerda, ele está com os braços cruzados e as sobrancelhas contraídas. O fato de que está usando o celular quando um castelo maravilhoso como aqueles está diante de nós dois e outras centenas de turistas, me perturba.
— Você já esteve aqui antes? — questiono amotinada. Preciso que ele diga “sim” para impedir a bronca que queria explodir para fora de minha boca.
— Certamente sim. É bonito, não é? — o tom de sua voz não demonstra interesse no que está falando, mas ele finalmente ergue a cabeça e me olha sob os óculos escuros. Óculos escuros, provavelmente a última coisa que eu pensaria ser útil enquanto fazia as malas na quinta-feira à noite. Ele fica realmente bem usando aquele par, parece ainda mais inacessível e sofisticado em toda a sua glória.
— Bonito? É fenomenal. É o Ōsaka-jō*, não é? Li sobre ele nos livros de história.
— Tenho certeza que sim.
Meus olhos se voltam ao castelo com deslumbre, mas minha visão não fica exclusiva a ele. Há tantos jardins e cerejeiras ao nosso redor, o ar é revigorante e eu provavelmente estou saindo em dezenas de fotos alheias, sendo tiradas perto de nós.
Ele tirou os óculos do rosto, e finalmente deu a análise digna que o castelo merecia, mas eu ainda podia presumir que esteve ali algumas vezes. Eu contive o impulso de perguntá-lo, algo em mim queria manter a raiva por ele, mas Sasuke parecia muito além do que aconteceu conosco hoje, durante a manhã.
Aliás, se ele sentia alguma coisa, qualquer coisa, não estava sendo nada transparente.
Eu, ao contrário, me sentia estranha. Ele me parecia tão natural e disposto a conversar comigo se eu quisesse, que me senti uma criança birrenta guardando rancor pelo leite derramado.
— Um momento. — foi o que ele disse, enquanto andava alguns passos para longe de mim.
O vento forte soprava para o lado oposto, então não pude ouvir o que ele estava falando.
Decidi deixar os pensamentos de lado e voltei a observar o ambiente ao meu redor. Sentados sobre um pequeno batente que cercava um extenso jardim, um casal conversava com animação.
Não consegui me manter focada ao apelo turístico diante de mim, eu só conseguia pensar sobre o que teria acontecido se eu houvesse sido sincera. Nós estaríamos ali ou já teríamos avançado o sinal em meu quarto de hotel?
Eu gemo, coberta de frustração. Como ele teria reagido? Receio que não saberei a resposta desta pergunta e me senti tola. Tola, porque ele provavelmente riria e soltaria um “você é louca”, mas eu não consigo pensar nesta versão, pois só eu vi o quanto ele parecia ansioso por uma resposta verdadeira; só eu vi o rastro de impaciência em seu rosto quando eu comecei a pedir desculpas e afirmar que tudo não passava de insanidade.
Mas ele se recompôs com a velocidade de uma chuva de verão, rápido demais. Eu sequer tive tempo de me sentir especial por isso ou presumir que ele me queria também, do contrário, ele zombou de mim, e odiei perceber isso.
O vento realmente é forte e frio, eu esfrego meus braços e procuro outra vez sua localização. Ele permanece engajado em uma conversa via celular, e não olha para mim em nenhum momento.
Não sei o que fazer agora, sem ele para me dar uma direção, eu fico simplesmente perdida. O simbolismo do meu nome em relação as árvores que cercavam o lugar, cerejeiras, deveria ter significado algo mais para mim, mas estou com a cabeça cheia demais para divagar sobre isso.
As lembranças do que estudei estavam retornando, eu podia facilmente dar uma boa introdução sobre o projeto agora, e tenho certeza que deslancharia se começasse. Eu faria um bom trabalho.
O ruim de concorrer com um homem, é que não posso torcer para Shikamaru ir à loucura durante a palestra por causa de cólicas. Na realidade, a probabilidade de que este infortúnio aconteça é maior comigo.
Sai sempre disse que se eu abrisse um circo, o anão cresceria. Eu estou começando a acreditar nisso.
— Você parece realmente bem aqui, não quer uma foto? — a voz dele irrompe através do meu breve momento de distração. Eu me viro, e ele está parado atrás de mim, não muito perto, mas o suficiente para que meus nervos comecem a fritar.
— Uma foto?
— Sim, fique exatamente onde está. — seus dedos deslizam sobre a tela do celular durante um instante, e logo em seguida, ele aponta o seu celular em minha direção. Meu corpo está duro, eu não sei o que fazer.
Meus cabelos foram escovados rudemente por uma rajada de vento mais forte, e Sasuke riu. Seu sorriso era tão adorável que, enquanto eu enfiava todos aqueles fios rosas e rebeldes atrás da orelha, permaneci olhando para ele. — O vento não está do seu lado hoje. — ele comenta em tom de brincadeira.
Eu quis me dissolver em pó e me misturar à poeira do chão, apenas para ser qualquer outra pessoa, menos Sakura Haruno.
— Parece que não. — respondo, assombrada pelo momento em que ele remexe os dedos pelos cabelos despenteados, alguns fios caem sobre sua testa no intermeio, e eu desvio o olhar rapidamente antes que comece a delirar outra vez.
— Pronto, você já tem a sua recordação do Ōsaka-jō. — eu arregalo os olhos, e ele se aproxima, me entregando seu celular ridiculamente moderno para que eu veja as fotos — A última ficou realmente boa.
Enquanto avalio as fotos uma a uma, não deixo de pensar como ele pode ser tão leigo sobre coisas atuais tendo acesso a um celular daqueles. Era dez vezes mais caro e melhor que o meu, e mesmo assim eu sabia o que eram Tinder e Badoo, enquanto ele fingiu horrivelmente saber do que se tratava.
Na última foto, meus olhos estavam enormes como duas pizzas, e eu percebi que estava brincando quando se referiu a ela. Se ele fosse qualquer outra pessoa ganharia um empurrão, mas ao invés disso, empurro o celular de volta a ele, ainda enfrentando resistência dos meus cabelos sob o vento.
— Apague todas elas, por favor.
— Por quê?
— Eu saí horrível em todas. Por favor, — adiciono um tom mais grave e severo a minha voz — apague todas. Todas elas.
— Tudo bem.
Sasuke não insiste, ele passa mais alguns segundos tateando a tela e cruzo os braços, tentando observar todos aqueles turistas com os olhos míopes afetados pelo sol. Tê-lo tão próximo não me incomoda, estamos em público, afinal, e ele é alto o suficiente para me proporcionar sombra.
— Você lembra-se do que faremos hoje durante a tarde? — ele guarda o celular em um dos bolsos de sua calça de nylon e me fita sob os óculos.
Meu cenho se franze involuntariamente e cobro da minha memória nossa estadia no restaurante ontem, durante o almoço, quando ele me explicou quais seriam os planos e nossos compromissos durante a viagem.
Claro, a visita à matriz da empresa do senhor Yahiko. Eu finalmente irei conhecer as instalações.
— Sim. Eu lembro, sim.
— Seria um incômodo se almoçássemos com eles?
Esta parte me pega de surpresa. Sim, Sasuke, seria um incômodo.
— Não estou vestida apropriadamente para isso. — argumento, esperando que aquilo consiga convencê-lo à via contrária a seus planos.
Ele se afasta rapidamente, e seus olhos escuros analisam o meu vestido com afinco até subirem em direção ao meu rosto outra vez. — Eu não vejo um problema no que está vestindo. — ele não pode estar falando sério! Meus olhos se estreitam, firmes aos seus, e sua feição permanece impassível.
— Está falando sério?
— Sim. E eu diria se houvesse.
— Por favor, deixe-me retornar ao hotel e vestir algo mais apropriado. — o vestido das Bodas. Céus, se eu soubesse, eu teria o vestido de primeira. — Por favor.
Ouço o ranger dos tecidos quando ele enfia as duas mãos dentro dos bolsos e se afasta de mim outra vez. — Vamos, vou levá-la ao museu. — ele diz, como se não houvesse uma situação urgente acontecendo ali, e isso me tira do sério.
Mordo o lábio fortemente e permaneço fixada ao lugar em que estou. Ele estava caminhando lentamente quando percebeu que eu não estava o seguindo, e para, me olhando por cima do ombro. — Vamos lá.
— Eu quero trocar de roupa.
— Ainda temos duas horas aqui. Verei o que posso fazer sobre isso, apenas fique tranquila. — não estou convencida quando o lanço um olhar aborrecido — Vamos lá, Sakura.
Sasuke tinha um jeito incrível de andar, como se tivesse todo o tempo do mundo.
E eu acreditei no que ele disse, mas tinha a certeza de que, se eu não o conhecesse, juraria que fizera de propósito para me punir por algo que sequer sei com certeza o que é.
Tudo bem, eu dei para trás antes, eu podia ter sido sincera, não fui, irritei a ele e a mim, mas duvido que ainda pense sobre isso a ponto de ser mesquinho e não levar este meu problema estético a sério.
Não, ele não seria capaz disso.
Ele foi capaz disso.
Meus molares já estão doendo. Estou com a mandíbula fechada há tempo demais.
Meus olhos estão fixos a ele, sentado na outra extremidade da mesa, em minha frente. Ele é incrivelmente popular dentre a alta cúpula, vulgo: os outros executivos de corações gelados da mesma laia dele!
Os assuntos variam entre coberturas, Milão, verão no Caribe, a bolsa de valores chinesa e imóveis. Não sei dizer com certeza quantas vezes ouvi as palavras “dólares, ações, subsidiárias, quebra, lucro”, dentre elogios à comida que estavam degustando, ou seja, um amontoado de coisas que não me interessa em nada.
Isso apenas me aborrece mais.
Ele está sentado entre Yahiko e Hiruzen Sarutobi, parecia ter se esquecido de minha existência, enquanto eu, ao contrário, não consigo desviar os olhos dele.
O magnetismo de meu olhar parece tê-lo atraído, e em certo momento, Sasuke para de sorrir dos assuntos que estava discutindo com aquele velho – portador de uma verruga nojenta – e olha para mim, sério.
Será que ele sabe que estou o assassinando de todas as formas lentas e dolorosas possíveis em minha cabeça? Já o matei afogado, já cortei suas orelhas e decepei o seu pênis. Eu enfiei agulhas nas pontas dos dedos dele e liguei uma máquina de choques elétricos para em seguida mergulhar sua cabeça em ácido fluorantimônico.
Eu sou a única mulher na mesa dentre onze homens que não conheço e não estou vestida de forma apropriada. Ele é o único culpado.
Estou protestando silenciosamente, afinal, não toquei em minha comida até agora, e sei que está incomodado com isso, pois seu olhar oscila entre o meu prato intocado e meus olhos, que o fuzilam.
Eu gostaria de fuzilá-lo verdadeiramente.
Ele, muito cordialmente, responde ao assunto que continuava discutindo e volta a conversar como se nada houvesse, porém, mais sério desta vez.
Meus pés estão balançando de forma impertinente sob a mesa, estou louca para sair dali.
Com muita sorte, a apresentação não fora nada tortuosa. Acenei e sorri para todos os onze homens que me foram apresentados um a um, e o objetivo de minha visita foi publicamente exposto, o que rendeu diversos desejos de “boa sorte”.
— Deve ser péssimo ser a única dama dentre este imenso grupo de homens. — ouço uma voz charmosa ao meu lado, e gasto um segundo para observar de quem se trata.
Surpreendentemente, eu não o conheço.
Ele não me foi apresentado junto aos outros, mas é o único que aparenta estar na mesma faixa etária que Sasuke. Tem cabelos ruivos e curtos, e apesar de ter algumas sardas no rosto, seus olhos são de um verde mais claro que os meus e o conjunto faz dele um homem muito bonito.
Eu teria dado a devida atenção ao momento em que chegou se não estivesse tão decidida a enviar todos os sinais de ódio possíveis a Sasuke. Eu realmente torci, desde que nossa comida chegou, que ele mordesse a língua ou a gengiva.
— É necessário apenas um deles para meu sofrimento. — respondo, tentando soar civilizada.
Ele vira-se, as sobrancelhas ruivas contorcem-se em uma expressão curiosa em seu rosto marcante. — Com qual dos onze você está? — há um tom divertido em sua voz, provavelmente pela quantidade assustadora de homens naquela mesa.
— Uchiha Sasuke. — minha voz crepita através da taça de champanhe. Eu me proibi de comer, mas não de beber.
Ele ignora completamente minha presença, e tenho certeza que não pedirá sequer desculpas quando este almoço insuportável encontrar seu fim. Decido, por fim, não alimentar seu ego e paro de encará-lo, dando ao moço próximo de mim toda a atenção que merece.
O fato de que não estou com receio de falar com ele me assusta, geralmente minha ansiedade e timidez são os fatores que repelem os homens para longe, mas o aborrecimento que borbulha dentro de mim se sobressai a tudo isso.
— Parece durão. — ele comenta, um sorriso brinca em seus lábios. Adoráveis lábios, por sinal. — Hum, você trabalha com ele?
— Sou assistente do departamento de marketing, meu trabalho é estabelecer iniciativas promocionais para os carros do senhor Uchiha, ali. — repito o discurso que torna meu trabalho um pouco mais respeitável, mesmo sabendo que é desnecessário.
— Impressionante. — ele não parece realmente surpreso. — Você deve ganhar pouco e trabalhar muito.
— Exatamente! — o tom injustiçado em minha voz sai com volume acrescido, e alguns, poucos olhares, me fitam rapidamente. Minha pulsação aumenta, e eu não me permito ficar nervosa, apenas desvio a atenção de volta ao homem ruivo — Sou uma mera assalariada, e o senhor?
— Eu sou o dono do sindicato patronal da empresa do senhor Yahiko, e por favor, use “você”. — em seguida, sou golpeada por um sorriso encantador — Tenho algumas desconfianças aqui, por favor, me diga se eu estiver errado. Você se chama Haruno Sakura?
Um riso estrangulado escapa de mim. — Sim. Sou eu, mas como sabe disso?
— Estou aqui exclusivamente para mostrar as instalações aos visitantes de Tóquio.
Que surpresa agradável.
A sorte precisava sorrir para mim algum dia. Foi hoje, apesar dos pesares.
Aquele homem charmoso me levaria para um tour no prédio, infelizmente Sasuke iria junto, pois todo este alvoroço foi organizado exclusivamente para recebê-lo. Não é todo dia que onze homens de posses se reúnem em um restaurante requintado, e se eles estão aqui, não é por causa da minha possível promoção.
— Como se chama? — apoio meu queixo ao punho, demonstrando interesse a conversa.
— Sabaku No Gaara.
— É um grande prazer conhecê-lo.
— O prazer é meu.
Estou tão eufórica que minhas mãos tremem ao manusear a taça de champanhe, e logo a Sakura molenga assume o controle da situação. Suigetsu e Karin têm razão, devo diversificar e sair da “onda” de executivos e homens com grande poder aquisitivo.
Gaara parece ser um deles, eu não posso dar atenção para ele, mas este cara definitivamente estava sorrindo sugestivamente para mim, segundos atrás.
Minhas pernas oscilam sob a mesa. O que infernos estou fazendo?
Empurro minha franja para trás, e me sinto presa a uma sala pequena; conotativamente falando, como se quatro paredes estivessem se fechando ao meu redor, o ar se tornando terrivelmente denso. Ou talvez a sensação de estar com os poros submersos à agua do mar, que pressiona meu peito contra os pulmões tornando a respiração difícil.
Preciso sair daqui.
— Com licença. — estalo, empurrando a cadeira para trás.
O olhar surpreso de Sasuke me alcança, mas não estou com paciência para lidar com tudo isso. Preciso chegar ao lavabo.
Estou dentro das cabines quando decido tomar uma medida drástica e ligar para Karin.
— Você tem consciência de que desligou na minha cara, antes?
— Preciso de ajuda. Tem outro homem bonito demais aqui, que é dono do sindicato patronal do senhor Yahiko, e ele estava sorrindo para mim, o que isso quer dizer?
— Que ele estava sendo gentil?
Bingo! Ele estava sendo gentil, a culpa é exclusivamente minha por interpretar tudo errado.
Olho ao meu redor e percebo que estou justamente dentro de um pequeno espaço com quatro paredes perto demais e não posso me mover como quero. Empurro a porta e minha cabeça gira, não estou me sentindo bem, meu estômago está em guerra comigo mesma
Dou alguns passos tortos até a pia larga de granito e me apoio ali. — Sakura? — ela chama, mas não consigo emitir um único som. Percebo que estou pálida demais e havia gotículas de suor brotando em minha fronte, evidenciando o mal estar que estou sentindo.
Uma moça parada ao meu lado me observa enquanto passa gloss nos lábios, ela junta as sobrancelhas e inclina-se em minha direção, consternada. — Você está bem?
Não, eu não estou bem e também não sei o que está acontecendo. Talvez tenha sido a verdadeira bomba de açúcar que comi no café da manhã, só sei que há um ranço estranho em minha boca e tudo que quero agora é deitar no chão frio.
— Sim, tudo bem. — eu consigo sorrir e logo me encaminho até a parede; deslizo por ela até estar sentada no chão — Sim, Karin, estou aqui.
— Quem é o homem?
— Ele se chama Sabaku No Gaara.
— Consegue soletrar o nome dele?
Um suspiro irregular escapa de minha garganta. — Não, e não acredito que está tentando pesquisá-lo no Google.
— Eu estou tentando no Facebook. Vou seguir meus instintos. Sabaku No Gaara... — inclino o pescoço em direção à parede e fecho os olhos. Eu agradeceria se alguém jogasse um balde de gelo em mim, pois estou com calor. — É um ruivo de olhos verdes?
— Sim.
— É um bom partido, mas bloqueia o perfil para desconhecidos. Você viu alguma aliança nas mãos dele?
— Não perdi tempo olhando para as mãos, o rosto era mais interessante. — a sensação de tontura fica pior, e engatinho até a cabine que estava antes, pronta para alguma eventualidade. — Como está o John? Estou morrendo de saudades dele.
— Você tem o gato mais chato do mundo.
— Você percebe que estou morrendo aqui? Um pouco de sensibilidade seria excelente.
— Desculpa. Onde está agora?
— Sentada no chão de um banheiro. Não estou me sentindo muito bem.
— E o Sasuke? Onde está ele?
— Lá fora, conversando com um montão de homens chatos. — fico de joelhos, decidindo que a parede do teto é algo mais interessante de se olhar ao invés de um vaso sanitário — Eu conheci Yahiko, ele é um homem fechado, de pouca conversa, exceto quando está em companhia de seus amigos, eu percebi isso pois ele esteve rindo e contando casos engraçados a Sasuke desde que a comida chegou. Tem outro homem aqui, Hiruzen Sarutobi, ele tem uma verruga horrível no rosto e eu não consegui parar de olhar...
— Você está bem mesmo, Sakura? — o tom pouco convencido em sua voz me chateia.
— Não. Estou enjoada.
— A respiração é a chave de tudo.
Ela tem razão. Eu começo a inspirar profundamente pelo nariz, e expirar fracionadamente pela boca. Repito o processo algumas vezes, pensando sobre coisas positivas.
Vai dar tudo certo.
Não consigo olhar para ele, simplesmente não consigo.
— E então, como se sente agora? — ele gira sobre sua banqueta até estar com as costas viradas ao balcão, e apoia seus cotovelos ali, virando o rosto em minha direção.
Vomitei todo o meu café da manhã e a tontura foi embora. Estou me sentindo bem outra vez, já disse antes, mas ele parece não acreditar.
Quando saí do lavabo, ainda nauseada, tentei gesticular de longe o suficiente para pegar sua atenção. O olhar em seu rosto quando me viu pular freneticamente ao chamá-lo teria sido cômico se as circunstâncias não fossem tão ruins.
Sasuke me levou ao bar do restaurante e pediu uma jarra de água com gelo, esteve muito preocupado com meu bem estar durante todo o tempo, e me assistiu beber quase quatro copos de água em completo silêncio, sem nem mesmo pestanejar em retornar a mesa, na qual continuavam sentados os doze homens – adicionando Gaara à contagem – que foram trocados, talvez rudemente, por uma simples assistente de marketing.
Isso porque ele não saiu do meu lado desde o momento em que deixei claro que não estava me sentindo bem, e os executivos com certeza ficaram muito incomodados por terem sido deixados de lado.
Eu só percebi que foram embora do restaurante quando Yahiko veio ao nosso encontro e me observou com ar de hostilidade antes de voltar seu olhar – que se tornou subitamente ensolarado – a Sasuke outra vez. Ele veio se despedir de nós, e disse que mal podia esperar por nosso próximo encontro, na segunda-feira.
— Você deveria ter me deixado aqui e retornado para a mesa. — eu digo, brincando com os cubos de gelo restantes no copo.
Ele não responde, apenas passa a língua pelos lábios e olha ao redor. — Não, você acabou me salvando de tudo aquilo. — ele comenta casualmente, enquanto acompanha um garçom que passa ao nosso lado.
Meu cenho se franze imediatamente, afinal, ele parecia estar se divertindo – e muito – na companhia daqueles homens.
Sasuke me fita outra vez e parece ler meus pensamentos pela expressão que estou mantendo ante sua última afirmação.
— É, aquele sou eu sendo falso e fingindo rir de piadas ruins.
— Quero deixar registrado o quão bom você é em ser falso e fingir rir de piadas ruins.
— No meu mundo, isso é um elogio. Obrigado. — ele sorri de viés, mas sua feição torna-se séria outra vez — Como está se sentindo?
— Bem. — eu estou realmente incomodada com toda esta situação. Sinto que estou sendo um incômodo, mesmo que ele alegue que o livrei de um momento inconveniente, não posso deixar de pensar que está apenas tentando ser gentil.
— Me desculpe por antes, sobre a roupa. — eu contenho um sorriso ao sentir sinceridade em seu pedido de desculpas — Também foi uma surpresa para mim, eles ligaram quando estávamos no parque, eu sabia que não ia dar tempo, mas disse o que você precisava ouvir.
“Verei o que posso fazer sobre isso” Sim, eu acreditei nele, e é mais do que frustrante saber que apenas ‘disse o que eu precisava ouvir’.
Eu sei que preciso responder alguma coisa, por mais taciturno que seja, eu preciso dizer. Ele está esperando.
Mas Sasuke desvia o olhar em direção a algo e eu o acompanho no mesmo segundo. O cara ruivo de antes está aqui, com um sorriso contido nos lábios, e se aproxima.
— Bom dia, senhor Uchiha. — Sasuke suspira, e comprime os lábios em um sorriso nada espontâneo — Você está bem? — inclina-se em minha direção — Não pude deixar de perceber que saiu rapidamente e não retornou depois disso. — ele parece ligeiramente preocupado, e não posso deixar de apreciar isso.
— Estou bem, obrigada por perguntar.
— Então... eu presumo que nosso compromisso de hoje terá que ser adiado, lamentavelmente. — seus olhos verdes se desviam de mim em direção a Sasuke com custo — Estou aqui para acompanhá-los até a Macchina, mas receio que a senhorita não está em condições de...
— Sim, estou. Bem melhor, estou... — olho para Sasuke, e ele me censura com aqueles olhos impactantes — Melhor. Eu melhorei. — estou falando demais.
— E então? — Gaara parece confuso. Ele provavelmente espera que Sasuke diga que estou bem e mantenha os planos iniciais, e eu também torço que faça isso.
— Não, ela, de fato, não está em condições. Fica para a próxima. — Sasuke acerta o ombro esquerdo dele com dois tapinhas. — Acho que deveríamos ir, agora.
Não estou entendendo o que acontece aqui.
Eu me sinto uma criança sem voz entre dois adultos. Eu acabei de afirmar que estou melhor e Sasuke rebate dizendo simplesmente “ela não está em condições” como se fosse eu.
Meu olhar em direção a ele é confuso e hostil, mas quando o desvio a Gaara, que está de boca aberta, provavelmente preparando-se para dizer mais alguma coisa, levanto os ombros com benevolência e retraio os lábios em uma lamentação.
— Bem, sim, eu compreendo. Avisarei ao senhor Yahiko para que possamos remarcar o compromisso...
— Ótimo. Faça isso. — Sasuke o interrompe.
— E, se me permite, um parceiro nosso estará promovendo uma festa de conferência de tecnologia hoje à noite, começará às nove horas no salão de festas do Swissôtel Nankai. Seria uma honra se estivessem presentes.
— Oh, parece ótimo. — eu me manifesto antes que Sasuke diga alguma coisa.
Ele está olhando para mim, seus lábios cerrados em uma linha dura, e eu não sei o que estou fazendo de errado, ou mesmo se estou fazendo algo errado. Só o que posso fazer é presumir de acordo com o que vejo em seu rosto, e ele parece irritado.
— Sim, teremos bebidas, ótima comida, um DJ. — a parte do DJ me surpreende, mas permaneço calada — Vários estagiários da área, majoritariamente jovens, então seria quase absurdo se fosse uma ocasião formal. Tudo que precisam é de uma inscrição.
Eu estou sorrindo e balançando a cabeça positivamente para Gaara, que parece empolgado com o que está falando.
Eu, particularmente, odeio festas ou coisas parecidas. Eu realmente saía escondida das festas do dormitório, durante a faculdade, e nada mudou com a idade. Ainda abomino grandes aglomerações, porém, se houve algo que ficou pior com os anos, foi o meu desespero.
Eu estou, de todo meu coração, tentando sair de minha zona de conforto. Aquela seria uma boa chance. Uma onda inesperada de ousadia me acomete, e pergunto: — Você estará presente?
— Sim, eu estarei. — ele responde prontamente.
Tenho certeza que estou sorrindo como uma idiota agora.
— Parece realmente maravilhoso, senhor...? — Sasuke estreita os olhos.
— Oh, Sabaku No Gaara.
— Parece realmente maravilhoso, Sabaku No Gaara. Infelizmente não temos muito tempo agora. — ele enfia a mão em um dos bolsos internos do blazer e deixa dinheiro sobre o balcão. — Sakura, precisamos ir embora.
Minha boca se abre, mas não sei o que falar.
Eu não perdi o juízo suficientemente a ponto de contestá-lo, principalmente quando parece tão firme em suas palavras.
— Por quê? — pergunto, mesmo assim.
Sasuke me fuzila com o olhar, e a situação da mesa parece se inverter, mas não estou achando engraçado, muito pelo contrário, na verdade.
— Horário de almoço. Vamos pegar um trânsito ruim. Precisamos ir.
— Ah, tudo bem... Foi, foi um prazer conhecê-lo. — eu tento sorrir gentilmente, apesar de frustrada.
Eu tive a chance que queria, e infelizmente a perdi.
Fale com o autor