Ekusas

15 Sakura - Parte II (Final)


Notas iniciais
Olá, hoje já é "amanhã". Boa leitura!

Eu queria ir. Pela primeira vez em toda a minha vida, eu quis ir a uma festa.

Infelizmente, Sasuke parecia irredutível ao meu lado.

A única coisa que quebra o silêncio entre nós é a música que vem do rádio, mas mesmo assim eu ainda me sinto tensa.

Sim, eu estou com ele nesta viagem, mas não, eu não estou colada a ele. São duas coisas diferentes. Minha única função ali é apresentar a palestra, mas tenho meu próprio quarto, tenho minhas próprias pernas e só o que preciso é alcançar um caixa eletrônico para conseguir dinheiro.

Certo, é inadequado sair sem ele, mas eu não vejo como sair sozinha pode ser desrespeitoso. Ele não quer ir, pode ficar. Eu quero, então irei.

Mas como diabos eu deveria comunicar a ele que desejo ir?

— Hum, Sasuke? — junto as pernas, mantendo minhas mãos fechadas sobre o colo. Estou tão tensa que mal posso agir naturalmente. — Sasuke?

— Sim.

— Eu só queria saber se nós vamos.

Estou o olhando, mas ele não desvia a atenção em momento algum. Continua focado a direção.

— Vamos? Para onde?

— Para a festa. A que o senhor Gaara mencionou, nós vamos?

— Você não ouviu? — ele redargua — É preciso uma inscrição. Nós não fizemos uma.

— Porque você queria ir embora rápido. — meu argumento sai tão baixo quanto um miado. Eu estou contestando uma decisão dele agora, e preciso ser cautelosa.

Sasuke suspira como se estivesse exausto por um longo dia de trabalho. Talvez esteja, sim, cansado. Ele é como um morcego, não dorme muito. Uma pessoa que leva o tipo de vida dele e dorme pouco não pode ser tão energético e viciado em trabalho como ele demonstra ser, e eu realmente o admiro por isso, mas está fora de questão agora.

Ele não responde, e já sei o que significa, algo como: não quero discutir, não insista neste assunto. Eu bufo, desviando o olhar de volta a paisagem lá fora. Sasuke está certo, não fizemos uma inscrição, e a festa não é uma possibilidade.

O resto do trajeto é feito em completo silêncio. Em certo momento, ele desliga a rádio de forma um tanto rude, mas não dou atenção a isso.

Eu devo ser civilizada e me recompor, tratá-lo normalmente. E, no fim, ele estava certo sobre o trânsito.

— Você quer ir? — é sua primeira e única pergunta durante nossa curta estadia no elevador.

Minha respiração entrecorta quando o observo. Seu rosto está inclinado para baixo, ele está olhando para mim com seriedade, e mesmo acompanhados por outras duas pessoas, o instante parece se resumir a nós dois.

Eu não queria criar esperanças de que estava considerando uma mudança de planos, até porque não havia como sem a maldita inscrição.

— Eu gostaria. — não posso mais, é o meu limite! Expiro, quebrando o contato visual.

— Certo. — o observo pelo reflexo do espelho, mas ele não está olhando para mim — Nós vamos.

— O que? Co-como assim, nós vamos? — aquele é o sussurro gritado mais difícil de toda minha vida. O elevador apita, as portas se abrem e uma das pessoas sai. Sasuke está tão tranquilo como se sequer houvesse me escutado — Nós não podemos mais ir. Não fizemos nenhuma inscrição.

— É, eu sei.

ACORDA!, minha mente grita diante de tanta serenidade.

Eu assisto em visão perfilada o momento em que ele umedece os lábios. — Eu vou dar um jeito nisso.

— Que jeito?

— Alguma coisa.

E depois disso, ele simplesmente não parece mais interessado em conversar.

Em um dia só eu fui rejeitada por ele, conheci o castelo mais bonito de todos, fiz um ótimo passeio em um museu, almocei em uma mesa de executivos, conheci um ruivo bonito, vomitei todo o meu café da manhã, tive um momento estranho entre dois homens que com certeza tinham pedigree e fui convidada a uma festa.

Com certeza é o dia mais empolgante da minha vida. E o mais incrível é que não acabou ainda!

Se fossem necessárias três palavras para resumir o motivo da minha oração de agradecimento mais tarde, estas seriam: vestido das Bodas.

Eu trouxe o vestido das Bodas, e enquanto fazia as malas, realmente passou por minha cabeça não trazê-lo, mas o meu instinto de “é melhor ser um guerreiro em um jardim do que um jardineiro em uma guerra” foi mais forte e, graças aos céus, eu trouxe.

Minha decisão ao chegar no apartamento foi a de dormir novamente. Claro que, antes de tudo, joguei todo o café da manhã no lixo e precisei prender a respiração para não sentir o cheiro, pois até o simples aroma de açúcar estava me tirando de sério. E eu não podia me sentir mal outra vez hoje.

Estava tudo organizado em minha cabeça: dormirei durante singelas cinco horas, despertarei às seis da tarde para não ficar com o rosto amassado e iniciarei o que seria um inédito ritual de beleza.

Porém, tudo ocorre redondamente errado, começando pelo fato de que eu resolvi ativar a soneca no momento em que fui pontualmente acordada às seis horas da noite. O que deveria ser um sutil cochilo de mais quinze minutos se estende a quase duas horas, e acordo em algum horário entre as oito e as nove horas da noite, completamente perdida.

Deslizo para dentro do vestido das Bodas que – obrigada corrida diária ao metrô! – ainda cabe em mim, e parece tão bem que mal posso acreditar. Também decido usar os melhores saltos altos que trouxe na mala, um realmente longo, que me deixaria quase treze centímetros mais alta. Agora estou estapeando meu rosto, e com sorte aquilo vai expulsar o aspecto de quem acordou há pouco tempo para longe. São oito horas e vinte e três minutos, e ainda estou prestes a me maquiar.

Só posso torcer para que o trajeto não seja longo a ponto de nos deixar horrivelmente atrasados. Sasuke também tinha o hábito de chegar antes do momento marcado, mas a grande novidade é que: não temos um horário marcado! A última frase que disse foi, literalmente, “alguma coisa”. Nada além disso, nem mesmo um ‘tchau’ ou ‘que horário fica melhor para você?’

Nada.

Por isso estou surtando e agradeço ao hotel por disponibilizar demaquilante, pois eu não trouxe nada parecido, e perco a conta das vezes em que o traço do delineador sai muito tremido, ou que esfumo demais a sombra a ponto de ficar parecida com um urso-panda.

Eu finalizo a maquiagem com muito custo, e sequer houve tempo de agradecer as forças da natureza por terem me permitido concluir aquela fase com sucesso, ainda havia a coisa mais importante: o meu cabelo.

Cabelo que agora, mais do que nunca, agradeço por ser curto. Torna-se infinitamente mais fácil de cuidar e, em momentos de extrema pressa como agora, deixá-los minimamente apresentáveis.

Eu também usei o secador do hotel para salvar os quinze segundos que me custariam correr até a mala e pegar o meu. Todo, todo o tempo era importante, até mesmo alguns míseros segundos.

E então eu faço a escova mais rápida que já fiz em toda a minha vida, sem sequer pentear os cabelos, mas olhando-me no espelho, receio que é justamente o que faz parecer melhor.

Eu me sinto bem comigo mesma outra vez, como me senti antes, ao comparecer ao que seria a “apresentação e comprovação oficial de que Suigetsu Hozuki é um homem real”, e não posso deixar de temer tudo isso, outra festa, outras expectativas, mais esforço, principalmente porque tudo pode ir de água abaixo, e não quero pensar em alguém bêbado vomitando em mim ou mesmo um tombo público que faça com que eu me sinta pior do que lixo.

Não, não hoje. Eu não posso arruinar tudo hoje. Preciso fazer com que seja legal, eu posso, sim, me divertir como uma pessoa normal.

Ouço batidas na porta e meus olhos procuram imediatamente o relógio em meu celular. Faltam incríveis e poucos quinze minutos para as nove horas da noite, e eu teria a certeza de que estamos atrasados se não fosse Sasuke cuidando sozinho dos horários. Se ele chegou agora, certamente tudo estava bem.

Há uma tensão em meus ombros e eu estou me habituando novamente a usar os saltos mais altos que tenho, mas conserto a postura, ignoro o desconforto e empino o nariz ao abrir a porta.

— Olá. Porra — o palavrão escorrega da minha boca como se estivesse ensaboado, mas francamente, não posso evitar. Meu estômago parece estar em uma montanha-russa e minha boca está seca como o deserto de Mojave, pois pareço estar diante de uma entidade, um anjo caído do céu exclusivamente em minha porta. — Boa noite.

Eu gostaria de estar transmitindo em tempo real para que Karin – de repente a ideia do pay per view retorna aleatoriamente – possa ver também Sasuke dentro de calças de sarja pretas e uma blusa rolê sob a jaqueta de matelassê mais estupenda que já vi na vida.

— Boa noite, Sakura. — ele suspira, e seus olhos vagam sobre mim em uma avaliação breve e silenciosa. — Você já está pronta? — há certo fascínio nesta última parte, como se ele estivesse incrédulo ao fato de que não precisará esperar uma década para que eu fique pronta.

E eu só posso pensar em como ele reagiria se soubesse a verdadeira missão pessoal que foi estar pronta ao atendê-lo, sem precisar de minutos a mais.

— Sim.

Sasuke recua um passo, e lembro que preciso reagir. Imediatamente deslizo a bolsinha de mão pelo antebraço até que esteja na dobra do cotovelo e procuro o cartão-chave. Com a porta trancada, eu solto uma risadinha nervosa antes de segui-lo adiante pelo corredor.

Como não houve elogios a minha aparência, eu não disse coisa alguma sobre ele, apesar de querer. Bem, ele estava bonito e merecia ouvir isso. Ele é bonito, eu me sentiria idiota em dizer algo como “você está muito lindo hoje à noite” quando ele é fantástico o tempo inteiro.

Então eu decido falar apenas o necessário, o que é péssimo, pois ele é uma daquelas pessoas que não tem o menor problema em permanecer caladas, e é exatamente o que decide fazer. Durante nosso trajeto até o hotel que esqueci o nome, e eu juro que as únicas palavras que disse foram: “o cinto” – quando esqueci de puxar o cinto de segurança – e “merda” – quando não conseguimos passar pelo semáforo antes que fique vermelho.

É todo o seu comportamento taciturno que me leva a crer que está ali contra a sua vontade, e é óbvio que considerar isso me deixa triste. Eu fico realmente amuada até que estaciona o carro alugado na rua paralela a do hotel, e sou cativada pela beleza daquele prédio. As luzes festivas se misturam as da cidade e eu acho toda a situação surpreendentemente emocionante.

Eu só estive em festas de república antes, que costumavam ser realmente pacatas e péssimas, principalmente se comparadas àquilo.

Com sorte o seu empenho em permanecer silencioso acaba assim que pisamos no saguão do hotel, que é tão chique quanto o que estamos hospedados, embora pareça ter um aspecto mais contemporâneo evidenciado, principalmente, pelas pessoas que estão transitando por ali.

Aliás, nós dois não fomos oficialmente convidados. Tecnicamente fomos, mas não havia nada em escrito para comprovar isso, e quando eu olho para Sasuke, ele parece uma águia examinando o ambiente de caça. Tenho certeza que está pensando sobre “alguma coisa” agora, ou seja, um jeito de nos colocar dentro da festa.

Ele é um CEO aclamado e conhecido que agora está pensando sobre como furar o bloqueio de uma festa particular. Tudo isso podia ter sido prevenido se ele simplesmente não houvesse sido tão apressado antes.

— Vamos dar uma volta. — ele sussurra, e em seguida, sinto uma mão quente apoiando-se a minha lombar e faço um esforço hercúleo para continuar agindo normalmente com aquele contato inesperado.

Nós circulamos pelo saguão e um grupo usando fardas igualmente azuis passa por nós. Sasuke e eu trocamos olhares sub-reptícios. Pensamos na mesma coisa, e aquilo faz com que eu sinta vontade de rir. Nós seguimos o grupo até uma ala separada, e logo pôsteres de uma empresa de softwares surgem ao nosso redor.

Uma mulher sorridente nos entrega panfletos da empresa, e enquanto eu, mesmo caminhando, baixo o olhar para ler as letras em fonte chamativa, olho para ele e percebo que o papel já está amassado em uma bola na mão direita de Sasuke.

— Olha. — ele diz, apontando com o nariz em direção a algo em nossa diagonal.

Rapidamente sigo sua orientação e observo o grupo fardado parar diante de uma larga mesa com centenas de crachás de identificação presos a colares. A mulher responsável está folheando um livro, com toda a sua atenção presa a ele e sequer observa os jovens, que procuram seus nomes nos crachás e penduram os colares a seus pescoços, fazendo seus caminhos em direção a entrada, protegida por dois homens que apenas checam superficialmente os crachás e permitem que sigam adiante. Sem qualquer análise, sem procurar nomes em listas.

Eu olho para Sasuke outra vez, e quando ele empurra sua mão contra minhas costas, prestes a repetir o ato que acabamos de ver, eu travo e não consigo andar.

— É errado. — eu sussurro, quando seus olhos confusos procuram os meus para uma explicação — Por que você não liga para Sabaku e pede para que ele permita a nossa entrada?

— Eu o conheci hoje, sequer sabia o nome dele. Não tenho seu número.

— Estou com medo, e se pedirem nossas identidades?

— Vamos lá, eu tenho uma reputação em risco e não estou dando tanta importância...

— Claro, quem em sã consciência não lamberia as suas bolas, mesmo quando está fazendo algo errado? — ele está me observando de uma forma estranha agora. Não sei definir seu olhar, mas ele provavelmente está confuso, pois o que acabei de dizer não fez o menor sentido — Eu quis dizer que você é “peixe grande”, que o dono da festa passaria a mão na sua cabeça se fosse flagrado.

— Provavelmente sim, e seria um momento constrangedor, mas se ele “passaria a mão na minha cabeça”, — ele parece não gostar da expressão — passaria na sua também. Você está comigo.

Parecia tão idiota me sentir insegura agora, e mesmo assim eu me sinto.

— Vamos. Apenas tenha certeza de olhar antes e ver se é um nome de mulher. Aja com normalidade.

É isso, é agora. Eu me sinto como uma adolescente prestes a roubar uma garrafa de vinho em uma loja de conveniência, mas consigo andar desta vez, e quando há um homem influente tão confiante sobre fazer algo errado ao meu lado, eu poderia, sim, me sentir menos abominável por estar prestes a fazer o que farei.

Ele para diante da mesa e recolhe um dos crachás. Meus olhos correm pelos múltiplos nomes, e eu estou seriamente pensando sobre qual deles é o mais bonito quando não deveria perder tempo com isso. Sasuke age, recolhendo um deles e enfiando-o em minhas mãos de forma bruta, e eu olho para a mulher, que continua lendo e, em certo momento, levanta os olhos mecanicamente para nós.

Merda! Merda, merda, merda. Fodeu.

Mas sua mão pressiona minhas costas, e ele me encaminha junto consigo em direção aos dois homens de smoking. A mulher simplesmente volta sua atenção à leitura sem dizer absolutamente nada, e eu solto o ar preso em meus pulmões.

Quanta adrenalina!

— Caralho! — eu preciso dizer um palavrão. Isso faz parte do meu método mais funcional e honesto de relaxamento. Falar palavrões — Puta merda, Sasuke! — minhas pernas estão na consistência de gelatina.

— Ponha o crachá. — é sua única resposta.

Eu passo o colar por minha cabeça sem nem mesmo ler o nome escrito, e ele faz o mesmo. Nós dois passamos pelos seguranças com normalidade e somos engolidos pelas luzes coloridas da festa, que parece ter começado há muito tempo.

— Porra, nós conseguimos! — ainda estou suando frio. Sinto-me uma fora da lei.

— Sim. — ele responde, e eu me sinto estranhamente abandonada quando ele me deixa livre de seu toque — Você está lívida. — a expressão em seu rosto é incrivelmente descontraída. Ele está zombando da minha reação anterior.

— É óbvio. Não sou de andar por aí assumindo identidades alheias!

— É mesmo? Eu não teria percebido se você não falasse. — cinismo. Puro cinismo.

É, de longe, a festa mais incrível que já estive, porque ela parecia verdadeiramente privada, digo, o tipo de festa a qual é perceptível que uma generosa quantidade de verba foi aplicada, e posso perceber tudo isso pelas dezenas de máquinas caça-níqueis dispostas no salão, nas quais, a propósito, grupos de pessoas se dividem; uma para jogar, várias para assistir.

Além disso, quando uma moça passa ao meu lado gritando que “é open-bar”, eu reafirmo que, sem dúvidas, é uma social e tanto. Os pôsteres também estão aqui dentro, e tudo ao nosso redor parece ter o logotipo da empresa estampado, – com o grande letreiro brilhando em cores neon no centro do salão incluído – exceto nós mesmos e um pequeno grupo de pessoas.

Também há gente se divertindo em karaokês, e a quase dez metros de distância de nós, um palco no qual homens realizam movimentos de dança complexos como worm e spins que me levam a questionar se são realmente feitos de carne e osso.

Eu imagino que RUN D.M.C esteja tocando, penso em questionar Sasuke, mas ele não parece ser do tipo que escuta hip-hop, principalmente hip-hop estrangeiro.

Lembro-me de Sabaku No Gaara e penso um pouco sobre ele. Se realmente quero apenas ficar com alguém, seria perfeito se este alguém fosse um cara que provavelmente não verei outra vez em minha vida. Certamente é um pensamento mais esperto do que casos tórridos com chefes, que verei em todos os dias úteis da semana e fazem parte do mesmo círculo profissional – também pessoal – que o meu.

Tenho certeza que Karin concordaria comigo, é o que me motiva a continuar.

Como uma grande porção de pessoas está adiante, Sasuke segura o meu pulso e anda na frente, escolhendo os melhores e mais “vazios” caminhos para que possamos seguir. O salão está escuro, barulhento e quente assim como eu imaginei que seria. Por sorte o teto era alto e havia algumas pessoas em mezaninos, mas aqui embaixo também tinham algumas mesas e muitas, muitas pessoas.

As luzes piscam em várias cores, quase me cegando, mas a predominância de tons variados de azul é notável, e eu supus que o motivo era por azul ser a cor da empresa que estava promovendo tudo aquilo.

Em um momento, Sasuke decide parar de andar. Ele recua para trás quando uma mulher girando os cabelos acerta seu braço acidentalmente e me olha com certo estresse. Parece ser um homem caseiro demais para este tipo de lugar, e na verdade, eu também sou.

Ele diz alguma coisa que não consigo entender. Muito barulho, muitos gritos, muitas vozes.

— O que? — meus olhos ficam diminutos e inclino o pescoço em sua direção.

— Para onde quer ir? O que quer fazer? — ele diz em meu ouvido. Na verdade, ele grita.

— Não sei! — eu levanto os ombros e franzo os lábios. Ele olha ao redor, tirando proveito de sua estatura para observar o ambiente.

No segundo seguinte parece encontrar a resposta de sua própria pergunta e me puxa outra vez. Nós continuamos enfrentando a maior multidão de corpos da minha vida, eles giram, pulam e batem juntos. Alguns se movimentam de forma que se sobressaem ao resto, outros estão praticamente fazendo sexo.

Eu não posso deixar de lembrar que, em sua maioria, são estagiários jovens. Provavelmente têm a minha faixa etária, talvez sejam até mais novos.

Sinto-me expelida de um formigueiro quando alcançamos uma ala diferente e coberta. Também há várias pessoas aqui, mas sem dúvidas, elas não estão se balançando tanto, apenas querem bebidas e para isso não precisam dançar.

A sensação nos olhos de Sasuke é de alívio. Eu também não estava me sentindo bem entre tanto calor humano, toda aquela diversidade de perfumes e cheiros. Eu realmente não nasci para tudo isso, mas arrisco dizer que encararia isso e muito mais por um show da minha banda favorita.

Já estou fadigada quando dou um saltinho para me sentar sobre uma banqueta giratória, que é alta o suficiente para que eu fique na mesma altura de Sasuke. Ele também parece estar notando isso, já que olha para baixo rapidamente e depois me observa sem precisar inclinar o pescoço para baixo.

— E então, é tudo que você esperava ou não alcançou as suas expectativas? — ele apoia um dos cotovelos ao balcão de vidro e me observa com atenção.

— Bem, minhas expectativas foram superadas. — eu sorrio, reprimindo uma vontade gigantesca de girar sobre aquela banqueta como um pião.

— Que bom que um de nós está gostando. — seus olhos me fitam de esguelha, e contraio uma sobrancelha. — Posso pedir algo para você?

— Eu pensei que você tivesse cadeira cativa em clubes noturnos, já está acostumado a tudo isso. — ele continua me olhando, como se não estivesse ouvindo o que queria ouvir. — Sim, você pode.

— Tem razão, há quase dois anos atrás. — eu me retraio ao perceber que ele está certo e, de fato, dois anos podem mudar muito uma pessoa. Observo-o conversar com um barman por alguns segundos, e logo em seguida, ele continua: — Quando eu ainda tinha vinte e poucos anos e achava que precisava curtir todo o possível antes dos trinta.

— E você curtiu? — eu sei que sim, mas parecia ser o mais adequado a falar agora.

— Eu continuo vivendo um dos piores períodos da vida de um ser humano: ressaca moral. Ressaca moral é uma merda. Qual a sua idade mesmo?

— Vinte e quatro.

— É nova. Você vai chegar lá.

— Eu duvido. Para ter a suposta “ressaca moral” é preciso ter uma coleção de erros. Eu não tenho nada disso, talvez não uma tão longa quanto a sua. — eu não tenho convicção sobre o que estou falando, mais especificamente quando suponho que ele tenha errado demais, mas ele fala como se tivesse. Meu único erro foi ter dado ouvidos a minha mãe e consequentemente desistir da única coisa que eu mais queria, mas era algo tão incerto que, da mesma forma que eu podia tirar um sustento disso e viver feliz com minha carreira, as palavras da minha mãe também podiam ter se realizado, eu seria apenas mais uma e entraria na faculdade de forma tardia. — Tive relacionamentos péssimos, evitaria todos eles se pudesse voltar no tempo, mas como não posso, não me arrependo, pois acrescentaram ao meu eu, Sakura Haruno, de alguma forma que hoje em dia é positiva.

— Discurso legal, mas de qualquer forma, você ainda tem tempo para cometer muitos outros erros, e talvez, quem sabe, se arrepender deles. — há algo a mais em seus olhos, e eu suspiro profundamente, tentando não pensar em banalidades.

Eu não duvido do que ele disse, principalmente porque estava mais do que disposta a cometer um “erro” com ele hoje de manhã. Talvez eu ainda esteja, mas estou consciente das consequências agora.

— Bom, o senhor Gaara disse que estaria presente aqui, acho que seria apropriado cumprimentá-lo, não é? — sua companhia era sufocante demais para que eu pudesse suportar, eu sinto que preciso respirar algum ar puro com urgência, e não fizemos nada além de conversar sobre um assunto inconveniente. — Eu vou fazer isso...

Ele simplesmente franze os lábios e move a cabeça em um aceno positivo. Não parece satisfeito, mas não tenta me impedir.

O garçom deixa dois drinques perto de nós e sai com rapidez de volta a seus afazeres.

— E o seu drinque? — ele pergunta casualmente, empurrando o copo colorido de plástico acrílico para mim.

— Eu posso beber quando voltar, tenho certeza que ainda estará bom e não tenho planos de demorar. — na verdade eu tenho, mas duvido que consiga desenvolver um assunto bom o suficiente que possa durar e me permitir ficar tempo a mais com Gaara.

— Tem razão. Eu vou estar aqui quando voltar. Tem bastante gente por aqui, acho que você vai demorar a encontrá-lo, portanto, — ele toma um gole rápido no gargalo de uma garrafa de cerveja e suas íris percorrem a multidão rapidamente, voltando-se a mim — boa sorte, senhorita Mitarashi Anko.

O peso de todo o planeta terra cai sobre minha cabeça e eu agarro o crachá, lendo o nome ali escrito.

Mitarashi Anko. Meu Deus do céu.

Como eu posso ter esquecido?

Minhas entranhas ficam líquidas e eu volto a me sentar sobre a banqueta. Um riso fungado emana dele, acabando com a minha neurose interior.

Eu sou um verdadeiro desastre. E devo, ironicamente, agradecê-lo pela deixa tão óbvia, afinal, não posso imaginar outra reação além de chorar quando Gaara visse o nome que, obviamente, não é o meu. Então toda uma confusão estaria armada.

O observo, e ele está tentando conter os risos com a constante sucção de mais cerveja. Bufo, procurando por seu “novo nome”, mas o crachá dele está virado em direção ao seu peito. Uma tática inteligente, e eu imediatamente viro o meu também.

— Você provavelmente vai querer beber agora. — ele aponta com o nariz o copo de um líquido escuro próximo ao meu braço esquerdo — É rum e Coca-Cola. Achei que gostaria.

Sim, eu quero muito descontar a minha pequena frustração em alguma coisa.

A Coca-Cola borbulha em minha língua e o rum a persegue, o gosto era delicioso e quente. Foi uma boa escolha dele, eu gostei de verdade, apesar de não ser habituada a beber.

Um copo cheio de qualquer coisa que contenha álcool é o suficiente para me deixar fora de meu funcionamento normal, por isso decidi que seria cautelosa. Mesmo que este drinque seja uma das melhores coisas que bebi na vida.

A luz fica vermelha durante uns cinco segundos e vejo dezenas de cabeças ruivas no salão. Minha primeira reação é prender a respiração, e logo depois observo a minha companhia, que está sereno e suficientemente distraído com a diversão de outras pessoas. Se Gaara nos achar aqui, eu não serei capaz de falar, e quero, de coração, evitar que aconteça.

Eu inclino a cabeça para trás ao tomar todo o resto da bebida de uma só vez e aperto os olhos com força em seguida, sentindo uma leve ardência na garganta.

— Sasuke.

— Hum?

— Você acha que a gente pode ir lá para cima? — ele me fita com o cenho franzido, e eu aponto com o indicador para o teto acima de nossas cabeças. — O mezanino, estamos abaixo dele. Você acha que nós podemos entrar lá?

— Você quer ir para lá?

— Ah, não sei... eu acho que... — mordo o lábio, olhando para meus próprios dedos e tentando escapar do par de olhos que me cerca — Eu acho que seria legal observar de cima.

— Você quer ir ou não?

— Eu quero ir, mas deixo de querer quando penso que talvez nós não possamos entrar. De repente a entrada é exclusiva, não sei.

— Tão exclusiva quanto a entrada dessa festa deveria ser? — eu reviro os olhos, entendendo o que ele quer dizer. Que pode ser “fácil” burlar a segurança outra vez.

— Não sei.

— Vamos conferir.

Eu suspiro, o acompanhando outra vez. Ele toma as rédeas do trajeto, e nós zanzamos pelo salão como duas moscas. Tenho certeza que ele estava reconhecendo o território e pensando, outra vez, em como solucionaria essa questão.

Eu giro em meus calcanhares pela segunda vez e não consigo enxergar nada.

— É melhor voltarmos...

— Há uma escadaria logo atrás de mim, consegue ver? — ele volta a gritar por causa da música alta.

Eu fico na ponta dos pés, esticando o pescoço e dou uma risada ao notar que ele está certo.

— Você acha que é ali? — eu chego mais perto dele, para que possamos conversar em tom mais baixo.

— E quem sabe? Você quer ir checar?

Minhas pernas oscilam, mas não consigo parar de sorrir. Talvez, apenas talvez eu estivesse gostando de entrar em lugares que não devo pela segunda vez na noite. — Quero.

Assim como o sol no centro do céu ao meio dia em ponto, minha vida sem graça está em seu ponto mais alto.

— Certo. — ele toma um gole mais profundo de sua cerveja e vira-se em direção as escadas, ficando de costas para mim. Eu avanço um passo diagonal, ficando parada ao seu lado e ele se abaixa um pouco para falar em meu ouvido — Se alguém perguntar, diga que estava procurando os banheiros. Sempre funciona.

— Está bem.

— Apesar de ter quase certeza que o acesso é livre e todo o seu nervosismo não é necessário. — ele comenta em tom descontraído.

— Vamos ver. — eu o encorajo.

Ele simplesmente segura o meu pulso outra vez e nós dois caminhamos juntos em frente. Olho para ele e mal posso acreditar que aquele é o meu chefe, ridiculamente profissional e sério no trabalho, me levando para um mezanino em uma festa totalmente informal.

O pensamento de que está prestando caridade em me proporcionar aqueles momentos totalmente fora da minha zona de conforto preenchem minha cabeça, eu me sinto grata por isso e feliz quando nós dois subimos o primeiro degrau sem sermos interceptados por ninguém.

Percorremos a escadaria caracol no mesmo ritmo e assim que chegamos ao fim, sou apresentada ao que me parece ser uma atmosfera diferente da encontrada lá embaixo. As pessoas aqui estão ocupando sofás de couro, bebendo em grupo, conversando sem precisar gritar e desfrutando de música diferente da que toca lá embaixo, enquanto outras estão nas bordas, dançando e balançando suas bebidas ao som da música predominante, no mesmo ritmo do grupo maior que aproveita no salão.

— Preciso de outra cerveja, você quer alguma coisa?

— Eu quero um drinque igual ao que bebi antes.

Ele sai, e eu caminho até a balaustrada de madeira maciça, me apoiando ali para observar a agitação das pessoas. Estreito os olhos de forma míope para observar melhor uma cabeça que me parece conhecida, e então tenho a certeza de quem se trata. Gaara está abrindo caminho, e há uma morena agarrando seu braço.

Mais do que nunca Sasuke merecia um sonoro “obrigada”, pois não consigo imaginar o quão mortificada eu ficaria se fosse procurá-lo e desse de cara com uma acompanhante.

— Aqui. — Sasuke me entrega um copo cheio e eu o coloco dentro do vazio, tomando o primeiro gole ainda com a atenção presa a Gaara, que sai de minha vista. Começo a torcer para que não decida subir no mezanino, ou um jogo de pega-pega deprimente pode se iniciar com Sasuke e eu fugindo dele. — O que foi?

— Nada. — esfrego meu braço com a mão livre, mesmo sem estar com frio. Sasuke suspira e apoia o quadril ao balaústre, cruzando os braços. — Eu ainda não vi o seu nome.

— Ah, — ele me mostra seu próprio crachá, um sorriso oblíquo brincando nos lábios — Momochi Zabuza.

Eu sinto vontade de rir. — Você não combina com Zabuza.

— Nasci para me chamar Sasuke. — ele diz honoravelmente.

— Acho que sim.

Os minutos se passam e eu me pergunto como é possível que a falta de assunto entre nós dois esteja me incomodando tanto, mesmo com todo aquele barulho. Eu sinto que é uma obrigação minha puxar assunto, e por outro lado, não sei o que falar.

Eu paro de me preocupar com isso quando um círculo se abre no meio das pessoas e dois caras se jogam no chão, dançando muito. Eu começo a rir por ter uma visão privilegiada e sobretudo, por ser realmente engraçado.

Estou me sentindo realmente leve, e isso é maravilhoso.

Eu jurei que ia ficar atenta com a bebida, e honrei meu juramento, por isso tomei apenas três copos daquela bebida gostosa que Sasuke conseguiu. Eu fui buscar a última dose sozinha, e por não saber o nome do drinque, disse apenas rum com refrigerante e o barman riu de mim, mas entendeu o que eu quis dizer.

Em certo ponto Sasuke também desiste da cerveja, e quando o observo sobre meu ombro, ele está segurando um copo de licor curaçao, sério e pensativo.

O clima entre nós dois é deprimente.

— Nós estamos parecendo dois picolés de abacate no meio do deserto. — eu comento, soltando um riso fungado.

— Por quê?

Eu olho para ele, afinal, a resposta é completamente óbvia. Ele também me encara, esperando que eu termine o que comecei.

— Porque estamos parados aqui, e todo mundo está se divertindo.

— Eu estou me divertindo. — ele franze os lábios.

Meu Deus. — Se divertindo tanto quanto alguém que está resolvendo, sei lá... contas, equações de segundo grau.

— Equação de segundo grau é fácil demais.

— Eu não aprendi até hoje.

— Então desculpe, mas, você é burra, — eu o lanço um olhar matador — não existe nada mais simples do que aplicar a fórmula de Bhaskara, é mais fácil que andar para frente.

— Se você gosta de matemática o problema é seu, eu não gosto. Não sou burra, temos tipos de inteligências diferentes.

— Isso é conversa para boi dormir... — o seu tom de voz assume um tom preguiçoso.

— Pois eu tenho certeza que escrevo melhor do que você! — eu definitivamente tinha rum correndo por minhas veias. Viro-me em sua direção para encará-lo mais ameaçadoramente, mas ele não está me levando a sério, posso dizer isso pelo sorriso enviesado em seus lábios. — É um tipo de inteligência diferente da sua.

— É mesmo?

— Sim.

— Você escreve, Sakura? — a voz profunda e cheia de interesse me leva a perceber que ultrapassei os limites. Ele dá um passo adiante em minha direção, me pressionando indiretamente a respondê-lo.

— Não. — desvio o olhar. Meus dedos se fecham em torno da madeira, e minha mente me pune pelo deslize irreparável. — Por quê?

— Nada demais. Só me pergunto como pode ter tanta certeza disso.

— Eu simplesmente tenho.

— Sim... — seus olhos me estudam, e eu me sinto exposta. — Sakura, você se sentiria ofendida se eu dissesse que muita coisa boa poderia acontecer a você se fosse honesta?

— Eu sou honesta.

— Não, você não é. E cá entre nós, — ele aponta para mim e depois para si mesmo com a parte inferior da garrafa em suas mãos — eu preciso confiar em você para promovê-la.

Não posso acreditar que ele está usando o trabalho para defender um argumento que sequer faz sentido. — Você não confia em mim? Não acha que sou honesta?

— Como eu poderia? Eu só precisei passar alguns segundos com você durante a manhã de hoje para saber que não é.

E então finalmente compreendo para onde queria levar aquela conversa.

Era o último assunto que eu desejava trazer à tona, e ele trouxe, como se fosse uma situação inacabada e mesmo que de fato fosse, eu queria superá-la.

— Esqueça tudo aquilo, eu não estava sendo prudente.

— É, eu sei. — a arrogância em seu tom de voz ao dizer aquilo me tira de sério. Ele recua e apoia as costas a uma pilastra atrás de si.

Eu estou muito estressada agora. Ele não confia em mim, e acabou de por em jogo a minha promoção. — Você estava zombando de mim o tempo inteiro, Sasuke, dando corda para que eu me enforcasse sozinha para seu próprio deleite. Como eu poderia ser honesta? — se ele estava querendo ser hostil, eu devolveria com hostilidade também. Eu piso adiante e o encaro de perto.

— Eu não estava zombando de você. — ele diz, a voz tão tranquila como se estivesse cantarolando uma canção de ninar. Os olhos ainda mais centrados, serenos.

— É difícil de acreditar.

— Você estava dando a entender coisas que eu não esperava ouvir, e além disso estava nervosa, foi um pouco engraçado, mas isso é tudo. Eu não estava zombando de você, acredite.

Eu cruzo os braços, o observando com os olhos estreitos. Eu só podia arriscar em sua sinceridade. Se ele estava reclamando tanto de uma suposta falta de honestidade da minha parte, me resta crer que está sendo honesto também, do contrário seria hipocrisia.

— Tudo bem, então. Se é assim, desculpe-me por interpretá-lo de forma errada.

— Sem problemas.

Eu inspiro pela boca e desvio o olhar até a pista de dança. Aquele contato visual está me deixando totalmente tensa, e tensão é o que preciso evitar, pois ela é o que me faz perder a capacidade de concretizar habilidades cognitivas simples como a fala, e não preciso disso agora. A pior parte é que continuo perto dele, sem coragem de dar um simples passo para trás. Então apenas permaneço ali; seu olhar intenso e ininterrupto me causando incômodo na barriga.

Olho para ele outra vez e seu rosto, agora verde, muda outra vez, ficando vermelho, azul e amarelo. É divertido olhar para Sasuke quando a luz deixa seu rosto roxo, e logo em seguida cinza.

A luz fica rosa e ele tece um comentário cômico, seus olhos sorriem enquanto me observam: — É tanto rosa que me dói a vista.

Só consigo rir. Estávamos discutindo há pouco, e o clima muda tão bruscamente que mal posso acompanhar. Tudo está tranquilo agora, e aquele aspecto sereno continua em seus olhos, que estão centrados em meus lábios.

Maldito, por que precisa me olhar assim?

Eu me pergunto se ele sabe o quão atrativo é. Mesmo irritado, a maioria de suas feições têm uma borda suave. Sua mandíbula e queixo eram definidos, esculpidos, e ele tinha barba por fazer ao longo das bochechas. Seus olhos escuros eram delimitados por longos e grossos cílios, de forma que ele parecia quase inocente. Quase. Não havia nada de inocente agora em Sasuke, ou em qualquer outro momento. Ele tinha sua vivência e eu já sabia disso.

Eu estou com tanta vontade de beijá-lo que tomar a atitude me passa à cabeça, mas eu sei que me arrependeria depois. Talvez se ele resolvesse levar tudo aquilo como a atrocidade que é e dissesse “você está confundindo as coisas aqui”. Eu não sei se aguentaria.

O pensamento errante me faz perder o fôlego, e eu solto uma risada nervosa.

— E eu sei, sim, usar a fórmula de Bhaskara, mas você que é um — céus, o que ele era? Minha cabeça não está funcionando normalmente — economista, obviamente, sabe melhor do que eu.

— É. Sim... — o tom randômico em sua voz só provou o que eu já sabia: ele não está interessado em falar disso.

Eu sei que preciso parar de falar, mas não consigo por saber que vai ser pior se tudo ficar silencioso. “Silencioso”, afinal, este é o lugar mais barulhento de todos.

— Você também deve saber qual o índice da bolsa de valores de Londres hoje.

Obviamente, meus planos de criar um assunto a todo custo foram longe demais.

Ele ergue as sobrancelhas. — Isso é uma pergunta séria?

— Não sei.

— Você realmente está me perguntando sobre os índices da LSE* agora?

— Eu não sei!

Eu sou um completo fiasco!

Ele morde o lábio, pensativo. Jesus, eu não acredito que ele vai realmente responder isso. — Bem, na última vez que chequei o FTSE fechou em alta de 8,38 pontos, e isso é algo em torno de 0,12% de acréscimo, então, o valor atual das cotações está em seis mil novecentos e setenta e oito vírgula oitenta e sete. — ele estreita os olhos, ainda perdido em pensamentos. Depois me olha como se tivesse convicção dos dados anteriores — Eu respondi a sua pergunta?

— Como você sabe de tudo isso?

— É o meu trabalho saber. — o controle que estou tentando manter se rompe. Eu não aguento mais tudo isso.

— E as pessoas ficam felizes com algo tão irrisório quanto 0,12%? — minha voz é um sussurro rouco. Eu estou realmente perto agora, com meus olhos fixados aos dele.

Ele abre a boca. — Sim, ficam. — meu corpo cantarola com sua energia, sua cabeça estava um pouco acima da minha, mas seus olhos eram abatidos com um olhar penetrante. Eu estou totalmente consciente do quanto esta proximidade é inédita, o quanto eu quero avançar o sinal, mas não consigo, e estou pedindo aos céus que ele não conte com uma atitude minha agora como contou hoje, durante a manhã. Se ele fizesse isso, nada aconteceria entre nós dois.

Ao menos sua respiração está tão irregular quanto a minha, e eu posso ter um mínimo de certeza que ele quer isso tanto quanto eu. Meu sangue parece correr gelado sob minha pele, e continuo fazendo contato visual deliberadamente.

Estou à beira de um sério ataque cardíaco.

Ele empurra o cabelo para longe dos meus olhos e eu me surpreendo com o ato inesperadamente carinhoso. Então não consigo mais olhar para ele e prendo minha atenção aos botões de sua jaqueta, meus dedos alisam o tecido e estou prestes a gritar para fora a verdadeira baderna que meus interiores se tornaram.

Ele enfia a mão entre meus cabelos, tudo muito sutilmente, e meu rosto se ergue outra vez.

É agora. Estou tão agitada que eu deixo que o peso de meu corpo vá junto quando ele traz minha cabeça para junto da sua, e eu praticamente caio sobre ele, me apoiando a seu peito.

E, Deus, finalmente os lábios dele estão nos meus. Eu mal posso acreditar nisso, eu estou beijando o Sasuke agora e Karin simplesmente surtará ao saber. Quando ele chupa meu lábio inferior tudo fica branco, eu esqueço de tudo que, de repente, surgiu em minha cabeça e sinto vontade de acabar com toda aquela provocação e atacá-lo como se estivesse faminta há anos.

Meus sentidos fritam quando ele volta sua atenção para meu queixo e pescoço, eu fecho os olhos, sentindo o sangue ser drenado do meu rosto e apressar-se a outras partes do meu corpo. — Meu Deus... — gemo, inebriada por toda aquela situação. Ele está beijando o meu maxilar agora, estou com cada centímetro do meu corpo colado ao dele e minhas narinas captam o suave aroma de colônia masculina, algo refinado, além de sabonete.

Minhas pernas estão bambas.

— Vamos conversar melhor sobre o assunto da manhã... — ele sussurra, os lábios se movendo contra meu ouvido, e estou tão afetada por tudo isso que preciso fechar os olhos, ou ficarei maluca por toda aquela repentina excitação. — Podemos fazer como você quiser.

Francamente, depois disso, eu não daria a mínima se ele fosse o presidente do Japão. Eu ainda o beijaria de verdade mesmo se fosse.

E antes de enlouquecer, eu me desfaço daqueles pensamentos e o beijo de volta.

Notas finais
*London Stock Exchange a.k.a Bolsa de valores de Londres. Até a próxima, pessoal. Espero que tenham gostado.