Ekusas
16 Sasuke
Notas iniciais
Nunca tive problemas em verbalizar da melhor maneira possível os pensamentos que ocupavam minha cabeça. Mais do que isso, buscar o momento apropriado e usar as palavras certas. Por causa disso, boa parte das coisas que eu queria, aconteciam.
Mas eu não consigo fazer isso agora. A cada momento parece mais apropriado contá-la a verdade, mas ao mesmo tempo, sinto que ela não precisa saber. Ekusas pode sair de sua vida da mesma forma repentina com a qual entrou.
Também não sei o porquê de estar pensando sobre isso agora. Provavelmente porque ela está pairando sobre mim; nenhuma parte de seu corpo me toca, ela está sentada a menos de um metro de distância, e seus olhos estão sonolentos.
Parece egoísta pensar sobre Ekusas agora. Todos os conselhos que a dei, até agora, beneficiavam a mim antes de beneficiarem a ela, porque sempre tive como objetivo o que aconteceu hoje. Finalmente consegui o que queria, e não estou sendo cem por cento bom.
Eu posso ajudá-la também, e tenho os meios para fazer isso. Parece o certo agora, principalmente com a possibilidade alarmante de que não consiga uma promoção.
Eu vou ser o amigo que ela precisa, o amigo que dá um voto de confiança a suas qualidades – embora eu as tenha encontrado recentemente – e inspire a coragem que precisa.
Mesmo sem querer perceber, tudo que fiz como Ekusas foi empurrá-la para mim, e ela está comigo agora. O que preciso fazer em seguida é empurrá-la em direção aos seus sonhos.
— Eu nunca havia encostado em um cigarro na minha vida, mas todo mundo falava que fumar é sexy então eu arrisquei uma tentativa. Foi a pior merda que coloquei na boca!
— Entendi.
Ela solta uma gargalhada, quase um cacarejo. — Esse foi o meu namorado da faculdade, o que tinha um filho. Ele era fumante e eu fui pedir fogo a ele, sem nunca ter fumado, só para chegar perto do cara. Acabou funcionando, mas não do jeito que eu queria, entendeu?
— E que jeito você queria?
— Que ele me achasse sexy e ficasse comigo, mas eu tossi e ele ficou batendo nas minhas costas. Não consegui olhar para ele durante uns três dias, só depois voltei a tentar.
— E você envolveu alguma droga lícita nesta segunda tentativa?
— Não. Deus, não. Embora a segunda tentativa tenha sido pior que a primeira, a única droga no nosso relacionamento foi ele, o desgraçado. — ela observa o interior do próprio copo vazio, e levanta o dedo indicador, mas eu seguro sua mão — Eu quero outro.
— Você deveria parar. — eu sugiro. Em seu estado inteiramente sóbrio, Sakura gagueja e passa bons segundos pensando antes de responder. Desde o momento em que dois assentos foram desocupados nos sofás e nós os ocupamos, há pouco mais de vinte minutos, ela tem falado deliberadamente, sobre assuntos que não tocaria em outros momentos. Então isso me leva a crer que é o momento de dar um fim, ou pode ficar pior. — Sério, é melhor você parar.
Além de não gostar de pessoas bêbadas, eu sei que o melhor a fazer agora é preservá-la.
Eu também não quero saber detalhadamente como seus antigos namorados foram imbecis.
— Você tem toda razão. Esta vai ser a saideira.
— Não, sem saideira. Nós combinamos que a anterior seria a última.
— Última não é a mesma coisa que saideira.
Que argumento de merda. — Não quero nem ouvir.
Ela fica de joelhos sobre o estofado, e eu apoio o cotovelo ao encosto, esfregando meu próprio rosto sem conseguir acreditar que estou passando por esta situação. — Sakura, fique sentada. — não quero olhar para o lado, estou sentindo a movimentação ao meu lado, ela está puxando meu braço direito, exigindo atenção.
— Se você tivesse dito “Sakura, esta é a saideira” eu teria respondido ‘sim, senhor’, mas você não falou isso. Só disse: é a última. Não esperou uma resposta.— ela apoia o cotovelo em meu ombro, e seu corpo se inclina.
— Sem saideira.
Seus ombros caem, e ela torce o canto do lábio. — Tudo bem.
— Você não precisa beber para se divertir.
— Não estou fazendo nenhum dos dois.
— Então nós podemos ir embora.
E, novamente, eu teria que passar entre o que poderia ser facilmente classificado como um formigueiro humano. Esta é a parte mais desprezível, mas antes não parecia tão ruim, e eu não precisei puxar Sakura com tanta firmeza, então é pior agora.
— Ei, — não sinto seu aperto, e em seguida, Sakura some. Outra cortina de pessoas reaparece, e eu empurro alguém para o lado, dando alguns passos adiante em busca dela, que está agachada no chão — Sakura?
Eu me ajoelho à sua frente, com receio de que sejamos pisoteados. Ela sorri e começa a ajustar a fivela dos sapatos como se tivéssemos todo o tempo do mundo, o que, obviamente não é o caso. — Eu não terminei lá, desculpa.
Eu posso reproduzir em voz alta todas as perguntas lógicas para o motivo de, mesmo sem ter concluído seus afazeres estéticos, ela decidir que fingir estar pronta houvesse sido a alternativa mais viável e colocar a nós dois, agora, agachados no meio de uma multidão.
E o calor parece ainda mais insuportável aqui embaixo.
— Terminou? — eu cobro, tentando acompanhar o que está fazendo, mas ela mal consegue se equilibrar nas duas pernas, e eu desvio o olhar, sem conseguir decidir entre ajudar – e ser inútil, porque não sei mexer com fivelas de saltos – ou ficar parado.
Opto por ficar parado, e quando nos levantamos, ela é jogada contra mim por algum casal que dança desesperadamente demais para notar que outras pessoas podem se machucar.
Então eu dou tudo isso como encerrado e decido apenas seguir em linha reta, porque em algum momento este bloco imenso de corpos acabará, e eu vou poder ir embora.
Mas Sabaku no Gaara para na minha frente, e pela maneira como está me olhando, ele me reconhece. Merda. Sakura surtará, sem dúvidas.
— O que foi? — ela grita atrás de mim, e quando observa quem está diante de nós, aperta meu braço — Ai meu deus, puta que pariu, caralho... Sasuke! Meu Deus. É ele.
Eu me sinto como uma mãe galinha protegendo seus pintos.
Por sorte meu crachá está virado em direção ao peito. Mesmo assim, me pergunto se seria constrangedor fingir que não o reconheci ou mesmo fazer o papel de homem problemático bêbado disposto a arranjar briga por um mero toque ou sorriso incompreendido.
E ele está sorrindo. — Uau, vocês... vocês... eu pensei que... uau. — seus olhos brilham, e ele espia Sakura, que está se escondendo atrás de mim — Oi, Sakura. — por sorte ele não esperou por uma resposta — Eu pensei que vocês não fossem vir hoje, sequer fizeram uma inscrição, ou fizeram?
Eu fico calado, não sei o que falar. Tudo parece ruim.
— Não está me reconhecendo? — ele arrisca. Desgraçado. — Gaara, nos conhecemos hoje cedo. Sakura, não se lembra de mim? O que estão fazendo aqui?
Por sorte, só eu posso ouvir a torrente imensurável de palavrões saindo da boca dela agora. Um incrível lado positivo em som alto demais.
Agora ele está constrangido por estar falando sozinho, e se cala. Pressiona os lábios, trocando olhares com a mulher que, só agora percebi, está o acompanhando.
De todas as frases supostamente apropriadas que me ocorreram, e foram muitas delas, eu escolhi uma das piores. — Boa noite. — e assim, simples assim, eu puxo Sakura outra vez e nós dois saímos dali como se nada houvesse.
— Puta merda, o que foi isso?
Finalmente posso dar passos largos e andar rápido, nós saímos.
Quero desesperadamente o silêncio. Toda a situação me estressou e não quero explodir nada disso nela, embora uma boa parcela da culpa seja dela, que tão repentinamente como um parto quis comparecer a uma festa que não fomos convidados.
— Você fala bastante palavrão. — eu respondo, quase cinco minutos depois. Não quis criar conversa em todo aquele barulho, por isso esperei para responder no saguão do hotel. Eu não solto o braço dela, mas arranco o crachá do meu pescoço com a mão livre, e percebo por minha visão panorâmica que ela faz o mesmo.
— Simplesmente saem, não faço de propósito. Quando estou nervosa, simplesmente sai. E eu estou meio passada de álcool agora, então a tendência é piorar, sabe... nada contra você.
Um riso escapa por meu nariz, e eu amasso o papel em minhas mãos, jogando-o no meio fio quando chegamos ao lado de fora. É um alívio em particular.
Ela estreita os olhos, como se estivesse fazendo uma leitura em mim. — Por falar nisso, acho que nunca ouvi você falar um palavrão.
— Eu tenho um pouco de certeza que falei algo do gênero durante nosso voo até aqui.
— Tem razão. — ela ri, parecendo, por algum motivo, satisfeita por estar errada — Aliás, você fala palavrões o tempo todo. Tem uma palavra que você disse que começa com I, que a Karin e eu tiramos uma com a sua cara sempre por causa dela.
— Bom saber.
— Eu não... consigo lembrar agora, mas depois te falo. — ela está cambaleando sobre seus próprios pés, e os olhos estão vermelhos. — Mas eu gosto de ouvir palavras difíceis, continue falando elas. Eu, — ela aponta para o próprio peito — que estou constantemente escrevendo, hum, no trabalho, devia conhecer muitas dessas abominações. Eu vi uma na televisão, por exemplo, essa você vai gostar, o espertalhão provavelmente não sabe o que é escleromorfismo oligotrófico.
Eu deveria estar estressado, mas é simplesmente impossível. Porque ela está se equilibrando sozinha com dificuldade, e mesmo assim está me provocando na calçada. É engraçado.
— Não sei.
— Bom, eu também esqueci, mas é algo relacionado a nanismo em caules de plantas. Coisas tortas, acidez...
— Sim. — cruzo os braços, decidindo dar por encerrada a conversa ‘intelectual’. — Está pronta para ir?
— Sim.
Alguns minutos mais tarde, eu sinto como se tivesse a metade da minha idade. O fato de nossos apartamentos serem adjacentes me colocava em uma situação complicada. O apropriado seria levá-la até sua porta, e pela situação atípica em que se encontra, quem sabe, ter certeza de que dormirá imediatamente e não faça algo estúpido como pedir mais bebida no serviço de quarto.
Eu sei que ela provavelmente não fará isso, mas acho que estou apenas procurando motivos para passar algum tempo a mais junto, mesmo que esteja meio bêbada e eu não suporte tudo isso.
E talvez ela sequer me deixe entrar, mas eu preciso fazer o máximo, ter certeza de que está bem.
Nós estamos atravessando o corredor, eu a deixo andar na frente porque serei capaz de ajuda-la, caso caia. Já percebi que a situação com seus pés está ruim, e ela reclamou algumas vezes no carro sobre isso.
Somos as únicas pessoas naquele andar, e eu não sei porque estou observando estes detalhes como se tivessem importância. Durante o elevador, por exemplo, a luz da câmera de vigilância ficou vermelha durante dois minutos, e eu olhei para Sakura esperando por alguma coisa, e isso não parece certo, já que ela nunca me prometeu coisa alguma, e ignorou minha oferta sobre conversar sobre o assunto da manhã.
Quando nos separamos, ela olhou para o lado e disse “quero outro drinque”. Nada além disso. E apesar de ter ficado desapontado, não insisti.
Enfio minhas mãos nos bolsos e a assisto passar o cartão de forma errada por umas três vezes, e continuar insistindo nisso ao ponto de culpar a tranca.
Eu massageio minha testa. — A tarja está ao contrário. — Sakura me encara com irritação, como se eu houvesse interrompido um assunto muito sério. Em seguida, usa o lado correto e a tranca abre.
— Não gostaria de entrar para tomar uma xícara de café? — ela aponta para o interior de seu apartamento.
A pergunta que eu estava esperando. Mesmo assim, só o que faço é dar de ombros enquanto a assisto alternar o peso do corpo entre os pés para tirar os sapatos.
— Pode ser.
— Errado. Deveria ter sido “não seria muito incômodo?”
Ainda não sei porque ela insiste em me colocar nestes tipos de situações. — Desculpa. — arrisco.
Ela massageia a nuca e ri. — Não sei por que ainda insisto. Você precisa assistir mais televisão, sabia?
— Realmente, falha minha. Me desculpe.
Sakura deixa a porta aberta e sai, como se eu fosse uma ‘pessoa de casa’ e ela não desse importância, mas sei que está apenas “leve” demais para fazer disso um grande caso. Estar entrando em sua suíte não era garantia alguma, principalmente depois de fingir que não nos beijamos hoje e me contar banalidades sobre sua vida como se eu fosse um amigo de longa data.
— Não seja sarcástico. Eu não tenho o café e você não tem o buquê de flores, estamos quites.
Eu também não entendo porque ela ainda insiste.
— Não estou entendendo nada.
Eu não estou completamente confortável quando decido entrar, mas sigo adiante.
O ambiente insuportável no qual estive minutos antes serviu para me cansar. Eu estou cansado, e provavelmente dormirei como uma pessoa normal hoje. Eu podia ter usado esta desculpa, mas ela conhece o meu histórico conturbado com rotinas de sono, e não sei se acreditaria.
De qualquer forma, eu quero entrar e é o que estou fazendo.
— Você pode ligar a televisão enquanto eu tomo uma ducha. Depois eu volto aqui e faço sala para você até decidir ir embora. — eu a olho incrédulo de que está realmente falando tudo isso, mas ela simplesmente esfrega os olhos e joga os controles no sofá.
O fato de que eu sei que estaria falhando a formar sentenças completas e se comunicar comigo se estivesse sóbria só intensifica a minha certeza do quanto está bêbada agora, cuspindo que vai “fazer sala” para mim como se eu fosse um intruso.
Isso é quase engraçado.
Eu ainda estou tentando me manter concentrado a um documentário sobre mamíferos pré-históricos quando Sakura reaparece, talvez confortável demais. Está usando calças de ioga e uma blusa larga, os pés descalços e o rosto limpo, sem sinal da maquiagem de antes.
— Você não sentiu o cheiro de carne humana queimando daqui?
Não sei como responder isso.
— Me atrapalhei com a temperatura da água, nossa, me senti um caranguejo dentro da água quente. — ela se vira em minha direção e dobra a perna direita, apoiando o cotovelo ao joelho e enfiando os dedos entre os cabelos presos. — Que nerd, mais de duzentos canais de filmes, esportes, lutas e desenhos. Você está assistindo um canal ruim de ciência. — ela segura o controle remoto, e eu suspiro.
— Apenas coloquei na primeira coisa que vi pela frente.
Me fita sugestivamente, e sei que não acredita em uma só palavra, mas é a verdade.
Eu desmorono do paraíso artificial no qual me encontro, e percebo que não há um motivo claro para estar aqui. O mais sensato a fazer é ir embora, e eu decido que o momento de me despedir sem parecer brusco demais custaria alguns minutos a mais para chegar.
— Sasuke, hoje de manhã eu estava pedindo para você transar comigo... — ela fecha os olhos, seu cenho está marcado e ela hesita em continuar — E ainda quero.
E em nove meses, esta é a primeira vez que eu sinto meu próprio pulso acelerar. Eu a olho, sem conseguir parecer menos abismado, e percebo que algum traço de sua sanidade se recobra, fazendo-a ficar cabisbaixa. — Não foi isso que pediu? Para conversarmos sobre o assunto da manhã? Eu não queria fazer isso no salão.
Eu permaneço calado, não é como se aquela houvesse sido uma pergunta séria. Nós dois sabemos o que eu disse.
— Eu quero muito. Você beija tão bem... nossa diferença de idade é maior, se comparada aos caras que fiquei antes.
Ainda não dá para articular alguma coisa. É grosseiro não dizer algo, muito, mas está fora de cogitação.
— Na verdade, eu estou morrendo de medo, mas hoje a noite foi tão legal e diferente que eu quero fazer algo inovar de novo, tenho um amigo que ficará orgulhoso. Mas não vou conseguir viver comigo mesma sabendo que dormi com você no momento em que precisava tomar uma decisão que precisa ser imparcial.
— Eu sei dividir as coisas.
—É uma questão minha de paz de espírito, eu preciso que entenda isso. E não vou forçar você me ligar no dia seguinte ou ter um relacionamento comigo, de forma alguma, mas eu simplesmente não posso fazer isso com você agora. Mesmo se eu perder depois. Eu quero ganhar ou perder de consciência limpa, entendeu?
Com exceção do momento em que escolheu para trazer o assunto à tona, eu não me sinto surpreso por sua atitude, tampouco decepcionado. Eu não queria um envolvimento com limitações, portanto, esperar me parece a opção mais viável agora. Eu posso esperar.
— Não precisa falar sobre isso agora, se não quiser. Entendo a sua decisão, não vou forçar coisa alguma. Está tudo bem. — ela sorri, e deixa que a cabeça caia sobre o encosto do sofá.
— Até a forma que você fala é adorável. Você é quase um monge budista mesmo, eu estava certa.
— Provavelmente não. — contraponho, e ela ri, de olhos fechados. — Mas você não convive comigo, por isso pensa essas coisas.
— Estou convivendo com você há quase dois dias, estou falando o que vejo.
— Quase quarenta e oito horas de convivência, realmente, muito pesado, não sei como aguenta. — ela empurra meu braço — Eu funciono a mil por hora o tempo inteiro, sempre tem alguma coisa para fazer. Eu não sou tranquilo.
— A sua vida talvez não, mas você sim. Por que está negando isso? É um elogio. — seus olhos se abrem e ela me confronta com insistência. Eu suspiro — Eu também sou tranquila, mas o meu tipo de tranquilidade é o tipo retardado. Só posso ver o que está na minha frente, não dou uma foda para quem está do lado, não sou atenciosa. Você é centrado, tipo um homem biônico, parece ser o tipo de pessoa que leva marteladas na cabeça e não perde a calma.
— Bem exagerado.
— Eu sei, não quero o ofender, mas dá para entender o que quero dizer.
— Não estou falando disso, você se subestima o tempo inteiro. — minha afirmação parece atrair sua curiosidade, e ela me observa confusa — Sempre achando um defeito aqui e ali. A maioria das pessoas têm problemas em apontar as próprias falhas, mas você faz isso com uma naturalidade assustadora. Não é ruim, — eu quero ter certeza de que está prestando atenção no que estou prestes a enfatizar — até certo ponto, você extrapola qualquer limite e faz parecer que tem problemas de auto estima e aceitação. Eu não estou dizendo que ele é pior ou melhor do que você, mas as chances entre Shikamaru e você são as mesmas. Se ficar mentalizando que perderá, você vai perder.
— Ninguém vence só por pensar que vai vencer, da mesma forma que eu não vou perder porque estou falando que vou perder, eu só sei que perderei.
— Dê um voto de confiança a si mesma. Você é boa e suas chances são iguais às dele.
— Não sou boa, está mentindo.
— Certo, não é uma verdade completa, mas...
— Não precisa mentir para fazer caridade. — ela me interrompe altivamente, e quando procuro seus olhos, vejo apenas sua silhueta deixando o cômodo.
Mordo o lábio, de repente preparado para ouvir um “você devia ir embora”, mas ao contrário, ela retorna com dois copos de água minutos depois. — Só tenho água para oferecer, essa é a coisa chata em estar num hotel, você precisa ligar e pedir tudo, embora não seja muito diferente da minha casa no sentido de armários vazios.
— Eu te pago um salário, você não gasta esse dinheiro para comer?
Ela ri, mas me parece mais uma risada ofendida, já que se preocupou em torná-la sonora e ficou séria meio segundo depois. — Se tiver pão em casa, estou bem com isso. Só almoço em casa nos fins de semana, e mesmo assim, geralmente acordo depois das uma da tarde no sábado e domingo, ou seja, nos fins de semana minha primeira refeição acontece lá para as três horas da tarde, isso se eu conseguir sair da cama.
— Esse não é um estilo de vida muito saudável.
— Irônico vindo do homem que não dorme. — ela se senta, apoiando as costas ao descanso de braço do sofá e encolhendo as pernas. Acho incrível a forma como ela ocupa apenas um terço do sofá, se parece um pacote, pequeno, rosa e ligeiramente bêbado.
— Hum, eu como muito bem todos os dias.
— Eu durmo muito bem todos os dias.
— Eu disse a você que não gosto de dormir, isso não significa que eu não durmo.
Parece tão infantil dizer isso a alguém. Eu tomo um gole da água para tentar conter a frustração. — Foi uma hipérbole. — ela acrescenta. Eu não a olho, mas sinto a pressão constante de seu encarar e sei que está esperando que eu diga alguma coisa.
— No meu apartamento tem uma garrafa de vinho. — eu sugiro, e ela dá de ombros.
— No fundo, acho que você não quer que eu beba mais alguma coisa com álcool. — responde, e o tom em sua voz é preguiçoso. Sua cabeça inclina-se para trás, e ela massageia a própria nuca.
É diferente agora, estamos no hotel, não tem uma centena de pessoas ao nosso redor e eu posso simplesmente levantar e sair, caso me sinta incomodado. Na verdade, seria até conveniente se bebesse, estou imaginando algumas perguntas e se estivesse ainda mais bêbada, tenho certeza que responderia.
— É. Em uma escala de zero a dez, quanto acha que está bêbada?
Ela dá de ombros. — Seis.
— Já é mais do que a metade, não faria tanta diferença, deveria reconsiderar.
Ela dá uma risada tímida, puxando o lábio inferior entre os dentes. — Está se contradizendo.
— Eu sei. — a situação chega a ser agoniante. Eu admiro a casualidade com a qual pediu abertamente que eu esperasse o resultado da promoção para dormir comigo, aliás, sequer está totalmente claro para mim como chegamos a este patamar, mas eu não me oporia, de jeito nenhum, se é o que quer. Ao mesmo tempo, não temos a mesma casualidade para lidar com o outro, e isso é confuso, porque geralmente ela não consegue construir frases quando está comigo, demonstra nervosismo e me repele com mentiras, então não sei se espero que mantenha seu pedido nos próximos dias. Quase posso prever essa mulher se aproximar de mim e dizer “eu me equivoquei, desculpe, vamos fingir que nada aconteceu”. E ela não sairia ilesa do meu desgosto, neste caso.
Um lampejo de consciência me acomete e percebo que está lidando com a situação melhor do que eu, que passei bons anos da minha vida neste tipo de atividade. Não é preciso saber a história da vida de uma pessoa para fazer sexo com ela, e depois de imaginar uma boa dúzia de perguntas que eu a faria se demonstrasse abertura a respondê-las, eu me pego decididamente surpreso por o nível de informalidade que ela está inconscientemente dando a coisa.
Mas, em compensação, eu posso estar enganado. Ela nunca disse abertamente que não me responderia, e quem sabe, caso eu me abra a reciprocidade, ela ficará animada.
Posso tentar. — Não parece muito próxima dos seus pais... — eu jogo a semente, um comentário indefeso.
Ela exala, parecendo insatisfeita com a menção. — Não é bem a realidade.
— Eu acho que é. — suas sobrancelhas claras se unem, agora está contrariada e levemente chateada com minha teimosia.
— E por quê?
— Porque você não tem uma foto dos seus pais na sua mesa.
— E daí?
— Todos os seus colegas de trabalho têm. — eu minto, mas minha afirmação parece pegá-la de surpresa, e tenho certeza que jamais parou para observar este tipo de coisa por que de fato é insignificante.
— Ah, eu meio que deixei minha mãe estragar tudo. Ainda carrego mágoas juvenis comigo. Meu pai sempre foi meio omisso e deixava ela me falar o que quisesse, e eu baixava a cabeça e seguia suas vontades. Sempre foi assim, a única vez que eu disse “não” foi quando decidi morar sozinha. Ela queria que eu voltasse para casa depois da faculdade, e eu disse “porcaria nenhuma, mulher!”. — ela ri amargamente — Mas consegui, ao menos isso, minha independência.
— Que tipo de mágoas? — pergunto sumariamente, e ela me analisa.
Ela já mentiu para mim três vezes sobre o assunto “escrita”, e acho que estou prestes a presenciar a quarta. Seu silêncio me diz tudo, e eu a encorajo com um olhar.
— Eu queria, sabe, ser escritora. Desde os treze anos.
— Então você escreve. — eu mal posso acreditar que estou ouvindo a verdade. Ela anui, retesando os lábios. — Que tipo de coisas escreve, Sakura?
Eu sei muito bem, li cada uma delas.
— Escrevo... coisas.
— Esclarecedor.
— Apenas duas pessoas sabem disso, e uma delas eu conheço apenas virtualmente, então você deveria me agradecer por estar te falando tanto.
Eu entendo o que quer dizer, já é uma evolução e tanto e eu não deveria molestá-la ainda mais sobre isso, mas é difícil para mim segurar as rédeas quando já sei de tanto.
— Eu fiquei curioso sobre o que fez de tão bom em sua segunda tentativa para enlaçar de vez o cara que tinha um filho.
A pergunta parece aliviar o clima de tensão que se espalhou ao nosso redor, e ela ri consigo mesma. — Eu fiz um karaokê perfeito de Symphony of Destruction, num barzinho, com todo o vasto número de amigos que fiz na turma, no máximo quatro pessoas, contando comigo mesma e o cara que eu queria. Infelizmente me deixei levar e terminei sendo ovacionada, todo mundo achou que eu tinha drenado um ácido, se é que me entende, mas não era nada disso, só um copo de alguma coisa que Karin me ofereceu, nada mais.
Um copo de alguma coisa.
Eu quero rir da imagem que minha mente me proporcionou, mas sei que não posso fazer isso. Além disso, estou orgulhoso de mim mesmo por, finalmente, captar alguma das coisas que ela fala. — Megadeth, não é?
— Estou muito orgulhosa de você!
— Que tipo de música você acha que escuto? Não é uma pergunta retórica.
— Eu arriscaria que você escuta a nona sinfonia de Beethoven todas as tardes, acompanhado de seus companheiros economistas para beberem um chá de camomila enquanto discutem o futuro da nação.
— Estou pessoalmente ofendido.
Ela ri abertamente, parece estar se divertindo, e eu só consigo olhar. — Não há nada de errado com Beethoven ou com você supostamente ouvi-lo.
— Sim, com certeza.
Sakura ajeita a postura; suas pernas não mais estão encolhidas, e sinto como se uma barreira houvesse acabado de cair entre nós. Mais próxima de mim, ela se senta sobre suas panturrilhas e apoia o cotovelo ao estofado, me observando com um ar risonho.
É bom que esteja confortável. Mas ainda preciso me aprofundar mais.
— Por que marketing? Não faz o menor sentido, se gosta de escrever, talvez um curso relacionado a literatura fosse mais aceitável.
— Demorei a perceber que estava sendo sabatinada.
— Você me pegou. — eu assumo, com falso ar de derrota.
— Me fala de você, como era o seu noivado?
Quando a observo, seus olhos parecem ainda maiores. Ela me olha da mesma forma, como se eu estivesse a instruindo a desligar uma bomba. — Onde está a garota que me pediu desculpas centenas de vezes depois de perguntar sobre minha vida pessoal?
— Quero perguntar também, apenas isso. Não precisa responder se não quiser, não...
— Meu noivado era comum. — eu ignoro o olhar de incredulidade. — Viajávamos o tempo inteiro. Minha mãe gostava dela, o casamento estava sendo acertado para o fim deste mês. Apesar de sua aparência e a forma que age, ela era humilde e amorosa comigo; não sei quando decidiu colocar a carreira sobre todo o resto, provavelmente o empresário dela, ele não gostava de mim porque eu a privava de obedecê-lo, nós chegamos a discutir.
— Uau.
— E a Ino colocava a minha opinião em dianteira a dele, em certos momentos. Muitos momentos, e ele provavelmente se cansou disso. — eu pauso e a observo, ela parece viciosa, curiosa por mais — O reality em questão foi um dos que convidam “patricinhas” a passarem um mês no campo, estar comigo a limitaria de se ‘dar de corpo e alma’, como ele disse. Ela concordou e tentou conversar comigo, me convencer de que poderíamos nos encontrar às escondidas entre as gravações e foi simplesmente a pior ideia que ouvi na vida. Não consegui concordar, o contrato estava assinado, a rescisão sequer passou por sua cabeça porque ela já estava sendo anunciada em comerciais e eu rompi o noivado.
— É muito mais complexo do que pareceu ser todo este tempo. Eu o julguei tanto... — o tom de benevolência em sua voz é destacado pelo olhar amargurado em seus olhos — Todos pensam que é um canalha. Todos acham que você a traiu.
— O que não é difícil de acreditar, considerando os lugares que eu comparecia avidamente antes. Até meus pais acreditaram, — hoje em dia é engraçado, mas quando recordo que viajei quase cinco milhas para contá-los a verdade, não sinto vontade de superar nada disso — mas a realidade é que ela mentiu.
— Ainda a ama?
Essa nunca foi uma pergunta difícil de responder. — Não, dificilmente.
— Isso é difícil de acreditar. — ela contrai os lábios e eu a observo, irritado pelo que acabei de ouvir. — Eu quero dizer que parece ainda guardar rancor.
— E isso não me torna automaticamente ainda apaixonado por ela. As consequências que deixou para mim são irreversíveis, as pessoas tendem a acreditar mais nas mulheres quando dizem este tipo de coisa e eu tinha o meu passado contra mim, por isso não tentei provar o contrário.
— O mais indicado seria persegui-la até que limpasse sua imagem outra vez. Se fosse eu, provavelmente deitaria em posição fetal e choraria por horas.
— Ela não é uma pessoa ruim.
— Foi a última pessoa que esteve?
Eu não resisto a acreditar que esta é uma pergunta tendenciosa, e meu olhar a mede, mas Sakura parece neutra, apenas curiosa. Não gosto quando as coisas são sobre mim. — Sim. — minha resposta sucinta é proposital, eu sei que ela poderia passar o resto da noite falando de mim, mas esse não é meu objetivo.
Ela anui, superficialmente satisfeita. — Sexualmente?
Um riso sórdido escapa por meu nariz, e aquilo parece a atingir; ela se remexe sobre suas panturrilhas e desvia o olhar. Sei que estou prestes a ouvir um extenso pedido de desculpas, e então ela vai me repelir outra vez até que eu me canse e vá embora.
Novamente, esse não é meu objetivo.
— Não.
— Eu imaginei. — ela encolhe os ombros e seu tom é mais decepcionado que o normal — Desculpe pela pergunta...
— Quando a Ino foi até meu apartamento pedir aquele absurdo, esperando que eu aceitasse, bem, não reagi como queria. Fiquei cansado e com raiva, me senti humilhado. Nós brigamos feio e quando ela jurou que não voltaria atrás, que era “ou isso ou nada” eu não me importei se estava blefando ou não, rompi o noivado e fiquei frustrado o suficiente para sentir vontade de beber. Eu fui para o clube às nove da noite e saí no dia seguinte, umas seis horas da manhã, acabei ficando com uma pessoa lá.
— Eu acho que é normal, você ficou emocionalmente afetado. Está tudo bem. — ela sorri com compassividade e coloca a mão sobre a minha rapidamente.
— Não pensei direito. — eu tenho arrependimentos quanto a isso, eu fiz isso apenas vinte e duas horas depois do rompimento definitivo. Jamais nos falamos pessoalmente depois do término, ela me procurou por ligações inúmeras vezes entre as gravações, e eu não achei que seria apropriado contá-la por telefone até decidir que não tinha importância. Eu estava solteiro, amargurado e bêbado.
— Com certeza isso te afetou bastante. Foi o seu primeiro noivado e acabou de forma bem trágica. Sinto muito.
— Sabe, acho que com todo mundo é assim, talvez seja óbvio, mas a partir do momento em que você se torna noivo de alguém, por mais ímpio que seja a monogamia, todo aquele papo de juntos até a velhice e “o escolhido” surge de uma forma ou outra, e este foi o maior baque, ao menos para mim. O fim de um noivado me fez sentir como um merda, eu não quero nem pensar como um divorciado se sente...
Eu só percebo que estou, de fato, conversando sobre isso com alguém quando termino de falar. Naruto quis expandir esse assunto incontáveis vezes, até mesmo minha mãe, e eu nunca quis fazer isso. Falar.
Mas Sakura parecia simplesmente aberta, maravilhosamente casual, eu sei que ela não me julgaria por nada e por isso me sinto confortável. Não sei se isso é perigoso ainda.
— Eu fui passiva a rompimentos duas vezes e ativa em uma, também me senti uma porcaria em todas as vezes. Não quero nem pensar como o fim de um noivado deve ser... — ela remarca, em tom de brincadeira. — Viu só? Todo mundo tem seus leões para matar, proporcionalmente, claro.
Eu penso que ela jamais seria tão sociável assim sóbria, e a terrível tentação de embebedá-la sempre que quiser conversar em tom mais intimista me soa agradável. E eu reproduzo o pensamento em voz alta, atento a suas reações todo o tempo.
— Cuidado, se eu ficar a vontade com você vai se tornar meu amigo, e meus amigos odeiam ser meus amigos, talvez por isso eu só tenha uma.
— Então fique. — ela arqueia uma das sobrancelhas, o olhar duvidoso é preenchido por dedos que tamborilam a superfície de vidro do copo em suas mãos, e ela resmunga um “como assim?” — À vontade comigo. Fique. Este é o propósito, e se você cumprir o que prometeu, conversar comigo não será nada próximo do que faremos. — eu levanto os ombros rapidamente — Então simplesmente fique.
Agora, eu sinto como se minha honestidade pudesse me matar. A forma como o copo vacila em suas mãos é a grande prova disso.
— Sua naturalidade é quase chocante.
— Quase? Me pareceu bem chocada, quase fez uma vítima. — eu me aproximo e percebo que seu corpo endurece. É quase cômica a expressão em seu rosto quando percebe que tudo que quero fazer é tirar o copo vazio de suas mãos e colocá-lo sobre algo livre de perigos. O chão. Isso faz com que eu paire sobre ela por um curto momento, mas não retorno a posição inicial, eu diminuo deliberadamente a distância que havia entre nós dois antes e paro, permitindo que se acostume a situação — E você? O cara com filhos foi o último?
Ela sopra o “f” para fora durante alguns segundos até conseguir pronunciar. — Foi.
É a minha vez. — Sexualmente?
Ela limpa a garganta de forma incômoda. — Também.
— Você gostava dele? — ela anui — Em todos os sentidos?
— Não em todos. Não gostei de nenhum deles em todos os sentidos. — a história coincide com o que me contou na internet, então suponho que está passiva a falar sobre isso. — Pois é... e nem sou tão exigente assim.
— E o que você queria que houvesse sido diferente?
— Você vai ter que me dar aquela garrafa de vinho inteira se quiser que eu fale abertamente sobre isso com você. Estou falando bem sério.
— “Com você”, então não quer falar comigo?
— Não, por razões óbvias. — ela está mordiscando uma de suas unhas quando me observa de alto a baixo, e eu temo não ter compreendido seu ponto.
Mesmo assim, minto. — Entendi.
Eu penso sobre como ela contou todos os seus problemas a uma pessoa desconhecida da internet que conhecera apenas alguns dias antes. Embora eu acredite que, em certos casos, desconhecidos são mais confiáveis e receptivos, continuo achando esta situação desgraçadamente cômica.
— Você já teve algum bichinho de estimação?
As forças da aleatoriedade parecem abençoar Sakura hoje.
— Não.
— Estou pensando em comprar um coelho quando voltar, o que acha?
— Isso é sério?
O incrível é que parece realmente pensativa, e eu não tenho ideia de como devo me portar em um assunto sobre coelhos, não sei nem mesmo se quero falar de coelhos.
— Sim, eu estava pensando e nunca tive um coelho. Eles parecem ser fofinhos.
— Defecam bastante.
Ela me ignora. — Ele vai se chamar Bruce Banner.
— Qual o problema em dar nomes de animais a animais?
— Este é o nome civil do Hulk. O herói, sabe?
— E por que não chamar o coelho de Hulk? É curto, mais fácil de pronunciar e rápido. Se parece mais com o nome de um bicho.
— Porque eu gosto de nomes estranhos. Além disso, vou poder dizer por aí que vivo com John e Bruce, todos acharão que sou moderna por praticar poligamia.
Francamente, desisto de argumentar. Se ela realmente conseguir um coelho, prevejo outro álbum com fotos escuras dedicado exclusivamente à apreciação do bicho e partes cortadas do rosto de Sakura. Eu pediria o celular do Naruto emprestado para conferir isso, sem dúvidas.
— Tem certeza que seu gato não vai matar ele?
— Não sei ainda, ele é muito maluco, não tem uma só gata do bairro que já não tenha passado pelas garras dele, meus vizinhos me olham estranho, sinto vergonha, porque estou com ele desde que era um filhote e não o criei para ser um canalha. O gato transa mais do que eu!
— Não me leve a mal, não quero falar sobre a vida sexual do seu gato.
— Nem eu. É humilhante.
Eu não consigo entender como ela consegue rir deste assunto. Algo, aliás, pelo qual não tenho o menor interesse e espero que perceba, mas tudo que faz é rir. Rir com ar de lamentação, mas mesmo assim, seu sorriso se torna tóxico para mim.
Como já sei que precisarei esperar, não sei se posso continuar aqui conversando. — Acho melhor eu ir embora.
O sorriso em seu rosto se desvai aos poucos.
— Certo.
Ela se levanta primeiro e caminha até a porta, mas algo em sua atitude muda consideravelmente, e eu teria que ser cego para não perceber. — Já volto, eu... — ela coça a testa, e seus dedos percorrem o couro cabeludo em seguida, quando o faz, o cabelo antes preso desmorona — Vou buscar a chave. — ela dá um passo adiante e volta, parecendo contrariada — Eu disse alguma coisa ruim?
Aquilo me afeta, ela parece realmente incomodada com a possibilidade. — Não, claro que não. Por quê?
— Você pediu para ir embora do nada, eu achei que... sei lá, tinha sido isso. Com certeza deve ter algo para fazer agora.
— É apenas tarde. Tarde demais para eu estar aqui.
— Eu acho que não.
Ela parece prestes a explodir. Olha para mim como se fosse a chefe das forças armadas, decidindo qual atitude tomar, se lançar um ataque ou se recuar. Eu queria que ela simplesmente dissesse tudo, apesar de ter certeza de que não ouvirei o que quero hoje.
— Você quer que eu fique? — eu a encorajo.
— Sim, quero companhia.
Meus olhos ficam diminutos, e eu sinto o alto grau de apreensão com o qual está me olhando. — Certo.
Ela me olha com empolgação, e sorri. — Nós podemos pedir alguma coisa, se você quiser.
— Estou bem.
— Ok. — ela cruza os braços sobre o peito e me observa silenciosamente enquanto percebo que este é só o começo do que parece ser uma ou duas horas a mais de silêncio e conversas vazias. Não há bem um assunto. Ela percebe isso no mesmo momento, e ri sozinha, com seus próprios pensamentos. — Ok...
Provavelmente os assuntos que me interessam a deixariam entediada, então eu esfrego as mãos e cruzo os braços também. Nós iniciamos um tipo de brincadeira silenciosa, um levantando as sobrancelhas para o outro, e tenho certeza que ela está um pouco arrependida pelo pedido anterior.
— Hum, eu queria conversar com você sobre uma coisa.
— Porra, por favor! Vamos conversar. — seu alívio é nítido quando retorna ao estofado.
Aparentemente salvei a noite. Só que não sei de onde isso saiu, eu não faço ideia do que falar, provavelmente apenas o ímpeto de acabar com esta bolha incômoda de quietude e falta de assunto.
Sakura puxa o assento retrátil e se deita sobre ele, eu me acomodo ao seu lado direito, deitando a cabeça sobre o encosto.
Teria sido a solução, se eu soubesse o que falar.
Parece um momento bom para contar o que tem me afligido, apesar de permanecer um risco. Eu só posso torcer que entenda e seja sincera em seus sentimentos.
— Certo, pode falar.
Eu ganho algum tempo ao retirar minha própria jaqueta, e ela apenas assiste a tudo com ansiedade.
— Ahm, eu tenho certeza que tem domínio sobre o que nós estamos fazendo aqui. Apesar de a primeira opção ter sido Tenten Mitsashi, não importa o quanto menospreze suas próprias habilidades, se está aqui é porque tem aptidão, então, — eu paro para um suspiro — confio em você. Eu estava confiante de que exerceria um ótimo papel até precisarmos adiantar tudo, foi injusto, você foi lesada, isso é óbvio, eu lamento, mas precisei fechar o acordo antes.
— Então eu não tenho utilidade nenhuma aqui?
— Não, pelo contrário. Isso era muito importante para o meu pai, conseguir o terreno, iniciar as construções da concessionária. Antes de adiantarmos a palestra em duas semanas, você viria aqui conseguir o terreno para mim e apresentar o projeto ao Yahiko, com todas as delegações, prós, contras, relatório de diretores de construtoras e as outras coisas no seu material de estudo. Eu consegui o terreno, você fará todo o resto.
Sua expressão permanece neutra enquanto observa o teto, ela move um dos braços sobre a própria testa e o outro permanece sobre sua barriga, os dedos tamborilam sobre o tecido da camisa enquanto estou prestes a perder o juízo de curiosidade por uma reação. Só posso esperar ter soado sincero o suficiente, que acredite em mim, porque é verdade.
— E você não fez “todo o resto” por telefone, tem certeza?
— Sim. Não tira em nada o seu crédito, toda a cúpula de investidores dele estava convencida a me dar o terreno antes do adiantamento, eu não precisei sequer de esforço, consegui com uma ligação. O que fará na segunda-feira não pode ser feito por uma mera ligação.
— Menos um peso nos meus ombros. — ela dá de ombros — Eu compreendo, era importante para você e seu pai, eu também não correria o risco no seu lugar.
— Não é uma questão de correr riscos, Sakura, não quero que pense que...
— Sasuke, — ela coloca a mão direita sobre minha perna, e imediatamente olho em seus olhos — tudo bem, certo? Já entendi. Eu sei quem eu sou, sei a postura que tenho no trabalho, sei que nada pode dar errado. Como eu disse, agiria da mesma forma no seu lugar. Relaxa.
— Então não está brava?
— Francamente? Meio aliviada. Eu não conseguiria voltar ao trabalho com aquele pensamento degenerativo de “puxa, não consegui o terreno para o Sasuke, estraguei tudo”
— Sua falta de fé em si mesma é intrigante.
— É a realidade. Eu quero ser executiva de marketing para ganhar mais dinheiro, só isso.
— Porra! — eu grasno — Não posso fingir que não ouvi isso, eu sou seu chefe.
Ela me olha como se houvesse visto um bebê chamar a mãe pela primeira vez, e eu compreendo sem precisar perguntar o porquê do frenesi de risadas.
— Mas se tem algo que eu queria é ver o olhar de decepção no rosto daquele exibido. Shikamaru começou a me provocar recentemente e eu queria dar uma série de vinte joelhadas no saco dele.
— Não vai conseguir isso se continuar revelando estas coisas para mim.
— Então vou precisar ficar calada.
— Ótimo.
O tom da situação é extrovertido, mas ela cumpre a promessa e fica em silêncio, o que de fato é ótimo, porque estou com vontade de beijá-la outra vez desde que saímos do salão, mas não houve bem uma oportunidade para isso. O problema é: não sei o que pensaria sobre isso, e não quero que pense que estou a pressionando.
— O que está pensando?
No mínimo engraçado; sempre fui eu a fazer esta pergunta.
— Estou pensando em sexo.
— Porra, que direto. — ela limpa a garganta e puxa o quadril para trás, sentando-se. — Nossa
— Bem, eu tenho trinta anos, tem uma mulher do meu lado. Por que não pensaria?
Ela bufa, seu corpo desliza para baixo, afundando-se no assento. — Agora eu também estou pensando em sexo. No que está pensando exatamente?
Sobrepondo as imagens na minha cabeça, eu penso sobre o quão fodido é tudo isso. O que porra ela quer que eu diga? Melhor, por que eu respondi sinceramente?
— Por que você não começa?
— Estou lembrando de um gif de dois caras se pegando que vi no tumblr, e nossa, foi quente, apenas uau, sabe?
— Não.
— Sua vez.
— Eu não vou dizer nada.
— Por que não?
— Porque tem algumas coisas que não precisam ser ditas. — olho dentro de seus olhos, e um vinco se forma entre suas sobrancelhas. Minha resposta parece chateá-la, mas realmente não dou a mínima. Se fosse para ser sincero, ela ficaria envergonhada e consequentemente chata — Outras sim.
Seu orgulho parece falar mais alto, e ela não pergunta.
— Você é sacana. — outra afirmação totalmente aleatória.
— Me deixe beijar você de novo.
Eu fico surpreso com a velocidade que suas mãos alcançam meu rosto, e ela toma uma atitude pela primeira vez. Recordo do seis de dez e sei que é uma boa explicação, mas talvez ela tenha reprimido a mesma vontade que a minha durante todo este tempo, e só então houve uma boa abertura.
Nós dois inalamos uma respiração profunda ao mesmo tempo, e seus dedos adentram o meu cabelo à medida em que trás minha cabeça em direção a sua. Eu me surpreendo, porque com toda essa história de esperar, eu tinha planos de pegar leve, mas ela parecia séria, então eu seria também.
Quando nossas línguas se encontram, eu a empurro de volta contra o assento do sofá, deitando-a contra suas costas. Percebo que sua respiração entrecorta por lidar com meu peso durante um instante, mas rapidamente apoio-me sobre minha mão direita, com o joelho fincado ao couro branco entre suas pernas.
Suas unhas curtas percorrem meu braço, me abaixo para beijar seu pescoço e a reação vem de suas mãos, que apertam a pele em meus braços. Eu sinto a pele eriçada abaixo dos meus lábios e estou ainda mais convicto de que está gostando.
— Nada do que eu disse antes muda com isso.
— Eu não estava esperando que mudasse. Posso tirar a sua camisa?
— Acabei de falar que nada do que...
— Não vamos transar. Posso tirar sua camisa?
— Não estamos no escuro.
Tecnicamente tem razão, o apartamento não está totalmente iluminado, a luz fora ajustada de forma difusa, fraca, mas eu podia ver tudo perfeitamente e ela também.
Mas não insisto, se aquela é sua resposta, provavelmente tem dificuldades com nudez, e isso não me frustra o suficiente para parar. Em outros tempos, essa atitude teria feito tudo ir de cascata abaixo, mas eu me sinto tão necessitado que decido tirar o melhor da situação. Minha boca cobre seu queixo, descendo pela garganta até a clavícula – a parte exposta – e eu a beijo ali. Ela me dá todos os sinais audíveis e visíveis de que está gostando.
Penso em beijá-la outra vez, mas há outras partes que preciso dar atenção, eu sinto como se este fosse o meu oásis depois de muito tempo, e sequer sei dizer com certeza quando comecei a me sentir atraído por ela, mas estou.
Aproveitando que está de olhos fechados, eu desço outra vez, erguendo o tecido de sua camisa até o fim dos seios para deixar sua barriga livre para mim, e a acaricio com o polegar; seus lábios estão pressionados em uma linha dura e firme, e tenho certeza que está pensando sobre minha desonestidade.
Pairando sobre si, eu paro e a observo. Nunca achei que veria aquele olhar em seu rosto; o rosto que, por sinal, sempre foi minha primeira referência ao desleixo, parecia bem diferente agora. Seus olhos estão densos, nublados por uma luxúria muito nítida em suas pupilas ligeiramente dilatadas, ela está respirando pela boca também, e não desvia o contato visual para longe em nenhum momento.
— Que tal a calça? — eu ofereço.
Eu sinto que preciso pedir permissão o tempo inteiro, pelo simples fato de que não está totalmente sóbria e dar um fim a tudo isso depende apenas de seu querer. Ela podia me pedir para parar a qualquer momento e eu precisaria obedecer, e não quero que peça algo do gênero.
Ela inala uma profunda respiração, e pisca convulsivamente. — Desligue as luzes.
— Onde está o controle?
— No balcão da cozinha.
Não sei como me sinto sobre isso. Basicamente sua única condição é que eu não veja coisa alguma, e apesar de não estar inteiramente satisfeito, eu a abandono por um curto momento até estar com o aparelho em minhas mãos. E tudo fica escuro, como ela quis que estivesse. Meu corpo cobre o seu outra vez, posso ouvir suas respirações, os altos e baixos de seu desejo, ela está esperando por mim outra vez.
Mas a falta da visão completa está me incomodando, eu queria ver. Guardar aquela imagem e pensar em Sakura assim sempre que eu quisesse. Não tenho certeza absoluta que acontecerá outra vez, não confio nela neste aspecto, de agir com um comportamento mais autêntico e me procurar depois que minha decisão for tomada.
Se ela fizesse isso, se me procurasse e cumprisse nossos termos, eu jogaria no lixo tudo que julgo saber sobre Sakura, e abraçaria a posição de estar sempre indefeso, ser pego desprevenido.
Apenas a precária luz que vem das janelas atrás de nós está iluminando a sala. O brilho clareia o chão, mas nós estamos nas sombras, então eu continuo podendo ver pouco demais para minha própria satisfação, embora possa enxergar daqui os traços de sua silhueta.
Eu alcançaria sua cintura de forma certeira se tentasse tocá-la, apenas por meus instintos, e eu não erraria.
— Arruinei toda a diversão, não é? — o tom deprimido em sua voz me pega de surpresa, e percebo que não dei continuidade ao que estávamos fazendo antes.
— Para mim, um pouco. Para você, não.
Eu poderia jurar que a expressão em seu rosto agora é confusa.
Deito-me sobre seu corpo outra vez, e ela abre as pernas para me receber. A melhor parte de estar sobre o assento retrátil de um sofá é que, ou estou em cima dela, ou estou correndo riscos de cair no chão. É mais apertado do que uma comum de solteiro, apesar do sofá ser monstruoso, suas divisões não são. Veio à calhar.
Meus lábios capturam os seus outra vez, e sua boca lida com a minha de forma faminta. Tenho certeza que está tentando me compensar por causa das luzes, e neste mesmo segundo, eu paro de tentar conter as reações naturais do meu próprio corpo. A forma que eu me sinto quando seus dedos acariciam a pele sob minha camisa é inconcebível, e eu a beijo mais profundamente, cobrando dela que me beije da mesma forma.
Com a minha mão livre, eu acaricio sua bochecha levemente, antes de rumar ao sul, contornando as formas de seu corpo; sinto a maciez de seu busto sob a roupa em minha mão, eu mal consigo raciocinar sobre o que fazer em seguida quando sinto que não está usando coisa alguma sob a camisa.
Não consigo segurar, meus lábios se fecham ao redor do mamilo, e mesmo com a camada de tecido que impedia o contato direto, ela reage e seus quadris serpenteiam de encontro aos meus. Eu sinto, e sei que estou enrijecendo. Não há como não ficar, é algo que transcende a minha vontade.
Não consigo pedir permissão para isso.
Meu corpo retrocede e avanço nela outra vez, eu faço novamente e sua cabeça derrama-se sobre meu ombro, suas mãos ainda enroscadas ao meu cabelo. Eu não sei o que quer dizer, apesar de ter uma ideia, só tenho certeza quando ouço um sussurro. A simples palavra “continua” é quase celestial para mim, o que eu queria e precisava ouvir.
Agora estou ouvindo seus suspiros deliberadamente; continuo investindo em seu corpo e ela se move junto comigo. Provavelmente é tolo, tudo isso não levará a lugar algum, e eu não costumava fazer este tipo de coisa sem a garantia de que seria recompensado depois, mas não faz diferença agora. Minha mente está em branco, eu estou tinindo apenas com o pensamento de fazer tudo isso sem roupa.
Ela afasta a cabeça do meu ombro e a mergulha sobre assento do sofá, seus braços caem ao alento, mas suas pernas permanecem me envolvendo firmemente. A visão me afeta irracionalmente e demora até que eu perceba que seu pescoço fica exposto a mim, e eu beijo sua garganta, inalando seu cheiro e fazendo um caminho até seu lábio inferior. Ela me abraça outra vez.
Não consigo resistir à tentação de chupar aquele lábio entre os meus, e é a primeira vez que ouço um gemido, não tão claramente, ela parecia prestes a falar alguma coisa, e iniciou sua sentença da forma mais prazerosa possível aos meus ouvidos. — Deus, eu escrevi coisas assim e jamais as experimentei.
Provavelmente uma declaração em voz alta do que se passava em sua cabeça agora, e eu perco algum tempo para voltar a pensar e perceber o quão cômico é que as coisas que escreva sejam tão opostas ao tipo de pessoa que era, e principalmente, como era possível que se expressasse tão bem mesmo assim.
Decido não responder, ela está tão perdida em seu torpor pessoal que provavelmente não me ouviria, e eu quero apenas continuar dando a atenção que merecia. Beijo a pele sobre seu osso da clavícula e me arrasto até sua orelha com a mais pura devoção.
Eu já me senti excitado assim antes, mas estava nas vias de fato, e não completamente vestido. É, de certa forma, inédito para mim com a mesma intensidade que é para ela.
— Ah, meu deus. Fale alguma coisa. — ela pede em uma súplica.
— Hã? Como...?
— Diga alguma coisa, qualquer coisa. Eu sempre sonhei em ter um homem falando coisas no meu ouvido em momentos assim, e já tive, mas se resumiam a “já acabou?”, “vou gozar”, “Sakura, termine”. Vamos, realize o meu sonho.
— I-di-os-sin-cra-sia. — sussurro. A escolha de usar esta palavra nesta oportunidade foi a pior decisão que tomei em anos, de longe.
Eu sinto o seu peito se movendo sob o meu, está rindo. Uma mulher rindo em momentos assim é a pior coisa do mundo, mas estou colhendo as justas consequências do que fiz. — Ah, meu Deus, Sasuke... — surpreendentemente, ela geme a frase inteira e agarra minha nuca — Até falando isso... e eu nem sei o que isso significa... espetacular.
A solução para mim é esquecer que isso aconteceu, eu me concentro no cheiro suave de perfume e sabonete que vem do seu corpo. Minha mão se arrasta pela extensão de sua barriga, e eu trago o tecido junto a meus dedos, mas paro sobre os seus seios, eu aperto o esquerdo cuidadosamente, e um palavrão sussurrado sai de sua boca. — Não para com isso, por favor.
Mas preciso parar. Eventualmente.
Estou fazendo isso com consciência de que não vou poder ultrapassar os limites que estabeleceu, e não é conveniente para uma das partes, a qual eu temia que fosse a minha. A situação está ficando forte demais para mim, e eu sinto que preciso colocar um fim, por mais que não queira.
Eu cesso os movimentos e antes que possa lidar com a frustração em seu olhar, minha mão se encaminha até o cós elástico de suas calças, formando uma pequena e perigosa abertura. Apoio minha testa à sua, — Posso? — sussurro contra seus lábios, e ela responde positivamente sem pestanejar.
Continuo, fechando os olhos para que apenas meu tato possa me guiar, não que eu tivesse uma visão antes, é apenas uma implicância minha. Então finalmente eu a sinto em meus dedos, e minha respiração se desregula.
Preciso fazê-la chegar ao fim hoje, eu não pararia até conseguir, e tendo como este objetivo, eu movimento meus dedos. Com o passar dos segundos, eu absorvo suas reações para mim e permito me guiar por elas, isso quando Sakura não sussurrava algo aleatoriamente, suspiros, murmúrios. É tudo tão quente, úmido e maravilhoso que, em certo ponto, eu não posso conter um grunhido de frustração por não poder seguir adiante hoje.
Eu a dei o que nenhuma outra pessoa o conseguiu antes, ela estremece sob mim, eu me perco no som de um gemido melodioso, e quero ouvi-lo tantas outras vezes que é doloroso.
Eu quero tanto estar dentro dela que dói, e quando sinto suas respirações contra meu rosto, para que em seguida me beije outra vez, eu repenso tudo que sabia sobre dor antes. Sakura chupa a minha língua avidamente e eu não consigo mais continuar, mesmo sabendo que é uma forma de me agradecer, eu não posso ficar aqui ou provavelmente farei algo impensado, que possa me gerar arrependimentos depois.
Mesmo quando recuo, ela continua me provocando. Sua cabeça se ergue especialmente para beijar a linha do meu maxilar, mas eu decido por um fim, e simplesmente me afasto.
Em pé, eu inalo uma respiração profunda enquanto tento recordar onde deixei minha jaqueta. Minhas mãos percorrem os assentos um a um até que eu sinta o pequeno controle e regule as luzes para que se acendam.
Recolho minha jaqueta e a visto outra vez. A expressão no seu rosto corado é simplesmente pecaminosa, ela está me convidando a ficar sem dizer uma só palavra, e eu desvio a atenção a parede vazia a minha frente.
Eu a observo novamente e acompanho seu olhar. Ela está encarando um ponto decisivo em minhas calças, e eu tenho plena consciência do meu próprio estado.
Mas, novamente, não me sentiria confortável para pedi-la que fizesse qualquer coisa, por menor que fosse, a meu favor.
Faço meu caminho até a porta, e ajusto a gola da minha jaqueta. — Até amanhã, Sakura.
Ouço sua voz baixa através da porta, que fecho atrás de mim. — Até.
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