Notas iniciais
ThumyHyuga, PetiteBallerine e Scarlet Wolf muito obrigada pelas recomendações. Sintam-se homenageadas :) Boa leitura!

Está ao meu alcance ignorar as primeiras memórias que açoitaram minha mente no momento em que abri os olhos, mas não é possível. Não é possível para mim agir como se aquele houvesse sido o melhor sonho vívido do mundo, porque foi real.

Deus, foi real. Foi maravilhoso.

Provavelmente me tornei outra pessoa depois disso, eu me sinto assim agora. Como se a falta de sexo não fosse clara o suficiente até o momento em que Sasuke o tirou de mim tão bruscamente. Eu o queria aqui, agora. Queria que não houvesse sido tão amável e respeitoso, ora, quão absurdo isso pode parecer? Muito, mas é a minha realidade.

Por algum motivo, só percebo que estou rindo quando sinto minhas bochechas cansarem. Eu estou rindo como uma idiota agora, e não posso controlar. É só a mais inofensiva das coisas as quais eu não tenho domínio agora, porque se eu continuasse apertando minhas pernas uma contra a outra cedo ou tarde um portal para outra dimensão seria aberto por meio de fricção. E nem assim consigo fazer com que a agonia que sinto pare. Do contrário, está ficando pior, então eu paro.

Com muita sorte, hoje é domingo, e posso escolher passar este dia inteiro sem vê-lo, o que é algo bom, considerando que eu seria capaz de arrancar as calças dele com os meus dentes se o visse agora. Ele, se tivesse algum juízo de sobra, certamente não me procuraria hoje também. Sasuke é um ser cauteloso, ele é mais racional do que eu, então por favor, homem, não bata a minha porta hoje.

Não sei que horas são, tudo que sei é que tenho um compromisso importante amanhã e eu esqueci a maior parte do conteúdo, ou seja, não sei nada além da introdução, a leitura do mapa a qual passei horas falando sozinha, em casa, também não está clara em minha mente como antes. Geralmente milhares de coisas passam por minha cabeça a todo momento, mas desde que despertei, não há nada além de Sasuke.

Eu preciso espairecer, colocar tudo para fora, fazer alguma coisa no mínimo aproveitável, no entanto, não havia uma forma de fazer isso sem ligar para Karin, mas ela odeia ser acordada cedo aos domingos, eu não faço ideia do horário ou mesmo onde está o meu celular, e sem dúvidas, Suigetsu dormiu na casa dela, ou o inverso, mas ela não é louca o suficiente a ponto de deixar o meu gato sozinho.

Penso em meu amigo virtual como uma segunda opção. Eu rastejo para fora do sofá e me apoio à parede durante todo o corredor em direção a suíte. Seria muita sorte minha se conseguisse encontrá-lo online num domingo, no entanto, eu decido insistir. Meu corpo mergulha no colchão, e agradeço por ter fechado as cortinas ontem, ou provavelmente a luz de fora faria meus olhos arderem. Estou com vontade de dormir outra vez, mas junto alguma coragem para alcançar o notebook fechado, perto demais da beirada da cama.

Abro a tela, que se ilumina em exigência por uma senha. No momento estou pedindo aos céus que esteja online, que algum sexto ou sétimo sentido o avise de que estou precisando dele, que seu plano deu certo e eu acabei de acordar do que foi o melhor sarro da minha vida, que esteja lá para saber de tudo, ou quase tudo; mas ele não está.

Eu deveria ter arranjado mais formas de contato. Pedir o Facebook dele seria uma boa opção, mas foi a única pessoa a qual conheci na internet que não mencionou outras redes sociais nas quais nós dois poderíamos expor nossos rostos, do contrário, ele parecia muito bem com apenas o que temos no momento. Eu não. Em um momento como esses eu preciso dele, e vou requisitar outras formas de contato na próxima vez que conversarmos.

Agora estou roendo a unha do polegar enquanto penso se Karin gostaria de ser incomodada por mim, com as novidades ardentes que tenho. Aliás, é ideal contá-la sobre o que aconteceu?

Eu a conheço há eras, ela ficará com raiva de mim se não souber que nada aconteceu, vai me chamar de frouxa e adjetivos semelhantes.

Eu não deveria ligar, não deveria mesmo. Saber como vai reagir exatamente é a maior confirmação disso, o ideal é guardar os eventos só para mim, mas absolutamente: Não consigo. Não sou capaz. Preciso de uma opinião de fora. Se eu não conversar com alguém vou passar o resto do dia comendo minhas próprias unhas, e eu preciso me livrar disso para me concentrar aos estudos.

Já tenho uma desculpa boa o suficiente para ligar: paz de espírito. Eu corro pelo apartamento em busca do meu celular e não há anjo que possa me impedir de ligar e contar.

E aí Sakura! — estou ouvindo vozes por trás de sua voz, ela está em público. Que merda! Penso que o dia não está conspirando ao meu favor, mas há controvérsias, já que passava da meia-noite quando Sasuke estava aqui.

— Oi, onde você está?

Comendo hambúrguer de soja na casa da minha sogra e tentando não vomitar, e você? Já volto, é a Sakura... pode falar.

— Acabei de acordar.

Nós conversamos sobre dormir demais e não aproveitar nada há pouco tempo, você tem que obedecer ao que eu falo, entendeu? — ela estava falando de boca cheia, e por incrível que pareça, parecia realmente zangada com tudo isso. — Você está voltando amanhã mesmo, precisa fazer algo legal aí para ter o que me contar...

— Eu fui para uma festa ontem com o Sasuke. Durante a noite.

Silêncio.

— Karin?

Algumas risadas começaram, e eu me preparei para o pior. — Me diz uma coisa, quantas doses você tomou?

— Poucas demais, eu juro, realmente poucas.

Tratando-se de você, é o suficiente. — ela não fazia ideia do quanto estava certa. Aliás, fazia sim — E aí, deu a gatinha?

— O que?

Liberou a florzinha? Fez chover? Teve um final feliz?

Eu adoraria. Nossa, eu queria muito. — Não. Não, por um triz.

Você é muito estúpida, por que não? Vejo dois adultos independentes que não devem nada a ninguém, você deveria ter morrido de tanto sentar nele.

— Eu sei. Você está absolutamente certa... — eu estou me sentindo horrível por isso. Em outra ocasião jamais assumiria tal coisa, mas sim, ela tinha toda a razão. E não é que fosse ruim conversar tão vulgarmente com ela, fazíamos isso sempre, geralmente tratando-se do primo dela, não do nosso chefe. — Mas vou ter outra chance.

Quem diria, eu achei que passaria aqueles quatro dias pensando no quanto Shikamaru foi sortudo por ter Naruto como parceiro de viagem, e no entanto, não estou lamentando por isso agora, e não lamentei desde o momento em que o vi se exercitando, na sexta.

Eu acho que deixei Naruto para trás, mas é difícil chegar a esta conclusão a quilômetros de distância dele, sem vê-lo e admirá-lo todos os dias como antes. Provavelmente só saberei a resposta na terça-feira, e não estou ansiosa para tal.

Só posso ter duas respostas extremas para este dilema, e nenhuma das duas é determinantemente boa. Nenhuma das duas me permite estar bem sozinha, sem problemas – homens! – em meu caminho, satisfeita com a minha vida solitária.

Ou eu continuo interessada no Naruto, ou estou interessada no Sasuke.

Em outros termos, ou continuo de quatro pelo meu vice-presidente, ou estou começando a me interessar pelo meu chefe. Isso é, conotativamente, sair da frigideira e pular de cabeça no fogo.

Como assim, ter outra chance? Como assim?

Eu poderia abraçar minhas próprias pernas e chorar agora, a situação me permite que eu o faça abertamente e sem qualquer ressentimento.

Entretanto, com apenas um deles eu posso trepar com apenas uma ligação.

Se fosse uma escolha, Sasuke teria uma vantagem aterradora.

— Ele disse que se eu quisesse transar só tinha que procurá-lo.

E você, claro, que vai procurar ele, não vai?

Eu estou querendo sorrir e não sei o motivo. Uma onda de autoconfiança e convicção me arrematou, estou balançando a cabeça como um boneco de cabeça de mola, estou decidida e mal posso esperar para procurá-lo.

— Vou. Sim, eu vou procurar ele.

Eu gosto quando você fala assim cheia de si, com determinação, porra! Assim que voltar vamos comprar uma lingerie arrebatadora para você usar com ele. Mas o que aconteceu? Algo aconteceu, não é?

— Nossa, sim, sem dúvidas aconteceu... Mas nós podemos conversar sobre isso em uma outra hora, você está no churrasco vegetariano e...

Não, quero ouvir agora. Vou pedir licença para ir ao banheiro, calma.

Nós não nos falamos durante todo o dia. Ele não me procurou ou ligou para mim em momento algum, e não sei ainda como devo me sentir sobre isso. Talvez estivesse fazendo o movimento certo e me dando o espaço que ele acredita que eu precise, ou o espaço que ele precisa.

Nós tínhamos um programa agendado para o domingo, mas eu não me preparei para compromisso algum, principalmente porque acordei depois das duas da tarde e não faz o menor sentido sair agora, ao menos não na minha cabeça.

Eu estava comendo a minha sobremesa quando recebi um sutil torpedo. Foi o primeiro sinal de vida que ele deu desde o momento em que acordei.

Não vou poder ficar com você hoje, tenho alguns compromissos. Tire o dia para si própria, vá para algum lugar, faça alguma coisa na conta do hotel. Nos vemos amanhã. S.

Ele provavelmente é louco, foi o que pensei ao terminar de ler pela terceira vez este conjunto de letras que provava que ele acreditava, ao menos um pouco, que eu lembro de uma só palavra de todo o material que ele me deu com antecedência.

Eu não sei de nada. Não lembro de coisa alguma, exceto da legenda de algumas imagens e gráficos. Fora isso, o que realmente importava, a coisa bruta, tinha simplesmente desaparecido com o meu momento de desespero no voo. Eu odiei aviões ainda mais depois disso.

Com certeza comprarei ambos, um sonífero e um calmante, para tomar antes da volta. Na verdade, não sei como não pude pensar em tudo isso antes. Sem surtos, sem gritos, sem tremedeiras, sem arranhar o braço do meu chefe. Apenas eu, calada, dormindo, tranquila durante o prazo ridículo de uma hora e poucos minutos.

Eu quis fazer o que ele disse e aproveitar dos inúmeros serviços que o hotel oferece, mas não seria possível. Por este motivo, passei as horas seguintes com o rosto grudado as duas apostilas e não fiz nada além disso. Eu dignamente estudei por o que foram quase dez horas, sem perder o foco por comida, sem tentar jogar no notebook, sem olhar o meu Facebook. Eu simplesmente estudei, e fui dormir apenas no início da madrugada.

Agora, estou sentindo o aroma clínico do ar-condicionado. Minhas mãos estão meio trêmulas e tenho certeza que estou suando frio. Tenho certeza que já cumprimentei um número muito grande de pessoas estranhas, mãos estranhas, que vieram de lugares que mal posso imaginar, e sem dúvidas, se eu fosse uma maníaca por limpeza, estaria disposta a lamber os pés de quem me desse um pouco de álcool em gel, o que é um pensamento totalmente contraditório.

De qualquer maneira, uma mulher muito atraente acaba de parar diante de nós. Ela tem uma ótima aparência, os cabelos mais brilhantes e lisos que já vi na vida. Na verdade, ela é uma das mulheres mais bonitas que já tive a chance de ver pessoalmente. Ela abraça Sasuke, que está parado ao meu lado, e logo em seguida, me cumprimenta com um aperto de mão que se tornam dois beijinhos no rosto.

— Bom dia Anko, você continua esplêndida.

A forma como Sasuke a elogia me deixa surpresa. “Continua”, eles certamente já se conheciam.

Eu paro de pensar nisso quando me lembro da forma que se referiu a ela. Anko.

Um riso nervoso escapa da minha garganta.

— Eu posso tranquilamente dizer o mesmo. Estava ansiosa para encontrá-lo depois que completasse trinta anos, assim eu poderia paquerar você sem ficar com um peso na consciência. — ela ri através do copo de lanchonete, que imagino estar abastecido de café ou chá.

Enquanto isso, eu estou surtando em silêncio. Anko é um dos nomes mais comuns do país, está em todas as listas atuais, eu não devo me preocupar com isso, com certeza é uma infeliz coincidência.

No entanto, Sasuke também ri graciosamente com sua jogada de charme. — Não que não fizesse isso antes. — ele devolve, ainda com ar de riso — Quem não a conheça que a compre, senhora Mitarashi Anko.

Algo na minha barriga saltou. Eu não consegui inalar uma respiração normalmente, e senti que minha sobrancelha tremeu quando eu não consegui decidir uma expressão facial entre o sorriso de paisagem que mantive desde o início e uma feição de pânico.

Ele não teria dado tanta ênfase ao nome dela se não soubesse que eu provavelmente teria um início de AVC ao perceber que me passei por esta mulher ontem. Sasuke olha para mim, seus olhos ficam sérios, mas os lábios ainda estão repuxados, de modo que presumo que seja um aviso (?) ou que está, de alguma forma, zombando da minha confusão atual. Não há mesmo como saber o que está pensando agora, e isso é horrível.

Eu desvio a atenção até a mulher, que continua rindo como se ele houvesse dito algo realmente engraçado ao invés de insultar sua inocência. Ela levanta a mão esquerda e me mostra uma pedra maior que minha unha polegar em seu dedo anelar. — Não se assuste conosco, querida. Somos amigos de longa data.

— Uh, oh. — eu gostaria de agir como se a descoberta fosse fazer com que eu me sentisse melhor, no entanto, ainda é ela parada na minha frente sendo gentil sem saber que estive usando seu crachá ontem. — Ah, ok, legal. Como se conheceram?

— Meu marido tem ciúmes dele.

— Kakashi é fantástico. — é a única resposta dele.

— Sim, ele é. Aliás, eu o avisei que estaria aqui, ele me pediu que o mandasse lembranças.

Sasuke me observa de forma enigmática e levanta as sobrancelhas. — Com certeza, mas ele está bem?

— Ele está ótimo, porém nervoso.

— O que aconteceu?

— Bem, ontem à noite fomos ao salão do Swissôtel Nankai, sabe, o do centro? — Sasuke estreita os olhos, acenando positivamente. Ele parecia tranquilo como se a situação não o envolvesse em nada, simplesmente cruza os braços sobre o peito e aguarda a continuidade — Uma festa muito legal em parceria conosco aconteceu lá, e quando chegamos, não havia um crachá com o meu nome, e me inscrevi dias antes.

— Oh, isso é péssimo... — ele se “sensibiliza” — Você deveria processá-los.

Meus neurônios fritam, e eu o observo aflita, sem uma reação. Que tipo de brincadeira é esta? O que está fazendo comigo?

— Não, de forma alguma! O meu nome estava na lista, o crachá foi pego, o que me leva a crer que alguém quis muito entrar ontem, lugares com adolescentes viram um caos. É uma tática antiga, você sabe. Eles não pedem um documento, então é o mesmo que permitir que estranhos entrem. A culpa é deles, mas não é algo tão sério a este ponto.

— Entendo.

— Bom, eu preciso ir. Vamos começar. Você é a mocinha que assumirá o palco, não é? — ela me aponta uma unha pontuda e vermelha, e eu apenas faço que sim com a cabeça — Boa sorte! Tchau Junior, até outra hora.

Ainda me sinto nervosa quando a assisto se afastar de nós. — Junior? — eu me viro em sua direção, e ele enfia as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria.

— Ela me chama assim, por causa do meu pai.

— Como assim, por causa do seu pai?

— Bom, eu sou filho dele.

Não sei se entendi direito, mas ele demonstra ter superado nosso assunto quando olha ao nosso redor. Ele inala uma respiração profunda e me encara em seguida, enquanto ainda tento entender o que acabou de acontecer.

— Ela já processou pessoas por muito menos do que um crachá roubado, eu só estava tendo certeza de que alguém não ia exigir as fitas da segurança.

Tudo muito premeditado, como sempre. Nada de novo.

— E por que infernos você decidiu escolher justamente o crachá com o nome dela?

— Bem, eu também conheço Momochi Zabuza. Se algum dos dois chegasse e decidisse arranjar problemas por causa da falta do colar, eu teria como resolver tudo justamente por conhecê-los. Imagine o que aconteceria se fosse um desconhecido.

— Estou surpresa, preciso admitir.

— Tudo bem. — ele sorri — E então, nervosa?

Eu gemo com a lembrança. Por um momento esqueci o motivo de estarmos aqui. — Sim, bastante. — esfrego minhas mãos, soprando ar quente dentro delas. A sala é larga, mas está sendo resfriada artificialmente. O blazer de mangas compridas que estou usando não é o suficiente para me privar do frio, mas talvez seja o nervosismo, eu não sei dizer — Eu preferia me sentar e assistir você falar.

— Você provavelmente dormiria sem a Karin a seu lado para tagarelar.

Seu gracejo me faz sorrir, mas não chega sequer perto de conseguir me tranquilizar. Ele também tem razão, eu certamente cochilaria, por isso não tentei negar.

— Bem, só faça o que foi treinada para fazer. Vamos começar em seis minutos e ainda não sei onde posso conseguir algo mais pesado para você beber.

— Você é doido.

— Não, tomar uma dose vai ajudar. Acredite em mim.

Não vou negar uma dose grátis e, principalmente, se ele diz que vai ajudar, quem sou eu para contrariar?

Nós caminhamos outra vez em torno de uma extensa mesa de reuniões, e eu estou realmente tentando evitar os rostos. Olhar para aquelas pessoas só me deixará ainda mais nervosa, e eu posso esquecer tudo que ainda estava minimamente claro em minha cabeça com a velocidade de um estalar de dedos.

Mas a cabeça ruiva me chama atenção; ele afasta a cadeira e se levanta antes que Sasuke e eu possamos ultrapassar seu assento. Ele caminha ao nosso encontro abotoando os botões inferiores de seu terno e eu sinto como se pudesse chorar agora mesmo, porque sem sombra de dúvidas perguntará sobre ontem. Sasuke sabe disso, eu posso ver a expressão aborrecida em seu rosto à medida que rola os olhos com impaciência.

— Sakura! Estive ansioso para hoje. Como está?

— Bem. — eu cuspo rapidamente, sem alongar minha resposta.

O sorriso aberto em seus lábios é falso quando permanece me olhando, sua cabeça ainda está balançando como se eu estivesse fazendo um discurso, e então parece perceber que não tenho intenções de falar algo a mais. Ele se vira para Sasuke. — Olá, senhor Uchiha. Espero que tenham aproveitado a festa ontem.

Meu coração bombeia mais rapidamente quando ele fala isso, eu não consigo sequer mostrar um sorriso. — Perdão, que festa? — a voz de Sasuke irrompe através de meus pensamentos acelerados, e eu imediatamente olho para ele.

Seu cenho está enrugado enquanto permanece olhando Gaara nos olhos. Se eu não o conhecesse acharia que está sendo sincero. Há uma genuína confusão em sua expressão facial, e a maneira como se expressou me fez recapitular se realmente estivemos em uma festa ontem.

Sim, estivemos. Ele está mentindo.

— Hum, a festa...? No salão do Nankai, nos encontramos lá ontem.

— Desculpe, nada me vem em mente. — ele franze os lábios — Provavelmente está enganado.

Um longo momento de silêncio preenche o espaço que ocupávamos. Gaara me olha com ar de desespero, está pedindo que eu interfira, mas eu só falaria alguma coisa agora por cima do meu próprio cadáver. Se Sasuke acha que pode resolver a situação com mentiras e mais mentiras, o problema é dele. Eu vou simplesmente seguir a manada. — Sasuke, nós nos esbarramos ontem. Você provavelmente estava bêbado.

— Não, eu teria lembrado. Você provavelmente bebeu um pouco além da conta, mas tudo bem.

— Sakura... — ele esfrega a própria testa e nega insistentemente, como se estivesse em atrito consigo mesmo — Eu tenho certeza que nos esbarramos ontem, o que é estranho, já que não se inscreveram, mas se prefere fingir que sou maluco e estou vendo miragens, não tem problema...

— Eu tenho características físicas semelhantes a cem por cento dos homens neste país. Você claramente se confundiu, mas está tudo bem. Acontece.

O maldito poderia receber tranquilamente uma premiação por esta cena que está protagonizando. Eu jamais seria capaz.

Sabaku poderia facilmente ter insistido, mas diante de um argumento tão bom, dos dois um, ou ele realmente crê no que Sasuke disse, ou está se poupando de mais adversidades, já que Sasuke parece disposto a morrer pelo que falava.

Ele fica calado, aos poucos meu coração retorna ao ritmo normativo.

— Tem razão, me desculpe. Provavelmente foram as luzes...

— Sim, está desculpado. Então, poderia me informar onde posso encontrar álcool aqui?

— Hããã, não servimos álcool aqui em horário comercial.

Eu consigo segurar o palavrão que tanto quis praguejar. Tenho certeza que o polido Sasuke poderia xingar algo muito feio agora também, mas ele aceita a situação em silêncio.

— Mas temos café, água ou suco!

Gaara foi deixado para trás enquanto discursava o menu de bebidas. Sasuke me puxa com impaciência até uma área distante, e eu estou suando frio outra vez, pois a ideia de tomar uma dose para “esquentar” me soava agradável. Eu tive a certeza de que me ajudaria a ter um desenvolvimento melhor.

Agora estou com sérios problemas. Vou ter que me apresentar inteiramente sóbria, com as mãos tremendo, para uma audiência de, no mínimo, quinze pessoas. Quinze executivos acostumados a grandes discursos.

Estou amassando a pele do meu rosto com as duas mãos, e Sasuke ainda parece atordoado o suficiente pela reviravolta a ponto de deixar que eu surte em silêncio por alguns segundos.

Céus, eu poderia chorar agora mesmo. E eu duvido que ele tenha uma carta na manga para isso, sua genialidade precisa de limites.

Eu ainda tenho esperança que os limites fiquem para outra hora, mas parece que não vai acontecer.

O olhar amuado em seu rosto é basicamente minha sentença de morte.

— Você vai ter que fazer isso sóbria.

— Eu sei.

Sua mão grande e quente envolve o meu ombro, e eu sei que está tão decepcionado quanto eu. — Boa sorte. Você consegue. — seus dedos deslizam pela extensão do meu braço.

Antes do sábado, eu teria entendido aquele gesto como algo comum. Um toque simples, de compaixão, no entanto, eu não podia mais. Toda a objetividade do nosso relacionamento não existia mais, e eu senti, sim, uma tensão ainda maior.

Se a intenção dele foi me ajudar, eu posso admirar sua tentativa.

Quinze dias depois

Mesmo após duas semanas, minha vida permanece girando em torno de uma realidade que não é minha. O meu pequeno apartamento no subúrbio e seus estreitos cômodos são um contraste absurdo ao que experimentei naqueles quatro dias. As melhores noventa e seis horas da minha vida. Eu não precisava cozinhar, acordar cedo ou sentir a consciência pesar por dormir tarde. Foi pouco tempo, mas senti o choque ao chegar.

A minha apresentação foi uma surpresa positiva. Eu não estava inteiramente sóbria quando desabafei como me sinto sobre meu trabalho a Sasuke, mas ter a ciência de que ele sabia o pouco valor de tudo aquilo para mim fez com que eu me acomodasse por, no máximo, até o sol nascer no dia seguinte. Eu estudei durante todo o domingo, me apresentei na segunda-feira de manhã e logo depois tomamos um avião de volta. Eu consegui dormir durante o prazo de uma hora e quinze minutos, sendo assim, não tive nenhum tipo de surto e deixei que ficasse em paz.

Durante aquelas horas em que a única voz na sala era a minha, eu revi todo o sentido da minha vida na cabeça. O que estou fazendo aqui? Eu não vou conseguir, todo o meu esforço será em vão. Pensei nisso durante o momento em que mantive minha mente aberta, troquei algumas palavras, fiz pausas desnecessárias, fiz inúmeros pedidos de desculpas as pessoas que me assistiam em completo silêncio, e não tive a coragem de olhar para Sasuke em nenhum segundo. Meus olhos seguiam o caminho adiante, ignorando sua imagem, mesmo que fosse tão difícil.

Eu esqueci um parágrafo inteiro, e durante os duros seis segundos em que fiquei calada, tive que olhar para ele, ver a decepção refletida em seus olhos, o quanto eu estava ridícula assumindo uma posição tão importante, e no entanto, não houve coisa alguma. Ele permaneceu com a mesma expressão durante toda a reunião, me levando a crer que o carma realmente nos alcança nos momentos mais inesperados e, olhe só, é ele que está entediado com o meu discurso, para variar. Mas não, Sasuke esteve apenas concentrado. Ele não parecia consumido por pensamentos mais interessantes do que o ambiente ao seu redor, ele estava ali, de corpo e alma, ouvindo a cada palavra que saía da minha boca, e eu levei seu comportamento como um ato de gentileza.

Ele podia fazer uma careta a cada uma das inúmeras sílabas que eu troquei, mas novamente, mesquinharia era algo que não o cabia de forma alguma.

Nós também não tivemos tempo de conversar no avião, eu dormi, e não acho que ele teria falado algo realmente importante se este não fosse o caso.

Voltar ao trabalho também foi desconfortável. Eu não havia desaprendido a digitar em quatro dias, mas fiquei extremamente indisposta a fazê-lo. Nos primeiros dias, Karin sempre tinha uma nova pergunta a fazer sobre Sasuke. Respondi a tudo que podia imaginar na terça-feira de manhã e achei que estaria livre na quarta, mas ela sempre arranjava uma nova dúvida inconveniente

Qual era a cor da cueca dele?”
“Ele tem o pau grande?
” – eu precisei repetir pela centésima vez que não vi o pênis do Sasuke.
“Por que ele está agindo tão normalmente?”
“O conceito de casualidade nunca me tirou tanto do sério, provavelmente nunca o experimentei verdadeiramente. Não sei como você aguenta o silêncio dele”
“Vamos tentar a astrologia, qual é o signo dele?”
“Leão? Puta merda, que azar. Afaste-se dos caras de leão!”
“...vou perguntar o que o Sui tem a dizer sobre isso...”
“...podemos fingir que é outra pessoa, vou inventar um nome na hora, ele não vai saber que é você...”
“...me apoiei a uma geladeira e decidi bancar a maluca: qual é, meu filho, se não pedir agora, não vou deixar que me veja outra vez!”
“...ele foi embora...”
“...acho que lembra dele, o ruivo de cabelo espetado que tinha a casa cheia de animais de estimação...”
“...eu não conseguia meter em paz com o cachorro dele olhando para nós”
“...tranque o John do lado de fora”
“...áries e leão são compatíveis...”

Na quinta-feira, eu quis me livrar disso. Fui até a sala do Sai e expliquei a situação em partes, pois omiti mais de setenta por cento da verdade, e como ele é o melhor homem que conheço, não fez mais perguntas. Do contrário, me manteve ocupada durante horas com a barriga colada na máquina de xérox, e eu achei incrível.

Quando Naruto e Shikamaru viajaram, eu me senti triste por não vê-los nas quatro manhãs seguintes de trabalho. Ao contrário de nós, viajaram no início da semana, e eu tive uma severa recaída de inveja que me forçou a cozinhar uma torta de rosquinhas a altas horas da noite e tentar não chorar. Eu estava no estado espiritual perfeito para produzir um novo capítulo com requintes de depressão e nostalgia.

Eu não conseguia mais admirar o Francis como antes, de alguma forma, ele se tornou distante, ártico, como Naruto sempre foi, e eu fingi não ver. Não era algo novo, eu simplesmente não quis enxergar o que estava na minha frente todo este tempo, ele é insensível e grosso, mas realmente não posso permitir que uma percepção atrasada afete o personagem que mais gosto. De jeito nenhum.

Eu postei um novo capítulo em seguida, esperei a repercussão, especialmente a dele, que bancou o espertinho com clarividência em um comentário medíocre, mas ele não apareceu.

Ele sumiu por dias, e eu tenho beirado o desespero me questionando se aquele era o fim. Eu não estava preparada para isso, não quero perdê-lo ainda, principalmente porque não sei nada relevante sobre sua vida, como sabe da minha.

Eu me senti mal por isso, arrependida por ter compartilhado tanto sem receber com a mesma intensidade, eu deveria ter exigido mais dele, e quando me determinei a fazê-lo, ele sumiu da minha vida como se soubesse dos meus planos.

Agora, depois de quinze dias, eu estou sentada à mesa no trabalho, como sempre. São quatro horas da tarde e me sinto mentalmente exausta; hoje foram cerca de cem ligações a números cadastrados em nosso sistema. Uma pequena remessa de carros saiu da fábrica com problemas nos airbags, algo perigoso. Por sorte a falha foi identificada cedo, os outros modelos ameaçados não estão mais à venda, porém, pessoas o compraram mesmo assim, e hoje tiramos o dia para entrar em contato com todas elas.

Olho para a solitária guia no navegador, na qual o meu site está aberto. A página provavelmente expirou, pois a abri durante a manhã e esteve lá até agora. Não tem sido desta forma nos dias anteriores, mas hoje, o esperei o dia inteiro.

A pior parte é que a apreensão põe em jogo o meu humor, e não me sinto bem o suficiente para algo que costuma sempre ser uma diversão: responder comentários, teorizar com as pessoas que leem o que eu escrevo. Não sei o que está acontecendo, mas mais uma vez, eu visito seu perfil em busca de respostas, e ele está vazio.

Como se soubesse da agonia que estou passando, o telefone vibra em contato com o vidro da mesa, e eu atendo para ouvir a voz de Sasuke.

Você está livre?

Antes de responder, penso sobre como ele reagiria se eu respondesse “não”.

— Estou.

Venha até minha sala, por favor.

Jamais conseguirei lidar com estes tipos de chamados, não importa quantas sugestões de temas inofensivos me venha a mente, eu não consigo não estar nervosa.

No minuto seguinte, estou sentada diante dele. A sala minimalista cheira ao café fumegante sobre a mesa. Sasuke está finalizando uma ligação, e presumo que esteja preocupado com a situação dos carros. Eu entendo que, naturalmente, é um problema e tanto e ele deve ter mil pendências a tomar conta, mas eu só quero que me diga o que deseja e acalme minha curiosidade.

— Oi. — o rosto dele muda quando sorri. A expressão consternada que vi antes some e seus olhos se aquecem, de forma que eu me sinto angustiada por pensar que provavelmente não dormiu hoje. Ele expira audivelmente e se senta em sua cadeira acolchoada, ajustando a gravata lisa — Não tive muito tempo de conversar com você depois que voltamos, desculpe.

Eu inalo um suspiro profundo quando percebo que ele vai dar voltas no assunto.

— Não tem problema, Sasuke. Eu entendo o que aconteceu, isso é horrível.

— Sim, — ele diz em tom de lamentação, enquanto digita algo no teclado a sua diagonal — meu celular tem funcionado só para conversar com advogados. Fiz o recall obrigatório, coloquei anúncios em rádio e televisão, mas achei que não seria o bastante...

— Por isso nos mandou ligar para aqueles números hoje. Eu sei.

— É. — um divertimento amargo escapa em forma de uma expiração suave — Como você está?

— Ansiosa, impaciente. — eu emendo — Por favor, me diga o que estou fazendo aqui.

O barulho das teclas cessa e ele finalmente me olha nos olhos. Minhas pernas estão balançando incessantemente abaixo da mesa, que é de vidro, e ele pode ver.

— Ele venceu.

O clima de enterro na sala se intensifica. Eu só consigo olhar para outros pontos da parede e balançar a cabeça positivamente. Seria um absurdo fingir surpresa agora, e a decisão dele não me choca nem mesmo minimamente como achei que aconteceria, mas me sinto desapontada mesmo assim. O salário era incrível.

— Ele já sabe? — é tudo que consigo articular, embora eu duvide que saiba. Ele parecia tão focado nas ligações quanto eu ou qualquer outra pessoa no departamento. Se soubesse, tiraria um pouco de tempo para me lançar olhares.

— Não. Quis avisar a você primeiro, por motivos que nós dois conhecemos. Pelas mesmas razões, você pode ir embora depois que terminarmos aqui. Não quero que lide com uma a implosão do super-ego dele quando eu o contar. Me importo com você.

— Muito obrigada mesmo. — é uma das coisas mais gentis que outra pessoa já fez por mim, embora eu esteja pensando sobre como será legal largar mais cedo, posso passar na pizzaria antes de chegar a minha casa e comemorar a não-promoção. — Isso é muito doce da sua parte. Obrigada.

— É o mínimo que posso fazer. Sinto muito por... não poder pagar um salário maior a você. — ele está obviamente tentando dar um alívio cômico a situação. É uma prova de que tem um mínimo de sentimento por mim, afinal, está coberto de preocupações e ainda solta gracejos dos quais provavelmente não acha graça de verdade para tentar contornar as coisas.

Minha risada preenche a sala, é óbvio que ele se lembra da minha declaração suicida.

Só quero o dinheiro. E continua sendo verdade.

— Uma pena, eu queria extorquir você ainda mais.

— “Ainda mais”? Seu salário é ridículo.

Uma bomba de sinceridade inesperada. Eu rio outra vez, assegurando que saiba que completou, verdadeiramente, o seu objetivo de me divertir. — Concordo, você é pão-duro.

— Por que não tenta me pedir um aumento?

A percepção de que meu chefe acabou de sugerir que eu o peça um aumento me atinge violentamente. Que raio de homem é este?

— O único patrão do mundo que sugere a seus empregados que o peça um aumento. Você é incrível, Sasuke.

— Tente, se conseguir me convencer, eu vou melhorar a imagem do seu contracheque. — ele apoia os cotovelos à mesa e estrala os dedos. Um olhar desonesto preso a mim, e ele silencia, me deixando pensar que está realmente esperando.

Boa tentativa, Sasuke. — Não vou fazer isso.

— Por que não?

— Não tenho os meios de argumentar a você que sou uma funcionária merecedora de um aumento.

Touché.

— Isso é bem engraçado vindo de um cara que luta esgrima.

Ele retrai as sobrancelhas, esfregando o próprio punho fechado. — Eu nunca disse a você que lutava esgrima.

E eu morro ali mesmo.

— Disse sim. — a voz me falha de forma sufocante.

— Não, nunca disse.

— Sim, você falou sim.

— Não. Está tentando convencer a mim ou a si mesma?

Eu salto para fora da cadeira como se esta tivesse um veneno. Não sei como ficar em pé pode me ajudar além de denunciar definitivamente meu comportamento de uma pessoa miserável que está passando muita vergonha. — Hum, você falou, só não se lembra.

— Não, eu teria lembrado. — o sorriso se espalha por seus lábios, e ele fica maravilhoso desta forma. — Eu sempre me lembro de tudo.

Desisto de argumentar, o cara não está disposto a acreditar em mim. Nem eu estou disposta a acreditar em mim. Ele realmente não me contou coisa alguma, e vou precisar lidar com isso.

— Bem, de qualquer forma... — ele recolhe o lábio inferior entre os dentes e eu o admiro descaradamente — Pode ir. Até amanhã.

Eu vou ligar para ele. Eu definitivamente ligarei para ele.

— Espero que você realmente se lembre de tudo como afirma.

Certo, eu já disse isso, não tem como voltar atrás.

Cruzo os braços para enxugar minhas mãos no tecido da camisa, estão suando.

Sasuke aperta o olho direito e me observa em silêncio, claramente não tem ideia do que quis dizer. Eu sou um fiasco, ele esqueceu que se ofereceu para ser um genuíno disque-sexo há tão pouco tempo.

Considero esta a prova número #1493829 de que realmente um garoto de programa pode ser o que preciso.

— Eu não esqueci. — sua voz interrompe deu delírio interno e eu me viro em sua direção, tentando assimilar o que acabo de ouvir — Estive ansiando, na verdade. — ele gira a cadeira.

— Você disfarça muito bem.

Eu não gosto de perceber um tom de ressentimento em minha própria voz. O que eu queria que ele possivelmente fizesse? Colocasse um bilhete com algo semelhante a “mal posso esperar para te comer” sobre a minha mesa todos os dias?

Ele provavelmente está se perguntando a mesma coisa agora.

— Dei a você o espaço que achei que precisava. Vou continuar dando.

Sem sombra de dúvidas, ele é bom demais para mim. — Então me dê o seu número.


Eu só consegui parar de olhar para o mais recente número nos meus contatos quando me dediquei a responder alguns comentários.

Tentei manter a pose enquanto o observava digitar muito tranquilamente no meu celular. Tive orgulho de mim mesma por não surtar de nenhum outro modo nervoso e transparente a seus olhos, a minha cota diária de vergonha se expirou quando eu basicamente joguei na sua cara que procurei saber sobre ele e tinha ciência até mesmo de um de seus passatempos.

Posso culpar Karin por isso.

Estou sentada na minha cama, com uma caixa de pizza ao lado da minha perna esquerda e um notebook em meu colo. Comendo com a mão esquerda, digitando as respostas com a direita. Senti saudades disso, me comunicar com pessoas desconhecidas.

Incrivelmente, um dos seres humanos que podia suprir esta necessidade salta no canto inferior da tela, e enfio na boca o pedaço inteiro de pizza que ainda sobrava. Preciso das duas mãos livres agora.

“Oi.”

Não sei o que é isso, como pode estar falando comigo agora. Eu abro o chat e checo o que tenho certeza que fiz: deixar meu status off-line.

Óbvio que tenho que me fazer de difícil, ele sumiu por tempo demais para reaparecer tão sobrenaturalmente e agir como se houvéssemos nos falado pela última vez ontem. Além disso, estou off-line.

“Sei que está ai. Estou acompanhando suas respostas em tempo real. Me responde.”

“Filho da puta”

Eu odeio usar este termo, mas não pude me segurar.

“Como você está?”, ele ignora meu xingamento.

Não tão facilmente assim. “Por onde você andou?”

“Eu tenho uma vida. E como vai a sua?”

“Não. Não vamos falar sobre a minha vida hoje.” Eu dou um fim ao que parece um jogo de respostas com perguntas. Estou irritada, a intensidade com a qual digito no pobre teclado denuncia meu estado.

“Eu li o capítulo. Frank realmente deseja voltar a viajar como se nada houvesse acontecido? Ele não vai oferecer a ela que se junte a ele?”

“Não vou mais falar com você.”

Ele leva cerca de quinze minutos para responder, e isso me aborrece ainda mais. Sei que estou exigindo demais de uma simples amizade virtual, mas não vou parar agora.

“O que eu fiz de errado?”

“O que você faz da vida? Qual a sua profissão? Você trabalha, não é?”

Não vou conseguir voltar a responder comentários.

“Trabalho com propagandas.”

“Entendo, é um publicitário?”

“Algo assim.”

“Onde você mora?”

Não posso permitir que desacelere o ritmo da conversa, quero respostas rápidas. Se ele resolvesse sair agora, eu seria capaz de jogar o notebook na parede.

“Japão.”

Eu mordo a pele interna da minha bochecha, buscando me encher de tranquilidade.

Não sei o motivo de estar fazendo isso. Provavelmente acordei de forma tardia para o fato de que nosso relacionamento tem sido extremamente unilateral desde o início, e é uma injustiça que não posso mais carregar comigo.

“Em que cidade você mora?”

“Para variar, na capital.”

“Ótimo, eu também.”

Estou encarando a tela enquanto mordo a ponta do meu polegar. Este homem mora na mesma cidade que eu, é uma descoberta interessante. “Legal.”, ele responde. Não posso evitar me sentir constrangida pela a falta de um convite, insinuação ou piada que sugira um futuro encontro. “Posso perguntar como está se sentindo ou você tem mais alguma dúvida?”

“Eu tenho algumas, mas não consigo me lembrar de nenhuma agora.”

“Você consegue sentir o meu alívio daí?”

“Eu vou me lembrar ao decorrer da conversa, e vou o excluir da minha lista de amigos permanentemente se não me responder ou for embora.”

“COMO ESTÁ SE SENTINDO?”, as letras em caixa alta me soam cômicas, principalmente porque posso entender um provável estranhamento ao quiz que estou fazendo sem dar explicações do motivo. Na verdade, é um pouco injusto pressioná-lo a isso agora quando jamais demonstrei interesse antes.

“Normal. Perdi a promoção, mas não é nada que eu já não esperasse, embora eu esteja, sim, decepcionada e um pouco triste com isso. Estou afogando as mágoas em pizza.”

“Sinto muito por isso.”

“E você, como passou o dia?”

“O meu dia foi cheio. Estou cansado”

Não há bem uma forma de responder a isso, então eu simplesmente não o respondo por algum tempo. Paro para pensar sobre como posso dar prosseguimento, e é exatamente o momento em que me lembro de outra pergunta.

“Não tem curiosidade de ver o meu rosto?”

“Não.” ele responde, com uma suspeita rapidez.

Novamente, me sinto como lixo. Ele não quer ver como sou, não tem curiosidade. Minha autoestima sofre um dano considerável. “Por quê?”

“Francamente? Eu tenho medo que seja feia.”

Esta frase fica atravessada na minha garganta, mal posso ocultar meu próprio choque. “Não é uma coisa legal de se dizer.”, afirmo.

“Estou sendo mortalmente sincero agora. Eu tenho uma imagem de você na minha cabeça, e odiaria que a arruinasse. Acho que as coisas não seriam mais as mesmas.”

“Qual é a imagem que tem de mim?”

“Não me leve a mal, mas me baseando nas coisas que escreve, é meio imoral.”

“Eu já imagino você feio, não seria decepção alguma. Não tenho expectativas.”

“Isso é ainda menos legal de se dizer.”

“Não importa, eu quero o seu Skype.”

É torturante acompanhar o aviso de que está digitando, e esperar que termine.

“Eu não tenho um Skype.”

“É muito rápido e fácil de ser criado.” Eu realmente estou forçando a barra, mas não tenho intenções de parar. Tudo que eu quero é uma outra forma de contato, não me importa em nada seu rosto, mas foram ruins as vezes em que acreditei ter perdido contato com ele, e uma outra rede social em comum pode evitar isso. “Eu espero.”

Se ele soubesse que estes são os meus motivos reais, certamente não tentaria resistir.

Notas finais
Até a próxima!