Notas iniciais
suzy, maasky e ScarletWolf muito obrigada de verdade pelas recomendações. O capítulo foi postado por celular, então se virem algum erro, por favor me avisem. Boa leitura.

“E se eu não quiser?”

Obviamente não é a situação que imaginei horas antes, quando achei que seria adequado voltar e tentar conversar com ela. É o que sempre acontece quando tento ser bom, eu acabo mal. Muito mal.

Eu estava resoluto de que não voltaria mais, só que dei um cargo a seu adversário pessoal hoje e pensei que, talvez, ela precisasse conversar sobre isso com alguém. Expor as fragilidades, difamar a si mesma e, principalmente, saber o que ela tinha a dizer sobre mim, seu chefe.

No entanto, fui surpreendido com hostilidade. Quando li as respostas às leitoras sendo enviadas há segundos, usei de minha forte imaginação visual para pensar em Sakura, deitada sobre a própria cama, empanturrando-se de comida não-saudável enquanto joga dardos em uma fotografia minha, na parede.

Obviamente não passou de uma visão subestimada de sua personalidade.

“Eu já expliquei o que acontece se você não quiser colaborar. Adeus lista de amigos, e vou bloquear você também. Não vai poder ler as porcarias que escrevo se estiver BLOQUEADO.”

“E quem disse que eu me importo?”

“Ótimo, então adeus.”

“É uma brincadeira”

“Enfiou o senso de humor na bunda?”

“Não sei, provavelmente. Não estou de mau humor, estou comendo pizza. É inconcebível”

“Hum.”

Minimizo a janela do navegador, observando o processo do download. 82%.

Aparentemente, Sakura está errada, e coisas inconcebíveis estão se tornando concebíveis nesta noite. Por exemplo, estou tomando uma xícara de café para tentar me manter acordado. Não descobri sobre a falha na remessa dos carros hoje, ao contrário, estou ciente da denúncia desde o início da semana, e tenho permanecido em incessante alerta há bons quatro dias, tentando impedir a todo custo que alguém me processe por isso.

Claro que, uma hora ou outra aconteceria, mas apenas calmantes naturais conseguiram me fazer cochilar por, no máximo, quatro horas. Quatro horas quando eu tinha alguma sorte.

Estou realmente morto agora.

O download encerra, e eu rapidamente a procuro outra vez para que me oriente sobre como mexer nesta coisa. Eu participo constantemente de teleconferências, mas não sou eu que administro os computadores, eu só me sento na mesa, vejo minha própria cara na tela, junto com a de outras pessoas, e tento me manter em um ângulo pertinente. Portanto, não sei como usar este programa.

“Acabou. O que eu faço agora?”

“Bom, coloca o seu número de celular, país e cidade aí. Eles vão perguntar se você quer sincronizar os contatos, depois escolha uma foto, corte-a como quiser e pronto. Depois disso, me adicione em SakuraPIL, estou esperando. Vou sair do chat, nos falamos no Skype. Até.”

‘Nos falamos no Skype', outra forma impertinente de me forçar à ir adiante e fazer o que ela quer. No entanto, se acha que usarei uma foto, lamento desapontá-la.

Eu passo a opção de sincronizar contatos. Naruto usa todas as redes sociais que existem no planeta, se ele souber que tenho um Skype pessoal, não me deixará em paz, principalmente se descobrir os motivos de eu ter um.

SakuraPIL, o que infernos é isso?

Eu preencho os dados necessários e aguardo alguns segundos; algo provavelmente está conectando então aproveito para encher a minha xícara outra vez, mas a garrafa está vazia, e não estou com vontade de enchê-la. Então simplesmente retorno ao sofá, sentindo o peso de dois elefantes adultos em cada têmpora.

A envio o convite, e não demora mais que dois segundos, outra janela de chat sobe na tela.

“Até que enfim!”

“O que é SakuraPIL?

"PINK IS LIFE"

“Que horror”

“Eu gosto de rosa, é a cor do meu cabelo.”

Eu rio só por pensar na expressão em seu rosto enquanto lê minha resposta. “E quem foi o degenerado que deu um emprego a você com o cabelo assim?”

Insultar a mim mesmo nunca foi divertido, até agora.

“O menor dos problemas dele em relação a minha pessoa é o meu cabelo.”

“Ele não gosta de você?”

"Eu não diria nestes termos”

Ela está dando respostas vazias, e isso significa que não tem interesse em continuar neste assunto. Como minha permanência no anonimato depende de sua boa vontade em não ler Ekusas ao contrário, eu decidi usar um nickname diferente e menos arriscado.

E, no entanto, não tenho criatividade para este tipo de coisa, então simplesmente passei os dedos pelo teclado, e o que me apareceu foi mais do que perfeito.

“Você reclamou do SakuraPIL, mas o que hsghagajs0 quer dizer?”

Em certos momentos, independentemente do meu esforço ou quão forte seja o chute, não consigo ficar sério. Ela pode ser realmente ingênua às vezes, e isso é engraçado. A forma como está procurando sentido em algo que consegui esfregando os dedos em teclas por não mais de dois segundos é engraçada.

“Eu tenho um Skype agora, é o que você queria, não é?”

“Não precisa ser chato”

“Você foi chata comigo a noite toda. Só o que eu queria era uma conversa normal, como sempre foi, e agora estou usando isso.”

“O seu dedo não vai cair por usar a merda do Skype por algumas horas!”

“Hum”

“Não é isso aqui que as pessoas usam para se masturbar nas câmeras e chamar de sexo virtual?”

“Também tem pessoas que usam para conversar normalmente”

“Em qual dos grupos você está?”

Massagear as têmporas sempre me manteve desperto quando era necessário. Eu estou fazendo isso agora por uma mera conversa que perdeu o mérito no momento em que eu soube que ela lidou razoavelmente com o que eu fiz hoje. Razoavelmente demais, sequer parece triste pelo que aconteceu.

“O que jamais tiraria a roupa para um desconhecido”

“Eu nos classificaria tranquilamente como amigos. Sei muitas coisas sobre você”

“E eu não me sinto correspondida à altura. Isso é o que peço, me conte sobre você”

A pequena moldura branca em formato quadrado ao lado esquerdo ganha cor, e meus olhos a pegam rapidamente. Sakura está usando uma foto agora, e eu enxergo os mesmos padrões das que usa em seu Facebook: má iluminação, foco desajustado, e para minha surpresa, nesta não há um gato e eu posso ver o seu rosto completo, mas sua cabeça está inclinada para um dos lados e ela usa um batom forte. Ela estava genuinamente posando para uma foto, e estava adorável.

“Eu não vou colocar uma foto.”

“Por quê?”

“Você arruinou a imagem que eu tinha de você antes. Você não é imoral, você parece uma boneca. Eu não quero estragar a sua também.”

“E como uma foto pode definir minha moral?”

“A foto é o mais longe que irei com você, então sim. Define.”

“Se você estragasse a impressão que tenho da sua pessoa, seria um lucro. Eu já especifiquei precisamente como o imagino.”

“Sim, feio. Por isso não quero decepcioná-la. Eu sou bonito.”

“Hahahahahahahha”

“Eu adoro você, não sei o porquê, mas adoro sabia?”

“Então vai conseguir superar a foto preta hoje”

“Não conte com minha paciência por muito tempo”

Eu não dormi hoje. Nem por um segundo.

Achei que a garrafa de água estar vazia me pouparia de cafeína, e consequentemente, fazer com que eu sinta vontade de dormir, mas não consegui.

Estive falando com Sakura até pouco depois da meia noite, quando ela precisou sair, alegando que sairia para o trabalho cedo no dia seguinte, e o problema é que eu também.

Passo a minha madrugada revendo as cláusulas do contrato enviado por meu pai alguns dias antes. Como sempre fui atencioso aos trâmites comerciais, ele pediu que eu analisasse cláusula por cláusula e marcasse, em uma xérox, as aberturas que permitiriam a ele sair de um contrato assinado de forma irresponsável por um de meus tios. Logicamente, um grupo de advogados deveria estar fazendo isso, ao invés de um mero conhecedor empírico como eu, mas agora, eu estava grato por receber esta responsabilidade.

E quando o sol amanheceu, eu estava um completo zumbi. Eu não consegui esperar até as nove horas, portanto, cheguei mais cedo ao escritório naquele dia, e me tranquei na sala, para experimentar as piores sensações de tontura possíveis.

Shizune, muito bem informada sobre meus problemas, percebeu na minha aparência que aquele estava sendo um dia de martírio para mim, tal qual sequer tive vontade de lidar com Naruto. Ela achou que tinha o direito de me dar conselhos mais severos, e ouvi durante poucos minutos que eu deveria me automedicar com calmantes e, portanto, dormir.

Talvez eu faça isso.

Mas se este dia serviu de algo, certamente me trouxe aprendizado. Um deles foi a percepção de que estou vivendo o pior dia que tive no último mês e, consequentemente, não consegui realizar nada de produtivo durante todo o dia, e sabendo disso, me poupei tão intensamente ao ponto de passar tempo jogando paciência no computador, afrouxar a gravata, afundar na cadeira e ver como estava o clima em Ouagadougou. A outra lição, que possibilitou tudo isso, é a de que um pedido para não ser interrompido, assim como o serviço de mensagens com a minha assistente pode durar um dia inteiro, e eu jamais usufruí disso antes.

Infelizmente eu não teria a força de vontade necessária para dirigir quinze quilômetros em direção a um dojo para treinar esgrima, e mesmo que tivesse não seria possível, já que tenho planos de marcar uma consulta amanhã, no sábado à tarde.

Enquanto dirijo de volta para casa, penso em como Ino reagiria se soubesse que estou finalmente indo em busca de ajuda profissional para lidar com minha insônia. Ela provavelmente ficaria feliz por mim, mas só depois de proferir um acetoso “Eu avisei”. E de fato avisou, por quase dois anos.

Eu gostaria de ter notícias dela.

Desperto completamente perdido por causa da vibração que produz um ruído estressante contra a mesa de cabeceira. Consigo mover meu braço suficientemente para enxergar o visor do celular, e não é o número de nenhum parente ou amigo de minha lista, por isso, resolvo ignorar a chamada.

Ainda pode ser uma emergência, mas estou atordoado por ser interrompido na única chance recente que tive de dormir continuadamente, como uma pessoa normal.

Se eu não atender, quem quer que seja provavelmente desistirá, foi o que pensei antes de ouvir esta vibração por quase três minutos sem perder a sanidade.

Estou aborrecido o suficiente para não falar no momento em que atendo, eu espero. Quem interrompeu o meu sono e me ligou às duas e vinte de manhã, precisará falar primeiro. — Sasuke?

Não acredito.

— Sakura? — Tudo que eu estava sentindo, sono, irritação, frio, tudo se desintegrou na minha frente, abrindo espaço para um forte sentimento de confusão. Sakura está me ligando durante a madrugada, certamente algo grave aconteceu. — Sakura? O que houve?

Minha voz está rouca e falhando; uma curta tosse faz com que volte ao normal.

Nada. — Um longo momento de silêncio ininterrupto se inicia, e tudo que posso ouvir é uma respiração nada rítmica do outro lado. Se ela me dissesse que há alguém segurando uma arma em sua cabeça eu acreditaria. — Desculpe por ligar agora, eu... Você provavelmente está fazendo algo importante.

— Não.

Então... — A voz morre, e nos próximos segundos ouço ruídos estranhos, como se estivesse se mexendo — Você pode vir aqui em casa?

Puta merda.

— Como é?

Quando ela volta a falar, sua voz soa em um tom mais firme. — Eu quero ver você agora.

Caralho.

Há um silêncio sepulcral do outro lado. Um suspiro ameno soa no outro lado da linha, — Posso começar a esperar?

— De onde veio tudo isso?

Posso sentir a incredulidade em minha própria voz, eu não conseguiria disfarçar caso tentasse. Eu expulso o lençol que cobre meu abdômen e sento-me sobre o leito da cama. Preciso despertar inteiramente e raciocinar como se jamais houvesse dormido, ou não demoraria até que eu desse respostas ruins à Sakura. E isso não pode acontecer, principalmente quando tenho uma forte impressão de que está jogando comigo.

Como? Além de me ligar depois das duas da manhã pedindo em tom sugestivo que eu vá a sua casa, não sei.

Eu não pedi o seu número para deixá-lo de enfeite. Eu... — Ela se cala outra vez, e aguardo por pouco tempo uma resposta. — Disse que ligaria, estou fazendo isso.

— Por quê?

Você soa inocente perguntando isso.

— Como eu deveria soar?

Interessado.

Que sandice — Às duas horas da manhã?

Acho que especialmente às duas horas da manhã.

— Bem, vamos concordar em discordar.

Posso começar a esperar ou não?

Eu inalo um suspiro, esfregando o rosto. Há dois lados na minha cabeça em constante discrepância, e eu não consigo me convencer de algum deles. Eu não sei se quero ir, mas sei que caso eu decida ficar, estarei arrependido amanhã.

E ela ligou para mim. Eu estou querendo isso há semanas.

— Não sei

Eu tenho dois terços de uma pizza aqui e vinho de posto, — tudo que consigo pensar é ‘foda-se', mas o seu tom de voz dá um toque atrativo até a um vinho fajuto. — eu juro que ele é bom. E nós podemos, sabe... Assistir um filme.

Assistir um filme.

Minha postura esmaece, eu fecho os olhos e ouço um — E então? — do outro lado da linha. Receber um convite para assistir um filme às duas horas da manhã poderia tranquilamente me brochar muito além do mental, como no físico, se eu houvesse me empolgado.

Mas chego a conclusão de que não estou pensando direito quando percebo que estou com vontade de ir. E ao mesmo tempo, meu orgulho grita e esperneia sobre como ela provavelmente terá a certeza de que estou a sua mercê caso eu decida ir. Sair de casa na madrugada depois de um chamado repentino é uma prova e tanto.

Também não sei porque estou me obrigando a meditar sobre os pontos positivos dela, mas é estúpido julgar que sua essência é tão pura ao ponto de, nem mesmo agora, achar que esta ligação é um teste de “ poder”, – embora obviamente seja – do contrário, estou enganando a mim mesmo, querendo acreditar que é algo natural.

Não é natural, ela está brincando comigo. Esta ligação, este convite, a forma indireta como está tratando nossa situação é basicamente a amarração de cordas de barbante nos meus braços e dedos. Um fantoche. Porque ficou remotamente claro que deveria me ligar quando quisesse sexo. Sexo. Simplesmente.

E ela está me convidando para assistir filmes.

— Tudo bem. Eu estou indo.

A diferença entre o meu bairro e o de Sakura tornou-se ainda mais exponencial quando, ao contrário do meu, o dela parecia dormir.

A área em que moro jamais para, e de certa forma sou grato por isso. Estou acordado por muitas madrugadas adentro, e me conforta poder caminhar até a janela e observar o tráfego de carros, reduzido em comparação ao dia, mas ainda conseguiam produzir o barulho urbano do qual gosto.

Sobretudo são, como eu, outras pessoas acordadas.

Eu jamais conseguiria viver em um lugar como este, que fica completamente escuro às três horas da manhã que, mesmo extremamente movimentado durante o dia, não havia uma única alma viva no local durante a madrugada. Que, ao invés do barulho longínquo de carros e civilização, soa como uma orquestra de gatos, grilos e vento.

Retorno o número que me fez a última ligação, e quando ela atende, sua voz soa distante. — Oi, você já está aqui?

Eu limpo a garganta, puxando a chave da ignição, e o painel luminoso escurece. — Sim. Eu não lembro direito onde você mora, pode sair na calçada?

Humhmm, é que... Ok, certo. Estou indo. Um minuto.

O clima está atipicamente frio para uma noite de primavera, eu a aguardo com os braços cruzados, o quadril apoiado ao carro e o pé esquerdo movimentando-se de forma impertinente, tentando me impedir de sentir sono.

Que ironia.

Uma luz acende através das grades do pequeno portão, ao lado da larga porta de enrolar do restaurante.

Consigo sentir seus passos na escada, e a cada novo degrau me pergunto o que me espera. Primeiro vejo os pés dela, depois as pernas – cobertas por o que parecia ser uma saia gigantesca – e em seguida, percebo que é apenas um robe. Ela está dando um laço na fita como se houvesse o vestido há pouco, e tenho a impressão de que sua boca está sangrando.

Na verdade é apenas um batom.

Ela sorri enquanto procura a chave, e eu caminho adiante, observando-a através das grades entre nós. Ela dirige a mim um sorriso tímido, e enquanto procura a chave, eu rapidamente percebo que suas unhas também estão pintadas de preto.

Eu teria escolhido ignorar toda a produção estética se não desconfiasse do verdadeiro teor da ligação.

— Você demorou — ela comenta distraidamente, enquanto enfia as chaves na fechadura uma a uma.

— Sim, moro longe. E a ligação foi meio... — ‘meio' é bom demais. Quando silencio, seus olhos verdes me fitam, estão envoltos por o que presumo ser um traço de delineador.

Eu estou tentando não rir, porque realmente fui óbvio quando observei a maquiagem que fizera. Eu não quero que ela pense que estou zombando disso, quando na realidade é o contrário, mas não consigo me conter mesmo assim.

Estou sorrindo maliciosamente agora, pois é exatamente como me sinto. E ela retribui.

— A ligação foi totalmente uma surpresa — corrijo, me obrigando a ficar sério.

— Eu pensei que não viria — ela abre o portão, recuando em seguida para me dar espaço. Eu entro, ela sobe um degrau atrás de si, e nossas alturas ficam parcialmente equiparadas.

— Eu disse que ia vir. — tomo a atitude de fechar o portão eu mesmo, para que não precise se inclinar ou descer outra vez desnecessariamente, e a devolvi a chave em seguida. — Você deveria marcar a chave com alguma coisa, uma caneta hidrocor, sabe, para diferenciar das outras.

— Excelente sugestão. Aposto que suas chaves são assim também.

— Não — eu tiro as chaves do bolso e ergo-as entre nós rapidamente, devolvendo-a a meu casaco. — Eu uso aqui, junto com a do carro, a do meu apartamento e da casa dos meus pais.

— E há outras?

— Sim.

— Quais? — ela se vira e começa a subir os degraus outra vez.

Ela provavelmente está apreensiva, o que a leva a humilhante tarefa de criar um assunto a todo custo, não importa o quão ruim seja, ou algo pior do que ruim, como por exemplo chaves e chaveiros.

Estou olhando para seu traseiro, para as formas de seu corpo, procurando alguma marcação no tecido do robe. Eu conseguiria distinguir o que está vestindo por baixo daquilo se visse alguma marcação ou borda sutilmente desenhada à medida que se move, mas não há nada, quase como se estivesse nua. Ela também está usando saltos altos.

Eu suspiro. — Algumas

Observo uma última vez a praça vazia e meu carro, que convenientemente é único estacionado na rua.

A cada vez mais tenho vontade de chamar seu nome e perguntar que planos tem em mente, mas decido seguir suas regras, até eu me cansar delas.

A escada é estreita, não parecia ter sido projetada para alguém que mede mais de um metro e oitenta, e aí mora um de meus primeiros problemas.

Me pergunto se a casa é igualmente inconveniente, e a resposta vem logo em seguida. Não, na casa posso levantar a cabeça e ficar em postura ereta. Embora parecesse ser compacta, seus cômodos não eram muito largos. Era a clássica quitinete de trinta metros quadrados.

— Nem precisa falar, estou lendo seus pensamentos. Como posso morar nesta espelunca. A sua resposta é: pago o menor valor possível para juntar dinheiro.

— Eu não disse nada.

— Mas pensou.

— E com que propósito você junta dinheiro?

— Não sei ainda, só junto. Eu me distanciei o máximo possível da casa dos meus pais, nem mesmo eles sabem exatamente onde moro. Teuchi estava alugando este primeiro andar à preço de banana, eu gostei e é mais do que o suficiente para alguém que mora sozinha. Minha mãe disse que eu preciso juntar dinheiro para casar... — ela me fita com ar de riso zombeteiro, querendo que eu fosse seu cúmplice num julgamento que não posso fazer de sua mãe. — Acho que vou me dar um presente de vinte e cinco anos, estou me decidindo.

— Boa ideia.

— Me deixe ajudar com o casaco — ela corre alguns passos até estar atrás de mim. Não expresso em palavras o estranhamento por sua atitude, apenas permito que me ajude, enquanto observo o ambiente em que vive.

De fato, parecia o tipo de local no qual eu não sobreviveria. A cozinha é decente, a parede ao fundo tem um balcão que termina bem próximo da geladeira. A parede oposta mede a metade do comprimento, no fim há um fogão simples (que ela provavelmente usa menos regularmente que o micro-ondas) e à esquerda do fogão, outro balcão curto e vazio. Não há uma mesa, mas a cozinha se comunica com a sala, e há um balcão concretizando a divisão, com quatro banquetas de bar a cada lado; fora isso, é um ambiente comum, pratos no escorredor, imãs coloridos na geladeira prendendo contas e faturas. No chão há o que presumo ser um mordedor de plástico, e é o que faz com que a amarga realidade açoite meu ‘bem-estar’.

Ela tem um bicho. Um gato. Eu não gosto de animais.

— Pronto, bem melhor. Está servido?

Enquanto fala, estou procurando a maldita caixa de areia que há em todos os lugares em que existe um gato, e a encontro bem próxima a porta.

Gatos têm hábitos de estar fora de casa boa parte do tempo, com sorte, John estaria no meio da rua, seguindo um outro bando de bichanos.

Me sinto melhor pensando na possibilidade, afinal, se ele estivesse aqui, já teria aparecido. Eu ignoro sua pergunta.

— Me diga, eu devo me acostumar à ligações assim, no meio da madrugada?

Ouço uma tosse sutil atrás de mim, e Sakura caminha alguns passos até estar diante de mim, meu casaco dobrado em seu antebraço. Ela sorri.

— Depende.

Já passamos do ponto das respostas evasivas, mas não insisto. Temos uma madrugada pela frente.

— Você estava dormindo? — sua expressão torna-se séria outra vez, enquanto olha diretamente em meus olhos.

— Sim.

— Então eu sou automaticamente obrigada a pedir sinceras desculpas a você. O homem que não dorme estava dormindo, e eu interrompi isso.

— Sem problemas. — não é inteiramente verdade, mas é a resposta que salta para fora da minha boca de modo automático. A revelação de que eu estava realmente dormindo pareceu tê-la desanimado, e a observo pendurar meu casaco.

Seus cabelos curtos estão soltos, as pontas ligeiramente onduladas. Agora, entre quatro paredes e com as janelas fechadas, posso sentir melhor o seu perfume, e inclusive, lembrar que não a fiz sequer um elogio, e ela realmente merece um.

— Eu acho que você vai precisar compensar isso para mim... — eu começo, e talvez eu tenha usado um tom lento demais, e principalmente, ambíguo demais a ponto de fazer com que um pequeno sorriso tímido repuxe seus lábios. — Escolhendo um filme muito bom.

Talvez eu esteja brincando com ela tanto quanto presumo que esteja comigo. Posso ver claramente a expressão maliciosa em seu rosto derreter, sendo substituída por uma feição ligeiramente confusa.

Francamente, não estou entendendo porcaria nenhuma. Não me importo que meu tom soe ambíguo, não me importo com isso, principalmente quando sua ligação, convite, a forma que está vestida e agindo comigo já é tortuosamente confusa.

Qualquer homem minimamente normal enfiaria quinze camisinhas em cada bolso depois de receber uma ligação na madrugada, principalmente depois de termos um acordo de pé sobre quais seriam as circunstâncias automáticas quando me ligasse.

Mas não, ela resolveu falar que vamos assistir um filme, e eu decidi vir mesmo sem saber se era verdade ou se não passava de uma brincadeira para alimentar seu ego.

Ego que eu sequer sabia existir. Sakura sempre foi a mulher mais passiva e sem graça do departamento, mas depois dos últimos acontecimentos, posso tranquilamente morder minha própria língua.

Eu tenho fantasiado sobre ela desde a nossa última noite em Osaka, de todas as maneiras possíveis. Isso tem me corroído por semanas.

Principalmente, porque jamais precisei ser paciente e “dançar conforme a música” de alguém antes.

E a quantidade de camisinhas em qualquer um de meus bolsos é zero. Se isto ocasionalmente se transformar em nossa primeira vez, é assim que a mostrarei que deve ser mais objetiva e não fazer rodeios. Talvez minha mente propositalmente tenha sido a responsável por me fazer esquecer de trazê-las.

Mas estou disposto a acompanhar pacientemente até o quão longe chegará. Eu continuarei dançando conforme os passos que me ditar, mesmo que queira fazer totalmente o contrário.

— Filme? — ela aperta o olho direito, me observando com um adorável ar de incredulidade.

Apenas levanto os ombros com rapidez. Talvez isto possa ser chamado de “instant karma” também.

Enfio as mãos nos bolsos da minha calça e a deixo para trás, caminhando sutilmente até as largas janelas para uma curta espiada em meu carro. Logo estou virado em sua direção outra vez.

— Você sabe... Existem poucas coisas universalmente entendíveis. Quando agências espaciais tentam o descobrimento de nova vida extraterrestre, geralmente são enviadas frequências musicais. E a música é uma das poucas linguagens mundiais, universais, sei lá, o que preferir. Também há a arte, a matemática e ‘assistir filme'.

Eu já tenho uma ideia de onde este raciocínio terminará, mas vou ouvi-lo até o fim, da mesma forma.

— E qual o seu ponto com isso?

— Quero dizer que, no mundo inteiro, quando você chama alguém para assistir filme na sua casa, sozinhos, significa que a intenção principal é...

— Hum? — a estimulo.

— Fazer sexo. — Como brinde, a vejo fazer um gesto obsceno com as mãos para representar o que está falando. Dinheiro nenhum no mundo pode pagar isso, estou tentando não rir.

— Ah...

— Ah, você é meio lento, mas olha para mim. Acha mesmo que eu estaria toda arrumada assim às três da manhã para a porcaria de um filme? Eu disse que ia ligar, não disse?

O mais surpreendente é que ela está realmente zangada comigo.

— Quem sabe, na próxima vez, você deva usar mais objetividade.

— Sim! “Sasuke, por gentileza, traga o seu pau até a minha casa” — ela caminha de um lado ao outro, como se uma tragédia houvesse acontecido. Talvez eu seja o único aqui com um cérebro, que sabe que nem tudo está perdido e que podemos fazer acontecer, mesmo assim.

— Isso teria servido muito bem, na verdade — embora eu esteja em pleno consenso de que existem maneiras mais excitantes. — Por favor, me diga que não está bêbada. Você está bêbada?

— Tomei uma taça de vinho, só, para esquentar, o meu chefe me ensinou a fazer isso. Estou muito consciente.

Estou aliviado. Eu não conseguiria fazer aquilo se ela estivesse bêbada, a menos que eu estivesse também.

Ela cruza os braços sobre o peito e me observa em silêncio. É o momento mais estranho que vivi em trinta anos de vida, porque nossos objetivos foram jogados sobre a mesa, e nenhum de nós dois consegue reagir.

— Que... que situação horrível. Eu realmente consigo foder com tudo. — os palavrões começaram, este é um sinal de que está agitada. — Desculpe, eu deveria ter ido direto ao ponto.

De alguma forma, ela consegue fazer com que eu me sinta culpado, mas não é um sentimento que dura mais de dez segundos, pois tenho motivos de sobra para não me sentir assim.

Eu estava grogue quando atendi sua ligação;

Por uma decisão dela, achou que seria melhor enfiar eufemismos em um acontecimento que realmente não merecia ser tratado desta forma;

Eu pensei em sexo no momento em que ouvi a voz dela, eu sabia que não estava me ligando para um simples filme;

Mas se eu entrasse em sua casa jogando indiretas ou avançando direto ao ponto, não seria legal ao meu ponto de vista;

Poderia soar como se eu estivesse a pressionando, e este é um jogo de paciência que eu me dispus a lidar desde que assumi para mim mesmo que me sinto atraído por ela. Qual seria o meu interesse em estragar tudo agora? Nenhum.

Como eu disse, o melhor a fazer agora é seguir dançando de acordo com o ritmo que ela escolher.

— Eu juro, está tudo bem. — eu me aproximo dela como se fosse um bombeiro caminhando em direção a um suícida. — É sério.

— Não, você está sendo legal, eu quebrei o clima.

— De jeito nenhum — sem saber como proceder, eu a abraço. Seus braços não envolvem minhas costas, do contrário, permanecem em contato com meu peito e eu sinto como se estivesse a embrulhando. Isso é inesperadamente bom.

— Preciso confessar algo

— O quê? — seus lábios se abrem e antes que possa falar em voz alta o que claramente estava pensando, uma ação minha a interrompe.

Estou sentindo o peso de algo empurrando contra meu tornozelo, e assim que olho para baixo, um sentimento que não sei definir, mas não é bom, faz com que eu me afaste. Por um momento me esqueci da presença de outro ser vivo na casa.

— O dono da casa quer conhecer você — ela não parece mais nervosa, e sim, isso é ruim. Quando ela está nervosa quer dizer que algo classificável como bom está prestes a acontecer, e agora tudo que posso ver são seus cabelos sendo jogados abruptamente para trás, quando a parte superior de seu corpo se eleva outra vez, desta vez com um dos animais de estimação do diabo nos braços.

Eu odeio gatos, mas não seria um erro chamar o momento que ele escolheu para se enroscar entre minhas pernas de coito interrompido.

— Constantino já me conhece — eu decido me afastar ainda mais, enfiando as mãos nos bolsos. Me acomodo sobre uma das banquetas, e para meu azar, ela se aproxima.

— Tem razão. E é ‘ne’ — ela está afagando a pelagem lisa, espessa e cinzenta.

— Ne? O que é ne?

Eu sequer posso ocultar o tom mal humorado em minha própria voz.

— Ele se chama John Constantine. Falar Constantino tira toda a graça intrínseca ao nome dele.

Ela chega mais perto de mim, com aquela coisa entre nós dois. Olho em seus olhos, que parecem dez vezes maiores que o habitual.

— Vamos, faça um carinho nele — ela me encoraja.

Comprimo os lábios, imediatamente afagando as costas dele. John está olhando para mim, seus olhos esverdeados parecem me dar o tratamento de “humano desconhecido” que mereço. Então o carinho não dura tanto assim.

— Ele é bonito — eu comento.

— Sim, ele é mesmo — ela sacode o animal, o amassa, o aperta, muda a voz para falar com ele em seguida, e eu assisto a tudo sem saber como reagir.

Francamente, ficar em casa dormindo teria sido melhor. Não sou o maior amante de animais neste lado do planeta, é algo que ela precisa saber.

— Ele gostou do seu carinho, não gostou, Johnny?

Como o gato dificilmente responderia, eu mesmo fiz isso.

— Não é no gato que quero fazer isso.

A atmosfera do ambiente parece pesar outra vez. A distração do bicho nos braços dela claramente para de ser o suficiente, e ela me observa em silêncio durante alguns segundos.

— Que direto!

Eu sou.

Ela suspira, me observando com condescendência. Provavelmente entende o tom ligeiramente rancoroso no que eu disse, e quando deixa o gato sobre o balcão, caminha ao redor deste até estar em minha frente.

— Precisamos conversar. Bebe alguma coisa?

— Sim

Sakura me serve um copo de leite, e eu não tenho tempo de estranhar por ser... Leite, não quando ela está visivelmente inquieta diante de mim.

— Bem, — ela passa a língua rapidamente pelo lábio inferior, sem olhar nos meus olhos, mas eu estou captando cada pequena coisa. Em seguida, suas unhas entrelaçam o cabelo acima da orelha, e ela curva a cabeça, apoiando-a sobre o braço pressionado ao balcão. — tudo isso não foi uma ideia minha. Eu segui a sugestão de uma amiga; esta inicialmente envolvia algum prato afrodisíaco, venda para os olhos, massagem, alguma lingerie sensual e velas, mas como pode ver, não tenho nada disso. Foi uma ideia ruim realizar a sugestão dela de forma incompleta, eu teria proporcionado algo mais legal a você se não fosse tão ansiosa.

— Não tem problema — eu exalo, mais calmo. Finalmente estamos indo ao Marco Zero da questão, e não dando voltas ao redor disso.

— A fantasia dela também envolvia um apartamento ou casa sofisticado com decoração que custa muito dinheiro, massagens ou sexo numa janela imensa, com visão para a cidade. Sabe aqueles apartamentos enormes, modernos, com televisões grandes e das finas como um fio de cabelo? Sim. Foi provavelmente algo que ela leu em um conto erótico virtual e jamais pôde realizar, então me induziu a tal.

É engraçado como ela está descrevendo o meu apartamento, mas não falo nada disso, e tampouco noto pensamentos premeditados nela, já que certamente sabe que as chances de eu morar em um lugar assim são grandes; pelo contrário, ela parece estar desconfortável em seu próprio ser.

— Entendo.

— Nós provavelmente deveríamos ter feito em Osaka. Perdemos uma chance e tanto — finaliza, sorrindo calorosamente.

Parece ainda mais bonita assim.

— Nós podemos voltar lá quando quiser. Ou outro lugar, você pode escolher

Não posso definir o olhar que estou vendo em seu rosto agora.

— Você está tentando dizer... Escolher um lugar exclusivamente para transarmos?

Ouvindo ela falar, soou realmente pitoresco. Eu limpo a garganta, erguendo o copo de leite para um gole.

— Hum, as pessoas já não fazem isso há algum tempo?

— Não tão objetivamente assim... — ela diz, entre risadas.

— Há controvérsias. O que é uma ‘lua de mel' na sua concepção? Porque na minha são casais que viajam para ficarem sozinhos e fazer sexo.

— Não vou tentar contra-argumentar — ela graceja, rindo como se eu houvesse dito algo cômico.

— Você não poderia.

Ela colhe o lábio inferior entre os dentes, e suas duas mãos envolvem o copo à sua frente.

— Por favor, não fique ofendido, mas... DSTs.

Claro. Ela está certa.

— Tudo bem, eu não vou me ofender por isso, é completamente apropriado. — Ela anui, parecendo mais tranquila por minha resposta. — Bem, eu fiz um exame no dia seguinte à noite que conversamos. Quando eu, sem pensar direito e acidentalmente dormi com uma acompanhante. Eu estava tão fora de mim que sequer recordo se usei camisinha ou não, então eu fiz um exame, e eu estou limpo. E você?

— Sim, eu também.

— Mesmo assim, podemos ir até uma clínica e resolver isso, se quiser uma prova escrita, eu não teria problemas...

— Acredito em você. — por algum motivo, o tom que sinto para esta conversa é como se eu fosse acabar prestes a tirar a virgindade de alguém, quando sei que não é o caso. Mas sua timidez vai totalmente de encontro a forma que está vestida, embora eu reconheça que estarmos seguros é importante. — Então... Isso é tudo.

Ela inclina a cabeça para trás, ingerindo todo o leite, e eu instintivamente faço o mesmo. Este, supostamente é o momento.

É agora.

Ela leva os copos à pia e retorna, o olhar baixo finalmente subindo de encontro aos meus, as unhas arranhando a superfície do balcão e o tipo de seriedade que não era exatamente do tipo eu queria no momento. Sakura provavelmente está pensando e considerando coisas demais, hesitando, e eu arriscaria dizer até que pensando na minha ex.

— Venha aqui, quero mostrá-la algo. — o breve sorriso que surgiu em seus lábios some no momento em que tiro o celular do bolso. Ela certamente pensou que tratava-se de um subterfúgio para trazê-la mais perto de mim, e de fato é.

— Eu pensei que você ia puxar o seu amiguinho para fora da calça — ela diz em tom baixo, como se estivéssemos em público.

Eu realmente gostaria de saber como funciona a cabeça dela. Solto uma risada, achando graça de sua confissão enquanto meu dedo desliza pelo menu, em busca da galeria.

— Desculpa desapontar você, é apenas o meu celular.

— Não, não, que isso, tudo certo — ela tropeça entre as palavras, e passa pela minha cabeça o quão realmente desnecessário é responder o que eu disse.

— Como você reagiria? — eu finalmente encontro as fotos que quero mostrar, isso me possibilita olhar em seus olhos.

— Eu acho que arregalaria os olhos e diria algo do qual me arrependeria.

Meu Deus.

— Então ainda bem que não fiz isso — ela responde com um sucinto “pois é”, e eu desço da banqueta, fazendo um sinal com a mão direita para que chegue mais perto. — Quero mostrar umas fotos

Ela se aproxima rindo.

— Não são nudes, são?

Definitivamente esta mulher adjacente a mim é a escritora responsável por todo o erotismo nas estórias, eu gostaria de dizer em voz alta.

— Não, Sakura.

Ela franze o cenho, enquanto amplio a primeira foto, deixando o aparelho sobre o balcão em seguida. Ela se vira em direção ao celular e, ao ver do que se trata, olha para mim outra vez, com a boca aberta.

— Eu não acredito nisso! Puta merda, eu pedi para você deletar.

— Mas ficaram boas. Não apague.

— Você tem cópias delas em algum lugar? — ela questiona, sem desviar a atenção das imagens.

— Não — eu respondo sinceramente.

Em um ato inédito, ela ri. Eu esperava que a percepção de que aquelas fotos não foram deletadas e estiveram no meu celular o tempo inteiro fosse deixá-la irritada, mas ao contrário, ela está rindo de si mesma.

— Porra, nesta aqui eu estou comendo meu próprio cabelo. Em outra estou falando, nesta aqui estou meiga com as mãos na cintura, mas o cabelo ocultando uma parte do meu rosto, que horror. Se você publicasse esta sequência na internet, com certeza ficaria popular, com pessoas zombando de mim. Isso está horrível, céus. Pode me enviar todas por e-mail?

— Sim, claro.

— E depois você vai apagar todas. Todas, entendeu? — ela me mostra o dedo indicador, como se fosse minha mãe.

— Sim, com certeza. — eu não tinha planos de mantê-las aqui, de qualquer forma. O único motivo pelo qual achei que seria adequado não exclui-las seria a possibilidade de criar um assunto entre nós dois, e funcionou bem. — Incrivelmente, eu consegui tirar uma boa.

Eu tiro o celular de suas mãos, ouço um inspirar profundo, apreensivo, mas seus olhos nunca deixam os meus. Eu não percebi quando o clima ficou sério, mas ficou.

— Você pode me mandar junto com o e-mail.

— Você não quer ver?

— Não agora.

— E o que você quer?

Estou realmente curioso sobre como responderá isso. Seus dedos deslizam pelo meu pulso, até que segure minha mão em um aperto leve. Ela morde a ponta da língua e começa a andar em direção aos sofás.

— Nós podíamos brincar de “eu nunca” com isso.

Eu sou realmente um homem paciente.

Felizmente, é o tipo de brincadeira que Ino e eu jogamos, assim que nos conhecemos. Eu não preciso perguntar do que se trata. Você deve propor algo começando com, de fato, algo que jamais fez, e a outra pessoa deve beber um gole, caso já tenha feito.

Ela parece empolgada. Eu me sento, observando-a fazer seu caminho em direção da geladeira, e volta trazendo duas taças estreitas. Ela serve uma dose para nós dois, e me entrega uma delas.

— Você sabe como funciona?

— Sim

— Certo, vou começar — a distância entre nós dois é realmente curta, e eu sou o único acomodado normalmente, ela está sentada sobre sua perna esquerda, o cotovelo apoiado ao estofado, bem ao lado da minha cabeça. — Eu nunca bebi meu próprio xixi.

Faço uma careta, ela ri calorosamente. Nenhum de nós dois bebe.

Isto é veneno. Toda esta situação é. Ela está próxima de mim agora, eu sinto seu cheiro claramente e estou envolvido por ele. Seus expressivos olhos verdes me fitam com atenção, até mesmo a linha escura acima deles, delineando-os é atrativa. Seus lábios vermelhos, o pescoço exposto.

Ela é linda, eu provavelmente devia ter dito isso assim que cheguei.

— Eu nunca viajei para o Egito.

É o que minha mente consegue articular em meio a tantas distrações. Ela retrai as sobrancelhas e diz:

— Olha para mim, diz se tenho cara de quem já saiu desta cidade. Agora é a minha vez... — ela me olha atentamente durante todo o tempo em que pensa. Também parece examinar o meu rosto agora, e eu confesso para mim mesmo outra vez o quão satisfeito me faria saber o que ela pensa. — Eu nunca tive casos de uma noite.

Eu sorvo um gole e ela dá de ombros, não parecendo surpresa.

— Eu nunca estive em uma casa de swing — arrisco, sabendo que ela jamais fizera tal coisa. Sakura inclina a cabeça para um lado, de modo que me deixa com vontade de beijá-la.

— Você vai me deixar beber, ou o que? — ela brinca. — Eu nunca beijei uma mulher.

Eu exalo ar pela boca tediosamente antes de tomar um outro gole.

— Certo, vou facilitar para você. Eu nunca beijei um homem.

— Obrigada, Sasuke — ela bebe seu primeiro gole, parecendo realizada. — Eu nunca fiz sexo com mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

Eu tomo um gole, e um palavrão sai da boca dela. Eu resolvo continuar antes que me peça para dissertar.

— Eu nunca tentei conquistar um homem fingindo que sou fumante.

— Vai se foder. — ela acerta meu ombro, e bebe em seguida — Eu nunca dormi ou fiquei entediada nas palestras horrorosas do meu patrão.

Depois disso, ela bebe todo o resto do vinho e faz questão de me mostrar que a taça está vazia. Eu não reajo, apenas a observo com a maior cara de paisagem que sou capaz de reproduzir. Já sei sua opinião sobre minhas palestras, eu a via conversar com Karin durante meu monólogo, eu já sabia disso.

O jogo perde o fator interesse, eu jogo a primeira coisa que consigo pensar.

— Nunca comi gorgonzola.

— Eu nunca transei em um sofá.

Eu a observo imediatamente, e seus olhos parecem abismos agitados em luxúria.

Do fundo da minha alma, espero mudar isso.

Penso se deveria manter a integridade da brincadeira e simplesmente tomar a minha dose, comprovando que sim, já fiz isso. Mas opto pela opção que mais me parece atraente, e sem dúvidas é.

E Sakura já parece esperar por isso. Seus lábios se juntam aos meus, e sinto sua mão sobrepor a minha gentilmente à medida que tira a taça ainda parcialmente cheia de minhas mãos. Ela se senta sobre minha perna direita, seu joelho posicionado entre minhas pernas. Sua mão livre acaricia minha nuca, enroscando-se entre meu cabelo. Minha língua se move devagar sobre a dela, saboreando-a, e com um ruído totalmente satisfatório soando através de sua garganta, ela pressiona seu corpo ainda mais em direção ao meu. Parece dez vezes mais excitada do que eu jamais poderia estar, embora eu sinceramente não acredite que possa ser verdade. Mas ela está intensa demais agora, e eu sinto que é a forma que as forças que regem o universo encontraram para fazer com que eu me sinta um merda ingênuo e irresponsável.

Preciso falar.

Totalmente contrariado, eu fecho meus lábios sobre os dela, e Sakura se afasta para saber minha motivação.

Exalo, mais frustrado do que já estive em toda minha existência. Jogo a cabeça para trás, olhando para ela, que junta as sobrancelhas. Sei que quer falar, mas provavelmente está me deixando ser o primeiro.

Eu esfrego meu rosto, e meus dedos se enroscam entre meus cabelos. Pressiono os lábios.

— Não tenho camisinha. Está tudo em casa.

— Porra... — seu corpo desmorona sobre o meu, e ela deita a cabeça sobre meu peito — Por favor, me diga que você está brincando.

Não consigo sequer responder. Eu fecho os olhos, inalando uma respiração profunda. Um pequeno facho de luz acende no fim do túnel.

— Você toma alguma coisa?

— Estou solteira. Há anos.

— Merda — praguejo, e nós dois permanecemos em disparadamente vegetativo por um bom par de segundos. — Desculpa.

— Tudo bem — uma de suas mãos afaga caridosamente meu peito sobre a camisa, enquanto ainda me sinto praticamente morto pelo recente acontecimento. — Não quer tentar mesmo assim? Você tira um momentinho antes...

Não preciso que termine a frase e me faça considerar a oferta, não preciso de irracionalidade agora.

— Melhor não arriscar.

— Você tem razão — ela se afasta e as feições em seu rosto denunciam que está tão frustrada quanto eu. Permaneço a fitando ininterruptamente, e ela comprime os lábios no sorriso mais amargo que já vi. Em seguida, seu polegar desenha a linha do meu lábio inferior languidamente.

Mas ela arregala os olhos durante o processo, e rapidamente salta para trás, ficando em pé.

— Deus te abençoe, você não veio de táxi!

— Como?

— Você tem um carro, eu tenho dinheiro e o posto de gasolina à quinze minutos daqui tem uma loja de conveniência! Eu vou pegar a minha bolsa!

Ela e sua genialidade são inexplicáveis por conseguirem uma solução tão óbvia que eu sequer tive a capacidade de pensar. Sakura corre em direção ao corredor e eu rapidamente me recomponho, aguardando pelo que parece ser menos de cinco minutos até que retorne.

Ela está vestindo um casaco amarelo que parece medir dois números a mais que seu comprimento, uma bolsa casual preta nas mãos. Por baixo do casaco, posso ver a renda escura do que presumo ser uma camisola preenchida por transparências, e imediatamente eu sinto também a urgência de comprar todo o estoque de camisinhas que aquela loja pudesse ter.

Eu sempre achei que já houvesse vivido todas as experiências mais simples e ordinárias que a vida tinha reservadas para mim, na idade trinta. No entanto, entrar em uma loja de conveniência algum horário depois das três e meia da manhã, com uma mulher vestindo saltos, camisola e casaco, jamais preencheu minhas mais longínquas expectativas.

Principalmente porque minha vida seguiu majoritariamente minha própria agenda, e não as invenções pouco aconselháveis de outra pessoa.

Um homem de aparência ruim nos encara no momento em que ultrapassamos a porta, ele está lendo uma revista e praticamente sendo oculto pela divisória de vidro, preenchida por revistas e todos os tipos de doces. Há também uma mulher posicionada em frente ao refrigerador de bebidas, e ela sequer se dá ao trabalho de nos observar.

Sakura me segue ao longo das prateleiras, e eu paro diante de um mostruário de marcas, cores e tipos diferentes de preservativos.

Eu pego dois pacotes da marca que custa mais caro e empurro sua cintura para que me siga, mas ela me pede para esperar, e se inclina diante do mostruário.

— Espere, estas de baixo são das coloridas. Eu nunca usei camisinha de fruta antes...

— É a mesma porcaria, apenas o cheiro é diferente. E o sabor também.

— Interessante, mas eu já sabia. Olhe estas, com textura. Eu não sabia que existiam...

Eu me apoio a uma das prateleiras, cruzando os braços enquanto a observo analisar cada uma das fileiras.

— Camisinha com efeito retardante... Hum... Talvez você precise?

Estreito os olhos, percebendo que eu dificilmente poderia entender uma pergunta como esta de forma errada. Ela está me olhando sugestivamente.

— Está tentando me insultar?— eu redarguo.

— Não, é apenas uma pergunta, ok? Nada demais.

— Não. Eu não preciso disso, mas já usei. Meu pau ficou dormente e eu não consegui gozar.

Ela me reserva um breve sorrisinho, voltando a ruminar dentre os pacotes.

— Então talvez uma extrafina?

Alguma coisa boa precisava sair deste atraso, e acaba de acontecer. Ela não espera uma resposta, provavelmente assumindo que eu negarei sua proposta assim como fiz com as anteriores e volta a investigar.

— Na verdade, é uma excelente ideia. Pegue algumas.

— São bem mais caras que as mais caras comuns.

— Não é um problema.

— Para mim é. E eu ainda preciso comprar o nosso café da manhã, você vai ficar para o desjejum, não vai?

Eu a observo em silêncio, pensando sobre suas palavras, até perceber que ela realmente acha que vai pagar por tudo.

E se acha que vai pagar, por que infernos parou para analisar todo o “variado” mostruário de camisinhas, em primeiro lugar?

— Não sei.

Ela se levanta, e mais do que nunca percebo a diferença que os saltos fazem em sua altura. Há um ar de insatisfação em seu rosto, e percebo, no horizonte, o par de olhos que está vidrado nas pernas dela. O balconista.

— Como assim? Por que não? Quer me ouvir insistir? — provavelmente percebeu que ela está usando o que presumo ser uma camisola praticamente transparente por baixo da porcaria do casaco.

— Eu ficarei, se me deixar pagar.

Ela leva as mãos repletas de pacotes de camisinha à cintura e me observa, remoendo minha única condição imposta para passar a manhã consigo.

— Tudo bem, eu preciso economizar — ela sai andando corredor adiante e pega uma das cestinhas dispostas no caixa, jogando os pacotes dentro destas e entrando em uma outra seção — Não reclame depois.

Eu decido aguardar sua chegada no balcão, assistindo ao monitor que mostra um sistema de câmeras.

Quando retorna, a cesta em suas mãos está cheia de mantimentos.

Ela coloca sobre o balcão uma caixa de leite, outra de cereais, uma dúzia de brioches, algum tipo de queijo, além de outros produtos que não posso distinguir.

— Eu ainda posso ajudar, se quiser. — ela se oferece educadamente, mas eu a impeço com um simples gesto de mão.

O homem narra o valor total, e eu abro a carteira para pegar uma parte do dinheiro. É quando percebo que há uma camisinha em um dos compartimentos, e me sinto furioso com ninguém além de mim mesmo.

— Você parece cansado.

Ela comenta, enquanto tento lembrar se viemos pela esquerda ou direita em um cruzamento. Ao invés de me ajudar, ela está sentada de mau jeito no banco, virada em minha direção e fazendo um diagnóstico surpreendentemente acurado sobre minha situação atual.

— Eu estou, — respondo, imediatamente percebendo que isto pode repeli-la — mais ou menos, mas vou resolver tudo em algumas horas.

— Como?

— Tenho uma consulta marcada às duas e meia.

— Oh, isso é bom.

— Sim. — decido virar à esquerda, é o caminho que me parece mais correto — Você pode vir, se quiser... — errado. Isso é algo que eu não devia ter falado, nem mesmo para ser educado. Se eu estivesse em seu lugar, com certeza tal convite me assustaria, já que soa sério demais para o que nós temos. — Mas não sei como isso poderia ser interessante para você, então...

Ouço um suspiro, e ela desvia o olhar até a pista.

— Aposto que você tem sua própria ala no hospital. Ala Sasuke Uchiha. — por sorte ela muda de assunto, ou eu seria forçado a pedir desculpas.

— Nunca pensei nisso, para ser sincero. O que não quer dizer que meu pai não tenha pensado.

— Claro — ela ri, posicionando um dos tornozelos sobre o joelho — Você tem um bom relacionamento com seus pais?

— Sim, muito bom para falar a verdade.

— Que inveja — ela levanta os ombros e torce um canto da boca amargamente. Antes que eu possa considerar perguntar, ela volta a falar — Mas não quero falar sobre eles, não. Posso perguntar uma coisa?

— Sim.

— Posso te fazer uma massagem quando chegarmos?

Elemento surpresa realmente devem ter sido as primeiras palavras que Sakura pensou ao despertar naquele dia, e acho que estou grato por isso.

— Você não precisa realizar as fantasias da sua amiga, entende?

— Sim, entendo tanto que estou pedindo por livre e espontânea vontade. Só para tirar o estresse, eu sei que você foi submetido a bastante pressão nos últimos dias... Mas é só uma oferta, eu não sei fazer, aceitando você assumirá os riscos de ser ruim.

Eu a analiso por um breve momento, e ela sorri entre sua distração, que é mordiscar o polegar.

Em seu apartamento, eu deixo as sacolas sobre uma das banquetas, e ela aguarda silenciosamente até que eu a observo. Ela suprime um riso tímido ao morder o lábio, e então caminha em minha direção.

— Vamos lá, tire a sua roupa — ela me encoraja.

Ela finalmente tira o casaco amarelo, e eu aproveito para ver ao vivo o que imaginei durante a última hora. E de fato, é uma camisola escura de transparências. Não sinto a necessidade de falar coisa alguma, ela certamente está vendo agora em meu rosto como me sinto. Estou definitivamente excitado.

— Sua vez.

Eu puxo a camisa por minha cabeça, jogando-a sobre o balcão, e aproveito para observar a expressão em seu rosto. Ela parece fascinada, e estica o braço até sua mão direita deslizar por meu peito.

— Nossa, você é lindo — e ela continua fazendo seu caminho por meu corpo até segurar minha mão, e sendo assim, nós dois caminhamos em direção ao quarto dela.

Ela desliga todas as luzes à medida que deixamos a sala e o corredor. Seu quarto também é compacto, de tamanho razoável. A luz que ilumina uma escrivaninha é a única coisa a iluminar o quarto, e não posso enxergar tudo perfeitamente, mas sei que há uma cama de casal cujos lençóis estão espalhados, além de uma cômoda simples, e na parede oposta, uma cortina de tons azulados que oculta possivelmente uma janela.

— Vem — nós damos alguns passos adiante, e eu me sento sobre o colchão, sem soltar de sua mão. Eu a trago para perto de mim e ela se desequilibra, apoiando-se em um dos joelhos. Sei que murmurou alguma coisa, surpresa por minha atitude, mas francamente não estava prestando atenção nisso.

Nos beijamos, ela enfia os dedos entre meus cabelos, empurrando-os para trás, e eu toco suas coxas, sentindo um alívio puramente carnal por estar simplesmente a tocando. Meus dedos sobem por sua pele, eu apalpo tudo ao meu alcance em direção a sua bunda, e a aperto firmemente.

Sakura responde pressionando seu aperto em meus cabelos, e eu gosto disso.

Meus dedos serpenteiam em direção a seu quadril, trazendo o tecido mole de sua camisola. Ouço uma fogosa reação vocal ao que estou fazendo, até que ela sela meus lábios e segura meu rosto.

— Deita de bruços!

Suspirando, eu a obedeço. Estou deitado com a barriga para baixo, e ela imediatamente sai do meu campo de visão reduzido. Só o que me resta é ouvir os ruídos, seus passos delicados, uma gaveta sendo puxada, a tampa de algo sendo aberta, e em seguida, o que parece ser duas mãos se esfregando.

Eu sinto o seu peso, acomodando-se sobre mim.

— Certo, fecha os olhos, tenta não pensar em nada. Nem mesmo naqueles carros defeituosos que saíram da fábrica.

Tarefa difícil.

— Suas costas são lindas, Sasuke — eu sinto a palma de sua mão deslizar com facilidade sobre minha pele, e só isso é suficientemente relaxante. Eu fecho os olhos, — pode me dar as coordenadas se quiser, sou leiga.

Talvez esta não seja uma boa ideia, eu penso ao sentir suas mãos deslizando por minha coluna vertebral. Eu provavelmente não preciso ficar tão relaxado assim se vamos fazer algo depois disso.

Quando Ino foi convidada a representar em sua estreia fora de palcos, um longa-metragem, nós tínhamos exatamente três meses de namoro e ela me ligou durante o meio dia para avisar. Não sei como consegui ouvir toda a empolgação em sua voz quando toda a sua turma de teatro estava comemorando aos gritos, mas ela me convidou para almoçarmos todos, em grupo.

Eu não pude comparecer, estava em uma reunião importante. Na época, meu pai ainda não havia parado de atuar totalmente e nós tomávamos decisões juntos. Eram tempos difíceis, e ele disse que ficaria decepcionado se eu fosse embora quando minha presença era tão necessária.

Ino me ligou outra vez durante a tarde, disse que estava no Walmart fazendo compras para preparar um jantar às sete horas, desta vez, nossa comemoração em casal. Eu estava disposto a contrariar meu pai e comparecer, e o fiz, mas talvez sair do prédio dois minutos após as seis e meia provavelmente foi uma decisão ruim.

Eu me atrasei vinte e cinco minutos e me senti mal. Pedi desculpas e, durante aquela noite, dei toda a minha atenção a ela.

No dia seguinte eu ainda pedi desculpas pelo atraso, eu me senti horrível, mas agora tudo isso não se compara ao que aconteceu.

Eu estou olhando nos olhos dela há segundos, tenho certeza que estou tornando as coisas ainda mais desagradáveis com meu silêncio, mas não sei o que dizer.

— Então, eu trouxe uma toalha limpa para você. É só pressionar o botão do interruptor que tem uma linha reta, e a água vai começar a esquentar, mas você que sabe — eu tiro a toalha de suas mãos e não consigo sequer sorrir em agradecimento, no entanto, ela força o sorriso que eu não fui capaz de mostrar — Assim que sair, os ingredientes ótimos que comprou vão fazer você pensar que eu sei cozinhar. Qualquer coisa pode me chamar.

Ela sai do quarto, e não. Nem de longe os vinte e cinco minutos de atraso fizeram eu me sentir pior do que aquilo.

Dez minutos depois, estou sentado encarando o que parece ser um sanduíche que foi ao forno e está afogado em molho branco, e por algum motivo, é preciso comê-lo de garfo e faca.

Ela está realmente faminta ou adora o prato, está comendo bastante e rápido. Estou a observando e ela não se parece em nada com a mulher que me recebeu horas atrás, não há um pingo de maquiagem em seu rosto, seus cabelos estão presos em um rabo de cavalo, cujos fios soltos caíam em sua nuca e rosto. Além disso, usa uma camisa folgada o bastante para que outra pessoa use com ela, e shorts de flanela curtos.

— Sakura, desculpa — eu tomo a iniciativa.

Ela deixa o garfo sobre o prato e me olha alguns segundos em silêncio, antes de responder.

— Desculpa por que você dormiu durante a minha massagem ou por que não está comendo nada?

— Os dois, na verdade, mas eu realmente tinha intenções de ir até o fim com você antes. Desculpe por isso, de verdade.

Estou realmente falando sério, mas uma risada amarga escapa de sua garganta, e ela retruca:

— Vou considerar como um elogio a minha massagem totalmente leiga.

— Sim, foi muito boa — e de fato foi. Ela me olha outra vez com ar de riso, mas ainda estou tenso.

Mordo um lado do lábio e ela aponta com o queixo para meu prato cheio.

— Não me decepcione três vezes em um mesmo dia.

Faço uma careta. Eu só podia contar uma decepção.

— Três vezes?

— Sim, você veio para minha casa sem trazer uma mísera camisinha e depois disso ainda dormiu. Se não comer minha comida eu expulsarei você da minha casa e dos meus sonhos.

Ela limpa a garganta e sequer se preocupa em ocultar os sinais de vergonha pelo que acabou de dizer.

Não posso controlar, preciso perguntar. Eu corto um pedaço de sua invenção culinária e ao afastá-lo do resto, uma teia de queijo se forma, e ela observa orgulhosa seu prato, ansiosa para que eu o prove.

—Sonhos? — eu jogo.

— Ahm, sim. Os mais profanos sonhos possíveis.

— Bom saber — eu levanto uma sobrancelha e sorrio, um incontrolável e malicioso sorriso.

— Você me magoou mesmo, eu estava perguntando a você sobre a pressão, se minhas mãos estavam fracas demais ou fortes demais. Uma hora você simplesmente parou de responder, mas tudo bem, eu pensei, ele está apenas se concentrando. Que nada! Quando eu saí de cima de você chamei seu nome umas quatro vezes e você não respondeu, e como eu não sou uma âncora para matar outro ser humano por passar uns doze minutos sentada em cima dele, você só podia ter dormido. Senti muita vontade de chorar de raiva, — ela gargalha, levando uma das mãos para cobrir os lábios — mas lembrei que preciso de histórias assim para contar futuramente, então olhei para você e uma lágrima caiu, eu comecei a rir e depois chorei. A maquiagem ficou péssima.

Ela começa a rir de verdade, mas francamente, não tem graça. O que aconteceu não é engraçado.

Estou vendo seus olhos apertados e a mão pressionada contra seus lábios. Seu rosto está vermelho, e eu me sinto estranho por continuar sério.

— Eu xinguei você enquanto passava algodão no rosto, nem mesmo seus pais saíram ilesos. Nem mesmo a trigésima geração da sua família saiu ilesa do que eu disse, e eles nem existem ainda.

Eu aproveito para experimentar um pedaço de sua comida, e quando me olha, ela percebe que não estou rindo, e eventualmente seu riso desacelera.

— Desculpa por rir, eu jamais imaginei que pudéssemos ser tão azarados — sua fala é interrompida quando o maldito gato surge sobre o balcão — Oi, Johnny — o gato simplesmente desfila entre nós dois, o rabo em pé. Ele olha para mim, mas se senta, virado na direção dela. — Ele está com fome.

Ela afasta a banqueta e assovia. O gato parece compreender exatamente o que está prestes a acontecer e salta para fora do balcão.

Aproveito para concluir o prato, que é bom.

A caminho da pia, encontro minha camisa no exato lugar a qual a deixei antes. Sakura está agachada, derramando ração em uma vasilha de plástico vermelha, e eu a observo com mais ressentimento do que gostaria.

Infelizmente, ela está reagindo a situação de forma bem melhor que eu, e mesmo compreendendo que foi uma situação involuntária, meu orgulho foi seriamente ferido, e ela parecia não ter ‘problemas no paraíso', ao menos não demonstra.

— Ah, você achou a sua camisa — ela comenta distraidamente, enquanto prende com um grampo o espaço livre do saco, em seguida, um tanto perdida, seus olhos se fixam ao meu peito. Eu ouço o quão profundo soa seu arquejo, e em seguida, ela olha em meus olhos e o sorriso forçado em seus lábios depois disso é deprimente. — São oito e meia.

Eu não perguntei.

— Você fez uma fama de preguiçosa para si mesma que não representou hoje — eu a sigo quando faz seu caminho em direção aos armários. Ela fica na ponta dos pés por um segundo, ao guardar o saco, e então se vira em minha direção, esfregando as mãos.

— Você criou uma fama de insone para si mesmo que não representou hoje — retruca, e os cantos de seus lábios se erguem em um sorriso cheio de cinismo.

De fato, preciso assumir que ela tem toda razão.

— Bem, você disse que não desperta antes das três da tarde nos fins de semana, e já estava desperta antes das oito.— eu monto meu argumento, e ela afasta uma das banquetas para o lado para enfim cruzar os braços, apoiando o quadril à beirada do balcão e cruzando os tornozelos.

— É verdade, isso é porque tenho visitas, preciso passar uma boa impressão, não é?

— Você passou.

— Principalmente quando a visita se trata do chefe que não me promoveu antes de ontem, preciso fazer com que se arrependa vendo que sou muito responsável.

Ela me arranca uma risada. Está olhando para o meu corpo outra vez, e alisa a própria sobrancelha quando nossos olhares se cruzam.

— Não por isso.

Soou ambíguo, mas julgando por sua atitude, tenho certeza que entendeu exatamente o que eu quis dizer.

— Bem, você tem uma consulta importante dentro de algumas horas, não é? — ela entendeu, pois age exatamente como eu esperava que fosse, mudando de assunto, tentando fazer com que eu vá embora de forma sutil.

Eu teria ido, ela mencionar um compromisso que acontecerá a mais de cinco horas a partir de agora é ridículo. Eu já deixei eventos por muito menos que isso, mas não estou pronto para ir ainda.

— Olha, Sakura...

— Sasuke, o clima aqui está horrível, sabe? — ela pressiona os dedos ao longo da própria nuca — Não precisamos tentar manter isso, ruim como está. Nós não precisamos passar por isso, foi algo que começou de forma errada, seria muita sorte se acabasse certo. Então vamos encarar a situação como adultos, refletir sobre o que aconteceu para fazer diferente na próxima vez.

Ela lança suas palavras como setas, e sei que não está sendo cem por cento honesta, e sequer estou me esforçando para saber disso.

— Vai ter uma próxima vez?

— Claro que sim, nós podemos ir para um hotel um dia desses, eu te ligo, ou você me liga, tanto faz.

— Você deveria ao menos se esforçar para soar um pouco mais convincente — eu diminuo a distância entre nós dois dando três passos adiante. Proximidade a deixa nervosa, e nervosa, suas mentiras se tornavam cada vez mais transparentes — Você não vai ligar para mim, você vai começar a me evitar no escritório — ela não aceita o que estou falando, e deixa explícito ao balançar a cabeça em uma insistente negativa — Eu lamento muito, a culpa foi minha, mas se dependesse de mim, nossa noite teria sido muito diferente.

— Eu sei, Sasuke. Lamento tanto quanto você.

Eu tenho a forte impressão de que ela quer dizer mais, porém simplesmente não consegue encontrar meios de se expressar. E, na verdade, é inútil. Tudo isso parece enfraquecê-la.

Sakura esfrega os olhos, e após um suspiro audível, solta um gemido esquisito e choramingoso. Parece contrariada.

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Eu me ponho em sua frente e seguro seu rosto com as duas mãos, trazendo sua atenção diretamente para mim, e ela solta o ar pela boca.

Aproximo seu rosto do seu, mas ela vira a cabeça na direção contrária, me recusando. Dou um passo adiante, interditando-a em seu lugar, contra o meu próprio corpo, e beijo sua bochecha de forma demorada, para em seguida beijar sobre o osso de seu maxilar abaixo do ouvido.

Ela segura meus cotovelos, — Me dê uma segunda chance, por favor — eu sussurro torridamente.

Sinto seu maxilar estremecer, e ela finalmente dá o braço a torcer, olhando diretamente para mim.

Ela está piscando compulsivamente agora, e só me resta esperar. Não dura tanto assim, e me sinto, de certa forma, aliviado quando ambas as mãos femininas puxam a minha cabeça com violência em direção a sua. Seus lábios esmagam os meus, e ela me permite provar outra vez de seu beijo antes de se afastar, só que para empurrar para as beiradas os utensílios que estavam sobre o balcão, para que ela mesma possa se sentar sobre ele.

Ela me puxa para si pelo cós da calça, as laterais de seus joelhos pressionando minhas pernas. Sakura chupa meu lábio e me beija com força, suas unhas arranjam meus ombros, antes que suas mãos tracem um trajeto até o final das minhas costas, encontrando seu fim no meu traseiro, e eu sinto que está me apalpando generosamente, até enfiar as mãos dentro dos meus bolsos e puxar destes as camisinhas.

— Aqui? — eu pergunto, nossos lábios ainda pressionados.

— Meu deus... — ela abre o meu zíper, desabotoando a calça em seguida — Tanto faz.

Firmo minhas duas mãos em seus quadris, trazendo-os ainda mais próximos da beira, para que nossas virilhas se toquem e ela possa sentir. E ela suspira, soltando um gemido baixo e maravilhoso quando a faço sentir o que está fazendo comigo.

Estando ainda na beirada, ela se agarra mais fortemente a mim.

Eu deixo seus lábios para beijá-la no queixo, seus olhos se abrem, nublados e com um aspecto selvático completamente diferente. Eu beijo abaixo de seu queixo, e ainda mais abaixo, na garganta. Sentindo com a boca as vibrações que os ruídos que tanto desejo ouvir fazem lá.

Meus dedos puxam para baixo o elástico de seus shorts, e ela ajuda erguendo os quadris para que eu me livre deles. Eu junto nossos quadris novamente, com força, e ela respira audivelmente entre os dentes.

— Eu vou compensá-la por antes

Notas finais
Betado por Pan Alban. Até a próxima, pessoal.