Notas iniciais
Boa leitura.

É o terceiro dardo que atiro enquanto leio aquela porção de palavras, reconheço, muito bem escolhidas.

Quando Sakura foi embora e me vi sozinho naquele andar, decidi investigar a situação a fundo e ter uma resposta convincente para dar a Naruto amanhã.

Ele estava psicótico sobre a movimentação de Sakura no escritório havia duas semanas. Eu não sei quando isso começou, não sei o porquê de dar tanta importância àquilo.

Sakura poderia ser tudo, menos uma ameaça.

Pode soar desmerecedor, quem sabe até imprudente, mas quando eu olhava para aquela mulher, realmente não via perigo ou maquiavelice.

Felizmente ou infelizmente, meus olhos foram abertos da pior forma, talvez não chegue a tanto, mas foi, sim, uma maneira bastante anormal de descobrir que tenho uma funcionária disfuncional.

Estive em sua mesa, vi todos os objetos pessoais que ela deixava lá, observei coisas banais como sua caligrafia e a forma com a qual ela separava as canetas por cores. Ao contrário das outras, na mesa dela não havia uma foto com a família, apenas um pequeno porta-retratos com a fotografia de um gato cinzento.

Então ela tinha um gato. Nada demais.

Era realmente entediante estar ali quando eu deveria estar, há horas, em meu apartamento. Poderia estar praticando esgrima, tomando um banho frio, uma cerveja, assistindo os programas gravados do dia, mas ao contrário disso estou sentado na mesa de uma funcionária qualquer, descobrindo pequenas coisas inúteis sobre ela.

Nunca tive curiosidade a respeito de nenhum deles. Nunca tive e ainda não tenho, mas por obra de Naruto, Sakura Haruno se tornou uma exceção. Eu estou curioso, e muito, para saber o que aquela mulher tem feito em meus computadores para atrair tamanha atenção.

Por sorte, equipei cada um deles eu mesmo. Acessei o histórico de todos os navegadores, e em nenhum deles havia endereços de sites acessados durante todo o dia. Cheguei à conclusão de que ela não era uma completa ameba, afinal, apagara o histórico completo do dia.

Mesmo assim, eu estava um passo a frente. Como eu disse, toda a instalação daqueles computadores passou por mim, e havia um keylogger funcionando em cada um deles. Eu não me importava em acessar os registros todos os dias, mas naquela noite em especial, foi necessário.

Não demorei a achar um site incomum no relatório diário. Retrocedendo as datas, vi que ela o acessava todos os dias durante a manhã e tarde, em horários variados.

Para ser sincero, não sei ao certo explicar se a maneira que estou me sentindo em relação ao “segredo” dela é boa ou ruim.

Primeiro porque era um site de “fanfictions”.

Eu tive que pesquisar o que eram “fanfictions”.

E o resultado final foi um misto de sensações deploráveis. Eu estava aliviado por não ser algo grave e que poderia me colocar em problemas, mas previ que Naruto tiraria sarro se descobrisse os reais motivos que causaram a “monopolização” do computador por parte dela.

Sakura já era reservada demais, era a desajustada e isolada do departamento, e eu não precisava de longos minutos de análise para chegar a esta conclusão. Ela não participava das conversas e não ia almoçar em grupo, ficava no computador.

Cliquei em um dos links no relatório digital e fui levado até uma janela off-line, na qual pude ver a sinopse e vários capítulos de uma estória. Não precisei realizar um grande trabalho de espionagem para descobrir que a autora era a Sakura. A escritora se chamava Haruno, pura e simples.

Infelizmente, para acessar o primeiro capítulo precisei criar uma conta no site. Tratava-se de uma estória na maior das classificações, acima de dezoito anos, com violência, palavreado chulo e forte conteúdo sexual.

Criei uma conta qualquer, a noite estava começando, não pude controlar a ânsia de ir até o fim e ver do que aquilo se tratava. Eu já estava ali, não havia ninguém a minha espera em casa, e gosto de sanar minhas dúvidas quando fico realmente curioso sobre algo.

Agora estou lendo o capítulo três enquanto lanço alguns dardos no alvo que colei à parede. A personagem principal se chama Eloise e mostra-se, ao menos até então, a clássica “donzela em perigo” que trabalha em uma agência de turismo atuante em ruínas históricas. No início não consigo entender a forma como ela quis construir a personagem, afinal, era frágil e indefesa, mas comportava-se de forma turrona e tinha uma personalidade forte.

O homem da estória era exatamente o que eu esperava que ele fosse. Alto, loiro, bronzeado, musculoso. O sonho da maioria das mulheres, ou pelo menos uma representação fiel de tudo que a Sakura gosta em um homem.

Ele sabia o que falar nas horas certas, era misterioso, mas vez ou outra era nítida a autoria feminina nas atitudes dele. Na verdade, não era muito difícil perceber que havia uma mulher por trás dele.

Eu tinha tanto para fazer, mas tão pouco tempo, e mesmo assim não sosseguei até acompanhar a maldita estória.

Fui exposto a todo tipo de comportamento sexual implícito, sutil, de uma forma que apenas alguém habilidoso poderia criar sem parecer um completo pervertido. Sakura era uma mulher pervertida mesmo assim.

“Francis, não estou entendendo até que ponto deseja chegar” Eloise comprimiu os lábios, enquanto desviava a atenção do homem que a abordava de maneira direta, pungente.

“Pensei ter sido claro. Eu me esforcei bastante para ser.”

O ar de decepção nos olhos cinzentos do homem foi palpável. Não importava o quanto buscasse fazê-la entender suas atitudes, ela parecia alheia a tudo que não envolvesse seu trabalho.

“Não compreendo o motivo de estar aqui agora, eu disse que não teria como recebê-lo por estar sozinha em casa” Explicou-se, temendo por um desentendimento mais significativo.

“Foi exatamente por isso” Sorriu de viés, subindo um degrau para fitar seu rosto mais perto. “Quanto a convencê-la a entrar, eu posso facilmente dar um jeito nisso”

Não era nada próximo das obras anteriores dela.

Quando olhei no relógio em meu pulso, passavam das nove da noite e eu continuava na empresa, lendo estórias fictícias criadas pela última pessoa que eu achava possuir tal talento.

Na realidade, fui preconceituoso por medir as capacidades dela em relação a tudo por seu desempenho no trabalho. Nunca pensei muito sobre Sakura, mas quando o fazia, raramente, sempre me saiu como uma inválida que pisava naquele prédio todos os dias por obrigação, sem perspectiva, sem almejar novas experiências profissionais – talvez até pessoais – por não ter um “fogo” interior.

Surpreendentemente o que não faltava a Sakura era fogo.

Acho que estar ali lendo estórias de teor erótico escritas por ela durante a noite, quando eu deveria estar em meu apartamento, representava o tamanho da peça que o destino acabara de me pregar. Eu descobri o talento dela, descobri a quê dedicava o amor que não tinha ao trabalho, e senti no âmago uma vontade de tê-la demitido quando tive a chance.

Sakura sempre me chamou atenção por ser péssima, e talvez meus olhos sejam leigos, mas ela é boa no que faz.

Decido ir embora pouco depois das nove e meia. Sou o último a sair do prédio, isso raramente acontece.

Posso perceber que aquela é uma Quarta-feira de “vapor”, estou em um bairro empresarial e o movimento de carros é intenso em direção ao anel viário característico daquela área.

Enquanto estou dirigindo de volta para casa, penso no quão aceitável seria trabalhar por horas extras caso eu estivesse fazendo algo realmente importante, na verdade ficar por um tempo a mais tinha uma indescritível sensação de relaxamento, mas hoje, a última coisa que estou é relaxado.

Eu estava lendo fanfics, eu, um homem de trinta anos de idade.

Naruto tenta entrar em contato durante o trajeto, mas não sinto vontade de atendê-lo por já saber o teor de sua ligação. Ele quer saber o que descobri, e não sei ao certo ainda o que irei inventar para proteger Sakura de suas brincadeiras.

Tudo bem, ela estava burlando trabalho, mas mesmo assim não merecia ser alvo de chacota por isso. Naruto, quando empolgado, era o pior de todos. Ele espalhou o apelido de “maluca do Marketing”, e todos chamam Sakura assim pelas costas.

Em resumo, de Sakura, sinto mais pena do que raiva.

Em casa, tomo um banho quente e visto roupas confortáveis para tirar um cochilo. É frustrante olhar para as minhas espadas e lembrar que pratiquei pela última vez há três semanas, o que era lamentável. Não tenho tido tempo sequer para fazer as coisas que gosto, e a situação não mudaria tão brevemente.

Finalmente estou conseguindo relaxar, usando um controle, diminuo a iluminação do apartamento e tudo que consigo ouvir é o barulho abafado de cidade grande, buzinas ao longe, movimento constante de carros, adoro isso, nada me dá tanto sono quanto o barulho longínquo da civilização.

O celular vibra sobre minha barriga, estou completamente frustrado ao atender. É o Naruto.

O que descobriu? – sua voz está ansiosa por uma resposta que ainda não tenho — Sasuke?

Suspiro, pensando em algo suficientemente convincente. Também penso sobre os motivos de estar protegendo Sakura quando eu poderia demiti-la por justa causa, mas recebi uma boa promessa de mais empenho hoje, e só posso esperar que ela a cumpra, para nosso bem comum.

Ela não quer perder o emprego e tenho todo interesse em não perder tempo e energias analisando pilhas de currículos em busca de alguém para substituí-la.

— Sakura joga pôquer online, no estilo Texas Hold’em. – digo, por fim. É tudo que consigo pensar em meio a tanto estresse mental — É isso.

Ouço um ruído insatisfeito escapar pela garganta de Naruto e é quase palpável a expressão em seu rosto no momento, uma careta de desgosto e frustração por não ser nada assustador, que o garantisse o direito de jogar na minha cara um “eu avisei” jocoso ou mesmo algo que pudesse servir, minimamente, de chacota.

Só isso?

— Só.

Ela não está invadindo o sistema de segurança do Banco Central ou invadindo computadores domésticos por aí? Sakura não está negociando armas com fornecedores na Rússia ou Oriente Médio? Não posso acreditar nisso, está mentindo para mim! – choramingou.

— Enquanto você fala, ela está apurando dinheiro online. Bem, é isso. – preciso parecer convincente. Naruto e eu nos conhecemos desde a infância e, consequentemente, conhecemos os trejeitos do outro.

Foi assim que colamos na escola, assim que arranjamos garotas. Sempre foi assim, e teria sido se houvéssemos cursado a mesma coisa. Eu saí do país por quatro anos para cursar Economia, ele permaneceu e desistiu do curso de Biologia para fazer Administração.

Quando retornei, nossos destinos já estavam traçados. Eu e ele estamos, atualmente, nas mesmas posições que nossos pais estavam antes de confiar uma boa sucessão a nós dois.

Estou me sentindo arrasado. – admite, frustrado. Sinto que alcancei meu objetivo e expiro, aliviado —Bom, acho que vejo você no trabalho. Teremos outras teleconferências amanhã?

— Sim, duas. Esteja preparado.

Não consigo evitar uma risada ao desligar a chamada, Naruto está tão amuado que é perceptível por sua voz.

Suspiro, olhando ao redor. Percebo que, em meses, é a primeira vez que estou entediado, ou talvez eu apenas esteja me permitindo sentir desta forma. Se eu resolver procurar algo para fazer certamente acharei.

Ao invés desbloqueio a tela do celular e não penso em nada além de continuar a ler de onde parei. O capítulo dezessete foi marcado por um momento de tensão entre o personagem masculino principal e sua família. Ele era um andarilho que explorava outros estados sem dar satisfação as pessoas que se importavam com ele, na trama, as mesmas que queriam forçá-lo a um casamento que causaria inegáveis comodidades. Ele conhece Eloise em uma destas viagens e encantado, decide se estabilizar em uma cidade pequena e rapidamente atrai as atenções femininas. É daí que surge todo o erotismo da estória, ele se envolve com algumas mulheres mesmo durante o período em que se descobre afeiçoado por Eloise.

Dá para descobrir muito sobre uma pessoa tendo como base as coisas que ela escreve. Antes de assumir o cargo que ocupo hoje, meu pai me levou a uma viagem de duas semanas, visitamos oito lugares diferentes; não grandes cidades, do contrário, as mais pacatas possíveis.

Quando se está em um cargo de gerência, automaticamente existe uma equipe para coordenar; a habilidade de manipulação é tão necessária quanto é obrigatória. Para manipular as pessoas, é preciso compreendê-las no íntimo.

Eu não tinha interesse em manipular Sakura de forma alguma, mas ela me deixou curioso, e uma das coisas que também me foram ensinadas é que no mundo dos adultos, algo que vale mais do que barras de ouro é a informação, aprendi a debulhar pequenas partes de meu conhecimento para consegui-la.

Eu estava conseguindo informações sobre ela. Estava finalmente entendendo todo o motivo de sua displicência, o comportamento antissocial. Em um poema independente, Sakura contou em quatro estrofes a realidade por trás da frustração que era sua vida, e foi impossível não me sentir incluído.

Eu passei o resto da noite inteira lendo suas estórias, e foi quando decidi que iria até o fim.

A pior parte é que eu não precisava de um grande enigma agora, ainda mais na forma de uma mulher totalmente controversa que leva uma “vida dupla”.

Quando pressiono a opção “enviar pedido de amizade”, sei que farei parte de suas duas vidas e a conhecerei verdadeiramente. E, para ser sincero, não sei ao certo se quero isso.

Estou sendo tolo e certamente me arrependerei amanhã.