Notas iniciais
Olá pessoal, não demorei tanto assim. Boa leitura!

Meu celular vibrou exatamente às onze e cinquenta e quatro da noite de domingo. Estávamos aproveitando algumas bebidas em um pequeno bar no centro de Nikko. São nossas últimas horas aqui, afinal.

Naruto gostava de pensar que era um amigo compromissado, e de fato era. Por isso, ele me acompanhou até a pequena cidade a cento e quarenta quilômetros ao norte de Tóquio, para supostamente assistir o meu treino. Ele sempre tem o final de semana ocupado, sempre vai para o litoral, só que desta vez mentiu, alegando estar sem compromissos.

Mas suas perguntas sobre meu lapso na sexta-feira não deixavam dúvidas: ele está preocupado. Se perguntando se fez algo de errado, pois acha que o omiti algo importante.

E, no entanto, eu não omiti coisa alguma. Exceto que transei com a garota que tinha, talvez ainda tenha sentimentos por ele. Mas realmente não é algo que precise saber.

Eu sou discreto, e tolo, pois esperar que Sakura fosse igual a mim certamente foi de uma ingenuidade sem escrúpulos.

A prova definitiva de que não é uma pessoa tão discreta assim veio naquela mesma noite. Quando eu estava conversando com uma moça local e me aproveitava das pequenas espiadas no celular para ganhar tempo antes de responder.

“Olá, meninas. Bem, primeiro gostaria de pedir desculpas pelo atraso, mas a verdade é que o trabalho tem consumido mais de mim do que deveria.

Eu não pretendia atualizar hoje, contudo, tive um surto de inspiração e precisei colocar tudo no papel. No papel virtual, claro.

Espero que o capítulo compense a demora.”

Respirei com alívio ao perceber que o e-mail recebido não se tratava do meu advogado tentando contato, e sim um novo capítulo postado por Sakura.

Um contraste que eu estava precisando.

Eu queria ler, mas não em um bar. Por isso deixei que Naruto me vencesse no bilhar, para que voltássemos ao hotel o mais rápido possível. Eu queria ler.

Mas eu não teria tomado esta decisão, se pudesse voltar atrás.

Mesmo sem estar interessado nela, eu não teria me despedido da mulher que tentou conversar comigo para ler um agrupamento de sete mil palavras se eu soubesse que me arrependeria.

“Uma tímida risada interrompe o beijo caloroso que trocavam. Frank joga uma cacho de cabelo loiro para trás de sua orelha e a observa sensualmente, e Eloise sente suas mãos tremerem em contato com o peito largo. “Quer sentir o meu coração?” Ele pergunta, e ela está absolutamente mortificada. Sentindo a vergonha esborrar como se fosse…”

É o meu limite. Fecho a tela do notebook com pouca delicadeza e minhas costas deslizam pelo encosto do sofá. Estou à beira de um colapso.

Ela simplesmente colocou tudo que fizemos ontem em palavras, com menos partes inventadas do que eu gostaria, e postou online com nomes diferentes.

— Meu deus do céu. — meus dedos esmagam minhas pálpebras, e eu reflito se vale à pena ou não voltar a ler.

Sakura realmente é uma criatura e tanto. Até poucas horas eu acreditava piamente que já havia visto tudo que podia ver dela, e agora estou aqui, sentado no sofá, surpreso outra vez.

Eu retornaria a neurologista nesta semana em jejum para um exame mais conclusivo, mas ela me aconselhou a dormir o máximo possível. Contudo, Sakura iria me tirar o sono outra vez no mesmo final de semana.

Porque o capítulo foi tão fiel a realidade que não sei distinguir o que é ficção e o que não é. Por exemplo, ela disse que Francis gozou antes da protagonista na primeira vez, e isso é o bastante para me deixar intrigado durante horas. Eu a odeio por isso. Por estar a milhas de distância e mesmo assim arranjar uma forma de me deixar inquieto, e pior, sem ter qualquer traço de consciência disso.

Do contrário, ela provavelmente está dormindo nestas horas.

A pior coisa sobre isso é que dirigirei por duas horas amanhã cedo, ou seja, eu realmente preciso dormir. Eu preciso dormir. Mas dificilmente conseguirei.

A maior probabilidade agora é a de que eu permaneça elucubrando sobre ontem

Naruto entra na sala, nas suas mãos uma pequena porção de pudim. — Eu consegui um número hoje, sabia? — ele questiona, com a boca cheia.

— Bom para você. — respondo. Estou absolutamente distraído.

O lado positivo caso ele percebesse que não estou mentalmente aqui, é justamente não saber de tudo que está acontecendo na minha vida agora. Ele sabe o que precisa saber.

— Foi aquela que nos assistiu jogar por uns dez minutos. Ela estava com dois papeis na mão, ia dar um a você também.

— Hum.

— Mas você saiu bem rápido. Aconteceu alguma coisa? — eu o ouço vagamente, enquanto caminha em direção a janela. Ele já está em seus pijamas, e eu sequer saí do sofá desde que cheguei.

Não confirmo nem nego, aliás, sequer estou prestando atenção nisso.

Eu olho para ele, que está me observando confuso, e não posso evitar o pensamento de que, para mim, agora, ele é totalmente inútil. É cruel de mim estar divagando sobre isso no momento, em especial sobre como eu gostaria de que outra pessoa estivesse em seu lugar.

Qualquer outra pessoa que não se considerasse importante o bastante para me fazer tantas perguntas.

Nós somos amigos, ele é importante para mim, mas isso é apenas demais.

— Você está estranho. Desde a sexta-feira. O que aconteceu?

Eu odeio isso, a insistência por respostas. Ele se comporta como se fosse a minha mãe, repetindo as mesmas perguntas mesmo após ouvir que não há nada de errado.

— Nada.

Suas sobrancelhas quase alcançam o teto, e ele me encara como se eu estivesse usando um chapéu de gambá. — Cara, não me deixe a ver navios assim, certo? Nós somos amigos.

— Sim.

Não estou respondendo assim de propósito, é simplesmente o que acontece quando não quero conversar, eu me fecho. E isso só piorará as coisas. Ele já está assumindo que existe algo de errado, e se eu começar a me comunicar por meio de monossílabos, terá certeza e não me deixará em paz.

— Oh — ele caminha ao redor do sofá em minha frente e se acomoda nele. A cabeça loura se baixa durante o momento em que ele deixa a porção de pudim sobre a mesa de centro, e me olha em seguida — Eu sabia. Como não pensei nisso antes...

Meu cenho se franze, enquanto o assisto dar risadinhas. Nem por um momento a possibilidade de que saiba o que realmente está acontecendo comigo passa por minha cabeça, aliás, a possibilidade mais certeira é que arranje o motivo mais aleatório possível, e independentemente do que seja, eu confirmarei. Só para que me deixe em paz.

— O reality show que a Ino estava participando acabou antes de ontem e ela está voltando para a cidade. É isso, não é?

Eu não estava sequer lembrado disso.

Pressiono os lábios um contra o outro, tentando conter o embaraço que me sobe à garganta. Na verdade, não é nada disso, e pela primeira vez em meses, não estou me sentindo mal por isso. Aliás, me sinto livre novamente.

Durante muito tempo foi como se eu fosse o único a sofrer pelo término do nosso noivado. Eu me senti péssimo por tudo isso, e era pior a cada vez que minha mente acusava que eu era o único. Que ela se tornou indiferente a tudo antes de mim.

Mas agora nada disso é importante.

Não importa o quão reles seja o contato virtual que estou tendo com Sakura, sinto que isso tem uma parcela significativa no que me permitiu seguir em frente. Se ela soubesse o quanto me ajudou, mesmo indiretamente, é provável que não ficaria tão zangada assim, caso um dia descobrisse a verdade.

Os fracassos e os detalhes ordinários de sua vida preencheram a minha cabeça vazia, ocupada apenas por fantasmas de nostalgia que estavam me arruinando cada vez mais. E sou grato a Sakura por isso.

Arriscaria dizer até mesmo que ela tem sido o combustível dos meus dias.

A vaga preenchida de motivação pessoal, outrora vazia, que me faz levantar da cama todos os dias com algo em mente além do trabalho.

— Hum. Ela venceu? — pergunto vagamente.

A verdade é que não estou interessado. Se eu quisesse saber sobre televisão, passaria algum tempo assistindo, e no entanto, não o faço.

— Não é o tipo de programa que se vence. Tudo que ela precisava fazer era aguentar a estadia no campo até o fim.

Eu rio sem qualquer traço de humor. — A Ino de que me lembro abominava este estilo de vida. Estou surpreso e feliz que tenha conseguido.

Suas feições se retorcem em uma careta incrédula, e ele me fita atenciosamente.

— Não precisa falar comigo como se eu jamais houvesse a conhecido. Não precisa bancar o ex solidário também.

Eu sei exatamente aonde quer chegar, e não sei se é algo que me apetece.

— O que quer que eu diga? Eu sou adulto. — limito-me a dar de ombros e tratar a situação com serenidade. Soa mais difícil para ele que eu tenha seguido em frente do que para mim, e isso é algo assustador — Não vai me ouvir amaldiçoar a vida dela para sempre, pelo contrário. Eu quero que ela seja feliz. Vou dizer a você agora a mesma coisa que a disse antes: se para ela foi mais vantajoso ir até lá solteira e manter a carreira em evidência desta maneira em troca do próprio noivado, por mim tudo bem. Eu não perdi nada.

— Não tão bem assim... — sua voz é risonha quando me interrompe, e eu rio também.

— Sim, não falei tão calmamente assim na época e isso não condiz cem por cento com o que eu pensava antes, mas condiz agora. Eu realmente a desejo tudo de melhor.

Ele me encara com o olho esquerdo diminuto. — Sério?

— Sim. Já tivemos esta conversa milhões de vezes.

— Então você falaria normalmente com ela se a visse?

Estou começando a perder a paciência. Já não é o suficiente que vá dormir tendo a certeza de que eu estava pensando na Ino, quando na realidade não estava. Eu também precisarei conversar sobre isso, mesmo sem querer. — Sim, por que não? — eu redarguo, pronto para dar um fim ao assunto. Rapidamente estou de pé outra vez, segurando o notebook fechado.

— Nossa, você é tão maduro. — eu estava pronto para partir com o elogio, mas é óbvio demais que ele não parará por aqui — É a única razão que explica o porquê das mulheres preferirem você.

Não consigo ficar sério, mas felizmente estou de costas para ele. Eu me viro. — Eu tenho olhos azuis e sou inegavelmente mais bonito que você...

— Quem disse isso a você? A sua mãe ou a sua avó?

Eu estou sorrindo, e sequer percebi isso até deixá-lo sem resposta.

— Como se eu precisasse de fanatismo familiar para saber disso. — ele comenta após alguns segundos — Você pode ser mais esperto, mais forte, mas eu sou mais bonito.

Não há uma só discussão mais improdutiva no planeta do que esta. — Claro que é. — eu digo, de forma complacente. É quando dou o assunto por encerrado e apenas volto a fazer meu caminho em direção ao quarto.

Ironicamente, a única mulher que importa de fato, prefere ele.


Eu não estava errado quando concluí que não conseguiria dormir.

Apesar de que é relativamente cedo agora. Apenas meia noite e vinte e três.

Infelizmente, consegui terminar a leitura do capítulo de ontem, e eu também não errei ao presumir que tudo narrado ali fora baseado em fatos reais. Aliás, tão malditamente baseado que eu usaria um outro termo que se ajuste melhor ao que estou falando.

A cena de sexo foi absurda. Ela contou a centenas de favoritos tudo que nós dois fizemos ontem, e não sei ainda como me sinto sobre isso.

Estou invisível no chat agora, e ela está lá. O ícone em vermelho, representando "ocupado".

Jamais estive tão perto de me revelar antes como estou agora, mas o que eu diria? Estou eu em posição de reclamar pela exposição, quando usei de um mecanismo online para descobrir coisas sobre ela que jamais me contaria cara à cara?

A resposta certamente é não.

Mas realmente não estou ofendido pelo que fez, do contrário, este sou só eu pensando demais, classificando como exposição algo que não é nada sequer próximo disso. Na realidade o capítulo de hoje me serve como uma luva. Se tudo ali é tão real, posso tranquilamente extrair informações que ela também não me daria cara à cara.

Injusto? Definitivamente.

Mas pode ser útil. Por exemplo, agora sei que acordou em algum momento durante o cochilo que tiramos, olhou para mim algumas vezes e sentiu vontade de me chupar enquanto eu estava dormindo, mas não o fez.

Esta parte pode ser ficção, mas vou encarar como realidade por agora.

Também encararei como realidade algumas outras partes interessantes.

Sakura se "sabota" tanto que é realmente engraçado.

Leva apenas alguns segundos até que encontre o seu número dentre as chamadas recebidas. Não é difícil achá-lo, quando o horário (duas horas da manhã) é tão singular. Ninguém em pleno uso de sua consciência me ligaria a esta hora, principalmente empregados. Mas obviamente a única coisa que posso esperar de Sakura é o inesperado.

Ela não me atende na primeira tentativa. Eu repito a ligação outras duas vezes.

Alô?

— Oi.

Sasuke. — ela silencia por um pequeno intervalo de tempo, e então ouço sua movimentação sobre algo, o que presumo serem lençois — Alguma coisa aconteceu? — sua voz está rouca, e parece dificilmente sair por sua boca.

— Não.

Está tentando se vingar de mim? Me ligando bem tarde, como fiz com você? — eu consigo detectar facilmente o sorriso em seus lábios agora, enquanto fala isso. Posso quase vê-la.

Jogo o último travesseiro sobre a pilha formada pelos outros dois, e me deito sobre o colchão, apoiando minhas costas à eles. Tanto Naruto quanto eu estamos ocupando quartos comuns, típico de moteis de beira de pista. Ele ficou surpreso ao saber que me hospedo aqui todas as semanas quando há um hotel duas estrelas na cidade.

Mas eu jamais iria para outro lugar. Há uma floresta de coníferas atrás daqui. O dono, um homem de meia idade que come sementes de girassol e anda para todos os lugares com um saco delas no bolso, me conhece há dois anos. Eu sei que ele tem o hábito de caçar, e apesar de não ser uma atividade lícita, preferi manter o silêncio. Ele simpatiza comigo por isso.

— Isso jamais passou pela minha cabeça. — começo a desabotoar minha própria camisa, prendendo o celular à minha orelha com o ombro.

A ouço suspirar, e ela responde com um simples "hum".

Em seguida, estamos os dois em silêncio, e não consigo pensar em como ir direto ao ponto no que desejo. Eu não a liguei para ouvir sua respiração do outro lado da linha.

Eu acredito em você. Não sei o motivo, mas acredito.

Eu não sei como responder, então fico calado.

Sakura se move outra vez sobre a cama. — Achei que eu fosse fazer as ligações...

Ouvir isso faz com que eu solte uma risada.

— Então só eu estou a sua mercê? Nunca o contrário?

Ela fica em silêncio. — Não é bem isso... Bem... Não sei o que falar. — ela limpa a garganta.

Não é difícil perceber que está incomodada pelo assunto. Então eu resolvo mostrá-la que tudo que é ruim, pode, sim, piorar. Ou ao menos que precisa aprender a ficar constrangida apenas com bons motivos para tal.

— Não tem problema.

Obrigada.

— Sakura, — deslizo preguiçosamente sobre o cobertores, e estou deitado agora. Com sorte, a única coisa clareando o quarto é o pequeno abajur ao meu lado esquerdo, do contrário, haveria uma luz muito insuportável em meu rosto agora — foi bom para você?

Ouço a respiração ficar presa em sua garganta, e fecho os olhos. A imagem é absolutamente palpável, ela está com a boca aberta, e a voz tentando emergir e morrendo em sua garganta enquanto procura algo para responder.

O que? Ontem?

— Sim.

Eu pensei... — ela suspira outra vez, e geme de forma nervosa ao exalar — Pensei ter sido compreensível o que eu disse ontem.

E foi. Mas algumas horas depois resolveu lançar um novo capítulo, e as similaridades me fizeram considerar tudo escrito ali como verdade. O que me fez repensar os acontecimentos de ontem.

Eu achei que você tinha percebido os momentos em que eu estava gozando! — ela continua, com a voz sobressaltada.

É a minha vez de não conseguir falar.

— Eu acredito que percebi, mas não há como saber ao certo, você não foi absolutamente vocal. Estava mordendo a falange do seu dedo-

Porque eu estava me concentrando. — ela me corta imediatamente — Nós transamos no horário errado, a rua toda estava acordada e as paredes do meu apartamento são muito finas. — ouço um novo suspiro — Eu passei tanto tempo sem trepar, Sasuke, que tive um orgasmo uns seis minutos depois que você começou. Não estou brincando.

— Por que eu acharia que você está brincando?

Não sei, eu disse com todas as letras que você foi o melhor da minha vida até hoje, e parece que não surtiu efeito algum. Horas depois você me liga querendo saber se foi bom para mim. Então eu sinto que preciso dar ênfase ao fato de que estou falando sério para você acreditar. Até um urso de pelúcia com um consolo colado teria conseguido tirar um orgasmo de mim ontem.

O que?

Ela provavelmente sequer tem consciência do que disse.

Puta merda, ela podia simplesmente ter terminado a frase em "acreditar".

Por favor, me diga que você não me ligou apenas para perguntar isso. — ela continua.

Ela ainda não tem ciência do que disse. E eu podia simplesmente esmagar o celular em minhas mãos.

Sequer tive tempo de ficar aliviado por, de fato, ter mais ficção do que imaginei no capítulo, Sakura diz que "até mesmo um urso" podia tê-la feito gozar, e me sinto um completo imbecil.

Um urso. Um maldito urso podia ter feito o que eu fiz ontem.

Abro os olhos, fitando o teto escuro acima de mim. Apesar de estar realmente agravado, eu tento soar o mais sereno possível. — Você certamente tem mais sorte do que imagina ter.

Como assim, Sasuke?

Meu sistema nervoso estão formigando em total atividade agora. Eu estou realmente zangado.

— Se eu estivesse na cidade, iria até a sua casa agora e foderia você a noite inteira.

Ela limpa a garganta audivelmente. — Bem, você claramente entendeu muito errado o que eu disse. — eu não preciso imaginar que está rindo desta vez, do contrário, eu ouço. Ela se move sobre seu colchão outra vez, e murmura em um tom alarmantemente baixo — Como isso pode ser sorte minha?

Incrivelmente, Sakura virou a situação totalmente ao avesso.

Ela realmente acabara de falar o que estou pensando? No sentido que eu entendi?

Isso é tudo, menos sorte, Sasuke. — ela continua. Sua voz é um murmúrio baixo e sonolento; agora profundo e sedutor que eu não quero ouvir apenas por telefone.

Eu estou xingando Naruto agora, como se ele tivesse um mínimo de culpa por algo que acabei de criar em minha própria mente. Podia ser Sakura aqui ao invés dele, sozinha comigo por um final de semana inteiro, mas ela nunca aceitaria.

Onde você está? — ela pergunta, subitamente empurrando-me para fora de meus pensamentos nefastos.

— Nikko. — massageio minhas pálpebras, inspirando mais profundamente. Por algum motivo estou me sentindo tenso — E você?

É muito óbvio que está em casa, em sua cama. Mas eu preciso ouvi-la falar, para que a conversa alcance o ponto que eu quero.

Não sei o que está acontecendo comigo agora, ou o porquê. Eu lidava naturalmente com sexo há um ano atrás, droga, há alguns meses atrás, quando eu o fazia regularmente.

O problema é que eu tenho evitado contato sexual desde que dormi com uma mulher desconhecida, na noite em que rompi o noivado. O meu foco tem sido o trabalho desde então, e durante o período de tempo em que me tornei solteiro outra vez até agora, não paguei por sexo e tampouco tentava conseguir de graça.

Sexo com alguém que não tinha qualquer relacionamento fixo comigo, depois de quase dois anos com a mesma pessoa, não me parecia mais atrativo. E isso não mudou no momento em que eu conheci Sakura além do profissional, seria mágico demais se houvesse sido.

Pelo contrário, à medida em que a conheci mais de perto, pude contemplar toda a sua personalidade excêntrica e suas histórias de azar com ex-namorados. Isso podia facilmente ter me repelido.

A atração que eu tinha por ela era e sempre foi nula. Apesar de reconhecer o seu rosto essencialmente bonito, eu nunca a vi como algo além de outro nome na ficha de pagamento, sempre coloquei seu péssimo trabalho e minha incapacidade de demiti-la mesmo quando merecia acima de sua aparência, e nos momentos em que eu considerava pensar algo positivo sobre ela, eu recordava que era a maluca do marketing e tudo sumia como pó.

Não, nada aconteceu rapidamente, como um nocaute em uma luta de boxe. Sakura fez o seu caminho, com os merecidos altos e baixos, em direção até a minha cabeça, — às vezes sem sequer ter a consciência disso — e uma vez que conseguiu, eu não consegui mais tirá-la.

Eu estava ciente de todos os seus defeitos e eles passaram a significar nada. Eu quero ajudá-la, conhecê-la melhor e passar algum tempo junto fora do escritório. Eu quero, sobretudo, saber como se sente em relação a mim.

De forma totalmente inconvencional e aberta do que estava fazendo, Sakura me curou do estado dormente que o rompimento havia me colocado, por um período de tempo maior do que o previsto. E eu estou completamente interessado nela.

Estou na balada. Já beijei onze pessoas na última hora, está uma loucura aqui.

— Engraçado. — eu devolvo.

Estou na cama. Hoje foi o melhor domingo da minha vida, eu só passei seis horas acordada.

— Por quê?

Eu estava cansada. Não consegui dormir quando você foi embora, então o cansaço ficou acumulado.

— Por que não conseguiu dormir?

Eu estava fazendo umas coisas. — o tipo de coisas que provavelmente não queria dissertar sobre. Eu posso tranquilamente imaginar o que seja — Você está na cama também?

— Sim.

Nós dois ficamos em silêncio, e tudo que ouço é o crepitar de suas movimentações sobre os lençóis. Os lençóis nos quais estive ontem.

Realmente parece que depois de meses adormecido, algo dentro de mim havia despertado.

— Sakura, o que está vestindo?

Porque eu estou miseravelmente excitado apenas por lembrar do que aconteceu ontem.

O quê? — ela perde o fôlego com a surpresa.

— Eu tenho certeza que você ouviu.

Nós vamos fazer sexo por telefone?

Eu fico em silêncio alguns segundos, refletindo a bobagem que é esta pergunta. — Não.

A ideia já me pareceu mais repugnante antes, mas agora, realmente, não me parece nem perto do suficiente. Se ela insistisse um pouco, eu aceitaria. Ficaria totalmente arrependido depois, mas aceitaria.

Sem a menor dignidade.

Então não vou responder isso.

— Se eu disser que nós vamos, você vai me dizer?

Eu nem mesmo sei como fazer por telefone. Você sabe?

— Apenas responda a minha pergunta. — respondo, completamente impaciente. Espero que ela não tome minha evasividade como uma resposta positiva, no entanto.

Estou usando uma camisa antiga do meu pai, — péssimo jeito de começar. Comprimo os lábios, pensando no quão insensível ela é por mencionar o próprio pai em um momento como esses. Agora estou imaginando um velho de meia idade, e não há como permanecer estimulado com isso. Solto um grunhido da mais pura frustração, e isso parece atrair sua atenção — O que você está fazendo aí, Sasuke?

— Nada.

O que as suas mãos estão fazendo?

Sua reação é perfeitamente normal, já que apenas ouviu, sem saber o motivo da minha reação vocal. Eu sinto vontade de rir, porque imagino seus olhos arregalados e as bochechas coradas, presumindo em seu íntimo o que estou fazendo. — Não estou fazendo nada. Continue.

Está tão velha que se tornou fina. Então a uso somente para dormir. — ela faz uma pausa momentânea, provavelmente achando que vou responder. Mas permaneço em silêncio — Não estou de sutiã.

— Você está nua abaixo da camisa?

Não. Estou usando calcinha.

Céus. É a minha vez de remexer sobre a cama.

— Descreva-a. — eu peço, a voz sai entre meus dentes cerrados.

É branca e... — ela interrompe a si mesma, e então suspira — É branca. E tem o desenho de um gato na parte da frente. Sabe, só o rosto dele, os olhos, as orelhas... o focinho. — sua voz vai decrescendo, e sei que está envergonhada, mas não consigo falar coisa alguma.

Só o que posso fazer é imaginar, e é uma doce visão.

— Nesse caso, eu posso reconsiderar a minha opinião sobre gatos.

Consigo arrancar uma risada errática dela.

Esqueci por alguns minutos que vou precisar olhar para a sua cara amanhã. Por isso nossa conversa foi tão fluída e fiquei tão à vontade.

Eu nem consigo acreditar. — Você chama isso de fluída e à vontade?

Sim. Eu acabei de contar a você que uso calcinhas de gatinhos, então obviamente fiquei bem confortável. Confortável demais para meu próprio bem, e agora preciso enfiar a cara no travesseiro e gritar alguns palavrões, se você me der licença, preciso desligar. Tchau.

________

— Você vai dar a palestra hoje?

Eu estou cansado, malditamente cansado da presença excessiva dele. Todo o tempo entrando na minha sala e me fazendo perguntas sobre o que está diferente comigo, mesmo depois de ouvir as mesmas respostas a cada nova tentativa.

Eu tenho trinta anos e ansiei por minha própria liberdade tempo demais, no entanto, o mundo gira de uma forma tão surpreendente que consegui uma nova babá.

— Não preparei nada. — respondo, ainda sentado de costas para ele.

— Como assim, você não preparou nada? É o cara mais metódico que conheço.

Eu fecho os olhos. Quando estou sob pressão, tudo que preciso é parar e respirar um pouco, e geralmente consigo retomar a consciência. Mas estou realmente impaciente.

Eu sempre aguentei seus excessos de atenção, mas a falta de sono está afetando diretamente o meu humor de formas que fogem ao meu controle. Eu sei disso, e foi exatamente o que a médica disse.

Ela também pediu que eu me mantivesse calmo na medida do que fosse possível.

Estou pronto para me virar e xingá-lo o suficiente para que ele fique com raiva de mim e me deixe em paz por algumas horas, mas Naruto muda de assunto: — O que aconteceu na viagem?

— Que viagem? — cruzo os braços.

— A sua viagem com a Sakura. O que aconteceu? Alguma coisa aconteceu. — seu tom é assertivo, e ele está olhando para algo lá fora através da porta de vidro com as duas mãos nos bolsos.

Meu corpo fica tenso, mas simplesmente finjo indiferença. Ele me conhece, me conhece bem, somos amigos, mas estou dando o meu melhor agora e quando me esforço, nem mesmo ele pode perceber que algo está acontecendo.

É inconcebível a possibilidade de que Sakura tenha o contado o que aconteceu entre nós ontem, por isso considero outras formas que o levaram a descobrir. Talvez Karin tenha o contado, talvez Jiraya tenha o dito que vira Sakura e eu saindo do prédio juntos, à noite, e ele tenha presumido todo o resto.

Talvez eu esteja me antecipando demais. E ele continua a falar, me salvando outra vez.

— Porque ela realmente está trabalhando. Eu não sei o que você a disse, ou se ameaçou demiti-la em Osaka, mas funcionou.

— O que está dizendo?

— Ela provavelmente faliu com todos os jogos de pôquer. Se você não é profissional, uma hora você cai feio. É o que meu amigo jogador de pôquer me disse uma vez.

Eu suspiro, e quando me junto à ele em sua tarefa de espiar pela porta, já estou aborrecido. Tanto Sakura quanto Karin estão falando ao telefone agora, e isso também me surpreende. Elas estão trabalhando. Sakura é a pior funcionária dali, ela usa redes sociais, lê histórias, conversa sobre quadrinhos e faz todo o tipo de atividade inapropriada que foge do meu conhecimento. Então vê-la conversar com clientes e trabalhar é satisfatório. Karin também não está lendo revistas por baixo da mesa.

— Ela até que é bonitinha, você não acha? Talvez eu fale com ela um dia desses.

Ele é tão ridículo que sequer se lembra da maneira porca que agiu quando Sakura o procurou, na festa de Karin.

Meu maxilar tranca e eu preciso continuar lembrando a todos os momentos que ele é meu amigo.

— Naruto. Eu preciso de um momento sozinho para fazer uma ligação.

— Oh, certo. — ele não confronta minha decisão — Estarei em minha sala caso precise.

— Apenas vá embora, estou cansado da sua cara.

Ele ri, sem saber que falei sério.

Naruto abre a porta, mas para antes de sair. Ele me olha.

— Cara, eu não sei o que está acontecendo com você, mas não sou cego. Estou começando a ficar preocupado.

Eu estou cansado de repetir que nada está acontecendo.

Ele fecha a porta e vai embora. Retorno até minha mesa, e com o telefone em mãos, disco para Shizune, que me atende imediatamente. — Sim, senhor?

— Ligue para o Sai e peça que ele libere todo o departamento de marketing uma hora mais cedo para o almoço, não haverá palestra hoje. Anote as ligações, não vou atender ninguém até o meio-dia.

E eu desligo antes que possa retrucar.

Estou inquieto hoje. Em uma hora preciso ligar para meu pai, convidá-lo a vir aqui. Mas o mero pensamento de que preciso ficar aqui até as seis horas da noite é tortuoso, mesmo que eu tenha diversos compromissos.

Caminho até o centro da sala, e observo através da porta. Sakura continua ao telefone, distraída com as próprias anotações. Até que em certo momento ri e esconde o rosto atrás do monitor do computador.

Ela olha para Karin, que estranhamente, também está rindo.

— Santo Cristo... — coço minha própria testa.

Estou abismado. Ela supera as minhas expectativas.

Eu saio da sala, fazendo meu caminho em direção ao balcão no qual Shizune trabalha. Quando chego, ela está tomando anotações de alguém que muito provavelmente queria falar comigo. Faço um gesto rápido para que desligue a ligação imediatamente, e ela me observa de forma agravada.

— Pois não? Algo aconteceu?

— Nada. Me dê o seu telefone.

Sua resposta é um gaguejo positivo, enquanto coloca o aparelho sobre o balcão para que eu o use. — Como você chega até a linha do departamento de marketing?

— Nós... nós só temos acesso a linha do departamento de marketing. — ela responde, inspirando profundamente. As palmas de suas mãos suadas se esfregando contra a saia.

Eu odeio intimidar as pessoas mesmo sem estar fazendo algo que realmente mereça esta reação. Eu gostaria de ser mais espirituoso, ou ao menos aparentar ser.

— Sim, e eu quero saber como posso ouvir as ligações deles.

— Qual o ramal que deseja ouvir?

— Karin Uzumaki.

— Oh — ela empurra a cadeira para trás e fica de pé, caminhando ao redor de seu balcão até estar ao meu lado — o ramal dela é o número sete.

Puta que pariu. — E onde aperto para ouvir? — eu pergunto, meu tom mais pressuroso e ávido do que eu gostaria.

Todo o papo de não querer intimidá-la desce pelo ralo. Estou com pressa.

— Com licença. — um toque suave tira o telefone das minhas mãos, e ela pressiona alguns botões, antes de me entregar o aparelho outra vez. — Aí está. — sussurra.

Pressiono o receptor de voz à orelha, e já estou ouvindo a voz dela.

Shizune continua olhando para mim, e não parece disposta a sossrgar enquanto eu estiver aqui. Iguala-se a um soldado em constante posição de sentido. — Vá preparar um café para si mesma. Dê uma volta no prédio. — eu sugiro.

Ela anui, a confusão pela situação atípica escrita nitidamente em seus olhos, mas não me questiona. Sai imediatamente, e eu me sento em sua poltrona, ouvindo a conversa.

Como previsto, elas não estão trabalhando.

"...depois de colocar a base matte, finalizei com pó..."

"...meu rosto ficou parecendo um solo em erosão..."

"...a minha mãe disse que uma nova farmácia abriu na cidade deles..."

"...o Sui ficou jogando Medal of Honor em casa..."

"...quase esfreguei a bunda na cara dele..."

"...gasto muito dinheiro com comida..."

"...então o Walter disse: "eu não estou em perigo, eu sou o perigo. Um homem abre a porta e leva um tiro, você pensa que sou eu? Não. Eu sou o que bate"..."

Chega, Sakura, não quero ouvir isso. Nós temos outras coisas para conversar.

— Oh, sim, claro. Como se nós já não tivéssemos falado sobre a minha vida pessoal antes. Pelo amor de Deus, conversamos sobre isso a manhã inteira.

Até você mudar de assunto.

— Eu estou mudando de assunto porque não quero mais falar sobre isso.

— Só estou chamando você para sair conosco no sábado. Apenas isso.

— Sim, com você, o Suigetsu e o tarado que fotografa mulheres nuas.

Karin ri. — Ele é muito bom de cama, por isso quero que você o conheça melhor, — ela começa a falar mais alto, o tom de sua voz ainda risonho — não precisa casar com ele!

Como você sabe que ele é bom de cama?

As duas ficam em silêncio, e quando as risadas começam, até mesmo eu sei a resposta.

Que nojo, Karin, ele é um pervertido. Mas não o tipo legal de pervertido, o tipo nojento.

— Existem tipos de perversão?

— Sasuke é um pervertido legal. Ele sabe o momento adequado para ser.

Você só transou com ele uma vez e já sabe disso... Parece confiável.

Minha mão se fecha e eu acerto um murro contra a mesa de Shizune. O impacto faz com que seus pesos de papel caiam, e o teclado também sai do lugar. Nunca tive tamanha dificuldade em segurar um palavrão. Se eu falar alguma coisa, elas vão ouvir e saber que há alguém a mais na linha. Mas mesmo assim, meus dentes estão cerrados e eu estou realmente zangado.

Karin, a prima do meu melhor amigo, sabe que eu transei com Sakura. Eu sou o chefe das duas, dos três, e todos eles estão relatados a mim de formas diferentes.

Sakura não pôde manter a maldita boca fechada.

Eu devia ter sabido disso quando ela mencionou as supostas fantasias da amiga, antes de ontem. Mas por algum motivo não parei para pensar nisso mais profundamente, achei que eram fantasias que servem para qualquer homem, e não para mim em particular. Talvez o sejam, mas mesmo assim, ela não precisava saber disso.

É o suficiente para saber. — Sakura se defende.

Você precisa se lembrar da conversa que nós tivemos na sexta-feira. O Sasuke é apenas o cara que tirou você da seca depois de tanto tempo e a colocou de volta no palco das solteiras.

— Eu sempre estive solteira.

— Mas não o tipo de solteira sexualmente ativa. Você é agora. — ela para e suspira, ouço os ruídos das conversas na sala e papéis sendo mexidos — Sakura, digamos apenas que você conseguiu recuperar a virgindade e o Sasuke a tirou. Você vai voltar à ativa agora, entendeu?

— Eu não sei…

— Você não vai ficar com ele outra vez, você entendeu?

Por que não?

— Porque você vai se apaixonar, Sakura. Por isso. — a linha fica silenciosa — Olha para mim, você entende?

— Entendo.

Você não quer se apaixonar por ele, da mesma forma que você não precisa do fardo de se apaixonar pelo meu primo. Eles são homens muito diferentes, sim. O Sasuke parece ser mais legal que ele? Sim. Sem dúvidas. Mas os dois têm uma coisa em comum: São megalomaníacos quando o assunto são mulheres.

— O Sasuke não teria ficado comigo se ele fosse assim.

Você me falou que o Sasuke te contou que só teve dois namoros sérios a vida inteira, e há um motivo para isso. Toda a conversa sobre não ter tempo é mentira. A verdade é que ele só assumiu duas. E esse é quem ele é. Sakura, ele era noivo de uma atriz famosa no país inteiro… você entende?

Sim.

Ela limpa a garganta. — Certo, então passado esse assunto, vamos continuar. Nós vamos para a HAUS, no sábado à noite. O Kimimaro vai junto, ele gostou de você, a propósito.

— Sim, eu pude perce-

Eu desligo a chamada, porque não quero ouvir mais nada daquilo por um só minuto. Jamais achei que podia me sentir tão esmorecido por uma simples conversa entre elas, mas tudo é um agrupamento horrível de fatores. Primeiro, as duas conseguiram uma maldita forma de escapar à fiscalização de Shikamaru, e como se não fosse o suficiente, Karin Uzumaki fala sobre mim com a propriedade de alguém que conversou mais do que cinco minutos fora do escritório comigo, o que não é o seu caso.

Exalo com irritação, e recolho todos os recados que Shizune anotou para mim antes de sair de sua mesa.

— Algum problema, senhor Uchiha? — é a voz da própria Shizune que me arranca dos meus pensamentos. Eu estava parado na frente da porta para minha própria sala, pensando sobre o que ouvi.

Eu me viro para observá-la, está segurando um pacote de rosquinhas e o copo de plástico em suas mãos exala vapor.

— Sim. Chame Sakura Haruno até a minha sala.


Levanto os olhos da tela do computador no momento em que sinto sua presença. Ela está do outro lado da porta, olhando para mim com aqueles grandes olhos nervosos, como se já soubesse o que eu tenho para falar.

— Posso entrar? — ela murmura, ao abrir a porta e enfiar a cabeça para dentro.

— Entre.

Ela me oferece um sorriso nervoso ao passar para dentro e fechar a porta. Eu empurro a cadeira para trás e me levanto para recebê-la, parando ao lado de minha própria mesa, próximo ao telefone.

Sakura avança dois passos até estar posicionada de frente à minha mesa, ainda em pé, aguardando que eu a ofereça o assento, mas eu a mantenho em postura ereta.

Está vestida em tons variados de azul hoje, a camisa de mangas longas, aberta até o terceiro botão é mais clara que a saia lápis, de um tom prussiano de azul, muito parecido com o da minha gravata. Seus cabelos curtos estão presos em um rabo de cavalo, apenas a franja lhe cobrindo parte da testa. Em seu rosto, uma maquiagem leve, apenas dando um aspecto saudável e corado à sua face. — Sua expressão não é das melhores… — ela comenta, inibida.

Eu não respondo, apenas tiro o telefone do gancho e repito nas teclas a sequência que observei Shizune fazer alguns minutos antes. Agora estou ouvindo Karin Uzumaki verdadeiramente conversar com um cliente, e a ofereço o aparelho.

Suas sobrancelhas se contraem em confusão, mas ela aceita o telefone, e quando o pressiona contra sua orelha, eu assisto a feição em seu rosto cair e se transformar em uma de desespero. Seus lábios se abrem, prontos para falar, mas se calam antes mesmo que o possam fazer.

Eu a ouço engolir em seco com toda a tensão do mundo.

— Você está ouvindo?

Ela limpa a garganta. — Sim…

— Eu também. — tiro o telefone de suas mãos e o coloco no gancho.

Suas mãos esfregam o próprio rosto, — Me desculpa! Sério, mil desculpas. Caralho, é óbvio que isso ia acontecer algum momento-

— Sakura.

— Para deixar registrado: a Karin começou com tudo isso. Não que faça muita diferença, afinal, eu estava falando também-

Sakura.

Ela não está nem aí para meus chamados. — Que parte você ouviu?

— Basicamente tudo.

— Puta merda! Tudo não… Não pode ter sido tudo. — ela caminha de um lado a outro, os dedos entrelaçados a sua franja, empurrando-a para trás — Eu… eu juro que ela não vai contar a ninguém, o Naruto não vai saber do que aconteceu.

Depois de toda a ladainha que Karin disse sobre mim, eu fico surpreso que isso é tudo que a preocupe agora. — É o melhor.

— Eu estou me sentindo uma merda agora, de verdade. Meu Deus, como se a conversa que tivemos ontem não fosse o suficiente, agora isso…

— A conversa que nós tivemos ontem não é nada perto disso. — eu respondo, tentando manter a serenidade em contraste ao nervosismo e histeria que permeia sua voz.

— Eu não sei o que é pior.

— Por que você tinha que contar a ela, Sakura?

— Porque eu preciso dela! Eu preciso dos conselhos dela, tudo bem? Ela tem mais experiência do que eu, sabe o que está falando. Ela me ajuda.

— É mesmo? No que os conselhos da Karin ajudaram você até agora? Me chamar no meio da madrugada foi um dos conselhos dela, e foi um fiasco. Agora isso, conversar pelo telefone no trabalho, outra invenção dela. Eu estou aqui reprimindo você pela milésima vez por falhas no serviço. Com o que ela ajudou você, Sakura? — minha respiração acelera, e tenho de me esforçar para mascarar a raiva que estou sentindo. A vulnerabilidade que irradia de Sakura agora é tão desconcertante que eu não posso simplesmente descontar tudo nela.

Ela não me responde. Então eu tento outra vez. — Você acredita no que ela disse?

— Sobre o quê? — ela questiona, amuada.

Eu dou um passo até estar parado em sua frente, no pequeno espaço entre seu corpo e a mesa atrás de mim, na qual apoio meus quadris. Estou a observando de frente agora, ou melhor, a raiz de seu cabelo, já que está de cabeça baixa. — Sobre mim.

— Eu não sei, — ela ergue o queixo, e seus olhos estão finalmente nos meus — em parte sim, em parte não. Não sei o que pensar, acho que eu só queria uma segunda opinião para direcionar as minhas atitudes com você.

— Claro, porque é preferível saber de Karin o que ela pensa sobre mim ao invés de me perguntar diretamente o que quer que deseje saber.

— Não é assim…

— Então como é?

— Eu não sei, sabe. Isso para mim é simples, mulheres às vezes falam sobre homens, nós estávamos fazendo isso.

— Você acha que de quem eu fui noivo antes deve definir quem eu sou para o resto da vida? Você acha que Karin me conhece o suficiente para fazer tantas suposições sem sentido sobre mim? — seu olhar é angustiado, e ela parece totalmente deslocada quando sinaliza negativamente com a cabeça à minhas perguntas — Você acha que eu teria chegado tão longe assim se não estivesse realmente interessado por você?

— Não, eu não acho, porque eu defendi você! — ela protesta, a voz trêmula e acrescida, fora de controle. — Além disso, eu não pretendia levar a sério o que ela disse.

— O que isso quer dizer?

Ela olha para trás durante um momento, e logo seus olhos estão nos meus outra vez. — Eu ia ligar para você hoje. — ela sussurra.

— “Ia”? — eu testo — Mudou de ideia?

Ela começa a sorrir de um jeito torto e sensual enquanto abraça a si mesma, esfregando os próprios braços. — Não sei, quem sabe…

— Você sabe.

Não me apoio mais à mesa, estou em pé na frente dela, que arrisca um passo para trás, e eu dou o meu para frente. Minha mão esquerda toca a sua cintura, e eu a trago gentilmente até que ocupe o lugar que eu estava antes.

O que é vantajoso, caso alguém passe pela porta, verá apenas as minhas costas.

Sakura está me olhando em silêncio, mordiscando discretamente o centro do lábio superior.

Nós estávamos brigando há pouco, e agora eu estou imaginando coisas incríveis para fazermos bem aqui.

— Eu ia, mas, bem, as coisas mudaram. Nós acabamos de brigar, e…

— Brigando? — franzo as sobrancelhas, tentando disfarçar o cinismo no que pretendo dizer — Nós não estávamos brigando. Era apenas um…

Enquanto procuro palavras para complementar o sentido que eu mesmo estou criando para o que foi, talvez não das mais expressivas ou impactantes, mas decididamente foi uma briga.

Ela ergue as sobrancelhas em um desafio.

— Uma divergência de ideias.

— Oh, claro, — ela não parece nada convencida, mas o sorriso que está tentando esconder comprova que vai apenas seguir a minha onda — se você está dizendo, provavelmente é verdade.

Não respondo, apenas me inclino em sua direção. Minhas duas mãos apoiadas nas bordas da mesa, uma a cada lado de seus quadris. Eu quero tanto beijá-la agora que sequer passa por minha cabeça ir até a porta e puxar a persiana para baixo, como medida de segurança. Não, eu não quero interromper isso.

Nossos lábios se tocam, mas ela se afasta minimamente em seguida, os olhos grudados aos meus. — O que você estava fazendo ontem, enquanto conversávamos ao telefone? — ela sussurra, e seus dedos passeiam pela extensão da minha gravata.

— Imaginando o que eu não pude ver.

— Como assim?

— Você deixou muito para a imaginação.

Toda a confusão estampada em seus olhos some quanto ela consegue entender o que estou falando. Sua mão livre está em meu rosto, os dedos deslizando lentamente por minha mandíbula.

Sakura nunca tirou toda a roupa, ela permaneceu com ao menos duas peças de roupa mesmo enquanto nós fizemos sexo, e por mais que tenha me incomodado, ela nunca me deu espaço o suficiente para tirá-las, porque estava tão urgente que não queria perder tempo sequer com isso.

Bem, eu sinto a urgência agora.

Eu a beijo outra vez, ávido o suficiente para não lhe dar espaço a tentar falar outra vez. Enfio os dedos em seu cabelo e a trago para mim, e meu corpo se une ao seu de modo que seus seios estão esmagados contra o meu peito.

Eu ouço um gemido abafado quando me afasto para beijar seu queixo e maxilar. É a primeira vez que não se encolhe mesmo que minimamente quando o faço, pelo contrário, sua cabeça pende para trás, me dando melhor acesso, e ela insanamente se senta sobre a minha mesa.

A minha mesa de vidro.

— Por que nós… — ela interrompe o que eram apenas os ruídos dos meus lábios beijando a sua pele. Sua respiração entrecorta violentamente em sua garganta, antes que possa continuar — Por que nós não podemos ser como pessoas normais, que fazem em uma cama?

Não posso conter uma risada. Minha boca alcança sua orelha, e eu a respondo: — Nós não vamos fazer nada aqui.

Suas mãos trêmulas por ansiedade abandonam seu agarre em minha gravata, e ela procura o meu olhar, com incompreensão explícita nos olhos. — Por que não?

— Porque você disse a Karin que não ficaria comigo outra vez. — eu respondo, rouco, esfregando a ponta do meu nariz em sua pele sensível. Ela cheira muito bem.

— Eu não estava falando sério.

— Bem, eu não tinha como saber, tinha?

— Eu — suas duas mãos agarram o tecido da minha camisa, puxando-a para fora das calças — não estava — ela começa a puxar a fivela do meu cinto, desfazendo-o — falando sério. Eu estava falando o que ela queria ouvir.

— Não faça isso… — eu peço, sem o mínimo traço de firmeza em minha voz. Espero que entenda que estou me referindo a tirar minhas roupas dentro desta sala, onde qualquer um pode entrar, a qualquer momento. Onde qualquer pessoa pode ver através da porta — Droga, Sakura… aqui não.

Ela suga meu lábio entre os seus mesmo enquanto eu estava falando, sua língua me provocando até que eu a chupe, e então seus lábios se abrem por contra própria, me levando a tirar o máximo proveito. Nós nos beijamos de novo, ainda pior, ainda mais luxuriosamente.

Eu sinto ondas pulsantes de calor se espalharem dentro de mim. Merda, eu estou tão duro que me parece incrivelmente viável jogar tudo ao alto e correr os riscos de ser pego.

— Não aqui. — eu insisto. A falta de convicção em minha própria voz me soa doentia. Me leva aos momentos em que eu estive assim antes, tão perigosamente a mercê de uma mulher, e como sofri pela forma que acabou. Isso é tão fodido, tão arriscado em todos os sentidos possíveis que eu provavelmente vou precisar pensar sobre o que estou sentindo outra hora.

Ela suspira, seu peito sobe e desce pelas inspirações profundas, e me olha durante todo o processo. — Tudo bem, — ela esmoece — por que não?

Aqui precisaria ser rápido, e eu não quero rápido. Eu quero o oposto de rápido.

— Porque você vai voltar para casa comigo.

— Casa? — ela junta as sobrancelhas, confusa. — Você não pode ter gostado tanto assim da minha…

— Meu apartamento. — começo a ajustar meu próprio cinto — Você vai dormir comigo hoje, entendeu?

Não posso distinguir a expressão em seu rosto agora, principalmente porque minha atenção está alternando entre meu cinto e sua face. — Sim. — ela anui.

— Agora volte ao trabalho. — ela faz que sim com a cabeça, e começa a fazer seu caminho em direção à porta. Percebo a ausência de firmeza em seu andar, e sei que suas pernas estão oscilando. Mesmo assim, ela tenta aparentar estabilidade, e seus dedos puxam a franja curta para trás, arrumando o próprio cabelo desajustado. — Ao trabalho. — eu remarco, lembrando-a que tenho maneiras de descobrir se não estiver trabalhando.

— Claro.

Com meu cinto preso outra vez, eu caminho até a porta para acompanhá-la.

Observo-a caminhar em passos curtos até seu destino, e chego mais para o lado, para ter uma visão diagonal de Karin, que está escrevendo, ainda ao telefone.

É engraçado pensar em sua crença de que Sakura realmente falou sério sobre não ficar comigo outra vez, e no entanto, nós vamos dormir juntos hoje outra vez.

E a antecipação já está me matando.



Notas finais
Um abraço. Até a próxima!