Notas iniciais
Olá olá, voltei! Boa leitura!

Karin está inconformada, e francamente, posso entender seus motivos.

— Sim, mas por que você? Por que não eu?

Eu poderia falar a verdade, dizer que o único critério do Sai foi indicar quem não era uma megera com ele o tempo todo, mas milagrosamente consegui pensar em algo melhor.

— Porque você é prima do vice-presidente, já conseguiu um emprego aqui por causa disso, e se fosse promovida a executiva todos desconfiariam. — respondo, virando o monitor em minha direção.

Não estudei a pauta que Sai me entregou na sexta, e mesmo assim consegui fazer uma apresentação medíocre.

Reconheço que se houvesse a necessidade de escrever uma palavra em minha testa, esta seria “medíocre”, mas eu considero ter conseguido falar, mesmo gaguejando, uma coisa boa quando se trata dele, o meu chefe, que fala em público como ninguém e ainda consegue ensinar a suas funcionárias desmioladas o que é PIB.

— Hum, entendi. – ela parece satisfeita com a explicação, algo que eu poderia tranquilamente agradecer a meu nem tão aguçado intelecto.

A internet não é tão inofensiva quanto parece. Certo, é um oceano interminável de maravilhas, possibilidades. Em um dia, estive em São Petersburgo, uma hora depois, vislumbrando as lindas casinhas coloridas de Bergen, na Noruega. Posso ir para onde quiser sentada em minha cama, com John em meu colo. Eu adoro a internet, mas não agora.

Como posso me concentrar em obedecer às dicas de Sai e aprender sobre a empresa do senhor Yahiko, se Naruto acaba de ser marcado em uma nova foto?

Não sou uma pessoa muito concentrada ao trabalho, mas Naruto é meu vice-presidente, é necessário para o bom desenvolvimento no serviço estar por dentro das últimas informações de sua vida, ou seja, tecnicamente é trabalho.

Lindo. Não estou dando importância para a vagabunda que está abraçada a ele e usou dois corações como legenda na foto, longe disso. O sorriso estonteante mantém meus olhos focados unicamente a seu rosto esculpido, e imagino nós dois juntos. A sala, totalmente arejada, repentinamente se torna mais quente.

Não sou a melhor escritora do mundo, mas meu ponto forte são descrições. Frank é exatamente igual a ele, fiz questão de transcrever cada pequeno detalhe para o Word e mesmo assim recebi pedidos, de leitoras, ansiando por uma visão mais realista de Francis.

“Autora, como devemos imaginar Frank? Há algum famoso que se pareça com ele?”

Quase chorei de frustração quando cheguei à conclusão de que não seria apropriado enviá-la uma foto de Naruto Uzumaki sem camisa, o peitoral bronzeado brilhando, de férias no verão passado em uma lancha, no litoral. Eu vi todas as fotos dele, de todos os álbuns, esta foi indiscutivelmente a melhor de todas, e foi difícil escolher.

Tudo bem, Francis era um viajante, barbudo, com pelos no peitoral, era bruto e muito masculino. Naruto, outrora, não tinha um só rastro de pelo facial e analisei seu peitoral bem o bastante para notar que também não tinha pelos ali.

Mas eu ainda enviaria sua foto a todas as minhas leitoras, se pudesse.

Estou inspirada outra vez e preciso escrever. Prometi que me dedicaria ao serviço por causa da promoção, mas o trabalho pode esperar, a inspiração de um artista não.

Trago a cadeira para mais perto da mesa e estralo os dedos; que algum santo me ajude, pois concluirei o capítulo no trabalho.

Olho para Shikamaru e ele está trabalhando duro. Com o telefone apoiado entre a orelha e o ombro, digita como se sua vida dependesse disso.

Percebo que não mereço ser promovida, afinal, enquanto os dedos dele digitam dados, os meus escrevem ficção.

— Suigetsu disse que gostaria de ter tido mais tempo para conversar com você. — ela diz, com um sorriso orgulhoso nos lábios.

— Sim, fica para a próxima.

— Eu disse a mesma coisa. E Naruto, como foi com ele?

— Não sei o que fiz de errado, ele foi grosso.

Desvio a atenção do computador em direção a ela, que parece frustrada com minha resposta.

— Está tudo bem, nem sempre temos sorte, talvez ele estivesse estressado. – forço um sorriso. É inevitável não ficar deprimida com a lembrança da minha abordagem fracassada.

— Estressado? — ela nega com a cabeça — Sakura, você é muito inocente.

— Prefiro pensar assim.

— Por que você não procura outros homens legais? O Sai por exemplo...

A interrompo antes que continue com aquela besteira. — Um, o considero como um irmão, seria quase incesto. Dois, mesmo que o motivo um não existisse, ele é bonito demais para mim, eu sei o meu lugar...

— O Naruto não é bonito demais para você, então?

— Menos quando se trata do Naruto, você não me deixou concluir.

Ela apenas ri e resmunga um nocivo “você está cega por ele”, o que não condiz com a realidade.

Prometi a mim mesma que não me interessaria por homens outra vez até por os pés neste prédio pela primeira vez e dividir um elevador com ele. Lembro que ele estava falando ao celular e parecia ser ocupado, mas foi educado o suficiente para me desejar “bom dia”.

Foi quando enlouqueci pela voz dele.

Cinco mil palavras. Pergunto-me se é muito ruim postar aquele capítulo durante o expediente, mas lembro que estar no trabalho nunca me impediu antes.

Sequer preciso fazer o login, minha conta já está salva e sou redirecionada diretamente a minha página. Apenas duas notificações novas, que deixo para ver depois. O capítulo novo é minha prioridade.

Sinto vontade de ouvir música e me abaixo para procurar os fones dentro da bolsa. É o momento em que Sai e Sasuke decidem passar pelo departamento. Estou decidindo o que fazer, se devo corrigir a postura e ficar olhando para o computador (cuja página inicial é um site de fanfics) ou se permaneço encolhida por baixo da mesa, como se algum objeto houvesse caído e estou naturalmente abaixada para pegar.

Decido continuar abaixada e esperar que passem, mas um par de sapatos aparece em minha frente e minha temperatura corporal cai drasticamente.

— Sakura. — fecho os olhos.

Jogo o cabelo para trás da orelha e me endireito na cadeira.

— Olá, senhor Uchiha. Como posso ajudar? — minha voz está trêmula, e giro a cadeira de frente para ele.

Droga, ele está olhando para a tela do meu computador; minimizo a janela rapidamente e a foto do Naruto com a vagabunda desconhecida aparece. Sufoco um grito e meu dedo indicador começa a apertar o botão do mouse freneticamente.

Enfim, a paisagem de gatos que coloquei na área de trabalho aparece e é quando me viro em direção a ele, minha garganta se fecha e minha boca está tremendo quando tento forçar um sorriso.

— Vá até minha sala no fim do expediente.

Ele sequer conclui a frase e parte em direção a saída. Sai se aproxima de mim com tensão, enquanto observo meu chefe sair, passar pelas portas de vidro e entrar no elevador.

Sai se agacha ao meu lado, apoiando o cotovelo sobre meu ombro quando me curvo para igualar nossas alturas.

— Sasuke irá com você. — ele sussurra entredentes, forçando um sorriso dissimulado quando Karin nos observa com curiosidade.

Sinto vontade de engasgar. Estou decepcionada.

O observo com fúria e resisto ao ímpeto de empurrar sua cabeça contra meus joelhos fortemente.

— E o nosso combinado? Você prometeu...

— O que você queria que eu fizesse? O cara é o presidente.

— Ele quer me ver fracassar pessoalmente.

— Você vai se sair bem. — ele beija o topo da minha cabeça e sai.

Aquilo me traumatiza.

O único problema não é perder a chance de viajar com minha maior paixonite, e sim que Sasuke, ao menos em meu ponto de vista, seria bem mais exigente. Ele também parece indiscutivelmente mais ameaçador que Naruto. Ambos conseguem me deixar desconfortável; eu gostava de um deles, e o outro me dava medo.

Perdi o ânimo de estudar sobre a empresa de Yahiko e as notas fofinhas que planejei escrever para meus leitores se tornou um “boa leitura”.

Com Sasuke o grau de dificuldade aumentava bastante, e eu já era o “azarão” da situação.

Ao meio dia, saio para almoçar. Com o capítulo já postado, nada me prende ao escritório, então posso sair com Karin para comermos alguma coisa juntas.

Insisto para que comamos em uma doceria. Minha vida já está salgada o suficiente, em especial depois da notícia horrível que tive mais cedo. Preciso me empanturrar de algo doce para que meu humor seja recuperado. Só que Karin, agindo como uma insensível ao meu sofrimento, insistiu que queria almoçar de verdade e me deixou sozinha.

Como não há alguém para fiscalizar a quantidade de comida que vou ingerir, como dois tipos diferentes de torta e ainda saio tomando um sorvete com calda quente. O “almoço” perfeito, que restaura meu ser.

De volta ao departamento, estou diante da maior lista de números – em letras miúdas – que vi na vida. Preciso ligar para todos eles, repetir um texto cansativo sobre o quão oportunos são os nossos consórcios, a quantidade de impostos que estarão isentos, as qualidades dos automóveis e ainda tolerar mau humor alheio respondendo educadamente.

Das duas horas da tarde até as três e quarenta e um, conversei com aproximadamente trinta e cinco pessoas, sendo que apenas onze delas disseram ter visto alguma vantagem no consórcio que eu estava oferecendo e aceitaram procurar uma concessionária para mais informações. Nove desligaram durante o meu discurso. Três disseram que não estavam com tempo para aquela conversa. Dez ouviram até o fim e agradeceram, porém não tinham interesse. Dois me mandaram ir à merda.

Olho para a lista marcada em vermelho para os números que contatei e percebo que ainda faltam vinte e sete clientes em potencial. Estou com vontade de tomar um remédio letal e morrer.

Bocejo, lembrando que sempre há o dia seguinte. Minha cabeça trabalha por desculpas esfarrapadas que aliviem minha preocupação em acumular algumas ligações para o dia seguinte, e o fato de estar em desordem mental pela descoberta de que não passarei algumas horas em um voo com Naruto e em seguida dividiremos elevadores, conversas, quem sabe até o mesmo andar em algum hotel chique, me parece o suficiente.

Acesso minha fanfic para conferir se recebi algum comentário. Seis. Já tenho algo mais interessante para fazer.

Frank é o viajante bruto mais doce que já vi. O único ser vivo com uma vagina que ele deixou de comer nesta estória foi a anciã – por motivos óbvios – e mesmo assim consegue se apaixonar pela retardada que demorou a entender seus sentimentos, enquanto outras tão bonitas quanto compreenderam suas intenções de primeira e viram seus colchões vazios ao acordar, enquanto a moça sonsa recebe café da manhã na cama. Ele realmente gosta de desafios, até os mais tediosos.

Deixe-me adivinhar... agora que passaram a noite juntos, ele vai fazer alguma coisa idiota?

Faço um exercício de respiração ao ver a foto preta no canto da tela, seguida pelo majestoso exemplar de comentário. Ao menos me deixou dez estrelas.

Agora eu teria que mudar meus planos anteriores só por causa de seu comentário inútil. Jamais o daria o prazer de acertar.

Vi que foi deixado há quatro minutos e imediatamente fico online no chat, procurando-o. Ele está lá.

Quem diria, a primeira vez que puxo assunto com ele.

“Seu comentário foi bem, digamos, estúpido”

Encaro a tela ansiosamente, esperando que responda.

“Não acontece propositalmente, só escrevo o que penso. Oi.”

“Seus pensamentos são estúpidos”

Ele está demorando a responder, imagino que esteja ocupado, mas quero manter a conversa mesmo assim, não me importo com seus compromissos.

“Uau” Antes que eu possa pensar algo como ‘só isso?’, ele volta a escrever, “Acho que é melhor não conversarmos hoje, você está insuportável, vamos acabar brigando e não é algo que eu quero que aconteça”

“Não estou insuportável, só quis falar que não gostei do seu comentário”

“Então eu acertei, ha. Posso apagar, se quiser.”

“Eu poderia ter apagado se quisesse, mas acredito na liberdade de expressão”

“Certo, então o comentário continua...”

“Sim”

“Você vai responder?”

“Não.”

“Você está estressada, Sakura?”

Observo a mensagem dele e paro para pensar. Estou?

Estou. Se eu visse Naruto agora, certamente choraria.

Tenho mais medo de Sasuke do que dele. Apesar de sentir vontade de impressioná-lo, eu certamente me sentiria menos pressionada se fosse ele.

“Recebi uma notícia não muito boa hoje. O chefe errado viajará comigo”

“É mesmo? O chefe errado?”

Que deprimente. Eu estava desabafando minha frustração com um homem desconhecido. "Sim, meus planos eram viajar com o homem que me deu o fora, na festa”

“E queria viajar com ele mesmo assim? Não tem a autoestima muito alta, tem?”

Aquela era uma pergunta e tanto. Se pensasse bem, ele tinha razão.

“Infelizmente você tem razão. Acho que a culpa é minha”

Por que seria?”

“Todas as minhas experiências com homens foram ruins, sabe. Nunca falei com alguém sobre isso, tenho revivido meus fracassos ultimamente e acho que estou enfrentando os resultados.”

“Falar com estranhos às vezes é melhor do que com conhecidos”

Eu deveria me abrir com ele? No trabalho? Ficar emocionalmente instável não seria de muita utilidade agora, mas parando para pensar, meus casos são mais desgraçadamente cômicos do que depressivos, ou talvez uma mistura deprimente de ambos.

“Meu primeiro namorado foi horrível, acho que ele não gostava de mim de verdade, não era um companheiro, não suportava ouvir meus problemas e queria toda a atenção para si. A última coisa boa que ele poderia fazer – trepar –, fazia mal. Você sabe o quão frustrante é estar passando pela dor absurda que é perder a virgindade e precisar ouvir um porco relinchando em cima de mim enquanto perguntava de cinco em cinco segundos “acabou?”, “Sakura, acabou?”. Poucas coisas são mais broxantes que isso.”

Lamento”

“Depois de um ano ganhei um pouco de vergonha na cara e rompi com ele, que sequer me procurou depois. Fui para a faculdade e lá arranjei um outro namorado, com esse fiquei pouco tempo. Achei que seria melhor, sabe, pensamentos imaturos no auge dos meus dezoito anos. “Universitários devem trepar melhor, se importar mais com a parceira”, decepção, caos, outra vez. O pior não é isso, eu fui traída. Posteriormente tive outro namorado, um cara mais velho que eu, monitor, nos últimos meses de curso; ELE TINHA UM FILHO. Um filho, e esperou que eu descobrisse ao invés de me contar com antecedência e permitir que eu tomasse a minha decisão de direito. Você entende? Nunca tive boas experiências com homens, estou depositando minhas últimas esperanças em meu vice-presidente.”

“E se ele decepcionar você?”

“Desistirei dos homens e tentarei com mulheres”

“Tentador”

“É brincadeira. Se eu sentisse atração por mulheres meus problemas seriam bem menores. Homens são muito frustrantes às vezes.”

“Talvez você esteja procurando nos lugares errados”

“Que lugares eu deveria procurar? Devo mudar de país?”

“Se o seu maior problema é o sexo ruim, talvez devesse abrir sua mente em relação a relacionamentos casuais. Até agora, pelo que me disse, só fez com caras com quem tinha algum compromisso sério, talvez seja isso”

“E por que é tão difícil encontrar um homem que queira um compromisso sério e seja bom de cama?”

Eu não sabia se deveria enviar isso quando escrevi, mas pressionei o “enter” e agora estou arrependida. Estou me abrindo a um desconhecido, é impactante, nunca fiz isso antes. Nunca desabafei minhas frustrações desta forma antes.

“Não sei o que dizer. Você fala como se nunca tivesse tido um orgasmo”

“E nunca tive”

“Fala sério...”

“Esta é a verdade nua e crua. Estou me abrindo para você como pediu que eu fizesse. Quer brindar virtualmente o meu fracasso? Vamos em frente, mas em minha defesa, sou mais uma entre milhares, milhões de mulheres que passam por isso, mesmo com parceiros”

“Talvez eu seja a resposta para seus problemas”

Leio aquela frase várias vezes a cada minuto. Giro sobre minha cadeira sem saber como reagir. Quanta ousadia, eu não estava esperando por isso.

“Olha” Não consigo articular mais nada além disso, estou pensando em várias coisas, mas minhas mãos estão travadas, estiradas sobre o birô. “Não sou muito chegada em sexo virtual, mas se você pratica este tipo de coisa, tem todo o meu respeito, do fundo do coração”

“Não quis dizer virtualmente”

“Isso é sério?”

“Bem, eu não estou rindo.”

“Você está tirando uma com a minha cara, já entendi. Tem um senso de humor incrível, mas não é porque sugeriu os relacionamentos casuais que imediatamente aceitei a ideia, além disso, você é... bem, eu nem sei quem você é”

“Então você considerou a ideia e o único problema é não saber quem sou?”

Ele está me colocando contra a parede.

Céus, minha testa está suando.

“Não foi bem o que eu disse...”

“Eu entendo. Você pode não se sentir atraída por mim e vice-versa, é complicado. Por sorte eu realmente estou apenas tirando uma com a sua cara...”

Consigo expirar tranquila. Eu deveria estar decepcionada, aliás, estou, mas o alívio sobrepõe qualquer outro sentimento.

“Até você? Pelo visto sou o saco de pancadas preferido dos homens do mundo. Pelo menos tenho John”

“Quem é John?”

“John é o amor da minha vida. Nunca me decepcionou, e o melhor de tudo: ele é um gato!”

“Sei...”

— Entre, por favor.

Estou exausta. Com sorte, tive tempo de concluir as vinte ligações restantes e só consegui sete respostas positivas, o que pode ser considerado bom, mas foi bem menos do que eu esperava.

Entrar na sala de Sasuke me remetia a momentos ruins. Estive lá sob ameaça de demissão, e mesmo que eu imagine que não seja o caso agora, me deixa tensa mesmo assim.

Sua sala está iluminada, afinal, mesmo a imensidão de luzes da cidade não é o suficiente para clarear o local durante a noite. Tenho certeza que sem as luzes sobraria apenas uma meia luz difusa que não é suficiente para o trabalho.

— Sim, senhor. — me acomodo na cadeira que ele aponta, do outro lado de sua mesa.

Sasuke está fazendo pequenas acrobacias com a caneta entre seus dedos quando me olha, e passa bons segundos assim, me fitando em silêncio.

Por sorte ele não pode ver minhas pernas se movendo impertinentemente abaixo de sua mesa, que recordo, é de vidro. E agora ele está olhando para minhas pernas, o que faz com que eu pare.

Expiro, tensa.

—Bem... — ele inicia, olhando em meus olhos — Sai já me informou que está inteirada sobre o assunto que remete à promoção. Estou procurando um executivo.

— Já estou sabendo.

Decididamente não foi um momento adequado para interrompê-lo. Ele me fita, e quando tudo fica silencioso, volta a falar.

— Espero que esteja estudando sua parte. É importante que tenha domínio da campanha, e estou separando detalhes sobre os acordos que desejo fechar para preparar materiais semelhantes para você e Shikamaru. Terão a mesma base, e desenvolvimentos diferentes. Quanto mais autêntica for, melhor, mas vou ter tempo o suficiente para dar bons conselhos a você.

Anuo.

Ele cruza os dedos sobre a mesa, sem desviar os olhos dos meus.

Sempre tive dificuldades em lidar com pessoas que conversam olhando nos olhos. Naruto sempre desviava a atenção, talvez por isso eu tenha sido tão tagarela, mas com Sasuke, qualquer palavra que passava por minha cabeça soava absurda.

Parecia que se eu citasse as últimas empreitadas de Elinor Ostrom (o único economista famoso que conheço, e que parece aclamado) seria motivo de vergonha mesmo assim.

Ele estreita os olhos. — Espero que tenha passaporte.

— Eu tenho, mas nunca precisei dele.

— Vai precisar agora.

Aquiesço, anotando mentalmente que “precisarei de um passaporte”. Tudo que ele diz parece importante.

Sasuke passa a mão pelos cabelos escuros e o observo com atenção, é difícil não olhar quando um simples gesto é feito com charme natural. Ele está com a barba bem feita, como eu supus que estaria, e parecia ter sido vestido por deuses.

Os homens por aqui parecem ser bons demais para mim, isso é completamente frustrante. Como se eu vivesse em uma dimensão abaixo deles, não fosse digna.

— Eu a chamei para passar alguns dados superficiais do nosso roteiro de viagem, ainda não estou por dentro de tudo, e principalmente saber se é do seu interesse viajar ou não. Apesar de ser uma boa chance, não quero que se sinta obrigada.

— Eu quero ir. — pareço mais confiante do que realmente estou. É Shikamaru Nara, afinal, o homem mais inteligente de todo o departamento. Seus assuntos em conversas eram tão complexos e ele usava palavras tão difíceis que ninguém socializava com ele com medo de terem seus QIs comparados ao resultado espetacular dele em algum teste feito na internet.

Mas eu, com conhecimento medíocre sobre o mundo e as ciências, vou concorrer com ele.

— Espero que passar algum tempo a mais aqui não a atrapalhe, mas estou feliz que poderei contar com você, faremos uma boa viagem e espero que se saia bem.

Ele não parecia feliz. Indiferente talvez, como se a empresa sequer fosse dele. Muito sério, mas não feliz. Acho que ele manteria aquela expressão facial até se ganhasse uma cesta de chocolate... Talvez ele nem goste de chocolate, mas mantenho o meu ponto de que ele não é uma pessoa expressiva. Sasuke pode parecer tudo, menos feliz “que poderá contar comigo”. Eu desisto de tentar entender este homem.

Notas finais
Até quarta-feira!