Notas iniciais
Boa leitura.

— Odeio a avaliação. — digo, atravessando a sala em direção a uma cadeira — Qual a finalidade disso?

Nada como uma rápida, embora tediosa avaliação semanal. Cheguei ao serviço radiante hoje, afinal, Naruto me aceitou no Facebook e mesmo que isso signifique muito pouco, eu quero passar horas olhando todas as suas fotos.

— Sakura, você é minha válvula de escape aqui, por favor, não me force a repetir o discurso, certo? — ele suspira, acomodando-se em seu assento. Apoio os cotovelos à mesa e ele folheia uma caderneta de Revisão de Avaliação dos Funcionários — Sasuke tem me pressionado a fazer uma boa avaliação. Hoje ele me enviou um e-mail cobrando. Cobrar, cobrar e cobrar é só o que ele sabe fazer.

Bem, talvez ele não seja tão displicente assim.

O bom de conhecer Sai pessoalmente é que posso agir de forma mais confortável quando isolada com ele. Nada que fugisse ao ambiente profissional, mas eu podia arrancar os saltos por um momento e me sentar de forma mais desleixada.

É isso que faço, afrouxo os sapatos.

Ele ri, parece pensativo sobre algo.

— E o tal Suigetsu, hum? O cara existe mesmo ou ela está alugando um modelo para fingir ser o namorado? — com uma caneta em mãos, ele rubrica sua assinatura em alguma parte daquelas linhas, sem me olhar. A expressão em seu rosto, entretanto, é descontraída — Só acredito com documento de identidade ou carteira de motorista.

— Bem, o que eu posso dizer? Entendo do fundo do coração. Você tem toda razão. — sorri, demonstrando placidez.

Entretanto, ele aperta o olho esquerdo com desconfiança e, em seguida, suas pálpebras se baixam em direção à caderneta; Sai ajeita a postura e assume um comportamento mais profissional.

— Então, Sakura, você está indo bem. Nada de muito espetacular ou horrível, está bem. Chega no horário, tem um bom desempenho com os colegas de trabalho, entende suas funções, é eficiente. Em termos gerais, sua situação é boa. — ele me olha e sorri rapidamente — Sente algum tipo de descriminação ou preconceito racial?

— Não. — observo-o preencher uma pequena lacuna, e com um suspiro, ele fecha a caderneta e cruza as mãos. — Terminamos por aqui?

— Sim. — assoviando, ele começa a ler a ficha que havíamos acabado de responder. Fica em silêncio ao perceber que não movi um músculo, e sei que já captou minhas intenções subjetivas — Bem, você pode ir — avisa, sem me olhar nos olhos. Finjo uma tosse, e finalmente recebo sua completa atenção. — Certo, o que mais você quer? — ele revira os olhos escuros e apoia as costas ao estofado, fazendo acrobacias com a caneta.

— Bem, o que atrai você no vestuário do sexo oposto? Eu digo, em um bar, por exemplo, quando você vê uma mulher, o que a torna atraente? Por favor, seja sincero. — estou gesticulando com as mãos enquanto falo, apenas para que minha apreensão por uma resposta honesta seja intensificada.

A reação seguinte é algo que eu estava aguardando antes mesmo de entrar ali. Ele junta as sobrancelhas, confuso, e passa a língua pelos lábios rapidamente. Tento parecer uma criança irresistível quando ele me olha, do tipo que apenas com o olhar consegue extorquir um adulto e ganhar todos os brinquedos que quiser.

Naquele caso, a opinião de um homem adulto e que convive profissionalmente – vez ou outra pessoalmente – com o meu alvo, muito me interessa. A última amante do Sai era uma mulher muito bonita. Embora eu não me recorde do nome, uma vez saímos juntos – escoltados por Karin – para um jantar, e a moça colocou a nós duas no bolso. Todos os olhares masculinos eram destinados unicamente a ela.

Lembrando que isto aconteceu antes que Sai fosse promovido a Gerente de Pessoal. Hoje em dia, se quisesse, poderia usar o cargo alto para conseguir alguém tão ou mais genial quanto sua última namorada.

— Não sei o que dizer sobre isso, Sakura. Não tenho um padrão, exceto que precisa cheirar bem, ter um sorriso bonito, e não vou fazer a média aqui, aparência é muito importante, apesar de não ser a única coisa que faz “um homem ficar”. Eu estou incluído nisso, — ele suspirou, me fitando com desconfiança — por que a pergunta?

— Curiosidade. — desvio o olhar, sentindo uma onda de timidez conter as palavras em minha garganta — Hum, o enviei um e-mail de urgência um pouco antes de vir, será que pode conferir?

Ele aquiesce e percebo que a movimentação de seus dedos no teclado e mouse se acelera; ele está curioso e receberá um balde de água fria ao perceber o teor do e-mail.

— Que link é este? — ele retrai as sobrancelhas, desvia o olhar em minha direção por um segundo e quando me encara outra vez, está aborrecido e entediado — Por que você me enviou fotos de dois vestidos?

— Eu tirei as duas na vitrine, por isso tem o meu reflexo no vidro. — começo a explicar, e ele me encara como se não fosse o suficiente — Preciso da sua opinião masculina. Preciso que me diga qual dos dois é melhor, mais bonito. Eu só tenho dinheiro para um deles.

— Bem, estou disposto a comprar os dois e presenteá-la, se for capaz de tornar uma resposta minha desnecessária. — ele dá de ombros, com os olhos atentos as fotos — Você é uma mula, poderia ter entrado na loja e fotografado. Mal consigo ver os vestidos com o seu reflexo.

— Era uma loja chique, eu estava com vergonha. A foto está muito legível — esclareço, e ele ri com descrença — E não jogue o seu salário na minha cara, só vou comprar um deles. Diga qual é o melhor, agora! — meu tom de voz se acresce e ele me fita entediado.

— Quando foi que me tornei o amigo emasculado que opina em roupas? — ele passa a mão pelos cabelos, parecendo inconformado com a conclusão que acabara de considerar como verdade absoluta.

— Muito pelo contrário, preciso de sua opinião por ser suficientemente másculo e ter um gosto semelhante a quem desejo agradar. — explico, sorrindo debilmente.

O motivo parece convencê-lo e ele estreita os olhos, observando os manequins nas fotos com atenção.

— Sabe... se fosse haver uma promoção a executivo de Marketing, você concorreria com o Shikamaru. — ele me olha por um instante, espiando minha reação, que é abrir a boca e arregalar os olhos — Eu estava conversando com Sasuke sobre isso. — Sai arranca duas folhinhas coloridas de seus post-its, uma azul e outra rosa; puxa minha mão esquerda e põe ambas sobre meu pulso, desviando o olhar até a tela, como se comparasse os tons, semelhantes aos dos vestidos — Ele não ficou totalmente satisfeito com o seu nome, se quer que eu seja honesto, mas disse que acataria qualquer decisão minha, pois confiava em mim.

— Isso quer dizer que...

— Quer dizer que eu posso promover qualquer um dos dois que achar melhor. — antes que eu pudesse jogar nossa amizade sobre a mesa como argumento, ele me olhou de forma séria — E vou ser sincero, por mais que eu lamente em dizer isso, o rendimento dele tem sido melhor que o seu.

Pigarreio e corrijo minha postura, como se já estivesse sob avaliação. Sai continua focado nos vestidos e nos papeis em meu braço, parece estar sentindo dificuldades a escolher um deles.

Penso se uma promoção seria o melhor caminho para mim no momento. Mal posso arcar com as responsabilidades de assistente, ser uma executiva era mais trabalhoso. Entretanto, o dinheiro era bem maior, tenho certeza.

É lógico que vou querer a promoção. Veja bem, o dinheiro move o mundo, e eu estou no mundo. Sou naturalmente influenciada pelo instinto capitalista todos os dias, e não estou reclamando disso. Vou tentar conseguir a promoção, embora me imagine recebendo broncas semanais dos meus superiores; os problemas se acumulando em pilhas para serem resolvidos, enquanto foco em minhas fanfics.

— Hum — aliso minha própria bochecha, tentando parecer compenetrada e pensativa —, e o que posso fazer para melhorar o meu rendimento?

— Aceitar representar a UCX em uma reunião, no norte, dentro de quatro semanas. A reunião é para finalizar um acordo promocional com Yahiko. Se você for bem, tenho certeza que Sasuke aceitaria minha decisão de promovê-la. — antes que um sorriso surja em meus lábios, ele ergue o dedo indicador, sem mesmo olhar em meus olhos — Entretanto, Naruto ou Sasuke assistiriam pessoalmente o seu desenvolvimento, e a mesma chance será dada a Shikamaru Nara, em prol da justiça, concorda?

— Não, eu não concordo. — óbvio que não, ele está concorrendo comigo. Não que eu tenha interesse, mas passa por minha cabeça ler “A arte da Guerra” e aprimorar meus instintos competitivos. Ao mesmo tempo, paro para meditar sobre qual o milagre caíra sobre a terra para aquela chance ser dada a mim, e não a outra pessoa — Sai, meu rendimento aqui, como você mesmo disse, é medíocre. Como esta chance está sendo dada a mim?

— Eu mexi uns pauzinhos, obviamente. Eles queriam Tenten Mitsashi, mas a sua sorte é que ela está grávida e já requisitou a licença-maternidade. Então, tive a genial ideia de dizer “Sakura Haruno”, e os dois me olharam surpresos, negaram arduamente. Eu fiz um papel de palhaço, ressaltando e inventando pontos positivos em sua personalidade, mencionei as boas notas que tirava em Literatura, durante a faculdade, e que tem uma boa oratória. O segundo idioma ajuda muito, mas eu precisei insistir muito a seu favor.

— Por que não a Karin? — pergunto, realmente curiosa.

Ele desvia os olhos da tela em direção aos meus, sorri e levanta os ombros muito naturalmente. — Em boa parte do tempo, Karin é uma megera comigo.

Suspiro, e todo o otimismo que inflava meu ego há pouco se esvai como fumaça. Achei que estava depositando suas esperanças em mim, ao me dar uma chance, que confiava no meu pouco potencial. Ele também sabia que aquele não era o emprego dos meus sonhos, mas já que estou nele, não custa subir de cargos, ganhar um salário maior.

Por isso vou tentar fazer um bom trabalho na reunião. Pelo dinheiro.

— Este foi realmente o seu único critério? — questiono, esperançosa que ao menos negue, minta, mas ao contrário disso, ele põe os braços sobre a mesa e suspira.

— Sim. — responde, casualmente demais — Você tem rosa de sobra em sua vida, compre o azul. Combina com o seu tom de pele e se parece com a cor dos seus olhos. — ele amassa os pequenos papeis e os arremessa em uma lata de lixo ao pé de sua mesa — Espero que consiga surpreender seu pretendente.

Eu também espero.

— Eu amo camarão. Amo frutos do mar, em geral. Qual a sua opinião sobre frutos do mar? Quando criança, eu achava que eram tangerinas que brotavam no fundo do oceano. Mas ao mesmo tempo, sempre achei que uma raça alienígena, os reptilianos, por exemplo, você conhece os reptilianos? — ele faz uma pausa e me encara. O maçarico em sua mão está me deixando seriamente assustada. Anuo, observando seus cabelos que pareciam ter sido vítimas de uma forte tempestade de vento, me concentrando neles para tentar superar o fato de que ele está prestes a acender um charuto usando um maçarico — Então, eu achava que os reptilianos — ele pausa, e quando a forte chama explode para fora do tubo, me afasto assustada — jogaram, das naves espaciais, as frutas dentro do mar, e que durante a idade da pedra lascada, os seres humanos aprenderam a extrair estas riquezas do oceano por meio da pesca.

— Excelente observação. — comento, forçando um sorriso indolente — Você daria um bom escritor.

Aquele cilindro imenso em sua boca está tirando toda a minha concentração. Mesmo assim, não posso deixar de assumir que é um rapaz muito bonito. Olhos verdes, mais claros que os meus, cabelos longos e loiros, tão claros que parecem artificialmente descoloridos. Ele não é um homem forte, tem um aspecto esguio, magro, mas é atraente mesmo assim.

Ele contrai as sobrancelhas e me observa com clara desconfiança, mas sua expressão rapidamente volta ao normal, e ele expele duas torrentes espessas de fumaça pelas narinas.

— Não, sou um eterno escravo da fotografia. A nudez do corpo feminino me intriga de tal forma que fotografo mulheres de graça. — estou conversando com um pervertido, é a conclusão que acabo de tirar — Se você tem fantasias em ser fotografada, peça para Karin entrar em contato, estou sem cartões profissionais agora para oferecê-la.

Meus pés começaram a se mover de forma impaciente. Eu era a única ali usando um vestido, mesmo casual, aparentemente não era a vestimenta mais apropriada, a julgar pelos visuais predominantemente informais das outras mulheres. Estou me sentindo uma estranha no ninho.

Fui uma das primeiras a chegar, porém, Karin ainda não havia me recebido propriamente. Como anfitriã, ela estava passeando entre os pequenos grupos que se formaram, e quando cheguei, usando meu vestido curtinho, com estampa florida em tecido translúcido, percebi o olhar diferenciado.

Foi uma má ideia comparecer desde o início. Naruto estaria ali, e vendo as outras mulheres, me acharia uma desnaturada.

Por sorte eu ainda poderia ir embora antes que ele chegasse e poupar o constrangimento.

Diante do meu silêncio, aquele homem cujo nome eu desconhecia estreitou os olhos para mim como se eu fosse uma criança, e sorriu.

— Terra chamando. — brincou, como se eu fosse a pessoa a segurar um charuto colossal ali, e não ele — Ei, você está funcionando?

Não entendi o que ele quis dizer com aquilo, mas o sorriso que repuxou meus lábios foi deprimentemente falso. Ele gargalhou.

— Ah, estou entediando você. — ufa, ele percebeu — Vamos conversar sobre algo que a satisfaça, do que quer falar?

Passa por minha cabeça até a ponta da língua a resposta de que gostaria de fazer o jogo do silêncio, mas mantenho a compostura.

Karin vem andando em minha direção, e ao se aproximar, abana o rosto com as duas mãos, fazendo uma careta.

— Os bombeiros vão chegar aqui em pouco tempo se continuar assim, Kimimaro. — ela leva uma das mãos à cintura. A maldita se vestia bem, a camisa de corte despojado, em um tom avermelhado mais escuro que seus cabelos ressaltava perfeitamente suas curvas. Karin está deslumbrante — Sakura, como está respirando perto desta chaminé?

— Não é tão ruim assim. — expiro sonoramente, e ela puxa o meu pulso com força, afastando-me do tal Kimimaro.

Deixo-me ser arrastada até um dos corredores; Karin me solta assim que ocupamos um cômodo que supus ser o seu quarto.

— A recepção ligou, Naruto está subindo. — ela sussurra como se fôssemos parte de uma missão secreta — Eu só queria avisar isso mesmo e tirar você de perto do Kimimaro, ele é estranho.

— Bem, eu percebi. — é tudo que consigo formular em meio ao nervosismo borbulhando em meu estômago. Naruto estava chegando, e não havia mais tempo de ir embora.

— É o seguinte, tem mais mulheres solteiras do que comprometidas naquela sala, portanto, se você quiser se aproximar do Naruto, marque o seu território nos primeiros cinco minutos. Claro, deixe-o cumprimentar os conhecidos antes de chegar perto. — anuo, anotando mentalmente cada uma daquelas valiosas informações. Estou hiperventilando, e Karin percebe, alisando meus ombros — Fica tranquila, você está linda. — ela arruma minha franja.

— Certo. E o seu namorado? Ele é o motivo de estarmos aqui.

— Sui mora na cidade vizinha. — ela fica de joelhos e começa a ajeitar as pequenas camadas do meu vestido. — Está preso no trânsito. — revira os olhos, acertando tapinhas nas pequenas camadas do meu vestido, como se houvesse poeira ali. — Então, vamos?

— Sim. — como estou nervosa! Preciso ficar calma. — Vamos.

Recordo de um tutorial que vi na internet durante minha peregrinação diária em função do tédio no trabalho. Encho os pulmões de ar e o mantenho preso lá por alguns segundos, estufando o peito, até que finalmente o solte pela boca.

Estou assistindo Karin gargalhar ante uma dupla de amigas. Minhas mãos tremem quando decido encher um copo de plástico com ponche. Sou assistente do departamento de marketing, sou assalariada, vou fazer vinte e cinco anos em poucos meses, saí de casa há muito tempo, sou uma mulher responsável e dona de seu próprio nariz, preciso agir como tal.

Arrebito o nariz e fico séria. Com sorte Sai chegaria em breve e eu teria companhia para conversar, ao invés de ficar sozinha. Observo o ambiente descontraído ao meu redor e tomo um gole de ponche, preciso absorver aquela vibe e fingir que festas são algo natural para mim.

Não são. Aliás, eu odeio festas, lugares com grandes aglomerações. Qualquer espaço em que existam muitos seres humanos a menos de meio metro de mim se torna insuportável em longo prazo. Talvez por isso eu tenha sentido um mal estar terrível durante o show de calouros, assim que entrei na faculdade.

A campainha toca e sinto algo esfriar na boca de meu estômago. É ele. Ele chegou. Volto a fazer o exercício de respiração e me sinto serena, leve como uma pena.

Karin caminha alegremente até a porta, e quando a abre, o par de olhos azuis é a primeira coisa que vejo. Posso jurar que meu estado físico está se alterando de sólido a líquido, mas todo o papo de “mulher independente” mantém-se forte em meu imaginário, e desvio o olhar, fingindo desinteresse.

Mas não consigo, uma boa parte de pessoas desviam as atenções, naturalmente, para ver quem está chegando, e não resisto. Preciso observar.

Nossa! Um deus loiro adentra o apartamento e me pego sem fala. Ele está carregando uma grande caixa-térmica, provavelmente lotada de bebidas, e recebe apertos de mão repletos de testosterona por parte de outros homens que vão cumprimentá-lo. Ele está sorrindo, os cabelos arrepiados, barba bem-feita e pele bronzeada. É uma representação em carne e osso de virilidade, estou inebriada por tanta beleza. A forma mais simples como está vestido em muito me lembra o meu viajante, Frank. É como estar diante da parte mais perfeita da minha obra.

Ele não teve tempo sequer para olhar ao redor, entre assovios predatórios e alguns cumprimentos, percebo que ele é bastante popular entre os amigos da Karin, e só ao perceber que não terei uma chance de vê-lo sozinho aquela noite, me sinto murchar.

Suspirando, pego meu celular e percebo que há uma notificação. Ótimo, algo para me distrair da minha – equivocada, porém certeira – perda.

Um e-mail, minha fanfic predileta acaba de ser atualizada. Minha salvação.

Usualmente faço um ritual antes de começar a ler, arranjo alguma guloseima, ligo música nos fones e preciso estar na horizontal, seja no chão ou sobre um colchão; mas como eu não podia me dar ao luxo naquele momento, simplesmente continuo sentada naquele banquinho, com os braços apoiados a um balcão de quartzo.

Que revigorante, cinco mil palavras. Não vou precisar me sentir mínima por não conversar com alguém, afinal, estou “ocupada” demais usando o celular.

Resolvo desfrutar da visão mais uma vez antes de começar a ler as notas iniciais. Por incrível que pareça, a porta não foi fechada. Outras presenças masculinas adentram o apartamento, e é o suficiente para atrair minha atenção.

— Só pode ser brincadeira... — o pensamento sai impetuosamente por minha boca — Não...

Sasuke Uchiha. O CEO, o poderoso chefão, o grande chato economista de nariz empinado. Era só o que faltava para completar minha desgraça, afinal, é mais um par de olhos para presenciar meu fracasso em integração social.

Ele não recebe a mesma intensidade de cumprimentos, na verdade é o oposto, apenas sorrisos tímidos que são correspondidos por ele, alguns apertos de mão aqui e acolá, mas sem abraços, sem algazarra. Com certeza estão intimidados pela presença dele, mas até eu, que o vejo diariamente estou.

Ele e Naruto são muito diferentes, até mesmo na forma de se vestir. Sasuke tem cabelos um pouco mais compridos, um jeito mais reservado; a barba está meio crescida, mas sei que na segunda-feira não haverá um só rastro de pelo facial em seu rosto, por exigências profissionais. Em minha opinião não se iguala a Naruto, mas também tem uma graça felina e um magnetismo natural, talvez por ser mais misterioso. Por exemplo, para mim, Sasuke nascera de terno e gravata (ou qualquer outra roupa social), o que tornava muito incomum vê-lo de forma tão casual.

Ainda há restos de um sorriso fingido em seus lábios quando seus olhos passam por mim, bem brevemente. Ele fica sério e enfia as mãos nos bolsos da calça jeans escura. Jeans! Sasuke usando jeans, parece até sobrenatural. Ele está sempre enfiado em alguma peça de alfaiataria feita sob medida para seu corpinho escultural.

Diante dos dois leões, finalmente a visão de olhos amigáveis, Sai aparece logo depois deles e um sorriso me toma de ímpeto. Finalmente!

A balbúrdia volta, porém, direcionada a Sai.

Percebo que Sasuke está meio deslocado, afinal, claramente sua presença está assombrando a todos, mas seus olhos não param de revistar o ambiente durante um só momento. Medito sobre como ele se sente sobre isso, os olhares surpresos, os julgamentos, as pessoas que, assim como eu, pensam que ele não deveria estar ali, como se não tivesse o direito de se divertir.

Sai caminha em minha direção, ele passa o braço ao redor dos meus ombros, e olhando ao redor, diz: — Ele está aqui? Mostre-me quem é ele. — sussurra, observando atentamente os homens na sala.

— Não chegou ainda, estamos esperando.

— Merda, o Sasuke veio só para ver o cara. — ele bufa.

Fico surpresa, afinal, não imaginava que a incógnita do “fictício” namorado da Karin havia chegado a níveis tão altos.

— Sério?

— Sim, disse que ficaria pouco tempo. Você não faz ideia, o Naruto o atormentou muito com essa história a ponto de deixá-lo curioso.

— Então ele atormentou bastante...

— Bastante. — ecoa, esticando o braço para pegar um dos canapés nos pratos alheios. Ele me olha de alto a baixo, e sorri — Espero que eu não seja seu pretendente.

Estou desbloqueando a tela do celular quando escuto aquela atrocidade. O olho, e ele dá de ombros. Na verdade, não é surpreendente que chegue àquela conclusão, mas se houvesse parado para pensar antes de cuspir aquele absurdo, perceberia que eu jamais seria tão idiota ao ponto de perguntá-lo se ele fosse o meu “cara”. Muito óbvio.

— Não. Eu tenho bom gosto.

Ele acerta uma cotovelada em meu braço e revido discretamente.

Naruto continua conversando, Sai beija minha bochecha antes de se retirar, alegando que fará companhia a Sasuke.

Só o que me resta é ler o novo capítulo. Eu poderia sofrer calada, apenas assistindo de longe toda a beleza do meu chefe loiro, mas decido que é muito deprimente, até mesmo para mim.

Ler é bem mais interessante.

E aqui estou eu, sozinha entre bebidas, homens bonitos, mulheres socialmente abertas e música agradável. Eu deveria estar louca por interação, mas ao invés disso sorrio comigo mesma ao receber um novo favorito, enquanto leio a atualização pela qual estava esperando.

A estória que estou lendo é sobre um detetive charmoso, ele é meu ídolo. Homens inteligentes são completamente atrativos. Os minutos passam como segundos quando estou presa no mundo de crimes indecifráveis e constantes quebra-cabeças aos quais ele é submetido.

O celular vibra em minhas mãos, e uma pequena janelinha surge em minha tela. Eu, particularmente, não sabia que o chat funcionava em dispositivos móveis, foi um bom descobrimento.

“Sabe, eu estava relendo o poema sobre a sua vida hoje cedo. Se você aborda o trabalho (e sua falta de amor por ele) como algo invencível, por que o caracterizou metaforicamente como um garotinho?”

Como se fosse a confirmação de que estou fadada a permanecer isolada naquela noite, assim como todas as outras, Ekusas00 puxa assunto.

Olho para meu próprio vestido, e em seguida para Naruto. Se ele soubesse que o comprei para impressioná-lo, talvez me daria atenção, e aquela social seria apenas o início. Eu teria a melhor noite da minha vida.

Ao invés disso, estava lendo um mistério de investigação e agora, conversando com um conhecido virtual que não consegue superar o poema sobre a minha vida.

Nós passamos dois dias sem conversar. Tive um bloqueio e não consegui escrever uma só palavra, o que aniquilava os motivos que tenho para usar o computador em casa, ou seja, eu precisava de inspiração.

Naruto seria o estímulo perfeito, se reconhecesse minha existência como ser humano do sexo oposto.

“Oi” Digito rapidamente, esperando passar, a quem quer que fosse, que aquela havia sido uma abordagem muito indelicada. “Noite”

“Oi. Desculpa perguntar assim, fiquei curioso.”

Expiro profundamente. Parece que não escaparei das explicações tão facilmente assim.

“Eu me baseei em um conto bíblico, não sei se conhece. Davi venceu Golias com uma pedra. Eu sou Golias, porque sou dona de meu próprio destino e decisões, eu deveria ter feito a escolha certa antes, deveria ter corrido atrás dos meus sonhos. Eu tinha o poder de fazer isso, quando mais jovem, mas não fiz. Davi é a minha vida, a ‘pedra’ é uma mistura da realidade e meu trabalho. São as coisas que me fazem desistir do que quero realmente. E bem, Golias perde no final. Você não vai conseguir entender.”

“Todo mundo conhece Davi e Golias. É claro que entendo.”

“Que bom.” Respondo, sem muita disposição em dar continuidade ao assunto. A verdade é que não sei como esta pessoa ainda teve coragem de falar comigo depois de me insultar abertamente.

“Você disse apenas “noite”, não está tendo uma noite boa?”

Bufo. Ele não desiste. “Não”

“Por que não?”

“Porque estou no meio de uma festa e ao invés de me entrosar com outras pessoas estou conversando com você e lendo uma fanfic safada”

“Oh, nossa. Então a sua noite está mais deprimente que a minha...”

“De jeito nenhum, eu sou safada, portanto preciso ler fanfics safadas, não é? Estou em minha zona de conforto.” Provoco. Tudo bem, talvez tenha soado rude, mas o que eu tenho a perder? Preciso de algo ou alguém para descontar minha frustração.

“Haha” Não sei distinguir se foi uma risada real ou algo depreciativo. “Eu já pedi desculpas, você me entendeu mal.”

“Acho que foi exatamente o que quis dizer”

“Mesmo que fosse, qual o problema em ser safada? Eu gosto de mulheres safadas, acho que não há problema algum nisso.”

Ele se supera cada vez mais, porém, nunca positivamente. Deixo o celular de lado propositalmente, demorar a responder pode fazer com que o ser humano entenda que está sendo inconveniente.

Quanto cinismo. Não há problema algum em ser ‘safada’, o problema é ele, como se tivesse direitos, me julgar assim na primeira vez em que nos falamos. Este é o problema.

Uma mulher voluptuosa está conversando de forma animada com Naruto, cercando-o impiedosamente, de forma que não posso atacar.

Às vezes eu odeio os homens.

Reviro os olhos e aperto o celular entre os dedos. “Vocês homens agem de forma idiota às vezes de propósito ou é algo natural? Estou começando a achar que é involuntário.”

“Não preciso vê-la para saber que está revirando os olhos ao dizer isso.” Ao menos naquela ele acertou.“Não sei mesmo, você parece uma grande entendedora do universo masculino, já que tem tantos personagens homens... O que acha?”

Aquilo foi oficialmente outro insulto. Ele está me ridicularizando.

Quando paro para pensar que ele leu os hentais que escrevi, prendo a respiração, imaginando que servi de chacota.

“Estou acostumada a criar homens perfeitos, então não sei o que se passa na cabeça dos imperfeitos.”

“Com imperfeitos, você quer dizer reais?”

Observo aquela pergunta, e remexo o quadril naquele banco – que parece cada vez menor e mais desconfortável a cada segundo.

“Conheço vários homens. Vários deles têm características irritantes em comum, então eu tenho tato para falar sobre homens reais, ao contrário do que possa parecer.”

Como aquela noite havia se tornado tão ‘esquecível’?

Esforcei-me para parecer bonita e sequer tenho coragem – ou uma chance – de me aproximar do Naruto, estou sentada, sozinha, usando o celular no meio de uma festa.

“Então sabe que está sendo dura demais. Algumas mulheres são irritantes e, até agora, você não me viu generalizá-las ou culpar você por isso.”

De fato, não posso tirar a razão dele.

E eu, tecnicamente nunca conversei com Naruto, então chegar à conclusão de que ele é um babaca seria bastante prematuro.

Respiro fundo. “Você está certo. Desculpa.”

Karin marcha em minha direção com uma careta. Toma o celular de minhas mãos, e antes que eu possa surtar sobre minha privacidade, ela bloqueia a tela e o pressiona com força contra o balcão, olhando em meus olhos como se fosse me matar a qualquer momento.

— Sakura, é grosseria da sua parte ficar aqui, isolada. Vamos pedir um drinque. — ela puxa meu braço, e meu último esforço é agarrar o aparelho, colocando-o dentro da pequena bolsinha que estou carregando.

Ela me arrasta pelo salão bem decorado. Não era a maior sala de estar do mundo, mas estava longe de ser a menor também. Havia quatro sofás muito brancos, todos ocupados por diferentes pessoas. O grande tapete no chão também acomodava alguns convidados.

A decoração era leve, as paredes de gesso foram decoradas com diversas pinturas de artistas amadores, naturezas mortas, e algumas esculturas artísticas, fruto do turismo a outros estados.

Algumas plantas de pequeno porte também ornam o lugar, dando o toque “verde” que tanto precisava, além das grandes janelas que mostravam o cenário urbano de cidade grande que eu gostava.

Em resumo, era uma festa bem intimista, mas com pessoas descoladas demais para que eu possa me misturar.

Pergunto-me como ela conseguiu um apartamento legal daqueles com o salário de assistente de Marketing, mas a dúvida some no momento em que me recordo de quem ela é prima. A família de Naruto tinha boas condições de vida.

— Eu contratei um coqueteleiro para a noite. Sabe aquelas bebidas legais na qual uma chama fica dançando no topo? Ele sabe fazer! — ela me olha com um brilho nos olhos e se aproxima do lugar em que Naruto está conversando com as duas mulheres — Olá, linda, pelo visto já conhece o meu primo.

Ela continua segurando o meu braço, e o celular vibra dentro da minha bolsa, sem que eu tenha acesso a ele.

Os olhos de Naruto me prendem ao chão, sinto-me petrificada no momento em que suas íris tão maravilhosamente azuis gastam gloriosos segundos reconhecendo minha existência. Ele está observando o meu vestido, até os sapatos que estou usando!

Eu deveria me sentir feliz ou tensa por isso?

— Tayuya, querida, a entrega de pizzas já está no saguão. O que acha de me ajudar a trazer as caixas? Vai durar apenas um momentinho. — Karin sorri, com falsa gentileza.

A mulher nos fita indiscretamente, como se sugerisse que já estou ali, e eu poderia ajudá-la a fazer o que quer que fosse. Óbvio; mas Karin não desiste, e sequer eu posso compreender o que está tentando fazer.

— Vamos, você vai à academia, é uma mulher forte! — a ruiva insiste

Aquilo parece convencê-la, e ela pede desculpas a Naruto ao se distanciar, sendo puxada por Karin da mesma forma que fazia comigo antes.

Sinto minha própria palpitação, estou “sozinha” com Naruto. Mal posso respirar.

O que eu deveria dizer? “Admiro seu trabalho como vice-presidente” ou “Baseei um de meus personagens em você, e ele é o protagonista.”

Só consigo sorrir, sentindo um esgar no canto da boca. O tique nervoso que tenho em momentos que sinto fobia de estar em minha própria pele.

— Olá. — Sakura, isso é o melhor que pode fazer?

Por Deus, entrei em um site de atualidades para pesquisar assuntos contemporâneos e assim, em casos como este, poder criar um assunto, mas nada estava saindo da minha boca!

— Oi. — seu tom é indiferente. Ao contrário de mim, ele jamais pareceu tão tranquilo. Tranquilo até demais.

Meus lábios estão tremendo, mas consigo sorrir para ele, sem mostrar os dentes. Ele não corresponde o sorriso, apenas move a cabeça positivamente, como se dissesse “estou agradecido pelo seu sorriso”.

Uma risada desnorteada escapa de minha garganta. — Estranho, não é? — ele estava olhando para alguém, e ao ouvir o som da minha voz, me fita — Digo... nos vermos em algum momento fora do trabalho.

— Aham.

Cerro os punhos. Estou sendo ridiculamente entediante.

Outro longo momento de silêncio. Ele apoia as costas ao balcão, cruza os braços, e tudo que tenho é uma visão perfilada de seu rosto.

O que eu posso dizer agora? Tenho certeza que a crise imigratória na Europa não é um bom assunto.

— Obrigada por me aceitar no Facebook. — um sorrisinho gentil carimba meus lábios, e finalmente pareço serena.

— De nada.

Resolvo ignorar que está sendo completamente taciturno. Tenho certeza que o problema é comigo, e não ele. Talvez elogios possam animá-lo a conversar.

— Foi gentil da sua parte...

— Foi só uma solicitação de amizade em uma rede social, você não precisa me agradecer por isso. — ele me interrompe, tomando um gole de sua cerveja em garrafa; tudo que posso ver são as sobrancelhas loiras e os olhos azuis me observando com impaciência — Com licença.

Ele passa diante de mim, e posso sentir o cheiro de seu perfume. Encaminha-se até um pequeno grupo e se entrosa com facilidade.

Talvez ele tenha sido um pouco insensível, mas só consigo pensar que eu fui muito entediante e não consegui puxar assunto.

Olho para os meus pés e me sinto triste comigo mesma. Tenho vontade de rasgar aquele vestido, jogar água no rosto e usar um cobertor para cobrir até minha alma. Talvez eu tenha colocado esperanças demais nele, e perceber que Naruto não tem a menor obrigação de ser legal comigo é um golpe e tanto.

Bufo, e toda a mínima disposição de continuar naquela festa evapora juntamente com minha alegria.

Tiro o celular do bolso, decidida a chamar um táxi, mas a mensagem, enviada há sete minutos chama minha atenção.

“Tudo bem?”

Suspiro, e observando todos os meus conhecidos, percebo que estão ocupados. Naruto está se divertindo, Sai e Sasuke conversam em um sofá, mais afastados da aglomeração.

Como é possível que eu esteja me sentindo tão sozinha mesmo rodeada por todos os tipos de pessoas?

“Acabei de ser descartada pelo cara que eu gosto. Acho que isso é um não.”

Olho ao meu redor, procurando um lugar para sentar e me acomodo em um pufe verde, encolhendo as pernas por causa do maldito vestido, que agora me trará lembranças ruins.

Meu amiguinho virtual demora a responder, e é tempo o bastante para que eu feche os olhos, como se em uma circunstância ridícula um cochilo fosse possível.

O celular vibra em minhas mãos. “Sério?Agora?”

“Sim.” Expiro, observando nossas conversas antigas. Ele usa um avatar inteiramente preto, algo que acho estranho, já que todos naquele site usam avatares bonitos e coloridos, inclusive eu, que uso uma foto do meu gato John.

“Sinto muito”

Ele não digita mais nada, e tenho receio que a conversa acabe, afinal, ele é a única companhia que tenho no momento.

“Esta conversa já girou demais em torno de mim, fale sobre você. O que está fazendo agora?”

“Digamos que também estou em meio a várias pessoas neste momento”

“Tenho certeza que está tendo uma noite mais legal que a minha”

“Eu não teria tanta certeza, pão de mel.” Não consigo conter um sorriso pelo apelido. É assim que Frank chama Eloise. Ele realmente leu “Se estou aqui conversando com você, minha noite também não está das melhores”

“Só é sexy quando o Francis diz... você não pode roubar o apelido dele.”

“É mesmo?"

"Sim, é."

"Conte-me mais sobre como adquiriu tanta certeza de que eu não sou sexy, estou curioso”

Me pego sorrindo e largo o celular sobre meu colo durante um momento. A tendência é que eu consiga alguns segundos de oxigênio durante situações constrangedoras como aquela.

“Você é apenas uma foto escura, um conjunto de letras e acusações prematuras.”

“Eu sou muito mais do que isso”

“Sim, eu chutaria que você é um homem gordo cheio de espinhas, virgem, que se masturba mais de cinco vezes por dia e nunca tocou uma mulher (fora mães, tias ou avós) abaixo do pescoço e por isso é frustrado com a vida. Por isso você criou uma conta neste site”

“Você acabou de me descrever perfeitamente”

Estou rindo, é engraçado imaginar um homem como descrevi conversando comigo naquelas horas.

“Viu só? Eu nunca erro.”

“Você é boa. Consegue adivinhar minha idade?”

“Só me responda uma coisa, você tem mais de vinte e cinco anos?”

“Sim.”

“Vinte e oito?”

“Trinta.”

Meus lábios se entreabrem e estou com os olhos arregalados. Trinta anos de idade. Eu jamais poderia imaginar.

“Você é velho!”

“Concordo.”

“Digo, para os padrões do site, claro.”

“Sim, é verdade.”

A conversa acabou ali, e é nítido para mim. Antes que eu possa focar na atividade de ligar para um táxi, a porta se abre.

“Vou precisar sair. Conversamos outra hora”

Não respondo, apenas bloqueio a tela outra vez e me levanto do pufe.

Um homem passa pela porta, a confusão em seu rosto é clara. Ele tem cabelos compridos e claríssimos, olhos escuros, um corpo esguio. Está vestido de forma apresentável, um blazer cinza o qual está alisando o tecido, calças de linho e sapatos estilo Oxford.

Algumas pessoas se entreolham, e inclusive, viro o pescoço em direção a Sai, que está em pé olhando para mim no outro extremo da sala, com Sasuke ao seu lado.

Seria este homem o tal do Suigetsu? Então ele era real.

— Olá, boa noite. Eu...

— Meu homem! — Karin exclama ao atravessar a porta logo em seguida, carregando uma pilha de caixas de pizza que inundam o ar com um cheiro maravilhoso — Suigetsu Hozuki, meu namorado real. — o tom zombeteiro em sua voz é explicável, já que muitas pessoas presentes duvidaram da existência do tal namorado pelo simples fato de que ela se recusava a "torná-lo público".

Sai dá uma risada, e Karin está com um sorriso vitorioso estampado nos lábios. Tayuya parece insatisfeita por ter sido designada a tarefa, e caminhando com dificuldade, apoia as caixas sobre uma mesa.

Aparentemente Sasuke dá-se por satisfeito. Vejo-o caminhando em direção a porta, enfrentando reclamações da parte de Karin – a qual tenho certeza de que está sendo apenas educada –, por ir embora cedo e não ficar para a pizza.

Afinal, quem, de verdade, quer o chefe em uma festa particular? Poucas pessoas, eu diria.

E de fato, se ele veio pela curiosidade, já havia sido saciado.

Suigetsu era real.

Notas finais
Volto na próxima quarta-feira. Até a próxima.