Ekusas
2 Sakura
Notas iniciais
Frank a tomou em seus braços com rapidez e fulgor, estava necessitado de contato físico, mas não qualquer contato físico. Apenas Eloise era capaz de saciar suas necessidades naquela noite.
Os olhos cinzentos de Francis se chocaram ao da mulher franzina que o fitava com espanto por seus atos tomados por bruta luxúria. Azuis nos castanhos, desejo em confusão.
“Frank, por favor...” Foi o que ela disse, os lábios trêmulos, a cabeça pesada pelo dia cheio. Francis não tinha planos de deixá-la dormir aquela noite, era perceptível a determinação em seus olhos de tom cobalto.
“Eloise, não diga nada. Eu precisei disso, de você, por tanto tempo. Não sobreviverei se me negares hoje.” Seus olhos claros preenchidos por um sentimento sôfrego causado pela possível rejeição.
Impossível rejeitá-lo. Francis era um belo e misterioso homem. Pele bronzeada, olhos azuis, cabelos em um tom loiro acinzentado, não muito alto, barba cheia, espessa, e cabelos encaracolados.
Ele pressionou seu corpo imóvel contra uma parede, e Eloise fechou os olhos, desejosa por mais contato.
“Veja, ou melhor, sinta. Sente, Eloise, sente o que estás a fazer comigo. Eu a quero tanto que dói. Sente os efeitos de tua simples presença em meu corpo.” Ele sussurrou, em todo seu âmago. A mulher mordeu os lábios ao sentir o volume de sua carne sob as calças em contato com as coxas macias.
Pulsante, vivo. A última coisa que Francis poderia ser era insípido, do contrário, seu coração clamava por mais calor, por mais
— Mas o que infernos está fazendo aí?
De volta à realidade. Bruscamente trazida de volta à realidade.
A voz de Karin me puxou pelos pés, de forma brutal, ao ambiente em que meu corpo se encontrava, pois minha mente estava em outro lugar: na primeira transa de Francis e Eloise, que custou cerca de vinte capítulos para acontecer e merecia minha atenção.
Toda a minha maldita atenção.
Minimizo a janela do Word e volto ao Excel. É como sair do céu e cair majestosamente no inferno. Estou lendo novamente a gloriosa planilha que deveria ter sido concluída ontem, mas Sasuke, meu esbelto chefe me deu “carta branca” e algumas horas a mais.
Eu deveria agradecê-lo, mas o cara é um completo boçal. Admito que foi uma atitude legal, mas na maior parte do tempo, ele não é assim.
Ou talvez seja, mas pouco se sabe sobre ele.
Não sei de seu status marital ou qualquer coisa de grande importância em sua vida pessoal, só o que eu conseguia ouvir nas fofocas das meninas do almoxarifado, que o tratavam como se fosse uma divindade.
Ele realmente é bonito, ora. Completou trinta anos recentemente, sempre muito bem asseado, com características físicas muito diferentes do homem dos meus sonhos: Francis, o cavalheiro que jamais terei a honra de conhecer ou apalpar o ‘pacote’, como a sortuda Eloise teve.
Já estou pensando sobre minha estória outra vez, é sempre assim. Estou tão envolvida em meu passatempo que o trouxe, – erroneamente, reconheço – para o trabalho.
Não existe um “talvez” quando o assunto é minha personalidade, a pessoa que eu sou. Sakura Haruno é uma mulher estúpida de vinte e quatro anos que nunca teve um orgasmo com um homem e gosta de escrever estórias complexas e com muito sexo, de temas variados, para postar em um site repleto de outras pessoas como ela.
Não faz tanto tempo assim desde que cheguei a esta dolorosa conclusão sobre mim mesma, é difícil assumir as próprias falhas, principalmente quando são irreversíveis. Não tenho um bom relacionamento com a minha família, não tenho amigos, não tenho perspectiva de vida, não estou na carreira dos meus sonhos, ninguém é tolo o suficiente para se apaixonar por mim, e raramente saio de casa.
Minha única companhia é um gato sem raça definida com seis anos de idade que adora me causar constrangimento, fazendo sexo selvagem no telhado alheio, durante a madrugada.
E qual é a conclusão que podemos tirar disso? Simples. Meu gato tem uma vida sexual melhor do que a minha.
Um maldito animal que faz sexo todas as noites, e eu, fico deitada na cama, segurando uma xícara de chá gelado, assistindo a filmes, escrevendo e lendo as coisas que eu gostaria que acontecessem comigo.
Era uma forma ótima e indolor de definhar.
É isso, estou definhando. Vegetando em um mundo cheio de possibilidades, pessoas, cores, festas, homens gostosos fora do meu alcance.
— Sakura, eu fiz uma pergunta. – ela caminha ao redor da minha mesa, parando atrás de onde estou sentada. Inclina-se para a frente, mantendo a cabeça ao lado da minha — Santo Cristo, a planilha está vazia! – olha-me aparvalhada, como se eu fosse uma aberração. Talvez eu seja —Sakura, o Sr. Uchiha aumentou o seu prazo e mesmo assim você não fez nada! A manhã inteira! Sakura, você vai ser demitida!
— Não vou nada, saia daqui. – ergo o braço direito, empurrando-a para longe, com medo de que perceba a aba minimizada do aplicativo para a escrita —E a planilha não está vazia, viu só? Já preenchi os dados de Fevereiro.
— Oh, jura? E você acha que isso é muito? – ela me fita de forma severa. — Sakura, estou realmente preocupada com você. O que está acontecendo?
Ela se afasta, com as mãos na cintura. A maldita tem um corpo maravilhoso e os peitões que eu sempre quis ter, abraçados por um decote generoso que faria qualquer um babar e querer dormir ali, abrigado naqueles peitos imensos.
Até eu queria dormir apoiada aos peitos de Karin, pareciam macios.
— Nada está acontecendo. – respondo, criando um novo documento do Excel. Sinto uma ânsia de começar do zero, mesmo que vá ser mais trabalhoso.
Aquele preenchimento de fevereiro eu fiz em dez minutos, há dois dias. Quando alguém se aproximava, eu maximizava o aplicativo e usava o único mês preenchido como afirmação de que estou trabalhando.
Aliás, a culpa é sim do senhor Sasuke Uchiha.
Já não é suficiente que eu tenha uma paixão não-realizada pela escrita e esteja trabalhando com marketing, a maior autarquia da empresa ainda ordena que eu preencha planilhas, trabalho de um contador.
Sou assistente do departamento de marketing, meu trabalho é estabelecer iniciativas promocionais, não preencher planilhas.
— Nós nos conhecemos na faculdade, a quem está querendo enganar?
Ela puxa uma cadeira de rodinhas, ficando bem próxima de mim.
A mãozinha bem-feita posicionada realmente perto do meu mouse. A aba de minha estória está me causando tremedeiras, se ela ou qualquer um ler, estarei arruinada.
Depois disso, você pode se perguntar o porquê de eu ter dito acima que não tenho amigos, sendo que Karin Uzumaki está ali, preocupada com meu bem-estar.
E eu digo: balela. Realmente nos conhecemos na faculdade, embora eu tenha iniciado um ano antes. Outro fato sobre mim é que terminei o ensino médio precocemente aos dezesseis anos e iniciei o ensino superior com a mesma idade. De fato, bem cedo.
A outra metade de minha adolescência sucessivamente perdida. Ir para a faculdade cedo é tolice se você está escolhendo um curso qualquer e não tem certeza absoluta do que deseja. É necessária muita sorte para que conclua sem maiores frustrações.
E sorte é minha principal antagonista.
— Não estou querendo enganar a ninguém, você está impedindo que eu concretize meu trabalho. – digo, sem desviar os olhos da nova planilha que estou preenchendo —Aliás, a máquina de café continua defeituosa? – tento mudar de assunto. É o movimento mais inteligente a se fazer.
— Argh, sim. – ela se endireita em seu assento, soltando um longo e fatigado expiro —Você irá conosco a social na casa do Sui, não vai?
A resposta “não” já surge em minha cabeça sem que seja necessária uma longa meditação sobre o assunto, mas faço um mínimo esforço para parecer legal.
— Hum, quem está indo? – indago, esfregando as mãos.
— Todo o pessoal do departamento e... – seus olhinhos descem com rapidez até o mouse livre — Algunstouros reprodutores de fora, o que acha?
Ela move a mão esperta, está a um fio de meu mouse, mas preciso recolher uma ficha dentro do arquivo na estante de trás. É tudo ou nada.
— Hum, acho que não. Tenho várias coisas – arrasto a cadeira de rodinhas para trás, erguendo o braço de forma cega enquanto tateio os documentos, já que não posso desviar o olhar nem por um segundo — para fazer em casa.
— Tipo o quê? – seu tom se torna opressivo. A expressão em seu rosto muda de neutra até um aborrecimento latente que se intensifica quando ela tira os óculos do rosto e os dobra, deixando-os apoiados a seu decote — Corte e costura, croché, ponto cruz? Quem sabe até uma siririca.
Estou tentando digerir sua última frase.
Meus dedos se movem de forma mais ávida pelos documentos, eu havia separado aquela pasta especialmente, por que não posso senti-la agora?
— Qual o seu problema, Karin? – minha voz sai esganiçada, meus olhos estão fixos a mão feminina posicionada sobre meu mouse.
Maldita!
Em uma questão de segundos, ela maximiza a aba do Word e salto sobre a mesa como um felino. Canetas, lápis e clips de papel caem sobre a mesa, a plantinha que cultivo com muito amor também está derramando terra sobre folhas limpas, mas só o que importa é que meu corpo esteja tapando a tela.
Estou abraçada ao monitor. Abraçada e ofegando, com os olhos arregalados.
Todo o escritório está olhando para mim. Karin está congelada, com aqueles olhos imensos me encarando.
Tenho vontade de gritar para o mundo inteiro ouvir, sei que meu rosto está vermelho. Todos os olhares, incluindo o meu se desviam até a sala do chefe, se ele resolver sair, será meu fim.
Mas algo igualmente ruim acontece. Naruto Uzumaki, vice-presidente, loiro e com características físicas semelhantes às de meu Francis está no canto da sala, posicionado ao lado da máquina de café, observando-me com um vinco entre as sobrancelhas e os olhos estreitos.
Estou implorando a Deus que me mate agora, se for gentil.
— Quem é Francis? – Karin grita. O tom fino de sua voz soa como agulhas em meus ouvidos —Sakura, quem é Francis?
Olho para Naruto mortificada, agora pensará que tenho um relacionamento. Oh, maldição! Sempre fiz o possível para que ele pensasse que sou uma mulher solteira, talvez assim minhas chances pudessem subir de zero por cento a um por cento, e assim, em um belo e ensolarado dia, ele se aproximasse de mim para uma conversa.
Ele sai, com passos largos e decididos até a sala do Uchiha.
Perdi todas as minhas chances! Estou inconsolável quando meu dedo pressiona o botão de liga/desliga. Meu corpo cai sobre a cadeira de rodinhas, ofegante.
Naruto agora pode pensar que tenho um namorado, jamais se aproximará de mim, não que ele fosse fazer isso antes, mas agora é que não fará mesmo!
Meu coração está palpitando, estou suando frio.
— Você limpará toda a bagunça aqui. – digo, com convicção. Estou tão certa que ela limpará a bagunça que provocou quanto sei que o sol nascerá amanhã.
— Só se me disser quem é Francis.
Shikamaru Nara está me olhando como se eu fosse uma aberração, o odeio, sempre o odiei. Cada um de nós burla o trabalho de uma forma, ele dorme, e sequer precisa estar de olhos fechados para isso.
Karin é viciada em barrinhas de proteína e tem uma compulsão pelo perfeito estado de suas unhas. Também passa a maior parte do tempo lendo fofocas sobre famosos na internet. Jura ter um namorado chamado Suigetsu, mas ninguém ouviu falar sobre ele ou mesmo já viu a figura.
Mas como eu tenho bastante sorte, resolveram implicar comigo. Só porque eu passo tempo demais no computador, sou péssima no trabalho e às vezes uso o horário do almoço para continuar escrevendo.
O chefe me olha estranho, mas não faz nada. Tenho a impressão de que ele é uma pessoa boa por não questionar tudo nas vidas alheias como seus empregados fazem. O Senhor Uchiha sempre se mostrou muito reservado, sério, só falava o que e quando fosse necessário, mas tinha um relacionamento bom com todos.
Seu nome raramente saía em listas. Era raro vê-lo nas revistas, pouco se sabia sobre a vida pessoal dele, pois ele simplesmente negava todas as tentativas de aproximação da imprensa e dava ordens aos seguranças que não permitissem a entrada de jornalistas.
Uchiha era um homem discreto, de pouca conversa, às vezes até sinistro. As conversas sobre ele nos departamentos não tem o menor sentido, em especial porque pouco se sabe sobre ele, então a maioria delas são especulações.
Por exemplo, o relacionamento que teve com uma atriz famosa no ano passado. Os boatos é que eles estavam noivos e houve um desentendimento grave, algo aconteceu e a relação acabou silenciosamente.
É sério, em um dia a aliança estava lá em sua mão direita, no dia seguinte não estava mais. Ele continuou agindo como sempre, não faltou um só dia, só tirou a aliança, sequer se comportou de forma insólita.
Eu tento, mas aparentemente jamais conseguirei ser discreta como ele.
Tomo a tentativa de Karin como um aviso do destino e fecho a aba do Word. Abro o e-mail, enviando o arquivo salvo para mim mesma como faço todos os dias em que consigo escrever alguma coisa além do que fiz em casa.
Não me pergunte o porquê, só tenho inspiração no trabalho. Oitenta por cento do conteúdo da minha estória foi escrito no trabalho.
Tudo bem, já chega por hoje, preciso trabalhar. Karin está recolhendo terra úmida ao meu lado direito enquanto volto minha completa atenção a planilha do Excel.
Completa atenção... Que piada!
Francis estava prestes a fazer amor com Eloise e eu preciso ficar escrevendo uns números sem graça que sequer deveria estar fazendo. Como disse, sou uma marqueteira.
A porta da sala do chefe se abre, e mesmo que o ruído tenha sido mínimo, é o suficiente para que todos sobressaltem em suas cadeiras e finjam que são exímios trabalhadores. O mesmo acontece com Karin, que deixa o resto de terra para o lado e retorna a sua mesa, começando a retornar ligações de investidores.
Meus olhos permanecem vidrados à tela, mas os desvio por um segundo a porta da sala, e Naruto está saindo com ar de riso. Logo atrás dele, o senhor Uchiha.
Eles passam pelo amplo caminho entre as mesas, o olhar escuro de meu chefe perscruta todo o seu departamento, analisando os empregados com atenção, antes que ele olhe em minha direção. No mesmo segundo desvio o olhar até a tela outra vez, tenho certeza que fui rápida o bastante para que não me visse.
Ele desvia-se do caminho reto que estava fazendo e caminha agora em diagonal, parando diante de minha mesa. Meus olhos permanecem fixos ao computador.
Naruto para logo ao seu lado, ambos olhando em minha direção.
Não tenho culhões suficientes para fitá-los, finjo que sequer existem, mas sei que minha testa está suando um pouco. Estou preenchendo Março, tomara que seja o suficiente para ganhar algum tempo.
Aliás, tenho certeza que Naruto contou sobre o pequeno incidente no escritório. Sasuke não saía muito de sua sala, simplesmente não era comum, e estar ali era suficientemente surpreendente para todos, sei que sua repentina saída será assunto no momento em que ele fechar a porta de sua sala atrás de si.
Tenho dúvidas se já estive tão próxima de dois homens tão elegantes antes. Eles parecem combinar as roupas com seus cabelos para criar um contraste, Naruto está de terno e gravata, completamente formal, enquanto Sasuke veste apenas uma camisa social de linho, com as mangas dobradas até os cotovelos.
É preciso uma concentração dos diabos em não olhar para eles.
— Está tudo bem por aqui... – ele inicia, mas sua fala é interrompida por Karin.
— Tudo ótimo, senhor Uchiha, nada aconteceu. – dispara.
Ele a dedica um instante de olhar sério, sem dizer uma palavra, e volta sua atenção a mim. Não tem como ser mais desprezível que aquilo sem proferir algo.
— Você tem a minha planilha? – muda a pergunta, e suponho que a interrupção já tenha o enfezado.
Suspiro, pensando cautelosamente sobre o que responderei.
— Sim, senhor. – digo, por fim.
— Em que mês está? – ele cruza os braços sobre o peito e me encara.
— Hum, outubro.
O pé de Karin acerta uma batida forte contra meu tornozelo e o impacto é perceptível a todos, mas tanto ele quanto Naruto não reagem.
Percebo no canto da vista que ele está se aproximando de mim, passando entre minha mesa e a de Karin e seleciono rapidamente o nome “Março”, trocando-o por “Outubro”.
Ouço um forte suspiro atrás de mim, e ele sai.
— Venha até minha sala no final do expediente. – a voz grossa de Sasuke soa outra vez.
Naruto e Karin me olham como duas figuras inanimadas, que estão ali com o único intuito de assistir a tudo. Minimizo o aplicativo e suspiro, erguendo um olhar deprimido em direção ao senhor Uzumaki.
Tão bonito, e tão desgraçado. Se ele soubesse que é minha inspiração para Francis e que já nos imaginei juntos em todas as posições existentes e até inexistentes, provavelmente me daria uma chance. Eu realmente não posso ser tão feia assim.
Ele dá as costas e sai, meu olhar desce imediatamente até seu traseiro.
— Querida, você tem sérios problemas. – e retorno ao inferno em um piscar de olhos com a voz dela.
— O que? – resmungo.
Frank é exatamente como ele, exceto que Naruto tem cabelos lisos, e é um genuíno mauricinho. Eu não me incomodaria em nada, jogá-lo-ia em um barraco nas montanhas durante um mês, o forçaria a ser autossuficiente e ele seria exatamente como eu queria que ele fosse.
Eu só precisava de uma chance.
— O Senhor Uchiha a chamou em sua sala depois do expediente. Francamente, acho que vai ser demitida. – estrila ela, esfregando o rosto com as mãos.
As unhas dela parecem-se garras vermelhas, olho para as minhas e vejo esmalte azul rachado. O choque entre nossas diferenças era bem maior quando eu começava as comparações, por isso, maximizei o Excel outra vez e mantive o foco na planilha para entregá-la no momento em que eu for de encontro a ele. Quem sabe estar com a pasta em mãos pode ser um empecilho à ordem de demissão.
As quatro e cinquenta, quando todos estão arrumando suas mesas e recolhendo os materiais para ir embora, estou esperando dezenas de folhas saírem em impressão para que eu grampeie todas em uma pasta amarela.
Quando o escritório fica vazio e o ponteiro menor para sobre o cinco, sei que é hora de enfrentar “o monstro”.
Sinto uma frieza na boca do estômago a cada novo passo. Antes que eu possa bater a porta, paro, pensando sobre toda aquela situação. Outro vórtice descontrolado de ideias invade minha cabeça, e divago sobre o quão certo ele estaria em me demitir.
Certamente não seria o maior dos desastres em minha vida. Não chegava nem perto disso. A verdade é que não me importo caso seja despedida, mas ao mesmo tempo estou com o coração disparado e pensando sobre o quão inconveniente seria procurar meus pais em busca de dinheiro.
Eu sou a chefa do clube dos Soberbos. Mesmo quando se trata dos meus pais, na realidade, especialmente quando se trata deles.
Quando eu tomei coragem para contar a minha mãe que queria escrever para o resto da vida, ela disse: “com certeza irá, médicos escrevem, engenheiros escrevem, advogados escrevem, você escreverá e muito, minha fofa”
Sem o menor rastro de maldade, que fique registrado.
E então eu esclareci as coisas à mamãe: “escrever para viver, sabe, um ganha-pão. Quero ser escritora”
Não tive resposta. Mas ao contrário de sua frase anterior, a expressão no rosto dela foi, sim, oblíqua. A feição se contorceu em uma careta, e ela deu duas batidinhas em meu ombro antes de sair.
Duas batidinhas nunca significavam boa coisa. Nunca.
Hoje vivo de Marketing, não sou realizada, mas a maioria das pessoas também não é, e elas continuam vivendo mesmo assim. Posso lidar com isso.
— Senhor Uchiha, posso entrar? – pergunto, depois de dar três batidinhas na porta —Senhor...
Ele abriu a porta, e arregalo os olhos, em uma reação surpresa.
Sasuke não parecia irritado, na verdade, a expressão dele era bem séria e neutra como é o tempo todo. Shikamaru brinca às vezes que quando ele era criança vivia sorrindo e resolveu desafiar a si próprio a ficar sério, e foi justamente neste momento que um anjo soprou a cara dele, deixando-a desta forma para sempre.
E honestamente, eu não duvidava.
— Entre. – ele recuou, dando-me espaço para passar —Pode sentar.
Obviamente obedeci, escolhendo a cadeira moderna posicionada do outro lado da mesa dele.
Tente imaginar a visão que estou tendo agora, pois ela é realmente agradável. Tenho meu chefe, um homem esbelto, com belos cabelos escuros e escorridos, espessos, penteados de forma bastante comedida; ele está com a atenção presa à tela de seu notebook, tem cílios longos, um nariz bem desenhado e lábios pequenos, rosados.
Tenho certeza que estou em meu período fértil, é a única explicação para a análise detalhada que estou fazendo daquele homem, como jamais fiz antes. Não tenho culpa, estudos comprovam que o período de ovulação mexe com o ciclo hormonal de uma mulher, de forma que ela exerce maior atração, mas também se sente mais atraída.
Quem sou eu para contrariar a ciência, do contrário, assino em baixo. São meus hormônios que estão guiando meus olhos em direção aos braços dele, incontrolável. Os bíceps volumosos estão sendo contornados pela camisa de linho, céus, ele tem um pescoço branquinho e maravilhoso, as costeletas estão bem aparadas e ele usa um perfume amadeirado. As mãos grandes também estão ocupadas, uma delas percorrendo com avidez otouchpad, enquanto a outra segura um copo de lanchonete, provavelmente cheio de café. A tampa da mesa é de vidro, mas está cheia de papeis, então não tenho uma visão livre das pernas dele, mas adoraria ter tido para complementar o “passeio”.
Por último e menos importante, existem grandes janelas atrás dele que cobrem toda a parede, além de jarros ornados por plantas de copa alta as quais tenho absoluta certeza que não são cuidadas por ele. Ao lado esquerdo, três espadas presas à parede. Que tipo de pessoa usa espadas como objetos decorativos?
Ele fecha a tela e cruza as mãos, seus olhos escuros agora estão direcionados a mim, e me pergunto se também estou exercendo maior atração nele. A resposta é óbvia, já que ele me olha da mesma forma de sempre, respeitosa e equânime.
— Bem, Sakura...
— Antes que o senhor tome a decisão, eu gostaria de entregar a sua planilha e pedir desculpas pelo inconveniente atraso. – sei que beira o absurdo o interromper, mas é uma questão premente.
Preciso do emprego, preciso do dinheiro.
— Que decisão? – ele semicerra os olhos, com o cenho franzido.
Volto a me desconcentrar, pois ele parece ligeiramente aborrecido, e aquela expressão em seu rosto é realmente bonita.
— Que decisão? – repete a pergunta, analisando as páginas uma a uma.
— Me demitir. Sei que meu currículo é medíocre e ultimamente tenho mostrado preguiça, mas prometo que se me der mais uma chance, o surpreenderei positivamente. – estou tão confiante quanto um político em eras de campanha eleitoral. Mas assim como eles, não sou nada confiável.
— Não vou demitir você. – ele profere, muito serenamente.
— Não? – pisco.
— Sakura, eu realmente não posso saber o que está acontecendo na sua vida, no momento – fanfics estão acontecendo, leitores sedentos pela cena de sexo que estou louca para escrever —, mas tenho motivos para crer que não está se esforçando o suficiente, e isso me incomoda. O problema dos meus funcionários é automaticamente um problema meu, então diga... Há algo acontecendo?
Meu estômago dá uma cambalhota, e tenho certeza que estou boquiaberta. Ele quer saber o que está acontecendo na minha vida, tenho certeza que ouvi direito.
— Não, senhor. – respondo debilmente.
— Não parece, mas é um direito seu preservar sua vida pessoal, eu só preciso que ela não interfira no seu trabalho, como tenho certeza que anda acontecendo.
— Mil perdões. – junto as palmas de minhas mãos com aflição latente — O senhor está certo, eu realmente tenho sido péssima.
— Não tem problema, Sakura. – ele suspira, relaxando em seu assento de forma que as costas se apoiem a cadeira — Bem, é só, você pode ir agora.
Há uma expressão realmente fatigada em seu rosto.
Penso sobre todo o tempo que perdemos xingando nossos chefes, sem pensar que também são seres humanos e se cansam. Isso não muda o fato de que um contador deveria ter preenchido aquela planilha, não eu.
Estou mais tranquila enquanto caminho em direção a porta, solto o ar preso em meus pulmões, percebendo apenas agora que havia o prendido.
Continuo sendo uma mulher independente, assalariada. Digno de uma taça de vinho durante a noite, enquanto escrevo as cenas quentes que tanto anseio.
Paro, percebendo que Sasuke não está juntando seus materiais para ir embora, do contrário, ele permanece sentado, e há uma caneta em sua mão esquerda. Ele está escrevendo quando deveria estar se preparando para ir embora.
Aquilo me intriga, e pigarreio, parada próxima a porta.
— Senhor? Posso deixar a porta aberta? – forço um sorriso gentil.
Ele desvia a atenção de sua papelada, fitando-me em silêncio.
— Não, vou fazer hora extra hoje, há algumas coisas que preciso resolver. Você pode ir embora, não se preocupe com isso.
Não sei o porquê, aquilo me preocupa. Ele já parece tão cansado, e ainda ficará durante a noite.
— Algum problema, senhor?
Ele arqueja, como se minha curiosidade estivesse começando a aborrecê-lo. Não era comum que ele ficasse durante a noite, sozinho naquele prédio colossal fazendo hora extra.
Ainda me recordo da última vez que aconteceu, e foi há três meses.
— Sim... Preciso checar uma coisa. – seus lábios se estendem numa linha dura —Mais alguma pergunta?
Reteso o queixo, amotinada. Realmente não é da minha conta, e não, ele não estava interessado em minhas dúvidas.
— Não, senhor. Até amanhã, tenha uma boa noite! Obrigada!
— Boa noite. – responde peremptoriamente.
Sinto uma frieza ao sair de sua sala. Estou passando entre as mesas vazias do departamento agora escuro de Marketing em direção aos elevadores. Espero que haja um rastro de alma humana naquele lugar, pois parece completamente inóspito.
Como sempre, pego o metrô de volta ao bairro em que moro. Ao chegar em casa minha rotina é a mesma, ouço as mensagens gravadas, assisto a programas de culinária enquanto janto uma lasanha de micro-ondas e preparo minhas mãos e mente para o fatídico hentai.
Estou de olhos fechados, com o notebook sobre as pernas. Sou Eloise, e Frank fará com ela tudo que desejo que faça comigo. Já imagino a cena, só preciso de uma música sensual para escrevê-la.
Não gosto muito de me basear em experiências reais anteriores, foram péssimas.
Ao contrário da comemoração que prometi a mim mesma, não tenho vinho na geladeira e muito menos disposição para ir comprar, então celebro a permanência no emprego com iogurte de morango.
Levo cerca de duas horas para escrever uma cena de sexo realista e avassaladora o suficiente para inebriar os sentidos de minhas amadas leitoras, as quais estou respondendo alguns comentários neste momento.
Não sou a melhor do site, mas tenho várias pessoas que gostam do que faço e me acompanham, converso bastante com algumas delas, e a poucas permito contato pessoal.
Posto o novo capítulo exatamente a meia noite e quarenta e estou ansiosíssima pela repercussão. Só consigo pregar os olhos depois de ler o primeiro comentário, que se resumiu basicamente a uma repetição métrica de vogais, cinco estrelas e um final glorioso.
“Autora, estou de calcinha molhada”
Detalhes, detalhes demais...
Consigo dormir bem, e estou de bom humor no dia seguinte. Tomo o café da manhã lendo uma atualização de outra estória que acompanho, e durante o trajeto no metrô, tiro algum tempo para ler parte dos comentários que recebi durante a noite.
Metrô é um meio de transporte público demais. Profissionais, pessoas de posses, mendigos, cantores amadores, gente aparentemente diferente, mas se havia algo em comum entre elas é que estavam todas sérias.
Por isso tenho receio de gargalhar sonoramente, como adoraria, depois de ler o resumo que recebi de uma leitora sobre suas reações ao ler o capítulo postado.
Aliás, a grande maioria dos comentários é cômica e preciso conter os risos. Tentarei lê-los no trabalho.
Estou correndo pela estação subterrânea até a escadaria que me levará ao lado de fora, preciso chegar ao trabalho o mais rápido possível, mas quem pensa que desejo ardentemente trabalhar se engana.
Quero concluir a leitura dos comentários, loucamente.
Sento-me em minha mesa, afundando o dedo no botão que inicia o computador e Karin me olha sob os óculos, fazendo uma análise silenciosa, talvez até surpresa por minha presença.
— Achei que houvesse sido demitida, Sakura. – ela diz, enquanto digita algo sonoramente em seu teclado —Fico feliz que não.
— Eu também fico feliz que não. – arrasto a seta do mouse compulsivamente pela tela, enquanto aguardo que a internet conecte-se automaticamente.
Viro o monitor em minha direção, para que ninguém consiga ver o que estou fazendo e abro o navegador, digitando o site e fazendo meu login.
Quantas notificações! Estou me borrando em felicidade!
Já estou lendo um comentário quando percebo o sutil ponto de exclamação sobre o ícone que representa os pedidos de amizade. Ele esteve ali o tempo todo, afinal, não recebi nada em tempo real.
Estava tão ansiosa em ler os comentários que sequer percebi que tenho um novo pedido de amizade. Clico no ícone e uma pequena aba mostra o usuário que deseja fazer parte da minha lista de amigos.
Ekusas00 deseja ser seu amigo.
Oi.
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Antes que eu sequer pense sobre aceitá-la ou recusá-la, preciso satisfazer minha curiosidade e vou diretamente ao perfil da usuária.
Já tenho minha primeira surpresa logo ali, afinal, como a maioria esmagadora do site, o usuário não se trata de uma mulher, e sim um homem.
O perfil não está completamente preenchido, na verdade, localização, idade e nome estão vazios, só o que está marcado é o sexo como masculino.
Ele não tem amigos.
Talvez. Talvez eu seja a primeira.
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