Eiji
8 Capítulo Sete
Não demorou muito para confirmar que eu estava certo sobre as pessoas de nosso clã. Eles realmente tinham algo a dizer a meu respeito, mais precisamente sobre quem eu havia levado até ali sem preocupação alguma de explicar o que estava acontecendo.
Hashirama rebateu as palavras dos outros na reunião onde finalmente resolveram dizer o que os incomodava. Meu irmão deixou claro que o único a precisar de explicações era ele próprio, e que as tinha desde antes de Eiji começar a viver entre nós.
Eles pareceram incrivelmente surpresos quando disse que o pequeno era o meu filho, e por sorte — ou talvez respeito — nenhum deles perguntou sobre a mãe de Eiji. Mas, ainda assim, eles se mostraram receosos com a situação.
— Eu entendo que é seu filho, Tobirama-sama, e quer protegê-lo pessoalmente — um dos anciãos disse seriamente. — Mas agora que sabemos disso, só reforçamos ainda mais a nossa preocupação. É apenas uma criança, que mal sabe andar com seus próprios pés, e não deveria estar aqui. O lugar dele é com os protetores, no Norte.
— Ele está certo, Hashiram-sama — outro se levantou ao falar. — Nós temos a confiança de que jamais seremos atacados no núcleo, mas não há certeza. Se por um infortúnio isso acontecer, e essa criança acabar machucada, seria uma fatalidade maior que a morte de algum de nós. Nós protegemos os inocentes, e me recuso a ter a morte de um indefeso nas costas quando poderia tê-la evitado, o deixando em segurança no Norte.
Hashirama os ouviu pacientemente como sempre, e eu, mais tenso do que nunca. Os argumentos eram válidos e concordava com eles, porém, o lugar de meu filho era ao meu lado, não longe dali, e muito menos nas mãos de qualquer outra pessoa. Mas permaneci quieto como o meu irmão, sabendo que eles não concordariam com nada, desde que o pequeno estivesse separado de suas responsabilidades. Eu realmente os entendia e respeitava-os, porém, o egoísmo em suas palavras me dava a sensação de enjoo. Eles se importavam com a vida de uma criança, mas o motivo principal era para manter suas consciências limpas e livres de culpa. Caso algo acontecesse com Eiji, não se importariam, desde que fosse longe de suas responsabilidades.
Eu estava nervoso com aquilo, mas não havia muito o que poderia fazer. Hashirama podia, e sua palavra final foi o que esperei. Eiji ficaria conosco. Eu deveria ficar aliviado e agradecido com isso, mas foi o contrário. Meu irmão agiu usando o seu coração, assim como eu ao pensar que ninguém tiraria Eiji de mim, e com isso causou descontentamento entre os homens. Aquilo atrapalharia o nosso desempenho e não podíamos brincar com a seriedade de uma guerra, e por isso tomei uma decisão sozinho.
— Você não pode ir, Tobirama! — Hashirama exclamou desesperado assim que o avisei sobre o que havia decidido e os porquês.
— Então, o que posso fazer? Diga-me e farei — eu disse com seriedade, mas já sabendo que não teria outra saída.
A expressão triste de meu irmão de deixou mal. Podia imaginar o quão difícil era para ele ficar sozinho novamente e me sentia culpado por isso, porém, minha decisão havia sido tomada após muito pensar nas consequências e principalmente nele. E apesar de não querer deixá-lo, estava firme com a minha ideia, mas não pretendia fazer como antigamente.
— Voltarei aqui todas as semanas e não deixarei tudo em suas mãos, eu prometo — disse ao me aproximar dele e tocar-lhe o ombro. — E pode nos visitar sempre que puder. Saberá onde nos encontrar.
— Eu não gosto disso — disse meu irmão, chateado, mas um pouco mais conformado.
— Nem eu, — não pude deixar de ser sincero — mas apesar de tudo, eles têm razão. É perigoso para Eiji.
Hashirama olhou em meus olhos ao ouvir a última frase, e enfim assentiu. Ainda senti relutância em seu olhar, porém, não continuei com aquele assunto pelo resto do dia. Ele ainda precisava de um tempo para aceitar aquela mudança repentina.
***
Os preparativos para partir foram feitos com pressa, mas com a ajuda de meu irmão e alguns membros do clã, tudo foi empacotado com perfeição. Eiji nos atrasou por não querer que guardássemos seus brinquedos. O pequeno esperneava e gritava desesperado a cada pelúcia e boneco que ia para dentro da caixa, o que ajudou reclamação incessante de Hashirama sobre a mudança. Ele ainda não estava lidando muito bem com aquilo, e seu olhar em Eiji na maioria das vezes me fazia pensar se estava sendo egoísta por separá-los ou se estava sendo precipitado. Mas a reação dos outros membros do clã me dizia que estava certo em me mudar. Eles relutaram sobre a ideia de me deixar ir com o garoto, mas quando viram que não havia opções em que me separava de Eiji, concordaram que aquilo era para o melhor, desde que eu continuasse envolvido com o clã.
Era claro que não os abandonaria novamente, e entendia o medo de todos, principalmente o de Hashirama, mas me senti seguro de que seria melhor criar Eiji longe daquele clima que a guerra criava, principalmente após analisar bem o modo em que vivíamos ali. Porém, ainda assim não consegui evitar de me sentir um pouco deprimido ao deixar a minha casa para trás outra vez.
Nós não íamos para o Norte como haviam indicado ser o melhor. Em partes, seria mais fácil se fôssemos. Lá estava uma das pessoas que tinha a minha total confiança assim como Hashirama, e ela seria de grande ajuda quando precisasse deixar Eiji para cumprir com as minhas obrigações com o clã, porém, além da distância ser maior, eu também tinha um acordo com certa pessoa, que claramente faria tudo se tornar pior se o quebrasse.
A decisão de nos mudarmos para a cabana foi tomada imediatamente, e por esse motivo tive que viajar sozinho por incontáveis vezes naquela semana. Ninguém além dos envolvidos e meu irmão poderia saber sobre aquele lugar, o que me deixou com todo o trabalho de levar nossas coisas até lá. Hashirama me ajudou no último dia, trazendo as últimas caixas e colchões para as duas camas, mesmo que obviamente apenas uma delas serviria para nós.
Hashirama não quis se despedir quando partiu antes do pôr do sol. Ele disse que não havia necessidade para aquilo, quando nos veria em breve. Sua expressão triste ao se afastar ficou em minha mente em todas as horas da primeira noite que passamos na cabana com esta sendo oficialmente o nosso novo lar. Era difícil não me importar com o que o meu irmão poderia estar se sentindo naquele momento, ainda mais após saber mais sobre Madara e ele, mas em certa hora consegui desviar meus pensamentos, e o foco foi me perguntar o que faria a partir dali. Havia pensado muito em como faria para continuar com os planos do clã e ao mesmo tempo cuidar de Eiji longe daquilo, mas pontas soltas ainda me deixavam pensativo. Continuaria perigoso levá-lo até as reuniões e treinamentos, e diferente de minha antiga casa, não teria criados para ajudar com aquilo.
Eu pensei, pensei e pensei, e a única coisa que parecia a mais acessível naquela situação era a que menos queria e afastava a ideia em todas as vezes que aparecia. Não tinha o mínimo de confiança em fazer aquilo, e a certeza de que perderia Eiji ao ceder me deixava nervoso. Izuna não era nem um pouco confiável, e obviamente quebraria o nosso acordo na primeira oportunidade que aparecesse. Ele não tinha honra, não como eu, que prezava tanto minhas próprias palavras que era tolo o suficiente para me mudar para um lugar no meio do nada apenas por causa daqueles encontros que acabei prometendo continuar.
Balancei a cabeça de um lado para o outro, mais uma vez me recusando a continuar com aqueles pensamentos, mas sem conseguir tirar a ideia da cabeça. Izuna aceitaria passar um dia inteiro ao lado do pequeno sem pestanejar, porém, eu sabia, sentia, que seus motivos para tal seriam levianos.
“Ele tiraria Eiji de mim novamente”, pensei com nervosismo e soltei um pesado suspiro, e só então notando que cortava as cenouras sobre a tábua em minha frente de maneira distraída. Um pequeno corte em meu dedo foi o meu aviso para que me concentrasse naquilo e não em uma ideia que nunca deixaria de ser apenas aquilo. Meus olhos foram até Eiji, brincando no chão do outro lado do balcão, onde eu cortava os legumes para a sopa que faria para ele. O pequeno estava distraído com duas pelúcias enquanto tentava falar, mas como sempre nada inteligível saía por seus lábios. Ele ás vezes gritava, animado com sua brincadeira, o que me fazia rir como bobo.
Mais uma vez me distraí e por pouco um novo corte não fora fazer companhia para o outro em meu dedo. Por sorte — ou não — uma presença do lado de fora me fez parar a faca antes. Era sexta-feira, então não recebi aquela sensação incômoda com surpresa.
Logo a porta foi aberta sem cerimônias e Izuna me olhou com certa surpresa ao entrar.
— Chegaram cedo — a frase explicou a sua expressão, e com curiosidade ele olhou em volta antes de me encarar novamente. Tudo estava bem diferente desde a última vez que havia entrado ali, e já esperava o olhar interrogativo que viria com ele.
— Ficaremos aqui por algum tempo — expliquei simplesmente e voltei a cortar os legumes sobre a tábua.
— Por quê? — Izuna, insistente como era, ainda perguntou, mesmo já sabendo o tipo de resposta que receberia.
— Não é da sua conta — o respondi rispidamente e me virei para ele outra vez. — E pode começar a bater na porta a partir de hoje.
Ele revirou os olhos e retirou o casaco.
— Como se eu fosse te obedecer em qualquer coisa — disse ele em tom baixo ao jogar o casaco sobre uma das cadeiras da cozinha e passar direto por mim. Assim que seus olhos encontraram Eiji, minha presença foi ignorada como sempre, e em silêncio voltei aos meus afazeres.
Ele ficou até tarde naquele dia e em suas visitas seguintes também — ás vezes até chegava mais cedo do que antes. Izuna não me perguntou novamente o motivo de estarmos ali, porém, não escondeu a animação por poder passar mais tempo com Eiji. Antes de morarmos na cabana, não podia ficar por tantas horas com Eiji ao ar livre. Haviam cuidados e horários a cumprir para uma criança, o que fazia os encontros durarem no máximo três horas.
O pequeno também ficava animado com o horário da permanência de Izuna estendido, e para a minha surpresa, não me importava. Eiji estava feliz, e mesmo sem querer admitir, era bom ver alguém da minha idade de vez em quando, ainda que os nossos diálogos fossem mais curtos do que os que tinha com o garoto que mal sabia falar.
Hashirama também nos visitava toda semana, mas sua permanência durava bem menos do que a de Izuna, e no primeiro mês dispensou minha presença nas reuniões do clã, por alegar que Eiji ainda precisaria se adaptar com a nova vida. Eu concordava com ele, porém, era impossível não me preocupar com o que acontecia enquanto estava fora. Ele me garantiu que tudo estava em ordem em uma de suas visitas, e rapidamente mudou o assunto para Eiji, que se mostrava mais irritado que o normal naquela última semana.
Os dentes do pequeno ainda estavam nascendo, e imaginei que o incômodo o estava deixando estressado. Esse foi o assunto que me obrigou a conversar de verdade com Izuna pela primeira vez. Por incrível que poderia parecer, nós não terminamos aquilo com uma discussão ou insultos. Estávamos preocupados com Eiji, e tudo ficou pior quando aquela fase o fez ter febre de uma hora para a outra.
O pequeno estava tão irritado que pulou de um colo para o outro o dia todo, mas quando a noite chegou, se agarrou a Izuna e não quis soltá-lo. Ele dormiu na cabana naquela noite, mostrando que a segunda cama acabou sendo útil, mas Eiji acordou e chorou várias vezes durante a madrugada, nos impedindo de também dormir. Mas os cuidados com o garoto foram apenas uma desculpa de minha parte. A permanência de Izuna naquela noite era o principal motivo de eu não conseguir fechar os olhos por um minuto sequer. Nós não estávamos mais tão ariscos como no início, porém, eu definitivamente não confiava nele. Izuna podia me atacar durante o sono ou sumir com Eiji, e tais pensamentos me tiraram completamente a sonolência. Fiquei de vigia a noite toda, mas metade daquele tempo tive companhia, pois o próprio em quem eu não confiava, estava preocupado demais com o pequeno para fechar os olhos. Ele mesmo disse tal coisa para mim, o que me trouxe um sentimento estranho. Eu me preocupava com Eiji como ele, porém, me perguntei se Izuna não tinha os mesmos medos de ser atacado, mas por mim. Sempre enchia a boca para dizer que ele não era confiável, mas a verdade era que eu também não era. Não para ele.
Eiji melhorou ao amanhecer, e apesar de ter continuado a mostrar sinais de incômodo nas semanas seguintes, a febre não voltou para nos preocupar. Mas isso não impediu Izuna de se intrometer em nossa casa por mais duas noites durante aquele primeiro mês. Cada vez era uma desculpa diferente, como chuvas ou o horário em que ele poderia muito bem sair sozinho, mas me ignorava quando discutíamos sobre o assunto. Ele parecia à vontade demais depois de algumas semanas, e o jeito com que tomava a atenção de Eiji durante aquelas noites em que o colocava para dormir consigo traziam minha irritação de volta.
Meu irmão havia dito que aquele mês de adaptação era para Eiji, mas na realidade foi para mim. Tudo mudou por estarmos morando ali. Eu não via Hashirama ou os outros membros do clã como antes, e uma das presenças constantes era a da pior pessoa de todas. Eiji era a única coisa que me fazia fechar os olhos e respirar fundo para tentar me acalmar e ignorá-lo vindo até duas vezes por semana para visitá-lo.
Nós voltamos a discutir depois que Eiji melhorou, mas era diferente de antes. Sem perceber, eu havia me acostumado com aquele incômodo. Eu já o esperava entrar pela porta sem pedir permissão, ser ignorado em um primeiro momento para depois ter que ouvir suas reclamações do modo que criava Eiji. Em várias vezes eu nem ao menos me dava o trabalho de respondê-lo, pois sabia que aquilo não levaria a nada. Não concordaríamos um com o outro e no fim cada um ensinaria o que queria para o garoto.
Ele me deixava nervoso na maioria das vezes, mas apesar de tudo, não podia fechar os meus olhos sobre aquela nova vida. Izuna poderia ser irritante e intrometido, mas também ajudava quando estava ali. Ele cuidava de Eiji enquanto eu fazia as refeições e sem nada dizer me dava apoio quando o pequeno estava dormindo e aproveitava aquela oportunidade para guardar as centenas de brinquedos espalhados pelo chão. Era estranho pensar nele de tal maneira, mas ter Izuna ali tornava algumas coisas mais fáceis. E foi esse pensamento que trouxe um antigo de volta assim que ultrapassamos um mês naquela situação. Eu sabia que Izuna tinha os seus próprios assuntos e me perguntava se Madara fazia ideia de onde seu irmão passava todas aquelas horas na semana, e apesar de admitir sua utilidade, ainda não confiava nem um pouco nele. Mas eu precisei repensar naquilo quando o gavião de Hashirama pousou em meu braço em certa manhã. Eu estava sendo convocado para uma reunião, e a dúvida sobre levar Eiji ou pedir para que o outro cuidasse dele voltou.
Eu havia decidido levá-lo, depois de muito pensar. Não podia arriscar nada em uma época como aquela, e seria mais seguro de tal maneira. Porém, Izuna se mostrou descontente quando avisei que não estaríamos ali na data marcada por Hashirama. Como sempre não me importei com seu falatório, mas foi Eiji quem me fez mudar de ideia. Izuna também não me ouviu como era costume, e para me provocar apareceu na cabana antes de podermos sair. Eiji ficou tão animado com a visita inesperada e se agarrou em Izuna, como se já soubesse de minha intenção de tirá-lo de seus braços a força, se fosse preciso.
Nós discutimos seriamente naquela manhã, o que assustou o pequeno. Eiji chorou angustiado por nos ver tão ferozes pela primeira vez, o que me fez recuar imediatamente. Izuna se mostrou preocupado com a reação do pequeno, mas ficou irredutível sobre o seu lado naquele assunto. Ele queria poder ficar com Eiji sozinho algumas vezes, e já havia entrado naquele assunto em oportunidades passadas. Eu recusei em todas as vezes, porém, naquele dia fui vencido pelo olhar assustado do garoto.
Eu olhei para trás tantas vezes antes de me afastar da cabana, e até mesmo depois de estar longe o suficiente para não conseguir vê-la. Em meu interior só conseguia imaginar o pior resultado possível por ter tomado aquela decisão, e o sentimento incômodo que apertava o meu peito me fez ficar ansioso para retornar o dia todo.
A reunião fora sobre nossos problemas internos nos acampamentos, e ajudar a reorganizar a segurança de nosso clã me distraiu por algum momento. Poder ver Hashirama também me trouxe um pouco de alívio, porém, quando tudo foi resolvido, voltei para casa o mais rápido que consegui.
Meu coração estava acelerado pelo esforço da corrida, mas também era pela agonia que sentia. Queria ver o meu filho. Sentia a falta dele e precisava ter certeza de que não havia feito uma idiotice ao deixá-lo com Izuna. Minha ansiedade foi tanta que nem ao menos me lembrei de tentar sentir o chacra do outro para ter um certo alívio antes de enfim chegar na cabana. Meus pés foram rápidos até a porta, que foi aberta com tanta urgência que assustou os que estavam dentro. Meu coração continuou acelerado quando dei largos passos até uma das camas, mas daquela vez a corrida não era nem um pouco culpada por meu estado.
Assim que me viu próximo, Eiji soltou um gritinho e estendeu os braços em minha direção. Ver aquilo me fez soltar um riso abobado e o peguei no mesmo instante. Me senti extremamente aliviado por poder segurá-lo depois de tantas horas longe, e meu peito se aqueceu ao ouvir sua risada quando dei um beijo estalado em na bochecha gordinha.
Toda aquela comoção obviamente não passou despercebida por Izuna, que estava sentado sobre a cama. Seu olhar curioso sobre mim me deixou subitamente sem jeito e dei as costas assim que perguntei sobre o pequeno. Ele não pareceu se incomodar com o meu jeito de agir e muito menos por me responder, e até mesmo se animou quando continuei a perguntar o que haviam feito durante o dia. Foi esquisito, mas ouvir a voz de Izuna no fim do dia me deixou ainda mais aliviado, e não pude deixar de sorrir fraco ao saber das coisas novas que Eiji havia aprendido enquanto estava fora.
Aquele dia voltou a se repetir sempre que precisava ir até o meu clã, e Izuna assumia o meu lugar ao lado de Eiji com todo o prazer. Com o passar do tempo a desconfiança foi diminuindo, mas tão lentamente que ainda me fazia olhar para trás em todas avezes que saía de casa. Sempre que retornava, Izuna ainda estava ali e com o pequeno em seu colo, o que acabou se tornando comum para mim.
Nossas conversas também voltaram com o tempo, mas eram exclusivamente sobre Eiji. Alguns meses passaram, e até mesmo nos permitíamos nos cumprimentar, inclusive chegamos a perguntar se estávamos bem. Não que a resposta fosse realmente importar, mas, era bom poder agir civilizadamente, já que passávamos mais tempo juntos do que antigamente.
Eu passei a ignorar meus pensamentos que insistiam em analisar a situação, pois, sabia que se pensasse demais, não gostaria de enxergar de verdade no que a minha vida havia se tornado. Mas eu ainda não conseguia deixar de notar cada detalhe do dia a dia, de como Eiji crescia cada vez mais, e junto Izuna ficava mais deslumbrado pelo pequeno. Mas não o julgava por essa parte, pois também era como ele. Cada coisa pequena que o garoto fazia era motivo para o meu coração acelerar e falava sobre com Izuna como um idiota. Era como se fôssemos fãs de um mesmo cantor e tínhamos um clube para venerá-lo.
Com o passar do tempo também notei que Izuna não era tão agitado e enérgico como um dia pensei que era. Ele era quieto na maioria das vezes, e só ouvia a sua voz subir de tom quando estava brincando com Eiji ou quando acontecia de cedermos aos antigos hábitos de discussões.
Houve um certo momento em que tive que parar de ignorar os meus pensamentos, e vi o quão estranho havia me tornado. A convivência havia nos obrigado a nos conhecer melhor, mas percebi que cheguei a um ponto em que sabia até demais sobre seus gestos e significados, os tons de voz e os sorrisos. Eu sabia de tudo aquilo, e ao perceber, me senti assustado.
Fiz de tudo para me esquecer do assunto e agir normalmente no momento seguinte, pois Izuna nos visitaria naquele mesmo dia. Limpei a casa toda a fim de me distrair, levei Eiji até o lago, o alimentei, banhei e brinquei, mas, ainda assim, sentia meu peito se apertar de maneira estranha, e tudo piorou quando o senti se aproximar do lado de fora. Ainda me sentia agitado e completamente confuso pelo motivo daquilo, e temi que Izuna notasse meu jeito estranho, mas ele não notou nada em mim quando entrou pela porta. Na verdade, não parecia notar nada em qualquer coisa, até mesmo Eiji.
Izuna ficou estranhamente pensativo naquele dia, e mesmo com as provocações que joguei para cima dele, não reagiu como normalmente faria. Era como se estivesse cansado demais para discutir ou fazer qualquer coisa.
Durante a tarde, Eiji quis voltar para o lado de fora. O tempo estava fresco e o cheiro das flores das árvores à frente da cabana traziam um bom clima, então não me importei em deixar Izuna levá-lo até lá. De dentro da cabana podia ouvir gritos e risadas, mas apenas de Eiji, o que me deixou curioso e me levou até onde estavam. Assim que passei pela saída, vi Izuna sentado no banco ao lado. Ele observava Eiji correr atrás das borboletas que sempre ficavam por ali e mesmo o vendo sorrir fraco para o pequeno, ainda senti que algo estava errado.
— Aconteceu alguma coisa? — Perguntei ao me sentar ao seu lado. Era a primeira vez que fazia aquele tipo de indagação me importando com o que ouviria.
Izuna não tirou os olhos de Eiji quando negou com a cabeça e soltou um leve suspiro. Definitivamente algo o preocupava, porém, não consegui insistir por uma resposta, e logo me conformei por não ser da minha conta.
— Ele está andando melhor — Izuna mudou de assunto rapidamente e sorriu de canto ao continuar a observar o pequeno, que ainda insistia em agarrar as borboletas.
— Sim — sorri orgulhoso ao também me atentar a ele. — No começo da semana ele tentou correr, mas acabou caindo — Izuna me olhou preocupado ao ouvir, mas logo o tranquilizei. — Corri para ajudá-lo, mas ele estava bem e se recusou a aceitar a minha mão, e não ficou feliz enquanto não levantou sozinho.
Ri ao me lembrar do quanto ele parecia ofendido com a minha ajuda, e a expressão extremamente concentrada na hora de levantar e passar a andar como se nada tivesse acontecido. A risada de Izuna que acompanhou a minha me chamou a atenção, e o olhei de canto por um momento. Ele ainda olhava à frente e um fraco sorriso estava em seus lábios. Parecia diferente de antes, mas não consegui identificar como, só sabia que sem motivo aparente me senti aliviado.
— Ele é tão forte e inteligente — Izuna alargou o sorriso ao dizer e em seguida virou o rosto em minha direção.
Apesar da melhora em nosso convívio até aquele momento, jamais havia me sentido como naquela tarde. Percebi tal coisa quando o olhei nos olhos por aquele tempo, o que me deixou um pouco desconfortável e me fez desviar o olhar. Aquele tipo de calmaria entre nós era novidade, e o que mais me surpreendeu naquele momento foi o breve pensamento que tive, sobre gostar mais de um clima como aquele do que os de provocações ou de silêncio completo.
Izuna voltou ao seu normal nas próximas visitas, e apesar de tentar me convencer de que qualquer problema que ele tivesse não seria da minha conta, a curiosidade era mais forte do que eu. Passei a observá-lo ainda mais após aquele comportamento estranho, a procura de algo que denunciasse aquilo, porém, não vi nada além de seu bobo sorriso quando estava com Eiji voltar. A voz infantil também voltou juntamente com o meu rolar de olhos todas as vezes em que o ouvia. Aos poucos tudo retornou ao que era, com exceção de nossas brigas. Elas ainda apareciam vez ou outra, porém, a antiga vontade de esquecer de Eiji e espancá-lo já havia sido guardada há algum tempo. Também evitávamos gritar, mesmo quando o pequeno estava longe e não podia nos ouvir. Acabamos nos acostumando com discussões sussurradas que terminavam com silêncios mais incômodos do que os socos que costumávamos trocar. Era estranho, mas, eu nem ao menos sentia vontade de tocar nele como antigamente. Não sabia se a presença de Izuna havia me cansado tanto a ponto de não levantar um dedo contra ele ou simplesmente me importava em machucá-lo. E tinha Eiji, que estava cada vez mais esperto, e com certeza notaria se aparecêssemos em casa com novos cortes e hematomas. Talvez fosse por isso que havia perdido o interesse em nossas lutas. O pequeno já dava trabalho demais quando chorava e esperneava todas as vezes que via Izuna ir embora, imaginava como seria se o visse machucado. Mesmo com todo aquele tempo, não havia me acostumado com o som de seu choro e duvidava se algum dia me acostumaria. Doía ouvi-lo, e em todas as vezes era como se uma espada atravessasse o meu coração, o que me fazia desgostar de todos os momentos em que Izuna tinha que ir embora. O pôr do sol chegava — ás vezes com o céu já escuro — e ele ia. Eiji se acostumou a acompanhá-lo até a porta, e em meu colo, sempre se recusava a se despedir. Ele começava a chorar assim que pisávamos no lado de fora, o que fazia Izuna hesitar todas as vezes e prolongava um pouco mais o drama. Certas vezes até mesmo via os seus olhos brilharem e em seguida engolir as lágrimas, provavelmente por estar em minha presença. Ele sabia que eu nunca o deixaria em paz se o visse agir ainda mais sentimental do que era, — o que já lhe causava uma boa dose de piadas — mas na verdade entendia parte do que podia estar sentindo. Imaginava ser difícil ter que deixar Eiji chorando para trás como se não se importasse, mas também era duro ficar e tentar acalmar aquele choro angustiado por um longo tempo.
A partir de certa época, passei de não gostar para odiar quando Izuna tinha que ir embora. Eiji passou a chorar só quando ele sumia entre as árvores, o que deixava o sofrimento apenas para mim. Vê-lo dando as costas fazia o meu peito se apertar mesmo antes de ouvir os primeiros soluços do pequeno em meu colo, e torcia para que aquilo um dia parasse.
Houve um dia em que pensei que enfim teria paz quando Izuna estava prestes a ir embora, mas estava enganado. Eiji havia pegado no sono depois de tanto se agitar e nos deixar exaustos. Izuna ainda se arrastou pela cabana para me ajudar a guardar os brinquedos, e mesmo eu dizendo que não havia necessidade para aquilo, me senti agradecido, por estar tão cansado e não ver a hora de fazer como o pequeno e me jogar sobre a cama.
— Os dias estão ficando mais cansativos — comentou Izuna assim que terminou de me ajudar e foi colocar seu casaco. Eu assenti enquanto o observava ficar pronto para ir e me aproximei.
— E eu que achava que seria mais fácil quando ele não precisasse ficar tanto tempo no colo — ri em tom baixo ao dizer. — Esse garoto, ás vezes penso que tem fogo em baixo dos pés que não o deixa ficar quieto.
Izuna riu como eu ao ajeitar seu casaco.
— Bem, ele não pegou isso de minha parte.
— Você é fogo, e eu, água — rebati imediatamente e com o humor intacto. — Não temos muito o que discutir, hm?
— Pode ser água, mas é de mar e na mais terrível das tempestades — ele sorriu largamente ao terminar de falar e esperou a minha reação diante de sua provocação, mas só consegui rir daquela boba conversa e balançar a cabeça de um lado para o outro.
Nós ficamos em silêncio no momento seguinte, e sem saber o porquê, fiquei parado ali, o encarando feito um idiota, e ele fazia o mesmo. Ás vezes agíamos daquela maneira, quando nos envolvíamos em conversas sem muito sentido ou importância. Era como se estranhássemos aquele nosso jeito, e os antigos Tobirama e Izuna apareciam e nos julgavam secretamente. O que nos fazia parar de falar do nada e ficar daquela maneira. Eu gostava daquelas conversas, mas, o que sentia enquanto ouvia Izuna ao mesmo tempo que me satisfazia, me trazia medo e hesitação.
Quando a situação já estava ficando ridícula demais, enfim desviei o olhar do dele, e o ouvi pigarrear antes de se afastar. Logo levantei o olhar e o vi ir até a cama onde Eiji dormia. Ele beijou a testa do pequeno com cuidado antes de se afastar e enfim sair pela porta. Eu o acompanhei como sempre, mesmo sem o pequeno para se despedir, o que deixou o clima que antes já era constrangedor ficar ainda mais.
Normalmente não sabia como agir na presença dele sem ter Eiji para me incentivar a dizer algo, e tudo piorava quando aquele clima acusador caía sobre mim, sendo que não havia real motivo para me sentir de tal maneira por uma simples conversa, e por isso ficamos algum tempo parados na entrada, novamente encarando um ao outro feito dois idiotas.
— Acho que é melhor assim — Izuna foi o primeiro a dizer algo, e demorei um pouco para entender sobre o que ele estava falando.
— É mais silencioso, — eu disse após finalmente me dar conta de que ele se referia a Eiji — mas só até ele acordar e não te ver.
Ri sem jeito e ao mesmo tempo me preocupando antecipadamente. Izuna riu em tom baixo e em seguida, mais uma vez ficamos sem ter o que dizer. Eu não sabia quanto a ele, mas me sentia cada vez mais desconfortável com aquilo. Não só pelo silêncio e a falta que o “falante” Eiji fazia para aquele momento, mas também pelo o que crescia em meu peito a cada minuto que passávamos na entrada da cabana.
— Então... eu tenho que ir — disse ele enfim, sorrindo de canto antes de começar a se mover. Porém, ele logo parou e me olhou como se lembrasse de algo. — Ah, não poderei vir na próxima semana, tenho alguns assuntos para tratar.
Aquela notícia me trouxe um leve incômodo. Fiquei a imaginar como Eiji ficaria triste naquela semana quando soubesse que Izuna não o visitaria.
— Ok — disse simplesmente, mesmo querendo falar muito mais que aquilo naquele momento. Eu queria conversar. O que quer que fosse. E aquela súbita necessidade me assustou por um momento.
Me senti agitado quando o vi me olhar um pouco sem jeito sem um motivo aparente e deu as costas. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, mas ignorei qualquer orgulho ao dar um curto passo à frente.
— Você... — disse em tom baixo, mas ele me ouviu e se virou no mesmo momento — pode vir no sábado, se quiser. Nós vamos ficar por aqui no final de semana e Hashirama não poderá nos visitar.
Me senti um pouco ansioso ao fazer o convite, e para disfarçar a minha agitação, coloquei as mãos dentro dos bolsos da calça. Izuna sorriu fraco ao me ouvir, o que me deixou ainda pior.
— Certo — Izuna respondeu animado, mas logo abaixou o olhar e pareceu sem jeito outra vez. Ele colocou uma mecha de sua franja atrás da orelha antes de voltar a me olhar nos olhos e seu sorriso se tornou envergonhado. — Obrigado.
Algo se agitou em meu peito ao vê-lo agir daquela forma, e o meu nervosismo aumentou tanto que não consegui respondê-lo com palavra alguma e apenas assenti.
Izuna enfim foi embora depois daquele momento tão constrangedor entre nós, e achei que me sentiria aliviado por isso, mas me enganei. Quando o vi sumir por entre as árvores, me senti da mesma maneira em que vi aquela cena em momentos anteriores, o que deixou bem claro para mim que, depois de tudo, aquele sentimento sufocante não era apenas pelos choros de Eiji.
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