Eiji
9 Capítulo Oito
Os meses passaram tão rápido naquela época. As reuniões do clã aumentaram gradativamente, e o estresse de todos pelo labirinto que aquela guerra havia se tornado acabava me cansando ainda mais. As viagens que fazia da cabana até o clã também me cansavam, e ás vezes Izuna não podia estar com Eiji, o que me obrigava a levá-lo junto. Estava exausto demais para pensar no tempo, e quando me dei conta, Eiji já estava com quase três anos de idade.
Se todo aquele tempo havia passado, era de se esperar que Izuna e eu tivéssemos aprendido completamente a conviver, mas a realidade não era bem assim. Convivíamos muito melhor do que no passado, era um fato incontestável, porém, ainda era difícil ter que aceitar opiniões ou até mesmo ordens um do outro. Brigávamos bastante quando o assunto era Eiji. Sobre o que ele poderia comer ou não, o que deveria ser ensinado ou até mesmo o corte de cabelo. Parecia que quanto mais nos aproximávamos, mais conflitos surgiam.
Izuna ficava irritado com frequência e por motivos bobos, mas não podia culpá-lo por isso, pois eu mesmo vez ou outra explodia com detalhes completamente inúteis. Eu nunca fui a pessoa mais calma entre nós, porém, não era de fazer um alvoroço por qualquer coisa, o que com muito custo admiti estar fazendo, ainda que apenas para mim mesmo. Sabia que exagerava em muitas coisas. Não seria o meu fim se deixasse Izuna escolher o que dar de comer para Eiji, ou que o pequeno esperasse um pouco mais para saber o que shinobi significava e a aprender a ser um. Não faria mal principalmente se permitisse que o cabelo dele crescesse um pouco mais, mas jamais como o de Izuna. Achava que fosse o ciúme que me motivava a impedir tais coisas e acabar discutindo em todas as vezes, eu não sabia ao certo, mas o que tinha certeza era que sentia a falta do curto período em que nos dávamos um pouco melhor. Porém, ao mesmo tempo que queria voltar atrás, tinha medo de me sentir da mesma maneira de antes. As conversas tinham mais sorrisos e ás vezes risadas, o clima entre nós aquecia o meu peito, e era ótimo, até aqueles momentos aumentarem e a sensação morna se tornar quente demais e quando nossos olhares se encontravam, não sentia mais a mesma paz de antes. Eu sabia o que era aquilo, e exatamente por isso me fechei com rapidez. Ao me lembrar de tais momentos, clareei a minha mente. Nem tudo era por ciúme de sua relação com Eiji, era o medo de nos aproximarmos novamente e voltar a sentir aquelas sensações.
Eu me importava com ele, isso era uma coisa que não podia mais negar. As vezes em que ele voltou a parecer sério e pensativo, passei a ficar ao seu lado, mesmo que em silêncio, esperando que me dissesse algo ou me desse uma dica do que fazer para o que estivesse sentindo melhorasse, mas Izuna nunca revelava muita coisa, o que me deixava preocupado. Eu tinha certeza de que algo estava acontecendo, e ficava a imaginar se era pela guerra ou algum assunto interno de seu clã, ou talvez fosse por mim ou Eiji. Pensar em todas as possibilidades me deixava enlouquecido e com vontade de agarrá-lo pelos braços e obrigá-lo a dizer o que estava acontecendo, mas nada fazia. Ainda tentava me convencer de que não era da minha conta, mas, passei a me importar demais para ignorá-lo. Aquelas expressões de Izuna eram como os choros de Eiji para mim.
As coisas entre nós começaram a mudar novamente quando comentei a ideia de aumentar o tamanho da cabana. Izuna se mostrou interessado na ideia, e concordou sobre Eiji estar crescendo e que logo precisaria de um quarto apenas para ele. O jeito com que conversávamos, como se houvesse certeza de que ficaríamos ali por tempo o suficiente para ver Eiji crescer ainda mais, me fez ceder como antigamente. Eu adorava a ideia, mesmo sem saber se aquilo realmente poderia ser possível, mesmo no fundo sabendo que o futuro como víamos podia não passar de um sonho.
Apesar de voltarmos a nos aproximar como antes, evitei o máximo contatos visuais e como nunca havia tocado em sequer em um fio de seus cabelos desde que havia me mudado para aquele lugar e principalmente, começado a olhá-lo com outros olhos, não tive problemas em evitar isso. Tocá-lo, seja da maneira ou intenção que fosse, do jeito mais simples e rápido, era proibido por mim mesmo. Foi uma das maneiras que fez a ideia de manter meus sentimentos quietos um sucesso por algum tempo, mas na realidade eu só camuflei os meus desejos por todo aqueles meses. Não encostava nele, mas isso não queria dizer que a vontade de fazer tal coisa fosse nula.
Não era sempre que evitar olhá-lo era possível. Às vezes Izuna parecia se irritar quando eu me ocupava com outras coisas enquanto conversávamos, e isso acabava me obrigando a olhá-lo enquanto continuava o assunto. Ele ficava silencioso demais quando estava com raiva, e sua voz era o que me animava enquanto começava a construir o segundo andar da cabana. Mesmo que ás vezes eu mesmo acabava me irritando com o que ouvia, ainda gostava.
Um dia Izuna havia apoiado a ideia dos quartos, porém, ele imaginava que na próxima vez que colocasse os pés na cabana, tudo estaria pronto, assim como o térreo que foi construído em minutos. Mas aquilo era o trabalho de Hashirama, e recusei sua ajuda daquela vez. Eu precisava de algo para fazer, além dos planejamentos de guerra e cuidar de Eiji. Precisava de algo para mim, necessitava me distrair um pouco, mas eu deveria ter imaginado que com Izuna e Eiji ali, jamais teria um momento em silêncio em que tudo estivesse em completa paz. O pequeno corria pelas madeiras recém-cortadas, se equilibrava na beirada do telhado quando ainda estava sendo retirado, o que me distraía com a preocupação de um acidente, e ouvia Izuna berrar enquanto brigava com ele por isso. Quando Eiji enfim se cansava e dormia, teoricamente era a hora de ter silêncio, mas Izuna estava lá para reclamar sobre o meu suposto orgulho ao não pedir ajuda a meu irmão. Logo que a preocupação com Eiji passava, me irritava com Izuna. Não havia a quietude que pensava, e quando raramente o silêncio vinha, era porque Izuna estava bravo, e quem não ficava quieta era a minha própria mente, me culpando por qualquer coisa que tivesse feito para deixá-lo de tal maneira.
Tudo era estressante e barulhento, mas no fim, eu gostava. Não conseguia mais me imaginar sozinho e em um completo silêncio. Apesar de desejar um pouco de paz vez ou outra, tinha a certeza de que enjoaria em segundos e me sentiria solitário sem eles ao meu lado. No fundo eu adorava o barulho e as reclamações. Parecia masoquista.
Apesar de tudo, os dias correram bem, melhores que os anteriores em que só pensava no trabalho no clã e as discussões com Izuna. Eiji parecia mais animado em ter um quarto só para ele, e vê-lo feliz sempre me deixava da mesma maneira, o que aliviou muito do estresse que vinha sentindo.
Quando o segundo andar estava com a construção em sua fase final, suspirei aliviado e ao mesmo tempo satisfeito por olhar ao meu redor. Estava demorando um pouco mais do que o devido, mas me sentia orgulhoso por estar fazendo aquilo sem a ajuda de Hashirama, e mesmo sem querer pensar naquilo, também me sentia contente por ter um pouco do trabalho de Izuna ali. Mesmo com suas reclamações, no fim acabava me ajudando sempre que podia, e naqueles momentos conseguia provar um pouco dos nossos antigos momentos, que completamente ciente, deixei voltar aos poucos.
Eu não o olhava apenas quando estava chateado, pelo contrário, na primeira oportunidade o observava o máximo que podia, e não conseguia suprimir a satisfação que sentia apenas por fazer aquilo. Sua risada se tornou constante naqueles dias, e ainda que não admitisse, fazer aquilo com ele foi muito mais divertido do que se tivesse seguido com o plano de fazer sozinho. Ter um tempo para mim foi uma ideia jogada longe assim que o vi animado com aquilo, e ter mais momentos com Izuna foi o que facilmente substituiu o primeiro plano.
Eu sabia que não podia deixar aquele sentimento crescer, pois era óbvio que não havia como tudo terminar bem algum dia. Mesmo que eu fosse forçado, teria que voltar a enfrentá-lo em batalha. Era doloroso pensar nisso, mas era a realidade, e não gostava de me afastar dela por tanto tempo.
Todo aquele tempo sem ação era apenas uma preparação de nosso clã para acabar com tudo no próximo encontro que teríamos com os Uchiha. Aqueles dias que me acostumei e prezava tinham data de validade, eu sabia disso e foi a razão de tentar tanto não me apegar, camuflando os meus sentimentos com bobas discussões e proibições.
Tinha certeza de que Eiji iria ficar arrasado com a falta de Izuna, e mesmo com a minha tentativa de afastamento, era óbvio que ficaria como o pequeno. Eu definitivamente me importava com ele, a ponto de certa vez me questionar se conseguiria encostar nele como antigamente, quando secretamente a vontade de tocá-lo de outra maneira crescia cada vez mais.
Eu sabia que não podia deixar aquilo ir adiante. Apesar de notar certas mudanças em suas feições vez ou outra, imaginava o que Izuna sentia sobre mim provavelmente não era tão intenso assim, a ponto de ter aqueles tipos de pensamentos. E pensar nisso me deixava ainda mais perdido. Eu não podia estragar tudo, demonstrando demais o que vinha sentindo ou exagerando em tentar afastá-lo, pois, uma coisa sobre nós era certa, Eiji sempre viria em primeiro lugar, e qualquer ação impensada poderia acabar prejudicando o nosso filho.
Tentava me acalmar, falando comigo mesmo, e afirmando que não iria matar sentir aquelas coisas sem poder nada fazer. A vontade de tocá-lo e não poder ás vezes doía em meu peito, e ficava a imaginar se seria mais calmo se eu pudesse, mas era uma coisa a se duvidar, considerando o quanto o meu interior se agitava com apenas olhares e por imaginar como era tocar sua pele e principalmente os lábios cheios que evitava dar atenção ou acabaria demonstrando demais. Eu podia conseguir me controlar pelo lado de fora, mas por dentro era completamente diferente. Não havia como ter controle de minha mente, que voava para Izuna a qualquer momento ou situação. E mesmo sabendo que não deveria, passei a não fazer esforço algum para frear os meus pensamentos.
“Contando que eu não aja, ficará tudo bem”, era a desculpa que usava para eu mesmo sempre que me pegava me lembrando do sorriso dele ou quando fechava os olhos e ouvia sua voz em minha mente. Outras situações passavam por minha imaginação, mas essas eu não permitia que fossem até o fim, pois meu corpo começava a reagir sem a minha permissão, e ficava completamente envergonhado por imaginar ser pego em uma situação como aquela por Eiji e este acabar me questionando. O pequeno estava em uma fase em que perguntava sobre tudo o que via e ouvia, e mesmo disposto a ajudá-lo com conhecimento, havia perguntas que acabavam sendo constrangedoras demais, e as evitava a todo custo.
Eu realmente sabia que não deveria pensar demais ou me alegrar com coisas pequenas e possivelmente sem intenção ou malícia, mas não conseguia evitar. Às vezes Izuna ficava adoravelmente envergonhado quando com muito custo algum elogio sobre suas partes na construção saia por meus lábios, e mais de uma vez houveram situações em que seu olhar sobre mim fizeram o meu corpo estremecer por completo. Eu não queria pensar que Izuna talvez tivesse por mim o mesmo tipo de atração que tinha por ele. Esse era um assunto proibido. Eu temia a resposta, pois, se fosse positiva ou negativa, não importava, cada uma teria o seu lado que gritaria em minha face que aquilo seria impossível. Ainda assim, eu sorria internamente todas as vezes que pegava seus olhos sobre mim. Como na vez em que, após me dedicar por algumas horas no segundo andar, recebi o gavião de meu irmão. Ele havia me mandado um recado, para comparecer no núcleo na manhã seguinte, em um horário cedo demais para alguém que viria de longe como eu. A ideia de pedir ajuda a Izuna veio naturalmente, e tentei ignorar a urgência naquele recado quando desci as escadas.
Era uma tarde quente, e o trabalho fizera com que eu suasse mais que o normal. A camiseta pegajosa em minha pele me irritava e enquanto descia os degraus a retirei sem me preocupar com nada, afinal, era apenas a camisa, não era como se estivesse andando nu pela casa, foi o que pensei quando me livrei do pedaço de tecido e suspirei aliviado, me sentindo menos quente. Mas tudo mudou quando a primeira coisa que encarei foi a expressão espantada de Izuna. Ele imediatamente corou e envergonhado andou para o outro lado do balcão.
Sua reação quase me arrancou um sorriso, mas o segurei, fingindo ignorância. Meu coração bateu rápido quando o vi olhar de canto enquanto me aproximava e via aquela expressão tomar conta de sua face.
— Escute — me aproximei dele um pouco mais, querendo aparentar normalidade, mas por dentro desejando ver mais daquela expressão.
Segurei outro sorriso ao vê-lo se assustar quando me viu ir até o seu lado do balcão, e notou a pouca distância entre nós. Seu rosto se tornou um pouco mais avermelhado quando subiu o olhar de meu peitoral até os meus olhos. Ele parecia completamente sem jeito enquanto tentava manter o olhar em meu rosto, e mesmo me sentindo mais agitado do que nunca com aquilo, me mostrei calmo por fora e fingi não notar sua vergonha.
— Sei que está em cima da hora, mas, — continuei a falar normalmente — pode ficar com Eiji por essa noite?
— Sim, — ele gaguejou a palavra — mas é claro!
Izuna ainda parecia um pouco envergonhado, mas foi clara a animação quando aumentou o tom de voz em suas últimas palavras. Ele sempre ficava daquela maneira quando pedia para ficar com o pequeno, mas dessa vez ficou ainda mais sorridente ao aceitar rapidamente. Aquele sorriso bobo que fazia o meu coração bater ainda mais rápido.
— Certo — foi a minha vez de gaguejar como um idiota e desviar o olhar. — Retornarei no final da tarde de amanhã. Tem certeza de que pode ficar? — Voltei a olhá-lo ao perguntar, e recuperado do constrangimento anterior, me aproximei um pouco mais. — Eu posso confiar em você dessa vez?
— Pensei que jamais confiaria em mim — Izuna riu ao final da frase.
— Eu não estaria fazendo essa pergunta se confiasse.
Tentei interpretar com seriedade naquele momento, mas acabei não resistindo e ri junto com ele. Aquela conversa era a repetição da mesma que tivemos há tempos, quando tive que deixar Eiji sozinho com ele pela primeira vez. Estava tão sério e aflito, mas depois daquele dia, Izuna transformou o momento e as palavras em uma piada. Fiquei nervoso nas primeiras vezes, pois aquilo era sobre a minha promessa de jamais confiar nele sendo quebrada, porém, com o tempo não pude deixar de também sentir graça naquilo, e antes de ser caçoado, eu mesmo acabava fazendo isso. Eu gostava quando ele ria daquela boba piada.
— Estaremos aqui quando voltar — Izuna sorriu ao dizer. — Como sempre.
— Eu sei — retribuí o sorriso, mas de maneira mais discreta e contida.
Eu adorava voltar para casa e ver os dois me esperando, era como uma recompensa após um dia cansativo de trabalho. Um que só envolvia assuntos internos por mais tempo que o clã gostaria. Os homens estavam impacientes com a demora, mas se mantinham quietos e se fortalecendo por confiar em Hashirama. Ele também tinha a minha total confiança, porém, não era em todos os assuntos que podia opinar, e para me deixar mais cansado, era o que Hashirama vinha tentando fazer a respeito de minha vida.
— Tobirama, eu não quero me intrometer, mas... — ele começou outra vez, quando soube que Izuna passaria a noite na cabana e sozinho com Eiji.
— Então não se intrometa — o cortei imediatamente. Eu o respeitava, mas haviam momento em que não conseguia segurar a minha língua.
Nós ficamos em silêncio por um momento, e entediado com aquilo, fui até a prateleira de livros de meu irmão, à procura de algo para me distrair.
— Você confia nele?
Fechei os olhos ao ouvir a pergunta às minhas costas, e demorei algum tempo para me virar em sua direção novamente. Eu já havia escutado a mesma pergunta antes, porém, o deixei sem resposta, como pretendia fazer novamente. Mas de repente algo se iluminou em minha mente, e entendi que o motivo de meu irmão se preocupar tanto era a falta daquela simples resposta.
Na primeira vez em que Hashirama questionou se eu confiava em Izuna, não o respondi por simplesmente não saber. Ainda era difícil aceitá-lo naquela época e meu orgulho era pior. Mas naquele momento, eu já era um outro homem, diferente daquele que não respondia às perguntas de meu irmão por medo de se igualar a um Uchiha.
— Sim — em tom claro e decidido finalmente o respondi, e me virei para olhar em seus olhos.
Hashirama me olhou de volta, e nada disse. Sua expressão suavizou aos poucos, e não houve mais questionamentos sobre Izuna ou as horas que ele passava sozinho com Eiji.
Quando o meu irmão pareceu satisfeito com a minha resposta, enfim me contou o motivo de precisar de mim tão cedo na manhã seguinte. Nós finalmente nos moveríamos. Ter tal noticia deveria ter me deixado ansioso, mas tudo o que consegui sentir foi apreensão. Izuna obviamente não estaria no campo que atacaríamos, porém, ainda assim algo me fazia hesitar. Eu não sabia o porquê, mas não queria ter que lutar contra os Uchiha naquele dia.
***
No fim, a minha aflição que me tirou o sono e me fez sentir pesado enquanto corria até o acampamento Uchiha, não serviu de muita coisa. Eles não estavam mais naquele local, e tudo o que encontramos foram restos de fogueiras, madeiras velhas e tecidos rasgados.
A volta para o nosso clã foi feita com frustração pela maioria deles, mas não por mim, que ainda não entendia a sensação de alívio que me tomou ao poder voltar para casa. Quando me atentei a Hashirama, também o vi mais tranquilo do que deveria estar.
— Você sabia? — Perguntei antecipadamente nervoso assim que entramos na nossa casa, imaginando se ele não havia feito um teatro apenas para mostrar para o clã que ainda estávamos em campo.
— Mas é claro que não! — Ele esbravejou ao se virar para mim. Parecia realmente ofendido com a minha pergunta. Hashirama suspirou fundo e tirou a faixa que cobria sua testa. — Eu não sabia, mas... não sou obrigado a me sentir mal por não termos lutado. Eu não gosto disso. Não quero matá-los, nem mesmo machucá-los — ele me olhou com tristeza ao dizer. — Diga o que quiser sobre isso, Tobirama, mas sei que não vou conseguir matar Madara. Eu tentei mudar, você é a minha testemunha, mas... não consigo.
Meu coração se apertou ao ver uma lágrima escorrer pelo rosto de meu irmão. Ele estava sofrendo muito mais do que havia imaginado, e me sentindo culpado por tudo o que já tinha dito no passado, nada disse e apenas dei alguns passos à frente e o abracei. Eu ainda não sabia naquela época, mas minha reação diante de suas palavras também tiveram um segundo significado. Eu entendia o que ele sentia.
***
Parti do clã mais tarde do que planejei, mas, ainda assim, mais cedo do que havia avisado Izuna. Sem a posse do acampamento inimigo, retornamos cedo demais, e teria corrido para Eiji assim que chegasse no núcleo de nosso clã, porém, o estado de Hashirama me fez ficar ao lado dele, até ter certeza de que estava se sentindo melhor. Eu sabia que seria difícil de ele se sentir bem durante a guerra, mas torcia para que ao menos a sua dor fosse amenizada.
Mesmo ainda estando adiantado no horário para liberar Izuna, corri apressadamente entre a floresta. Eu estava cansado mentalmente, e tudo o que queria era vê-los o mais rápido possível. Quando enfim coloquei os pés no gramado, não senti a presença de Izuna dentro da cabana. Ouvi barulhos além dali e por um momento fiquei atento com o som da água agitada, e logo sorri ao ouvir a alta risada de Eiji e em seguida a voz de Izuna.
Eles estavam no lago, e quando me aproximei, não consegui esconder a minha animação e alívio por vê-los. Izuna sorriu fraco para mim e em seguida desviou o olhar para o pequeno, que se debatia em seu colo, fingindo estar nadando. Eu me aproximei ainda mais e o observei de perto.
— Papa, pule! — Gritou Eiji com animação assim que me viu sobre o deque.
Izuna riu daquele convite e balançou a cabeça de um lado para o outro, como se duvidasse que eu faria uma coisa como aquela. Em todo aquele tempo ele nunca havia me visto no lago, já Eiji, sabia muito bem de meu amor pela água e me chamou por saber que eu com certeza faria aquilo.
Meu sorriso se alargou ao voltar para Izuna, que me olhou descrente enquanto tirava os meus sapatos. Quando minha camisa enfim foi descartada, não me importei com o resto da roupa que ainda estava em meu corpo. Dei alguns passos para trás e corri novamente para o deque, saltando assim que cheguei até a água. O impacto fez a água pular com força e só depois notei que havia, por alguns segundos, coberto Izuna e Eiji.
Eu me aproximei, segurando a risada enquanto me desculpava. Eiji abriu os olhos quando passei a mão em seu rosto, tentando inutilmente secá-lo. Ele abriu um largo sorriso quando se recuperou do susto e exclamou animado:
— Isso foi tão legal! Faz de novo?
Ri alto de sua reação e me voltei para Izuna ao ouvi-lo agir como eu. De algum jeito ele parecia ainda mais bonito naquele dia, se tal coisa era possível. Os cabelos estavam presos como sempre, mas eles estavam caídos sobre o peito desnudo e obviamente molhado.
Imaginava que a minha expressão era como a de um idiota enquanto o encarava. Nunca o havia visto daquela maneira, e a beleza e a imensa vontade de tocar aquela pele branca fez certa parte de meu corpo reagir. Por sorte a minha atenção foi tomada com rapidez, e fui obrigado a desviar o olhar quando Eiji segurou o meu rosto com suas duas mãos e me virou para ele.
— Papa, faz o dragão?
A pergunta extremamente animada me fez esquecer totalmente dos meus desejos por um momento, e amedrontado voltei meu olhar para Izuna, que me encarava furioso. Não era para ele saber que havia mostrado alguns jutsus para o pequeno, e havia me esquecido totalmente de pedir segredo para Eiji, que esperava por minha resposta ansiosamente.
O pequeno pulou para o meu colo com alegria enquanto continuava a falar sobre o dragão de água, o que fazia o olhar sobre mim ficar cada vez mais intenso. Eu não queria brigar naquele momento, e sinceramente em nenhum outro, então, desesperado para acalmar o que sabia que estava por vir, sem pensar me aproximei ainda mais dele e toquei-lhe o braço. Izuna pareceu se assustar com o meu toque, e por um breve momento eu mesmo também me senti de tal forma. Minhas mãos se esquentaram como se estivessem pegando fogo, e mesmo com a água fria do lago, aquele calor dominou o meu corpo em um piscar. Estremeci levemente quando — mais uma vez sem pensar — acariciei a pele com o polegar e o vi corar mais intenso do que jamais havia visto.
— Não fique bravo — pedi com a voz fraca. Parecia que aquele toque estava sugando as minhas forças. — Eu não contei como consigo fazer isso e o porquê.
Izuna abriu e fechou a boca algumas vezes, mas só conseguiu proferir algum som momentos depois.
— Eu não estou — ele gaguejou a resposta e desviou o olhar. Parecia envergonhado demais, e só após observar isso que notei que ainda o segurava e meu polegar insistia em deslizar sobre sua pele.
Era um toque simples, mas que fez o meu corpo praticamente explodir ali, e fui tomado por uma grande vontade de sentir mais, de tocar seu peitoral, subir até seus ombros fortes, queixo e enfim aqueles lábios que inevitavelmente encarei. Eles eram tão provocativos quanto o seu corpo e aquela adorável expressão envergonhada. Eu o queria desesperadamente.
Ao me dar conta de meus pensamentos, o soltei imediatamente e, por sorte, o constrangimento que era óbvio que nos abraçaria mais uma vez foi afastado por Eiji, que voltou a fazer pedidos pelo dragão de água. Eu logo dei a minha total atenção a ele, que soltou um grito animado quando disse que faria o que pedia.
Coloquei Eiji sentado no deque antes de me preparar para o jutsu. Ainda me sentia afetado pelas sensações de segundos atrás e precisei respirar fundo para me acalmar por completo. Ouvi a voz de Izuna, alertando que Eiji iria cair por causa da agitação que o dragão faria, e ainda que envergonhado o respondi. Sem olhá-lo tentei tranquilizá-lo dizendo que o pequeno já estava acostumado com aquilo, mas seu silêncio mostrou que minhas palavras tiveram efeito contrário. Me xinguei internamente ao me dar conta de que não precisei de Eiji para ser dedurado, eu mesmo havia feito aquilo ao mostrar que já mostrara aquele jutsu mais vezes do que Izuna poderia imaginar. Mas eu não podia me segurar quando o pequeno parecia tão feliz com aquilo em todas as vezes, e naquela também não foi diferente. Ele ficou hipnotizado quando viu a água se levantar na forma de um dragão e ficou em pé no deque. Quando o dragão mergulhou e voltou a ser a água do lago, Eiji conseguiu se abaixar e se segurar na madeira ao ser molhado mais uma vez. Ele logo se levantou e como sempre sua risada alta e animada ecoou pelas florestas.
— Isso é muito legal! Quero de novo! Será que também consigo fazer?
Suas mãozinhas estavam fechadas em punhos e o sorriso direcionado para mim era tão empolgado quanto o brilho em seu olhar. Sentia tanto orgulho de sua coragem. Qualquer criança teria medo de ver uma criatura como aquela, e muito menos iria querer saber como fazer uma, mas não o meu Eiji. Ele era tão valente quanto Izuna e eu.
Ao pensar em Izuna, imediatamente me virei para ele. Imaginava estar aliviado por Eiji ter conseguido se segurar, mas também tinha certeza de que estaria furioso comigo, por causa da pergunta do pequeno. Mas assim que o vi, qualquer certeza foi embora quando este sorriu fraco e soltou uma leve risada. Fiquei aliviado por não ter que entrar em uma discussão em um momento como aquele, mas meu coração voltou a se descontrolar ao receber sua atenção novamente enquanto colocava a mecha molhada de seus cabelos atrás da orelha.
“Como você pode ser tão lindo assim? ”, foi a tola pergunta que passou por minha mente enquanto praticamente babava na água do lago.
Izuna se mostrou sem jeito novamente e desviou o olhar para Eiji ao dizer:
— Acho que já está na hora de voltarmos para dentro, hm? — Ele se virou para mim novamente. — Já estamos há bastante tempo na água.
A vergonha ainda estava ali, mesmo que não tão intensa quanto antes, mas ele falou em tom normal e esperou a minha resposta que veio com um assentir rápido. Eiji reclamou porque queria ficar mais, alegando que eu havia acabado de chegar, mas não dei ouvidos ao pequeno como costumava fazer. Apesar de gostar daquele clima, estava cansado, e ao mesmo tempo com medo de me descontrolar novamente e fazer pior do que simplesmente tocar o braço de Izuna.
Logo subi no deque e mandei Eiji correr para dentro da cabana, pois começara a ventar e temia que o pequeno ficasse doente. Izuna foi o último a sair dali, e mesmo com o pensamento de antes, me atrevi a oferecer a minha mão para que ele se apoiasse para subir no deque. Ele obviamente não precisava daquilo, e achei que seria recusado e em seguida caçoado, como costumava ser, mas Izuna nada disse e segurou a minha mão. Daquela vez senti um leve choque percorrer em meu corpo, e em seguida, quando ele ficou em pé à minha frente, o calor de antes retornou com ainda mais intensidade.
Aquela distância entre nós era perigosa, e fiquei alerta ao ver nossas mãos ainda segurando uma a outra. Eu deveria soltá-la, mas não conseguia, era como se estivessem grudadas por aquele calor, que me queimou por completo quando levantei meu rosto e vi o mesmo naqueles olhos negros.
Izuna também não se moveu por algum tempo, o que me deixou sem saber o que fazer. O jeito que ele me olhava, era como se fosse um espelho para o meu próprio olhar, e notar tal coisa me fez pensar se seria uma total loucura me aproximar um pouco mais. Enquanto pensava dessa maneira, não notei que meus pés seguiam a voz em minha mente e assim que Izuna soltou a minha mão, percebi que faltava milímetros para encostar meu peitoral no dele.
Estava prestes a me afastar e me desculpar, mas congelei ali quando senti o toque da palma de sua mão sobre o meu peito. Eu me assustei com aquela nova sensação que fez o meu coração disparar, mas logo me senti mais enérgico do que nunca. Meus olhos voltaram para seu rosto e tive que segurar um sorriso por vê-lo corar mais uma vez e olhar para baixo.
Quando voltou a me olhar daquele jeito tão incrível, não consegui mais resistir. Eu sabia que me arrependeria, tinha certeza, mas também imaginava que qualquer sofrimento valeria a pena por aquele momento. Seus lábios pareciam deliciosos e claramente me chamavam. Me aproximei devagar, mas por dentro ansioso para beijá-lo como sempre quis, porém, meu corpo congelou mais uma vez, assim que ouvi um grito vindo de dentro da cabana.
Izuna se assustou com o barulho e se afastou rapidamente. Na hora não me importei com o absurdo que quase fizemos ali, só consegui me preocupar com Eiji, o claro dono da voz que ouvimos. E só consegui suspirar aliviado quando corremos para a cabana e vimos o pequeno intacto em cima de uma das camas. Ele nos viu e assustado, apontou para o chão, onde uma aranha — não tão grande quanto ele descreveu mais tarde — estava. Izuna riu em tom baixo e a chutou para fora com facilidade, se tornando o herói do pequeno naquele dia, quando era eu quem invocava um dragão de água. Ambos riram quando deixei meu pensamento sair em voz alta, e Eiji pulou em meu colo, onde ficou por boa parte daquele fim de tarde.
Após trocar as roupas molhadas, ele não quis voltar para os seus brinquedos e desenhos, o meu colo parecia tudo o que desejava e obviamente não reclamei disso. Adorava aquela atenção, ainda mais quando Izuna podia ver e tinha a oportunidade de provocá-lo.
Não demorou muito e Eiji se entregou ao sono, mas parecia firme com a ideia de não se afastar de mim, pois mesmo dormindo pesadamente, ainda se agarrava em minhas roupas.
— Ele sentiu a sua falta — Izuna chamou a minha atenção ao se aproximar. — Chorou como nunca quando acordou e não o viu. Ficou te chamando em boa parte da manhã — ele suspirou profundamente ao se lembrar. — Só conseguiu se distrair quando fomos para o lago.
Meu olhar voltou para o pequeno em meus braços e acariciei seu rosto adormecido.
— E eu pensava que ele fazia isso apenas por você — ri em tom baixo ao dizer e voltei a minha atenção para Izuna.
Nos encaramos, de repente envergonhados, pelo óbvio motivo do que havia quase acontecido no lado de fora. Eu não sabia o que dizer sobre aquilo e ele claramente também, pois logo desviou o olhar e em silêncio, passou a recolher os brinquedos de Eiji.
— Não precisa — eu disse, e fiz um sinal negativo com a mão. Ele já havia feito demais por mim naquele dia.
— Está tudo bem — Izuna deu de ombros e sorriu fraco. — Não vai conseguir soltá-lo por um bom tempo, e tenho certeza de que deixaria tudo isso para fazer amanhã.
Sorri sem jeito em resposta àquilo. Ele tinha razão. Meu jeito completamente organizado havia se tornado menos rígido nos últimos tempos e muitas vezes o cansaço acabava me vencendo, fazendo-me deixar a organização para depois.
O observei arrumar a bagunça em silêncio, imaginando o que estava pensando naquele momento, após descobrir que Eiji sabia sobre os meus jutsus e principalmente, o que quase aconteceu entre nós no lago. Eu queria perguntar, mas tive coragem apenas de focar no outro assunto.
— Realmente não está bravo? — Perguntei subitamente, e Izuna parou o que fazia para me olhar confuso. — Pelo dragão — expliquei em tom baixo, como se aquilo fosse um segredo.
Izuna suspirou fundo e andou até mim. Ele se sentou na cama à frente da que eu estava sentado com Eiji e apertou a pequena pelúcia que tinha em mãos.
— Foi apenas por diversão, certo? — Ele perguntou calmante e suspirou outra vez quando assenti. — Eu não queria que ele soubesse dessas coisas tão cedo — Izuna abaixou o olhar para o brinquedo enquanto falava. — Se eu pudesse, esconderia para sempre. Tudo o que quero é que Eiji fique a salvo.
Ele voltou a levantar a cabeça e acabei entendendo um pouco o seu lado. Eu também não queria que Eiji passasse pelas mesmas coisas que nós ou acabasse como os meus irmãos, mas Izuna parecia não entender que nem tudo podia ser como queríamos. Para ter uma coisa, teríamos que abrir mão de outras, e sabíamos que no fim a inocência de Eiji sofreria.
— Eu sei — o respondi no mesmo tom calmo. — Eu também quero, mas você entende que para continuar a salvo, ele vai precisar saber se defender, não é?
Izuna respirou fundo ao ouvir a minha pergunta, e assentiu devagar.
— Você está certo. Isso é o pior de tudo — ele riu em tom baixo e em seguida olhou para Eiji. — Nós deveríamos conversar com ele.
Era a primeira vez que Izuna concordava com algo tão importante que eu falava, e também que conversávamos sobre tal assunto sem terminar em uma discussão. Aquele momento era novo, e mesmo tendo motivos para comemorar e continuar a me mostrar o lado certo daquela história, eu não consegui agir como antes e apenas chamei por seu nome. E assim que ele voltou a me olhar, disse:
— Podemos fazer isso juntos.
Ele pareceu surpreso com o que eu disse, mas logo suavizou a expressão e abriu um fraco e rápido sorriso.
Nós ficamos em silêncio após ele assentir, e de repente o outro assunto voltou para a minha mente. Eu não tinha forças o suficiente para falar sobre aquilo, nem mesmo palavras para me explicar sem parecer completamente e vergonhosamente desesperado por ele. Me sentia preso em meus próprios pensamentos, sem nem sinal de achar uma saída em que nada iria pelos ares. E era ainda mais difícil chegar a uma conclusão com seu olhar sobre mim de maneira tão insistente.
Pensei em começar outro assunto para espantar aquele clima estranho, porém, a seriedade no olhar de Izuna me travou e me senti ainda mais ansioso quando o vi mover os lábios.
— Tobirama...
Ele ia dizer algo sobre o que estava acontecendo, eu tinha certeza, era só olhar para saber, mas como sempre Eiji nos interrompeu, e ao acordar, imediatamente voltou com seu falatório. Ele estava mais enérgico do que no lago, e fiquei com pena de Izuna ao ver os brinquedos espalhados pelo chão novamente em questão de segundos.
— Eu definitivamente queria ter toda essa energia — disse para Izuna, a fim de disfarçar o constrangimento entre nós.
Ele pareceu relaxar um pouco ao rir de minhas palavras, e não se importou por ver seu trabalho na arrumação ter sido em vão.
***
O sol pareceu se pôr com rapidez naquele dia, e Izuna se apressou em colocar seu casaco.
— Eu tenho que ir — ele avisou apressado enquanto calçava seus sapatos.
— Não! — Exclamou Eiji no mesmo momento. O pequeno largou seus brinquedos e correu até Izuna, agarrando suas pernas em seguida. Ele ainda chorava quando chegava a hora de se despedir, e o sentimento incômodo em meu peito também era o mesmo de antes.
— Está tarde — disse ao me aproximar. — E nós vamos fazer uma fogueira. Pode ficar, se quiser.
— Sim! Por favor, Izu! — Eiji soltou suas pernas ao dizer desesperado. — A fogueira é tão legal. E Papa conta histórias de heróis!
Izuna sorriu largamente antes de se abaixar e bagunçar os cabelos negros do pequeno.
— Sério? — Perguntou animado e recebeu um assentir do pequeno ainda mais agitado. — Parece ótimo, mas eu realmente tenho que ir, meu pequeno — Izuna fez uma expressão triste e segurou a mãozinha à sua frente. — Sinto muito. Mas posso voltar na próxima vez em que fizerem outra fogueira. Se eu puder... — ele hesitou para fazer a pergunta e me olhou, o que me soou estranho. Izuna nunca pedia permissão para visitar Eiji.
Eu afirmei que podia com um sinal com a cabeça e após isso ele voltou a atenção para o pequeno.
— Mas... — Eiji ainda tentou argumentar, mas estava realmente tarde e Izuna precisava ir com rapidez. Eu ainda não sabia o tipo de desculpa que ele dava a Madara para estar ali, mas imaginava que se tornaria suspeito se ficasse fora de casa por mais de uma noite, então acabei não insistindo como Eiji, mas isso não queria dizer que não desejava o mesmo que ele.
***
Quando Eiji finalmente parou de chorar, pensei que teríamos algum tempo mais tranquilo no lado de fora, assim como costumávamos fazer em dias como aquele, porém, a ventania durante a tarde foi um sinal de chuva ignorado por nós. O tempo nos deixou presos na cabana, e o jantar foi feito do jeito tradicional em vez de em volta da fogueira que Eiji tanto adorava. O olhar entediado do pequeno enquanto me observava limpar a cozinha me deixou culpado, mesmo não tendo controle do tempo, e a fim de distraí-lo, contei as histórias que gostava, mesmo sem a fogueira.
Eiji ficou mais animado depois de algum tempo, e quando as histórias terminaram, voltou a conversar normalmente. Me senti aliviado por vê-lo bem outra vez, porém, me arrependi por ter deixado com que o assunto sobre aquela tarde se estendesse, até voltar ao dragão de água.
— Eu consigo fazer isso? — Ele insistiu na pergunta, já que na primeira vez não houve resposta alguma.
— Não temos como saber agora — o respondi um pouco tenso, mas sendo sincero. — Só quando for um pouco mais velho.
— Por quê? — Ele cruzou os braços e me olhou nervoso. — Eu quero agora.
Revirei os olhos quando dei as costas para terminar de guardar o último prato. Eiji ás vezes era teimoso e mimado, e não tinha muita paciência para aquilo, quem tinha era Izuna, e naquele momento tentei me inspirar um pouco nele.
— Eu vou lhe explicar tudo, mas depois, ok?
Eiji intensificou a expressão nervosa e inflou as bochechas antes de descer da cadeira e sair dali pisando com força no chão. Observei aquele pedaço de gente furioso e tão parecido com Izuna ir até sua cama e sentar. Ele me olhou com os olhos semicerrados antes de se jogar para trás e deitar no colchão.
Revirei os olhos outra vez. Aquele silêncio que deixava a minha mente barulhenta também era idêntico ao de Izuna.
Eu me aproximei quando terminei a limpeza, e me sentei na minha cama ao lado da sua.
— Prometi a Izuna que conversaríamos sobre isso juntos — expliquei, esperando que mencionar aquele nome, o deixaria mais maleável, e como sempre estava certo sobre ele.
O pequeno ainda se segurou na expressão emburrada, mas logo descruzou os braços e se sentou sobre a cama. Ele me olhou duvidoso, mas logo cedeu a sua curiosidade ao perguntar:
— Ele também consegue fazer um dragão?
— Não como o meu — hesitei por um momento, sem saber se Izuna aprovaria aquilo, mas ao ver sua expressão curiosa e ansiosa, acabei me empolgando. — O dele é de fogo.
— O quê? — Eiji deu um pulo e ficou em pé na cama. Ele me olhou boquiaberto e sorriu de maneira empolgada. — Isso é... é...
— Incrível? — Completei com a palavra que ele ainda estava aprendendo a guardar.
— Incrível! — Ele repetiu ainda mais animado e voltou a se jogar sobre o colchão, me deixando preocupado com uma queda, como em todas as vezes que fazia aquilo.
Eiji ainda tentou me arrancar mais informações sobre os jutsus de Izuna e os meus, mas eu o cortei com rapidez, sabendo que deixaria o outro chateado se soubesse que passei por cima de minhas palavras e tive aquela conversa com o pequeno sozinho. Nós conversamos outros assuntos enquanto esperávamos o nosso sono vir, e a chuva do lado de fora parecia estar ajudando a deixar Eiji cada vez menos enérgico.
O silêncio que ficava quando Izuna não estava conosco naquelas horas me deixava um pouco desanimado, então, logo me deitei em minha cama quando vi Eiji se aquietar finalmente, e daquela vez, quem ficou agitado fui eu.
Quando deitei a cabeça no travesseiro, imediatamente senti um cheiro diferente do meu, mas que eu conhecia bem. Era dele. Perceber aquilo me deixou afoito e não sabia se continuava com o nariz enfiado no travesseiro ou me virava e olhava para o teto, para então me acalmar. Meu coração passou a bater mais rápido quando inspirei, sentindo o cheiro de Izuna com mais intensidade, e aquilo me alertou, e imediatamente escolhi a opção em que ficava de barriga para cima. Fiquei um bom tempo naquela posição, parado, como se me mover fosse extremamente proibido. Meu coração ainda batia rápido por imaginá-lo deitado ali, no mesmo lugar que eu, e respirei fundo para controlar os meus pensamentos. Mas minha curiosidade não cessou, e a vontade de sentir um pouco mais do cheiro dele também.
— Ei, pequeno — chamei por Eiji e este virou a cabeça em minha direção na mesma hora. — Izuna dormiu na sua cama na noite passada?
Ele balançou a cabeça de um lado para o outro.
— Não. Foi na sua. Estava muito calor — Eiji deu de ombros ao me olhar novamente. — Por quê?
— Por nada — me virei na cama, ficando de frente para Eiji e assim podendo de maneira discreta sentir um pouco mais daquele cheiro no travesseiro. — É que normalmente você gosta de dormir com ele.
Eiji me olhou confuso por um momento e colocou o dedo indicador sobre os lábios, exatamente como Izuna fazia.
— O que é normal... mente?
Sorri ao notar aquela semelhança e por sua curiosidade em cada coisa nova que ouvia.
— É algo que sempre acontece e acaba se tornando normal por isso.
— Hm — ele ficou pensativo por algum tempo, mas logo também se virou para mim. — Eu gosto de dormir com o Izu. Ele me abraça — ele sorriu de maneira fofa ao dizer e não resisti em alargar o meu próprio sorriso. O jeito com que Eiji sempre falava de Izuna era fofo demais, até mesmo sobre coisas pequenas como aquela. Me deixava feliz, mas ao mesmo tempo enciumado, por também querer a atenção do pequeno e imaginar como era receber aqueles abraços de Izuna. — Mas gosto de dormir com você também — Eiji logo disse, já conhecendo o meu lado ciumento, o que me fez rir em tom baixo.
— Mesmo?
— Uhum — ele moveu os bracinhos e abraçou a si próprio. — Porque eu te abraço.
Eu não poderia ficar mais bobo do que naquele momento. Eiji definitivamente era a coisa mais fofa do mundo.
— Vem aqui — o chamei, risonho, e o pequeno pulou de sua cama rapidamente e foi para a minha. Ele se aconchegou por cima de mim e me abraçou com força quando beijei o topo de sua cabeça. — Eu também gosto quando me abraça — confessei ao retribuir o gostoso abraço e alarguei ainda mais o sorriso.
— Papa — Eiji de repente me chamou em tom baixo, como se temesse alguma coisa. Aquilo me deixou alerta e o respondi imediatamente. Ele demorou um pouco para me responder, e quando se moveu sobre mim, achei que seria para me olhar, porém ele apenas apertou o abraço novamente. Quando finalmente voltei a ouvir a sua voz, recebi sua pergunta com surpresa. — Eu posso chamar o Izu de papai?
Ele parecia amedrontado por ter perguntado aquilo, provavelmente por achar que eu ficaria bravo e enciumado e brigaria por isso, mas após a surpresa passar só consegui sorrir novamente. Minha mão foi até seus cabelos negros e acariciei sua cabeça.
— É claro que pode — disse enfim, fazendo o pequeno levantar a cabeça rapidamente e me olhar surpreso.
— Mesmo?
— Mesmo — ri ao respondê-lo, e toquei sua bochecha. — Não há nada de mal nisso, não é? Ele também é o seu pai, e tenho certeza que irá chorar quando o chamá-lo assim — ri mais uma vez ao imaginar o tipo de expressão que Izuna faria. As chances de ser extremamente fofo eram altas, e por isso me vi mais ansioso que o pequeno.
— Não quero que ele chore — Eiji chamou a minha atenção ao dizer chateado, mas sua expressão alegre logo voltou quando expliquei sobre as lágrimas nem sempre serem exclusivamente voltadas para a tristeza.
Eiji, apesar da euforia por causa do assunto, logo dormiu ao meu lado. Antes de apagar a última vela na mesinha, o aconcheguei melhor e o observei ali. Ele parecia até mesmo sorrir enquanto dormia, tamanha era a sua alegria por ter tido aquela permissão. Fiquei a imaginar há quanto tempo ele queria chamar Izuna de pai, mas hesitava por minha causa, com medo de minha reação. Me senti importante por Eiji pensar em mim primeiro, mas também culpado por ter mostrado o meu lado ciumento tantas vezes que acabei deixando o pequeno receoso. Havia diminuído com aquele jeito há algum tempo, mas imaginava se ainda não era o suficiente, e se também Izuna se incomodava com aquilo.
Quando ele passou por minha mente naquele momento, encarei o travesseiro abaixo de mim. Eu queria falar com ele, entender melhor o que estava acontecendo. De minha parte, eu sabia, mas quanto a ele, não tinha tanta certeza. E se tivesse, seria sábio seguir com aquilo? Eu não estaria sendo hipócrita depois de tudo o que havia dito sobre os sentimentos de Hashirama sobre Madara? Deitei a minha cabeça no travesseiro enquanto me perguntava tantas coisas que não sabia se algum dia teria respostas. O cheiro de Izuna invadiu minhas narinas no mesmo momento e me afundei ainda mais no tecido, desejando que aquele amontoado de espumas fosse ele. O cheiro me deixou entorpecido por um momento e agarrei a ponta do travesseiro com a mão enquanto fechava os olhos. Eu sabia que não devia pensar em nada daquilo, que nosso fim já estava escrito, e por nós mesmos, porém, era difícil com aquele cheiro tão bom me envolvendo.
Eu sonhei com Izuna naquela noite. Foi um momento normal de nosso dia a dia. Cuidávamos de Eiji enquanto ele bagunçava a casa toda, mas havia algo diferente naquele sonho. Tinha o sentimento de certeza em nossos olhares, coisa que nunca tivemos no mundo real.
Quando acordei no dia seguinte, o sentimento ainda estava em meu peito, e ficou ali por um tempo. Olhei para Eiji, que logo cedo já jogava papéis e pincéis pelo chão, pronto para começar um novo desenho, e fiquei a imaginar como seria se deixasse o que estava em meu coração ser o mais importante. Mas assim que o pequeno terminou o desenho e correu para me mostrar, o sentimento em meu peito voltou a ser o que era antes daquele sonho. No papel, não conseguia identificar direito o que estava ali, só sabia dizer que havia quatro pessoas e uma delas era claramente ele mesmo, mas logo Eiji esclareceu que aqueles três no papel eram Hashirama, Izuna e eu. O elogiei como sempre e com um sorriso o incentivei a fazer outros, mas por dentro não tinha como sorrir daquela maneira. A inocência de Eiji era tão bonita, mas eu sabia que a realidade não era. Todos nós juntos daquela forma jamais seria possível ao meu ver. Depois de tudo o que passamos, o que fizemos um ao outro, era difícil imaginar os dois clãs juntos como se nada tivesse nos abalado. Como se os Uchiha não tivessem as mortes de meus irmãos em suas costas, e nós, as dos irmãos de Izuna.
Nós dois não poderíamos parar uma guerra por causa de nossos sentimentos, exatamente como havia dito a Hashirama e seus próprios, anos antes daquilo, mas... mesmo sabendo que nunca esqueceria Itama, Kawarama, meu pai e qualquer outro Senju, não conseguia mais olhar para Izuna e ver sangue em suas mãos. Eu só conseguia ver vida, nosso filho, e mais do que nunca o fim daquela guerra.
Seria possível tudo terminar de maneira pacífica? Eu definitivamente era um hipócrita e egoísta por pensar de tal maneira quando cortei as esperanças de Hashirama, mas não conseguia mais evitar. Entendia muito bem o meu irmão. Eu não queria mais machucar Izuna, e desejava ver Eiji sorrir para ele todos os dias.
Eu havia me tornado egoísta e talvez voltado a ficar descuidado, pois a ideia de compartilhar meus pensamentos com Izuna me tomaram por toda aquela semana. Queria tanto vê-lo, mesmo que fosse para me acovardar e nada dizer, e desejava que fosse logo, mas o que não esperava naquele momento era que a próxima vez em que nos encontraríamos seria em um campo de batalha.
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