Eiji
19 Capítulo Quatorze
— Você não pode fazer isso comigo — foi a primeira frase que ouvi, assim que terminei de falar.
Eu havia ensaiado as minhas palavras a noite toda, e as repassei em minha mente durante o caminho até o núcleo de nosso clã naquela manhã, e no fim, consegui transmitir meu ponto de vista como queria. Hashirama permaneceu sério e em silêncio o tempo todo enquanto eu me explicava, o que obviamente não era um bom sinal.
— Eu sinto muito, An-chan, mas, preciso pensar primeiramente em Eiji.
— Se realmente fosse só isso, você me ajudaria a acabar com a guerra de uma vez por todas!
O seu jeito de me olhar ao rebater a minha fala me incomodou grandemente. Estava evidente o que ele queria insinuar com aquilo, e mesmo entendendo sua raiva, não consegui ignorar os meus sentimentos naquele instante. Não havia contado sobre Izuna e eu, achando ser sábio contar em um momento menos propenso a brigas, o que claramente não era aquele. Mas como sempre, Hashirama teimava em tentar tirar alguma informação sobre a minha vida pessoal, e justo em um momento como aquele.
— Eu não irei mais lutar nesta guerra — fui direto ao dizer, e me levantei da cadeira em que estava. — Já perdi muitos anos de minha vida nisso, e você também! Às vezes, até parece que gosta de viver dessa maneira.
Hashirama também se levantou ao me ouvir. Suas mãos se fecharam em punhos e as sobrancelhas juntaram acima do olhar raivoso que era direcionado a mim.
— Saia daqui — ordenou ele entredentes, em seguida soltou um longo suspiro, deixando claro que se eu não o obedecesse, teríamos um grande problema.
Eu não esperava por uma boa reação, mas nem por isso deixei de ficar surpreso com seu jeito de agir. Ele estava obviamente magoado, e minha decisão era egoísta — apesar de parecer o contrário em meu interior — mas, ainda assim, não consegui focar em tais coisas quando o ouvi me enxotar para fora dali, e dei as costas enquanto pensava apenas em minha própria mágoa.
Em silêncio, andei até a porta. Eu não queria que aquela discussão crescesse ainda mais, visto que quanto mais falava, pior ficava a situação. Não queria ter dito aquilo sobre Hashirama gostar da guerra. Eu sabia que ele era o que mais detestava a nossa situação, o que mais sofreu desde quando éramos crianças, mas a minha raiva sempre me fazia dizer coisas que mais atacavam do que resolviam o assunto. Por isso, ia sair dali quieto, e voltaria quando estivesse mais calmo, porém, minha língua se descontrolou naquele momento, assim que toquei na madeira à minha frente.
— Nós só andamos em círculos e perdemos pessoas que amamos por todo esse tempo — eu disse mais calmo do que realmente estava. — O que diabos estamos fazendo, An-chan?
Por um milagre, ou devido a situação, eu não estava tentando atacá-lo daquela vez, e minha pergunta foi sincera. Eu realmente me perguntava tal coisa há bastante tempo, e esperava que meu irmão tivesse a resposta, mas ele se mostrou ainda com o mesmo humor quando respondeu rispidamente:
— Você, aparentemente mais nada.
— An-chan — eu me virei para ele ao chamá-lo, e ainda mais afetado por suas palavras, o olhei com desespero, que claramente não foi notado.
— Você está certo. Estamos andando em círculos aqui — sua carranca suavizou enquanto falava e então abriu um sorriso triste. — Está me deixando. De novo.
Naquele momento, finalmente percebi que Hashirama nunca havia me perdoado por tê-lo deixado por um ano e sem explicações. Eu havia agido por impulso e de maneira errada, estava mais do que ciente que minha ausência havia afetado o seu psicológico, e por tudo isso já havia pedido desculpas a ele, e achava ter conseguido o seu perdão. Talvez eu tivesse conseguido, mas foi ingenuidade de minha parte achar que um dia ele esqueceria de tudo o que eu já havia feito. Ele estava certo em se sentir magoado, e entendia a sua necessidade de tentar me fazer experimentar o mesmo tipo de sentimento. Porém, era mais do que doloroso ver que meu irmão, mesmo daquela vez sabendo de meus motivos para fazer aquilo, não tentava ao menos me entender.
— Depois de todos esses anos...
Voltei a me aproximar de sua mesa enquanto falava, mas me calei e parei de andar quando ele fez sinal para que eu me interrompesse. Ele em seguida apoiou os punhos sobre a mesa e abaixou a cabeça.
— Saia daqui. Não quero ouvi-lo — disse em tom trêmulo, o que só me fez ficar preocupado e tentar me aproximar novamente, porém, o chamado por meu nome que veio a seguir me fez congelar onde estava, e a pressão que o chacra liberado em minha direção causou, me obrigou a ficar na defensiva por alguns segundos.
Os olhos de Hashirama se levantaram em minha direção novamente e os vi praticamente pegando fogo enquanto liberava parte de seu poder. Eu não queria enfrentá-lo, mas o meu orgulho me fez endireitar a postura e devolver o mesmo olhar quando o meu chacra também fluiu. Eu estava pronto para fazê-lo me entender, nem que fosse através de punhos, mas por um momento, quando a pressão de meu poder se elevou demais e meus pés acabaram rachando o chão de madeira, minha mente clareou e vi a tolice que estava prestes a fazer, e que obviamente me arrependeria mais tarde.
Imediatamente o meu chacra se aquietou, e segundos depois, Hashirama também relaxou, mas não completamente. Ainda podia sentir sua fúria no ar que me envolvia, e para a minha surpresa, vi uma lágrima escorrer por seu rosto. Vendo-o daquela maneira, tentei me aproximar mais uma vez, para podermos conversar corretamente, mas ele deu um passo para trás e seu chacra ameaçou se exaltar novamente. Eu o olhei incrédulo, não reconhecendo aquele homem à minha frente. Em seguida, sem opções e magoado demais por suas ações, tratei de me retirar com rapidez, mas não antes de direcionar um triste olhar para trás, e vê-lo ainda me encarando e sem vestígios que iria ceder ou pedir para que eu ficasse.
Eu tentei ignorar e esconder a minha surpresa ao ganhar o lado de fora e ver a nossa casa rodeada de membros do clã. Todos estavam claramente assustados e podia ouvir os cochichos que perguntavam o que diabos estava acontecendo. A rápida agitação no escritório de Hashirama obviamente fora sentida por todos ali, e por isso me sentia envergonhado e arrependido pelo meu descontrole, mas não me desculpei ou disse qualquer coisa. Apesar daquilo, o nervosismo ainda estava comigo, e sem olhá-los uma segunda vez, parti do clã às pressas, imaginando se aquela havia sido a última vez em que pisava naquele local e que os via.
***
Meus pés pararam de se mover com rapidez quando já estava em meu lar atual, e aparentemente, o meu único a partir daquele dia. Eu tentei não pensar tanto no que havia acontecido horas atrás, porém, era difícil tirar aquele olhar de minha mente, muito menos o tom grave e ameaçador com que meu nome foi chamado havia parado de soar em meus ouvidos.
— Está tudo bem?
A presença de Izuna e Eiji em nossa nova sala só foram notadas por mim quando ouvi a pergunta. Meu olhar foi do pequeno brincando no centro do cômodo para ele, que me olhava com preocupação. Eu sabia que não havia necessidade de esconder meus sentimentos de Izuna, não mais, porém, meu orgulho ainda falava mais alto, principalmente por estar tão balançado como naquele momento.
— Uhum — balancei a cabeça positivamente enquanto desviava o olhar. Escondi minhas mãos trêmulas de forma discreta, e com os olhos fixos no chão, andei até a escada. — Vou trocar de roupa.
Ele não insistiu com suas palavras, mas o senti me seguir segundos depois. Quando entrei no quarto, retirei a camisa, na real intenção de me trocar, para então me afundar nos travesseiros e tentar me acalmar.
Eu não queria preocupar Izuna. Ele ainda estava fragilizado com a conversa que havia tido com seu irmão no dia anterior, e não precisava de mais aquilo para encher sua cabeça com coisas negativas. Mas mentiria se dissesse que não necessitava dele ao meu lado naquele momento. Eu tentei não pensar nisso, mas, era muito provável que Hashirama não quisesse olhar em minha cara nunca mais, e isso me fazia ter vontade de me entregar ao desespero.
— Amor... — a voz de Izuna atrás de mim me fez estremecer, e o toque em minhas costas desnudas me desarmou rapidamente.
Senti a minha garganta doer de forma estranha, e meus olhos arderam tanto que tive dificuldade em mantê-los abertos. Eu me virei rapidamente, e perdendo toda a minha resistência, abracei Izuna com força, e com um tom vergonhosamente trêmulo, contei:
— Eu perdi o meu melhor amigo.
O meu abraço foi retribuído no instante seguinte, e pelo resto do dia, me vi incapaz de me separar daquele aperto. A voz de Izuna me tranquilizou aos poucos, e sem perceber, a tremedeira se foi, mas não o sentimento pesado em meu peito. As palavras decepcionadas de Hashirama ainda estavam grudadas em minha mente, e só então realmente entendi como Izuna havia se sentido quando teve aquela mesma conversa com seu irmão. Eu sabia que ele não me odiava, mas duvidava que um dia me perdoaria.
***
Mais uma vez Izuna perdeu em nosso jogo para poder decidirmos quem faria o almoço, e resmungando baixos palavrões, ele me deixou na companhia de Eiji na sala. Não consegui segurar uma curta risada ao vê-lo mal-humorado na cozinha, mas o meu sorriso logo se desfez, quando senti uma presença se aproximar do lado de fora. Demorou alguns segundos a mais, porém, logo Izuna também ficou sério, mas ainda mais que eu, por, ao contrário de mim, não notar de quem era a tal presença.
— Alguém está aqui — disse Izuna com seriedade enquanto apertava em sua mão o cabo da faca da cozinha. Ele estava extremamente tenso, e ficou pior quando a presença estava bastante perto. Eu me agitei com aquilo, mas era de uma maneira completamente diferente da dele.
Após deixar Eiji brincando na sala, me aproximei de Izuna, e com suavidade toquei sua mão que segurava a faca.
— É o meu irmão — avisei, ainda sério e em tom baixo, para que o pequeno não me escutasse
Izuna ficou mudo e a surpresa que sentia ficou clara em sua expressão. Eu não consegui manter a atenção sobre ele por muito tempo, e também o deixei sem respostas quando me perguntou o que faríamos. Ele estava assustado com o motivo de meu irmão aparecer de repente em ali após quase duas semanas de nossa discussão. Para Izuna, com certeza aquela visita significava problemas, mas para mim, o sentimento era completamente diferente. Eu sentia a falta de meu irmão, me preocupava com o que poderia estar acontecendo no clã enquanto estava afastado de todos, e mais do que tudo, tinha o sentimento de culpa por não ter sido mais claro em minhas palavras quando o visitei naquela manhã que parecia ter sido há meses.
Aquelas duas semanas foram longas, mas tiveram um bom papel para a recuperação de meus sentidos. Quando voltei para casa após a discussão que havia tido com meu irmão, estava tão magoado que não consegui pensar corretamente, e tudo o que fiz foi me afundar em negatividades e me agarrar a Izuna como uma criança desamparada. Os dias que seguiram foram torturantes em minha mente, mas ter aquele tempo para refletir foi a coisa certa a se fazer em um momento como aquele. Foi analisando tudo o que havia sido dito no escritório de Hashirama que percebi o meu erro. Eu não havia sido claro com meu irmão. As minhas intenções não haviam sido passadas como deveria ou como achei que tinha conseguido. Eu jamais o abandonaria. Ele era o meu irmão, meu sangue, meu amigo. Eu não lutaria mais naquela guerra, mas não tinha intenção de deixá-lo para trás.
Meus pés foram até a entrada da cabana com um ritmo lento, e antes de abrir a porta, enfim dei atenção a Izuna, e pedi que levasse Eiji para o segundo andar. Ele me olhou com preocupação desnecessária, e sorri fraco ao vê-lo de tal forma. Não havia motivos para temer Hashirama ou o que aconteceria a seguir. Eu o conhecia. Conhecia nós dois. E sabia muito bem o que ele estava fazendo ali, pois, era o mesmo que eu planejava fazer no final daquela semana.
A porta enfim foi aberta, assim que Izuna entendeu o meu olhar, e conseguiu relaxar um pouco. Ele levou Eiji para o quarto, e eu, me coloquei para fora, podendo ver um Hashirama sério, mas ao mesmo tempo envergonhado.
Eu não sabia o que dizer em um momento como aquele, e aparentemente ele não havia planejado o que falar, então ficamos presos em um silêncio incômodo por algum tempo. A nossa briga passou por minha mente naquele instante, e mesmo voltando a sentir um pouco da mágoa que senti semanas antes, me foquei no quanto o havia machucado.
Aquele silêncio já estava ficando ridículo depois de minutos. Eu estava pronto para perguntar o motivo de sua visita, mesmo já sabendo qual era, mas me mantive calado quando o vi respirar fundo e finalmente se mover. Hashirama deu um passo à frente e suas bochechas se tornaram levemente avermelhadas quando levantou uma das mãos, e percebi que segurava uma garrafa de saquê. E então, pude ouvir sua voz.
— Eu sinto muito.
— Eu também.
Não fiquei surpreso com suas palavras, mas ele ficou completamente espantado com as minhas. Não era sempre que me desculpava por algo, e isso deixava meu irmão surpreso em todas as poucas vezes que tal coisa acontecia.
Eu aceitei a garrafa sem hesitar, me sentindo mais esperançoso quando o vi menos tenso. Dei um passo para o lado, convidando-o em silêncio para entrar. Hashirama sorriu fraco ao aceitar o convite, mas sua seriedade voltou rapidamente. O clima entre nós, apesar de mais leve, ainda era estranho, e o incômodo por conta de nossa discussão passada insistia em grudar e mim.
Hashirama se sentou em uma das cadeiras da cozinha e apoiou os cotovelos sobre a mesa, enquanto eu me encarregava de nos servir da bebida que fui presenteado. Ele parecia um pouco ansioso e seus dedos se moviam inquietos sobre a madeira. Naquele momento pensei em dizer algo para aliviar aquela tensão, mas sabia que não deveria mais adiar aquele assunto. Nós precisávamos resolver aquele problema logo, ou os planos de Izuna teriam que ser esquecidos.
Eu me sentei à frente dele assim que ofereci a bebida, que foi aceita rapidamente. Ao olhar para o meu irmão novamente, vi ali que havia sido um tolo outra vez. Eu não precisava ensaiar o que dizer ou me preocupar em começar a falar no momento certo. Hashirama era o meu irmão, não havia motivos para tanta cautela e cerimônia, pelo menos não em um assunto que envolvia nós dois. Eu só precisava dizer tudo o que pensava de verdade.
A conversa começou tímida e um pouco hesitante por ambos, mas em poucos minutos, um pouco do peso em meu peito foi retirado. Poder falar com o meu irmão depois de todos aqueles dias me trouxe alívio, mesmo quando seu olhar malicioso caiu sobre mim assim que o paradeiro de Eiji foi questionado. A presença de Izuna ficou clara com a minha resposta, e sem muitos detalhes acabei contando que o outro não estava ali para uma visita.
— Então, vocês moram juntos agora? — Hashirama perguntou sério, mas seu olhar tinha o mesmo brilho estranho que sempre via quando o assunto era Izuna.
— Ele conversou com o irmão sobre a guerra. Madara não gostou do que ouviu, e agora, ele está aqui — dei de ombros, esperando que ele acreditasse e deixasse tal assunto de lado.
Ainda não estava preparado para dizer tudo a ele. O assunto que se estendia a pessoa que estava no segundo andar ainda era um dos que me fazia não ter certeza da reação que poderia causar. Naquele momento, percebi o real motivo de não ter contado sobre o que sentia por Izuna. Não era apenas pelo divertimento por vê-lo curioso, era um pouco de receio e medo de sua reação.
— É estranho, não é?
— Bastante — ele sorriu sem graça ao me responder.
Nós ficamos em silêncio por algum tempo após tal momento. Hashirama continuou a beber o saquê e o imitei, na tentativa de espantar a vergonha que me tomou. Eu sabia que aquele era o momento perfeito para contar a ele sobre o meu relacionamento com Izuna, mas, além do medo havia o meu orgulho e vergonha por ter que falar sobre os meus sentimentos.
— Eu... não quis dizer aquelas coisas — Hashirama de repente voltou a falar, como se tivesse encerrado o assunto anterior. — Eu só estava com medo, sabe? — Seu sorriso envergonhado estava volta, mas daquela vez com um toque desanimado. — Eu não posso fazer isso sozinho.
— É claro que pode — o respondi imediatamente. — Mas, eu não quero deixá-lo sozinho. Você é meu irmão, minha família. Eu não vou lutar, mas também não vou deixá-lo. Nunca.
Os olhos de Hashirama brilharam em minha direção e mais uma vez fui encarado com surpresa. Eu costumava ser sincero com meu irmão, mas não tão claro e direto como estava agindo. Mas o que me chamou a atenção naquele momento não foi seu olhar surpreso, mas sim a maneira com que claramente se segurava para não falar como parecia querer.
— Eu achava que você também não quisesse lutar.
Ele desviou o olhar quando me ouviu, o que me deixou um pouco agitado. Eu conhecia aquele jeito de agir, era como o “novo Hashirama” era.
— E não quero, mas Madara não me deixa muita escolha — a frase foi dita em tom baixo e rápido, sendo seguida de outro gole de saquê.
— E aquilo sobre tentar convencê-lo?
— Acha que ele irá me ouvir? — Hashirama enfim voltou a me olhar, e parecia levemente irritado. — Pelo o que me disse, não ouviu nem o próprio irmão.
Um cansado suspiro escapou por meus lábios. Eu obtive a certeza do que, segundos antes, apenas achava ser com o rápido olhar sobre mim.
— Izuna irá tentar novamente — continuei como se não tivesse notado. — Você estaria disposto, se ele também estivesse?
Hashirama desviou o olhar outra vez e deu toda a sua atenção para a garrafa de saquê que ele girava devagar sobre a mesa. Eu não recebi resposta alguma, mas soube que o havia deixado tentado a aceitar minhas palavras. Era claro o sentimento que ainda nutria por Madara, e apesar de me incomodar com ele, surpreendentemente só conseguia ver a solução para tudo naquilo nos corações de ambos.
— Você realmente não vai me deixar, não é?
Ele tentou desconversar outra vez, trazendo o assunto sobre nós dois de volta. Normalmente o deixaria escapar, por achar que estava pressionando-o demais, mas daquela vez resolvi não o deixar, porém, de uma maneira mais discreta.
— É claro que não — respondi prontamente, e sorri de canto ao vê-lo suspirar aliviado.
Me levantei para recolher os copos sobre a mesa, e recebi um olhar emburrado quando tirei a bebida das mãos de Hashirama. Eu o queria sóbrio até o fim daquela conversa.
— Semana que vem é o aniversário de Eiji. Se lembra, certo? — Me virei para ele após guardar a garrafa em um dos armários. — Ele quer o seu bolo.
Hashirama deixou a expressão emburrada de lado no mesmo momento em que ouviu o nome do pequeno, e o sorriso em seus lábios se alargou com a última informação.
— Irei fazer, ou ele acaba comigo.
Nós rimos juntos. Eiji era bem-educado, mas por ser a única criança entre nós, Izuna e eu acabamos o deixando um pouco mimado. Nós estávamos trabalhando naquele assunto, ainda mais porque ele estava crescendo rápido demais. Eiji estava para fazer três anos, e já entendia certas coisas, principalmente que seus surtos e birras não eram certos, mas, ainda assim, com Hashirama ele era ainda pior do que conosco. Seu tio também tinha uma grande parcela de culpa por aqueles comportamentos. Hashirama dava tudo o que ele queria.
Fiquei tentado a continuar a falar sobre Eiji, sendo aquele um dos meus assuntos preferidos, mas tive que me segurar em meus planos. Quando voltei a me sentar em frente a meu irmão, o olhei o mais tranquilo que consegui em um momento como aquele, e então voltei a insistir:
— Izuna está pensando em chamar Madara para esse dia.
A expressão alegre de Hashirama se desfez no segundo seguinte, e diferente do que achei, ele não desviou o olhar. Ele se manteve sério enquanto me encarava, e retribui o olhar com menos intensidade enquanto esperava pacientemente por uma resposta.
— E você concorda com isso?
O tom de sua voz trouxe mais uma vez aquela certeza. Ele estava fingindo não se abalar com tudo aquilo, mas a verdade era que Hashirama estava com medo. Medo de enfrentar Madara sem seus punhos pela primeira vez desde que seus sentimentos haviam sido rejeitados.
— Se você estiver de acordo — eu disse com cautela, já esperando recusas e um longo discurso de repreensão. Mas tudo o que meu irmão fez foi me olhar de canto antes de se levantar e ir até o armário onde havia guardado o saquê. Ele recuperou a garrafa e pegou um novo copo. Antes de colocar o líquido na boca, nossos olhares voltaram a se encontrar, e Hashirama balançou a cabeça de um lado para o outro.
— Vocês são loucos — foi a única coisa que ele disse sobre o assunto, e em seguida, após um belo gole de saquê, concordou em tom baixo e hesitante.
***
Aquela semana passou mais rápido do que o esperado. O aniversário de Eiji seria na sexta-feira, e na quinta, Hashirama voltou a nos visitar. Uma semana antes, ele não havia comentado nada mais sobre aquele dia e o que esperava dele, principalmente após Eiji ter descido para cumprimentá-lo, e hesitante Izuna fez o mesmo. Como sempre, eles não se mostraram confortáveis na presença um do outro, mas pelo menos conseguiam se olhar sem desconfiança — ao menos era o que demonstravam por fora. Mas naquele dia, a visita inesperada trouxe finalmente sua opinião sobre o assunto.
— Eu não acho que seja uma boa ideia — disse ele com seriedade. — Por motivos óbvios e que ambos conhecem muito bem — Hashirama direcionou seu olhar para Izuna rapidamente e depois para mim. — Mas principalmente pelo rumo que as coisas estão tomando agora.
— Nós não queremos saber o que está acontecendo — o interrompi rapidamente, recebendo um sinal afirmativo de Izuna perante as minhas palavras. Ele estava sério ao meu lado, e imaginava se como eu, apesar da recusa, estivesse curioso e preocupado com o tal rumo que Hashirama falava. A nossa decisão estava tomada de forma definitiva, mas era difícil ficar sem saber o que realmente estava acontecendo com nossas famílias.
Hashirama soltou um longo suspiro, e após balançar a cabeça de um lado para o outro, se fechou em um silêncio incômodo. Seu olhar sobre nós podia parecer neutro, mas eu sabia muito bem o quanto era acusador. Por minha mente a ideia de tentar fazê-lo me entender passou rapidamente, e se foi quando discretamente Izuna segurou um de meus braços. Ele sabia o que eu pretendia, e com aquele simples toque me lembrou que não era uma boa ideia começar uma discussão ali, já que nosso filho estava na sala atrás de nós, e apesar de distraído com seus brinquedos, era esperto demais para se manter alheio ao que acontecia na cozinha.
Eu não insisti no assunto em nosso envolvimento na guerra, mas sobre o aniversário de Eiji, não houve como ignorar. Foi difícil convencer Hashirama a voltar no dia seguinte. Até mesmo Izuna arriscou trocar algumas palavras com ele, para poder termos ao menos uma esperança, e apesar de balançado pelo convite vir do irmão de Madara, ele ainda hesitou. Era óbvio que o clã estava pronto para outro ataque contra os Uchiha, por isso seu receio de encontrar Madara parecia ter aumentado. Ele não precisava falar, e eu o entendia, e era exatamente por isso que insistia naquilo. Izuna daria um jeito de trazer seu irmão, e se por um milagre não acabássemos nos matando, talvez Hashirama e ele pudessem voltar a se aproximar de alguma maneira. Izuna tinha esperanças de que Madara enfim contasse o que realmente sentia, e eu, esperava sinceramente que ele guardasse tal informação e mantivesse suas mãos sujas longe de meu irmão pelo resto da vida. Eu concordava que os aproximando poderíamos ter uma chance de paz, porém, ainda era difícil imaginá-los juntos da mesma forma em que vivia com Izuna. Eu simplesmente não conseguia.
Quando Hashirama tentou ir embora, na tentativa de não nos ouvir, o resto de suas defesas foram derrubadas tão rápido quanto um piscar de olhos. Eiji, como o esperado, começou a prestar a atenção em nossa conversa, e logo correu e se agarrou em suas pernas. Eiji chorou enquanto pedia para que seu tio ficasse naquela noite, para que pudesse tomar café da manhã com ele em seu aniversário. Hashirama pareceu se esquecer de seus medos no exato momento em que trouxe o pequeno para o seu colo. Logo a promessa de fazer o que Eiji queria veio, como na maioria das vezes, e a felicidade que tomou a expressão de meu filho contagiou a todos.
Era claro que Hashirama não havia se esquecido das próprias palavras antes de ser rendido pela doçura de seu sobrinho, mas, de alguma maneira, ele aparentou menos cauteloso quanto a nossos planos. Izuna se animou mais uma vez com a possibilidade de poder ver seu irmão feliz, e foi com estranheza que o vi tentar se aproximar do meu. Eles conversaram apropriadamente naquela noite, e o jantar foi mais agradável do que o esperado. Hashirama se mostrou mais à vontade na presença de Izuna, e em pouco tempo já se referia a ele como se fossem próximos há anos. E apesar da estranheza por vê-los de tal maneira, me senti extremamente satisfeito por poder passar algum tempo na companhia de todos que eu amava.
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