Eiji
20 Capítulo Quinze
Notas iniciais
O silêncio que nos abraçou naquele momento foi extremamente incômodo. Eu não conseguia adivinhar o que se passava na mente de Madara, e para piorar, até o que o meu próprio irmão pensava era uma incógnita. Hashirama sempre era transparente demais, mas naquele momento, seu olhar fixo em Madara não mostrava muito o que estava sentindo — ao menos não para mim. Izuna parecia tão tenso quanto eu, e me olhou preocupado quando vimos Hashirama se mover na cadeira pela primeira vez desde que o outro havia entrado na cabana e foi obrigado a se sentar em frente a ele.
— Você está bem? — Ele enfim se dirigiu a Madara, e cruzou os braços. Suas sobrancelhas se juntaram quando recebeu nada mais além de uma expressão incomodada e com indícios de nervosismo. — Civilizado, como sempre.
Hashirama riu com certo deboche ao desviar o olhar, mas ali, enfim consegui ver um pouco dos verdadeiros sentimentos dele. O som de sua voz era debochado, mas a expressão que tentava ocultar era de dor.
— Acontece que interpretar não é uma coisa para mim.
A voz de Madara soou estranha naquele cômodo. Desde que havia pisado ali, não havia dito nada. Seu cumprimento foi um leve e forçado manear de cabeça, e sem troca de olhares para nenhum de nós, com exceção de um envergonhado Eiji que havia se escondido atrás das pernas de Izuna, e foi observado por seu tio com certo espanto, seguido de admiração. Mas suas emoções param por ali, e os longos minutos que se seguiram houve apenas faces neutras e um silêncio extremamente incômodo.
Senti meus músculos enrijecerem e de alguma maneira meu corpo ficou alerta quando enfim ouvi a voz dele. Eu tentava ter a mente aberta, por Izuna, Eiji e meu irmão, mas ainda era difícil confiar em Madara. Meu coração confiava nas palavras de Izuna sobre ele, mas, minha mente tinha a certeza de que Madara destruiria tudo à sua volta na primeira oportunidade.
— Que engraçado, achava que fosse a sua especialidade.
Em todos os dias, desde que havia apoiado a ideia de Izuna, não deixei o pensamento de que Madara seria o que acabaria provocando uma confusão, e foi com surpresa que olhei para o meu irmão, que olhou com atrevimento para o outro enquanto falava o que bem entendia, o que claramente soou como um insulto para o irmão de Izuna. Eu não estava tão próximo a eles, mas pude ouvir com clareza os dentes de Madara rangendo. Ele se levantou abruptamente, fazendo a cadeira tombar e ir ao chão, e em um piscar, em sua mão vi uma kunai.
— Vamos dançar, Hashirama!
Hashirama agiu tão rápido quanto ele, mas não sacou arma alguma. Ele estava pronto para usar um jutsu, o que me deixou completamente alerta. Ambos haviam perdido a cabeça. Eu não pude apenas observá-los por mais tempo. Antes que fizessem a besteira que claramente estavam prestes a fazer em meu lar, me pus à frente de Hashirama. Segundos mais tarde, em vez de encarar Madara, meus olhos se encontraram com os de Izuna.
— Nii-san!
Ele também se pôs à frente de seu irmão, mas não tive sua atenção por muito tempo. Izuna se virou para Madara, e o olhou de alguma maneira que o fez hesitar. Mas não foi Izuna quem o obrigou a guardar a arma rapidamente, foi uma quinta presença, da qual ele e meu irmão com certeza haviam se esquecido completamente.
— Dançar? — Eiji nos olhou animado ao perguntar. — Assim?
Seus pezinhos se moveram desajeitados sobre o chão enquanto balançava os quadris e movia as mãos no ar de uma forma adorável demais para ignorar. Voltei a olhar para Izuna, e o vi sorrir aos poucos, até não aguentar e soltar uma baixa e curta risada. De alguma maneira a presença de Eiji despertou nossos irmãos, e envergonhados, fingiram que nada havia acontecido ali.
O pequeno correu até mim quando me viu reagir como seu outro pai. Emburrado, disse que eu não deveria rir, pois dançava muito pior do que ele. As palavras do pequeno fizeram Izuna rir outra vez e foi acompanhado por um debochado Hashirama ao meu lado. Eu não pude ficar nervoso com aquilo, então tudo o que fiz foi rir como eles e concordar com Eiji, que de repente mudou sua expressão para uma que mostrava que havia se lembrado de algo.
— Eu vou terminar o meu desenho! — Exclamou ele, completamente animado outra vez. Sua mão agarrou a de Hashirama e com um sorriso travesso o puxou para fora da cozinha. —Vem, tio!
Os observei irem apressados até a sala, e meu irmão se sentar sobre o sofá, enquanto Eiji se escondia atrás do cavalete que havia ganhado de Izuna. Minutos antes de Madara aparecer, eu via a mesma cena à minha frente, e novamente sorri abobalhado com a interação de ambos.
Quando criei Eiji, temi o que Hashirama poderia dizer e como iria reagir ao ver o pequeno. Após o meu retorno, todo aquele medo que senti foi se mostrando cada vez mais escusado. Eu sabia que meu irmão era um homem gentil, mas de início não esperava que ele se apegaria tanto a Eiji, e que o pequeno agiria da mesma maneira. Mas não me sentia mal por ter pensado errado, pois, eu sabia que não era apenas Hashirama e as pessoas à minha volta que de repente resolveram agir de maneira diferente; era por Eiji. De alguma maneira, ele havia conseguido mudar o nosso jeito de pensar.
— Assim? — Ouvi a voz risonha de meu irmão perguntar, e cortando meus devaneios, voltei a prestar atenção neles.
— Não! — Eiji gritou a recusa e correu até seu tio, que fazia uma pose idiota que combinava perfeitamente com sua expressão. — Sem caretas, e com sorriso.
O pequeno subiu em seu colo e com suas mãozinhas tentou puxar os lábios de Hashirama para obrigá-lo a sorrir e ser um bom modelo, mas meu irmão não desistiu de fazê-lo rir e moveu seus olhos de maneira engraça enquanto colocava a língua para fora, conseguindo finalmente o que queria.
— Seu bobo!
Eiji riu divertido enquanto o xingava, mas sua alegria não durou por muito tempo quando a frase passou pelos ouvidos de seu outro pai.
— Eiji! — Izuna o chamou com um tom sério e repreendedor assim que ficou ao meu lado.
— Desculpa — o pequeno disse em tom baixo enquanto descia do colo de Hashirama. Pensei que o veria emburrado como normalmente acontecia quando era repreendido, mas o vi tentando segurar um sorriso quando me olhou e ao dar as costas pudemos ouvir uma baixa risada.
Eu também não consegui me segurar diante daquela cena e ri em tom alto e divertido, roubando a vez do pequeno de ser olhado com repreensão por Izuna.
— O quê? — Perguntei risonho. — Ele só está falando a verdade.
— Ele fala assim porque o ouve dizer essas coisas.
Recebi um fraco tapa em meu braço, o que me causou outra risada que saiu contida, mas não menos divertida.
— Eu também só falo a verdade — me defendi ao virar na direção dele e apontar para o meu irmão. — Ele é um idiota!
Enfim vi Izuna sorrir. Mesmo querendo se segurar, ele acabou rindo em tom baixo, e em seguida escondeu os lábios com a mão.
— Você sabe que posso ouvi-lo, não é?
Me virei para Hashirama, assim que ouvi sua pergunta indignada, e sorri debochado.
— Eu não estava tentando guardar segredo.
Fui acompanhado por Izuna ao rir da expressão de Hashirama, e ao me virar para ele, tive uma rápida visão de Madara, que sorria discreto enquanto nos observava. Eu me surpreendi ao vê-lo daquela forma, mas minha atenção logo foi roubada. Meu irmão tentou dizer algo ao abrir a boca, mas a fechou rapidamente quando ouvimos Eiji se agitar outra vez.
— Terminei!
Ele tirou o papel do cavalete e correu até Hashirama. Eiji entregou o desenho para seu tio e esperou, claramente ansioso por sua opinião, que veio rapidamente.
— Uau! Que incrível, ficou igualzinho a mim — Hashirama sorriu largamente enquanto bagunçava seus cabelos negros. — Parabéns, Eiji.
— Deixe-me ver, pequeno — pedi com curiosidade, e sorri largamente quando ele correu até mim e entregou o papel que continha um amontoado de riscos coloridos. — Idêntico — disse rapidamente, e o vi sorrir alegre. — Principalmente a expressão.
Acabei rindo com a minha última frase, e recebi um cutucar discreto de Izuna, que se aproximou ainda mais de mim e sorriu orgulhoso em seguida.
— Está muito bom, Eiji.
— Está mesmo, pequeno.
Como meu irmão, levei uma de minhas mãos até seus fios curtos e os baguncei, causando-lhe uma leve risada.
— Quando eu crescer, vou ganhar muito dinheiro desenhando!
O olhei surpreso ao ouvir tal afirmação, e me perguntei onde ele havia escutado uma coisa como aquela.
— Já está pensando em trabalhar? — Izuna perguntou com igual surpresa, e me olhou rapidamente, como se fizesse a mesma pergunta que eu havia feito em pensamento.
— Sim — Eiji colocou as mãos na cintura ao afirmar. — E vou comprar muitos bolos do tio Hashi!
— Eu acho que devo abrir uma loja de bolos então — Hashirama riu ao voltar para a cozinha, e deu atenção para o pequeno. — Quando eu crescer, é claro.
— Isso pode demorar um pouco.
O meu comentário fez Izuna rir outra vez, mas diferente de antes, foi acompanhado por meu irmão. A nossa atenção logo se desviou do bobo assunto, e quando Eiji roubou o papel de minhas mãos, acompanhamos os passos do pequeno até a mesa da cozinha.
— Olhe — ele pediu de forma tímida enquanto entregava o papel para Madara que, hesitante, se virou na cadeira e o segurou em suas mãos.
— Uau... bem...
Madara não parecia ser acostumado a lidar com crianças. Ele se perdeu em suas palavras enquanto observava o desenho, e claramente desesperado, olhou para Izuna, que o incentivou a falar com um gesto com a mão.
— É bastante artístico — ele enfim se voltou para Eiji. — Talvez realmente possa ser um artista quando crescer.
— Artista? — O pequeno perguntou enquanto pendia a cabeça para o lado, obviamente confuso e curioso com a nova palavra.
— Sim — respondeu Madara, ainda um pouco sem jeito. — É como se chama alguém que desenha como você, ou saiba construir ou criar coisas.
Eiji imediatamente olhou para trás e com um largo sorriso voltou para Madara.
— Então, os meus papas são artistas também! Eles fizeram um quarto inteiro só para mim — ele se aproximou um pouco mais de seu tio e colocou a mãozinha ao lado dos lábios. — Fizeram tudo sozinhos.
O olhar de Madara logo foi até nós, e em seguida se focou apenas em seu irmão, que se mostrou um pouco tímido.
— Isso é incrível — disse Madara em tom baixo e claramente surpreso. E eu sabia o motivo. Quando começou a me ajudar na cabana, Izuna havia comentado que nunca havia feito aquele tipo de trabalho, que em seu clã nenhum deles era tão bom em construir coisas e isso os fazia depender de terceiros.
— Sim! — Eiji chamou a atenção de Madara não só com sua voz animada, mas também por segurar seu rosto de maneira atrevida, o obrigando a voltar a olhá-lo. — Você também é artista?
— Não — o irmão de Izuna respondeu em tom baixo, e quando realmente voltou a focar no pequeno, foi com surpresa que o vi sorrir de maneira fraca. — Nunca construí coisas. Também não sei desenhar.
— Eu posso ensiná-lo! — Exclamou Eiji assim que soltou seu rosto e levantou as mãos para o alto de maneira animada. Naquele momento vi que sua timidez inicial para com Madara nunca mais voltaria.
— Claro — Madara gaguejou a palavra com o que parecia ser alegria contida. — Eu ficaria honrado.
— O que é honrado?
Eu ri em tom baixo ao ver a expressão desesperada de Madara de volta enquanto não sabia como explicar aquela palavra de uma maneira que Eiji entendesse. E vendo seu irmão se enrolar com palavras outra vez, Izuna enfim se aproximou de ambos e surpreendeu Eiji ao tirar seus pezinhos do chão quando o levantou para o seu colo.
— Já chega, bebê — disse ele de maneira divertida enquanto fazia cocegas na barriga do pequeno. — Vamos comer, ok?
Eiji assentiu animado enquanto se apoiava no pescoço de seu pai, mas logo mostrou uma expressão subitamente temerosa ao olhá-lo.
— Eu esqueci de perguntar se podia fazer uma pergunta — sussurrou ele quando me aproximei, preocupado com seu jeito de agir.
— Não tem problema — Izuna afirmou com calma. — Na próxima vez, você se lembra, certo?
Eiji assentiu outra vez, e logo seu sorriso retornou, juntamente com sua risada quando baguncei seus cabelos.
— Mas o que é isso? — Hashirama perguntou com curiosidade quando Izuna se afastou com o pequeno.
— Precaução — respondi simplesmente enquanto entregava uma das panelas em suas mãos, para que pudesse me ajudar a arrumar a mesa.
Não queríamos limitar Eiji, ainda mais quando sua curiosidade se mostrava apenas sobre palavras novas, mas conhecíamos o nosso filho muito bem, e sabíamos que a qualquer momento o pequeno poderia soltar alguma pergunta constrangedora que faria Madara querer correr dali ou destruir a nossa casa. Nós precisávamos tentar encerrar aquela noite com ao menos um pouco de aproximação entre os nossos irmãos, e afugentar qualquer um deles era o que tínhamos que evitar. Para garantir que a situação não saísse do controle, pedimos a Eiji que naquela noite, sempre que sentisse vontade de os questionar sobre qualquer coisa, teria que pedir permissão antes. Assim poderíamos analisar a situação, e dependendo do contexto, não haveria perigo em permitir que ele dissesse o que estava em sua mente.
O jantar foi feito com mais paz e livre de constrangimentos do que imaginei. O silêncio incômodo que pensei que teríamos, não veio, e Eiji não deixou que nenhum de nós nos calássemos. Ele estava tão feliz por ter mais pessoas em nossa casa, e por um momento pensei que não seria de todo ruim poder repetir aquela noite, contanto que seus tios não resolvessem “dançar” entre nós.
Madara não se dirigiu a Hashirama e nem ao menos se deu o trabalho de olhar em sua direção depois da tentativa falha de começar uma briga por conta da provocação barata de meu irmão. Com poucas palavras ele conversava e respondia apenas Eiji e Izuna, enquanto para mim, vez ou outra o pegava me encarando como se quisesse arrancar a minha cabeça. E eu não o culpava. Sabia que ele me culpava pela mudança de Izuna, e mesmo não o conhecendo tão bem, era claro em seus olhares que desconfiava de algo, assim como Hashirama. Eu procurei ignorar seus olhares, mas no fundo me sentia incomodado. Não pela aura hostil que aparecia apenas para mim, mas sim por receber mais atenção que o meu irmão, a quem Izuna dizia que ele amava tanto.
Não precisei observar Hashirama por mais que um segundo para saber que ele se sentia afetado pela indiferença de Madara, e isso me deixou raivoso e lamentando por não poder agir como estava em meu interior. Apesar de a ideia de tê-lo ali fosse fazê-lo dialogar com Hashirama, mas não haver indícios de que seria possível, Izuna parecia feliz por ter o irmão ao seu lado, e Eiji, deslumbrado por ver seu tio do qual não tinha contato desde que era um bebê. Eu não queria estragar aquele momento para eles.
Quando Eiji terminou de engolir tudo o que estava em seu prato, olhei para Hashirama, que entendeu o que eu queria e se preparou para levantar e ir buscar o bolo que havia feito durante a tarde. O pequeno o ajudou no início da receita, mas ainda não havia visto o resultado final, e nós dois estávamos ansiosos para que visse. Eu tinha certeza de que ficaria extasiado ao vê-lo, e também esperei que estivesse ansioso para tal, porém, o pequeno se mostrou bastante paciente naquela noite, e antes que seu tio se levantasse, chamou a atenção de todos ao perguntar:
— Posso fazer uma pergunta?
— Mas é claro — Hashirama se apressou a dizer enquanto sorria fraco.
Eu me desesperei quando os ouvi, e acreditava que Izuna estava da mesma maneira, pois, o pequeno estava quieto e observava a todos há algum tempo, e não havia sinal do que se passava em sua cabeça.
Quando Eiji olhou de Izuna para mim, esperando também a nossa permissão, me senti tentado a mudar de assunto, mas isso só faria o pequeno emburrado enquanto Madara e Hashirama ficariam desconfiados. Meu olhar se encontrou com o de Izuna, e quando não vi outra saída, assenti para o nosso filho.
— Vá em frente, pequeno.
— Você é o meu tio — ele se inclinou na mesa ao dizer e deitou sua mão sobre a madeira e em direção a Hashirama, que estava ao meu lado. — E você também é o meu tio — a outra mão sobre o móvel indicou Madara, que o olhava com curiosidade juntamente com seu irmão.
— Certo — Hashirama disse, divertido sem motivo aparente, enquanto assentia.
— Então... isso quer dizer que vocês são como os meus papas?
Ele parecia realmente curioso para ter sua resposta, mas a pergunta só me deixou ainda mais agitado e imediatamente olhei para Izuna, que também me olhava e com seus olhos arregalados.
— Eiji...
Izuna tentou chamar sua atenção, mas ela foi tomada por Madara que cruzou os braços ao se virar na direção do pequeno.
— O que quer dizer, Eiji? — Disse ele, com um sorriso trêmulo. — Como são os seus “papas”? — Ao fazer tal pergunta, seu olhar assassino novamente se voltou para mim e o sorriso se tornou ameaçador.
Eu não desviei o meu olhar do dele enquanto era encarado com insistência. Naquele instante achei que não iria aguentar me manter em silêncio quanto a tal tratamento desde o momento em que havia pisado em minha casa, e por um segundo esqueci o que realmente deveria me preocupar ali, mas logo fui lembrado, quando a voz de Hashirama se fez presente novamente.
— Sim, Eiji, como eles são?
O olhar de meu irmão era diferente do de Madara e como anteriormente pude ver seu sorriso malicioso.
— Eles são papas! — Para o meu desespero, o pequeno não nos deu tempo e respondeu rapidamente enquanto revirava os olhos, como se sua resposta fosse óbvia. — Eles se beijam, fazem carinho, dormem juntos e pelados... — ele contava cada coisa em seus dedinhos, como se tivesse muito de nossos costumes para dizer a eles.
— Já é suficiente, pequeno — eu disse rapidamente, antes que tudo ficasse ainda pior. Meu rosto se tornou extremamente quente e não consegui encarar nenhum deles, apenas a madeira da mesa à minha frente era o que conseguia me focar enquanto segurava a mão de Eiji sobre o móvel e pensava no futuro que não demoraria muitos minutos para chegar. Futuro esse em que meu irmão sairia vitorioso de suas suspeitas, e talvez me acharia um hipócrita, enquanto Madara com certeza tentaria me matar.
— O que foi? — Ouvi o pequeno perguntar com confusão em seu tom de voz.
— Madara é o meu irmão, bebê, é por isso que é o seu tio, somos como Hashirama e o papa — a voz de Izuna era calma enquanto explicava, mas também o conhecia bem, e sabia que estava em um estado parecido como o meu.
Eu estava em choque, e sem coragem até mesmo para me mover, mas as batidas do meu coração tomaram um ritmo acelerado quando ouvi um suspiro impaciente vindo do outro lado da mesa. Eu estava envergonhado, mas não consegui manter a minha cabeça baixa por mais tempo. Era óbvio que a reação que ouvi tinha vindo de Madara, e minha impaciência voltou quando o olhei diretamente e vi que aquele som era para Izuna, que estava sendo encarado com insistência por seu irmão. Meu olhar se encontrou com o de Izuna rapidamente, e nele vi um pedido mudo de socorro.
Eu sempre me gabava de como era rápido não apenas em meus passos, mas também em achar soluções, pensar em estratégias de guerra ou para apaziguar brigas no clã. Qualquer situação que via em minha frente, tomando decisões certas ou erradas, me apressava em reagir. Eu debochava de meu irmão, dizendo que ele tinha um coração que comandava muito mais do que sua mente. Eu costumava me achar o melhor por ser rápido para reagir e deixar minha mente tomar o controle, porém, esse era o antigo Tobirama, e o daquele momento não conseguiu pensar tão rápido, porque ele não podia arriscar tomar decisões erradas. O meu novo eu precisava pensar em seu filho, no amor de sua vida, em seu irmão, em sua família, e novamente deixar o coração tomar a vez. Eu decidi enfim dizer a eles. Sabia que Izuna se preocuparia e teria que lidar com Madara, mas era o nosso plano desde o início contar para os nossos irmãos. Eu estava decidido, mas tão rápido quanto veio a ideia, ela se foi com uma vergonhosa covardia. Eu não sabia o motivo, mas quando encarei o olhar curioso de meu irmão, recuei, e me senti ainda mais agitado quando Eiji voltou a falar.
— Hm... — O pequeno tocou o queixo com o indicador enquanto se mostrava pensativo — então...
— Está na hora do bolo! — Exclamei ao me levantar de uma maneira desajeitada.
— Sim, por favor — escutei Izuna murmurar enquanto eu dava a volta na mesa e ia até ele.
— Pode me ajudar, Izuna? — Pedi com um sorriso nervoso, e antes de receber uma resposta, o puxei pela camisa, obrigando-o a levantar e me seguir até o balcão. — Eu acho que o seu filho acaba de jogar uma bomba naquela mesa — sussurrei quando enfim nos afastamos da mesa e do silêncio constrangedor que nos abraçou de forma rápida.
— Meu filho? — Izuna perguntou no mesmo tom que o meu, e com um sorriso de canto me olhou de cima abaixo.
Assim como o olhar de meu irmão, o de Izuna me fez mudar de forma repentina, e sem perceber já sorria semelhante a ele.
— Ele fala como você — afirmei de forma risonha, mas logo voltando a pensar na seriedade daquele momento. — Hashirama irá me lotar de perguntas — disse em tom baixo enquanto pegava o bolo da maneira mais lenta que conseguia.
Eu sabia que estava errado em evitar encarar o meu irmão em um assunto como aquele. Em alguns momentos cheguei a pensar se Izuna se sentia ofendido ou inseguro por conta de minha hesitação em contar sobre nós, porém, naquele momento pude ter certeza de que ele se sentia exatamente como eu.
— E Madara irá me matar — Izuna afirmou com desanimo e um leve temor.
Nós sabíamos que em algum momento tal assunto viria à tona naquela noite. Morávamos juntos e tínhamos um filho, e não precisava de muita inteligência para nos observar e suspeitar de que éramos muito mais próximos do que tecnicamente deveríamos ser. As perguntas de meu irmão e olhares de Madara já denunciavam que ambos queriam saber o que realmente estava acontecendo ali. Nós sabíamos que teríamos aquela conversa, mas o choque de como o assunto chegou nos deixou menos corajosos naquele momento. Porém, ao ver Izuna preocupado como estava, agarrei a minha coragem, e mesmo sabendo que obviamente estávamos sendo observados por nossos irmãos, não hesitei em me aproximar dele e acariciar suas costas.
— Vamos tentar deixar isso o menos desconfortável possível — eu disse em tom baixo e tentei sorrir de uma maneira que passasse segurança a ele. — Eu sei que não é exatamente o que planejamos, mas, ainda podemos fazer dar certo.
Finalmente pude ver Izuna menos tenso, e com alívio o vi sorrir enquanto assentia.
— De acordo — disse ele, pegando o bolo de minhas mãos. — E sem mais perguntas de Eiji por esta noite.
Não houve como segurar uma baixa risada quando ouvi suas palavras, e achei que minha seriedade voltaria quando nos viramos para os três à mesa, mas só consegui alargar o meu sorriso com a reação de Eiji ao ver o dragão desenhado de forma desajeitada por Hashirama, que também se animou com o jeito fofo que o pequeno bateu as mãos umas nas outras enquanto exclamava o quão bonito estava o seu bolo.
Nós conseguimos contornar a situação nos momentos em que o bolo era o astro da noite, mas para mim foi óbvio como Madara e meu irmão não haviam esquecido das palavras de Eiji em um segundo sequer. Não foram poucos os momentos em que os peguei nos olhando com curiosidade, e por parte de Madara, uma dose a mais de o que parecia ser raiva, mas incrivelmente sem surpresa alguma.
— Você contou algo para ele no caminho? — Perguntei para Izuna, assim que mais uma vez tivemos a oportunidade de nos afastar da mesa por poucos minutos.
Izuna havia saído cedo naquela manhã. O convite para Madara já havia sido enviado, mas Izuna resolveu não revelar a nossa localização. Ele foi buscar o irmão pessoalmente, e por um momento temi tal ideia. Eu sabia o que Madara era capaz de fazer em um momento de fúria, e também que sua raiva por nossa família havia aumentado um pouco mais e direcionada especialmente para mim depois da partida de seu irmão, e tinha dúvidas sobre a intensidade desse amor por Hashirama que Izuna teimava insistir que existia, mas que ainda custava acreditar por completo. Acreditava que aquela noite não iria tão longe quando Madara pisasse em nosso lar, porém, ele estava sendo mais comportado e atencioso com seu irmão e sobrinho do que eu esperava. Apesar dos olhares e desconfiança, ele parecia menos recluso a cada minuto que passava, e a falta de surpresa em nosso modo de viver me trouxe incontáveis perguntas.
— Não, mas... — Izuna sorriu fraco — ele não é estúpido, Tobirama. Olhe para nós.
— Óbvios demais? — Minha pergunta, que também servia como afirmação, saiu em tom baixo e risonho.
Izuna riu e nada respondeu quando se afastou. Em seguida Eiji nos apressou, pedindo que levássemos os pratos até eles de uma vez para que pudéssemos cantar para ele. Quando me aproximei, pela primeira vez, vi Madara sorrir sem tentar se esconder. Ainda que tenha durado poucos segundos, me senti surpreso e estranhamente confortável por ver que uma reação como aquela vinda de alguém como ele tivesse sido tirada por Eiji. O pequeno tinha algo que praticamente obrigava os outros a serem um pouco mais descontraídos e menos sérios, mas jamais esperei que conseguiria resultados com Madara, o que começou a me trazer uma tola e leve esperança sobre o fim daquela guerra.
Eiji se animou quando enfim o bolo estava em seu prato, o que não era uma surpresa, visto que aguardava aquele momento por dias, mas sua ação seguinte foi extremamente inesperada. Ele empurrou o prato para o lado, e com um sorriso alegre, pediu que Madara se servisse.
— Os bolos do tio Hashi são os melhores do mundo! — Exclamou o pequeno, enquanto pegava mais um prato com bolo e oferecia ao seu outro tio. — Você tem que provar agora mesmo!
Hashirama sorriu como bobo ao ouvir a voz de Eiji, e completamente surpresos, Izuna e eu também fomos servidos. Tentamos tirar aquela mania do pequeno de sempre querer ser o primeiro em tudo, porém, nunca havíamos o convencido de que para nós ele era prioridade, mas que em certas situações teria que esperar a sua vez. Mesmo em coisas pequenas tentamos ensiná-lo, mas foi apenas naquele momento em que o vimos agir de tal forma.
Após a surpresa passar, Izuna sorriu largamente enquanto acariciava os cabelos negros de nosso pequeno, que enfim se lambuzava com seu bolo favorito. Eu não resisti e fiz o mesmo, trazendo um sorriso animado em Eiji, que não parou de mastigar até que a segunda fatia em seu prato sumisse. Ele ainda tentou nos convencer de que aguentaria uma terceira fatia, mas quando recebeu um olhar sério de Izuna, desistiu mais rápido do que o costume e convidou seus tios para irem até a sala, para verem seus brinquedos que eles mesmos o haviam presenteado.
Eiji foi mais rápido que todos para sair da mesa. Madara hesitava tanto em se mover do lugar que só ficou em pé quando a mesa estava vazia e Hashirama levava o último copo até mim, para que pudesse ser lavado. Izuna encerrou a conversa sem muito aprofundamento com o irmão, e como sempre costumava fazer em noites frias como aquela, se aproximou de mim e tocou minhas costas.
— Você termina aqui enquanto acendo a fogueira?
Foi uma simples pergunta com curta resposta e ação. Eu balancei a cabeça em sinal positivo e virei meu rosto em sua direção, e automaticamente nossos lábios se encontraram em um rápido selar. Era uma maneira de agir que havia se tornado comum para nós, mas acabamos esquecendo por um breve momento de que estávamos com visitas, e justamente as que de jeito nenhum veriam aquela cena como algo corriqueiro e sem importância.
Nós estávamos acostumados a cuidar de nosso filho, dividir tarefas e, principalmente, a estar juntos, a nos amar. Aquilo era apenas uma amostra de “nós”, mas nem todo o conforto que Izuna me passava adiantou naquele momento e muito menos impediu que me sentisse extremamente envergonhado. Meu rosto não aqueceu aos poucos, ele queimou como se tivesse mergulhado a minha cabeça em uma panela cheia de água fervente e não consegui encarar qualquer outra coisa que não fosse o copo em minhas mãos. Eu não vi como Izuna reagiu quando também se deu conta, só consegui ouvi-lo pigarrear sem graça e avisar em tom baixo que estava indo para o lado de fora.
Sua presença se foi e ao lado ficou um vazio incômodo quando se afastou, mas em segundos foi substituída por outra, que não teve atenção imediata quando senti uma aura ameaçadora logo atrás. Era Madara, obviamente, e fiquei a pensar em como reagir a qualquer ação que ele tomasse em um momento como aquele, mas como havia passado a ser costume, fui salvo pelas palavras animadas de Eiji.
— Vem, vou mostrar os meus outros desenhos — ao ouvi-lo falar, eu consegui levantar o meu olhar minimamente, para poder ver os pezinhos do pequeno sendo seguidos por Madara, que claramente era arrastado dali. — Depois tenho que fazer um desenho seu, tio!
Eu quis sorrir com jeito animado de Eiji, mas não consegui. Ainda estava envergonhado e preocupado demais, e para completar, ainda tinha a presença de meu irmão ao meu lado.
— Não vai olhar os desenhos? — Perguntei com seriedade, enquanto voltava a lavar a louça. Eu ainda não estava pronto para encarar o meu irmão.
— Sim. Depois. Vou te ajudar.
— Não precisa.
Minha resposta em tom ríspido o fez rir em tom baixo, e tive que fechar os olhos por um momento e respirar fundo para manter a minha paciência. Eu adiei muito contar sobre Izuna para Hashirama, porém, não foi apenas pelo assunto ser sério, mas porque sabia que, na maioria das vezes, meu irmão terminava rindo da minha cara, não importava a situação.
— Eu nunca o vi corar antes. Tão fofo.
— Cale a boca, An-chan! — Fiz o que pude para continuar com o tom baixo e me esforcei ainda mais para me manter calado quando o ouvi rir mais uma vez. Eu o encarei por poucos segundos, e seu largo sorriso só serviu para me deixar ainda mais envergonhado.
— Se lembra de quando me trouxe aqui pela primeira vez? — Hashirama mudou de assunto de repente. — Eu construí esta cabana.
— Metade dela — o corrigi, já menos envergonhado e agradecido pela troca de assunto. Eu queria falar sobre Izuna, mas não daquela maneira.
— Sim, sim. Vocês fizeram um ótimo trabalho, aliás — Hashirama disse de maneira animada, mas logo se acalmou e quando enfim o olhei sem hesitar, soltou um suspiro. — Mas enfim. Naquele dia, nós conversamos sobre algumas coisas, e me lembro de você ranzinza, falando que Eiji sorria muito mais quando estava com Izuna.
— Aonde quer chegar com isso?
— Eu só estava lembrando e... — seu sorriso se alargou — pensando que você não deveria ficar tão bravo com algo assim, já que também sorri três vezes mais quando está com ele.
— Isso não é verdade! — O corrigi outra vez, mas com a vergonha retornando com um leve arrepio correndo por todo o meu corpo.
— Ah, é? — Eu não sabia que era possível, mas ao falar, o sorriso de Hashirama aumentou ainda mais, enquanto as batidas de meu coração se tornaram elevadas. — Tobirama, você tem alguma coisa para me contar?
“Por que devo falar? Você já sabe desde o início! ”, era o que eu queria dizer a ele, mas me mantive calado por algum tempo. Era óbvio que ele sabia, e naquele momento me perguntei se não desconfiava muito antes de eu mesmo descobrir o que sentia por Izuna. Era claro que Hashirama sabia, mas também que queria saber a verdade através de mim, não por sua intuição ou pelo o que via. E ele já havia esperado demais para que eu fosse completamente sincero.
Eu juntei toda a minha coragem para me virar na direção de Hashirama, suspirei fundo quando cruzei os meus braços, e me encostei no balcão.
— Eu o amo.
Direto e sincero, como eu deveria ter agido desde o início, não apenas com meu irmão, mas primeiramente comigo mesmo e Izuna.
Eu deveria ter me sentido mais leve por enfim ter dito o que sentia a Hashirama, porém, só consegui ficar ainda mais agitado com a falta de palavras e o olhar surpreso que era direcionado a mim.
— Uau... — Hashirama gaguejou enquanto parecia não saber como se mover e muito menos o que dizer.
— O quê? — Senti o meu rosto esquentar outra vez e perdi a coragem de encará-lo novamente. — Não esperava ouvir isso? — Voltei a me virar para a louça, mas não consegui nem mesmo tocar em um único prato.
— Não com tanta sinceridade e sem me xingar antes — estranhamente me senti aliviado ao ouvir sua voz risonha e provocativa. Senti meu irmão se aproximar ainda mais e ao colar o corpo na lateral do meu, perguntou em tom baixo: — Ele também...?
— Sim — respondi, mesmo me sentindo cada vez mais envergonhado. Meu olhar logo voltou para Hashirama. — Isso o incomoda?
A pergunta feita com temor pareceu deixá-lo confuso, e o vi fazer uma careta antes de se afastar e tomar a posição de antes.
— Não. Eu o invejo, na verdade — ele deu de ombros, mas sorriu de maneira fraca em seguida. — Mas estou sinceramente feliz por você. E agora entendo melhor a sua decisão.
Me senti incomodado em ouvir parte de suas palavras. Eu ainda detestava imaginar meu irmão com o de Izuna de maneira romântica ou qualquer outro jeito, mas ao mesmo tempo era torturante vê-lo machucado daquela forma enquanto talvez tivesse uma chance muito maior de ser correspondido do que ele imaginava. E com tudo o que pensei naquele momento, o que mais pesou em mim foram as minhas próprias palavras, anos antes.
— Sou um grande hipócrita, não é? — Sussurrei ao abaixar o olhar e apoiei minhas mãos no balcão.
— Você só... não tinha como entender na época — Hashirama disse de forma calma, e quando voltei a olhá-lo, o vi ainda sorrindo fraco. — Fico feliz que agora entenda, mas de uma maneira boa, não como a mim.
Mais uma vez me senti mal com o que ouvi. Ele realmente parecia feliz por mim, mas era claro que ainda sofria por Madara. Eu sabia que não estava nos planos de Izuna falar qualquer coisa sobre os dois naquela noite, que na verdade estavam ali para além de enfim saberem sobre nós, também para se reaproximarem de maneira natural. Mas eu sabia que o meu irmão era um idiota completo, e jamais veria a verdade quando para quem era atento também era difícil decifrar Madara, e imaginava o quão enigmático era para ele. Então, resolvi jogar com as palavras assim como ele havia feito comigo.
— Você se lembra de quando o pai o levou na sua primeira reunião do clã?
— Sim — Hashirama respondeu de maneira confusa. — Você, Itama e Kawarama ficaram bastante bravos, porque também queriam, mas não podiam.
— Nós brigamos naquele dia, você e eu. Eu disse que o odiava, mas não era verdade. Só estava com ciúme, os meninos também.
— Eu sabia, por isso não me importei muito com o que disse — meu irmão voltou a sorrir ao dizer. — Mas o que isso tem a ver?
Respirei fundo com a pergunta que sabia que viria. Imaginei que Izuna ficaria bravo se Hashirama ficasse amedrontado com minhas palavras, se recusasse a acreditar e fosse embora. Eu sabia que poderia estragar tudo naquele momento, mas queria tanto que meu irmão abrisse os olhos para voltar a ser o que era, o que sempre critiquei, mas que no fim, me tornei igual.
— Só fico pensando se, assim como eu, ele também não teve seus motivos para negar o que realmente sente.
Eu não mencionei o nome de Madara de proposito, sabendo que ele entenderia a quem me referia, e vi que havia acertado em pensamento quando respirou fundo e balançou a cabeça de um lado para o outro.
— Tobirama...
— Por que não tentar enxergar o outro lado, igual você sempre fazia no passado? — O cortei rapidamente, e dei um passo à frente para que pudesse escutar os meus sussurros com mais clareza.
— Me escute — a seriedade de Hashirama retornou quando segurou meus ombros com ambas as mãos. — Eu sei que se sente mal pelo o que me disse e porque está feliz ao lado de Izuna, mas, apesar de suas palavras terem sido duras, elas ainda fazem sentido. Eu não quero que se sinta dessa maneira. Eu sou o líder e preciso sacrificar coisas por nossa família, você... pode viver da maneira que bem entender, e fico aliviado por estar aqui para poder vê-lo fazendo isso.
Me senti nervoso ao ouvir suas palavras que pareciam ensaiadas, como se soubesse que algum dia eu voltaria no assunto sobre Madara e precisava estar pronto para rebatê-las. Eu estava emocionado com sua preocupação, mas nem isso apagou a indignação em meu peito, ainda mais por saber que o resultado de parte daquela personalidade era minha culpa.
— Isso não é você — afirmei com a mesma seriedade que a dele. — Quem está falando através de seus lábios agora é uma versão minha do passado que nada sabia — suspirei cansado. — Se eu soubesse antes...
— Como assim? — Os olhos de Hashirama se tornaram pequeninos ao me encarar e senti um leve aperto em meus ombros. — Sabe de algo que não sei, Tobirama?
Seu tom de voz que já era grave se tornou ainda mais, e quem o visse daquela maneira, provavelmente temeria o que viria a seguir, mas eu conhecia o meu irmão, e em seus olhos vi agitação e certo brilho que me fez sorrir de canto. Não estava falando sobre Madara naquele momento, mas sim de como seria diferente se antes eu tivesse conhecimento de como o amor era poderoso e poderia mudar certas coisas. Porém, meu irmão entendeu de outra maneira, e ali vi que no fundo ele ainda tinha esperanças, que esperava que Izuna tivesse me dito algo sobre os sentimentos de Madara e estava prestes a contar tudo. Hashirama estava certo em partes. Segundo Izuna, Madara era apaixonado por meu irmão; ele havia me dito com muita certeza, mas não disse isso a Hashirama. Meu sorriso foi tudo o que ele teve como resposta, e quando dei as costas para ele e o ouvi me chamar de maneira eufórica, soltei uma baixa risada.
Fugindo da grande curiosidade de meu irmão, fui até a sala, a vendo vazia. Esperava ver Eiji com Madara ali, mas pude vê-los somente quando abri a porta dos fundos. O pequeno brincava com um cavalo, fingindo que este voava enquanto corria pelo gramado, alheio a seu pai e tio que pareciam ter uma conversa séria. A julgar pelas expressões de seus rostos, imaginei que o assunto fosse eu, e tive certeza quando fui notado e ambos se calaram. Pensei que Madara fosse me confrontar, mas ele apenas desviou o olhar do meu e se afastou de Izuna quando viu que eu me aproximava. O segui com o olhar, e o vi entrar na cabana. Imediatamente a minha atenção foi para Izuna, que fez sinal para que eu não me agitasse.
— Ele está indo embora? — Perguntei enquanto me dividia entre a preocupação por Madara ter entrado na cabana enquanto meu irmão estava lá e sozinho, e também aliviado por não ter o olhar ameaçador em mim.
Izuna balançou a cabeça de um lado para o outro e quando me aproximei, recebi um apertado abraço em minha cintura. Preocupado, retribui o abraço no mesmo momento e passei a acariciar seus cabelos.
— Conseguiu contar a ele?
— De certa forma — Izuna me soltou ao dizer. — Madara não é de longas conversas, muito menos em uma situação como essa — ele soltou um longo suspiro e sorriu desanimado. — Ele está surpreso e irritado por ser você.
Eu já imaginava uma reação como aquela. Me senti da mesma maneira quando Hashirama me contou que o amava, mesmo já desconfiando há algum tempo, assim como imaginava que ele desconfiava de meu relacionamento com seu irmão.
— Disse a ele que também ficamos surpresos? — Perguntei um pouco mais relaxado, na tentativa de deixar Izuna da mesma maneira, e senti alívio quando sua risada saiu juntamente com a minha e senti suas mãos segurarem minha cintura.
— Quem não ficaria? — Ele riu outra vez, conservando seu fraco sorriso no fim. — Mas... ele ainda está aqui, então acredito que nos aceita de alguma forma.
Eu duvidava que Madara me aceitava ou sequer pensava em me olhar com outros olhos além dos raivosos no futuro, mas nada disse para contrariar Izuna e apenas sorri como ele e acariciei seus braços.
— E Hashirama?
Quando foi a minha vez de atualizá-lo, a aura à nossa volta foi diferente. Eu ri em tom baixo, e fui olhado com curiosidade.
— Está surpreso por minha sinceridade, não por nós.
Izuna riu em um tom um pouco alto demais e me provocou com suas palavras e a maneira que mexia em minha cintura, mas não me importei. Era reconfortante vê-lo animado daquela maneira depois de acharmos que tudo daria errado naquela noite, então, apenas o acompanhei nas risadas, que se tornaram mais animadas quando Eiji nos notou e quis subir para o colo de Izuna.
O clima estava frio, mas a fogueira ao nosso lado deixava o local aconchegante, e como Eiji costumava dizer, perfeito para ouvir uma história e ser abraçado. Eu já sabia o que viria a seguir, e mesmo enjoado da maldita história do dragão, não me senti entediado quando o pequeno pulou do colo de Izuna para o meu, e me olhou com ansiedade. Era o aniversário dele, então não me importei em me deixar levar por aquele olhar.
Izuna riu em tom baixo antes de se afastar, avisando que pegaria mantas para nos aquecermos um pouco mais. O frio estava aumentando conforme as horas passavam, e mesmo depois de todo aquele tempo, temíamos que Eiji adoecesse de qualquer maneira que fosse.
Eu me sentei em um dos três troncos em volta da fogueira e aconcheguei Eiji em meu colo. Animado, ele insistiu para que eu começasse a história, mas o convenci a esperar por seu outro pai e tios mais rápido do que imaginei. O pequeno estava se comportando por conta da presença de Madara, era óbvio que queria passar uma boa impressão, e me perguntava se tal atitude era para poder ver a nossa casa cheia com mais frequência. Como já havia acontecido, me senti culpado por ter que privá-lo de tantas coisas e ao mesmo tempo surpreso por mais uma vez Eiji mostrar atitudes que nunca havíamos ensinado. Ele era inteligente demais, e sempre que tal fato passava por minha cabeça, não conseguia evitar em imaginá-lo no futuro, quando fosse mais velho.
Quando meus pensamentos voavam para um Eiji adulto, inevitavelmente vinha questões sobre Izuna e eu. Sobre como estaríamos quando nosso filho fosse maior, se estaríamos vivos e bem. Antes de aceitar os meus sentimentos, sempre que pensava no futuro, não via nada além do pequeno sendo belo, forte e bem-sucedido e desejava poder vê-lo de tal forma pessoalmente. Eu apenas pensava em meu filho, mas as coisas mudaram quando enfim aceitei Izuna em meu coração. Ainda imaginava Eiji da melhor maneira possível, mas desejava vê-lo ter tudo o que queria com Izuna ao meu lado. Eu queria manter a nossa família unida e feliz para sempre, e tal pensamento me fez ser menos arisco naquele momento e sorri para meu irmão que vinha em nossa direção, com Madara ao seu lado. Eu queria que ele também fosse feliz, que pudesse escolher o caminho que desejasse.
Eu me esfriei um pouco quando vi Hashirama ir sentar no tronco do lado direito enquanto Madara fazia questão de se acomodar no esquerdo, em uma distância considerável. Eles pareciam menos tensos andando lado a lado, e cheguei a pensar que o plano de Izuna — e talvez o que eu havia dito a meu irmão — tivesse tido certo efeito, mas aparentemente eles continuavam firmes em ficar distantes. Mas o meu desanimo durou pouco, e meu bobo sorriso voltou de maneira suave quando Izuna retornou com as mantas. Ele ofereceu uma a Hashirama e outra para Madara, juntamente com copos e uma garrafa de saquê, que foi olhada com deslumbre por meu irmão. Nós costumávamos beber bastante quando éramos mais novos, mas nos últimos tempos Hashirama havia voltado com ainda mais apego a tal costume, o qual eu sabia muito bem o porque de ter retornado, mas ainda tentava ignorar o motivo.
Izuna cobriu as minhas costas e Eiji com a última manta, e antes que eu pudesse perguntar sobre a dele, se sentou ao meu lado e com um sorriso travesso foi para debaixo da que me cobria. Eu me senti agitado por um momento, e tive que ignorar os olhares de nossos irmãos em nós com muito custo, mas minha preocupação durou segundos, até sentir seu calor me aconchegar e não resisti em abraçar-lhe a cintura com um dos braços, enquanto o outro acomodava Eiji em nossos colos.
Madara pareceu prestes a dizer algo no momento em que nos viu daquela forma, mas ele apenas suspirou e em seguida deu atenção para o saquê em seu copo. Um estranho silêncio nos tomou por algum tempo, mas que se foi quando a bebida passou pelas mãos de Izuna sem ser aberta e continuou da mesma forma em minha mão. Logo ofereci a garrafa a Hashirama, que me olhou surpreso. Esperei pelo falatório de meu irmão e a insistência para que bebêssemos juntos, mas para a nossa surpresa, quem tomou a palavra foi Madara. Ele questionou Izuna da forma que pensei que viria de meu irmão, e como se não fosse suficiente vê-lo agir com uma súbita espontaneidade ao nos contar o quanto Izuna bebia no passado, ainda tivemos um bônus com sua expressão surpresa, mas ao mesmo tempo emocionada, uma cópia da face de Hashirama naquele momento em que foi explicado que havíamos decidido não beber mais — ao menos enquanto Eiji ainda era tão pequeno e dependia de nós para muitas coisas.
Nos momentos seguintes, quem roubou a atenção de todos foi Hashirama. Toda a graça ao ouvir aquela curta história sobre Izuna beber demais se foi quando meu irmão resolveu contar as minhas próprias, que foram cortadas por mim imediatamente. Eu queria que continuassem mais animados como estavam, mas jamais permitiria que Izuna e Eiji soubessem de alguns de meus momentos extremamente vergonhosos por causa da bebida. Foi um alívio ver que eu não havia estragado aquele momento, pelo o contrário, todos pareciam muito mais relaxados, até mesmo Madara, quem subitamente havia mudado um pouco de sua postura, o que me trouxe perguntas sobre o que havia conversado com meu irmão enquanto estavam sozinhos na cabana. Mas meus pensamentos não se focaram em tal assunto por muito tempo, e meu sorriso retornou e de maneira vitoriosa quando Eiji pediu por sua história novamente e perguntou se Hashirama poderia contá-la naquela noite.
Meu irmão era bom em contar histórias — ao menos quando elas não me envolviam — e tive que admitir que foi mais divertido ouvir sua versão do resgate da princesa. Ele encenava cada momento como se estivesse em um palco, o que deixou Eiji completamente emocionado e incapaz de desviar os olhos brilhantes que admiravam seu tio idiota.
Quando a história estava quase no seu fim, Hashirama já se agitava menos, e voltou ao seu lugar no tronco. Sua voz foi se tornando cada vez mais calma e baixa, e acabei me tornando sonolento. Ri em tom baixo ao me comparar com Eiji e provar do que ele sentia quando contávamos aquela história para que pudesse dormir mais rápido, e não foi surpresa vê-lo ceder aos poucos enquanto encostava a cabeça em meu peito, mas não podia dizer que senti o mesmo quando um peso em meu ombro foi notado. Eu ri mais uma vez quando olhei para o lado, e aconcheguei melhor um Izuna adormecido sobre mim enquanto contava os segundos que sabia que veria Eiji imitá-lo.
Izuna havia acordado cedo demais naquele dia, e em momento algum havia parado para descansar daquela forma, o que explicou a facilidade para cair no sono tão rapidamente.
Os únicos que nos incentivavam a interagir eram os adormecidos em meus braços e por sorte nossos irmãos pareceram entender que aquela noite havia chegado ao fim, e não precisei aguentar o momento em que com certeza voltaríamos ao silêncio constrangedor.
Com pena tive que acordar Izuna, que envergonhado pediu desculpas por ter adormecido de repente. Madara zombou de sua expressão sonolenta, o que o despertou de vez e nos fez rir em tom baixo. O clima ameno retornou com Izuna, e foi fácil olhar para Madara naquele momento. Ele ainda não parecia amigável em seus olhares para mim, porém, era bom não sentir que a qualquer momento poderia ser atacado.
Eu me levantei com Eiji completamente adormecido em meus braços, e após Izuna cobri-lo com a manta, me aproximei da porta da cabana e fui seguido por todos.
— Você vai passar a noite, não é? — Perguntei a meu irmão, parando um pouco antes da entrada.
— Se eu puder...
— Mas é claro! — Exclamou Izuna enquanto sorria animado para Hashirama.
Quando nossos olhares foram para Madara e Izuna se virou, na clara intenção de dizer o mesmo a ele, seu irmão balançou a cabeça rapidamente.
— Eu estou indo.
— Nem pensar — Izuna o segurou pelo casaco. — Você também fica.
— Não tem espaço, — Madara afirmou em tom baixo e ao meu ver de maneira tola, como se não pudéssemos ouvi-lo — e não me importo em andar durante a noite.
Izuna me olhou suplicante por alguns segundos, e quando me viu sem saber o que dizer, me acertou com o cotovelo de uma maneira nada discreta. Eu ainda tentava me manter no plano e pensar naquela união como uma coisa comum, mas era difícil e ainda mais por ter que ajudar a colocá-los no mesmo quarto. Imaginar o que Izuna queria fazia o meu estômago dar voltas.
— Temos duas camas no quarto extra — eu disse rapidamente, enquanto sentia a minha cintura dolorida e xingava Izuna internamente.
— Eiji ficaria tão feliz se ambos ficassem — Izuna olhou para meu irmão e em seguida para o seu. — E você prometeu mostrar o dragão amanhã.
— Você também sabe fazer.
— Mas é o seu que ele quer ver.
Os dois sussurravam as palavras de uma maneira ameaçadora, e mais uma vez como se não pudéssemos ouvi-los. Eu não resisti em rir em tom baixo da cena que via, e com isso acordei o pobre Eiji em meus braços.
— Papa — o pequeno me chamou de maneira confusa e sonolenta.
— Vamos subir? — Perguntei a ele enquanto acariciava suas costas, e recebi um sinal positivo com a cabeça antes de voltar a cair sobre meu ombro.
Izuna voltou a se virar em minha direção, e após um rápido beijo na bochecha de Eiji, ajeitou a manta sobre ele e disse que apagaria a fogueira. Em seguida fez questão de dizer em voz alta que mostraria o quarto para Hashirama e Madara, e com um de seus sorrisos vitoriosos disse para que eu ficasse tranquilo porque cuidaria de tudo enquanto me ocupava em colocar o pequeno para dormir em sua cama.
Eu hesitei por um momento, temendo o que Izuna iria fazer para tentar convencer seu irmão, mas a confiança que tinha nele me fez assentir no instante seguinte, e entrei na cabana rapidamente, sendo seguido por um agitado Hashirama.
— O que diabos estão fazendo? — Ele ficou em minha frente quando perguntou, me impedindo de subir os degraus que levavam até os quartos.
— O quê? — Tentei ser natural ao falar. — Izuna sente falta do irmão, só quer passar mais algum tempo com ele.
Hashirama semicerrou os olhos ao me encarar e balançou a cabeça de forma negativa. Era óbvio que não acreditaria na minha desculpa.
— Eu irei para casa então — avisou ele enquanto dava as costas, pronto para ir embora, mas antes que isso acontecesse o segurei pelo braço.
— Vai fugir?
Meu irmão me olhou ofendido em um primeiro momento, mas no seguinte suavizou a expressão e se afastou de minha mão.
— Sabe muito bem que Madara e eu não damos certo no mesmo ambiente, — ele olhou para o chão com nervosismo — ainda mais sozinhos.
— Vocês não precisam conversar. É só virar para o lado oposto e dormir.
— Não. É melhor eu ir.
Eu pensei em segurá-lo mais uma vez, porém, não foi preciso e uma inesperada e muito bem-vinda ajuda veio quando Eiji mais uma vez despertou e levantou a cabeça. O pequeno coçou os olhinhos com preguiça e bocejou antes de encarar seu tio.
— Tio — a voz baixa e rouca chamou por Hashirama. — Não vai ficar?
A expressão chorosa de Eiji imediatamente amoleceu Hashirama, como sempre acontecia, e mesmo hesitante, meu irmão sorriu fraco e afirmou para o pequeno que ficaria. Eu me senti vitorioso naquele momento, mesmo a decisão não tendo sido por minha causa, e sorri satisfeito com o olhar frustrado de Hashirama em minha direção.
Eu subi quando tive certeza de que Hashirama cumpriria com o prometido, e o deixei para trás, alegando que ajudaria Izuna a fechar as portas e apagar as chamas. Eiji, que havia acordado tão cedo quanto Izuna, foi vencido de vez pelo cansaço e voltou a dormir com facilidade, assim que o deitei sobre a cama. Ainda permaneci algum tempo ali, o observando dormir tranquilamente, e voltando a imaginar como seriam seus próximos aniversários e desejando que o clima entre nossas famílias ficasse um pouco melhor.
Quando enfim consegui me desprender de meus pensamentos, deixei Eiji sozinho. No final do corredor podia ouvir a voz de Izuna. Ele falava de maneira empolgada no quarto em que nossos irmãos iriam dormir, e ainda que ambos tivessem permanecido completamente calados, sabia que estavam ali, ou Izuna não se mostraria tão contente. Eu me segurei para não ir até eles e ver as caras que faziam enquanto eram obrigados a passar a noite lado a lado, e apenas ri em tom baixo ao imaginar tal cena.
Rapidamente me troquei em meu quarto e não tão paciente esperei por Izuna. Eu não podia mais ouvir a voz dele, e imaginei que estava com Eiji, por isso me conservei sobre a cama e louco para tê-lo em meus braços e saber o que pensava sobre tudo o que observamos naquela noite.
Para o meu alívio, Izuna não demorou tanto no lado de fora, e meu sorriso foi automático quando vi a porta sendo aberta.
— Ei — Izuna sorriu discreto para mim ao entrar no quarto e após trancar a porta, trocou suas roupas devagar, como sempre fazia, a fim de me provocar, e tendo sucesso em todas as vezes. Mas daquela vez não fui até ele ou me movi da cama, e me contentei a observar cada movimento que, para mim, eram extremamente sensuais.
O fraco sorriso em meus lábios aumentou quando o olhar de Izuna caiu sobre mim novamente, e mesmo louco para deixar qualquer assunto que não fosse ele para o lado de fora do quarto, minha preocupação e curiosidade não me deixaram focar em meus desejos por muito tempo.
— Será que estamos fazendo a coisa certa? — Perguntei um pouco mais sério, mas Izuna não deixou seu sorriso de lado enquanto perambulava pelo quarto atrás de sua escova de cabelo.
— Eu sinto que sim — seu sorriso se alargou quando soltou os belos cabelos. — Deveria ter visto as caras deles quando os deixei no quarto. Ambos fingindo normalidade, mas foi tão óbvio o constrangimento.
Izuna riu em tom baixo, e após escovar rapidamente os cabelos, os colocou sobre um dos ombros e os deixou cair sobre o peito.
— Você sabe que podem muito bem simplesmente dormir, não é? — Eu disse ainda mais sério, não querendo imaginar o que Madara poderia fazer com meu irmão. Aquilo era nojento demais. — E sinceramente, espero que, se forem interagir de alguma forma, que seja cada um em sua cama.
Izuna riu outra vez enquanto enfim subia sobre a cama.
— Não seja inocente, Tobirama — ele disse risonho, um pouco antes de deitar sobre o meu corpo e aconchegar as pernas entre as minhas. — Se fossem nós, acha mesmo que permaneceríamos separados?
Não pude evitar um fraco sorriso ao ouvir aquilo, mas, ainda assim, me mantive firme em minhas ideias.
— Nós somos diferentes — afirmei com teimosia, e passei a mexer em seus cabelos. — Eu não tenho mais intenção alguma em esconder o que sinto por você, muito menos ficar separado. O que não é o caso deles.
— Eu sinto o mesmo, — as bochechas dele coraram ao dizer — mas já fomos como eles, não há como negar. Sei que é estranho imaginar os nossos irmãos juntos, mas, eu gostaria disso. Madara ficaria tão feliz, e seu irmão... eu não acredito que vou dizer isso, mas, ele é tão legal.
Eu ri abertamente do que ouvi, e me senti vitorioso de alguma forma.
— Eu te disse — falei de maneira convencida enquanto separava uma mecha de seus cabelos para dar uma atenção especial. — E ele também ficaria feliz. Isso é tudo o que desejo para ele; felicidade — confessei em tom baixo, enquanto fixava o meu olhar naquela mecha negra e tão bela. — E se ficar com o seu irmão trará isso a ele, então que seja.
— Olhe só para você, agindo como um adulto maduro.
— Mas eu sempre sou — eu disse indignado, e ouvindo a baixa risada dele. — Sou um homem responsável e de família — levantei o queixo ao dizer tal coisa, já esperando outra risada, que veio sem resguardos.
Izuna de repente cessou a risada, e seu sorriso se tornou provocante quando se arrastou sobre mim e ficou com o rosto próximo ao meu assim que se apoiou em seus braços.
— Você é meu homem — afirmou em tom baixo enquanto esbarrava os lábios sobre os meus. O meu sorriso foi extremamente largo ao ouvir aquilo, e uma de minhas mãos se afundou em seus cabelos quando esbarrei nossos narizes.
— Foi exatamente o que eu disse — afirmei, um pouco antes de ser calado por seus lábios que ocuparam os meus em boa parte do resto da noite.
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